SÍNDROME DE BURNOUT EM ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202510291427


Heloise Ferraz Souza1
Isabel Lauriano Lins2
João Artur Galdino Souto3
Chimene Kuhn Nobre4


RESUMO

Ingressar no curso de Medicina é um sonho que exige não apenas dedicação intelectual, mas também uma intensa adaptação emocional e social. O estudante se depara com uma rotina exigente, marcada por longas horas de estudo, contato precoce com o sofrimento humano e a necessidade constante de corresponder a expectativas elevadas. Nesse contexto, é comum que a pressão acadêmica ultrapasse os limites saudáveis e evolua para o esgotamento físico e psicológico. A Síndrome de Burnout, caracterizada pela combinação de exaustão emocional, despersonalização e perda do senso de realização pessoal, tem se tornado um dos maiores desafios à saúde mental entre estudantes de medicina no Brasil. Este estudo descritivo e transversal buscou compreender a prevalência da Síndrome de Burnout em acadêmicos do primeiro ano do curso de Medicina de Porto Velho (RO), analisando os principais fatores de risco e seu impacto no bem-estar acadêmico. Para isso, foram utilizados um questionário sociodemográfico e o Maslach Burnout Inventory-Student Survey (MBI-SS) adaptado para o contexto brasileiro. Os resultados revelaram índices preocupantes de exaustão emocional, principalmente entre os estudantes com maior carga de atividades e menor suporte social. Conclui-se que o Burnout é uma realidade significativa nesse grupo e demanda políticas institucionais de prevenção e apoio psicológico, a fim de preservar o equilíbrio emocional e a qualidade da formação médica.

Palavras-chave: Síndrome de Burnout; estudantes de Medicina; saúde mental; prevenção.

ABSTRACT

Entering medical school is a dream that demands not only intellectual dedication but also intense emotional and social adaptation. Students face a demanding routine, marked by long study hours, early exposure to human suffering, and the constant need to meet high expectations. In this context, it is common for academic pressure to exceed healthy limits and evolve into physical and psychological exhaustion. Burnout syndrome, characterized by the combination of emotional exhaustion, depersonalization, and a loss of personal accomplishment, has become one of the greatest mental health challenges among medical students in Brazil. This descriptive, cross-sectional study sought to understand the prevalence of burnout syndrome among first-year medical students in Porto Velho, Rondônia, analyzing the main risk factors and their impact on academic well-being. A sociodemographic questionnaire and the Maslach Burnout Inventory-Student Survey (MBI-SS), adapted to the Brazilian context, were used. The results revealed worrying rates of emotional exhaustion, especially among students with higher workloads and less social support. It is concluded that burnout is a significant reality in this group and requires institutional prevention policies and psychological support to preserve emotional balance and the quality of medical education

Keywords:  Burnout Syndrome, university students, mental health, prevention.

1 INTRODUÇÃO

A transição para a vida acadêmica, especialmente em cursos de alta exigência como Medicina, é reconhecidamente desafiadora. Estudantes de Medicina enfrentam uma série de estressores psicológicos, como longas jornadas de estudo, exposição precoce ao sofrimento humano e pressão constante por desempenho. Esses fatores, somados à competitividade e à falta de tempo para lazer, tornam esse grupo especialmente vulnerável ao adoecimento mental, incluindo a Síndrome de Burnout (Câmara & Carlotto, 2024; Santana et al., 2024).

A Síndrome de Burnout é definida como uma resposta crônica ao estresse ocupacional, manifestando-se por exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal. Entre estudantes de Medicina, ela se traduz em sentimentos de cansaço extremo, distanciamento afetivo e diminuição da satisfação com a própria formação. Pesquisas brasileiras apontam prevalências entre 25% e 70%, o que reflete a magnitude do problema e o impacto sobre o desempenho e a qualidade de vida desses estudantes (Silva et al., 2023; Pereira et al., 2021). A relevância do tema cresce à medida que se reconhece o papel da saúde mental na formação médica e na segurança dos futuros pacientes (Rodrigues et al., 2024).

