TAKOTSUBO SYNDROME: A SYSTEMATIC LITERATURE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202512311353
Ricardo Dias Borges1
Resumo
A síndrome de Takotsubo (STT) é uma cardiomiopatia de estresse caracterizada por disfunção sistólica reversível do ventrículo esquerdo, sem obstrução coronariana. Este estudo teve como objetivo sintetizar e atualizar as evidências científicas mais recentes sobre a eficácia das intervenções terapêuticas, a acurácia das ferramentas diagnósticas, a relevância dos fatores prognósticos e os avanços na compreensão dos mecanismos fisiopatológicos da Síndrome de Takotsubo. Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, sem meta-análise, com busca bibliográfica na base de dados PubMed, em publicações do período de 2015 a 2025. Foram incluídos 11 estudos sobre a STT, dos quais 72,7% (n=8) apresentaram delineamento observacional e apenas 27,3% (n=3) foram ensaios clínicos randomizados. Os achados fisiopatológicos evidenciaram disfunção endotelial, tendência à maior atividade simpática em repouso (p=0,08) e recuperação paralela das funções sistólica e diastólica, apesar de persistência de disfunção autonômica cardíaca. As ferramentas diagnósticas mostraram elevada acurácia, com o Escore InterTAK alcançando AUC de até 0,971 e a razão hs-TnT/CK-MB apresentando sensibilidade de 83–86% e especificidade de 68–78%. Em relação às intervenções terapêuticas, o ácido alfa-lipóico associou-se à melhora da inervação adrenérgica, enquanto o metoprolol não demonstrou efeito significativo. Do ponto de vista prognóstico, padrões de balonamento apical típico, neoplasia maligna e alterações eletrocardiográficas, como QRS ≥120 ms, estiveram associados a maior mortalidade e complicações (p<0,05). Conclui-se que a STT apresenta fisiopatologia multifatorial, com boa acurácia diagnóstica por ferramentas específicas, evidências terapêuticas ainda inconsistentes e prognóstico influenciado por fatores clínicos, eletrocardiográficos e comorbidades.
Palavras-chave: cardiologia, cardiomiopatias, cardiomiopatia de Takotsubo.
Abstract
Takotsubo syndrome (TTS) is a stress cardiomyopathy characterized by reversible left ventricular systolic dysfunction without coronary obstruction. This study aimed to synthesize and update the most recent scientific evidence on the effectiveness of therapeutic interventions, the accuracy of diagnostic tools, the relevance of prognostic factors, and advances in understanding the pathophysiological mechanisms of Takotsubo syndrome. This is a systematic literature review, without meta-analysis, with a bibliographic search in the PubMed database, in publications from 2015 to 2025. Eleven studies on TTS were included, of which 72.7% (n=8) had an observational design and only 27.3% (n=3) were randomized clinical trials. The pathophysiological findings revealed endothelial dysfunction, a tendency towards greater sympathetic activity at rest (p=0.08), and parallel recovery of systolic and diastolic functions, despite persistent cardiac autonomic dysfunction. Diagnostic tools showed high accuracy, with the InterTAK Score reaching an AUC of up to 0.971 and the hs-TnT/CK-MB ratio showing a sensitivity of 83–86% and a specificity of 68–78%. Regarding therapeutic interventions, alpha-lipoic acid was associated with improved adrenergic innervation, while metoprolol did not demonstrate a significant effect. From a prognostic point of view, typical apical ballooning patterns, malignancy, and electrocardiographic changes, such as QRS ≥120 ms, were associated with higher mortality and complications (p<0.05). It is concluded that TTS presents a multifactorial pathophysiology, with good diagnostic accuracy using specific tools, still inconsistent therapeutic evidence, and a prognosis influenced by clinical, electrocardiographic factors and comorbidities.
Keywords: cardiology, cardiomyopathies, Takotsubo cardiomyopathy.
INTRODUÇÃO
A síndrome de Takotsubo (STT), também conhecida como cardiomiopatia de estresse, síndrome do coração partido ou síndrome do balonamento apical, é uma síndrome de insuficiência cardíaca aguda caracterizada por disfunção sistólica do ventrículo esquerdo – VE 1,2.
Descoberta em 1991, quando médicos japoneses a descreveram em mulheres, e deram o nome de “takotsubo” devido ao formato do VE, que se assemelha a uma armadilha de polvo comumente usada no Japão1-3. A principal característica é a disfunção ventricular esquerda reversível, que não segue o padrão de uma artéria coronária obstruída. Apesar da recuperação em semanas ou meses, a fase aguda apresenta riscos graves, como choque cardiogênico e arritmias4.
Popularmente é conhecida como “síndrome do coração partido”, “cardiomiopatia de estresse” ou “síndrome do balonamento apical”2. É necessário diferenciar a STT da síndrome coronariana aguda (SCA), para garantir a conduta adequada, pois a sua prevalência em pacientes com suspeitas de SCA é de 2% e 3%, valores que podem ser subestimados, pois o conhecimento sobre os seus critérios diagnósticos, na maioria das vezes, é incompleto5.
O principal marcador é ser reversível, distinguindo-se de outras falhas cardíacas. A recuperação completa da função cardíaca pode levar algumas semanas, mas as alterações em exames como eletrocardiograma – ECG e os níveis de BNP (Brain Natriuretic Peptide), podem persistir por meses ou permanecer anormal em alguns casos3. A princípio foi considerada uma síndrome benigna com prognóstico favorável, no entanto, descobriu-se que está associada ao risco de morte, recorrência e complicações1.
Diante disso, este estudo tem como objetivo sintetizar e atualizar as evidências científicas mais recentes sobre a eficácia das intervenções terapêuticas, a acurácia das ferramentas diagnósticas, a relevância dos fatores prognósticos e os avanços na compreensão dos mecanismos fisiopatológicos da Síndrome de Takotsubo.
