TENDÊNCIAS DA VIOLÊNCIA AUTOPROVOCADA NO BRASIL: UMA ANÁLISE DA ÚLTIMA DÉCADA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202503122028


Allan David do Prado1; Leandro Augusto Alves Oliveira2; Maria Eduarda Dalossio de Oliveira3; Maria Eugênia Faccin Bossay4; Marina Dias Ferreira5


RESUMO

A violência autoprovocada, incluindo suicídio e automutilação, é uma preocupação crescente de saúde pública no Brasil. Este estudo analisa as tendências dessa violência entre 2004 e 2017, com base em dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Os dados indicam um aumento nas taxas de mortalidade por lesões autoprovocadas, especialmente na região Sudeste e entre adolescentes de 10 a 19 anos. O estudo de Pinto (2017) revelou um crescimento significativo das taxas nessa faixa etária, enquanto Cicogna (2018) apontou um aumento de 47% no suicídio adolescente entre 2000 e 2015. Além disso, Arruda et al. (2021) identificaram um aumento constante nas taxas entre jovens adultos (20-29 anos).Os métodos mais comuns de suicídio incluem enforcamento, uso de armas de fogo e envenenamento. Fatores socioeconômicos, como baixo nível de escolaridade e estado civil, também influenciam o risco de suicídio, com populações indígenas apresentando taxas 132% superiores à média nacional (Machado, 2015).O estudo reforça a necessidade de estratégias de prevenção direcionadas, incluindo políticas públicas eficazes. A implementação de programas específicos para populações vulneráveis, como indígenas e pessoas com deficiência, é essencial. Além disso, enfatiza-se a importância de novas pesquisas para compreender melhor os fatores culturais e sociais que influenciam a violência autoprovocada no Brasil.

PALAVRAS-CHAVE: Violência autoprovocada; Suicídio; Tendências epidemiológicas; Brasil; Prevenção.

INTRODUÇÃO

A violência autoprovocada, abrange tanto o comportamento suicida quanto a automutilação, representa uma preocupação significativa de saúde pública no Brasil. Analisar as tendências desse tipo de violência é crucial para informar estratégias de prevenção e alocar recursos de forma eficaz. Este relatório tem como objetivo fornecer uma visão geral das tendências da violência autoprovocada no Brasil, com foco principal no período entre 2004 e 2017, com base em dados e pesquisas disponíveis.

Capítulo I – VISÃO GERAL DA VIOLÊNCIA AUTOPROVOCADA

A violência autoprovocada inclui uma gama de comportamentos, desde ideação suicida e tentativas até suicídios consumados e automutilação não suicida. Esses comportamentos são frequentemente complexos e influenciados por uma combinação de fatores individuais, sociais e ambientais. Entender a epidemiologia da violência autoprovocada, incluindo sua prevalência, distribuição e fatores de risco associados, é essencial para desenvolver intervenções direcionadas.

1.1 Fontes de dados e considerações metodológicas

Várias fontes de dados são utilizadas para monitorar a violência autoprovocada no Brasil. A principal fonte é o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), que registra dados sobre mortes, incluindo aquelas resultantes de automutilação intencional. O Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) registra dados sobre violência, incluindo violência autoprovocada, relatada por serviços de saúde (Mello, 2020). Os estudos frequentemente usam esses bancos de dados para analisar tendências, identificar populações em risco e avaliar a eficácia das intervenções.

No entanto, é importante reconhecer as limitações dessas fontes de dados. Subnotificação e inconsistências nas práticas de registro podem afetar a precisão dos dados (Girianelli, 2018), (Oliveira, 2020). Além disso, variações nos métodos de coleta de dados e definições ao longo do tempo podem complicar a análise de tendências.

Capítulo II – TENDÊNCIAS NA MORTALIDADE DEVIDO A LESÕES AUTOPROVOCADA

2.1 – Tendências gerais

Um estudo que analisou as tendências de mortalidade de 2004 a 2014 indicou um aumento nos coeficientes de mortalidade relacionados a lesões autoprovocada no Brasil (Pinto, 2017) . A análise revelou uma tendência crescente, com uma elevação pronunciada na curva geral para o Brasil (R2 = 0,678). Isso sugere que a violência autoprovocada se tornou uma causa mais significativa de morte durante esse período.

O aumento da mortalidade por lesões autoprovocadas variou entre as diferentes regiões do Brasil. A região Sudeste apresentou a tendência de aumento mais significativa, com uma inclinação de 0,960 (Pinto, 2017). Este valor foi superior à média nacional, indicando uma situação particularmente preocupante naquela região. Outras regiões também apresentaram aumentos, mas o Sudeste se destacou em termos da magnitude do aumento.

