RESSIGNIFICAÇÃO DO ENSINO DO LETRAMENTO LITERÁRIO A PARTIR DO ESTUDO DE O CORTIÇO, DE ALUÍSIO AZEVEDO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202510081654


Domingos Aparecido dos Reis1
Mary Nascimento da Silva Leitão2


RESUMO

A reinterpretação do ensino de letramento literário a partir da obra O Cortiço, de Aluísio Azevedo, visa facilitar uma leitura crítica e contextual, ultrapassando a mera decodificação de textos. O foco central é cultivar habilidades interpretativas e reflexivas nos alunos, conectando-os às temáticas sociais, raciais e econômicas que permeiam a narrativa. A metodologia adotada abrange a leitura orientada do romance naturalista, debates em sala de aula, análises intertextuais com mídias contemporâneas e produções textuais originais. As discussões se concentram no determinismo social, na formação da identidade brasileira e nas críticas à desigualdade, enfatizando a importância da leitura literária como uma ferramenta de educação cidadã. Essa abordagem destaca a atuação do professor e o protagonismo dos alunos, incentivando múltiplas interpretações e perspectivas. Dessa forma, conclui- se que o ensino reformulado do letramento literário, ao se conectar com a realidade dos alunos, enriquece seu repertório cultural, promove a empatia e reforça o papel da literatura na formação crítica e ética.

Palavras-chave: Letramento literário, Ressignificação, Ensino de literatura, O Cortiço, Projeto de Intervenção

1. Introdução:

A leitura desempenha um papel essencial no aprimoramento do pensamento crítico e reflexivo dos alunos. Contudo, no contexto atual, em que as plataformas digitais estão cada vez mais presentes na educação, os educadores enfrentam um desafio significativo ao tentar promover uma leitura mais consciente. O avanço das inteligências artificiais, que oferecem resumos e facilitam a leitura, entre outras funções, pode de certa maneira limitar a autonomia dos estudantes, ou seja, a habilidade de examinar diversas perspectivas e informações, assim como desenvolver seus próprios pontos de vista sem influências diretas ou indiretas, gradualmente sendo substituída por ferramentas digitais, como ebooks, que não promovem uma leitura crítica e reflexiva por parte dos alunos em relação às obras. A ênfase se concentra na quantidade de material lido semanalmente, em vez de uma análise aprofundada que envolva autores, bem como o contexto histórico e social das publicações. Isso compromete a compreensão, a interpretação e o desenvolvimento do pensamento crítico, fundamentais para a formação do indivíduo e para aprimorar suas habilidades de leitura e escrita.

No ambiente educacional, o ensino de literatura apresenta diversas falhas no uso de textos nas aulas. Muitas vezes, ocorrem leituras superficiais, sem uma análise crítica, reflexiva e aprofundada, realizadas apenas para completar exercícios, o que não contribui para a formação de leitores críticos. Como mencionado anteriormente, as novas plataformas digitais podem tornar os alunos passivos em seu aprendizado cognitivo, a menos que sejam devidamente orientados por um professor que atue como mediador do conhecimento, em vez de apenas transmitir conteúdo.

Em um mundo interconectado, repleto de diversas modalidades de comunicação e informação, a literatura desempenha um papel fundamental no aprimoramento das habilidades de leitura e escrita dos alunos. Ela contribui para a ampliação cultural, a formação de perspectivas sobre o mundo e, consequentemente, o desenvolvimento de competências linguísticas que são vitais para estimular a criatividade, as interações sociais e a compreensão tanto da sociedade atual quanto daquelas do passado.

Este artigo científico tem como objetivo propor um projeto que busque formar cidadãos literariamente letrados, através da leitura da obra “O Cortiço”, de Aluízio de Azevedo. Para isso, será aplicada a sequência básica do letramento literário sugerida por Cosson (2021), que contempla quatro etapas: motivação, introdução, leitura e interpretação. O propósito é aprofundar a imersão na literatura, promovendo uma análise reflexiva dos temas presentes nas obras. De maneira mais específica, os objetivos são: a) Proporcionar aos estudantes um contato direto com clássicos da literatura brasileira; b) Estimular análises literárias aprofundadas; c) Incentivar discussões em grupo e a troca de opiniões individuais sobre os textos examinados.

Dessa forma, buscamos por meio da revisão bibliográfica, mecanismos para compreender a educação literária no âmbito escolar, com intuito de formar leitores críticos e reflexivos, visto que a implementação de recursos digitais muitas vezes não está apoiando de forma eficaz esse desenvolvimento de leitura literária em nossos estudantes. Desse modo, “[…] o objetivo da educação literária formula-se como o desenvolvimento da competência nesta forma específica de leitura e implica uma aprendizagem que associe indissoluvelmente a implicação do leitor e o domínio das convenções.” (MELLO, 2015, p. 319)

O curso não solicita sua aplicação, foi a escolha do romance O Cortiço de Aluísio Azevedo, antes mais nada justifica-se pela sua importância como marco da literatura brasileira do século XIX, e pela sua riqueza em dimensões sociológicas e psicológicas. No próximo tópico iremos aprofundar na contextualização do Letramento literário por Cosson (2021) e o ensino de literatura com base nos autores: Base Nacional Comum (BNCC, 2018); Barbosa (2013); Cereja (2005).

Na sequência deste trabalho, o próximo tópico se dedicará à contextualização do letramento literário no ambiente escolar, com o objetivo de compreender sua importância para a formação de leitores críticos, sensíveis e autônomos. Serão discutidos os fundamentos que justificam a presença da literatura nas práticas pedagógicas, bem como os desafios e possibilidades para o ensino da leitura literária nos diferentes níveis da educação básica.

