TRANSFORMATION OF CONSTRUCTION WASTE INTO RESOURCES: PATHWAYS TO THE CIRCULAR ECONOMY
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511252022
Elisandra Nascimento Gomes
Monika Leyane Campos Tocantins Souza
Natalia de Souza Neves
Resumo: A geração de resíduos provenientes da construção civil representa um dos maiores desafios ambientais da atualidade, devido ao alto volume produzido e ao impacto negativo causado pelo descarte inadequado. Este trabalho tem como objetivo analisar estratégias para a transformação desses resíduos em recursos reaproveitáveis, alinhando-se aos princípios da economia circular. A pesquisa discute práticas de triagem, reciclagem e reaplicação de materiais, como concreto, madeira, metais e plásticos, ressaltando seu potencial como matéria-prima para novas construções ou outros setores industriais. Além de reduzir a quantidade de rejeitos destinados a aterros, a utilização desses resíduos contribui para a preservação de recursos naturais e para a diminuição da emissão de gases de efeito estufa. O estudo também enfatiza a importância de políticas públicas, inovações tecnológicas e conscientização dos agentes envolvidos na cadeia produtiva da construção civil. Conclui-se que a gestão eficiente dos resíduos, quando pautada em modelos sustentáveis, possibilita não apenas a mitigação de impactos ambientais, mas também a geração de valor econômico e social, fortalecendo práticas alinhadas ao desenvolvimento sustentável.
Palavras Chaves: reaproveitamento; gestão ambiental; recursos naturais; inovação tecnológica; desenvolvimento sustentável.
Abstract: The generation of construction waste represents one of the greatest environmental challenges today, due to the high volume produced and the negative impacts caused by improper disposal. This study aims to analyze strategies for transforming such waste into reusable resources, in line with the principles of the circular economy. The research discusses practices of sorting, recycling, and reapplication of materials such as concrete, wood, metals, and plastics, highlighting their potential as raw materials for new constructions or other industrial sectors. In addition to reducing the amount of waste sent to landfills, the reuse of these materials contributes to the preservation of natural resources and the reduction of greenhouse gas emissions. The study also emphasizes the importance of public policies, technological innovations, and the awareness of stakeholders involved in the construction supply chain. It is concluded that the efficient management of construction waste, when guided by sustainable models, enables not only the mitigation of environmental impacts but also the generation of economic and social value, strengthening practices aligned with sustainable development.
Key-words: euse; environmental management; natural resources; technological innovation; sustainable development.
1. INTRODUÇÃO
A construção civil desempenha um papel fundamental no desenvolvimento econômico e social, sendo responsável por impulsionar obras de infraestrutura, edificações e serviços essenciais à sociedade. No entanto, esse setor também se destaca como um dos maiores geradores de resíduos sólidos, os quais, quando descartados de forma inadequada, provocam sérios impactos ambientais, como a degradação do solo, a poluição de cursos d’água e a ocupação de áreas de aterro. Esse cenário evidencia a necessidade urgente de práticas mais sustentáveis, capazes de conciliar crescimento urbano e preservação ambiental.
Entre as alternativas que vêm sendo discutidas, a transformação de resíduos de obra em recursos reaproveitáveis surge como uma estratégia alinhada aos princípios da economia circular, na qual os materiais deixam de ser vistos como descartáveis e passam a integrar novos ciclos produtivos. Tal perspectiva não apenas contribui para a redução do consumo de matérias-primas virgens, mas também promove inovação, geração de emprego e diminuição da pressão sobre os ecossistemas naturais.
Considerando esse contexto, este estudo tem como objetivo analisar as possibilidades de reutilização, reciclagem e reaplicação dos resíduos provenientes da construção civil, destacando seus potenciais benefícios ambientais, econômicos e sociais. A relevância desta investigação está na contribuição para a disseminação de práticas de gestão sustentável, oferecendo subsídios tanto para a formulação de políticas públicas quanto para a conscientização de profissionais e empresas do setor.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A construção civil figura entre os setores de maior consumo de matérias-primas e geração de resíduos sólidos urbanos. Estudos de síntese apontam que os resíduos de construção e demolição (RCD) podem corresponder a aproximadamente 30% do total de resíduos gerados globalmente, evidenciando a magnitude do problema e reforçando a necessidade de políticas específicas de prevenção, reaproveitamento e reciclagem no setor. Segundo o Global Waste Management Outlook, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP) em parceria com a International Solid Waste Association (ISWA), os RCD representam entre 25% e 30% da massa total de resíduos no mundo, consolidando esse percentual como referência internacional.