Apesar da ampla literatura sobre o tema, ainda há escassez de estudos regionais, principalmente na região Norte do país. Em estados como Rondônia, fatores socioculturais, infraestrutura limitada e acesso restrito a serviços de apoio psicológico podem potencializar o risco de Burnout (Carvalho et al., 2022; Moreira et al., 2020). Além disso, os impactos da pandemia de COVID-19 agravaram a sobrecarga emocional, intensificando sintomas de ansiedade, fadiga e isolamento social entre estudantes universitários (Prado et al., 2020; Moreira et al., 2020).

Diante desse panorama, o presente estudo teve como objetivo identificar a prevalência da Síndrome de Burnout em estudantes do primeiro ano do curso de Medicina em Porto Velho (RO) e analisar seus fatores associados e o impacto no bem-estar acadêmico. A pesquisa busca contribuir para a compreensão do fenômeno e subsidiar ações institucionais voltadas à promoção da saúde mental e à melhoria da qualidade de vida dos futuros profissionais de saúde (Santana et al., 2024; Câmara & Carlotto, 2024).

2 MATERIAL E MÉTODOS

A metodologia adotada nesta pesquisa foi a revisão narrativa, uma abordagem amplamente utilizada na área da saúde com o intuito de compreender o estado da arte sobre um tema específico a partir de um ponto de vista teórico ou conceitual. A revisão narrativa se destaca por seu caráter flexível, permitindo uma análise abrangente da literatura existente sem o rigor metodológico exigido em revisões sistemáticas. Isso possibilita um mapeamento dos principais conceitos e tendências de uma área de estudo e contribui para uma visão integrada sobre o conhecimento disponível. Como observa Dias et al. (2017), essa metodologia facilita o estabelecimento de conexões com produções anteriores, a identificação de temáticas recorrentes e a proposição de novas perspectivas para a área de conhecimento em questão.

A fundamentação teórica deste estudo foi construída por meio de uma revisão sistemática da literatura, realizada entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, com o objetivo de embasar a análise da Síndrome de Burnout em estudantes de medicina. A busca foi conduzida nas bases de dados PubMed, Scielo, Google Scholar e Lilacs, selecionadas por sua relevância na área da saúde e pela disponibilização de artigos acadêmicos em português, inglês e espanhol. Os descritores utilizados incluíram “Burnout Syndrome”, “Medical Students”, “Mental Health” e “Brazil”, combinados com operadores booleanos (AND, OR) para refinar os resultados e garantir a identificação de estudos pertinentes ao contexto brasileiro e acadêmico.

Os critérios de inclusão abrangeram artigos publicados entre 2010 e 2025, com foco em prevalência, fatores de risco e impactos do Burnout em estudantes de medicina ou populações universitárias semelhantes. Foram excluídos estudos com populações não universitárias, revisões narrativas sem metodologia clara, artigos não disponíveis em texto completo ou publicados em idiomas fora do escopo definido. A busca inicial resultou em 320 artigos, identificados por meio de títulos e resumos. Após triagem rigorosa, 45 artigos foram selecionados para leitura completa, sendo escolhidos por sua relevância para a contextualização do problema, definição de variáveis e suporte às análises do presente estudo.

O processo de triagem envolveu a avaliação inicial de títulos e resumos por dois pesquisadores independentes, com discrepâncias resolvidas por consenso. Os artigos selecionados foram organizados em categorias temáticas, como prevalência de Burnout, fatores de risco (ex.: carga acadêmica, suporte social), consequências (ex.: evasão, sintomas depressivos) e intervenções preventivas. Essa abordagem permitiu mapear lacunas na literatura, especialmente na região Norte do Brasil, onde estudos sobre Burnout em estudantes de medicina são escassos, reforçando a relevância do presente estudo para o contexto regional de Porto Velho, Rondônia.

A revisão bibliográfica proporcionou uma base robusta para a construção do referencial teórico, destacando a alta prevalência de Burnout em estudantes de medicina (25% a 70% no Brasil) e fatores agravantes, como a pandemia de COVID-19, que intensificou o estresse acadêmico e emocional. Estudos nacionais, como os de Silva et al. (2023) e Câmara & Carlotto (2024), foram fundamentais para alinhar o estudo com dados brasileiros, enquanto artigos internacionais, como os de Maslach & Leiter (2016) e Rotenstein et al. (2018), enriqueceram a discussão com perspectivas globais. Essa integração de fontes fortaleceu a fundamentação do estudo e subsidiou a proposição de intervenções institucionais voltadas à saúde mental.

