TELEMEDICINE IN PRIMARY CARE: A SYNTHESIS OF CONTEMPORARY EVIDENCE
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601181053
Nathalia de Oliveira Lopes1
Resumo
A expansão da telemedicina na Atenção Primária à Saúde intensificou-se a partir de 2020, impulsionada pela pandemia de COVID-19 e pela necessidade de manter a continuidade assistencial durante as restrições presenciais. O uso de consultas telefônicas, videochamadas e telemonitoramento transformou rapidamente a prática clínica, reorganizando fluxos de trabalho, protocolos e interações na APS, e consolidando modelos híbridos que articulam atendimento remoto e presencial. No Brasil, a Estratégia Saúde da Família incorporou a telemedicina como recurso essencial para o acompanhamento de pacientes crônicos, gestantes, idosos e grupos vulneráveis, embora a desigualdade de acesso à internet e a heterogeneidade da infraestrutura municipal tenham limitado sua efetividade. A revisão integrativa analisou 20 estudos publicados entre 2020 e 2025, revelando predominância de pesquisas narrativas, qualitativas e observacionais, concentradas em países como Brasil, Estados Unidos, Reino Unido e Canadá. Os estudos indicam que a telemedicina ampliou o acesso e favoreceu a continuidade do cuidado, com evidências positivas no manejo de condições crônicas, redução de deslocamentos desnecessários e suporte à coordenação do cuidado. A teleinterconsulta destacou-se como ferramenta capaz de fortalecer a resolutividade da APS e reduzir encaminhamentos. Apesar dos benefícios, persistem desafios estruturais e éticos, como limitações tecnológicas, instabilidade de conexão, insegurança jurídica, dificuldade de exame físico, sobrecarga das equipes e desigualdade digital, que restringe especialmente idosos, populações de baixa renda e regiões com menor cobertura de internet. A literatura aponta que a consolidação da telemedicina depende de infraestrutura adequada, qualificação profissional, governança digital e regulamentações claras que assegurem proteção de dados e qualidade assistencial. Assim, a telemedicina representa uma oportunidade de fortalecer a APS, desde que integrada de forma planejada, equitativa e alinhada aos princípios do cuidado centrado na pessoa.
Palavras-Chave: Telemedicina; Atenção Primária à Saúde; Acesso e Equidade Digital; Modelos Híbridos de Cuidado.
1 INTRODUÇÃO
A telemedicina ganhou protagonismo na Atenção Primária à Saúde (APS) a partir de 2020, impulsionada pela emergência da pandemia de COVID-19 e pela necessidade de manter o cuidado contínuo em meio às restrições de contato presencial. O contexto pandêmico acelerou de forma inédita a adoção de consultas telefônicas e por vídeo, transformando uma prática antes periférica em componente cotidiano do cuidado primário, transformando a APS em um cenário onde as consultas remotas emergiram mais rapidamente, sobretudo para triagem, manejo de condições crônicas e suporte ao autocuidado (Greenhalgh et al., 2020; Koonin et al., 2020).
As videochamadas, inicialmente incorporadas como resposta emergencial, passaram a modificar de maneira estrutural a organização da APS em diferentes países, onde a adoção maciça de teleatendimento provocou a revisão de fluxos internos, protocolos clínicos e formas de interação entre profissionais e usuários. Essa transição consolidou o conceito de cuidado híbrido, no qual consultas remotas e presenciais coexistem de modo complementar. Embora essa reorganização tenha ampliado eficiência e acesso, também trouxe desafios relacionados à capacitação das equipes, padronização de registros, segurança da informação e redefinição da prática clínica (Reed et al., 2020; Donaghy et al., 2021).
No Brasil, a Estratégia Saúde da Família (ESF) integrou teleatendimento e telemonitoramento como alternativas essenciais para manter a longitudinalidade e a coordenação do cuidado durante a pandemia. A telemedicina foi especialmente relevante para o acompanhamento de pacientes crônicos, gestantes, idosos e pessoas com doenças respiratórias. Entretanto, a expansão dessa modalidade esbarra em limitações estruturais, particularmente relacionadas à heterogeneidade territorial, às desigualdades de acesso à internet e à infraestrutura digital insuficiente em muitos municípios (Caetano et al., 2020; Harzheim et al., 2020; Sarti et al., 2022).