SÍNDROME DE TAKOTSUBO
SUBTIPOS CLÍNICOS
A STT pode ser classificada como primária e secundária.
Primária
A STT primária se manifesta por sintomas cardíacos agudos, que levam o paciente a buscar atendimento de emergência. Nem sempre existe um gatilho estressante identificável (frequentemente emocionais) e as condições médicas preexistentes podem aumentar o risco, mas não são a causa primária da elevação das catecolaminas3.
Secundária
Muitos dos casos de STT ocorrem em pacientes já internados por outras condições médicas, cirúrgica, anestésica, obstétrica ou psiquiátrica. Nesses casos, o estresse da condição original ou de seu tratamento desencadeia a ativação súbita do sistema nervoso simpático ou um aumento nos níveis de catecolaminas, caracterizando a forma secundária da síndrome. Nesse sentido, o tratamento precisa abordar as complicações cardíacas do Takotsubo e a doença de base que a causou, ou seja, qualquer condição capaz de induzir a liberação súbita e massiva de catecolaminas (hormônio do estresse), pode desencadear episódio de Takotsubo em pacientes hospitalizados3.
EPIDEMIOLOGIA
A STT afeta predominantemente as mulheres, com 90% dos casos na pós-menopausa. No entanto, pode ocorrer em homens, crianças e recém-nascidos. O risco em mulheres com mais de 55 anos de idade é 4,8 vezes maior, se comparado aos homens, com proporção de 9:12,5,6. A síndrome é responsável por aproximadamente 4% das admissões hospitalares com suspeita de síndrome coronária aguda2. Em mulheres o gatilho mais frequente para STT é o estresse emocional e, nos homens, o físico7.
ETIOLOGIA
A causa exata da STT até o momento é desconhecida. A sua fisiopatologia envolve interações de respostas cardíacas, vasculares, hormonais e neurais ao estresse extremo, considerando o resultado da integração de vários sistemas fisiológicos e biológicos5.
FISIOPATOLOGIA
A fisiopatologia exata é desconhecida, mas o mecanismo aceito é a liberação maciça de catecolaminas através do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal. Esse mecanismo é dividido em duas fases. Na fase 1, ocorre a ativação neuroendócrina, em que o estresse agudo (emocional ou físico) desencadeia a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal, e resulta na liberação excessiva de catecolaminas. Na fase 2, ocorre a disfunção Miocárdica Aguda, em que a maior densidade de receptores β-adrenérgicos no ápice ventricular torna esta região mais sensível à inundação de catecolaminas. Em níveis suprafisiológicos, ocorre o efeito inotrópico negativo, e causa a discinesia apical característica7.
Figura 1. Mecanismo Fisiopatológico da Síndrome de Takotsubo.

Fonte: Diaz-Navarro e Sáez7
A síndrome de Takotsubo está associada a níveis elevados de catecolaminas, superiores aos do infarto grave. Esse pico hormonal resulta da hiperativação do eixo cérebro-adrenal diante de um estresse, que pode não ser evidente. Essas evidências apontam para uma disfunção na interação cérebro-coração, envolvendo áreas límbicas (como a amígdala) e o sistema nervoso autônomo8.
APRESENTAÇÃO CLÍNICA E DIAGNÓSTICO
A STT, geralmente, se manifesta com dor torácica anginosa, dispneia, síncope, insuficiência cardíaca aguda, instabilidade hemodinâmica por arritmias malignas, parada cardíaca1,7, e também alterações isquêmicas no ECG e elevação de troponina e BNP (Brain Natriuretic Peptide), frequentemente desencadeada por estresse em mulheres pós-menopáusicas. A queda nos níveis de estrogênio causa disfunção endotelial e desregulação dos receptores adrenérgicos, levando ao vasoespasmo microvascular característico da síndrome. A ocorrência de casos familiares e recorrentes de STT aponta para a influência genética. Os fatores psicológicos, como depressão e ansiedade, são frequentes nesses pacientes e exacerbam a resposta ao estresse através de desregulações na noradrenalina. Outros fatores podem se desencadear por diversos fatores emocionais, físicos, perdas, crises financeiras e infecções7.
A síndrome é frequentemente desencadeada por fatores estressantes, sejam eles emocionais ou físicos, que estão presentes em cerca de dois terços dos casos. Os gatilhos emocionais incluem tanto os eventos negativos (luto ou crises financeiras), quanto eventos positivos de grande alegria. Já os estressores físicos abrangem desde as doenças agudas e cirurgias até distúrbios neurológicos. Porém, existem fatores desencadeantes que não são identificáveis em alguns pacientes. Pacientes com históricos de transtornos de ansiedade ou condições psiquiátricas prévias aumentam a susceptibilidade. Aqueles cuja síndrome foi precipitada por algum estresse físico, debilitados por outras doenças, correm o risco de ter um prognóstico hospitalar desfavorável5.
Figura 2. Estressores associados à síndrome de Takotsubo (STT).

Fonte: Kato5 e cols.
A Figura 2 demonstra que a STT pode ser desencadeada por diversas condições físicas, que variam de eventos neurológicos agudos, procedimentos cirúrgicos, sepse, doenças respiratórias. Já os gatilhos emocionais abrangem experiências traumáticas até eventos positivos intensos de muita alegria. Em 2016, um novo estressor foi adicionado, denominado de “síndrome do coração feliz”2, que envolve vários gatilhos emocionais positivos (como ganhar na loteria ou casamento de um filho), servem como fator desencadeante da STT.
