REHABILITATION WITH SINGLE CROWN IN DIGITAL FLOW: A LITERATURE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202510292144
Fábio José Marinho1
Flávio José Marinho2
Alan Sampaio Fernandes3
Resumo
A reabilitação com coroa unitária é um dos procedimentos mais utilizados na odontologia restauradora, tendo como objetivo restabelecer função mastigatória, estética e integridade estrutural de dentes comprometidos. Com o avanço das tecnologias digitais, o fluxo digital completo, que integra escaneamento intraoral, projeto virtual (CAD) e manufatura assistida por computador (CAM), vem substituindo gradualmente o método convencional. Este estudo, baseado em revisão integrativa da literatura, analisou 25 publicações entre 2015 e 2025, comparando a adaptação marginal, a precisão dimensional e o desempenho clínico das coroas unitárias produzidas por ambos os fluxos. Os resultados apontam que o fluxo digital apresenta precisão e adaptação equivalentes ou superiores às técnicas tradicionais, com benefícios adicionais como redução do tempo clínico, maior conforto ao paciente e comunicação otimizada entre clínica e laboratório. Apesar das vantagens, o sucesso do método depende do domínio técnico, calibração dos equipamentos e seleção adequada de materiais, como o dissilicato de lítio e a zircônia monolítica. Conclui-se que o fluxo digital representa uma evolução significativa na odontologia restauradora, promovendo maior eficiência e previsibilidade nos tratamentos reabilitadores.
Palavras-chave: Coroa unitária; Fluxo digital; Escaneamento intraoral; CAD/CAM; Adaptação marginal; Odontologia restauradora.
Abstract
Single crown rehabilitation is one of the most widely used procedures in restorative dentistry, aiming to restore masticatory function, aesthetics and structural integrity of compromised teeth. With the advancement of digital technologies, the complete digital workflow, integrating intraoral scanning, computer-aided design (CAD) and computer-aided manufacturing (CAM), has gradually replaced the conventional method. This integrative literature review analyzed 25 studies published between 2015 and 2025, comparing marginal fit, dimensional accuracy and clinical performance of single crowns produced by both workflows. Results indicate that the digital workflow achieves equal or superior accuracy and adaptation compared to traditional techniques, with additional advantages such as reduced chair time, increased patient comfort and enhanced communication between clinic and laboratory. Despite these benefits, clinical success depends on technical expertise, equipment calibration and proper selection of materials such as lithium disilicate and monolithic zirconia. It is concluded that the digital workflow represents a significant advancement in restorative dentistry, promoting greater efficiency and predictability in rehabilitation treatments.
Keywords: Single crown; Digital workflow; Intraoral scanning; CAD/CAM; Marginal fit; Restorative dentistry.
1. Introdução
A reabilitação com coroa unitária é um dos procedimentos da odontologia restauradora que é bastante empregado e visa restabelecer a função mastigatória, estética e a integridade estrutural de dentes severamente comprometidos, seja por cárie, fratura, desgaste ou tratamento endodôntico prévio. O processo de confecção destas coroas envolve o uso de materiais elastoméricos, através da obtenção de modelo de gesso, enceramento, fundição e acabamento laboratorial, onde os passos finais são os ajustes clínicos e a cimentação definitiva (Manisha et al., 2023).
Apesar do método convencional ser consolidado, apresenta algumas limitações relacionadas à precisão dimensional, potencial de distorções durante as etapas laboratoriais e ao desconforto relatado pelos pacientes no momento da realização da moldagem. Além disso, o tempo de produção e a dependência de múltiplas etapas analógicas podem comprometer a eficiência e a padronização do resultado final (Bernauer; Zitzmann; Joda, 2023).
Com o advento da tecnologia nas últimas décadas, a odontologia passou a ser assistida por computador, dando origem ao chamado fluxo digital completo, que integra captura de imagem intraoral, projeto virtual e fabricação automatizada. Esse sistema é composto por três etapas principais: digitalização (scanner intraoral), projeto assistido por computador (CAD) e fabricação assistida por computador (CAM), seja por usinagem subtrativa (fresagem) ou impressão tridimensional (manufatura aditiva) (Abdulkarim et al., 2024).