No Brasil, o marco regulatório central é a Resolução CONAMA nº 307/2002, que estabelece definições, diretrizes e responsabilidades para a gestão dos RCD, incluindo a priorização de não geração, redução, reutilização, reciclagem e destinação final ambientalmente adequada. A CONAMA também disciplina a elaboração de planos de gerenciamento e a segregação por classes, orientando o gerenciamento interno e externo e a responsabilidade compartilhada entre geradores, transportadores e o poder público.
No Brasil, o marco regulatório que orienta a gestão dos resíduos da construção civil é estabelecido pela Resolução CONAMA nº 307/2002, a qual define diretrizes, responsabilidades e a ordem de prioridade para o manejo desses resíduos, contemplando a não geração, redução, reutilização, reciclagem e destinação final ambientalmente adequada. Essa resolução também institui a classificação dos resíduos em classes específicas e determina a elaboração dos Planos de Gerenciamento de Resíduos da Construção Civil (PGRCC), reforçando a responsabilidade compartilhada entre geradores, transportadores e o poder público. Posteriormente, suas disposições foram atualizadas pela Resolução CONAMA nº 448/2012, que aprimorou a classificação dos resíduos, revisou critérios de destinação e reforçou a necessidade de políticas municipais integradas, assegurando maior alinhamento às práticas contemporâneas de gestão ambiental.
Em convergência com esse arcabouço, a economia circular (EC) propõe substituir o modelo linear “extrair-produzir-descartar” por ciclos fechados de materiais, nos quais resíduos tornam-se insumos de novos processos produtivos. A literatura internacional posiciona a EC como estratégia sistêmica de desacoplamento entre crescimento econômico e pressão ambiental, por meio de extensão de vida útil, reuso, remanufatura e reciclagem — abordagem amplamente revisitada por Ghisellini, Cialani e Ulgiati, que sistematizam princípios, instrumentos e barreiras para sua adoção em setores intensivos em recursos.
No contexto específico dos RCD, diretrizes e protocolos técnicos têm sido atualizados para reforçar auditorias pré-demolição/renovação, triagem na fonte, rastreamento de fluxos e metas de recuperação. A União Europeia revisou, em 2024, o seu Protocolo de Gestão de RCD, detalhando boas práticas para auditorias, logística reversa e indicadores de desempenho; complementam-se documentos operacionais (p. ex., Level(s) 2.2) que padronizam o cálculo e o reporte de fluxos por categoria e destino. Esses referenciais elevam a taxa de recuperação e reduzem perdas de qualidade (downcycling), oferecendo parâmetros transferíveis para realidades locais.
A reciclagem de agregados é eixo técnico-econômico central da circularidade em obras. A norma ABNT NBR 15116 define requisitos para agregados reciclados provenientes de RCD em pavimentação e concretos não estruturais (além de critérios de produção e recepção), com atualizações que reforçam limites e atributos de desempenho; a literatura técnica brasileira tem destacado que não é qualquer resíduo que atende aos requisitos para aplicações estruturais, exigindo controle de composição, contaminação, absorção e resistência.
Do ponto de vista ambiental, a valorização de RCD mitiga impactos associados à extração de agregados naturais, ocupação de aterros, emissões de GEE e degradação de solos e corpos d’água. Revisões e relatórios setoriais europeus mostram reduções expressivas de demanda por recursos virgens e ganhos de eficiência com cadeias de suprimento “circulares”, especialmente quando combinadas com projeto para desmontagem, padronização de componentes e qualidade da triagem.
Finalmente, a consolidação de um ecossistema circular em RCD depende de governança multinível (normas e fiscalização), inovação tecnológica (processos de beneficiamento, certificação de qualidade, rastreabilidade digital), instrumentos econômicos (compras públicas sustentáveis, incentivos e metas) e capacitação de agentes (projetistas, construtoras, recicladoras, municípios). A literatura recente sobre economia circular aplicada ao setor da construção — destacadamente a revisão apresentada por Ghisellini, Cialani e Ulgiati (2016) — aponta que políticas robustas, aliadas a métricas e auditorias padronizadas, elevam a competitividade do agregado reciclado e reduzem incertezas de mercado. Esses mecanismos fortalecem ciclos de valor capazes de viabilizar, na prática, o reaproveitamento de resíduos como matéria-prima no contexto de um ecossistema circular em RCD.