Essa disfunção cardíaca temporária pode ocorrer após um grande estresse neurológico e está associada a condições como hemorragia cerebral, acidente vascular cerebral – AVC, crises convulsivas e traumatismo craniano9. Ela pode surgir durante ou após a quimioterapia e está associada a riscos graves, como choque cardiogênico10. Pode também surgir em receptores de transplante hepático11.
Para padronizar o diagnóstico da STT, especialistas do Registro Internacional InterTAK estabeleceram critérios específicos, de acordo com o Quadro 1.
Quadro 1. Critérios diagnósticos incorporados por especialistas InterTAK
| Critério | Descrição |
| 1. Disfunção Ventricular | Anormalidades transitórias no movimento da parede do ventrículo esquerdo e/ou direito (hipocinesia, discinesia ou acinesia). Geralmente não se limita ao território de uma única artéria coronária.Existem casos raros de envolvimento focal (em uma única artéria). |
| 2. Gatilho Identificável | Um gatilho emocional e/ou físico pode ser identificado, mas não é obrigatório para o diagnóstico. |
| 3. Gatilhos Específicos | Distúrbios neurológicos (AVC, convulsões) ou feocromocitoma podem servir como fatores desencadeantes. |
| 4. Alterações no ECG | Presença de novas anormalidades no eletrocardiograma (elevação/ depressão do segmento ST, inversão da onda T, prolongamento do QTc). Alterações são quase sempre presentes. |
| 5. Elevação de Biomarcadores | Elevação dos níveis de biomarcadores cardíacos, principalmente troponina, creatina quinase, peptídeo natriurético cerebral (BNP). |
| 6. Doença Arterial Coronariana | A presença de doença arterial coronariana (DAC) significativa não exclui o diagnóstico. |
| 7. Exclusão de Miocardite | É obrigatória a ausência de evidências de miocardite infecciosa, tipicamente excluída por Ressonância Magnética Cardíaca. |
| 8. Perfil Epidemiológico | Condição que afeta predominantemente mulheres pós-menopáusicas. |
Fonte: Adaptada de Jensch4 e cols.
A STT é classificada como uma entidade independente, e não como um tipo de infarto. O seu diagnóstico é confirmado por exames de imagem como ecocardiografia e ressonância magnética cardíaca, que identificam o padrão característico de movimento anormal da parede do ventrículo esquerdo4.
A classificação InterTAK considera os tipos de evento desencadeadores, sendo que cerca de dois terços dos pacientes apresentam estresse emocional (classe I); com menor frequência o estresse físico (classe II) e, um terço dos pacientes não apresentam eventos desencadeadores (classe III)4.
O Escore de Diagnóstico InterTAK utiliza o sistema de pontuação para diferenciar a STT de outras condições (Tabela 1). De acordo com o consenso internacional, um paciente com pontuação ≤ 30 tem menos de 1% de probabilidade de ter STT, enquanto uma pontuação ≥ 70, indica mais de 90% de probabilidade para o diagnóstico7.
Tabela 1. Pontuação de diagnóstico InterTak.
| Critério | Pontos |
| Sexo feminino | 25 |
| Episódio de estresse emocional | 24 |
| Episódio de estresse físico | 13 |
| Ausência de infradesnivelamento do segmento ST* | 12 |
| Doença psiquiátrica | 11 |
| Doença neurológica | 9 |
| Prolongamento do intervalo QT | 9 |
Fonte: Diaz-Navarro e Sáez7
O Eletrocardiograma (ECG) na fase aguda ajuda a diferenciar a STT do Infarto Agudo do Miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCSST). A Figura 3 apresenta critérios no ECG, estabelecidos por Frangieh12 e cols. (2016), que permitem diferenciar a STT do infarto agudo do miocárdio (IAM), independentemente de ser um IAM com ou sem supradesnivelamento do segmento ST.
Figura 3. Algoritmo para o diagnóstico diferencial entre a Síndrome de Takotsubo (STT) e o Infarto Agudo do Miocárdio (IAM).

IAMSSST: infarto agudo do miocárdio sem supradesnivelamento do segmento ST; IAMCSST: infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST; STe: supradesnivelamento do segmento ST; STd: infradesnivelamento do segmento ST; TTC: cardiomiopatia de Takotsubo.
*100% de especificidade e 100% de valor preditivo positivo; † Mais de 2 derivações de 3 em II – III – aVF; ‡ Mais de 4 derivações de 6 em (V1-V2-V3-V4-V5-V6); x Mais de 2 derivações de 3 em (V1-V2-V3).
Fonte: Frangieh12 e cols.
A Figura 4 ilustra exemplos de traçados eletrocardiográficos que representam os critérios mais específicos para o diagnóstico diferencial em cada categoria de pacientes.
Figura 4. Exemplos de ECG.

1): Takotsubo com supradesnivelamento do segmento ST (STE – TTC): STe em -aVR e STe na derivação anterosseptal; 2): Infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCSST): STd em V2, V3 e V4 (entre outras); 3): Takotsubo sem supradesnivelamento do segmento ST (NSTE – TTC): STe em -aVR e Tinv (qualquer derivação); 4): Infarto agudo do miocárdio sem supradesnivelamento do segmento ST (IAMSSST): STd em V2, V3.
Fonte: Frangieh e cols.12
O diagnóstico da STT é realizado através de estudos laboratoriais, imagem invasiva e imagem não invasiva. Os biomarcadores de lesão miocárdica (creatina quinase, creatina quinase-MB e troponina), estão elevados na maioria dos pacientes com STT. A confirmação requer angiografia coronária, que revela artérias desobstruídas e exclui o infarto agudo. A ventriculografia ou o ecocardiograma identifica o padrão característico de balonamento apical ou suas variantes. A ressonância magnética cardíaca complementa o diagnóstico ao demonstrar edema miocárdico transmural sem realce significativo de gadolínio, diferenciando-a de outras condições5.
