SAINDO DO ARMÁRIO: O IMPACTO DO APOIO DAS FAMÍLIAS NA SAÚDE MENTAL DE JOVENS LGBTQIAPN+

COMING OUT OF THE CLOSET: THE IMPACT OF FAMILY SUPPORT ON THE MENTAL HEALTH OF LGBTQIAPN+ YOUNG PEOPLE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202507130141


Josiele Feitosa da Silva¹
Kayky dos Santos Sousa¹
Maria Vitória Ferreira de Sousa¹
Andressa Nicole de Sousa Silva¹
Gerlanna Andreya Carvalho de Matos¹
Pedro Wilson Ramos da Conceição²


RESUMO

INTRODUÇÃO: O estudo investiga o impacto do apoio familiar na saúde mental de jovens LGBTQIAPN+ durante o processo de “saída do armário”. A pesquisa busca compreender como a aceitação ou rejeição familiar influencia o bem-estar psicológico e social, destacando a relevância do tema para promover debates e políticas inclusivas. OBJETIVO: O estudo visa apresentar a importância do apoio familiar e psicológico na saúde mental de jovens LGBTQIAPN+ durante o processo de “saída do armário”. Especificamente, busca-se investigar como o suporte emocional da família influencia o bem-estar emocional e psicológico desses jovens, analisar o papel do apoio psicológico na superação de traumas familiares na identidade LGBTQIAPN+ e identificar as percepções sobre o acolhimento recebido. MÉTODOS:O estudo adotou uma abordagem qualitativa e exploratória, utilizando a entrevista semiestruturada e o questionário sociodemográfico para coleta de dados. Foram selecionados cinco jovens LGBTQIAPN+ de uma instituição em Teresina, com base em critérios como difícil vivência do processo e ausência de suporte integral familiar. A Análise de Conteúdo de Bardin foi empregada para interpretar os dados coletados, permitindo identificar padrões e temas relevantes. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi utilizado para garantir os aspectos éticos da pesquisa, resguardando o anonimato dos participantes. RESULTADOS: Os relatos dos participantes destacaram que a rejeição familiar teve impactos significativos na saúde mental, enquanto outros mencionaram uma aceitação condicional, com as famílias tolerando a diversidade apenas em contextos externos, o que gerava sentimentos de exclusão. Além disso, a psicoterapia se mostrou uma ferramenta essencial para superar desafios emocionais e sociais. CONCLUSÃO: A conclusão do estudo destaca que o apoio familiar é essencial para a saúde mental de jovens LGBTQIAPN+, sendo a rejeição familiar associada a problemas como ansiedade, automutilação e baixa autoestima.O apoio psicológico e redes externas, como amigos, foram fundamentais para ajudar na autoaceitação. A pesquisa reforça a necessidade de políticas públicas que promovam a inclusão, a fim de reduzir o impacto da rejeição e garantir o bem-estar desses jovens.

Palavras-chave: LGBTQIAPN+; Apoio Familiar; Saúde Mental.

ABSTRACT

INTRODUCTION: The study investigates the impact of family support on the mental health of LGBTQIAPN+ youth during the “coming out of the closet” process. The research aims to understand how family acceptance or rejection influences psychological and social well-being, highlighting the relevance of the topic to foster debates and inclusive policies. OBJECTIVE: The study seeks to emphasize the importance of family and psychological support for the mental health of LGBTQIAPN+ youth during the “coming out” process. Specifically, it aims to investigate how family emotional support influences their emotional and psychological well-being, analyze the role of psychological support in overcoming family-related trauma in LGBTQIAPN+ identity, and identify perceptions of the care received. METHODS: The study adopted a qualitative and exploratory approach, using semi-structured interviews and a sociodemographic questionnaire for data collection. Five LGBTQIAPN+ youth from an institution in Teresina were selected based on criteria such as challenging experiences during the process and a lack of comprehensive family support. Bardin’s Content Analysis was employed to interpret the collected data, identifying relevant patterns and themes. The Free and Informed Consent Term (FICT) was used to ensure ethical aspects of the research, safeguarding participant anonymity. RESULTS: Participants’ reports highlighted that family rejection had significant impacts on mental health, while others mentioned conditional acceptance, with families tolerating diversity only in external contexts, which generated feelings of exclusion. Furthermore, psychotherapy has proven to be an essential tool for overcoming emotional and social challenges. CONCLUSION: The conclusion of the study highlights that family support is essential for the mental health of LGBTQIAPN+ young people, with family rejection being associated with problems such as anxiety, self-harm and low self-esteem. Psychological support and external networks, such as friends, were fundamental in helping with self-acceptance . The research reinforces the need for public policies that promote inclusion, in order to reduce the impact of rejection and guarantee the well-being of these young people.