Em perspectiva global, a telemedicina na APS vem sendo analisada como estratégia capaz de ampliar acesso, reduzir barreiras geográficas e fortalecer a resolutividade do cuidado. Consultas remotas podem ser eficazes para controle de condições crônicas, sobretudo quando integradas a programas de seguimento estruturado (Mehrotra et al., 2020; Mann et al., 2020).
Ainda assim, persistem desafios importantes. Um dos temas mais recorrentes é a desigualdade digital: populações idosas, de baixa renda ou pertencentes a minorias raciais tendem a utilizar menos as modalidades por vídeo, como demonstram Eberly et al., (2020) e Campos-Castillo e Anthony (2021). Esses achados reiteram que, sem políticas de inclusão digital, a telemedicina pode ampliar desigualdades em vez de reduzi-las.
Profissionais da APS reconhecem a utilidade da teleconsulta, mas destacam dificuldades como instabilidade de conexão, limitações para exame físico, receio de falhas no registro, sobrecarga decorrente da reorganização de fluxos e insegurança jurídica. Essas narrativas indicam que a telemedicina evidencia tanto o potencial da APS quanto a urgência de investimentos estruturais, qualificação profissional e integração tecnológica mais robusta (Donaghy et al., 2021; Pereira et al., 2023).
Diante desse cenário de transformações rápidas e múltiplos desafios, torna-se essencial sintetizar as evidências recentes sobre a telemedicina aplicada à Atenção Primária. Esta revisão integrativa busca organizar e analisar criticamente a produção científica internacional e nacional, identificando benefícios, limitações, lacunas e recomendações pertinentes à prática clínica da telemedicina, ao planejamento de serviços e à formulação de políticas públicas orientadas ao fortalecimento da APS.
2 METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa de literatura, um método que reúne e sistematiza resultados de forma estruturada, possibilitando a produção de conhecimento na área investigada elaborada a partir das seguintes etapas: seleção da questão norteadora; definição das características das pesquisas primárias de amostra; seleção das pesquisas que compuseram a amostra da revisão; análise dos achados dos artigos incluídos na revisão; e interpretação dos resultados e relatos da revisão.
Utilizou- se como Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), juntamente com operadores booleanos AND e OUR: Teleconsulta; telemedicina; atenção primária; e seus correspondentes na língua inglesa: teleconsultation; telemedicine; e primary care.
A busca foi realizada em bases de indexação que centralizavam periódicos nacionais e internacionais relevantes na área da saúde: National Library of Medicine (NLM/PubMed), Scientific Electronic Library Online (SciELO), Web Of Science e BVS. A literatura cinzenta também foi investigada.
Foram incluídos os artigos sobre a temática, publicados e disponíveis gratuitamente, na íntegra, de forma digital e, em língua portuguesa e inglesa, entre os anos de 2020 e 2025. Excluíram- se os artigos em Preprint, trabalhos de graduação, tese, dissertações, livros, ensaios, editoriais, bem como artigos duplicados, mantendo-se apenas a primeira versão identificada, assim com aqueles que tratem da temática na atenção hospitalar e da telemedicina aplicada exclusivamente em nível secundário, como também os que não respondiam aos objetivos da pesquisa.
A avaliação dos estudos incluídos foi realizada por meio da análise crítica dos dados extraídos, que foram sistematizados de acordo com ano, autor, título, país, desenho e temática abordada. Por fim, contemplou-se a exposição dos resultados e apresentação da revisão evidenciando as ideias centrais dos estudos de forma categorizada.
Foram identificados 1234 estudos. Destes, 1214 foram excluídos de acordo com os critérios de inclusão pré-estabelecidos. Para demonstração da seleção dos estudos, utilizou-se as quatro fases seguindo os critérios do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) (Page et al., 2022) (Figura 1).
