SILICOSE: OCCUPATIONAL LUNG DISEASE
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202503312303
Fabiane Montagna1
Fernando Costenaro2
João Victor Sousa Santos3
RESUMO
A silicose é a mais antiga, mais grave e mais prevalente das doenças pulmonares relacionadas à inalação de poeiras minerais, confirmando a sua importância na lista das pneumoconioses. Esta pesquisa tem por finalidade trazer mais informações sobre a silicose para os trabalhadores e profissionais de saúde. A metodologia para esse trabalho partiu da revisão da literatura básica, realizada no período de junho a julho de 2015, onde foram pesquisados artigos com as palavras chave “silicose” e “doenças ocupacionais”. Assim foi realizada dentro da literatura especializada, em um total de 14 trabalhos que correlacionavam os critérios de inclusão, uma análise sobre o perfil epidemiológico, as conseqüências da exposição à sílica e como se proteger. O presente artigo pode concluir, baseado em várias literaturas, que apesar da silicose ser uma doença ocupacional conhecida há muito tempo, ainda hoje se configura como um problema de saúde pública, pois é a causa de invalidez e morte de muitos trabalhadores que trabalharam expostos à sílica. Não existe tratamento curativo para a silicose, portanto a prevenção assume grande importância.
Palavras-chave: silicose; Doença ocupacional; perfil clínico; prevenção.
1. INTRODUÇÃO
Sabe-se há muito tempo que o ambiente de trabalho pode ser uma fonte potencial de exposição a agentes químicos, físicos e biológicos, os quais podem predispor os trabalhadores ao desenvolvimento de doenças ocupacionais caso medidas preventivas não sejam adotadas (ALVES et al., 2025). Entretanto, apenas a partir do final do século XIX e início do século XX surgiram as noções de higiene e segurança do trabalho, impulsionadas, não por uma preocupação humanitária, mas sim pelo interesse em aumentar a produtividade dos trabalhadores (HIGGS, 2010).
Os pulmões são os primeiros órgãos a sofrerem com a poluição do ar, pois estão em contato direto com contaminantes que podem causar pneumoconioses, como a silicose (BAGATIN, 2010). Esta doença decorre da inalação de formas cristalinas de sílica livre, resultando em uma resposta tecidual pulmonar caracterizada por lesões nodulares que podem evoluir para fibrose maciça pulmonar, comprometendo significativamente a função respiratória (GUTIERREZ et al., 2010; RIBEIRO et al., 2024).
A silicose é considerada a mais antiga, mais grave e mais prevalente das pneumoconioses relacionadas à inalação de poeiras minerais, destacando sua importância no cenário das doenças pulmonares ocupacionais (AZEVEDO; SCHÜTZ, 2021). Em uma sociedade industrializada que constantemente introduz novas tecnologias, materiais e processos, novos riscos surgem, aumentando as preocupações das entidades responsáveis pela implementação de medidas de proteção aos trabalhadores (FAGUNDES; ZANELLATO, 2010).
Diante desse contexto, medidas preventivas vêm sendo adotadas para minimizar os riscos aos trabalhadores expostos à sílica. Destaca-se, por exemplo, a proibição do jateamento de areia em todo o país como uma iniciativa para reduzir a incidência da doença (ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE ENFERMAGEM DO TRABALHO, 2010). Além disso, avanços em biomarcadores inflamatórios vêm contribuindo para um diagnóstico mais precoce e assertivo da silicose, permitindo um melhor acompanhamento dos trabalhadores expostos (RIBEIRO et al., 2024).
Esta pesquisa tem por finalidade fornecer mais informações sobre a silicose para trabalhadores e profissionais de saúde. A metodologia adotada baseia-se em uma revisão bibliográfica de artigos científicos, revistas especializadas e outras literaturas acadêmicas voltadas para a saúde ocupacional e doenças pulmonares relacionadas à exposição ocupacional à sílica.
2. METODOLOGIA
Este estudo foi desenvolvido por meio de uma revisão bibliográfica, utilizando como base livros, artigos científicos e documentos institucionais que abordam a silicose e suas implicações na saúde ocupacional. A pesquisa foi direcionada para a compreensão dos mecanismos fisiopatológicos da doença, sua prevalência, formas de diagnóstico, impacto epidemiológico e estratégias de prevenção, com foco na legislação trabalhista e medidas de proteção ambiental e individual.
Foram consultadas bases de dados científicas, como PubMed, Scielo, Google Acadêmico, publicações de órgãos reguladores e referências clássicas sobre o tema. A seleção dos materiais seguiu critérios de relevância e atualidade, priorizando estudos publicados nos últimos 15 anos, além de referências históricas fundamentais. Dessa forma, a metodologia adotada permitiu a construção de uma visão ampla e embasada sobre a silicose e seus impactos na saúde dos trabalhadores expostos à sílica.