Keywords: LGBTQIAPN+; Family Support; Mental Health.

INTRODUÇÃO

O presente estudo aborda a relação entre o impacto do apoio das famílias na saúde mental de jovens LGBTQIAPN+ durante o processo de “saída do armário”, expressão muitas vezes utilizada de forma pejorativa com intenção de descrever esse processo marcado pela autodescoberta, uma experiência que envolve não apenas a autoaceitação mas também uma interação social, desafiando normas sociais e exigindo compreensão e acolhimento, especialmente no ambiente familiar, que muitas vezes se torna um local de confronto e julgamento. Assim, esse estudo busca compreender como a aceitação ou rejeição familiar afeta diretamente o bem-estar emocional, psicológico e social dessa população.

Dada a delicadeza e atualidade do assunto, mostra-se notável a importância do tema como meio de informação científica. Há pouco mais de 30 anos a homossexualidade era considerada um distúrbio mental, sendo retirada dessa categoria pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em um estudo realizado pelo Blog Fundo Brasil, cerca de 51% das pessoas LGBTQIAPN+ relataram ter sofrido algum tipo de violência motivada pela sua orientação sexual ou identidade de gênero. Destas, 94% sofreram violência verbal. Em 13% das ocorrências as pessoas sofreram também violência física. Nota-se, a partir daí, a emergência do estudo sobre o tema em questão. Alinhando-se com a questão em pauta, este estudo visa entender o quanto o auxílio familiar pode ser importante para inclusão social e bem-estar dos jovens LGBTQIAPN+, principalmente na auto aceitação bem como na quebra de barreiras sociais relacionadas aos estigmas do preconceito. Portanto, como o suporte emocional da família e o acompanhamento psicológico impactam na saúde mental dos jovens LGBTQIAPN+?

Diante disso, o objetivo central deste estudo é apresentar a importância do apoio familiar e psicológico na saúde mental de jovens LGBTQIAPN+ durante o processo de “saída do armário”. Para isso, os objetivos específicos buscaram: investigar como o suporte emocional da família influencia a saúde mental dos jovens LGBTQIAPN+, buscando compreender os efeitos deste apoio no bem-estar emocional e psicológico dos indivíduos; analisar como o apoio psicológico pode contribuir para a superação de traumas provocados por familiares na identidade LGBTQIAPN+; demonstrar a percepção dos jovens LGBTQIAPN+ sobre o apoio recebido durante o processo de “saída do armário”.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

O Processo de “Saída do Armário”

O termo pejorativo que tem por sentido a revelação de uma parte essencial identidade de uma pessoa LGBTQIAPN+, também tem por função expressar uma experiência marcante na vida dessa pessoa, uma vez que não envolve apenas a aceitação pessoal, mas também a social. Esse processo pode ser extremamente desafiador com consequências profundas para a saúde mental, principalmente devido aos fatores sociais e culturais que moldam as relações familiares dessa pessoa em determinada região ou contexto em que ela está inserida (Da Silva, et al., 2021).

O apoio familiar é essencial para que a pessoa LGBTQIAPN+ saiba lidar com essa etapa delicada de forma segura e saudável. A aceitação por parte da familia não só fortalece a resiliência desse indivíduo, como também ajuda a diminuir os efeitos do preconceito e discriminação (Costa, 2022). Por outro lado, a rejeição da família em situações de LGBTfobia nesse contexto está diretamente associada a fatores de risco e diferentes variáveis que possam culminar em resultados opressivos e discriminatórios que vulnerabilizam o indivíduo (Costa, 2022).

Vale ressaltar também que nem todas as famílias com membros LGBTQIAPN+ conseguem oferecer o suporte necessário durante o processo de saída do armário. Muitas das vezes em um contexto religioso ou quando as famílias aderem normas heteronormativas, pode haver um estigma tanto dos pares religiosos quantos dos LGBTs onde é possível notar uma grande sensação de rejeição e não aceitação, causando sofrimento aos indivíduos e impactando diretamente em sua saúde mental (Da Silva, et al., 2021).