O conceito, embora idealizado há décadas, foi amplamente aprimorado e consolidado com os avanços tecnológicos recentes, que possibilitaram maior precisão de escaneamento, softwares mais intuitivos e materiais cerâmicos de alto desempenho, como o dissilicato de lítio e a zircônia translúcida (Corsalini et al., 2024; Silva et al., 2025).
Estudos recentes apontam que, para coroas unitárias, a precisão e a adaptação marginal obtidas pelo fluxo digital são comparáveis ou superiores às do método convencional. A eliminação de etapas físicas intermediárias reduz o acúmulo de erros e os riscos de distorções, resultando em melhor ajuste interno e marginal, desde que o protocolo de escaneamento e usinagem seja corretamente executado (Hasanzade et al., 2022; Corsalini et al., 2025).
Em termos de precisão dimensional, o fluxo digital oferece vantagens clínicas relevantes, proporcionando maior conforto ao paciente, redução do tempo de cadeira e comunicação mais eficiente entre o cirurgião-dentista e o laboratório, uma vez que os arquivos digitais são transferidos e modificados de maneira imediata. Esses benefícios têm impulsionado a substituição gradual das técnicas analógicas, principalmente em reabilitações unitárias e próteses fixas de pequenas extensões (Seth et al., 2024; Beck et al., 2024).
Entretanto, a adoção do fluxo digital não está isenta de desafios. A acurácia do scanner intraoral depende de fatores como técnica de escaneamento, área capturada, controle de saliva e acesso visual às margens cervicais. Além disso, diferenças entre os materiais restauradores (zircônia monolítica, disilicato de lítio, resinas híbridas) e entre métodos de fabricação (usinagem ou impressão) podem influenciar o resultado final em termos de adaptação e longevidade clínica (International Journal of Implant Dentistry, 2023; BMC Oral Health, 2025).
Estudos recentes reforçam que o fluxo digital completo representa uma alternativa previsível e cientificamente validada para a confecção de coroas unitárias, desde que sejam respeitadas a correta indicação clínica e o domínio técnico do operador. Dessa forma, o entendimento aprofundado dos fundamentos, benefícios e limitações dessa abordagem é essencial para o profissional que busca excelência clínica e integração às novas tecnologias odontológicas (Abdulkarim et al., 2024; Bernauer; Zitzmann; Joda, 2023).
Esta pesquisa tem como pergunta norteadora: em que medida o fluxo digital completo proporciona melhor precisão, eficiência e satisfação clínica quando comparado ao método convencional na confecção de coroas unitárias?
Justifica-se este estudo na crescente incorporação de tecnologias digitais à prática odontológica e na necessidade de compreender, de maneira científica, suas reais vantagens e limitações frente ao método analógico tradicional. A consolidação do fluxo digital representa não apenas uma mudança técnica, mas também uma transformação no paradigma clínico e laboratorial. Assim, investigar comparativamente o desempenho do fluxo digital na confecção de coroas unitárias busca protocolos mais previsíveis, eficientes e confortáveis, capazes de otimizar o tempo clínico, elevar a qualidade das reabilitações e aprimorar a experiência do paciente, contribuindo para o avanço da odontologia restauradora contemporânea.
2. Metodologia
O presente estudo trata-se de uma revisão integrativa da literatura, método que permite reunir, analisar e sintetizar os resultados de pesquisas anteriores sobre determinado tema, possibilitando uma compreensão abrangente do fenômeno estudado e identificando lacunas que orientem futuras investigações. Essa abordagem é amplamente utilizada nas ciências da saúde por integrar diferentes tipos de estudos, quantitativos, qualitativos e mistos, fornecendo uma visão mais completa e crítica do objeto de pesquisa (Mendes; Silveira; Galvão, 2008)
A revisão foi desenvolvida seguindo as seis etapas metodológicas propostas por Whittemore e Knafl (2005): (1) identificação do tema e formulação da questão de pesquisa; (2) estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão; (3) definição das fontes de informação e estratégias de busca; (4) categorização e avaliação dos estudos incluídos; (5) análise e interpretação dos resultados; e (6) apresentação da síntese do conhecimento.