O estudo de Lília Lessa Teixeira Pinto et al. (Pinto, 2017) também analisou tendências em diferentes faixas etárias. Os achados indicaram uma tendência crescente na mortalidade por lesões autoprovocada entre indivíduos de 10 a 19 anos, com um coeficiente de 0,429. Isso é particularmente alarmante, pois sugere um aumento no comportamento suicida entre adolescentes. Na faixa etária de 20 a 29 anos, não houve crescimento significativo na mortalidade durante todo o período, mas um aumento foi observado a partir de 2010, que foi analisado posteriormente para o período de 2010 a 2024, revelando um coeficiente de 0,927. Esses resultados destacam a crescente vulnerabilidade dos indivíduos jovens e a necessidade de esforços de prevenção direcionados.

Outras pesquisas se concentraram especificamente nas tendências de suicídio entre adolescentes no Brasil. Um estudo que analisou dados de 2000 a 2015 encontrou um aumento significativo nas taxas de suicídio entre adolescentes, com um aumento de 47% durante esse período (Cicogna, 2018). A taxa aumentou de 1,71 por 100.000 habitantes em 2000 para 2,51 por 100.000 habitantes em 2015. Esse aumento foi impulsionado principalmente por um aumento nos suicídios entre homens, particularmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

Vilmeyze Larissa de Arruda et al. (Arruda, 2021) analisaram as tendências de mortalidade por suicídio entre adultos jovens (20-29 anos) no Brasil de 1997 a 2019. O estudo encontrou uma tendência crescente nas taxas de suicídio nessa faixa etária, com um coeficiente médio de 6,36 por 100.000 habitantes. Esse aumento foi observado tanto em homens quanto em mulheres. A região Sul apresentou o maior coeficiente, enquanto as regiões Nordeste, Norte e Sudeste mostraram tendências crescentes.

Vários estudos destacaram diferenças de gênero no comportamento suicida. Os suicídios são mais prevalentes entre homens do que entre mulheres (Cicogna, 2018), (Mata, 2020), (Machado, 2015). No entanto, alguns estudos indicaram um aumento percentual maior nas taxas de suicídio entre mulheres (Machado, 2015). O estudo de Cicogna et al., (2018).  descobriu que 67% dos suicídios entre 2000 e 2015 foram de homens, com uma proporção entre homens e mulheres.

Fatores socioeconômicos também desempenham um papel na violência autoprovocada. Indivíduos com níveis mais baixos de educação são mais afetados pelo suicídio (Mata, 2020) , (Machado, 2015) . Um estudo encontrou taxas mais altas de suicídio entre populações indígenas, com taxas 132% maiores do que a população em geral (Machado, 2015). O estado civil também parece ser um fator, com uma proporção maior de suicídios ocorrendo entre indivíduos solteiros (Arruda, 2021).

Capítulo III – MÉTODOS DE VIOLÊNCIA AUTOPROVOCADA.

Os métodos usados ​​na violência autoprovocada variam. O enforcamento é um dos métodos mais frequentes usados ​​tanto em populações indígenas quanto não indígenas (Souza, 2018). Outros métodos comuns incluem ferimentos por arma de fogo e auto envenenamento (Mata, 2020).

Pesquisas indicam uma relação entre violência contra populações vulneráveis ​​e violência autoprovocada. Um estudo de Nicole Freitas de Mello et al. (Mello, 2020) descobriu que a violência autoprovocada foi responsável por 44,5% das notificações de violência contra pessoas com deficiência. Isso destaca o risco aumentado de automutilação entre indivíduos que sofrem violência e pertencem a grupos vulneráveis.

Capítulo IV – ESTRATÉGIAS DE PREVENÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS

Vários estudos enfatizam a necessidade de estratégias de prevenção eficazes e políticas públicas para enfrentar a violência autoprovocada. Machado, (2015) destaca a falta de programas governamentais que trabalhem efetivamente a prevenção do suicídio no Brasil. Eles enfatizam a necessidade de estabelecer uma estratégia nacional com foco em populações de risco identificadas, como indígenas, indivíduos com menor escolaridade e pessoas com mais de 60 anos. Eles também pedem a ampliação da vigilância da comercialização ilegal de agrotóxicos.

Malta et al. ( 2017) enfatizam a importância de abordar a violência autoinfligida entre os homens jovens. Eles argumentam que a violência autoinfligida constitui um problema prioritário no país e pode informar políticas públicas para prevenção da violência.

O Brasil é um país diverso com variações culturais significativas. Estratégias de prevenção precisam ser culturalmente apropriadas e adaptadas às necessidades específicas de diferentes comunidades. Pesquisas são necessárias para entender os fatores culturais que influenciam a violência autoprovocada e para desenvolver intervenções culturalmente sensíveis.

CONCLUSÃO

A violência autoprovocada é um problema crescente de saúde pública no Brasil, com tendências crescentes observadas nos últimos anos, particularmente entre adolescentes e jovens adultos. Há variações regionais significativas nas taxas de suicídio, com algumas regiões experimentando aumentos mais pronunciados do que outras. Fatores de gênero e socioeconômicos também desempenham um papel, com homens e indivíduos com níveis mais baixos de educação correndo maior risco.