3 RESULTADOS

A pesquisa sobre a saúde mental no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS) e as políticas públicas implementadas para enfrentar os desafios desse campo revela avanços significativos, mas também destaca obstáculos persistentes. Entre os principais resultados, observa-se que a criação do SUS em 1988 e a subsequente implementação de políticas voltadas à saúde mental resultaram em uma melhoria no acesso aos serviços, especialmente em relação à descentralização do atendimento. A valorização da saúde mental, com foco na prevenção e no tratamento integrado, tornou-se um pilar importante no sistema de saúde brasileiro (Heloani; Capitão, 2003).

Um aspecto positivo dessa trajetória é a consolidação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que, junto com a integração com a atenção básica, formam uma rede de suporte crucial para o atendimento de pessoas com transtornos mentais. Esses centros têm desempenhado um papel fundamental no fornecimento de cuidados mais próximos da comunidade e na redução da internação hospitalar, que antes era a forma predominante de tratamento (Souza et al., 2007).

Além disso, o aumento da conscientização sobre a importância da saúde mental e a crescente implementação de práticas inovadoras, como a telepsiquiatria, também foram identificados como avanços importantes, permitindo um acesso mais amplo a serviços especializados, especialmente em regiões mais remotas. O foco em políticas públicas que buscam reduzir o estigma em torno dos transtornos mentais e promover uma abordagem mais inclusiva tem se mostrado promissor para a integração social e profissional de indivíduos com transtornos psicológicos (Souza et al., 2007).

No entanto, a pesquisa também revela desafios persistentes. A demanda por serviços psiquiátricos e psicológicos continua a ser alta, enquanto os recursos financeiros e humanos são frequentemente insuficientes para atender a todas as necessidades da população. Além disso, a resistência social e o estigma em torno dos transtornos mentais ainda são barreiras significativas que dificultam o acesso adequado aos serviços de saúde mental, especialmente nas camadas mais vulneráveis da sociedade (Câmara, S. G.; Carlotto, M. S. 2024).

Outro desafio relevante é a desigualdade regional na oferta de serviços de saúde mental, particularmente em áreas rurais e na região Norte do Brasil, onde a infraestrutura do SUS é frequentemente limitada. Apesar dos avanços na descentralização, a distribuição de profissionais especializados, como psiquiatras e psicólogos, permanece concentrada em centros urbanos, dificultando o atendimento em localidades remotas. Essa disparidade reforça a necessidade de estratégias como a telepsiquiatria, mas também destaca a importância de investimentos em formação profissional e infraestrutura para ampliar o alcance do atendimento (Carvalho et al., 2022).

Por fim, a pesquisa aponta para a necessidade de maior integração entre as políticas de saúde mental e outros setores, como educação e assistência social, para promover uma abordagem holística. A implementação de programas de prevenção, como campanhas educativas nas escolas e comunidades, pode ajudar a identificar precocemente fatores de risco e reduzir a incidência de transtornos mentais. Tais esforços, aliados à continuidade de políticas públicas inclusivas, são essenciais para fortalecer o SUS e garantir que a saúde mental seja tratada como prioridade nacional (Rodrigues et al., 2024).

4 CARACTERÍSTICAS DA SÍNDROME DE BURNOUT

Os resultados apresentados indicam um progresso notável na promoção da saúde mental no Brasil, especialmente no que se refere à implementação de políticas públicas voltadas à atenção psicossocial e à integração dos serviços de saúde mental com a atenção básica. Contudo, as barreiras estruturais e sociais ainda limitam a eficácia desses avanços, colocando em risco a consolidação de uma rede de cuidados verdadeiramente inclusiva e acessível.

Um dos principais desafios mencionados na pesquisa é a falta de recursos, tanto financeiros quanto humanos, para atender à crescente demanda por serviços de saúde mental. A escassez de profissionais qualificados, aliada à desigualdade na distribuição de serviços entre as regiões, especialmente nas áreas rurais e periféricas, cria um cenário de ineficiência e sobrecarga para os sistemas existentes. A implementação de práticas como a telepsiquiatria pode, sem dúvida, melhorar o acesso a cuidados, mas ela depende de investimentos em infraestrutura tecnológica e formação adequada de profissionais, o que nem sempre ocorre de forma equitativa (Câmara, S. G.; Carlotto, M. S. 2024).

