REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202507272251
Adriana de Lourdes Xavier Souza¹
Adriana Rocha Brito²
Arnaldo Costa Bueno³
RESUMO ESTENDIDO
1. Introdução: A presença de seletividade alimentar em crianças com o transtorno do espectro autista (TEA) tem sido uma observação frequente e a abordagem ideal requer o trabalho conjunto de uma equipe multiprofissional especializada
2. Objetivo: Relatar a experiência de uma terapeuta ocupacional em seu ambiente de trabalho e refletir sobre este campo de atuação.
3. Método: Trata-se de um relato de experiência baseado na conduta da terapeuta em sua rotina de atendimentos. Apresenta informações relacionadas a sua prática profissional, que ocorreu por aproximadamente três meses com crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) que apresentam seletividade alimentar no setor de Terapia Ocupacional, duas vezes na semana, com duração de até 40 minutos.
4. Resultados: Foram descritas as intervenções terapêuticas ocupacionais que englobam o brincar simbólico associado com a abordagem da integração sensorial no intuito de atender demandas e limitações encontradas em cada criança. Esta experiência possibilitou a compreensão e esclarecimento da importância de um profissional terapeuta ocupacional no âmbito da seletividade alimentar em crianças com TEA, além de evidenciar a necessidade de expansão da produção teórica, sobre o tema.
5. Discussão e considerações finais: Destaca-se o crescimento do espaço do profissional terapeuta ocupacional no contexto infantil atuando em crianças com TEA que apresentam seletividade alimentar. Este estudo evidenciou poucas produções que descrevam a atuação do terapeuta ocupacional na seletividade alimentar. Neste sentido, é importante intensificar pesquisas relacionadas ao tema, no intuito de ampliar e favorecer a inserção do terapeuta ocupacional na discussão nas políticas públicas relacionadas ao público com Transtorno do Espectro Autista, especificamente com seletividade alimentar.
EXTENDED ABSTRACT
1. Introduction: The presence of food selectivity in children with autism spectrum disorder (ASD) has been a frequent observation, and the ideal approach requires the collaboration of a specialized multidisciplinary team.
2. Objective: To report the experience of an occupational therapist in her work environment and reflect on this field of practice.
3. Method: This is an experience report based on the therapist’s conduct in her routine care. It presents information related to her professional practice, which lasted approximately three months with children with autism spectrum disorder (ASD) who exhibit food selectivity in the Occupational Therapy department, twice a week, lasting up to 40 minutes.
4. Results: Occupational therapy interventions were described, which include symbolic play combined with the sensory integration approach to meet the needs and limitations of each child. This experience enabled understanding and clarification of the importance of occupational therapy in the field of food selectivity in children with ASD, in addition to highlighting the need to expand theoretical literature on this topic.
5. Discussion and final considerations: The growing role of occupational therapy in the pediatric context, working with children with ASD who exhibit food selectivity, is noteworthy. This study revealed few studies describing the role of occupational therapy in food selectivity. Therefore, it is important to intensify research on this topic to expand and promote the inclusion of occupational therapy in public policy discussions related to individuals with Autism Spectrum Disorder, specifically food selectivity.
1. INTRODUÇÃO
1.1. Apresentação
O transtorno do espectro autista (TEA) é um distúrbio que se caracteriza por alteração no neurodesenvolvimento do indivíduo, interferindo na capacidade de interação e comunicação social associado a um repertório restrito e repetitivo de interesses e comportamentos (Brasil, 2022).
Pode-se observar atualmente que os diagnósticos de autismo têm crescido consideravelmente, e este aumento pode ser atribuído a diversos fatores, como os avanços na identificação precoce, mudanças nos critérios diagnósticos, entre outros. (Silva, 2024).
Em relação ao âmbito alimentar, pessoas com o TEA são os que mais apresentam comportamentos alimentares atípicos, como por exemplo a seletividade alimentar, postura desafiadora durante as refeições, repertório alimentar e ingestão restrita ou dificuldade em permanecer à mesa durante as refeições, entre outros. (Cupertino, 2019).