3. EMBASAMENTO TEÓRICO
As doenças pulmonares ocupacionais estão entre as principais causas de morbidade entre as doenças ocupacionais. Segundo a Associação Nacional de Enfermagem do Trabalho (2010), diariamente, em média, 137 indivíduos morrem devido a doenças relacionadas ao trabalho. A cada 10 segundos, um trabalhador sofre incapacitação temporária ou permanente, e o custo das doenças ocupacionais foi estimado em US$ 121 bilhões. Dentro desse grupo, as doenças pulmonares ocupacionais são uma das principais causas de morbimortalidade entre os trabalhadores (Bagatin, 2010).
A silicose é uma doença pulmonar causada pela inalação de sílica ou poeiras minerais contendo silicatos, acometendo trabalhadores de diversas indústrias (Fagundes & Zanellato, 2010). Provavelmente, é a doença ocupacional mais antiga dentro do grupo das pneumoconioses, sendo inicialmente descrita por Hipócrates, que observou dificuldades respiratórias em mineradores.
A sílica é um grupo de minerais compostos por silício e oxigênio, os dois elementos mais abundantes na crosta terrestre. A sílica cristalina está presente em materiais amplamente utilizados na indústria, como tijolos, argamassa, vidro, cerâmica e abrasivos (Guia, 2010). As principais atividades silicogênicas incluem mineração, extração em pedreiras, indústria de cerâmica, escavação de túneis, jateamento de areia e moagem de granito (Goelzer & Handar, 2010). Estudos recentes demonstram que cavadores de poços também estão sujeitos a alto risco de desenvolver silicose (Gutierrez et al., 2010). No Brasil, as atividades mais associadas à doença incluem jateamento de areia na indústria metalúrgica, fabricação de vidro e construção naval (Associação Nacional de Enfermagem do Trabalho, 2010).
O comportamento epidemiológico da silicose tem mudado devido ao avanço do conhecimento sobre sua prevenção e à introdução de novas tecnologias na produção de materiais contendo sílica. Em países industrializados, o número de casos tem diminuído devido à adoção de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e outras medidas preventivas. No entanto, em países em desenvolvimento, a incidência continua crescente devido à falta de prevenção e ao surgimento de novas tecnologias que aumentam a exposição ocupacional à sílica (Ribeiro et al., 2024).
Segundo Gutierrez et al. (2010), “medidas de higiene industrial que controlam a concentração de poeira no ar têm reduzido a prevalência da silicose em muitas indústrias”. Contudo, a doença ainda é um problema global, com alta incidência em países em desenvolvimento, como África do Sul (13 a 31%) e Índia (22 a 55%)”. No Brasil, a silicose é a pneumoconiose mais prevalente, especialmente em atividades que envolvem exposição direta à sílica.
A silicose é a principal causa de invalidez entre as doenças respiratórias ocupacionais. Nos EUA, foi responsável por 14.824 óbitos entre 1968 e 1994. No Brasil, um estudo revelou uma prevalência de 27% de silicose em cavadores de poços no Ceará (Azevedo & Schütz, 2021). Em outro estudo em Ibiapina (CE), 40,6% dos cavadores entrevistados eram portadores da doença (Lombardi, 2023).
As partículas de sílica inaladas, especialmente aquelas menores que 5 μm, são depositadas nos bronquíolos e alvéolos, sendo as menores que 1 μm as mais fibrogênicas. Os macrófagos fagocitam essas partículas, ativando o complemento e liberando C5a, um potente quimioatraente. Esse processo pode levar à análise celular, ativação de fibroblastos e formação de nódulos silicóticos (Marques et al., 2024).
Além da silicose, a exposição crônica à poeira de sílica cristalina pode aumentar o risco de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), enfisema e tuberculose (Gutierrez et al., 2010). O diagnóstico é baseado na história clínica e ocupacional, sendo a radiografia o principal método diagnóstico, embora a tomografia computadorizada de alta resolução possa identificar alterações precoces (Alves et al., 2025).
A silicose apresenta três formas clínicas: aguda, acelerada e crônica. A forma aguda ocorre após exposição intensa e pode evoluir rapidamente para insuficiência respiratória e óbito. A forma acelerada manifesta-se entre 5 e 10 anos de exposição, com formação de nódulos silicóticos semelhantes aos da forma crônica (Lombardi, 2023). A forma crônica é a mais comum, surgindo após 10 a 15 anos de exposição. Os pacientes podem desenvolver fibrose maciça progressiva, insuficiência cardíaca congestiva e cor pulmonale (Marques et al., 2024).