Além do contexto familiar, a escola também tem um papel importante na formação da identidade dos jovens LGBTQIAPN+. Grande parte desses jovens passam pelo processo de autodescoberta durante a transição da infância para a adolescência, onde, infelizmente, esse mesmo ambiente muitas vezes configura-se um lugar de opressão e discriminação, refletindo normas preconceituosas da sociedade, resultando em altos indices de bullying e discriminação contra essa minoria, provocando efeitos devastadores na saúde mental e em quesões sociais (Tagliamento, et al., 2020).

Nesse sentido, é possível notar também um processo de marginalização nesse ambiente: Jovens e adolescentes que não são tidos como dentro da norma passam a ser rejeitados e podem experimentar diversos tipos de preconceitos e, em até alguns casos, uma “evasão” (expulsão) da escola. (Tagliamento, et al., 2020). Em uma pesquisa realizada em 2015, dos 1.016 alunos em um contexto escolar,

60% dos entrevistados se mostraram inseguros com relação à orientação sexual, e 43% por causa da suas identidades e expressão de gênero. pessoas trans, que compuseram 55% dos entrevistados sofreram mais com relação a comentários pejorativos e, 73% relataram ter sofrido algum tipo de agressão verbal por conta da orientação sexual (Tagliamento, et al., 2020).

Nesse cenário, as redes de apoio desempenham um papel fundamental tanto no processo de autodescoberta quanto no enfrentamento da LGBTfobia. Em um ambiente com a falta desse acolhimento, é possível notar um alto risco em vivências não cisheteronormativas culminam em problemas na autoestima e na saúde mental, abrindo portas — ainda — para o risco de violências físicas, psicológicas e/ou materiais (como a expulsão do lar). (Costa, 2022). Assim, pode-se observar que a família funciona como reprodutora da cisheteronormatividade, muitas vezes impondo condutas para que seus(suas) filhos(filhas) sigam ao perceberem e adotando posturas vigilantes, repressivas e opressoras ao perceberem que estes(as) fogem do ‘normal’ (Tagliamento, et al., 2020).

Portanto, o processo de saída do armário é uma experiência multifacetada, que pode ser tanto uma jornada de autodescoberta e aceitação quanto uma fonte de grande sofrimento, dependendo do apoio recebido de familiares, amigos, escolas e comunidades religiosas. A rejeição que uma pessoa LGBTQIA+ enfrenta durante esse processo têm efeitos duradouros que interferem na própria sexualidade, podendo acabar tornando-se um fardo para o indivíduo, que sente uma dificuldade em conviver e aceitar sua identidade de forma saudável por conta de repressões e preconceitos no âmbito social, muitas vezes passando acreditar que é fruto de algo errado ou até mesmo pecaminoso (Tagliamento, et al., 2020).

O Impacto da Aceitação Familiar em Jovens LGBTQIAPN+

O estudo do impacto da aceitação social na saúde mental da população LGBTQIAPN+ é essencial para compreender como esses contextos sociais atuam nesses indivíduos. A busca incessante pela aceitação familiar ocorre de forma constante, ainda que de fato, não aconteça esse acolhimento, e em alguns casos a rejeição acaba se tornando a primeira opção a ser escolhida. Nesse cenário, onde a troca de informações e melhores práticas entre nações é rotineira e necessária, torna-se crucial avaliar como a aceitação ou rejeição em diferentes culturas afeta a saúde mental desses jovens (Barbosa, et al., 2024).

Dentre os tipos mais frequentes de violência familiar enfrentada pelos jovens LGBTQIAPN+, pode-se destacar a violência psicológica, moral, física e patrimonial, onde a prática tem como objetivo à coerção por meio de violência, para assim induzir a esse indivíduos aos padrões heteronormativos. Onde observa-se a não aceitação familiar, e o quanto a saúde mental desses jovens pode ser afetada de inúmeras formas negativas por conta dessa persuasão, de querer negar suas próprias individualidades (Brito, Arruda, 2019).

A violência destilada contra as pessoas LGBTQIAPN+ é feita de forma variada e com uma certa hostilidade, entretanto o ponto principal deste tópico é abordar a violência e como ela pode vir a existir dentro contexto do ambiente familiar, onde esses jovens vivem e crescem sendo pessoas que fazem parte da comunidade LGBTQIAPN+, e onde infelizmente, se origina as primeiras experiências de violência, decorrendo em razão da sua orientação sexual ou identidade de gênero (Brito, Arruda, 2019).

Atualmente, a violência (psicológica, física, verbal e entre outras) que ocorrem contra as pessoas LGBTQIAPN+, acabam acontecendo principalmente no ambiente doméstico, sendo praticada pelos próprios familiares, e com isso vem apresentando índices altíssimos e assustadores, colocando o Brasil entre os países com maior índice de violência. Em situações que o desrespeito fica nítido, e onde pode ser evidenciada uma saúde mental precária (Brito, Arruda, 2019).

