RISCO DE HEPATOTOXICIDADE RELACIONADO AO USO DE CHÁS E PLANTAS MEDICINAIS 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202511211618


Ivanilson Santos Souza1
Magali da Paixão de Jesus2
Orientadora: Profa. Lorena Silva Matos Andrade


RESUMO 

O uso das plantas medicinais tem se tornado cada vez mais popular. A crença popular transmitida de geração em geração, de que o “O natural, não faz mal” ainda é difundida e reflete a falta de informação da população. Tais hábitos e desconhecimento sobre possíveis riscos têm preocupado os profissionais da área de saúde, pois o uso inadequado dessas substâncias, muitas vezes iniciando precocemente, pode interferir em tratamentos farmacológicos e causar danos à saúde do fígado, órgão extremamente importante para a homeostase do corpo humano. Este trabalho tem como objetivo apresentar informações corretas sobre os possíveis riscos das plantas à saúde hepática, bem como destacar a importância de procurar o médico ou farmacêutico para orientação adequada na promoção da saúde da população. Trata-se de estudo de revisão bibliográfica, com busca dos artigos nas bases de dados, Google Acadêmico e Scientific Electronic Library Online (SciELO), PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) publicados entre 2004 e 2025. Os estudos analisados evidenciam uma problemática ao uso indiscriminado de chás e plantas medicinais sem a devida orientação profissional, representa um elevado risco de hepatotoxicidade. Os resultados mostraram que, embora o uso de ervas medicinais seja muito comum, os riscos de lesões hepáticas não estão relacionados apenas à espécie vegetal, mas também à forma de preparo, concentração, frequência de uso e predisposição individual. Desta forma, torna-se fundamental a atuação do Farmacêutico na promoção do uso racional dessas substâncias, na orientação à população e no reforço de políticas públicas voltadas ao controle de qualidade e à educação em saúde.

Palavras-chave: Chás. Hepatotoxicidade.  Ervas medicinais. Intoxicação hepática. Uso indiscriminado. 

INTRODUÇÃO

O fígado é o principal órgão responsável pelo metabolismo das substâncias que o ser humano ingere. Esse órgão tem sido bastante sobrecarregado pelo uso excessivo de chás como alternativas medicinais. Muitas dessas ervas são tóxicas e podem causar alterações prejudiciais à saúde hepática. O território brasileiro, por possuir uma vegetação diversificada, é rico em espécies de plantas utilizadas para infusões.

Tradicionalmente, adotamos o costume de preparar e consumir chás, hábito originado no continente asiático e introduzido no Brasil pelos portugueses por meio das grandes navegações. É muito comum encontrarmos essas plantas no comércio, seja in natura, em cápsulas ou desidratadas (Gonçalves et al.,2022). Muitas vezes, esse consumo ocorre sem qualquer orientação de um profissional da saúde.

A hepatotoxicidade é o termo utilizado para designar intoxicações causadas por ervas, plantas, fármacos e xenobióticos. A sobrecarga do fígado pode ter diversos fatores, mas, quando se trata de plantas, observa-se que o risco não está ligado diretamente à espécie vegetal em si, e sim à forma de preparo, à concentração da infusão, à frequência de uso e à predisposição individual. O ser humano não sobrevive sem o fígado, pois esse órgão desempenha funções vitais no organismo. Dessa forma, qualquer lesão hepática pode comprometer todo o corpo devido à interrupção dessas funções (PINHEIRO et al., 2020). 

Outro ponto relevante é o risco oculto em pacientes que fazem uso contínuo de medicamentos, uma vez que pode haver interações entre os compostos das plantas e os fármacos, interferindo na absorção e na eficácia destes. O uso excessivo de determinadas ervas pode provocar efeitos tóxicos no fígado, as plantas produzem diversos metabólitos que possuem valores  farmacológicos, cujo uso pode causar sérias complicações à saúde variando desde inflamações leves até necrose hepática, podendo evoluir para insuficiência hepática aguda e, em casos mais graves, a necessidade de transplante. 

Diante dos casos registrados de intoxicação hepática associada ao uso de chás e ervas, surge a seguinte problemática: de que forma o consumo inadequado dessas plantas pode representar risco à saúde hepática da população e qual o papel do farmacêutico na prevenção desses efeitos adversos? 

Com base nisso, este trabalho tem como objetivo analisar os riscos de hepatotoxicidade relacionados ao uso de chás e ervas medicinais, destacando a importância da orientação farmacêutica na prevenção de intoxicações e na promoção do uso seguro dessas substâncias. 

