REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511171128
Rockson André Fritzen
Orientador: Prof. Ricardo Henrique Esquivel Azuma
RESUMO
O presente estudo teve como objetivo analisar a repercussão da cinesioterapia associada ao uso de palmilhas ortopédicas em adultos com distúrbios posturais e alterações do arco plantar. Trata-se de uma pesquisa experimental, de delineamento transversal e abordagem quantitativa, realizada com 20 voluntários adultos diagnosticados com pé plano ou cavo. A intervenção consistiu em sessões semanais de cinesioterapia, focadas em exercícios de fortalecimento e alongamento dos músculos responsáveis pela sustentação do arco plantar, associadas ao uso de palmilhas ortopédicas personalizadas confeccionadas em E.V.A. A análise dos dados foi feita por meio de estatística descritiva e inferencial, comparando avaliações pré e pós-intervenção. Os resultados indicaram melhora significativa na postura, redução da dor musculoesquelética e aumento da estabilidade corporal. Verificou-se também uma maior adesão ao uso das palmilhas e melhora perceptível na autoavaliação postural dos participantes. Conclui-se que a associação entre cinesioterapia e palmilhas ortopédicas é uma estratégia eficaz para a correção das alterações do arco plantar e melhora do alinhamento postural, contribuindo para a promoção da qualidade de vida e funcionalidade dos indivíduos acometidos.
Palavras-chave: Cinesioterapia. Palmilhas ortopédicas. Arco plantar. Postura. Fisioterapia.
ABSTRACT
This study aimed to analyze the effects of kinesiotherapy associated with the use of orthopedic insoles in adults with postural disorders and plantar arch alterations. It is an experimental, cross-sectional, and quantitative research conducted with 20 adult volunteers diagnosed with flat or high arches. The intervention consisted of weekly kinesiotherapy sessions focused on strengthening and stretching the muscles involved in maintaining the plantar arch, combined with the use of customized orthopedic insoles made of EVA. Data analysis was performed using descriptive and inferential statistics, comparing pre- and post-intervention assessments. The results showed a significant improvement in posture, reduction of musculoskeletal pain, and increased body stability. There was also greater adherence to the use of insoles and noticeable improvement in participants’ self-assessed posture. It is concluded that the combination of kinesiotherapy and orthopedic insoles is an effective strategy for correcting plantar arch alterations and improving postural alignment, contributing to better quality of life and functionality in affected individuals.
Keywords: Kinesiotherapy. Orthopedic insoles. Plantar arch. Posture. Physiotherapy.
1. INTRODUÇÃO
O pé é uma parte fundamental do corpo humano, funcionando como base de apoio para todo o peso corporal. Sua atuação vai além do simples suporte, desempenhando papel crucial na defesa, oferecendo solidez e absorvendo impactos, o que garante mobilidade e eficácia nos movimentos. Além disso, sua importância estende-se tanto à estática quanto à dinâmica corporal, influenciando diretamente a postura e a distribuição das cargas corporais (NEVES et al., 2020).
Anatomicamente, o pé apresenta uma estrutura complexa e está constantemente submetido a forças externas. Por essa razão, está sujeito a deformidades ao longo da vida. Sua arquitetura é sustentada por três arcos formados pelas estruturas ósseas da região: o arco anterior, o arco lateral (ou externo) e o arco medial (ou interno), também denominado arco longitudinal plantar. Este último, por apresentar uma acentuada convexidade, impede o contato direto da borda medial do pé com o solo.
O arco longitudinal plantar é essencial para a manutenção das qualidades ortostáticas, tanto em repouso quanto durante a marcha, assegurando eficiência biomecânica e funcionalidade. A preservação de sua curvatura natural depende da interação harmoniosa entre os sistemas ósseo, muscular e ligamentar. Quando essa interação é comprometida, pode ocorrer o colapso da estrutura do arco, resultando no desenvolvimento do pé plano. Essa condição afeta negativamente a distribuição da carga corporal, prejudica a biomecânica da marcha e pode provocar desconforto e dores progressivas (OBRIEN et al., 2014).