Algumas figuras maternas e paternas assumem um papel investigativo em seus filhos, quando ainda crianças, e ao perceberem que podem não estar dando sinais de “masculinidade” enquanto meninos, ou “feminilidade” enquanto meninas, já iniciam uma certa preocupação, ou até mesmo em alguns casos, podendo adquirir uma postura nada aceitável ou nenhum um pouco necessária para guiar o filho(a), a um caminho escolhido por si. Em geral, quando apresentam traços de feminilidade ou masculinidade, decorrendes do genêro oposto, despertam uma maior inquietação nos pais, que veem neste comportamento a homossexualidade de forma subentedida (Brito, Arruda, 2019).

O abandono afetivo caracteriza-se tanto pelo abandono real, representado pela total ausência dos pais na vida do filho, como também pelo abandono fictício, no caso dos pais que apenas coabitam com a criança e o adolescente, mas que estão absolutamente apartados da vida do menor não proporcionando a convivência familiar harmoniosa, sem prestar-lhes qualquer assistência. O abandono afetivo praticado pelos pais em razão da orientação sexual diversa do filho gera danos, na maioria das vezes, irreversíveis para a criança e ao adolescente LGBTQI+ (Brito; Arruda, 2019, p.6).

Sendo assim, é evidente que ambientes de aceitação podem melhorar de forma significativa a qualidade de vida desses indivíduos, reduzindo a ansiedade e comportamentos autodestrutivos, que não ocorrendo a devida atenção necessária, pode levar a reações mais severas e possivelmente irreversíveis. Por outro lado, a rejeição social/ famiçiar contribui para uma deterioração própria significativa da saúde mental, manifestada através de isolamento, falta de autocuidado, sentimentos de não pertencimento, discriminação e violência, tanto física quanto psicológica (Barbosa, et al., 2024).

É fundamental que os formuladores de políticas, educadores e profissionais de saúde mental desenvolvam e implementem estratégias que não apenas enfrentam as manifestações explícitas de rejeição, mas que também fomentem uma cultura de inclusão e respeito à diversidade. Adicionalmente, a presença constante de temas relacionados à saúde mental nas redes sociais por indivíduos LGBT aponta para a urgência de se criar mecanismos de apoio adaptados a esses novos ambientes, onde as interações sociais têm um papel preponderante. As implicações deste estudo são claras: para promover uma sociedade verdadeiramente inclusiva e saudável, é essencial garantir que a aceitação social abranja todos os aspectos da vida pública e privada (Da Silva, et al., 2021, p.8).

Nota-se ainda, a necessidade de criação de leis específicas para essa população, visando à responsabilização da família em casos de violência em razão da homofobia, proibindo toda forma de discriminação que inclua aquela baseada na orientação sexual, identidade de gênero, expressão de gênero, características sexuais ou aquelas relacionadas com pessoas intersexo. A família deveria ser um importante componente da rede de apoio social destas pessoas, entretanto é um agente intensificador da vulnerabilidade (Brito, Arruda, 2019).

Famílias que Apoiam: Efeitos Positivos no Bem-Estar

O processo de revelação da orientação sexual, conhecido como “coming out”, pode representar uma oportunidade de fortalecimento dos vínculos familiares. Embora o início desse processo possa ser marcado por conflitos e desafios, a superação das reações iniciais, como a negação, pode levar a um diálogo mais aberto e compreensivo entre os membros da família. Observa-se que as mães costumam demonstrar uma aceitação mais rápida, o que pode facilitar a construção de um ambiente de apoio. “Essa aceitação gradual contribui para um clima familiar mais acolhedor e saudável, promovendo o bem-estar emocional tanto do indivíduo quanto da família como um todo.” (Nascimento, Scorsolini, 2018).

A capacidade das famílias de se organizarem para oferecer apoio é essencial para a aceitação da orientação sexual de seus filhos, criando um ambiente acolhedor e de pertencimento. Mesmo diante de diferenças culturais, quando as famílias oferecem suporte, contribuem para o bem-estar emocional dos indivíduos, fortalecendo laços e diminuindo a probabilidade de problemas como depressão e isolamento. Redes de apoio externas também são importantes para garantir que todos encontrem para o acolhimento e compreensão, prevenindo problemas emocionais. “Desse modo, redes de apoio externos é de suma importância para garantir o acolhimento certo quando a família não oferece o suporte adequado.”(Nascimento, Scorsolini, 2018).