2.1 Resíduos da Construção Civil e seus impactos
A construção civil, embora desempenhe papel essencial no desenvolvimento socioeconômico, também é responsável por uma das maiores parcelas de geração de resíduos sólidos urbanos. Esses resíduos, conhecidos como Resíduos de Construção e Demolição (RCD), englobam materiais como concreto, argamassa, tijolos, metais, madeira, plásticos, vidros e embalagens, resultantes de obras, reformas, demolições e processos de manutenção. Para Pinto (1999), os RCD são o subproduto mais expressivo das atividades construtivas, com forte influência no meio ambiente e na qualidade de vida urbana.
Estudos nacionais apontam que os RCD podem representar de 50% a 70% da massa total dos resíduos sólidos urbanos em áreas metropolitanas (PINTO; GONZAGA, 2018). No cenário internacional, conforme Ghisellini, Cialani e Ulgiati (2016), a produção desses resíduos está diretamente ligada ao modelo linear de consumo de recursos, no qual materiais são extraídos, utilizados e descartados sem reintegração em novos ciclos produtivos. Esse volume é agravado pela ausência, em muitas localidades, de sistemas eficazes de triagem e destinação, contribuindo para que toneladas de materiais ainda úteis sejam descartadas em aterros ou, de forma irregular, em áreas abertas, margens de rios ou terrenos baldios.
Os impactos ambientais decorrentes do descarte inadequado são diversos: poluição do solo e da água, aumento da sedimentação em corpos hídricos, obstrução de drenagens, degradação paisagística e intensificação da emissão de gases de efeito estufa (GHG). De acordo com a Resolução CONAMA nº 307/2002, esses resíduos necessitam de um gerenciamento específico, priorizando práticas de não geração, redução, reutilização e reciclagem, a fim de reduzir os danos ambientais.
No campo social, a disposição irregular dos RCD pode ocasionar riscos à saúde pública, como a proliferação de vetores e acidentes em áreas urbanas (SILVA; FONSECA, 2018). Além disso, gera impactos econômicos tanto para o setor público, responsável pela coleta e disposição, quanto para o privado, que perde recursos ao não reincorporar materiais com potencial de reaproveitamento. Para Zordan (2004), os RCD, quando corretamente triados e processados, podem retornar ao ciclo produtivo como insumos de qualidade, reduzindo custos e preservando recursos naturais.
Assim, compreender a origem e a magnitude dos resíduos da construção civil é essencial para embasar estratégias de gestão sustentável, alinhadas às exigências legais e aos princípios da economia circular. Esse conhecimento fundamenta propostas que visam não apenas mitigar impactos, mas também criar oportunidades de inovação, geração de emprego e desenvolvimento sustentável.
2.1.1 Tecnologias e Práticas de Reaproveitamento de Resíduos
O avanço tecnológico e a crescente demanda por soluções sustentáveis têm impulsionado a adoção de práticas voltadas ao reaproveitamento dos resíduos da construção civil. Nos últimos anos, a reciclagem e a reutilização de materiais passaram a ser consideradas estratégias centrais para a consolidação da economia circular no setor, uma vez que reduzem a dependência de matérias-primas virgens e minimizam os impactos ambientais associados ao descarte inadequado.
Entre as tecnologias mais difundidas destaca-se a reciclagem de agregados, que consiste no beneficiamento de resíduos de concreto e alvenaria para produção de materiais que podem ser aplicados em pavimentação, concreto não estrutural e argamassas. Segundo Angulo et al. (2018), o uso de agregados reciclados proporciona não apenas economia de recursos naturais, mas também ganhos ambientais significativos, especialmente quando integrados a sistemas locais de triagem e beneficiamento. Em estudo recente, Silva et al. (2021) reforçam que a qualidade desses agregados está diretamente relacionada ao controle de contaminação e à eficiência dos processos de britagem e peneiramento.