O ensino de literatura será abordado a partir de uma perspectiva que valoriza o texto literário como experiência estética, cultural e formativa, destacando o papel da escola como mediadora desse processo. A leitura literária será tratada não apenas como decodificação de palavras, mas como prática social que promove o desenvolvimento da imaginação, do pensamento crítico e da empatia.

2. Contextualização:

Nessa parte, procura-se aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo do curso de especialização em” Literaturas de Língua Portuguesa: Identidades, Territórios e Deslocamentos- Brasil, Moçambique e Portugal – Diferentes Olhares”, propõe uma abordagem comparativa e reflexiva sobre as produções literárias do Brasil, Moçambique e Portugal, explorando as interações culturais e históricas que conectam esses países. A partir de diferentes olhares, serão analisadas as formas como a literatura constrói e representa identidades, dialoga com a noção de território — físico, simbólico e afetivo — e reflete experiências de deslocamentos, sejam eles geográficos, sociais ou culturais. Essa perspectiva busca evidenciar como, em contextos distintos, os textos literários narram a formação de subjetividades, as marcas da colonização, as lutas por afirmação cultural e os processos de transformação social, revelando tanto singularidades quanto pontos de convergência entre os espaços lusófonos.

O ensino de literatura na educação básica, na construção de indivíduos críticos, reflexivos e autônomos na percepção do mundo. Como ratifica Cosson (2021, p.30) “Na escola, a leitura literária tem a função de nos ajudar a ler melhor, não apenas porque possibilita a criação do hábito de leitura ou porque seja prazerosa, mas sim porque nos fornece, como nenhum outro tipo de leitura faz, os instrumentos necessários para conhecer e articular com a proficiência o mundo feito linguagem.”

[…] aprendemos a ler literatura do mesmo modo como aprendemos tudo mais, isto é, ninguém nasce sabendo ler literatura. Esse aprendizado pode ser bem ou malsucedido, dependendo da maneira como foi efetivo, mas não deixará de trazer consequências para a formação do leitor. Nesse sentido, quem passou pela escola preenchendo fichas de leitura meramente classificatórias terá grande dificuldade de apreciar a beleza de uma obra literária mais complexa […]. (COSSON, 2021, p. 29).

Cereja (2005, p.188) reforça a importância do texto literário na sala de aula: […] não se pode esquecer que o texto literário é um rico material tanto para a aquisição de conhecimento quanto para a discussão e reflexão em torno de temas que envolvem estar do ser humano no mundo. A importância na sala de aula da leitura literária, além formar leitores que se emocionam com os personagens, contexto deslumbrando inúmeras perspectivas sobre compreender as complexidades do dia a dia. No entanto, a leitura rompe barreiras levando o leitor para dentro da obra dando novas experiências e com isso a compreensão do texto.

[…] as obras rompem as fronteiras de seu tempo, vivem nos séculos, ou seja, na grande temporalidade e, assim, não é raro que essa vida (o que sempre sucede com uma grande obra) seja mais intensa e mais plena do que nos tempos de sua contemporaneidade. […] Ora, muitas vezes a obra aumenta em importância mais tarde, ou seja, insere-se na grande temporalidade. Uma obra não pode viver nos séculos futuros se não se nutriu dos séculos passados. Se ela nascesse por inteiro hoje (em sua contemporaneidade), se não mergulhasse no passado e não fosse consubstancialmente ligada a ele, não poderia viver no futuro. Tudo quando pertence somente ao presente morre junto com ele (BAKHTIN, 1997, p. 364)

A análise comparativa das obras possibilita identificar como a literatura reflete experiências sociais, históricas e subjetivas, além de revelar a construção de identidades e a relação com os territórios de pertencimento. Ao explorar diferentes olhares e contextos, os estudantes desenvolvem uma leitura crítica e sensível das produções literárias, reconhecendo tanto as singularidades de cada país quanto às conexões que os aproximam no panorama da literatura de língua portuguesa. Cereja (2005) mais adiante irá discutir ainda:

A abordagem dialógica da literatura não prescinde das relações entre a produção literária e contexto sócio-histórico. A nosso ver, elas podem e devem ser exploradas, porém não de forma mecânica. A contextualização histórica feita nos manuais didáticos de literatura quase sempre se limita a um texto expositivo dos próprios autores a respeito dos fatos históricos mais relevantes à época do período enfocado. Não se estabelecem relações efetivas entre esse contexto e a produção cultural e literária. (CEREJA, 2005, p. 191).

Nesse sentido, o letramento literário, como uma prática educacional, busca promover não apenas o acesso à leitura, mas também a capacidade de análise, interpretação e crítica de diferentes gêneros literários. “O espaço da literatura em sala de aula é, portanto, um lugar de desenvolvimento do aluno” (Cosson, 2021, p. 59).

Segundo Barbosa (2013, p.19)

Parte-se do pressuposto de que a literatura contribui muito nesse sentido porque retrata experiências universais dos indivíduos, […] objeto de significação e exige um grau maior de consciência e atenção, uma participação efetiva do leitor, tem papel importante no processo de humanização dos seres humanos a obra literária depende da interpretação do leitor e ponto de vista.

A ideia de redefinir a leitura literária surge em um contexto em que, nos últimos anos, diversas investigações científicas destacam os obstáculos que o Brasil enfrenta na capacitação de leitores com habilidades linguísticas, gramaticais e pensamento crítico. Esses aspectos são essenciais para aprimorar a compreensão e a análise do contexto sócio-histórico das obras, bem como suas influências estéticas e ideológicas, enriquecendo a interação com os textos e o conhecimento linguístico do leitor.