TRATAMENTO
As abordagens atuais no tratamento agudo da síndrome de Takotsubo (STT) são o suporte, direcionado para prevenir as complicações imediatas. Mesmo que o prognóstico tenha sido considerado favorável, complicações graves ocorrem em aproximadamente 20% dos casos, similar à síndrome coronariana aguda. Os fatores desencadeantes físicos, comorbidades neuropsiquiátricas agudas, troponina elevada e baixa fração de ejeção inicial são preditores de desfecho desfavorável5.
O Quadro 2 sintetiza as principais classes de fármacos recomendados, suas indicações centrais e as considerações para o seu uso seguro.
Quadro 2. Medicamentos recomendados para o tratamento STT.
| MEDICAMENTO | INDICAÇÃO PRINCIPAL | CONSIDERAÇÕES / CONTRAINDICAÇÕES |
|---|---|---|
| Levosimendan | Suporte inotrópico em pacientes com fração de ejeção (FE) < 55%. | Contraindicado se houver obstrução do trato de saída do VE (LVOTO) com gradiente > 90 mmHg. |
| Betabloqueadores | Controlar taquicardia e sintomas, especialmente se houver LVOTO dinâmico. | Usar com cautela; geralmente evitados na fase aguda se FE muito baixa ou em choque. Ideal se QTc < 500 ms. |
| Inibidores da ECA / BRAs | Redução da taxa de recorrência a longo prazo. Melhoram o remodelamento ventricular. | Iniciar após estabilização hemodinâmica na fase de convalescença. |
| Diuréticos | Alívio de edema e sintomas de congestão pulmonar (insuficiência cardíaca). | Usar conforme necessidade, monitorando função renal e equilíbrio eletrolítico. |
| Nitratos | Alívio sintomático da dor torácica (angina). | Contraindicados na presença de LVOTO, pois podem piorar a obstrução e o gradiente. |
Legenda: ECA (Inibidores da Enzima de Conversão da Angiotensina); FE: fração de ejeção;BRAs (Bloqueadores dos Receptores da Angiotensina II); LVOTO: Obstrução do Trato de Saída do Ventrículo Esquerdo (do inglês Left Ventricular Outflow Tract Obstruction); QTc é a sigla para Intervalo QT Corrigido (do inglês QT Corrected);VE: Ventrículo Esquerdo.
Fonte: Moscatelli8 e cols.
No início, o tratamento da STT é igual ao do infarto, com o uso de antitrombóticos e estatina. Após o diagnóstico, evita-se o uso de adrenalina/noradrenalina (epinefrina/norepinefrina), optando-se pelo levosimendan (0,1 μg /kg/min) para suporte inotrópico, apenas em pacientes sem obstrução da via de saída do VE (LVOTO) e com pressão estável (>90 mmHg). Os betabloqueadores são usados para atenuar a tempestade de catecolaminas e são úteis em pacientes com LVOTO, pois reduzem o gradiente de obstrução. A sua administração requer o monitoramento rigoroso, devido ao risco de prolongamento do intervalo QRc (>500 ms) e arritmias. Para alívio sintomático, os diuréticos controlam o edema e os nitratos melhoram o enchimento cardíaco, mas são contraindicados se houver LVOTO8.
Os betabloqueadores, mesmo frequentemente prescritos após a STT, não demonstraram reduzir a mortalidade em um ano. No entanto, podem ser úteis para prevenir recorrências em pacientes com ansiedade ou tônus simpático elevado. Em contraste, os IECA ou BRA na fase crônica mostraram-se associados a menor recorrência e melhor sobrevida. A suplementação com estrogênio, embora teoricamente interessante, não tem evidências suficientes e traz riscos conhecidos (tromboembolismo venoso), não sendo recomendado5.
3. MÉTODOS
Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, sem meta-análise, para sintetizar e atualizar as evidências sobre a Síndrome de Takotsubo (STT). A busca bibliográfica foi realizada na base de dados PubMed, considerando as publicações no período de 2015 a 2025. Foram utilizados os descritores em ciências da saúde – DeCS: Cardiologia; Cardiomiopatias; Cardiomiopatia de Takotsubo. Em inglês: Cardiology; Cardiomyopathies; Takotsubo Cardiomyopathy. Outras palavras-chave foram também utilizadas: Takotsubo syndrome; treatment of Takotsubo syndrome.
Foram incluídos estudos que atenderam aos seguintes critérios: 1) Estudos originais envolvendo pacientes diagnosticados com Síndrome de Takotsubo; 2) Ensaios clínicos randomizados, estudos observacionais prospectivos ou retrospectivos e estudos de coorte comparativos; 3) Trabalhos que abordassem ao menos um dos seguintes eixos: intervenções terapêuticas, métodos diagnósticos, fatores prognósticos ou aspectos fisiopatológicos da STT; 4) Publicações disponíveis na íntegra e em língua inglesa.
Foram excluídos relatos de casos isolados, editoriais, cartas ao editor, revisões narrativas ou sistemáticas; trabalhos que não respondem aos objetivos do estudo.
Inicialmente, os títulos e resumos foram avaliados para identificação de relevância temática. Em seguida, os textos completos dos artigos potencialmente elegíveis foram analisados.
De cada estudo incluído, foram extraídas informações padronizadas: autores, ano de publicação, delineamento do estudo, tamanho da amostra, intervenções avaliadas, medidas de desfecho, tempo de acompanhamento e principais resultados. Esses dados foram organizados em uma tabela, permitindo comparação sistemática entre os estudos e identificação de convergências e divergências nos achados.