Alterações no arco plantar em adultos podem acarretar diversas consequências posturais, interferindo na distribuição do peso corporal e na mecânica do movimento. Estima-se que cerca de 80% da população apresente algum tipo de alteração nos pés, como o pé plano ou o pé cavo, que, se não tratadas, podem ocasionar desequilíbrios posturais significativos.
O pé plano, por exemplo, está frequentemente associado ao aumento da lordose lombar, enquanto o pé cavo pode provocar retificação da curvatura lombar, comprometendo a estabilidade da coluna vertebral e favorecendo dores musculoesqueléticas. Para minimizar esses impactos, é fundamental adotar um tratamento adequado, o qual pode incluir cinesioterapia com foco no fortalecimento e alongamento da musculatura envolvida, além do uso de palmilhas ortopédicas personalizadas, que visam melhorar o alinhamento postural e a distribuição das cargas durante a marcha e a postura estática. O acompanhamento fisioterapêutico é essencial para a reeducação postural e para a prevenção de complicações a longo prazo (SOUZA et al., 2011).
As órteses plantares são amplamente utilizadas tanto em contextos terapêuticos quanto em atividades esportivas, proporcionando suporte e alívio para diferentes condições biomecânicas. As palmilhas ortopédicas, um tipo específico de órtese plantar, exercem função importante na redistribuição das pressões sobre os pés, suavizando pontos de compressão e prevenindo lesões (MAGEE, 2005).
Além de oferecer conforto e amortecimento durante a caminhada, essas palmilhas auxiliam na absorção de impactos, reduzindo os choques e a fricção entre o pé e o calçado. São especialmente indicadas para indivíduos com alterações estruturais nos pés, como o pé plano ou cavo, e para aqueles que necessitam de melhor alinhamento postural.
Diante dessas considerações, este estudo tem como objetivo analisar a repercussão do uso de palmilhas ortopédicas associadas à cinesioterapia em adultos com alterações nos arcos plantares.
1.1 Justificativa
As alterações do arco plantar são disfunções que afetam diretamente a distribuição do peso corporal, a biomecânica da marcha e a postura global do indivíduo. Essas alterações podem resultar em desalinhamentos posturais, como hiperlordose lombar e retificação da coluna, levando a dores musculoesqueléticas e comprometendo a funcionalidade do movimento. Estima-se que cerca de 80% da população possua algum grau de alteração nos pés (MAGEE, 2005).
A cinesioterapia e o uso de palmilhas ortopédicas têm sido amplamente indicados como estratégias para a correção e reabilitação de disfunções biomecânicas associadas às alterações plantares. A cinesioterapia atua no fortalecimento e no alongamento da musculatura envolvida, promovendo a reeducação postural e a melhora da estabilidade corporal. Já as palmilhas ortopédicas auxiliam na redistribuição das cargas plantares, proporcionando maior conforto, absorção de impacto e correção de desalinhamentos biomecânicos (RACIELE et al., 2013).
Diante disso, este estudo se justifica pela necessidade de investigar a efetividade dessas intervenções no tratamento de distúrbios posturais, contribuindo para a promoção da saúde e qualidade de vida dos indivíduos acometidos. Além disso, os resultados obtidos poderão fornecer embasamento científico para profissionais da fisioterapia e áreas afins, contribuindo para a melhoria da prescrição fisioterapêutica, a personalização das palmilhas ortopédicas e a otimização de protocolos de cinesioterapia, com foco na prevenção e reabilitação eficaz das disfunções do arco plantar.
1.2 Objetivo Geral
Analisar os efeitos da cinesioterapia associada ao uso de palmilhas ortopédicas na correção de alterações do arco plantar em adultos e suas repercussões nos distúrbios posturais.
1.3 Objetivos Específicos
Analisar a influência das alterações do arco plantar no alinhamento postural e na distribuição das cargas corporais durante a marcha. Avaliar a eficácia da cinesioterapia associada ao uso de palmilhas ortopédicas personalizadas na melhora da postura e na redução de dores musculoesqueléticas em indivíduos com disfunções do arco plantar.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