1.2. Justificativa
Diante destes aspectos, o terapeuta ocupacional é um dos profissionais que pode contribuir no tratamento de tais crianças seletivas, podendo ainda utilizar a Integração Sensorial de Ayres, que foi definida como uma abordagem que pode solucionar problemas comportamentais causados por disfunção no processamento sensorial, que utiliza estímulos sensoriais discretos. A terapia de integração sensorial inclui uma diversificação de estímulos sensoriais com o intuito de melhorar as habilidades da criança com autismo (Wan Yunus, 2015).
Importante destacar a necessidade de mais pesquisas serem realizadas para entender não só o comportamento alimentar da criança com TEA, mas também quais terapias podem estar auxiliando neste quadro, já que, tal comportamento impacta tanto em seu ambiente durante as terapias , o social como na escola, onde muitos educadores e gestores tem dificuldade em agir perante a criança com esta questão de seletividade alimentar e sem falar no convívio familiar que se torna uma difícil realidade que muitos vivenciam e muitas das vezes o momento da alimentação é preocupante e desafiador .
Logo, este trabalho vem nortear e descrever um dos profissionais, no caso o terapeuta ocupacional, que pode estar atuando em crianças com TEA que apresentam seletividade alimentar.
1.3. Objetivos
– Relatar a experiência de uma terapeuta ocupacional em seu ambiente de trabalho;
– Refletir sobre este campo de atuação.
1.4. Organização
Este trabalho é um relato de experiência profissional de uma terapeuta ocupacional em crianças com TEA que apresentam seletividade alimentar. O referido relato encontra-se organizado da seguinte forma: título, identificação dos autores, resumo estendido, introdução que engloba: apresentação, justificativa e objetivos, desenvolvimento abordando os métodos, atividades desenvolvidas, considerações finais e referências bibliográficas.
2. DESENVOLVIMENTO
2.1 Métodos
Trata-se de um estudo descritivo, na modalidade de relato de experiência, desenvolvido a partir das vivências e atividades desenvolvidas pela terapeuta ocupacional em sua rotina de atendimentos. Apresenta informações relacionadas a sua prática profissional, que ocorreu por aproximadamente três meses com crianças com TEA que apresentam seletividade alimentar no setor de Terapia Ocupacional, duas vezes na semana, com duração de até 40 minutos.
2.2 Atividades desenvolvidas
Durante a anamnese com a terapeuta ocupacional após abordar sobre aspectos da gravidez da mãe, desenvolvimento da criança, era solicitado aos pais para preencherem um diário alimentar o qual, era possível observar os alimentos mais ingeridos pelo seu(sua) filho(a), destacava ainda, quais que aceita, e este diário tinha por objetivo identificar também qual a preferência, a textura, e que tipo de temperatura de cada alimento, a criança mais se identifica. No momento da avaliação, era abordado também como se deu o processo de introdução alimentar, e de observar através deste levantamento dos pais como hoje é a atitude da criança durante a refeição, se come sentada ou se movimentando, se tem aversão a algum alimento específico ou ainda, analisar comportamento, como saber se utiliza telas durante as refeições. E após estas primeiras informações foi decidido em acordo com os pais quais as expectativas e metas que tinham em relação ao tratamento utilizando ainda a metodologia SMART, onde a sigla é um acrônimo em inglês que serve para garantir que a meta seja: Específica (Specific), Mensurável (Measurable), Atingível (Actionable), Relevante (Relevant), com Prazo definido (Time-bound), incluindo também nestas metas quais alimentos que gostariam que seu filho(a) aceitasse comer.
Em relação ao atendimento terapêutico ocupacional foi utilizado o brincar simbólico, onde buscou-se recriar a cena que faz parte da rotina da criança, como o momento da alimentação, por meio do “brincar de cozinha”, fazendo uso de brinquedos favoritos da criança, mini geladeira e fogão, utensílios pessoais como pratos, colher e ainda alimentos reais e de brinquedos. Durante este brincar a terapeuta ofertava diversos estímulos táteis através de alimentos como: macarrão, grãos de arroz, feijão, frutas que os pais traziam, gelatina, entre outros. Em alguns casos a terapeuta, identificando a necessidade, associava a terapia de Integração Sensorial, que teve como objetivo promover através das experiências sensoriais e a organização e modulação da informação sensorial, que a criança recebe alcançando com isso uma melhor organização e adaptação das respostas ao se deparar com determinados estímulos sensoriais.