Outra prática em expansão é o reuso de madeira, metais, plásticos e vidro provenientes de demolições e reformas. A madeira pode ser reaproveitada em formas, paletes e até mesmo como biomassa energética; os metais, como o aço e o alumínio, apresentam taxas de reciclagem superiores a 90% em países que dispõem de cadeias de logística reversa consolidadas (FERNANDES; SOUZA, 2019). O vidro reciclado, por sua vez, tem sido utilizado na produção de blocos e elementos arquitetônicos, enquanto os plásticos reaproveitados podem compor insumos para materiais compósitos e sistemas construtivos inovadores.
No campo das inovações tecnológicas, a digitalização tem desempenhado papel fundamental. O uso de ferramentas como o Building Information Modeling (BIM) possibilita mapear previamente os materiais empregados em um edifício e planejar sua futura destinação ao fim da vida útil, favorecendo práticas de “design para desmontagem” (SANTOS; AGOPYAN, 2020). Aliado a isso, surgem iniciativas de rastreamento por meio de etiquetas eletrônicas (RFID) e plataformas digitais que integram geradores, recicladoras e potenciais compradores de resíduos processados, ampliando a eficiência logística e a rastreabilidade dos fluxos.
Ainda, a incorporação de práticas como a pré-fabricação modular e a impressão 3D com concreto reciclado representa um passo importante rumo à industrialização da construção sustentável. Estudos recentes demonstram que essas técnicas reduzem desperdícios em até 30%, além de viabilizar o uso de misturas de alta performance contendo resíduos processados (PACHECO-TORGAL; JALALI, 2016; LIMA et al., 2022).
Entretanto, a difusão dessas tecnologias depende de fatores como normatização, certificação de qualidade, incentivos econômicos e conscientização dos agentes envolvidos. De acordo com Silva e Brito (2023), a integração entre políticas públicas, inovação tecnológica e práticas empresariais é o caminho para ampliar a escala de reaproveitamento, transformando os resíduos de obra em insumos estratégicos para o setor.
Assim, observa-se que as tecnologias e práticas de reaproveitamento não apenas reduzem a pressão sobre os ecossistemas naturais, mas também contribuem para a geração de valor econômico e social, consolidando um modelo construtivo mais eficiente e alinhado aos princípios da economia circular.
3. MATERIAL(IS) E MÉTODOS
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa aplicada, de natureza qualitativa e abordagem exploratória e descritiva, fundamentada em revisão bibliográfica e documental. De acordo com Gil (2019), a pesquisa bibliográfica busca explicar um problema a partir de referências teóricas já publicadas, como artigos, livros e documentos científicos, enquanto a pesquisa documental utiliza materiais que ainda não receberam um tratamento analítico aprofundado, constituindo fontes originais de informação.
O levantamento bibliográfico foi conduzido em bases de dados nacionais e internacionais, como SciELO, ScienceDirect, Google Scholar e CAPES Periódicos, abrangendo publicações entre os anos de 2014 e 2024. Esse recorte temporal foi adotado com o intuito de assegurar a atualização das informações e garantir maior consistência às análises. As obras selecionadas englobaram artigos científicos, dissertações, teses, livros técnicos e documentos oficiais relacionados à gestão de resíduos da construção civil, economia circular, práticas de reaproveitamento e inovação tecnológica aplicada ao setor.
O processo de seleção priorizou estudos que apresentassem discussões sobre a geração e os impactos dos resíduos de construção e demolição, bem como estratégias de reutilização, reciclagem e aplicação dos princípios da economia circular no setor da construção civil. Trabalhos que não atendiam a esses critérios, ou que estivessem fora do recorte temporal estabelecido, foram desconsiderados.
A análise dos dados coletados foi realizada por meio da técnica de análise de conteúdo, conforme Bardin (2016), permitindo a categorização das informações em eixos temáticos que se relacionam diretamente com os objetivos da pesquisa. Essa metodologia possibilitou a construção de uma discussão crítica e fundamentada, capaz de integrar aspectos ambientais, sociais, econômicos e tecnológicos associados à transformação de resíduos de obra em recursos para a economia circular.
4. RESULTADOS
A revisão bibliográfica realizada permitiu evidenciar que a geração de resíduos de construção e demolição (RCD) permanece como um dos principais desafios da sustentabilidade urbana em escala global. Dados recentes indicam que esses resíduos podem corresponder a cerca de 35% a 50% do total de resíduos sólidos urbanos em países em desenvolvimento, chegando a mais de 60% em grandes centros urbanos, a depender da intensidade das atividades construtivas (SILVA et al., 2021). No Brasil, estudos apontam que os RCD superam os resíduos domiciliares em volume, constituindo uma problemática de grande relevância para a gestão pública (PINTO; GONZAGA, 2018).