O texto literário é uma obra de natureza complexa, resultante de intenções, operações linguísticas e produção de sentidos que colocam em jogo o uso da linguagem além da referencialidade. A literatura implica reconhecer, entender e fruir elementos de natureza expressiva, conativa e poética que destacam o espaço da manifestação literária como aquele que exige do seu leitor muito mais participação do que aquela requerida em processos de interação verbal que destacam sobremaneira a função referencial da linguagem (GUIMARÃES; BATISTA, 2012, p. 21).

Conforme a BNCC (2018), a utilização de obras literárias proporciona aos alunos uma imersão em culturas, contextos sociais e críticas, além de um aprendizado sobre os múltiplos universos que os rodeiam. Esse processo contribui significativamente para o aprimoramento de habilidades e competências essenciais na formação de leitores e escritores. Assim, a leitura de textos literários se revela uma fonte valiosa que enriquece a vida e o saber dos leitores, uma vez que cada leitura traz consigo novos insights, reflexões, valores e abre espaço para discussões mais profundas e críticas.

Ser leitor de literatura na escola é mais do que fruir um livro de ficção ou se deliciar com as palavras exatas da poesia. É também posicionar-se diante da obra literária, identificando e questionando protocolos de leitura, afirmando ou retificando valores culturais, elaborando e expandindo sentidos. (COSSON, 2021, p. 120)

Atualmente, o ensino de literatura enfrenta um panorama cada vez mais fragmentado devido às diversas reformas que vêm sendo sugeridas pelo governo. Nesse contexto, os educadores buscam constantemente novas abordagens para garantir uma educação literária efetiva nas escolas. Segundo Cosson (2020), existem diferentes paradigmas do letramento literário: o gramatical, que apoia o aprendizado da língua materna; o histórico, que se relaciona com a inclusão cultural; o crítico; o desenvolvimento de hábitos de leitura para formar o leitor; e o experiencial, que se refere à competência literária.

Nas palavras do autor.

podem ser colocadas definições mais sofisticadas, como os conceitos de literariedade ou estranhamento dos formalistas russos –a propriedade de linguagem que caracteriza as obras literárias ou as características que distinguem a linguagem literária da linguagem ordinária –e de função poética de Roman Jakobson –quando o texto se volta para si mesmo ou tem a elaboração da mensagem como função dominante -, que alimentam as várias concepções imanentistas da literatura ou que, pelo menos, buscam defini-la como uma linguagem específica, reforçando os critérios de base linguístico- textual.(Cosson, 2020, p.74)

Ainda que represente o primeiro paradigma a contemplar a inclusão de grupos historicamente excluídos do ensino de literatura, por não se enquadrarem nos padrões normativos impostos pelos paradigmas anteriores — marcados por uma visão centrada na fé e na homogeneização cultural —, e apesar de valorizar a participação ativa e colaborativa do estudante, esse modelo enfrenta um conflito central, pois…

se por um lado, a exigência de participação e a construção colaborativa do conhecimento são aspectos positivos porque envolvem ativamente o aluno no processo pedagógico; por outro, quando não há adesão voluntária ao texto e à análise crítica proposta, esses mesmos procedimentos podem servir para a doutrinação dos alunos. (COSSON, 2020, p.108)

É fundamental que o professor exerça cautela na condução de debates e problematizações em torno das obras literárias no contexto escolar. Além disso, ressalta-se a importância de se garantir um espaço específico para o ensino de literatura, considerando que essa área possui objetivos e metodologias distintas daquelas associadas ao ensino da Língua Portuguesa. O autor também chama atenção para críticas dirigidas ao formato predominante dos cursos de Letras no ensino superior, os quais, muitas vezes, não dialogam com as demandas reais do ensino de literatura na educação básica, comprometendo a formação prática dos futuros docentes.

O ideal libertário dessa prática de leitura é ainda reforçado pela ausência de hierarquias e pelo compartilhamento de gostos que ela proporciona colocando alunos e professores em um mesmo ‘nível’, ainda que tenham diferentes repertórios e experiências de leitura de textos literários. (COSSON, 2020, p.137)

Ao longo das disciplinas da especialização, fui desafiado a repensar concepções enraizadas sobre leitura, literatura e letramento, sendo provocado por textos teóricos, práticas pedagógicas e debates que ampliaram minha compreensão acerca da função da literatura na escola. Os estudos meramente recreativa ou acessória, mas como uma prática formativa essencial para o desenvolvimento da sensibilidade, da imaginação e da criticidade dos estudantes.

Os diários de bordo registrados ao longo das disciplinas foram fundamentais nesse processo, pois possibilitaram momentos de escrita reflexiva sobre os conteúdos estudados, os desafios enfrentados e as descobertas realizadas. Essas anotações, agora revisitadas, evidenciam como minha prática docente foi sendo, gradativamente, atravessada por novas ideias e inquietações, especialmente no que diz respeito ao lugar da literatura no currículo escolar, às formas de mediação do texto literário em sala de aula e às exigências da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) no que se refere ao ensino de linguagem e literatura.

Dando continuidade à presente investigação, o próximo tópico abordará a fundamentação teórico-metodológica, com foco no letramento literário, nas discussões contemporâneas sobre o ensino de literatura e na respectiva revisão bibliográfica. Essa etapa visa consolidar o referencial teórico que sustentará a análise e a proposta desenvolvida ao longo do trabalho. Serão examinadas as principais contribuições de autores que refletem sobre os processos de leitura literária na escola, os objetivos do ensino de literatura e os fundamentos que norteiam práticas pedagógicas comprometidas com a formação de leitores críticos e sensíveis à linguagem literária.