A respeito de adolescentes com comportamentos suicidas também possibilitou que os adolescentes compartilhassem suas experiências relacionadas ao suicídio, bem como suas dificuldades nas relações familiares e com os pares, o que gerou benefícios como o alívio de tensões e a exploração de alternativas para obtenção de ajuda. No entanto, o estudo também revelou dilemas éticos relacionados ao compartilhamento de informações confidenciais com os pais, especialmente em casos de risco elevado, o que exige sensibilidade e tato por parte dos pesquisadores (Henrique, 2018).

Embora os resultados deste estudo não possam ser generalizados, eles oferecem subsídios valiosos para o planejamento de intervenções junto a adolescentes com histórico de tentativas de suicídio e vínculos de apego inseguros.

Intervenções focadas no fortalecimento dos vínculos com os pais e no desenvolvimento de novos vínculos saudáveis podem funcionar como fatores de proteção em momentos de crise. Além disso, considerando a importância das relações com os pares durante a adolescência, atividades que promovam a construção de vínculos saudáveis no ambiente escolar podem ser uma estratégia eficaz para a prevenção de comportamentos suicidas e para a promoção de uma cultura de paz e amizade (Henrique, 2018).

A Política Nacional de Saúde Integral LGBT, por sua vez, reconhece a importância de identificar e atender as necessidades específicas de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, utilizando tais demandas como critério para o planejamento de ações em saúde. Contudo, apesar de essa política apontar para uma abordagem da saúde LGBT sob a perspectiva da determinação social do processo saúde-adoecimento-cuidado, ela ainda mantém seu discurso ancorado no modelo médico-científico tradicional (Paulino, et al., 2019).

Os desafios enfrentados pelas equipes de saúde vão além da superação de preconceitos e discriminações contra a população LGBT. É preciso, antes de tudo, o reconhecimento desses indivíduos como sujeitos de direitos, com demandas específicas que só podem ser expressas em um ambiente de acolhimento e respeito, sendo essencial que os currículos de educação na área da saúde no Brasil reconheçam a relevância dessa temática para a formação dos futuros profissionais. A falta desse reconhecimento por parte dos profissionais de saúde compromete a qualidade do cuidado prestado (Paulino, et al., 2019).

METODOLOGIA

O presente estudo adotou uma abordagem qualitativa com características exploratórias, utilizando-se da pesquisa de campo como método principal. Essa escolha permitiu compreender de forma aprofundada as vivências e percepções de jovens LGBTQIAPN+ sobre o impacto do apoio ou da rejeição familiar em sua saúde mental, especialmente no contexto do processo de “saída do armário”. O cenário de estudo foi uma instituição de ensino superior localizada na cidade de Teresina, e os participantes foram selecionados a partir de critérios bem definidos.

O instrumento principal para a coleta de dados foi a entrevista semiestruturada, técnica que permite a combinação de perguntas previamente elaboradas com a flexibilidade de explorar novas temáticas emergentes durante o diálogo. Essa abordagem favorece a obtenção de narrativas pessoais ricas e detalhadas, fundamentais para compreender as diversas dimensões do impacto do apoio familiar.

Além das entrevistas, foi aplicado um questionário sociodemográfico que reuniu informações como idade, gênero, orientação sexual, escolaridade e características das relações familiares dos participantes. Esse questionário forneceu um panorama geral dos entrevistados, contextualizando suas respostas e permitindo uma análise mais robusta das questões investigadas. A combinação da entrevista semiestruturada com o questionário sociodemográfico possibilitou uma coleta de dados mais completa e diversificada.

Os participantes foram selecionados por meio de critérios rigorosos que garantiram a relevância de suas experiências para os objetivos da pesquisa. Com a quantidade estabelecida de 5 (cinco) participantes no estudo, foram incluídos jovens e adultos que se identificam como LGBTQIAPN+ há mais de um ano e que já passaram pelo processo de “saída do armário”. Essa delimitação buscou assegurar que os participantes tenham vivenciado situações significativas relacionadas ao tema central. Foram descartados indivíduos que não se identificam como LGBTQIAPN+ abertamente, que se identificam há menos de um ano ou que tenham recebido suporte integral de suas famílias durante o processo de “saída do armário”. Esses critérios visam manter o foco nos casos em que o apoio (ou a ausência dele) tenha impactado diretamente a saúde mental dos jovens.