Apesar dos avanços no entendimento da fisiopatologia da silicose, ainda não há tratamento eficaz. A prevenção por meio do controle da exposição à poeira de sílica é a principal estratégia para reduzir a incidência da doença. O uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), medidas de controle ambiental e monitoramento ocupacional são fundamentais para prevenir novos casos (Goelzer & Handar, 2010).
4. RESULTADOS
Os achados desta revisão bibliográfica confirmam que a silicose continua sendo um problema significativo de saúde pública, principalmente em países em desenvolvimento, onde as medidas de proteção são deficientes. Embora a conscientização sobre a doença tenha aumentado e regulamentações tenham sido implementadas, ainda há elevada incidência da enfermidade, especialmente em setores como mineração, construção civil e indústria cerâmica. A pesquisa demonstrou que a prevenção é a única estratégia eficaz, visto que não há tratamento curativo para a silicose. A adoção de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), controle ambiental e exames médicos periódicos são fundamentais para reduzir a exposição e evitar novos casos.
5. DISCUSSÃO
A silicose é uma doença pulmonar evitável, mas continua sendo altamente prevalente entre trabalhadores expostos à poeira de sílica, especialmente em países onde as políticas públicas de prevenção e fiscalização são ineficazes (GUTIERREZ et al., 2010). A elevada morbidade e mortalidade associadas à doença refletem a necessidade de intensificação das medidas de controle ocupacional, incluindo a implementação rigorosa de normas regulamentadoras, como a NR-15 e a NR-9, que estabelecem limites de exposição e obrigatoriedade de programas de prevenção (HIGGS, 2010).
Estudos demonstram que, apesar da proibição do jateamento de areia e das iniciativas para reduzir a exposição ocupacional, a incidência da silicose permanece alta em determinadas indústrias (ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE ENFERMAGEM DO TRABALHO, 2010). Isso ocorre, em parte, devido à falta de fiscalização e conscientização dos empregadores e trabalhadores. Além disso, a ausência de equipamentos de proteção adequados e o desconhecimento dos riscos associados à inalação da sílica contribuem para a continuidade do problema.
Outro fator preocupante é a deficiência nos sistemas de vigilância epidemiológica e no registro de casos de silicose, especialmente em pequenos negócios e setores informais (ALVES et al., 2025). A subnotificação da doença impede que medidas corretivas sejam tomadas de forma eficaz, dificultando o planejamento de políticas públicas para reduzir sua incidência. Em países como o Brasil, onde há grande número de trabalhadores expostos à sílica, a melhoria na coleta de dados e no diagnóstico precoce da doença pode ser um diferencial importante para a proteção da saúde ocupacional (RIBEIRO et al., 2024).
Diante desse cenário, torna-se essencial a ampliação das estratégias de prevenção, incluindo capacitação dos trabalhadores, campanhas de conscientização e incentivos para a adoção de tecnologias menos agressivas à saúde respiratória (SANTOS et al., 2024). Além disso, é necessário o fortalecimento da fiscalização para garantir o cumprimento das normas regulamentadoras e evitar a exposição inadequada dos trabalhadores a poeiras minerais, reduzindo, assim, os índices de silicose e suas complicações associadas (PERIN et al., 2022).
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com o presente estudo, constatou-se, através de pesquisa bibliográfica que apesar da silicose ser uma doença ocupacional conhecida há muito tempo, ainda hoje se configura como um problema de saúde pública, pois é a causa de invalidez e morte de muitos trabalhadores que trabalharam expostos à sílica.
Não existe tratamento curativo para a silicose, portanto a prevenção assume grande importância, como o uso por parte dos trabalhadores de EPI’s, com o controle adequado da ventilação e da concentração de poeira presente no ar, com a umidificação do ambiente na tentativa de diminuir o levantamento de poeira, bem como a verificação periódica da concentração ambiental de agentes nocivos.
A falta de políticas públicas e de fiscalização dificultam a adoção de ações preventivas que diminuiriam os riscos de se adquirir a silicose. Um fator importante é a falta de conscientização quanto à existência do problema e sua magnitude, por parte dos governantes, como também o desconhecimento das soluções possíveis e disponíveis.
Outro ponto ligado também à vontade política refere-se à deficiência nas estatísticas de silicose e outras doenças profissionais em geral, particularmente nas pequenas empresas, na mineração e na indústria da construção, onde muitos trabalhadores não são devidamente registrados, e por fim a dificuldade quanto ao diagnóstico da doença.
REFERÊNCIAS
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1Médica bacharel pelas Faculdades Integradas Aparício Carvalho – FIMCA. e-mail: Fabiane_montagna@hotmail.com
2Médico bacharel pelas Faculdades Integradas Aparício Carvalho – FIMCA. e-mail: fernando_costenaro@hotmail.com.
3Cirurgião Dentista Bacharel pelo Centro Universitário Aparício Carvalho. e-mail: silva.victor200@gmail.com