Além disso, a revisão bibliográfica buscará mapear os estudos mais relevantes da área, estabelecendo conexões entre as abordagens teóricas e as implicações metodológicas no contexto educacional. Com isso, pretende-se oferecer um panorama consistente do campo, situando a pesquisa em relação aos debates já existentes e destacando sua relevância e originalidade.

3.1 Fundamentação teórico-metodológica

O interesse pela leitura nas escolas tem diminuído, em grande parte por conta do uso das plataformas digitais de leitura, que priorizam a quantidade de material lido semanalmente em detrimento da formação de leitores críticos e aptos a interpretar o conteúdo das obras. Ao examinarmos a Base Nacional Comum (2018), notamos que a abordagem da leitura literária mencionada no documento se concentra apenas na decodificação necessária para responder às atividades, sem incentivar a compreensão da dinâmica entre autor e leitor, que é essencial para a interpretação mais profunda do texto.

Com o passar dos anos, a literatura perdeu seu papel central na formação crítica nas instituições de ensino, sendo substituída pelo ensino de gêneros textuais com o intuito de atender apenas às avaliações externas. Essa situação, muitas vezes, resulta da falta de intenção pedagógica entre os alunos.

A leitura literária por Silva (2023, p.520) reforça:

… a leitura da literatura está relacionada à compreensão do texto, à experiência literária vivenciada pelo leitor no ato da leitura, ao passo que o ensino da literatura se configura como o estudo da obra literária, tendo em vista a sua organização estética. Na verdade, esses dois níveis estão imbricados, na medida em que ao experienciar o texto, por meio da leitura literária, o aluno também deveria ser instrumentalizado, a fim de reconhecer a literatura como objeto esteticamente organizado. No entanto, a escola parece dissociar esses dois níveis, desvinculando o prazer de ler o texto literário (produzido pela leitura da literatura) do reconhecimento das singularidades estéticas da obra (proporcionado pelo estudo/ ensino da literatura)

O presente estudo adotou caráter qualitativo, pautando-se na análise interpretativa dos dados coletados por meio da revisão bibliográfica em livros, artigos, dissertações de mestrados. Para os autores Marconi & Lakatos (2020, p. 200) “…pesquisa bibliográfica não é mera repetição do que já foi dito ou escrito sobre certo assunto, visto que propicia o exame de um tema sob novo enfoque ou abordagem, chegando a conclusões inovadoras.” Valorizam-se abordagens que considerem as percepções dos sujeitos envolvidos no processo educacional, como professores, alunos e especialistas em literatura, para compreender as estruturas educacionais vigentes e propor novas práticas.

A pesquisa bibliográfica é definida.

[…] a partir do levantamento de referências teóricas já analisadas, e publicadas por meios escritos e eletrônicos, como livros, artigos científicos, páginas de web sites. [..] que permite ao pesquisador conhecer o que já se estudou sobre o assunto. Existem, porém, pesquisas científicas que se baseiam unicamente na pesquisa bibliográfica, procurando referências teóricas publicadas com o objetivo de recolher informações ou conhecimentos prévios sobre o problema a respeito do qual se procura a resposta (FONSECA, 2002, p. 32)

Frequentemente, discute-se a origem dos desafios enfrentados no ensino de literatura nas escolas, questionando se esses problemas se encontram nas abordagens pedagógicas que carecem de inovação, ao incorporar recursos digitais e métodos interativos que estimulem o interesse e a participação dos estudantes. Contudo, na prática, os educadores muitas vezes não possuem a liberdade necessária para transmitir uma literatura que proporcione uma reflexão significativa para os alunos. Isso se deve, em parte, aos materiais didáticos ou digitais fornecidos pelo sistema educacional, que acabam limitando os professores a priorizar resultados quantitativos em vez de promover o desenvolvimento de leitores capazes de uma interpretação aprofundada. É fundamental criar ambientes que favoreçam a recepção de textos literários nas instituições de ensino, permitindo que cada leitura abra novas perspectivas, contribuições e formas de estabelecer diálogos entre a obra literária e a realidade do leitor, sem desconsiderar o contexto histórico e social em que foi produzida.

O texto literário é uma obra de natureza complexa, resultante de intenções, operações linguísticas e produção de sentidos que colocam em jogo o uso da linguagem além da referencialidade. A literatura implica reconhecer, entender e fruir elementos de natureza expressiva, conativa e poética que destacam o espaço da manifestação literária como aquele que exige do seu leitor muito mais participação do que aquela requerida em processos de interação verbal que destacam sobremaneira a função referencial da linguagem (GUIMARÃES; BATISTA, 2012, p. 21).

Silva (2003) argumenta que a escola tem a responsabilidade de cultivar leitores autônomos, que consigam refletir por conta própria. É fundamental que esses indivíduos sejam críticos em relação ao mundo ao seu redor, mas isso não é suficiente. Na realidade, o enfoque da leitura na escola geralmente está voltado para a aquisição de conhecimento. A utilização ativa de textos, aliada ao compartilhamento de experiências e à promoção de discussões, junto com a valorização das opiniões dos alunos, se configura como parte das atividades escolares. Nesse contexto, as sugestões de estratégias para o monitoramento da leitura de obras literárias são estruturadas em três etapas fundamentais: pré-leitura, leitura e pós-leitura.

A proposta de leitura da obra inicia-se com a pré-leitura, momento em que será feita a contextualização do autor, Aluísio de Azevedo, apresentando dados sobre o período em que viveu, o cenário histórico retratado em O Cortiço e as principais características do Naturalismo. Essa etapa visa estabelecer ligações entre a obra e o conhecimento prévio dos alunos, aproximando-os do universo narrativo. Para a ativação de conhecimento, serão realizadas atividades dinâmicas, como a formulação de suposições sobre o enredo e debates iniciais a respeito dos temas centrais do texto, como desigualdade social, convivência coletiva e transformações urbanas.