Material e Método

O presente trabalho trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, exploratória e descritiva, realizada por meio de uma revisão bibliográfica. O estudo aborda os riscos associados ao consumo de chás e plantas medicinais, exigindo a análise de publicações científicas que discutem sobre hepatotoxicidade, toxicidade de fitoterápicos e prática de automedicação. 

Foram consultadas bases de dados científicos reconhecidas como Scientific Electronic Library Online (SciElo), Google Acadêmico, PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). A busca abrangeu artigos publicados entre 2004 e 2025, nos idiomas português, inglês e espanhol, que tratassem dos riscos de hepatotoxicidade ao uso de plantas medicinais e ao consumo inadequado de chás, utilizando as seguintes palavras-chave: Chás. Hepatotoxicidade.  Ervas medicinais. Intoxicação hepática. Uso indiscriminado. 

Os estudos selecionados foram analisados por meio de leitura exploratória e analítica, contemplando os principais aspectos sobre mecanismo toxicidade hepática, formas de preparo e uso das plantas medicinais, interações com medicamentos e o papel do profissional farmacêutico na prevenção de danos hepáticos. Os resultados foram organizados de forma descritiva, comparativa e temática, buscando relacionar os achados da literatura com a realidade da população brasileira. 

Essa pesquisa seguiu os princípios éticos da produção científica, preservando a integridade intelectual dos autores consultados e assegurando a devida citação das fontes conforme as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). 

Resultados e Discussão

Os resultados dessa pesquisa mostram que mesmo com grande extensão sendo utilizada devido a cultura, as plantas e chás medicinais não são livres de perigo. A hepatotoxicidade relacionada ao consumo de produtos naturais é um ponto de causar danos ao fígado. 

Tabela 1: Exemplos de ervas hepatotóxicas. 

Planta  Família Nome popular Efeito adversos 
(toxicidade) 
Referência 
Camellia  sinensis Theaceae Chá verde Insônia, ansiedade, dores de cabeça. (REDCLIFFELABS, 2025) 
Piper methysticum Piperaceae Kava-kava Reações alérgicas, pigmentação da pele, fadiga, contração arrítmicas, desconforto gastrointestinal, cefaleias, tonturas. (BARBOSA et al.,2013) 
Curcuma longa L. Zingiberacea Açafrão ou cúrcuma Em altas doses, causa desconforto gastrointestinal (gases, inchaço, diarreia, dor abdominal, refluxo gastroesofágico e irritação gástrica. LEÃO et al.,2006 

Diversas plantas amplamente consumidas pela população têm sido constantemente associadas a casos de hepatotoxicidade. Dentre os principais agentes destacam-se o chá-verde (Camellia sinensis), a kava (Piper methysticum) e a cúrcuma (Curcuma longa), especialmente quando utilizadas em altas doses ou por períodos prolongados (MOLINA et al., 2019; TANG et al., 2018; TAYLOR; MILLS, 2020).

De acordo com as avaliações de doses associadas à toxicidade, conclui-se que os riscos de lesão hepática estão relacionados à concentração dos metabólitos bioativas presente nessas preparações, possivelmente também ligadas ao método de extração. A Cúrcuma longa, apresenta em sua composição a curcumina, muito utilizado na culinária, a sua hepatotoxicidade está associada ao uso de extratos, com doses superiores a 1.000 mg/dia, podendo causar hepatite medicamentosa em usuários que ingerem entre 1.000 e 2.000 mg/dia (Suhail FK, Masood U, Sharma A, et al., 2020). A Camellia sinensis, é rica em catequinas como a epigalocatequina galato (EGCG), possui um risco de dano hepático na ingestão acima de 800 mg/dia essa quantidade foi estabelecida pela Autoridade Europeia de Segurança alimentar após casos graves envolverem doses entre 700 e 1.500 mg/dia (EFSA, 2018; MAZZANTI et al., 2009). A kava (Piper methysticum) tem sua hepatotoxicidade relacionada a presença das kavalactonas, como metisticina e dihidrometiscicina. Sua preparação tradicional é considerada segura, porém doses acima de 250 a 300 mg/dia podem desencadear lesões hepáticas, principalmente se houver presença de pipermestistina devido ao uso inadequado de folhas e caules (CLARK; CUMMINGS, 2013; TONGA et al., 2010). Esses dados comprovam que a toxicidade dessas plantas está ligada ao consumo em altas concentrações e à forma de processamento do que o uso tradicional.

