TRANSVERSUS ABDOMINIS RELEASE (TAR) EM HERNIOPLASTIA INCISIONAL VOLUMOSA: RELATO DE CASO E REVISÃO DA TÉCNICA 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601231727


Luana Mathias Fagundes
Andre Camatta de Assis


Resumo 

As hérnias incisionais volumosas representam um desafio significativo na prática cirúrgica, estando associadas a elevadas taxas de recidiva e complicações quando tratadas por técnicas convencionais. A separação posterior de componentes com liberação do músculo transverso do abdome, conhecida como Transversus Abdominis Release (TAR), consolidou-se nos últimos anos como uma alternativa eficaz para a reconstrução da parede abdominal complexa. Este trabalho tem como objetivo relatar um caso de hérnia incisional volumosa tratado com a técnica de TAR, descrevendo os aspectos técnicos do procedimento e discutindo seus resultados à luz da literatura recente. A paciente apresentou evolução pós-operatória satisfatória, com ausência de recidiva no seguimento clínico. O TAR mostrou-se uma técnica segura e eficaz no manejo de hérnias incisionais complexas. 

Palavras-chave: Hérnia incisional. Parede abdominal. Separação de componentes. Transversus Abdominis Release. 

1 Introdução 

As hérnias incisionais constituem uma complicação frequente após procedimentos cirúrgicos abdominais, com impacto significativo na morbidade e na qualidade de vida dos pacientes. Estima-se que sua incidência varie entre 10 a 20%, podendo ser ainda maior em indivíduos submetidos a múltiplas laparotomias, cirurgias contaminadas ou portadores de fatores de risco como obesidade e infecção de ferida operatória1

As hérnias incisionais volumosas representam um subgrupo particularmente desafiador, caracterizado por grandes defeitos da parede abdominal, dificuldade de fechamento da linha média e, frequentemente, sinais de perda de domicílio. Nessas situações, técnicas convencionais de hernioplastia, mesmo associadas ao uso de próteses, mostram-se limitadas, com taxas elevadas de recidiva e complicações pós-operatórias1,2

Com o objetivo de melhorar os resultados cirúrgicos nestes casos complexos, as técnicas de separação de componentes da parede abdominal ganharam destaque nas últimas décadas. Dentre elas, a separação posterior de componentes com liberação do músculo transverso do abdome – conhecida como Transversus Abdominis Release (TAR) – consolidou-se como uma alternativa eficaz, permitindo ampla medialização dos retângulos miofasciais, preservação da vascularização cutânea e criação de um espaço retromuscular contínuo para posicionamento seguro da prótese3

Estudos recentes demonstram que o TAR está associado a menores taxas de complicações da ferida operatória e bons resultados funcionais em hérnias complexas, quando comparado às técnicas de separação anterior de componentes2,4. O objetivo deste trabalho é relatar um caso de hérnia incisional volumosa tratado com a técnica de TAR, descrevendo seus aspectos técnicos e discutindo seus resultados à luz da literatura recente. 

2 Método 

Trata-se de um estudo observacional descritivo, do tipo relato de caso, com abordagem retrospectiva. A coleta de dados foi realizada por meio da análise de prontuário eletrônico de paciente submetido à correção cirúrgica de hérnia incisional volumosa com a técnica de Transversus Abdominis Release (TAR), atendido no Hospital Estadual Dr Jayme Santos Neves, Serra/ES. 

Foram analisados dados clínicos, exames laboratoriais, exames de imagem, achados intraoperatórios, técnica cirúrgica empregada, evolução pós-operatória e desfecho clínico. 

O estudo foi conduzido em conformidade com os princípios éticos vigentes e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição, de acordo com a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, assegurando o anonimato e a confidencialidade das informações. 

3 Relato de Caso 

Paciente do sexo feminino, 46 anos, com antecedente de duas cesarianas e histerectomia por miomatose uterina, evoluiu com hérnia incisional volumosa em topografia de incisão de Pfannenstiel, localizada em região infraumbilical junto à linha média, associada a dor abdominal.  

A tomografia computadorizada evidenciou anel herniário medindo 13,8 x 12,2 cm (craniocaudal x laterolateral), com insinuação de alças de intestino delgado e cólon transverso, sem sinais de sofrimento visceral. Foi indicada correção cirúrgica eletiva com reconstrução da parede abdominal por meio da técnica de Transversus Abdominis Release (TAR). 

O procedimento foi realizado por meio de incisão mediana infraumbilical sobre cicatriz prévia, com identificação de hérnia incisional volumosa associada a perda de domicílio e presença de saco herniário aderido a alças intestinais, omento e gordura pré-peritoneal. Após lise criteriosa de aderências, procedeu-se à abertura de abertura bilateral da bainha posterior do músculo reto abdominal, com identificação dos nervos costais, seguida da liberação do músculo transverso do abdome, permitindo ampla medialização dos componentes da parede abdominal (Figura 1A). Em seguida, foi posicionada tela de polipropileno medindo 24 x 36 cm em plano retromuscular (sublay), com adequada sobreposição lateral e crânio-caudal (Figura 1B), após o fechamento da bainha posterior. Procedeu-se então ao fechamento da aponeurose anterior na linha média, associado à drenagem bilateral, resultado em reconstrução anatômica satisfatória da parede abdominal (Figura 1C).