Durante a leitura, será adotada a leitura orientada, com momentos de leitura em conjunto ou em voz alta, alternados com pausas para reflexão e debate. Serão utilizados marcadores de leitura, incentivando os alunos a registrar passagens importantes, levantar questionamentos e identificar conexões com outros textos ou realidades conhecidas. Além disso, recorrer-se-á a esquemas de ideias elaborados manualmente, com recursos visuais como mapas de personagens e linhas do tempo, a fim de estruturar as compreensões e interpretações construídas no decorrer da leitura.

Após a leitura, os alunos participarão de grupos de leitura, nos quais compartilharão suas interpretações, impressões e visões sobre a obra. Serão incentivadas criações artísticas inspiradas no romance, que poderão se materializar em encenações teatrais, ilustrações ou pequenas filmagens, todas realizadas de forma presencial e com recursos não digitais. Para ampliar o sentido da leitura, serão propostas relações modernas, que convidem os estudantes a estabelecer vínculos entre o enredo e questões contemporâneas, estimulando a análise crítica e o posicionamento reflexivo diante dos problemas sociais discutidos na narrativa.

Nota-se uma nova abordagem para o ensino de literatura nas práticas cotidianas em sala de naturalismo brasileiro. Ao tratar desse livro, é essencial que o educador crie um ambiente de aprendizado interativo, onde os alunos possam relacionar a narrativa literária com o contexto social, cultural e histórico do Brasil do século XIX. Nesse cenário, envolver os estudantes em discussões sobre temas como a marginalização de classes sociais e as condições de vida nas áreas urbanas permite que pensem criticamente sobre assuntos que ainda são relevantes. Uma abordagem inovadora é implementar atividades interativas, como encenações ou a elaboração de projetos em diferentes formatos, que incentivem a criatividade e a empatia dos alunos. Por exemplo, ao pedir que eles representem trechos de O Cortiço, os estudantes experimentam as complexidades emocionais e sociais dos personagens, aprimorando suas habilidades interpretativas e sua consciência em relação às questões sociais apresentadas na narrativa. Outra sugestão seria a criação de blogs ou plataformas de debate online onde os estudantes possam trocar suas análises sobre os temas discutidos, promovendo uma troca de ideias que pode enriquecer ainda mais sua experiência literária.

É essencial reconhecer a importância das leituras profundas e das análises de obras que investigam a influência de O Cortiço em diversos aspectos da literatura e da vida social. A adição de recursos complementares, como análises de especialistas, vídeos informativos e estudos acadêmicos, pode aprofundar a compreensão dos alunos, ajudando-os a enxergar a obra não apenas como uma forma de arte, mas como um reflexo significativo de uma época e de um contexto que ainda são relevantes. Além disso, a realização de visitas a museus ou exposições sobre a história das cidades brasileiras pode proporcionar um fechamento memorável ao processo de aprendizagem, consolidando a literatura como uma ferramenta de crítica e reflexão social nas atividades em sala de aula. Assim, essa nova abordagem do ensino literário não apenas amplia o conhecimento literário dos estudantes, mas também os habilita a se tornarem cidadãos mais conscientes e participativos em um mundo repleto de desafios.

Dando prosseguimento ao desenvolvimento do artigo, o próximo tópico será dedicado à apresentação e constituição do objeto de pesquisa, com ênfase no desafio de ensino-aprendizagem relacionado à mediação e ao compartilhamento de experiências de leitura literária da obra O Cortiço, de Aluísio Azevedo.

A escolha dessa temática decorre da constatação de dificuldades recorrentes no processo de aproximação dos estudantes com o texto literário canônico, especialmente no que se refere à leitura crítica e significativa de obras pertencentes ao arcabouço do realismo-naturalismo brasileiro. A proposta, portanto, busca investigar e refletir sobre práticas pedagógicas que favoreçam a vivência da leitura literária como experiência estética, interpretativa e formativa, considerando os princípios

Nesse contexto, o objeto de pesquisa se configura a partir de uma questão central: como promover o engajamento e a participação ativa dos estudantes na leitura da obra O Cortiço, de modo que possam construir sentidos próprios e partilhar suas interpretações em um espaço de diálogo e escuta? A resposta a essa indagação implica em considerar estratégias didáticas que priorizem o protagonismo dos(as) alunos(as), o diálogo com seus repertórios culturais e a valorização da literatura como instrumento de leitura de mundo. Ao discutir esse desafio, o trabalho se insere nas discussões contemporâneas sobre ensino de literatura, ancorando-se em aportes teóricos que defendem uma prática de leitura literária mediada, colaborativa e dialógica, em consonância com as diretrizes da BNCC e com os estudos de autores como Rildo Cosson, Solé e Zilberman.