Os resultados foram analisados de forma qualitativa e descritiva, considerando a heterogeneidade metodológica entre os estudos. A síntese foi estruturada em eixos temáticos, correspondentes aos objetivos da revisão: Compreensão Fisiopatológica; Acurácia das ferramentas diagnósticas; Intervenções terapêuticas; Prognósticos. Quando disponíveis, foram destacados valores estatísticos relevantes, como p-values, odds ratios, hazard ratios e áreas sob a curva ROC, respeitando os dados apresentados nos estudos originais.
Por se tratar de uma revisão da literatura baseada exclusivamente em dados secundários já publicados, não houve a necessidade de submissão ao comitê de ética em pesquisa, conforme as normas vigentes.
4. RESULTADOS
No período de análise de 10 anos (2015 a 2025), observou-se que dos onze (n: 11) estudos revisados sobre a síndrome de Takotsubo (STT) na base de dados PubMed (Figura 5).
Figura 5. Seleção dos estudos.

Fonte: Autor (2026)
A grande maioria dos estudos incluídos (n: 8; 72,7%) possui delineamento observacional, coortes retrospectivos e prospectivos. Apenas 3 (27,3%) são ensaios clínicos randomizados, que oferecem o mais alto nível de evidência para intervenções terapêuticas (Quadro 3).
Quadro 3. Síntese dos estudos.
| AutoresAno | Desenho do estudo | Pacientes (n) | Medicamentos | Medidas de resultados | Tempo de acompanhamento | Principais resultados |
| Marfella e cols.13, 2016 | Randomizado | 48 | Ácido alfa-lipóico (600 mg uma vez ao dia) vs. Placebo | Exames de rotina, marcadores séricos de lesão miocárdica, marcadores de estresse oxidativo, citocinas pró-inflamatórias, atividade do tônus simpático e tamanho do defeito de MIBG (cintilografia com 123I-MIBG) | Até 12 meses (com avaliações trimestrais) | Melhora significativa no tamanho do defeito de MIBG em 12 meses com ALA, indicando melhora na inervação cardíaca adrenérgica |
| Kumar e cols.14, 2016 | Retrospectivo | 28 | – | Parâmetros de função diastólica (E, A, relação E/A, e’, estágios da DF, área do AE) e sistólica (fração de ejeção, S’) avaliados por ecocardiografia | Fase aguda vs. fase de recuperação (média de 3 meses após o evento agudo) | Melhora significativa nos parâmetros de função diastólica (e’ e duração da onda A) e redução da área do AE durante a recuperação. A melhora da função diastólica ocorreu em paralelo com a recuperação sistólica. |
| Naegele e cols.15, 2016 | Prospectivo | 43 (22 com STT e 21 controles pareados por idade, sexo, fatores de risco e medicamentos) | – | Primária: VMF para disfunção endotelial. Secundárias: Rigidez arterial, espessura íntima-média carotídea, TPA, qualidade de vida, parâmetros laboratoriais (endotelina-1) e atividade simpática muscular (em repouso e pós-estresse). | fase estável | Disfunção endotelial significativa na STT (VMF menor). Área total de placa carotídea reduzida na STT. Tendência a maior atividade simpática muscular em repouso (p=0,08), sem diferença na resposta ao estresse. Sem diferenças significativas em rigidez arterial, espessura íntima-média, qualidade de vida e marcadores laboratoriais. |
| Stiermaier e cols.16, 2016 | Retrospectivo | 285 (204 com balonamento apical típico e 81 com padrão atípico [medioventricular ou basal]) | – | Características clínicas, fração de ejeção do VE na fase aguda e na recuperação, mortalidade em 28 dias, 6 meses e longo prazo | Curto prazo (28 dias), médio prazo (6 meses) e longo prazo (média não especificada, além de 6 meses) | O balonamento apical típico foi associado a menor FEVE inicial, maior idade, maior prevalência de diabetes e aumento significativo da mortalidade em 6 meses (13,4% vs 1,3%) e em longo prazo (28,9% vs 14,5%). Após os primeiros 6 meses, os sobreviventes de ambos os grupos apresentaram mortalidade similar. |
| Girardey e cols.17, 2016 | Retrospectivo | 154 (44 com neoplasia maligna prévia ou atual) | – | Parada cardíaca na admissão, uso de balão intra-aórtico, picos de BNP, leucócitos, PCR, disfunção ventricular esquerda inicial, mortalidade por todas as causas e mortalidade cardíaca | Mediana de 364 dias (aproximadamente 1 ano) | A presença de neoplasia maligna foi um preditor independente para maior mortalidade cardíaca (HR 4,77) e mortalidade geral (HR 2,62). Pico de leucócitos e parada cardíaca inicial também foram preditores independentes de mortalidade geral. |
| Yamaguchi e cols.18, 2016 | Retrospectivo | 299 (34 com pQRSd ≥120 ms e 265 com QRS <120 ms) | Não especificado. Foram registradas intervenções como uso de catecolaminas | Primárias: Mortalidade intra-hospitalar e mortalidade cardíaca. Secundárias: Uso de ventilação mecânica, ocorrência de taquicardia/fibrilação ventricular, e necessidade de suporte circulatório (catecolaminas ou dispositivos de suporte). | Durante a internação hospitalar (desfechos intra-hospitalares) | pQRSd (QRS ≥120 ms) foi um preditor independente de mortalidade hospitalar (OR 5,06) e morte cardíaca (OR 7,34). O grupo pQRSd apresentou taxas significativamente maiores de mortalidade, complicações arritmicas e necessidade de suporte vital avançado. |