Grande parte das plantas medicinais portam um teor tóxico pelo fato de produzir metabólitos, que fornecem atuação farmacológica ou toxicológica. Desta forma, a intoxicação ocorre consequentemente de um evento clínico, resultante da interação entre uma ou mais substâncias químicas e um sistema biológico. A ação de intoxicação vai depender da via de administração, quantidade administrada, tempo de exposição e interações com outras substâncias presentes no organismo (PINHEIRO et al., 2020).  

As plantas medicinais são utilizadas na elaboração de chás terapêuticos. Utiliza-se tradicionalmente, diferentes partes da planta, como caule, folhas, cascas e raízes. Contudo é fundamental atentar-se ao modo correta de preparo, a fim de evitar concentrações elevadas de compostos ativos que possam causar efeitos adversos ou até uma lesão hepática induzidas por ervas. Há registros em todo em diversos países de casos relacionados a hepatotoxicidade decorrente do uso inadequado de substâncias naturais. Hepatotoxicidade acontece a partir do momento em que o fígado é exposto a uma substância capaz de causar um dano celular, esse dano compromete as funções metabólicas de desintoxicação e síntese (KAPLOWITZ, 2004).

O sistema enzimático do Citocromo P450 é o principal mediador do processo do metabolismo de xenobióticos. Durante essa biotransformação, muitas substâncias são convertidas em metabólitos reativos, podendo interagir com proteínas e lipídios das células hepáticas, provocando estresse oxidativo, peroxidação lipídica, dano mitocondrial e, consequentemente morte celular por necrose (FURBEE et al., 2006). Alguns compostos presentes em plantas medicinais, medicamentos ou toxinas desencadeiam uma resposta imunomediada, quando o sistema imunológico passa a reconhecer hepatócitos alterados como células estranhas, causando uma agressão hepática através de uma intensificação da inflamação (STICKEL e SHOUVAL, 2015).

O diagnóstico de lesão hepática representa um desafio clínico e exige elevada suspeita por parte do profissional de saúde, uma vez que os sintomas são de difícil reconhecimentos em estágios iniciais. Inicialmente as manifestações clínicas variam de elevações leves das enzimas hepáticas, sintomas como cansaço excessivo onde pode se confirmar através de exames laboratoriais alterados. Até insuficiência hepática aguda dependendo da extensão do dano e da capacidade regenerativa do fígado (KAPLOWITZ, 2004). Em virtude desses dados, torna necessária a presença de profissionais capacitados na orientação da população. 

Em conclusão, um significativo número de chás, considerados medicinais, e utilizados rotineiramente pela população como alternativas terapêuticas, tem sido associado a potenciais efeitos adversos, incluindo a hepatotoxicidade. Assim, é fundamental que o uso de chás e outras preparações herbais seja cuidadosamente investigado durante a avaliação clínica, especialmente nos casos de alterações hepáticas cuja causa não está claramente definida.  Nesse contexto, é importante a atuação da equipe multiprofissional, orientando o uso racional de plantas medicinais, prevenindo e conscientizando a notificação de efeitos adversos. Além disso, as políticas públicas devem reforçar o controle de qualidade, a determinação de suplementos e a educação em saúde. 

Conclusão

O uso indiscriminado de chás e plantas medicinais representa um potencial risco à saúde hepática, em virtude da presença de composto fitoquímico capazes de induzir efeitos hepatotóxicos e comprometer a função do fígado. O consumo seguro requer acompanhamento profissional adequado, especialmente entre populações vulneráveis, como gestantes, idosos e indivíduos portadores de doença hepáticas, (FURBEE et al.,2006) 

O farmacêutico exerce um papel essencial na orientação da população e na prevenção de intoxicação decorrentes do uso inadequado de plantas medicinais, atuando na identificação de riscos, na promoção do uso racional e na educação em saúde. Sua atuação é fundamental para garantir a segurança e eficácia dos fitoterápicos, prevenindo eventos adversos e interações  medicamentosas, especialmente em população vulneráveis (VEIGA JUNIOR; PINTO, MACIEL, 2005; FURBEE et al., 2006). 

A vigilância e o acompanhamento profissional são indispensáveis para minimizar riscos e promover o uso seguro das plantas medicinais, conforme diretrizes nacionais e internacionais (BRASIL, 2019; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2004). 

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1Graduanda no Curso de Farmácia Universidade Salvador
UNIFACS.santosdai2021@gmail.com

2Graduando no Curso de Farmácia Universidade Salvador UNIFACS.magalidapaixao@gmail.com.