4. Apresentação e constituição do objeto de pesquisa: Desafio de ensino-aprendizagem: mediação e compartilhamento de experiências de leitura literária

A análise da literatura desempenha um papel crucial no crescimento individual, não apenas por sua beleza intrínseca, mas porque nos estimula a refletir e questionar a realidade ao nosso redor. Quando abordamos a literatura de uma maneira que ressoe conosco, ela nos convida a observar questões complexas presentes na sociedade, semelhantes às que encontramos em obras significativas do Brasil, como “O Cortiço”, de Aluísio de Azevedo. Essa obra retrata a vida em um ambiente onde muitas pessoas viviam juntas no Rio de Janeiro do século XIX, revelando as disparidades sociais e os conflitos que, de alguma forma, persistem até os dias atuais. Ao se dedicar ao estudo dessa narrativa, os alunos são encorajados a refletir sobre sua própria identidade, as dinâmicas de gênero, a diversidade racial e os desafios trazidos pelas desigualdades sociais. É essencial que os leitores se sintam inspirados antes de se aprofundarem no campo da leitura literária, para que consigam compreender efetivamente as reflexões que a obra escolhida oferece, como destaca a autora Solé (1998, p.22):

[…] sempre deve existir um objetivo para guiar a leitura; em outras palavras, sempre lemos para algo, para alcançar alguma finalidade. […] a interpretação que nós, leitores, realizamos dos textos que lemos depende em grande parte do objetivo da nossa leitura. Isto é, ainda que o conteúdo de um texto permaneça invariável, é possível que dois leitores com finalidades diferentes extraiam informação distinta do mesmo.

A literatura exerce um papel essencial na trajetória de aprendizado da leitura e escrita, contribuindo não apenas para o desenvolvimento dessas habilidades, mas também enriquecendo o de adentrar diferentes pontos de vista, cenários e universos, promovendo tanto a empatia quanto o pensamento crítico. Esse envolvimento com variadas narrativas possibilita que as pessoas compreendam não somente a estrutura dos textos, mas também se identifiquem com aspectos da experiência humana. Dessa forma, a educação literária se transforma em um meio de formar cidadãos mais conscientes e sensíveis. Ao diversificar as metodologias de ensino, a literatura pode atuar como um recurso para aprimorar a interpretação e a argumentação, competências essenciais para o desenvolvimento do pensamento crítico. A leitura e discussão da obra O Cortiço em contextos educativos vai além da simples análise de suas histórias e personagens; envolve também a reflexão sobre suas implicações sociais e históricas, criando um espaço onde os estudantes podem expressar suas opiniões e experiências relacionadas ao tema. Através dessas interações, a literatura se torna um veículo de autodescoberta e empatia. A abordagem adotada será colaborativa e envolvente, incluindo momentos para leitura individual, debates em grupo, atividades de produção textual e cocriação de textos.

As tarefas serão aplicadas progressivamente, com o apoio constante do professor, que atuará como um mediador do percurso. Cosson (2019, p.51) “A sequência básica do letramento literário na escola […] é constituída por quatro passos: motivação, introdução, leitura e interpretação”.

[…] a leitura demanda uma preparação, uma antecipação, cujos mecanismos passam despercebidos porque nos parecem muito naturais. Na escola, essa preparação requer que o professor a conduza de maneira a favorecer o processo da leitura como um todo. Ao denominar motivação a esse primeiro passo da sequência básica do letramento literário, indicamos que seu núcleo consiste exatamente em preparar o aluno para entrar no texto. O sucesso inicial do encontro do leitor com a obra depende de boa motivação. (COSSON, 2019, p. 54).

A opção por não utilizar textos digitais tem como finalidade valorizar a experiência de leitura no suporte físico, favorecendo a concentração, a imersão e o vínculo sensorial com a obra. Ao privilegiar o livro impresso, busca-se reduzir as distrações comuns do ambiente digital e promover uma relação mais direta e reflexiva entre leitor e texto, resgatando práticas tradicionais que fortalecem o letramento literário. organização de pedagógicas voltadas ao ensino de literatura demanda, sobretudo, metodologias que reconheçam a leitura literária como um processo formativo, gradual e dialógico. Nesse sentido, a proposta de letramento literário, conforme desenvolvida por Cosson (2021), apresenta-se como um referencial didático relevante, ao propor uma sequência básica constituída por quatro etapas: motivação, introdução, leitura e interpretação. Essa estrutura visa proporcionar ao estudante uma vivência literária que ultrapasse a decodificação do texto e promova a construção de sentidos a partir da experiência estética e crítica.

Cortiço, de Aluísio Azevedo, buscando articular teoria e prática no contexto escolar. Na primeira semana, a etapa da motivação teve como foco despertar o interesse dos estudantes pela leitura. Foram apresentados os objetivos do projeto e discutido o conceito de letramento literário, seguido pela leitura e análise do primeiro capítulo da obra, com ênfase na ambientação e caracterização dos personagens. Essa aproximação inicial teve por finalidade criar vínculos entre os alunos e o universo narrativo da obra, favorecendo o envolvimento afetivo e cognitivo com o texto.

Na segunda semana, foi desenvolvida a etapa da introdução, voltada à preparação para uma leitura mais aprofundada. Por meio da análise de trechos selecionados, discutiram-se os principais temas sociais presentes na obra, como desigualdade, exploração e preconceito. A inclusão de atividades de escrita criativa, como a reescrita de um trecho com final alternativo, proporcionou aos alunos o exercício da autoria e da imaginação, promovendo uma leitura ativa e significativa.

A terceira semana foi dedicada à leitura contínua da obra, respeitando o tempo de cada aluno e ampliando o diálogo com os valores éticos e morais implicados na narrativa. As discussões em sala de aula foram direcionadas à problematização de comportamentos e relações sociais presentes na obra, o que permitiu a elaboração de reflexões pessoais escritas, conectando o conteúdo literário às experiências dos alunos e ao contexto sociocultural em que estão inseridos.

Por fim, na quarta semana, a etapa da interpretação consistiu na sistematização dos sentidos construídos ao longo do percurso de leitura. Os estudantes apresentaram suas produções autorais em uma roda de conversa, em que puderam compartilhar interpretações, impressões e sentimentos suscitados pela leitura de O Cortiço. Esse momento configurou-se como um espaço de valorização da pluralidade de olhares e da construção coletiva de sentidos, reafirmando o papel da literatura como prática social e instrumento de formação humanística.