O tema central desta revisão integrativa foi a reabilitação com coroa unitária em fluxo digital, com enfoque nas evidências científicas acerca da adaptação marginal, precisão dimensional, desempenho clínico e vantagens do uso do fluxo digital completo em comparação com o método convencional.
A questão norteadora foi elaborada com base na estratégia PICO (População, Intervenção, Contexto, Resultado), como mostra a (tabela 1)e definida da seguinte forma: Como o fluxo digital influencia a adaptação, a precisão e o desempenho clínico das coroas unitárias em comparação ao fluxo convencional na odontologia restauradora?
As buscas foram realizadas nas bases de dados eletrônicas PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, ScienceDirect e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), utilizando-se descritores controlados e não controlados combinados pelos operadores booleanos AND e OR. Os descritores empregados foram: “digital workflow”, “intraoral scanner”, “CAD/CAM”, “single crown”, “unitary crown”, “marginal fit”, “internal fit”, “accuracy” e “clinical performance”. As combinações mais utilizadas incluíram, por exemplo: “digital workflow AND single crown AND marginal fit” e “CAD/CAM crowns OR intraoral scanner AND adaptation accuracy”.
Como critérios de inclusão, foram considerados artigos originais, revisões sistemáticas, revisões integrativas e estudos in vitro publicados entre 2015 e 2025, disponíveis na íntegra, em língua inglesa, portuguesa ou espanhola, e que abordassem de forma direta a confecção de coroas unitárias utilizando fluxo digital, parcial ou completo, bem como estudos comparativos entre técnicas digitais e convencionais.
Foram excluídos artigos duplicados, relatos de caso isolados, revisões narrativas sem rigor metodológico definido, publicações que tratavam exclusivamente de próteses múltiplas ou implantes sem foco em coroas unitárias e estudos que não apresentavam dados sobre adaptação, precisão ou desempenho clínico.
O processo de triagem dos estudos foi realizado em três etapas: leitura de títulos, resumos e, posteriormente, leitura integral dos textos selecionados. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 25 estudos foram considerados elegíveis para análise. A seleção e extração dos dados foram realizadas por dois revisores independentes, garantindo maior rigor metodológico e confiabilidade dos resultados obtidos.
As informações relevantes de cada estudo foram organizadas em uma planilha de categorização, contendo autor, ano de publicação, tipo de estudo, amostra, tecnologia empregada (scanner intraoral, software CAD, sistema de usinagem CAM), material restaurador, métodos de avaliação da adaptação e principais resultados. Em seguida, realizou-se uma análise temática e comparativa, agrupando os achados de acordo com as categorias emergentes: (1) adaptação marginal e interna das coroas unitárias digitais; (2) desempenho clínico e longevidade das restaurações; e (3) vantagens e limitações do fluxo digital na prática clínica.
Por tratar-se de uma revisão integrativa baseada exclusivamente em dados secundários, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme determina a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, uma vez que não houve coleta de dados primários nem envolvimento direto de seres humanos.
Tabela 1: Aplicação da metodologia PICO.
| Elemento | Descrição | Aplicação no estudo |
| P (População / Paciente / Problema) | Grupo de indivíduos ou condição clínica de interesse | Pacientes que necessitam de reabilitação oral com coroa unitária |
| I (Intervenção) | Tratamento, técnica ou abordagem investigada | Confecção de coroa unitária por fluxo digital completo (escaneamento intraoral, CAD/CAM e usinagem digital) |
| C (Comparação / Controle) | Tratamento ou técnica de referência para comparação | Confecção de coroa unitária por método convencional (moldagem tradicional e confecção manual) |
| O (Outcomes / Desfechos) | Resultados ou efeitos esperados da intervenção | Adaptação marginal e interna, precisão dimensional, tempo clínico, satisfação do paciente e taxa de sobrevivência da restauração |
Fonte: Elaborado pelos autores.
3. Revisão da literatura
3.1 Evolução do fluxo digital na odontologia restauradora
O desenvolvimento das tecnologias digitais em odontologia modificou profundamente a forma como os cirurgiões-dentistas planejam e executam reabilitações protéticas. Desde o surgimento dos primeiros sistemas CAD/CAM na década de 1980, o fluxo digital expandiu-se para abranger o escaneamento intraoral, o planejamento virtual, a usinagem e a cimentação das coroas definitivas, permitindo maior previsibilidade clínica e eficiência operacional (Zarone et al., 2017).