Ao final de cada sessão a criança e os pais escolhiam junto com a terapeuta qual alimento seria explorado no próximo atendimento, levando em conta a autonomia e independência da criança, até para obter um maior engajamento por parte dela.
No decorrer dos atendimentos foi observado, de acordo com os relatos dos pais, mudança e melhora no padrão do comportamento alimentar das crianças e da aceitação dos alimentos, inclusive a inserção de mais alimentos durante a rotina alimentar delas.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este relato de experiência traz observações e reflexões no que se refere ao atendimento da terapia ocupacional em crianças com TEA e seletividade alimentar.
Portanto, neste estudo, a partir do relato de experiência da intervenção terapêutica ocupacional, foi possível verificar a evolução favorável das crianças atendidas, destacando efeitos importantes no processo de alimentação e socialização da criança, um ganho tanto no âmbito familiar, escolar ou social, aos quais as crianças estão inseridas.
Enfatiza-se, por fim, a importância de estudos futuros sobre a seletividade alimentar no autismo, pois, atualmente, pouco se é encontrado nas bases de dados sobre o tema, principalmente no que se refere à atuação do terapeuta ocupacional.
Neste sentido, é importante intensificar pesquisas relacionadas ao tema, no intuito também de ampliar e favorecer a inserção do terapeuta ocupacional na discussão nas políticas públicas relacionadas ao público com Transtorno do Espectro Autista, especificamente com seletividade alimentar.
4. REFERÊNCIAS
Brasil. Ministério da Saúde. TEA: saiba o que é o Transtorno do Espectro Autista e como o SUS tem dado assistência a pacientes e familiares. 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2022/abril/tea-saiba-o-que-e-o-transtorno-do-espectro-autista-e-como-o-sus-tem-dado-assistencia-a-pacientes-e-familiares. Acesso em: 03 abril. 2025.
CUPERTINO, M. do C.; RESENDE, M. B.; VELOSO, I. de F.; CARVALHO, C. A. de; DUARTE, V. F.; RAMOS, G. A. Autism spectrum disorder: a systematic review about nutritional aspects and gut-brain axis. ABCS Health Sciences, [S. l.], v. 44, n. 2, 2019. DOI: 10.7322/abcshs.v44i2.1167. Disponível em: https://www.portalnepas.org.br/abcshs/article/view/1167. Acesso em: 03 abril. 2025.
SILVA, E. P. da; PICANÇO, M. R. de A.; FELIPE, T. G.; MIRANDA JUNIOR, U. J. P. de. Autismo: perspectivas e desafios na condução de um diagnóstico cada vez mais frequente. Brazilian Journal of Health Review, [S. l.], v. 7, n. 2, p. e68571, 2024. DOI: 10.34119/bjhrv7n2-253. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BJHR/article/view/68571. Acesso em:03 abril. 2025.
WAN YUNUS, F. et al. Sensory-Based Intervention for Children with Behavioral Problems: A Systematic Review. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 45, n. 11, p. 3565–3579, 2015. DOI: 10.1007/s10803-015-2503-9. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26092640/. Acesso em:03 abril. 20
1ORCID 0009-0002-1956-9531, Mestranda do Programa Acadêmico em Ciências do Cuidado em Saúde-PACCS pela Universidade Federal Fluminense. E-mail: adrixavier7@hotmail.com, Boa Vista, Brasil.
2ORCID 0000-0001-7532-1093, Doutora em Neurologia pela Universidade Federal Fluminense, e Professora Associada de Pediatria da Universidade Federal Fluminense, Niterói, Brasil.
3ORCID 0000-0002-9572-4954, Doutor em Saúde da Criança e da Mulher pela Fundação Oswaldo Cruz e Professor Associado da Universidade Federal Fluminense, Niterói, Brasil.