A aplicação dessa sequência didática evidencia o potencial do letramento literário como metodologia estruturante para o ensino de literatura na escola. Ao respeitar as etapas de aproximação, compreensão e interpretação do texto literário, a prática docente deixa de ser meramente transmissiva e passa a mediar experiências leitoras que contribuem para o desenvolvimento da sensibilidade estética, da consciência crítica e da competência comunicativa dos estudantes. Dessa forma, reafirma-se a centralidade da literatura na formação integral do sujeito e o papel ativo da escola na promoção do acesso e do diálogo com o patrimônio literário nacional.

A leitura conforme Cosson (2021), não o intuito de vigiar se o aluno está ou não lendo e sim observar se o aluno está com dificuldade no desenvolvimento leitor, dessa forma ele realça os benefícios da leitura:

Ao acompanhar a leitura dos alunos por meio dos intervalos, o professor poderá ajudá-los a resolver ou, pelo menos, interação com o texto, a exemplo do desajuste das expectativas que pode levar ao abandono do livro, até o ritmo de leitura, possível consequência tanto das condições de legibilidade do texto quanto da disponibilidade do aluno para realizar a atividade. (COSSON, 2019, p.64)

O desenvolvimento cognitivo dos alunos ao longo do cronograma proposto na leitura e análise do livro O Cortiço de Aluísio de Azevedo e será avaliado de forma contínua sob a orientação do professor. Daremos ênfase à habilidade de argumentar e escrever de forma clara, além de promover a participação ativa em discussões durante as aulas. O objetivo deste projeto é proporcionar uma experiência de aprendizado significativa no universo literário, promovendo o crescimento dos alunos tanto em termos intelectuais quanto emocionais, através do contato com livros e textos, em um ambiente que valoriza a cooperação e o pensamento crítico. Dentro do contexto da transformação educacional, o papel do professor de literatura é fundamental, especialmente ao discutir obras como O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, que serve como uma base rica para diálogos sobre questões sociais, culturais e históricas do Brasil. O educador deve estar ciente de que sua função vai além de apenas transmitir conhecimentos, devendo criar um espaço onde os estudantes possam investigar e interpretar criticamente os temas e personagens. O professor atua como um mentor, estimulando os alunos a refletirem sobre as situações apresentadas na obra, como a desigualdade social, a urbanização e a diversidade cultural, aspectos relevantes do Brasil do século XIX que ainda reverberam em nossa sociedade atual.

A leitura do texto literário constitui uma atividade sintetizadora, permitindo ao indivíduo penetrar o âmbito da alteridade sem perder de vista sua subjetividade e história. O leitor não esquece suas próprias dimensões, mas expande as fronteiras do conhecido, que absorve através da imaginação e decifra por meio do intelecto. Por isso, trata-se também de uma atividade bastante completa, raramente substituída por outra, mesmo as de ordem existencial. Essas têm seu sentido aumentado, quando contrapostas às vivências transmitidas pelo texto, de modo que o leitor tende a se enriquecer graças ao seu consumo (ZILBERMAN, 2008, p. 17).

Dessa maneira, a função de um educador de literatura é fomentar diálogos que possibilitem aos estudantes compreender as particularidades da narrativa e relacioná-las com o mundo ao seu redor. Por meio de abordagens dinâmicas, como discussões, encenações e projetos interdisciplinares, o professor pode aprofundar os aspectos do texto, revelando sua profundidade. Essa metodologia de ensino enriquece a cultura dos alunos e suscita um envolvimento afetivo e intelectual mais significativo, essencial para formar leitores críticos que se preocupam com as questões sociais. Assim, o ensino de O Cortiço vai além da mera análise literária e se transforma em um ponto de partida para discussões sobre direitos, ética e responsabilidades sociais.

A interpretação é a parte mais complexa em uma leitura literária, pois passa do individual para que interpretamos a leitura. Segundo Cosson (2021, p.66):

Na escola, entretanto, é preciso compartilhar a interpretação e ampliar os sentidos construídos individualmente. A razão disso é que, por meio do compartilhamento de suas interpretações, os leitores ganham consciência de que são membros de uma sociedade e de que essa coletividade fortalece e amplia seus horizontes de leitura.

É fundamental que os educadores tenham domínio sobre as novas tecnologias e ferramentas digitais, utilizando-as como recursos para enriquecer o processo de aprendizado. Com o auxílio de plataformas online, vídeos e materiais interativos, é possível tornar as aulas mais dinâmicas e fomentar o interesse pelo saber, além de promover a colaboração entre os estudantes. O foco principal deve ser a capacitação dos professores, que devem possuir não só um conhecimento profundo sobre a literatura, mas também a habilidade de incentivar uma análise crítica e reflexiva, ajudando na formação de cidadãos que, inspirados por obras literárias clássicas, busquem construir um futuro mais justo e esclarecido. No que diz respeito ao O Cortiço, essa abordagem se torna ainda mais significativa, uma vez que a obra vai além de apenas relatar um período histórico, refletindo condições atuais que exigem um estudo constante e uma atitude proativa dos docentes em relação à mudança.

Dessa forma, ao aplicar a sequência didática fundamentada no letramento literário, observou- se a potencialidade da literatura como experiência formativa e crítica no ambiente escolar. A mediação da leitura de O Cortiço, estruturada em etapas que valorizam a motivação, o engajamento e a interpretação ativa do aluno, revelou-se um caminho promissor para o ensino de literatura. Com base nessa prática, o próximo tópico propõe apresentar uma análise dos resultados obtidos, discutir as contribuições da obra no processo de leitura e interpretação dos estudantes, bem como refletir sobre os impactos pedagógicos esperados a partir dessa experiência.