O TCLE desempenhou um papel central na garantia da ética e da transparência durante toda a pesquisa. Antes do início da coleta de dados, o termo foi apresentado e explicado detalhadamente a cada participante, assegurando que estivessem plenamente cientes dos objetivos do estudo, da natureza voluntária de sua participação e do compromisso de confidencialidade das informações fornecidas. Apenas após a leitura e a assinatura do documento os participantes foram incluídos na pesquisa, assegurando conformidade com a Resolução nº 501/16 do Conselho Nacional de Saúde. Além disso, o TCLE reforçou o direito dos participantes de interromper sua participação a qualquer momento, sem a necessidade de justificativa, garantindo um ambiente de respeito e proteção.

A análise dos dados coletados foi realizada utilizando a técnica de Análise de Conteúdo, conforme proposta por Laurence Bardin. Essa metodologia permitiu a categorização e interpretação das informações, possibilitando a identificação de padrões e temas recorrentes nos relatos dos participantes. O processo analítico envolveu etapas como a organização inicial dos dados, a codificação do material e a interpretação dos resultados em consonância com os objetivos do estudo. Assim, a metodologia utilizada buscou garantir a validade e a profundidade da pesquisa, respeitando as vivências e especificidades de cada participante.

A escolha dos instrumentos e técnicas de coleta foi feita com base na necessidade de captar as experiências vividas pelos participantes de forma detalhada e autêntica. A entrevista semiestruturada, por exemplo, permite que os participantes se expressem livremente, enquanto o questionário sociodemográfico garante um entendimento contextual das características sociais e culturais que influenciam suas vivências. Essa combinação metodológica assegura que o estudo não apenas alcance seus objetivos, mas também respeite a singularidade de cada narrativa.

Portanto, a metodologia proposta busca equilibrar rigor científico e sensibilidade às necessidades dos participantes. Com uma abordagem ética sólida, instrumentos de coleta bem estruturados e uma análise detalhada, o estudo pretende fornecer contribuições significativas para a compreensão do papel do apoio familiar na saúde mental de jovens LGBTQIAPN+.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Os resultados obtidos indicam como a rejeição familiar tem consequências profundas e prejudiciais para a saúde mental de jovens LGBTQIAPN+, corroborando o que a literatura aponta sobre o impacto negativo da falta de acolhimento (Brito, Arruda, 2019). O estudo em questão focou em 5 (cinco) participantes jovens e adultos que se identificam abertamente como LGBTQIAPN+ a mais de 1 ano, a partir dos18 anos de idade. A pesquisa buscou levantar informações detalhadas sobre a realidade atual desses indivíduos no contexto social em que estão inseridos, abordando aspectos como experiência de acolhimento ou rejeição familiar e as estratégias para lidar com essas questões. Como introdução, vale pôr em destaque os relatos de experiências marcadas pela ausência de suporte emocional, como exemplifica a fala de um dos entrevistados:

“Foi péssimo, acabou o meu emocional, porque eu já não tinha emocional muito bom, já fazia terapia antes disso, mas eu tinha parado na época, e um dos motivos que me fizeram voltar a fazer terapia foi a questão da minha orientação sexual, justamente porque isso me causava muita ansiedade.” (Entrevistado 3, 2024).

Essa vivência reflete os efeitos de um ambiente hostil ou indiferente, que não só intensifica sintomas de ansiedade como também dificulta a construção de uma identidade saudável. Segundo Costa (2022), a rejeição familiar pode levar a sentimentos de isolamento, inadequação e desamparo, prejudicando diretamente o bem-estar emocional. Sobre essas relações familiares, foi identificada uma aceitação condicional em alguns contextos, revelando contradições nos discursos e nas práticas de certas famílias, relatado por um dos participantes deste estudo:

“É uma coisa que eles sempre deixaram claro, que não tinham preconceito e nem nada do tipo… Mas, na hora que eu fui contar, foi o maior bafafá. Então, tipo assim, eles não têm preconceito quando não é a vida deles, mas, a partir do momento que é alguém da família, já mudam toda essa questão.” (Entrevistado 3, 2024).

Esse relato exemplifica como a heteronormatividade enraizada na cultura de muitas famílias dificulta o acolhimento de identidades LGBTQIAPN+ (Tagliamento, et al., 2020). Essa aceitação parcial, muitas vezes acompanhada por atitudes ambíguas, contribui para que os jovens se sintam envergonhados e excluídos, interiorizando preconceitos que impactam sua autoestima e dificultam a formação de relações afetivas saudáveis.