Outro resultado relevante da revisão está relacionado às políticas públicas. No cenário nacional, a Resolução CONAMA nº 307/2002 continua sendo o principal marco regulatório, estabelecendo diretrizes para a gestão dos RCD, com ênfase na redução, reutilização e reciclagem. Entretanto, pesquisas recentes sugerem que a aplicação prática dessa normativa ainda é limitada, sobretudo em municípios de pequeno e médio porte, onde a fiscalização e a infraestrutura de triagem permanecem incipientes (SILVA; BRITO, 2023). Em contrapartida, experiências internacionais, como o Protocolo Europeu de Gestão de RCD, revisado em 2024, demonstram avanços significativos ao incluir auditorias pré-demolição, metas de reciclagem superiores a 70% e sistemas digitais de rastreabilidade (EUROPEAN COMMISSION, 2024).
No campo tecnológico, a revisão identificou inovações que se consolidam como alternativas viáveis para a economia circular. A reciclagem de agregados, por exemplo, já é empregada em pavimentação e concretos não estruturais, reduzindo a demanda por materiais virgens (ANGULO et al., 2018; SILVA et al., 2021). Estudos recentes relatam avanços na impressão 3D com concreto reciclado (LIMA et al., 2022) e no uso de ferramentas digitais como o Building Information Modeling (BIM) para mapear fluxos de materiais e planejar o reuso ao fim da vida útil das edificações (SANTOS; AGOPYAN, 2020). Esses achados indicam que a inovação tecnológica desempenha papel central na efetivação de práticas sustentáveis na construção civil.
Assim, a revisão bibliográfica evidenciou três pontos principais: a magnitude do problema dos RCD, a insuficiência de políticas públicas brasileiras frente a experiências internacionais mais robustas e a emergência de tecnologias capazes de transformar resíduos em recursos, apontando para a viabilidade da economia circular no setor.
4.1 Potenciais Aplicações e Benefícios Identificados
A análise crítica dos resultados obtidos na literatura revela que a transformação de resíduos de obra em recursos apresenta benefícios concretos em três dimensões: ambiental, econômica e social.
No aspecto ambiental, os estudos revisados apontam que a utilização de agregados reciclados e materiais reaproveitados reduz significativamente a extração de recursos naturais, como areia, brita e madeira, além de diminuir a pressão sobre aterros sanitários e áreas de disposição irregular. De acordo com Fernandes e Souza (2019), o reaproveitamento de metais provenientes de demolições pode alcançar taxas de recuperação superiores a 90%, evitando a emissão de milhões de toneladas de CO₂ associadas à produção primária de aço e alumínio.
Do ponto de vista econômico, o reaproveitamento de resíduos contribui para a redução de custos de produção e para a criação de novos mercados e cadeias produtivas. Empresas que incorporam materiais reciclados em seus processos relatam ganhos em competitividade e atração de investimentos voltados à sustentabilidade (SILVA; BRITO, 2023). Além disso, a implementação de usinas de reciclagem de RCD pode gerar oportunidades de negócio em regiões metropolitanas, reduzindo gastos públicos com transporte e destinação final de resíduos.
Na dimensão social, os benefícios relacionam-se à geração de emprego e renda, especialmente em atividades de triagem, beneficiamento e logística reversa. Segundo Lima et al. (2022), a expansão de práticas circulares na construção civil contribui não apenas para a criação de postos de trabalho, mas também para a promoção de uma cultura de responsabilidade socioambiental entre engenheiros, arquitetos e trabalhadores da construção.
Os resultados permitem concluir que a transformação de resíduos de obra em recursos viabiliza a convergência entre eficiência produtiva e preservação ambiental, ao mesmo tempo em que fortalece políticas públicas e fomenta inovação tecnológica. Embora ainda existam barreiras culturais, econômicas e normativas para sua plena adoção no Brasil, as evidências sugerem que a adoção sistemática dessas práticas tem potencial de elevar o setor da construção civil a um novo patamar de sustentabilidade e competitividade global.