5. Análise, discussão e resultados esperados

Reavaliar a maneira de abordar a Literatura, especialmente através da obra O Cortiço de Aluísio Azevedo, apresenta tanto desafios quanto possibilidades no cenário educacional atual. Um dos principais obstáculos é a resistência a abandonar os métodos tradicionais, desse modo que muitas vezes não se consegue promover uma análise crítica e engajada da obra literária. Ao trazer a referida obra para o ambiente escolar, os educadores precisam ir além de apenas explicar o texto; eles devem guiar os alunos em uma investigação minuciosa das dinâmicas sociais e psicológicas que habitam a personagens, oferece uma oportunidade valiosa para discutir questões como desigualdade social, formação da identidade e preconceito, que são essenciais na sociedade atual.

Entretanto, a dificuldade de aplicar a teoria na prática pode representar um grande obstáculo, pois exige um aprimoramento considerável nas estratégias pedagógicas. Além disso, utilizar O Cortiço como recurso educacional possibilita uma renovação na forma como a literatura é apresentada, incorporando novas tecnologias e atividades que atraiam os estudantes. Através de discussões, projetos interdisciplinares e análises comparativas, é possível criar um ambiente de aprendizagem mais ativo e envolvente. Quando a literatura é encarada não apenas como um objeto de estudo, mas como um instrumento de crítica social e reflexão histórica, pode motivar os jovens a se tornarem leitores críticos, capacitando-os a entender seu próprio contexto e a questionar normas estabelecidas. Portanto, a adoção de metodologias dinâmicas que valorizem a colaboração e a integração do conhecimento surge como uma oportunidade de transformar o ensino de O Cortiço em uma experiência significativa e memorável.

Por fim, a constante dedicação à capacitação dos professores se apresenta como uma estratégia fundamental para revitalizar o ensino da literatura. Proporcionar apoio ao crescimento profissional dos educadores, explorando novas perspectivas teóricas e práticas pedagógicas inovadoras, pode equipá-los com recursos para engajar os alunos de maneira mais eficaz. Em resumo, os obstáculos constatados na abordagem de O Cortiço podem, de fato, impulsionar um processo de transformação que reinventa a literatura no ambiente escolar, promovendo uma educação crítica, reflexiva e propensa a gerar mudanças.

6. Considerações Finais

Analisar a obra O Cortiço de Aluísio Azevedo revelou-se um caminho frutífero para repensar o ensino de literatura, especialmente no contexto contemporâneo. Através de um retrato vívido e detalhado da vida nos cortiços do Rio de Janeiro no século XIX, Azevedo não somente narra uma história com forte cunho social, mas igualmente propõe uma reflexão incisiva sobre questões como a disparidade social, o papel do indivíduo no grupo e o impacto do meio na construção da identidade. Ao abordar tais temas, a obra estimula os professores a empregarem a literatura como um instrumento para decifrar as complexidades sociais, despertando nos estudantes um olhar crítico que transcende a mera ficção.

Além disso, a análise de O Cortiço oferece uma abordagem multidisciplinar essencial no ambiente educacional. A literatura, ao se mesclar com disciplinas como história, sociologia e antropologia, enriquece o processo de aprendizagem e possibilita que os estudantes conectem a obra literária com as realidades sociais passadas e atuais. Essa integração também promove discussões sobre os diversos contextos sociais e culturais que moldam as vivências humanas, transformando a literatura em uma ferramenta que vai além do conhecimento, contribuindo para o fortalecimento da cidadania crítica. Assim, a tarefa do professor é facilitar essa comunicação, utilizando O Cortiço como um exemplo para fomentar a empatia e a conscientização social.

Uma nova abordagem do ensino literário por meio de O Cortiço destaca a urgente necessidade de uma pedagogia que valorize a pluralidade de vozes e experiências presentes na sociedade. Essa obra não deve ser vista apenas como um item literário a ser analisado de forma isolada, mas como um meio para discussões profundas sobre a condição humana e suas transformações ao longo do tempo. Assim, ao incluir O Cortiço no currículo escolar, os educadores não apenas reforçam a importância da literatura clássica, mas também criam um espaço para diálogo e reflexão, fundamental para formar indivíduos mais críticos e conscientes, prontos para lidar com as complexidades do mundo atual.

Em síntese, o estudo de O Cortiço dentro da Sequência Básica do Letramento Literário permite compreender a diversidade social, cultural e histórica do Brasil do século XIX, estimulando a leitura crítica e reflexiva dos alunos. Ao mesmo tempo, a articulação com o curso de Literaturas de Língua Portuguesa — considerando identidades, territórios e deslocamentos no Brasil, Moçambique e Portugal — amplia a percepção dos estudantes sobre a produção literária lusófona, fortalecendo a compreensão das relações entre contextos históricos, experiências individuais e coletivas e o papel da literatura na construção de sentidos.

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1Mestre em Tecnologias Emergentes na Educação – Must Univeristy, Professor de Língua Portuguesa e Inglesa na Rede Estadual de São Paulo – SP, vinculação institucional: Secretaria de Educação do Estado de São Paulo,
e-mail domingos.profesor2020@gmail.com
2Doutora em Letras pela Universidade Federal do Ceará, vinculação institucional Professora Adjunta do Curso de Letras da Universidade Estadual do Ceará, Campus Limoeiro do Norte (Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos – FAFIDAM). e-mail mary.nascimento@uece.br