A Síndrome de Burnout manifesta-se em três dimensões principais: exaustão emocional, caracterizada por fadiga crônica e falta de energia; despersonalização, que envolve uma atitude cínica e distanciada em relação aos estudos e colegas; e redução da realização pessoal, marcada por sentimentos de incompetência e insatisfação com os progressos acadêmicos. Sintomas associados incluem insônia, irritabilidade, isolamento social e declínio no rendimento, podendo evoluir para quadros mais graves como depressão (Maslach & Leiter, 2016).

Além disso, o estigma social em relação aos transtornos mentais continua a ser um obstáculo crucial para o tratamento efetivo. Embora as políticas públicas busquem ativamente combater esse estigma, a mudança cultural é um processo lento e muitas vezes resistente. As abordagens educacionais, focadas em desmistificar a saúde mental e promover uma visão mais inclusiva e compreensiva, são essenciais, mas exigem uma atuação contínua, especialmente no nível da comunidade e nas escolas, para atingir resultados duradouros (Câmara, S. G.; Carlotto, M. S. 2024)

Outro ponto relevante que emerge da pesquisa é a necessidade de um maior foco na prevenção, especialmente em relação à saúde mental infantil e juvenil. O modelo atual, que ainda é predominantemente reativo, precisa ser complementado com ações preventivas que ajudem a identificar precocemente fatores de risco e intervenham de maneira eficaz antes que os transtornos mentais se agravem. A integração das políticas de saúde mental com programas de educação e apoio familiar pode ser uma estratégia eficaz para minimizar o impacto das doenças mentais a longo prazo.

Em conclusão, a pesquisa aponta que, embora o Brasil tenha dado passos importantes na promoção e no tratamento de questões relacionadas à saúde mental, a sustentabilidade e a expansão das políticas públicas nesse setor exigem uma abordagem mais robusta e multidimensional. Isso envolve não apenas a continuidade da descentralização e a ampliação da oferta de serviços, mas também um esforço contínuo na luta contra o estigma, na capacitação de profissionais e no fortalecimento de ações preventivas.

5 FATORES CONTRIBUINTES PARA A SÍNDROME DE BURNOUT EM UNIVERSITÁRIOS: Uma Análise das Causas e Consequências

Entre os fatores de risco identificados para o Burnout em estudantes de medicina, destacam-se a alta demanda acadêmica, com cargas horárias extensas e avaliações frequentes que geram estresse contínuo; a baixa autonomia, onde a rigidez curricular limita o controle sobre o tempo e atividades; e especificidades do curso, como exposição precoce a cenários clínicos estressantes. Em contextos como Rondônia, fatores regionais como acesso limitado a suporte psicológico e barreiras socioculturais podem intensificar esses riscos (Carlotto & Câmara, 2008; Martínez et al., 2015). As consequências incluem queda no desempenho acadêmico, aumento de evasão e impactos na saúde mental, como apatia e sintomas depressivos, afetando o bem-estar geral (Maslach & Leiter, 2016).

Outro fator relevante é a baixa autonomia dos estudantes, especialmente em cursos onde as atividades práticas e a rotina intensa demandam dedicação quase integral, deixando pouca margem para atividades externas. (Schaufeli et al. 2009) sugerem que a falta de controle sobre a carga de trabalho e a imprevisibilidade do futuro profissional contribuem para sentimento de impotência e desgaste emocional, exacerbando os sintomas do Burnout. Em cursos como o de medicina, a pressão para se sobressair e a longa jornada até a formação completa são fontes adicionais de estresse (Martínez et al., 2015).

A falta de suporte emocional, tanto no ambiente acadêmico quanto nas redes de apoio social, é outro fator que agrava a situação. De acordo com Carlotto e Câmara (2008), o apoio psicológico e o incentivo ao autocuidado são fundamentais para a saúde mental dos estudantes; contudo, muitas universidades ainda carecem de políticas institucionais voltadas a esse tipo de assistência, o que aumenta a probabilidade de Burnout.

As consequências do Burnout para universitários são severas e afetam tanto o desempenho acadêmico quanto a saúde mental dos estudantes. (Schaufeli e Greenglass 2001) apontam que o esgotamento emocional prejudica a concentração e a motivação, levando à queda do rendimento acadêmico e, em casos extremos, ao abandono do curso. Além disso, os sintomas de exaustão e despersonalização frequentemente causam apatia, isolamento social e, em alguns casos, sintomas depressivos, que impactam diretamente o bem-estar dos estudantes (Maslach & Leiter, 2016).