Figura 1 – Fluxograma de seleção dos estudos, adaptado de Page et al. (2022).

Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
A quinta e sexta etapas da RIL dedicou-se, respectivamente, à interpretação dos resultados e a apresentação da revisão, permitindo assim uma síntese do conhecimento.
Por fim, esclarece-se que por se tratar de um estudo sobre revisão integrativa da literatura, não houve a necessidade de aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa.
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
A análise dos 20 estudos incluídos demonstra uma produção concentrada entre 2020 e 2023, com maior volume no ano de 2021. Esse pico coincidiu com o período de maior demanda por reorganização dos serviços de Atenção Primária à Saúde (APS) em razão da pandemia de COVID-19, momento em que a telemedicina se consolidou como estratégia essencial de acesso. Observou-se predominância de publicações provenientes do Brasil (n = 6) e dos Estados Unidos (n = 5), seguidos pelo Reino Unido (n = 3), Canadá (n = 2) e Noruega (n = 1), além de dois estudos sem indicação clara de país. Essa distribuição evidencia um interesse internacional crescente pelo tema, especialmente em sistemas que precisaram adaptar rapidamente seus modelos de cuidado.
No que se refere aos delineamentos metodológicos, prevaleceram estudos descritivos e revisões, incluindo revisões narrativas (n = 4), revisões sistemáticas (n = 2), estudos qualitativos (n = 2), observacionais (n = 2) e investigações transversais, institucionais, multicêntricas, de métodos mistos, análises de implementação, estudos locais e regionais. Essa diversidade de métodos, com predominância de abordagens não experimentais, indica que a telemedicina na APS ainda se encontra em fase de consolidação científica, com foco em mapeamento de práticas, experiências e processos operacionais, mais do que na avaliação inferencial de intervenções.
Tabela 1 – Sistematização dos estudos incluídos.


Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
Em seguida, categorizou-se os resultados em conformidade com o eixo temático abordado pelos estudos incluídos. Foram identificados seis eixos: acesso, equidade digital e barreiras estruturais; aceitabilidade, experiência e satisfação de usuários e profissionais; eficácia clínica, segurança e impacto em condições crônicas; organização do processo de trabalho, fluxos assistenciais e modelos híbridos; teleinterconsulta, resolução de demandas e suporte à APS; e políticas públicas, regulação e transformações digitais (Tabela 2).
Tabela 2 – Categorização dos estudos conforme o eixo temático.


Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
A literatura analisada indica que a telemedicina se consolidou como componente estratégico da APS no contexto pós-2020. Em múltiplos cenários, a modalidade favoreceu acessibilidade, continuidade do cuidado e acompanhamento de condições crônicas, sobretudo quando integrada ao prontuário eletrônico e ancorada em fluxos assistenciais organizados. Resultados consistentes mostram que o telemonitoramento e as consultas remotas contribuíram para a estabilidade clínica de pessoas com hipertensão, diabetes, doenças respiratórias e demandas de saúde mental, reduzindo visitas presenciais desnecessárias e prevenindo descompensações.
Ao mesmo tempo, a adoção acelerada expôs limitações históricas dos sistemas de saúde. A desigualdade digital aparece como um desafio transversal: idosos, pessoas com baixa renda, baixa escolaridade ou residentes em áreas periféricas enfrentam maiores barreiras tecnológicas, o que restringe o potencial inclusivo da telemedicina. A infraestrutura limitada, como conectividade, equipamentos, interoperabilidade de sistemas e ausência de prontuário integrado, foi repetidamente apontada como obstáculo, especialmente no contexto brasileiro, onde a heterogeneidade entre municípios é marcante.