Outro ponto a se discutir refere-se a terapia psicológica que, por outro lado, destacou-se como um recurso indispensável no enfrentamento dessas adversidades. Muitos participantes atribuíram à terapia sua capacidade de lidar com as dificuldades emocionais causadas pela rejeição e o preconceito enraizados em seus contextos sócio familiares, como exemplifica um dos entrevistados:

“Eu já fazia terapia e foi ela que me ajudou a conseguir ter coragem para me assumir. Eu acredito que, se eu não tivesse fazendo terapia no momento em que me assumi, teria sido totalmente diferente.” (Entrevistado 3, 2024).

Esse dado confirma o que Paulino et al. (2019) argumentam sobre o papel da psicoterapia na promoção da resiliência, oferecendo aos jovens LGBTQIAPN+ um espaço seguro para trabalhar suas emoções, fortalecer sua autoestima e lidar com traumas relacionados a esse processo de auto descoberta da sexualidade. Os efeitos positivos contribuídos pelo acolhimento psicológico são de extrema relevância, auxiliam na melhora da saúde mental, que em processos de autodescobertas há a possibilidade desse declínio no bem-estar mental gerando baixa autoestima, ansiedade, pensamentos autodestrutivos, entre outros. Esse apoio psicológico leva ao desenvolvimento individual e entendimento sobre si, assim como a autocompreensão, cooperando na aceitação à identidade e superação de traumas familiares. (Paulino, et al., 2019).

No entanto, a ausência de acolhimento familiar demonstrou estar associada a comportamentos autodestrutivos, como automutilação e tentativas de suicídio, o que reforça a gravidade dessa questão. Um relato exemplifica essa situação:

“Desde os meus 12 anos que eu apresento crises de ansiedade e automutilação e, com essa péssima reação da minha mãe, isso piorou bastante. É… eu tentei suicídio na época e… assim eu percebi que teve um aumento muito grande nas minhas crises em geral.” (Entrevistado 1, 2024).

Segundo Brito e Arruda (2019), a rejeição por parte da família é um dos fatores que mais intensificam pensamentos suicidas entre jovens LGBTQIAPN+, evidenciando a necessidade de redes de apoio que possam compensar a falta de acolhimento familiar e fornecer suporte emocional adequado. Esse cenário é particularmente alarmante, pois reflete como a ausência de aceitação no núcleo familiar pode levar a consequências graves e, muitas vezes, irreversíveis.

Além das dificuldades relacionadas à rejeição, também foram levantadas sugestões para melhorar a inclusão social e familiar. Um exemplo relevante foi a ideia de abordar a homofobia de forma mais natural em espaços educacionais, especialmente nas escolas, como foi dito por um dos entrevistados:

“Trabalhar isso de uma forma mais natural nas escolas, na vida em geral… mas principalmente nas escolas, porque diversos temas que hoje são tidos como polêmicos são trabalhados nas escolas, como machismo e racismo, mas homofobia ainda é vista como tabu.” (Entrevistado 1,2024).

Essa observação dialoga com Barbosa et al. (2024), que destacam o papel essencial das escolas na desconstrução de preconceitos e na promoção de ambientes mais inclusivos. Ao normalizar discussões sobre diversidade e identidade de gênero, as escolas podem desempenhar um papel transformador, criando contextos sociais mais acolhedores para jovens LGBTQIAPN+ e suas famílias. Posto isso, relacionando sobre a importância da percepção dos jovens em relação a esse apoio recebido, é notável que diversos ambientes sociais e familiares desencadeiam a sensação de desconforto nesses indivíduos por conta da não aceitação, ou por falta de conhecimento sobre o assunto em questão.

Por fim, a autoaceitação emergiu como um elemento central no bem-estar emocional dos entrevistados. Mesmo diante de desafios significativos, muitos relataram trajetórias de superação que culminaram em orgulho e fortalecimento de sua identidade, ilustrado pela fala de um dos entrevistados: “Hoje em dia eu me orgulho por ser bissexual, não nego mais. Lutei por muitos anos e não nego mais” (Entrevistado 3,2024).

Esse processo de aceitação pessoal, embora muitas vezes dificultado pela rejeição inicial, reflete a capacidade de resiliência desses jovens, especialmente quando encontram apoio em redes externas, como amigos ou profissionais de saúde mental. Segundo Nascimento e Scorsolini (2018), a construção de uma identidade positiva é diretamente influenciada pelo acolhimento recebido, seja da família ou de outras redes de apoio.