| Ghadri19 e cols., 2017 | Retrospectivo | 1053Coorte de Derivação:654 (218 com STT + 436 com SCA). Coorte de Validação: 399 (173 com STT + 226 com SCA). | – | Variáveis do Escore (InterTAK): sexo feminino, gatilho emocional, gatilho físico, ausência de infradesnivelamento do segmento ST, transtornos psiquiátricos, transtornos neurológicos, prolongamento do QTc. Métricas de Validação: Área sob a curva (AUC), sensibilidade, especificidade com pontos de corte de 31, 40 e 50 pontos. | fase aguda | O Escore Diagnóstico InterTAK demonstrou alta capacidade de diferenciar STT de SCA, com AUC de 0,971 na coorte de derivação e 0,901 na coorte de validação. Um ponto de corte ≥ 50 pontos identifica STT com ~95% de precisão, e um ponto de corte ≤ 31 pontos identifica SCA com ~95% de precisão. |
| Pirlet20 e cols., 2017 | Retrospectivo | STT: 77 (35 retrospectivos + 42 prospectivos). IAM sem supradesnivelamento de ST (IAMSSST/NSTEMI): 123 (48 retrospectivos + 75 prospectivos). IAM com supradesnivelamento de ST (IAMCSST/STEMI): 59 (20 retrospectivos + 39 prospectivos). | – | Razão entre a troponina T de alta sensibilidade (hs-TnT) e a fração MB da creatina quinase (CK-MB) no momento da admissão hospitalar. Análise de Curvas ROC (Receiver Operating Characteristic) para determinar valores de corte ideais, sensibilidade e especificidade. | fase aguda | A razão hs-TnT/CK-MB foi significativamente maior em pacientes com Takotsubo em comparação com pacientes com IAM (tanto NSTEMI quanto STEMI), nas coortes retrospectiva e prospectiva. Valores de corte (~0.015-0.017) demonstraram capacidade de diferenciar TT de IM com boa sensibilidade (83-86%) e especificidade (68-78%), especialmente na coorte prospectiva (AUC 0.88). |
| Omerovic21 e cols.,2023 | RandomizadoEstudo Broken-Swedeheart | 1000 | Adenosina + dipiridamol (Estudo 1) vs. tratamento padrão Apixabano (Estudo 2) vs. nenhum tratamento antitrombótico | Estudo 1: – Índice de escore de movimento da parede em 48–96 h – morte, parada cardíaca, dispositivo de assistência mecânica, hospitalização por insuficiência cardíaca em 30 dias ou FEVE <50% em 48–96 h Estudo 2: – morte ou eventos tromboembólicos em 30 dias ou trombo intraventricular em ecocardiografia (48–96 h) | Até 30 dias (com avaliações intermediárias em 48–96 horas) | não determinado |
Cammann22 e cols., 2023 | Retrospectivo | Total: 2.848 STT: 2.098 DEAC: 750 | – | Características clínicas, gatilhos (físicos/emocionais), fração de ejeção do VE, fatores de risco cardiovasculares, comorbidades (enxaqueca, ansiedade), mortalidade em 30 dias, taxa de AVC em 30 dias | 30 dias | Pacientes com Takotsubo eram mais velhos, tinham mais gatilhos físicos, pior fração de ejeção e maior mortalidade em 30 dias. Pacientes com DEAC tiveram mais gatilhos emocionais, maior prevalência de enxaqueca e ansiedade. |
| Ekenbäck23 e cols., 2024 | Randomizado | STT: 31Controle: 13 | Metoprolol intravenoso (bloqueador β1 seletivo) vs. Placebo | Atividade nervosa simpática muscular (microneurografia), atividade simpática cardíaca (cintilografia com 123I-MIBG, razão coração/mediastino, taxa de eliminação), níveis plasmáticos de metabólitos de catecolaminas | Avaliação na fase de recuperação: microneurografia ~27.5 dias e cintilografia ~12.5 dias após a admissão hospitalar | Atividade simpática muscular: sem diferença significativa entre STT e controles, e sem efeito do metoprolol. Atividade simpática cardíaca: aumentada (razão coração/mediastino diminuída e taxa de eliminação aumentada na cintilografia). |
Legenda: A: velocidade de pico de enchimento atrial; AVC: Acidente Vascular Cerebral; ALA: ácido alfa-lipóico; CKMB: fração miocárdica da creatina quinase; Curvas ROC: características de operação do receptor; DF: função diastólica; DEAC: Dissecção Espontânea da Artéria Coronária; E: velocidade de pico de enchimento rápido transmitral; e’: relaxamento; FEVE: Fração de Ejeção do Ventrículo Esquerdo; hs-TnT: troponina T de alta sensibilidade; IAM: infarto agudo do miocárdio; IAMSSST: infarto agudo do miocárdio sem supradesnivelamento do segmento ST; MIBG: Metaiodobenzilguanidina; NSTEMI: Sem Elevação do Segmento ST; Pqrs: prognóstico da duração prolongada do QRS; S’: contratilidade; STT: Síndrome de Takotsubo; SCA: síndrome coronariana aguda; STEMI: Elevação do Segmento ST; TPA: área total de placa carotídea; VE: ventrículo esquerdo; VMF: Vasodilatação mediada pelo fluxo.
Fonte: Autor (2026)
Compreensão Fisiopatológica
Naegele15 e cols. evidenciaram disfunção endotelial significativa em pacientes com Síndrome de Takotsubo, caracterizada por redução da vasodilatação mediada por fluxo, com tendência a maior atividade simpática muscular em repouso (p=0,08). Kumar14 e cols. demonstraram melhora progressiva da função diastólica durante a fase de recuperação, ocorrendo de forma paralela à recuperação da função sistólica, sugerindo caráter reversível da disfunção miocárdica. Corroborando, Ekenbäck23 e cols. reforçaram esses achados ao demonstrar comprometimento persistente da inervação simpática cardíaca na fase de recuperação, mesmo na ausência de alterações significativas da atividade simpática periférica.