O pé humano é uma estrutura complexa composta por 26 ossos, 33 articulações e mais de 100 músculos, tendões e ligamentos. Essa constituição permite não apenas o suporte estático do corpo, mas também a realização de movimentos dinâmicos como a marcha, corrida e saltos (MAGEE, 2005). Dentre os principais elementos anatômicos do pé, destacam-se os arcos plantares, cuja função é distribuir as cargas corporais, absorver impactos e garantir o equilíbrio postural.
Os arcos plantares são divididos em três tipos principais: o arco longitudinal medial (ou interno), o arco longitudinal lateral (ou externo) e o arco transverso anterior. O arco longitudinal medial é o mais proeminente e funcionalmente relevante, já que sua curvatura natural evita o contato total da planta do pé com o solo, favorecendo a propulsão durante a marcha (KAPANDJI, 2007). Esse arco é sustentado por uma interação precisa entre os componentes ósseos, músculos intrínsecos do pé e ligamentos, como o ligamento plantar longo e o ligamento calcaneonavicular plantar.
Além disso, os arcos plantares funcionam como um sistema de alavancas e amortecedores que contribuem para a eficiência dos movimentos, dissipando as forças de reação do solo e reduzindo o estresse nas articulações superiores, como tornozelos, joelhos, quadris e coluna lombar (NEVES et al., 2020).
3 MATERIAL E MÉTODOS
3.1 Tipo de estudo
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa experimental, de delineamento transversal, com abordagem quantitativa. Visa analisar os efeitos da cinesioterapia associada ao uso de palmilhas ortopédicas em adultos com alterações do arco plantar, verificando mudanças posturais e redistribuição das cargas plantares.
3.2 Local e População
A pesquisa foi realizada no Centro Universitário Descomplica/União das Américas (UniAmérica Descomplica), localizado na cidade de Foz do Iguaçu – PR. A população-alvo será composta por adultos com diagnóstico clínico de alterações no arco plantar, residentes na região, a amostra será composta por 20 voluntários.
Critérios de inclusão:
- Indivíduos com idade de 18 a 70 anos.
- Indivíduos com alterações no arco plantar (pé plano ou cavo);
- Que aceitem participar da pesquisa mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
Critérios de exclusão:
- Pessoas com lesões traumáticas no pé (fraturas, luxações, acidentes);
- Patologias neurológicas;
- Indivíduo com menos de 85% de participação;
- Indivíduos que não concordam com o termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
A frequência da intervenção será de uma vez por semana (às sextas-feiras), durante cinco meses consecutivos.
3.3 Avaliação Inicial e Final
Todos os participantes foram avaliados antes e após a intervenção, com os seguintes instrumentos:
- Análise da região plantar: realizada por inspeção visual.
- Avaliação postural: análise visual do alinhamento corporal em vista anterior, posterior e lateral. Sempre que possível, será utilizada ferramenta digital de apoio (ex: aplicativos de avaliação postural).
Essas avaliações permitirão comparar possíveis alterações estruturais e posturais decorrentes da intervenção.
3.4 Intervenção
A intervenção foi composta por duas abordagens complementares:
Cinesioterapia: Sessões semanais com exercícios de alongamento e fortalecimento das musculaturas envolvidas na sustentação do arco plantar e na estabilidade postural, como músculos intrínsecos do pé, tríceps sural, tibial posterior e anterior, e cadeia posterior. O objetivo é promover o equilíbrio muscular e a reeducação postural.
Palmilhas ortopédicas personalizadas: Confeccionadas pelos acadêmicos da instituição, com foco em baixo custo. Os materiais utilizados serão:
- E.V.A de 20 mm;
- Palmilhas novas simples;
- Cola adesiva de contato;
- Grelha metálica para moldagem e ajuste conforme a anatomia do pé dos participantes.
As palmilhas serão ajustadas individualmente e utilizadas pelos participantes no cotidiano e durante os exercícios.
Figura 1: Exemplo de modelagem da palmilha ortopédica.