Existem vários desafios na coleta e no relato de dados, que podem afetar a precisão da análise de tendências. Estratégias de prevenção eficazes e políticas públicas são necessárias para abordar esse problema, com foco em populações e regiões de risco identificadas. Mais pesquisas são necessárias para entender melhor os fatores complexos que contribuem para a violência autoprovocada e para avaliar a eficácia das intervenções.

Embora alguns estudos tenham se concentrado em populações específicas, como adolescentes e povos indígenas, mais pesquisas são necessárias para entender os desafios únicos enfrentados por outros grupos vulneráveis, como indivíduos LGBTQ+, pessoas com deficiência e adultos mais velhos. As estratégias de prevenção precisam ser adaptadas às necessidades específicas dessas populações.

REFERÊNCIAS

ARRUDA, Vilmeyze Larissa de, FREITAS, Bruna Hinnah Borges Martins de, MARCON, Samira Reschetti, FERNANDES, Fabiana Yanes, LIMA, Nathalie Vilma Pollo de e BORTOLINI, Juliano. 2021. “Suicídio em jovens adultos brasileiros: série temporal de 1997 a 2019”. Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

CICOGNA, Júlia Isabel Richter, HILLESHEIM, Danbia, e HALLAL, Ana Luiza Curi. 2018. “Mortalidade por suicídio de adolescentes no Brasil: tendência temporal de crescimento entre 2000 e 2015”. Universidade Federal do Rio de Janeiro.

GIRIANELLI, Vânia Reis, FERREIRA, Aldo Pacheco, VIANNA, Marcos Besserman, TELES, Nair, ERTHAL, Regina Maria de Carvalho e OLIVEIRA, Maria Helena Barros de. 2018. “Qualidade das notificações de violências interpessoais e autoprovocadas no Estado do Rio de Janeiro, Brasil, 2009-2016”. Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

LEVANDOWSKI, Mateus Luz, STAHNKE, Douglas Nunes, MUNHOZ, Tiago N., HOHENDORFF, Jean Von e SALVADOR-SILVA, Roberta. 2020. “Impacto do distanciamento social nas notificações de violência contra crianças e adolescentes no Rio Grande do Sul, Brasil”. Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz.

MACHADO, Daiane Borges e SANTOS, Darci Neves. 2015. “Suicídio no Brasil, de 2000 a 2012”. Universidade Federal do Rio de Janeiro.

MALTA, Déborah Carvalho, MINAYO, Maria Cecília de Souza, FILHO, Adauto Martins Soares, SILVA, Marta Maria Alves da, MONTENEGRO, Marli de Mesquita Silva, LADEIRA, Roberto Marini, NETO, Otaliba Libânio de Morais, MELO, Ana Paula Souto, MOONEY, Meghan, e NAGHAVI, Mohsen. 2017. “Mortalidade e anos de vida perdidos por violências interpessoais e autoprovocadas no Brasil e Estados: análise das estimativas do Estudo Carga Global de Doença, 1990 e 2015”. Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

MATA, Kaio Cruz Ramos da, DALTRO, Mônica Ramos, e POND, Milena Pereira. 2020. “Perfil epidemiológico de mortalidade por suicídio no Brasil entre 2006 e 2015”. Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.

MELLO, Nicole Freitas de, PEREIRA, Verton Lus, PEREIRA, Vinícius Oliveira de Moura, e SANTOS, Leonor Maria Pacheco. 2020. “Casos de violência contra pessoas com deficiência notificados por serviços de saúde brasileiros, 2011-2017”. Ministério da Saúde do Brasil.

OLIVEIRA, Nathália França de, MORAES, Cláudia Leite, JUNGER, Washington Leite e REICHENHEIM, Michael Eduardo. 2020. “Violência contra crianças e adolescentes em Manaus, Amazonas: estudo descritivo dos casos e análise da completude das fichas de notificação, 2009-2016”. Ministério da Saúde do Brasil.

PINTO, Lília Lessa Teixeira, MEIRA, Saulo Sacramento, RIBEIRO, Caro José Santos, NERY, Adriana Alves e CASOTTI, Czar Augusto. 2017. “Tendência de mortalidade por lesões autoprovocadas intencionalmente no Brasil no período de 2004 a 2014”. Universidade Federal do Rio de Janeiro.

SOUZA, Maximiliano Loiola Ponte. 2018. “Mortalidade por suicídio entre crianças indígenas no Brasil”. Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz.


1Cirurgião Geral- UFPR
Allandprado@gmail.com

2Médico – Pós Graduado em Endocrinologia,
Nutrologia, Gastrologia e Geriatria  Faculdade Cenbrap
Drleandroaugustoalves84@hotmail.com

3Graduanda de medicina – SLMandic
madulossio@gmail.com

4Médica – UNINOVE
mariaeugenia.bossay@hotmail.com

5Enfermeira – FIB
enfmarinaferreira@outlook.com
Orcid: https://orcid.org/0009-0002-4388-5198