Acurácia das ferramentas diagnósticas
Ghadri19 e cols. validaram o Escore Diagnóstico InterTAK, que apresentou elevada acurácia na diferenciação entre Síndrome de Takotsubo e síndrome coronariana aguda, com AUC de 0,971 na coorte de derivação e 0,901 na coorte de validação, atingindo cerca de 95% de precisão nos pontos de corte extremos. Complementarmente, Pirlet20 e cols. identificaram que a razão hs-TnT/CK-MB foi significativamente maior nos pacientes com Takotsubo em comparação aos infartos do miocárdio, apresentando boa capacidade discriminatória (AUC até 0,88), com sensibilidade entre 83–86% e especificidade entre 68–78%.
Intervenções terapêuticas
Marfella13 e cols. demonstraram que a administração de ácido alfa-lipóico esteve associada à melhora significativa da inervação cardíaca adrenérgica, evidenciada pela redução do defeito de MIBG (Metaiodobenzilguanidina) após 12 meses de acompanhamento, sugerindo efeito benéfico sobre a disfunção autonômica na Síndrome de Takotsubo. Em contraste, Ekenbäck23 e cols. não observaram diferenças significativas na atividade simpática muscular entre pacientes com Takotsubo e controles, nem efeito do metoprolol intravenoso, apesar da persistência de hiperatividade simpática cardíaca avaliada por cintilografia com ¹²³I-MIBG.
Prognósticos
Stiermaier16 e cols. observaram que o padrão de balonamento apical típico esteve associado a menor fração de ejeção inicial e maior mortalidade em 6 meses e no longo prazo, quando comparado aos padrões atípicos. Girardey17 e cols. demonstraram que a presença de neoplasia maligna foi um preditor independente de maior mortalidade cardíaca e geral, assim como a ocorrência de parada cardíaca na admissão e picos elevados de leucócitos. Yamaguchi18 e cols. identificaram que o prolongamento do QRS (≥120 ms) foi preditor independente de mortalidade intra-hospitalar e morte cardíaca, com aumento significativo de complicações arrítmicas e necessidade de suporte circulatório (p<0,05).
5. DISCUSSÃO
O manejo da síndrome de Takotsubo (STT) é baseado nas experiências clínicas e no consenso de especialistas, visto que faltam mais estudos randomizados sobre esse tema5,8. Na literatura foi identificado o estudo Broken-Swedeheart conduzido por Omerovic21 e cols, que se encontra em andamento e, até o momento, não apresentou resultados quanto aos efeitos conclusivos das medicações avaliadas (Adenosina + dipiridamol vs. Apixabano vs. nenhum tratamento antitrombótico). Em contraste com essa ausência de evidências definitivas, alguns estudos experimentais trouxeram achados relevantes, embora pontuais, sobre possíveis intervenções terapêuticas.
Nesse sentido, Marfella13 e cols. demonstraram que 12 meses de terapia com ácido alfa-lipóico (ALA) melhoram a função cardíaca simpática, avaliada pela captação de MIBG (Metaiodobenzilguanidina), em pacientes com cardiomiopatia de Takotsubo. A melhora foi regional, com aumento da captação nos segmentos apical, anterior e septo-apical, bem como nos segmentos lateral-apical e inferior do ventrículo esquerdo. Essas alterações positivas na inervação adrenérgica correlacionaram-se com a redução de marcadores inflamatórios (PCR, TNF-α) e de estresse oxidativo (nitrotirosina). Dado o risco residual não desprezível de eventos como morte súbita (2,6%) após a fase aguda, e na ausência de estratégias preventivas estabelecidas, a modulação da inervação cardíaca pelo ALA surge como uma intervenção promissora para melhorar o prognóstico a longo prazo.
Por outro lado, resultados distintos foram observados no estudo de Ekenbäck23 e cols. avaliaram o efeito do bloqueio seletivo do receptor β1 com metoprolol intravenoso em comparação com placebo sobre a atividade nervosa simpática muscular e cardíaca. Não foram encontradas diferenças significativas na atividade simpática muscular em repouso ou sob estresse entre pacientes convalescentes de Takotsubo e controles, nem qualquer efeito do metoprolol sobre essa resposta periférica. Em contraste, a cintilografia cardíaca com 123I-mIBG revelou disfunção adrenérgica cardíaca específica (razão H/M reduzida e eliminação aumentada), apesar da ausência de elevação significativa dos metabólitos de catecolaminas.
O estudo de Naegele15 e cols. demonstrou que, mesmo na fase estável, pacientes com STT apresentam disfunção endotelial significativa e uma tendência a maior atividade simpática basal em repouso, embora sem resposta exacerbada ao estresse. Essas alterações vasculares e autonômicas ocorrem em um contexto distinto da aterosclerose, como evidenciado pela menor área total de placa carotídea e ausência de diferenças na rigidez arterial e na espessura íntima-média. Esses achados apontam que a fisiopatologia da STT é independente da doença aterosclerótica tradicional, centrando-se em uma disfunção microvascular e desregulação neuro-humoral aguda.
No que se refere à recuperação funcional miocárdica, Kumar14 e cols. demostraram que a função diastólica, comprometida na fase aguda da STT, apresenta uma melhora progressiva durante a recuperação, observada em média três meses após o evento. Essa melhora é evidenciada por tendências de aumento na relação E/A e na velocidade da onda E, juntamente com a redução da área do átrio esquerdo. Parâmetros tissulares, como o aumento significativo da velocidade média e’ e o prolongamento da duração da onda A, corroboram a recuperação do relaxamento ventricular. A normalização dos estágios da função diastólica ocorre em paralelo à recuperação da função sistólica, indicando um processo de restauração miocárdica global. Dessa forma, a avaliação ecocardiográfica convencional e tissular é válida para monitorar a resolução integral da cardiomiopatia.