Com a introdução dos escâneres intraorais de alta resolução, tornou-se possível substituir moldagens convencionais por capturas digitais em tempo real, reduzindo o desconforto do paciente e eliminando erros relacionados à contração do material de moldagem (Taschner et al., 2020). Além disso, a comunicação entre clínica e laboratório foi significativamente aprimorada, pois os arquivos digitais permitem trocas rápidas e seguras de informações, evitando distorções durante o transporte do modelo físico (Monaco et al., 2020).
Estudos recentes também demonstram que o fluxo digital reduz o número de etapas clínicas e laboratoriais, otimizando o tempo de cadeira e melhorando a satisfação do paciente, sem comprometer a precisão final da restauração (Fasanelli et al., 2019). Assim, o fluxo digital não representa apenas uma substituição tecnológica, mas uma mudança paradigmática na forma de realizar reabilitações protéticas unitárias.
3.2 Precisão do escaneamento intraoral e adaptação marginal
A precisão dimensional das coroas confeccionadas por meio digital é um dos principais indicadores de sucesso clínico, especialmente no que diz respeito à adaptação marginal. Em meta-análise conduzida por De Oliveira et al. (2020), comparando fluxos digitais e convencionais para coroas unitárias sobre implantes, observou-se que ambos apresentaram resultados semelhantes em termos de adaptação, mas o fluxo digital se destacou pela eficiência clínica e preferência dos pacientes.
Taschner et al. (2020) compararam digitalmente a precisão marginal de coroas produzidas por escaneamento intraoral com aquelas provenientes de moldagens convencionais. O estudo mostrou que o fluxo digital apresentou menor tempo clínico total e margens dentro do limite de aceitabilidade clínica (até 120 µm), confirmando sua viabilidade prática.
Outro estudo clínico randomizado demonstrou que o ajuste vertical máximo médio foi de 237 µm ± 112 µm para coroas confeccionadas pelo método digital e 485 µm ± 195 µm para o método híbrido, indicando superioridade do digital quanto à precisão e menor necessidade de ajustes oclusais (Fasanelli et al., 2019).
Contudo, a precisão depende de variáveis como angulação do escaneamento, preparo dentário e software utilizado. Zarone et al. (2017) enfatizam que o operador deve dominar o protocolo clínico, pois erros de escaneamento podem ser amplificados no processo de fresagem, comprometendo a adaptação marginal. Assim, a tecnologia deve ser aliada à técnica clínica para alcançar resultados previsíveis.
3.3 Materiais cerâmicos e comportamento mecânico
Os avanços dos materiais cerâmicos foram essenciais para o sucesso do fluxo digital em coroas unitárias. O dissilicato de lítio e a zircônia monolítica são amplamente utilizados por apresentarem excelente resistência mecânica, estabilidade de cor e compatibilidade com sistemas CAD/CAM (Alghazali et al., 2018).
De acordo com Jung et al. (2020), restaurações em dissilicato de lítio confeccionadas digitalmente apresentam taxa de sobrevivência superior a 94% após cinco anos, desempenho equivalente às coroas confeccionadas por métodos convencionais. Esse resultado reforça que o material, quando corretamente indicado e processado, garante durabilidade clínica satisfatória.
Em contrapartida, coroas de zircônia monolítica, embora menos translúcidas, apresentam maior resistência flexural e são preferíveis em regiões posteriores, onde há maiores cargas oclusais (Eliezer et al., 2021). Essas propriedades justificam o uso combinado de diferentes materiais cerâmicos conforme a localização do dente e as exigências estéticas do paciente.
Ardelean et al. (2018) também destacam que, independentemente do material, a qualidade da fresagem e o protocolo de sinterização influenciam diretamente a adaptação interna e marginal. Assim, a integração entre escâner, software e fresadora é determinante para a performance clínica da coroa digital.
3. 4 Manufatura digital, usinagem e impressão 3D
A manufatura de coroas unitárias por métodos digitais pode ocorrer por usinagem subtractiva (fresagem) ou manufatura aditiva (impressão 3D). O método subtractivo, mais consolidado, permite excelente controle dimensional, embora gere maior desperdício de material. Já a impressão 3D vem ganhando espaço por reduzir custos e permitir geometrias mais complexas, ainda que demande validação clínica a longo prazo (Monaco et al., 2020).