Figura 1(A) – Liberação bilateral do músculo transverso do abdome após abertura da bainha posterior  do músculo reto, com ampla dissecção do plano retromuscular. Fonte: produção do autor (2025) 

Figura 1(B) – Posicionamento de tela de polipropileno em plano retromuscular (sublay), após reconstrução da bainha posterior. 
Fonte: produção do autor (2025) 

Figura 1(C) – Aspecto final da parede abdominal após fechamento da linha média anterior. 
Fonte: produção do autor (2025) 

A paciente apresentou boa evolução clínica, com alta hospitalar no segundo dia de pós-operatório. O dreno foi retirado no décimo dia, após débito inferior a 50 ml em 24 horas. No seguimento ambulatorial, apresentou dor abdominal inespecífica de provável componente neuropático, tratada com neuromodulador. Exames de imagem realizados três meses após a cirurgia não evidenciaram recidiva da hérnia. Após seis meses de acompanhamento, observou-se melhora significativa do quadro álgico e ausência de recidiva. (Figura 2A-B) 

Figura 2. Aspecto clínico tardio do abdome após reconstrução da parede abdominal pela técnica de Transversus Abdominis Release.  
(A) – Avaliação estática, evidenciando adequado contorno abdominal e ausência de abaulamentos.
(B) – Avaliação dinâmica durante manobra de Valsalva, demonstrando ausência de recidiva herniária. 
Fonte: produção do autor (2025) 

4 Discussão 

O tratamento das hérnias incisionais volumosas permanece um dos maiores desafios da cirurgia da parede abdominal, sobretudo em paciente com defeitos extensos, múltiplas cirurgias prévias e sinais de perda de domicílio. Nessas situações, o fechamento da linha média sob tensão excessiva está diretamente associado a maiores taxas de recidivas e complicações1,2

A separação posterior de componentes com liberação do músculo transverso do abdome consolidou-se, nos últimos anos, como uma evolução técnica relevante em relação às abordagens tradicionais. Diferentemente da separação anterior de componentes, o TAR permite medialização ampla da musculatura abdominal por meio de um plano profundo, preservando a vascularização cutânea e reduzindo a incidência de complicações da ferida operatória3,4

Estudos comparativos recentes demonstram que o TAR apresenta menores taxas de necrose cutânea, seroma e infecção quando comparado às técnicas de separação anterior, além de resultados funcionais superiores e baixas taxas de recidiva em hérnias complexas4,5. Krebs et al observaram resultados favoráveis a curto e longo prazo em pacientes submetidos a TAR, reforçando sua aplicabilidade em defeitos extensos5

Outro ponto central da técnica é o posicionamento da tela em plano retromuscular, atualmente considerado o local mais fisiológico e seguro para reconstrução da parede abdominal. Esse posicionamento reduz o risco de aderências viscerais, infecção protética e fístulas entéricas, além de proporcionar melhor integração tecidual e distribuição das forças abdominais6

No caso apresentado, a aplicação do TAR permitiu o fechamento adequado da linha média sob baixa tensão, reconstrução anatômica satisfatória da parede abdominal e evolução clínica favorável, sem recidiva no seguimento de seis meses. A dor de provável origem neuropática observada no pós-operatório pode estar relacionada à manipulação dos nervos intercostais durante a dissecção, sendo geralmente manejável com tratamento clínico7

Embora o presente estudo apresente limitações inerentes ao desenho de relato de caso, sua relevância reside na descrição detalhada da aplicação da técnica em um cenário real de hérnia incisional volumosa, contribuindo para a difusão do TAR como alternativa segura e eficaz no arsenal da cirurgia da parede abdominal – corroborado por revisões recentes da literatura nacional8

5 Conclusão 

A técnica de TAR mostrou-se uma alternativa segura e eficaz para o tratamento das hérnias incisionais volumosas, permitindo reconstrução anatômica adequada da parede abdominal, fechamento da linha média sob baixa tensão e posicionamento ideal da prótese em plano retromuscular. 

No caso apresentado, a aplicação do TAR possibilitou restauração satisfatória da anatomia da parede abdominal, com evolução pós-operatória favorável, controle das complicações e ausência de recidiva no seguimento clínico. 

Dessa forma, o TAR configura-se como importante ferramenta no arsenal cirúrgico para reconstrução da parede abdominal complexa, devendo ser considerado especialmente em pacientes com defeitos extensos, cirurgias prévias múltiplas ou sinais de perda de domicílio, quando realizado por equipe com experiência na técnica. 

Referências 

  1. KÖCKERLING, F. et al. Incisional hernia: open techniques. World Journal of Surgery, v. 44, n.10, p. 3306-3315, 2020. 
  2. MUYSOMS, F. E. et al. Classification of primary and incisional abdominal wall hernias. Hernia, v. 24, n. 1, p. 1-15, 2020. 
  3. DE VRIES REILINGH, T. S. et al. Posterior component separation techniques in abdominal wall reconstruction. Hernia, v. 24, n. 3 p. 535-544, 2020. 
  4. HODGSON, N. C.; MCLAUGHLIN, T. Transversus abdominis release for complex ventral hernia repair. Surgical Clinics of North America, v. 101, n. 2, p. 307320, 2021. 
  5. KREBS, J. et al. Short- and long-term outcomes of transversus abdominis release versus anterior component separation. Hernia, v. 26, n. 4, p. 1023-1032, 2022.  
  6. BERREVOETS, M. et al. Mesh positioning and outcomes in abdominal wall reconstruction. Frontiers in Surgery, v. 9, p. 1-9, 2022. 
  7. MAHER, Z. et al. Outcomes of transversus abdominis release in complex abdominal wall reconstruction. Journal of Abdominal Wall Surgery, v. 1, n. 1, p. 100108, 2022. 
  8. LOURENÇO, A. L. et al. Reconstrução da parede abdominal em hérnias complexas: revisão atual. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, v. 50, p. e20233345, 2023.

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