No campo diagnóstico, Ghadri19 e cols. desenvolveram o Escore Diagnóstico InterTAK para auxiliar na diferenciação, na fase aguda, entre a STT e a síndrome coronariana aguda (SCA). Baseado em sete parâmetros clínicos de fácil obtenção (como sexo feminino, gatilhos emocionais ou físicos e achados eletrocardiográficos específicos), o escore atribui uma pontuação que estima a probabilidade de STT. A sua aplicação prática pode orientar a avaliação inicial, auxiliando na estratificação de risco e na tomada de decisão sobre a necessidade de cateterismo cardíaco, com o objetivo de evitar os procedimentos invasivos desnecessários.
De forma complementar, Pirlet20 e cols. demonstraram que a razão entre troponina T de alta sensibilidade (hs-TnT) e CK-MB (fração miocárdica da creatina quinase) é um indicador útil para diferenciar a STT do infarto do miocárdio (IM). Essa razão foi significativamente maior em pacientes com STT do que naqueles com IAM, tanto na admissão quanto no pico de troponina. Valores de corte entre 0,015 e 0,017 apresentaram sensibilidade e especificidade razoáveis para essa distinção. Análises posteriores confirmaram que a diferença na razão persiste independentemente do tempo de apresentação dos sintomas, reforçando sua utilidade clínica.
Do ponto de vista prognóstico, Girardey17 e cols. evidenciaram alta prevalência de neoplasias malignas entre pacientes com cardiomiopatia de Takotsubo. A presença de câncer está associada a uma resposta inflamatória e neuro-hormonal mais intensa na fase aguda, com níveis mais elevados de leucócitos, PCR (proteína C-reativa) e BNP (peptídeo natriurético tipo B). Essa ativação exacerbada contribui para um maior dano miocárdico e pior evolução clínica. Consequentemente, o diagnóstico de malignidade emergiu como um preditor independente para maior mortalidade cardíaca e geral nessa população.
Stiermaier16 e cols. contesta a visão tradicional de que a cardiomiopatia de Takotsubo tem sempre um prognóstico benigno, mostrando que a mortalidade inicial pode ser semelhante à da síndrome coronariana aguda. A pesquisa comparou os desfechos entre pacientes com padrão apical típico e padrões atípicos de balonamento ventricular. O balonamento apical típico associou-se a uma disfunção ventricular esquerda mais grave na apresentação e a taxas de mortalidade significativamente maiores (p = 0,02) nos primeiros seis meses. No entanto, após a recuperação completa da função ventricular, que ocorreu em ambos os grupos, o prognóstico de longo prazo se tornou semelhante.
Yamaguchi18 e cols. demonstram que o prolongamento do complexo QRS (pQRSd) na admissão é um preditor independente de mortalidade hospitalar e cardíaca na cardiomiopatia de Takotsubo, estando associado a complicações graves como arritmias ventricrais, necessidade de ventilação mecânica e insuficiência circulatória. O estudo sugere que mesmo um prolongamento leve (QRS ≥110 ms) pode sinalizar dano miocárdico significativo e exigir atenção clínica imediata. A persistência do pQRSd, observada em casos mais severos, correlaciona-se com um prognóstico particularmente desfavorável.
Adicionalmente, Cammann22 e cols. compararam a Síndrome de Takotsubo (STT) e a Dissecção Coronária Espontânea (DEAC) e evidenciaram perfis diferentes, mesmo com predominância de mulheres. Pacientes com STT são geralmente mais velhas, na pós-menopausa, e apresentam maior carga de fatores de risco cardiovascular tradicional, e também maior mortalidade precoce. Em contraste, a DEAC afeta mulheres mais jovens, com maior prevalência de comorbidades como ansiedade e enxaqueca, e é frequentemente desencadeada por fatores emocionais, enquanto os gatilhos físicos são mais comuns na STT.
Este estudo apresenta algumas limitações. A maioria dos estudos incluídos apresenta delineamento observacional, com predominância de coortes retrospectivas, limitando a inferência causal. Observa-se grande variabilidade metodológica entre os estudos quanto aos critérios diagnósticos, populações analisadas, intervenções avaliadas, tempos de seguimento e medidas de desfecho, o que dificulta as comparações diretas e a padronização das conclusões. O número reduzido de ensaios clínicos randomizados e a presença de estudos em andamento, como o Broken-Swedeheart, mostram que as evidências terapêuticas específicas na Síndrome de Takotsubo ainda são limitadas.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Síndrome de Takotsubo apresenta fisiopatologia complexa, envolvendo disfunção endotelial, desregulação autonômica e recuperação progressiva da função miocárdica. As ferramentas diagnósticas como o Escore InterTAK e a razão hs-TnT/CK-MB mostraram elevada acurácia na diferenciação em relação à síndrome coronariana aguda. As evidências terapêuticas são heterogêneas, com possível benefício do ácido alfa-lipóico, mas ausência de efeito consistente do bloqueio β1. Do ponto de vista prognóstico, padrão de balonamento apical, neoplasia maligna, alterações eletrocardiográficas e instabilidade inicial associaram-se a maior mortalidade.
Apesar dos avanços no conhecimento diagnóstico e fisiopatológico, persistem lacunas relevantes no tratamento da Síndrome de Takotsubo, uma vez que a predominância de estudos observacionais e o número limitado de ensaios clínicos randomizados restringem conclusões definitivas sobre as intervenções farmacológicas. O manejo atual deve priorizar a avaliação clínica cuidadosa, estratificação prognóstica e o uso de ferramentas diagnósticas validadas, reforçando a necessidade da realização de estudos prospectivos e randomizados para orientar terapias específicas. Assim, o cuidado ao paciente com STT deve permanecer individualizado e baseado na melhor evidência disponível.
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1Médico. Residente em cardiologia. Universidade Federal do Tocantins. Palmas, Tocantins, Brasil.