Taschner et al. (2020) verificaram que workflows totalmente digitais são mais rápidos e exigem menor retrabalho laboratorial do que workflows híbridos, o que resulta em maior produtividade clínica. Entretanto, ressalta-se a necessidade de calibração periódica das máquinas e controle do desgaste das fresas, fatores que podem afetar diretamente a precisão final.
Silva, Costa e Montijo (2022) acrescentam que a adoção da manufatura digital melhora a padronização dos resultados e reduz a dependência da habilidade manual do técnico de prótese, além de facilitar a reprodutibilidade de casos complexos. No entanto, a heterogeneidade de equipamentos disponíveis no mercado ainda limita comparações diretas entre sistemas.
3.5 Protocolos adesivos, cimentação e desempenho clínico
O sucesso das coroas unitárias em fluxo digital depende também da correta adesão e cimentação. Eliezer et al. (2021) enfatizam que o tratamento de superfície deve ser específico para cada material: o dissilicato de lítio requer condicionamento com ácido fluorídrico e aplicação de silano, enquanto a zircônia demanda jateamento com partículas e aplicação de primers contendo 10-MDP.
Esses protocolos visam promover adesão química estável entre o cimento e a superfície interna da coroa, garantindo longevidade e estabilidade marginal. Jung et al. (2020) observaram que falhas adesivas representam menos de 6% das causas de insucesso em coroas unitárias digitais, desde que os protocolos de cimentação sejam respeitados.
Além disso, revisões sistemáticas mostram que coroas unitárias confeccionadas por fluxo digital apresentam desempenho clínico comparável às convencionais, tanto em resistência quanto em adaptação marginal, mas com vantagem em tempo clínico e satisfação do paciente (Oliveira et al., 2020; Fasanelli et al., 2019).
Esses resultados sustentam que o fluxo digital é uma alternativa segura e previsível, desde que o profissional compreenda as limitações e siga rigorosamente os protocolos técnicos.
4. Discussão
Os achados desta revisão apontam que a reabilitação com coroas unitárias em fluxo digital representa um avanço expressivo na odontologia restauradora contemporânea, combinando precisão, eficiência e previsibilidade clínica. O uso integrado de escaneamento intraoral, softwares de projeto e sistemas CAD/CAM reduziu significativamente as etapas suscetíveis a erro, promovendo maior consistência nos resultados clínicos (Taschner et al., 2020). Essa simplificação do processo não apenas melhora a qualidade do produto final, mas também otimiza o tempo de atendimento e aumenta o conforto do paciente.
Oliveira et al. (2020) verificaram, em uma meta-análise, que as coroas unitárias produzidas digitalmente apresentam adaptação marginal semelhante às confeccionadas por moldagens convencionais, com a vantagem adicional de menor tempo clínico e melhor aceitação pelos pacientes. Esse dado reforça que a precisão digital não é inferior às técnicas tradicionais e pode superar limitações relacionadas à contração de materiais e distorção de modelos.
O escaneamento intraoral é diretamente influenciada por variáveis clínicas, como o posicionamento da margem cervical e a umidade do campo operatório. Fasanelli et al. (2019) observaram que a qualidade da digitalização interfere de forma significativa na fidelidade do modelo virtual e, consequentemente, no ajuste marginal final da coroa. Assim, o sucesso do fluxo digital depende tanto da tecnologia empregada quanto da habilidade técnica do operador.
No que se refere à manufatura, Ardelean et al. (2018) destacam que pequenas falhas acumulativas entre o escaneamento, o design digital e a fresagem podem comprometer a adaptação da restauração. Dessa forma, a calibração periódica das fresadoras e o controle da integridade das ferramentas de corte são etapas essenciais para garantir resultados consistentes.
Os materiais restauradores também desempenham papel crucial nesse contexto. O dissilicato de lítio e a zircônia monolítica continuam sendo os mais empregados na confecção digital de coroas unitárias devido à combinação de resistência e estética (Alghazali et al., 2018). Segundo Jung et al. (2020), coroas de dissilicato confeccionadas em fluxo digital apresentam taxa de sobrevivência superior a 94% após cinco anos de acompanhamento clínico, o que demonstra desempenho comparável às restaurações tradicionais.