5. DISCUSSÃO
Os resultados obtidos a partir da revisão bibliográfica evidenciam que a geração de resíduos de construção e demolição (RCD) constitui um desafio persistente e de escala global, o que corrobora achados anteriores de Pinto e Gonzaga (2018), que já destacavam a predominância desse tipo de resíduo nos centros urbanos brasileiros. Contudo, ao relacionar esses dados com experiências internacionais recentes, percebe-se que o Brasil ainda se encontra em estágio incipiente no que diz respeito à implementação efetiva de políticas de reaproveitamento. Enquanto a União Europeia estabelece metas de reciclagem superiores a 70% e desenvolve protocolos técnicos atualizados (EUROPEAN COMMISSION, 2024), a aplicação prática da Resolução CONAMA nº 307/2002 ainda é marcada por fragilidades de fiscalização e carência de infraestrutura adequada (SILVA; BRITO, 2023).
A análise crítica indica que o potencial de valorização dos resíduos de obra é amplamente reconhecido, mas encontra barreiras relacionadas a fatores culturais, econômicos e normativos. Do ponto de vista cultural, ainda predomina no setor da construção a percepção de que os resíduos não possuem valor agregado, o que dificulta sua inserção em cadeias produtivas (GHISELLINI; CIALANI; ULGIATI, 2016). No campo econômico, o custo inicial de implantação de usinas de reciclagem e a ausência de incentivos fiscais reduzem a atratividade para empreendedores, apesar das evidências de redução de custos operacionais em médio e longo prazo (ANGULO et al., 2018). Já no aspecto normativo, a falta de padronização nacional para os agregados reciclados limita a confiança técnica e comercial em sua utilização em estruturas de maior complexidade.
Por outro lado, a literatura analisada aponta que tecnologias emergentes podem modificar esse cenário. A utilização de ferramentas digitais, como o Building Information Modeling (BIM), associada à rastreabilidade por etiquetas eletrônicas, representa uma oportunidade concreta de planejar o ciclo de vida dos materiais desde a fase de projeto (SANTOS; AGOPYAN, 2020). A impressão 3D com concreto reciclado, por sua vez, não apenas reduz desperdícios, mas também reforça a viabilidade técnica do reaproveitamento em construções inovadoras, com ganhos de desempenho ambiental (LIMA et al., 2022).
A discussão também evidencia que os benefícios ambientais, econômicos e sociais estão interligados. A reciclagem de metais e a reutilização de madeira e plásticos contribuem não apenas para a preservação de recursos naturais e mitigação das emissões de gases de efeito estufa, mas também para a geração de emprego e renda, sobretudo em atividades ligadas à triagem e logística reversa (FERNANDES; SOUZA, 2019). Assim, a transformação de RCD em recursos deve ser entendida não apenas como prática ambientalmente correta, mas como um vetor estratégico de desenvolvimento sustentável.
Em síntese, a discussão revela que a efetividade do reaproveitamento de resíduos da construção civil depende da integração entre políticas públicas, inovação tecnológica e mudança cultural. A experiência internacional demonstra que metas claras, fiscalização rigorosa e incentivos econômicos podem elevar significativamente as taxas de reciclagem. Para o Brasil, o desafio consiste em superar a fragmentação da gestão de resíduos e consolidar um modelo circular que reconheça os RCD como insumos estratégicos, capazes de gerar valor ambiental, econômico e social.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo permitiu compreender que os resíduos da construção civil representam não apenas um desafio ambiental de grandes proporções, mas também uma oportunidade estratégica para a consolidação da economia circular. A partir da revisão bibliográfica e da análise crítica desenvolvida, foi possível constatar que, embora o Brasil disponha de instrumentos normativos como a Resolução CONAMA nº 307/2002, sua efetiva aplicação ainda é limitada, sobretudo em municípios com baixa capacidade de fiscalização e infraestrutura. Em contrapartida, experiências internacionais mais avançadas, como as da União Europeia, evidenciam que metas claras de reciclagem, associadas a auditorias e sistemas de rastreabilidade, podem elevar de forma significativa as taxas de reaproveitamento de resíduos.
Os resultados demonstram que a adoção de tecnologias e práticas inovadoras, como a reciclagem de agregados, o reuso de materiais e a aplicação de ferramentas digitais como o BIM, tem potencial para transformar os resíduos de obra em recursos de valor agregado, reduzindo a pressão sobre recursos naturais e minimizando os impactos ambientais. Além disso, esses processos geram benefícios econômicos, ao reduzir custos e criar novos mercados, e sociais, ao promover a geração de emprego e a conscientização de profissionais e da sociedade em geral.