Esses achados confirmam a hipótese do estudo, mostrando que o suporte emocional da família, aliado ao acompanhamento psicológico, tem impacto direto e positivo na saúde mental de jovens LGBTQIAPN+. A rejeição, por outro lado, aumenta consideravelmente os riscos de transtornos emocionais e comportamentos autodestrutivos, evidenciando a necessidade de intervenções direcionadas à inclusão e ao acolhimento. Além disso, os resultados destacam a importância de estratégias educacionais e sociais que promovam a diversidade, contribuindo para a formação de ambientes mais saudáveis e inclusivos. Assim, fica evidente que o fortalecimento das redes de apoio, tanto familiares quanto externas, é essencial para garantir o bem-estar e a qualidade de vida dessa população.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As reflexões e análises realizadas ao longo desta pesquisa permitem concluir que os objetivos propostos foram alcançados. Por meio dos dados coletados, foi possível identificar e compreender como o apoio familiar e psicológico exerce um papel fundamental no bem-estar emocional e na saúde mental de jovens LGBTQIAPN+ durante o processo de “saída do armário”. Os relatos dos participantes evidenciaram os impactos significativos da rejeição familiar, frequentemente associada a quadros de ansiedade, baixa autoestima, automutilação e, em casos extremos, tentativas de suicídio. Esses achados reforçam a importância do suporte familiar na vida desses jovens nesse processo de autoaceitação e autoconhecimento, esse acolhimento advindo da família exerce uma enorme diferença, se tornando essencial para que se sintam seguros, auxiliando na melhoria da saúde mental e também estimulando socialmente o respeito à diversidade. Assim como, a relevância em abordar esse tema em locais que desempenham um papel de visibilidade, para que se torne um assunto recorrente incentivando a busca de informações e conhecimento, logo, ampliando a inclusão, compreensão, e o acolhimento em ambientes familiares e sociais.

Além disso, a pesquisa destacou a relevância de redes de apoio externas e do acompanhamento psicológico. Esses elementos foram apontados como essenciais para ajudar os jovens a superar os desafios emocionais e sociais relacionados à aceitação de sua identidade, contribuindo para o fortalecimento da resiliência emocional e para a construção de uma autoimagem positiva. Também foi possível evidenciar o papel das instituições escolares na desconstrução de preconceitos, reforçando a necessidade de transformar esses espaços em ambientes de acolhimento e pertencimento.

No entanto, reconhece-se que este estudo possui limitações, com um número reduzido de participantes, o que restringe a generalização dos resultados, nossa pesquisa também possui como finalidade mostrar a importância em abordar amplamente o tema LGBTQIAPN+. Ademais, a complexidade do tema e as diferentes dinâmicas socioculturais sugerem a necessidade de investigações futuras que explorem a diversidade de experiências vividas por esses jovens em contextos variados, dessa forma, discutir questões relacionadas à comunidade LGBTQIAPN+ abre espaço de maneira eficaz para combater preconceitos, discriminações e estigmas que ainda são encontrados em contextos sociais.

Por fim, conclui-se que, embora esta pesquisa represente um avanço significativo na compreensão do tema, ela não esgota as questões relacionadas ao impacto do apoio familiar na saúde mental de jovens LGBTQIAPN+. Trata-se de uma contribuição inicial para um debate mais amplo, que deve ser ampliado por meio de estudos futuros, políticas públicas e campanhas de conscientização. O conhecimento aqui produzido reforça a necessidade de promover ações que favoreçam a inclusão, o respeito e a garantia dos direitos dessa população, contribuindo, assim, para a construção de uma sociedade mais acolhedora e justa. À vista disso, a abordagem do tema não se limita apenas a dar voz à comunidade, mas também a conscientizar a sociedade como um todo sobre a necessidade de reconhecer e valorizar as diferenças. Portanto, é fundamental que, por meio do respeito, do diálogo e da empatia, o tema em pauta continue gerando debates de formas positivas, vindo a ser tratado com seriedade. Afinal, falar sobre LGBTQIAPN+ é falar sobre humanidade, direitos e a construção de uma sociedade mais justa e diversificada.

REFERÊNCIAS

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¹Graduandos do curso de Bacharelado em Psicologia do Centro Universitário Maurício de Nassau (UNINASSAU). Teresina- Pi.
²Psicólogo, Professor do Centro Universitário Maurício de Nassau (UNINASSAU). Teresina-Pi. E-mail: pedro_wilson_ramos@hotmail.com

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