Por outro lado, Eliezer et al. (2021) apontam que a zircônia monolítica oferece resistência flexural superior, sendo preferida em regiões posteriores. Entretanto, a translucidez limitada ainda representa uma restrição estética em casos anteriores. Essa escolha de material deve ser feita considerando-se o equilíbrio entre exigência funcional e estética, além da compatibilidade com os sistemas CAD/CAM disponíveis.
Silva, Costa e Montijo (2022) salientam que a fabricação digital proporciona padronização e reprodutibilidade, reduzindo a influência da habilidade manual do técnico de laboratório. Além disso, a possibilidade de armazenar e reproduzir arquivos digitais facilita a confecção de novas restaurações em casos de fratura ou perda. Entretanto, o custo inicial elevado dos equipamentos e a necessidade de treinamento especializado ainda representam barreiras para ampla adoção clínica.
Outro aspecto determinante é o protocolo adesivo. A efetividade da cimentação depende da correta preparação da superfície cerâmica e da seleção do cimento adequado. Para o dissilicato de lítio, recomenda-se condicionamento com ácido fluorídrico e silano; para a zircônia, jateamento e uso de primers com monômero 10-MDP (Eliezer et al., 2021). Jung et al. (2020) relatam que falhas adesivas representam menos de 6% dos casos de insucesso quando tais protocolos são seguidos corretamente, reforçando sua importância.
Do ponto de vista clínico, o fluxo digital traz benefícios significativos, como a redução do tempo de cadeira e o aumento da previsibilidade estética (Monaco et al., 2020). Esses ganhos são relevantes em clínicas com alta demanda, permitindo otimizar o atendimento sem comprometer a qualidade final.
Zarone et al. (2017) reforçam que, apesar da tecnologia oferecer alto grau de precisão, a experiência do operador continua sendo determinante. O fluxo digital não elimina a necessidade de conhecimento técnico, mas sim o redireciona para novas competências, como o domínio de softwares de design e a compreensão das limitações de cada sistema.
Os estudos convergem para o entendimento de que o fluxo digital é uma alternativa segura, eficiente e previsível para reabilitações com coroas unitárias. Contudo, sua eficácia depende da integração entre técnica, material, equipamento e conhecimento profissional. O avanço contínuo dessas tecnologias tende a consolidar definitivamente o fluxo digital como padrão em odontologia restauradora.
Conclusão
As coroas unitárias confeccionadas por fluxo digital apresentam desempenho clínico equivalente ou superior ao das produzidas por métodos convencionais. O fluxo digital completo, que integra escaneamento intraoral, planejamento virtual e manufatura CAD/CAM, proporciona excelente adaptação marginal, precisão interna e redução do tempo clínico, sem comprometer a longevidade da restauração.
Os materiais cerâmicos utilizados, especialmente o dissilicato de lítio e a zircônia monolítica, demonstram comportamento mecânico e estético satisfatórios, desde que respeitados os protocolos adesivos específicos de cada um. Além disso, a digitalização melhora a comunicação entre profissional e laboratório, reduz retrabalhos e aumenta a previsibilidade dos resultados.
Entretanto, o domínio técnico do cirurgião-dentista, a calibração dos equipamentos e a seleção adequada dos materiais continuam sendo fatores determinantes para o sucesso clínico. Dessa forma, o fluxo digital deve ser compreendido não apenas como uma inovação tecnológica, mas como uma nova filosofia de trabalho que alia precisão científica, eficiência clínica e conforto ao paciente.
Referências
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1Acadêmico Bacharelado em Odontologia no Centro Universitário Mário Pontes Jucá, e-mail: fabiomarinho593@gmail.com Orcid; https://orcid.org/0009-0007-8078-2872
2Acadêmico Bacharelado em Odontologia no Centro Universitário Mário Pontes Jucá, e-mail: flaviojosemarinho888@gmail.com, Orcid: https://orcid.org/0009-0007-8005-615X
3Professor Mestre do Centro Universitário Mário Pontes Jucá, e-mail: alansampaiofernandes@gmail.com, Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4726-5466