3.5 Análise de Dados
Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva (média, desvio padrão) e inferencial, com aplicação de testes apropriados (ex: teste pareado para comparação pré e pós-intervenção). Será adotado um nível de significância de 5% (p < 0,05). Sendo assim, propõe-se um estudo para avaliar a eficácia de palmilhas ortopédicas associadas a exercícios, visando a correção do arco plantar e a melhora postural.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO OU RESULTADOS ESPERADOS
Após a realização do programa de intervenção proposto, observou-se melhora significativa nos distúrbios posturais e nas alterações do arco plantar. Os participantes relataram redução de desconfortos e melhora na estabilidade corporal. Os resultados foram analisados por meio de gráficos referentes à pré-avaliação e pós avaliação.
Gráfico 1 – Você sente dor ou desconforto ao caminhar ou ficar em pé por longos períodos?

Gráfico 2 – Você utiliza palmilhas ortopédicas regularmente?

Gráfico 3 – Como você classificaria sua postura corporal atualmente?

Após o período de intervenção, observou-se uma redução considerável nos relatos de dor e desconforto durante a marcha ou permanência em pé. Conforme ilustrado na Figura 4, 35% dos participantes afirmaram não sentir mais dor, 35% relataram sentir apenas às vezes e apenas 30% ainda apresentaram algum desconforto. Esses resultados indicam melhora significativa em relação à pré-avaliação, na qual 95% dos participantes relataram dor constante.
Resultados semelhantes foram descritos por Korelo et al. (2013), que observaram melhora expressiva na dor lombar e na postura de indivíduos submetidos a um programa de cinesioterapia aliado à reeducação postural. Do mesmo modo, Souza et al. (2020) constataram redução da dor musculoesquelética e melhora no equilíbrio estático após o uso contínuo de palmilhas proprioceptivas. Tais achados reforçam a eficácia da associação entre cinesioterapia e palmilhas ortopédicas como estratégia terapêutica para o realinhamento corporal e diminuição do desconforto em indivíduos com alterações do arco plantar.
Gráfico 4 – Após o tratamento com cinesioterapia e uso de palmilhas ortopédicas, você ainda sente dor ou desconforto ao caminhar ou ficar em pé por longos períodos?

O gráfico mostra que 45% dos participantes passaram a utilizar palmilhas ortopédicas regularmente após o tratamento, enquanto 55% utilizam apenas ocasionalmente. Segundo DOS SANTOS PASTILHA. (2021), a adesão ao uso de palmilhas ortopédicas tende a variar entre 40% e 60% após o tratamento inicial, sendo influenciada principalmente pelo conforto percebido e pela melhora dos sintomas.
Gráfico 5 – Após o tratamento, você passou a utilizar palmilhas ortopédicas regularmente?

Observamos que 50% dos participantes avaliaram sua postura corporal como “muito boa” após o tratamento, 30% como “boa” e 20% como “regular” não havendo avaliação “ruim” ou “muito ruim”. Esses resultados indicam melhora perceptível na autoavaliação postural após o tratamento aplicado.
De acordo com Da CUNHA, Leilane Lira et al. (2024), programas de reeducação postural e fortalecimento muscular resultam em melhora significativa da percepção corporal e do alinhamento postural, com aproximadamente 60% dos participantes relatando melhora visível na postura após o tratamento.
Gráfico 6 – Após o tratamento, como você avaliaria sua postura corporal em uma escala de 1 a 5?

REFERÊNCIAS
BORGES, Cláudia dos Santos; FERNANDES, Luciane Fernanda Rodrigues Martinho; BERTONCELLO, Dernival. Correlação entre alterações lombares e modificações no arco plantar em mulheres com dor lombar. Acta ortopédica brasileira, v. 21, p. 135-138, 2013.
Da CUNHA, Leilane Lira et al. Efeitos da Cinesioterapia na Melhora do Equilíbrio e Prevenção de Quedas em Idosos. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 6, n. 9, p. 4189-4201, 2024.
DOS SANTOS PASTILHA, Ana Filipa. Comparação Experimental de Dispositivos para Avaliação da Pressão Plantar. 2021. Dissertação de Mestrado. Universidade de Coimbra (Portugal).
KAPANDJI, Ibrahim Adalbert. Fisiologia articular: esquemas comentados de mecânica humana: tronco e coluna vertebral. In: Fisiologia articular: esquemas comentados de mecânica humana: tronco e coluna vertebral. 1987. p. 255-255.
KORELO, Raciele Ivandra Guarda et al. Efeito de um programa cinesioterapêutico de grupo, aliado à escola de postura, na lombalgia crônica. Fisioterapia em Movimento, v. 26, p. 389-394, 2013.
MAGEE, D. J. Correlação entre alterações lombares e modificações no arco plantar em mulheres com dor lombar. Acta ortopédica brasileira, v. 21, p. 135-138, 2013.
NEVES, J. C. DE J. et al. Influência do arco longitudinal medial na distribuição plantar e na flexibilidade posterior. Fisioterapia e Pesquisa, v. 27, n. 1, p. 16–21, jan. 2020.
NEVES, Jessica Caroliny de Jesus et al. Influência do arco longitudinal medial na distribuição plantar e na flexibilidade posterior. Fisioterapia e Pesquisa, v. 27, n. 1, p.16–21, 2020.
OBRIEN, Davida Louise; TYNDYK, Magdalena. Effect of arch type and Body Mass Index on plantar pressure distribution during stance phase of gait. Acta of Bioengineering and Biomechanics, v. 16, n. 2, 2014.
SOUZA, Marina Vasconcelos et al. Análise do equilíbrio postural estático e da intensidade das dores musculoesqueléticas após o uso de palmilhas proprioceptivas por militares do serviço ostensivo. Fisioterapia e Pesquisa, v. 27, p. 10-15, 2020.