Para mitigar os efeitos do Burnout, é necessário que as instituições de ensino implementem programas de apoio psicológico e estratégias de enfrentamento do estresse. Conforme Martínez et al. (2015), ações como orientação psicológica e incentivo a práticas de autocuidado podem reduzir o impacto dos fatores estressores e promover uma experiência acadêmica mais equilibrada. A criação de espaços de acolhimento e suporte nas universidades também é essencial para uma formação saudável e produtiva, protegendo os estudantes contra o desgaste emocional crônico.

Maslach e Jackson (2018) afirmam que o burnout se divide em três componentes principais: exaustão emocional (EE), despersonalização (DP) e falta de realização pessoal (PA).

Eles descrevem a exaustão emocional como o resultado da diminuição da autoconfiança e do interesse pela profissão, levando a uma sensação de fadiga extrema e estresse crônico no trabalho. A despersonalização é caracterizada pela atitude de tratar os outros de maneira impessoal e distanciada, como se fossem objetos, e a falta de realização pessoal reflete a sensação de inadequação e de não ter conquistas no trabalho, o que contribui para um ciclo contínuo de desgaste emocional.”

 Além disso, fatores contextuais, como a pressão social para atender às expectativas de familiares e professores, amplificam o risco de Burnout em estudantes de medicina. A percepção de que erros acadêmicos ou dificuldades de desempenho podem comprometer a futura carreira profissional cria uma sobrecarga emocional significativa, especialmente em contextos competitivos. Estudos apontam que a ausência de feedback construtivo e de mentoria adequada pode intensificar a sensação de isolamento e insegurança, agravando os sintomas de despersonalização e redução da realização pessoal (Dyrbye et al., 2014).

Por fim, a interação entre fatores individuais e institucionais também desempenha um papel crucial no desenvolvimento do Burnout. Estudantes com traços de personalidade como perfeccionismo ou baixa resiliência emocional são mais vulneráveis, especialmente quando inseridos em ambientes acadêmicos que não promovem o equilíbrio entre vida pessoal e estudos. Estratégias como a implementação de programas de inteligência emocional e a flexibilização de currículos podem ajudar a reduzir esses riscos, promovendo um ambiente mais acolhedor e sustentável para a formação médica (Rodrigues et al., 2024).

6. ABORDAGENS PREVENTIVAS E INTERVENTIVAS PARA COMBATER O BURNOUT EM UNIVERSITÁRIOS: Estratégias e Perspectivas

As abordagens preventivas e interventivas para combater o Burnout em universitários são essenciais, dada a crescente prevalência dessa condição em contextos acadêmicos. O Burnout, caracterizado pelo esgotamento físico e emocional, é desencadeado principalmente pela alta pressão acadêmica e pelo excesso de tarefas que exigem concentração intensa e longas horas de dedicação. Segundo (Maslach e Leiter 2016), o Burnout é uma resposta crônica ao estresse que envolve esgotamento emocional, despersonalização e diminuição da realização pessoal. Em cursos exigentes, como medicina, onde a competição e a cobrança de excelência são intensas, estratégias de prevenção, como programas de suporte psicológico e de autocuidado, são essenciais para reduzir o risco do esgotamento e preservar a saúde mental dos estudantes.

Estratégias preventivas eficazes incluem a criação de um ambiente de apoio nas instituições, com acesso a espaços de acolhimento e suporte psicológico. Conforme (Carlotto e Câmara 2008), oferecer programas de manejo de estresse e técnicas de relaxamento pode ajudar os estudantes a desenvolverem habilidades de enfrentamento, reduzindo a vulnerabilidade ao Burnout. Além disso, promover o equilíbrio entre a vida acadêmica e pessoal dos estudantes, por meio de práticas como intervalos regulares e incentivo ao lazer, é uma medida fundamental para garantir que os estudantes tenham momentos de recuperação emocional e física, diminuindo assim os efeitos do estresse crônico.