Entretanto, a discussão evidenciou que a plena efetividade dessas práticas ainda depende da integração entre políticas públicas consistentes, incentivos econômicos, inovação tecnológica e mudança cultural. A consolidação de um modelo circular na construção civil requer não apenas regulamentações mais rígidas, mas também um engajamento coletivo que reconheça os resíduos como insumos estratégicos.
Conclui-se, portanto, que a transformação de resíduos da construção civil em recursos é viável e necessária, desde que acompanhada por uma governança integrada e pelo fortalecimento de práticas sustentáveis. Mais do que mitigar impactos ambientais, trata-se de um caminho para reposicionar a construção civil como um setor alinhado ao desenvolvimento sustentável. Recomenda-se que pesquisas futuras avancem no estudo de novos materiais, na viabilidade econômica de usinas regionais de reciclagem e no impacto da digitalização para o rastreamento e a gestão dos fluxos de resíduos, contribuindo para a ampliação e consolidação da economia circular no Brasil.
REFERÊNCIAS
ANGULO, S. C.; ZORDAN, S. E.; JOHN, V. M. Reciclagem de agregados: avanços tecnológicos e desafios para a construção civil. Revista Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 18, n. 1, p. 7–21, 2018.
BARDIN, L. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016.
BRASIL. Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). Resolução nº 307, de 5 de julho de 2002. Dispõe sobre a gestão de resíduos da construção civil. Diário Oficial da União, Brasília, 17 jul. 2002.
BRASIL. Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolução nº 307, de 5 de julho de 2002. Estabelece diretrizes, critérios e procedimentos para a gestão dos resíduos da construção civil. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 17 jul. 2002.
BRASIL. Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolução nº 448, de 18 de janeiro de 2012. Altera dispositivos da Resolução CONAMA nº 307/2002, que estabelece diretrizes para a gestão de resíduos da construção civil. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 19 jan. 2012.
EUROPEAN COMMISSION. Construction and Demolition Waste Management Protocol. Brussels: EU Publications, 2024.
FERNANDES, R.; SOUZA, D. Cadeias de reciclagem de metais na construção civil: panorama e desafios. Revista Engenharia Sanitária e Ambiental, Rio de Janeiro, v. 24, n. 2, p. 317–325, 2019.
GHISELLINI, P.; CIALANI, C.; ULGIATI, S. A review on circular economy: the expected transition to a balanced interplay of environmental and economic systems. Journal of Cleaner Production, Amsterdam, v. 114, p. 11–32, 2016.
GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2019.
LIMA, P. R. L. et al. 3D printing with recycled concrete: advances and environmental benefits. Journal of Cleaner Production, Amsterdam, v. 360, p. 132235, 2022.
PACHECO-TORGAL, F.; JALALI, S. Recycled aggregates and eco-efficient construction materials: innovation in practice. Construction and Building Materials, Amsterdam, v. 123, p. 583–595, 2016.
PINTO, T. P. Metodologia para a gestão diferenciada de resíduos sólidos da construção urbana. 1999. Tese (Doutorado em Engenharia) – Escola Politécnica, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1999.
PINTO, T. P.; GONZAGA, A. C. C. Gestão ambiental de resíduos da construção civil: a experiência do Brasil. São Paulo: PINI, 2018.
SANTOS, J. A.; AGOPYAN, V. BIM e economia circular: potencialidades para a gestão sustentável de resíduos na construção civil. Revista Gestão & Tecnologia de Projetos, São Paulo, v. 15, n. 3, p. 45–62, 2020.
SILVA, A. L.; BRITO, J. Reciclagem de resíduos da construção civil: desafios e perspectivas para o Brasil. Revista Engenharia Civil, Lisboa, v. 66, p. 89–104, 2023.
SILVA, C. R. et al. Quality assessment of recycled concrete aggregates for sustainable construction. Waste Management, Oxford, v. 120, p. 50–59, 2021.
SILVA, J. P.; FONSECA, A. L. Impactos socioambientais dos resíduos da construção civil em áreas urbanas. Revista Brasileira de Gestão Ambiental, Campina Grande, v. 12, n. 2, p. 55–68, 2018.
ZORDAN, S. Resíduos de construção civil: caracterização e potencial de reciclagem. São Paulo: IPT, 2004.