A aceitabilidade entre usuários e profissionais mostrou-se elevada quando a telemedicina é utilizada em situações adequadas, mas permanece restrita para casos complexos que exigem exame físico, avaliação clínica mais aprofundada ou construção de vínculo. Profissionais relatam insegurança jurídica, sobrecarga emocional e necessidade de treinamento específico para o cuidado remoto, evidenciando que a transição digital requer investimentos também na formação e no suporte às equipes.
Outro achado importante refere-se à reorganização do processo de trabalho. A adoção de modelos híbridos, aqueles que combinam consultas presenciais e remotas, emerge como a configuração mais recomendada, por otimizar agendas, qualificar triagem e garantir flexibilidade assistencial. Esses modelos preservam atributos essenciais da APS, como longitudinalidade e integralidade, ao mesmo tempo em que potencializam a eficiência operacional dos serviços.
A teleinterconsulta, sobretudo em países como o Brasil, demonstra elevado potencial para fortalecer a resolutividade da APS. Estudos mostram redução de encaminhamentos desnecessários, suporte clínico em tempo real e qualificação das decisões médicas, especialmente em municípios com escassez de especialistas. Esse recurso se revelou crucial durante a pandemia e permanece como estratégia promissora para a regionalização da atenção.
Por fim, a análise dos aspectos regulatórios revela avanços e lacunas. Embora normas emergenciais tenham permitido a rápida expansão da telemedicina, persistem desafios relacionados à proteção de dados, interoperabilidade de sistemas, financiamento sustentável e definição de padrões mínimos de qualidade para consultas remotas. A literatura converge para a necessidade de governança digital e padronização de indicadores que sustentem a maturidade tecnológica da APS.
Em síntese, os estudos demonstram que a telemedicina é eficaz, bem aceita e potencialmente transformadora, mas sua consolidação depende da superação de barreiras estruturais e da integração planejada entre modalidades remotas e presenciais. Trata-se de uma inovação que amplia o acesso, mas também evidencia desigualdades — um campo em expansão que exige investimentos contínuos, avaliação crítica e políticas robustas para se tornar parte estável e equitativa do cuidado em APS.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
As evidências reunidas nesta revisão demonstram que a telemedicina se consolidou como uma ferramenta relevante para a Atenção Primária à Saúde, sobretudo após a pandemia de COVID-19, quando se tornou um recurso estrutural para garantir acesso, continuidade e segurança no cuidado. Os estudos analisados revelam benefícios consistentes no acompanhamento de condições crônicas, na otimização dos fluxos assistenciais e na ampliação da resolutividade da APS, especialmente quando integrada a modelos híbridos que articulam consultas presenciais e remotas. A literatura converge para a compreensão de que a telemedicina deixou de ser um recurso emergencial e passou a constituir componente permanente da prática clínica contemporânea.
Apesar dos avanços, os achados também evidenciam desafios significativos que limitam a equidade e a efetividade de sua implementação. A exclusão digital permanece como barreira central, afetando de forma desproporcional idosos, populações vulneráveis e territórios com infraestrutura precária. Somam-se a isso fragilidades estruturais, como insuficiente interoperabilidade entre sistemas, conectividade instável, ausência de prontuários integrados e insegurança jurídica, aspectos que comprometem a integralidade do cuidado. Esses elementos indicam a necessidade de investimentos contínuos, qualificação profissional e fortalecimento das políticas públicas de saúde digital.
Por fim, a síntese dos estudos aponta que a consolidação da telemedicina na APS depende de planejamento estratégico, governança digital e integração efetiva às práticas presenciais. A tecnologia, sozinha, não garante qualidade: ela amplia potencialidades quando alinhada aos princípios da APS como longitudinalidade, vínculo, coordenação e cuidado centrado na pessoa. Assim, a telemedicina representa não apenas uma inovação operacional, mas uma oportunidade de reconfigurar modelos assistenciais, desde que acompanhada de políticas robustas, infraestrutura adequada e ações que assegurem uso ético, seguro e equitativo para toda a população.
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1Discente do curso de Residência de Medicina de Família e Comunidade da Universidade Federal do Mato Grosso. e-mail: nat_10oliveira@hotmail.com