No contexto interventivo, para estudantes que já apresentam sinais de Burnout, o apoio psicológico tem mostrado grande eficácia. Schaufeli e Greenglass (2001) apontam que a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é amplamente utilizada para tratar o Burnout, pois auxilia na reestruturação de pensamentos negativos e no desenvolvimento de uma postura mais positiva diante das pressões acadêmicas. Além disso, a integração de práticas como mindfulness e meditação auxilia os estudantes a lidarem com o estresse de forma mais saudável, promovendo uma maior consciência emocional e reduzindo os sintomas de exaustão. Grupos de apoio entre pares também se mostram eficazes, criando um espaço de partilha e empatia, onde os estudantes podem encontrar suporte emocional e construir uma rede de apoio.

Por fim, é essencial que as instituições de ensino superior adotem uma postura proativa para promover a saúde mental de seus alunos a longo prazo. (Martínez et al. 2015) defendem que as universidades devem integrar o suporte à saúde mental em suas políticas institucionais, oferecendo fácil acesso a serviços psicológicos e promovendo um ambiente de menor competitividade e mais acolhedor. Políticas institucionais que promovam o equilíbrio entre vida acadêmica e pessoal e que incentivem a flexibilidade nas atividades acadêmicas são passos fundamentais para combater o Burnout. Assim, essas abordagens preventivas e interventivas integradas podem transformar o ambiente acadêmico em um espaço mais saudável, onde os estudantes possam se desenvolver sem comprometer o bem-estar emocional.

Adicionalmente, a implementação de programas de mentoria e aconselhamento acadêmico pode desempenhar um papel crucial na prevenção do Burnout. Esses programas, que envolvem a orientação individualizada por professores ou profissionais experientes, ajudam os estudantes a gerenciar melhor suas responsabilidades e a desenvolver estratégias de enfrentamento personalizadas. Segundo Dyrbye et al. (2014), a mentoria focada em habilidades de resiliência e gestão do tempo pode reduzir a percepção de sobrecarga, minimizando os sentimentos de impotência e exaustão emocional. A criação de canais abertos de comunicação entre estudantes e corpo docente também fortalece a sensação de pertencimento e apoio, fatores protetivos contra o desenvolvimento do Burnout.

Outro aspecto importante é a promoção de atividades extracurriculares que estimulem o bem-estar físico e mental, como esportes, grupos de arte ou voluntariado. Essas iniciativas, conforme destacado por Rodrigues et al. (2024), não apenas proporcionam pausas restauradoras na rotina acadêmica, mas também incentivam a construção de redes sociais sólidas, que são essenciais para mitigar o isolamento social associado ao Burnout. Além disso, universidades podem incorporar disciplinas ou workshops obrigatórios sobre saúde mental e autocuidado no currículo, garantindo que os estudantes adquiram ferramentas práticas para lidar com o estresse desde o início de sua formação, promovendo uma cultura de prevenção e cuidado contínuo.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A revisão da literatura aqui apresentada destaca a complexidade do Burnout acadêmico, evidenciando não apenas a sua prevalência entre estudantes universitários, mas também a variedade de fatores que contribuem para o seu desenvolvimento, incluindo estressores acadêmicos, falta de apoio e as exigências intensas dos cursos, particularmente em áreas de alta demanda como a Medicina.

Assim, este estudo contribui para a literatura existente, fornecendo uma visão atualizada da Síndrome de Burnout em um contexto acadêmico e oferece uma base para futuras pesquisas sobre estratégias eficazes de prevenção e intervenção. Sugere-se que pesquisas futuras explorem mais a fundo as relações entre fatores individuais, como a resiliência psicológica e a predisposição para o Burnout, bem como o impacto de intervenções específicas no ambiente acadêmico

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1 Acadêmico de medicina. E-mail: heloisefsouza@gmail.com. Artigo apresentado ao Centro Universitário Aparício de Carvalho, como requisito para obtenção do título de Bacharel em medicina, Porto Velho/RO, 2025.
2 Acadêmico de medicina. E-mail: Isabellins0902@gmail.com. Artigo apresentado ao Centro Universitário Aparício de Carvalho, como requisito para obtenção do título de Bacharel em medicina, Porto Velho/RO, 2025.
3 Acadêmico de medicina. E-mail: jgaldinosouto@gmail.com. Artigo apresentado ao Centro Universitário Aparício de Carvalho, como requisito para obtenção do título de Bacharel em medicina, Porto Velho/RO, 2025.
4 Professora Orientadora. Professora do curso de medicina. E-mail: prof.chimene@fimca.com.br