PRÓTESE OBTURADORA DE PALATO E SUA APLICAÇÃO EM PACIENTES COM DISMORFOLOGIAS CRANIOFACIAIS E ANOMALIAS CONGÊNITAS

OBTURATOR PALATE PROSTHESIS AND ITS APPLICATION IN PATIENTS WITH CRANIOFACIAL DYSMORPHOLOGIES AND CONGENITAL ANOMALIES

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202808211039


Mally de Sousa1
Marianna Gonçalves Faria2


RESUMO 

Introdução:  As fissuras labiopalatinas (FLP) são uma malformação congênita, resultam do não fechamento dos processos maxilares no primeiro trimestre gestacional, comprometendo funções como fala, mastigação e respiração e acomete 1 a cada 650 nascidos de acordo com dados epidemiológicos do Brasil. Sua origem é multifatorial, envolvendo aspectos genéticos e ambientais em sua incidência. A Disfunção Velofaríngea, caracterizada pela fala anasalada, é a principal característica dos pacientes com fissura que acometem o palato mole e pode ser reabilitada através da cirurgia ou do uso da prótese de palato, uma alternativa eficaz e menos invasiva. Esta prótese é moldada individualmente e promove a separação entre as cavidades oral e nasal, regulando o fluxo de ar para corrigir a hipernasalidade e melhorar a fala, sendo complementada por terapia fonoaudiológica para adaptação e sucesso do tratamento. Objetivo: O objetivo principal deste estudo é apresentar, analisar e sintetizar as evidências científicas disponíveis na literatura acerca da Prótese de Palato e sua indicação para o tratamento morfofuncional dos casos de Insuficiência Velofaríngea (IVF) em pacientes com Fissuras Labiopalatinas (FLP), destacando, portanto, seu impacto nas funções do sistema estomatognático, como fala, deglutição e respiração, além dos benefícios na qualidade de vida destes pacientes. Metodologia: Trata-se de uma revisão de literatura sobre o uso da prótese de palato na reabilitação de pacientes com fissura labiopalatina. A pesquisa foi guiada pela questão: “Quais são os impactos do uso da prótese de palato na reabilitação funcional, morfológica e social de pacientes com fissura labiopalatina?”. Foram selecionados artigos publicados entre 2004 e 2024 nas bases SciELO, PubMed, LILACS, BVS e Web of Science, utilizando palavras-chave específicas e operadores booleanos. Aplicaram-se critérios rigorosos de inclusão e exclusão, com triagem realizada em três etapas: títulos, resumos e leitura completa. Resultados e discussão: A prótese de palato é uma solução eficaz na reabilitação de pacientes com fissura labiopalatina, promovendo melhora significativa nas funções de fala, mastigação e deglutição, além de contribuir para a qualidade de vida e inclusão social. Estudos analisados destacam sua eficácia no controle da hipernasalidade e na redução da insuficiência velofaríngea, especialmente em pacientes que não podem realizar cirurgias ou que necessitam de tratamento temporário. A atuação interdisciplinar, envolvendo dentistas e fonoaudiólogos, foi apontada como essencial para o sucesso do tratamento, especialmente no ajuste anatômico da prótese e na adaptação funcional do paciente. Conclusão: Destaca-se a importância clínica da prótese de palato na reabilitação de pacientes com fissura labiopalatina, melhorando a fala no que tange a insuficiência velofaríngea, a deglutição e a respiração, além de promover inclusão social. A prótese é uma alternativa viável, especialmente quando a cirurgia não é possível, reforçando a necessidade de manejo interdisciplinar.  

Palavras-Chave: Fissuras Orofaciais. Reabilitação. Odontologia. 

ABSTRACT 

Introduction: Cleft lip and palate (CLP) are congenital malformations resulting from the failure of maxillary processes to fuse during the first trimester of gestation. This condition affects functions such as speech, mastication, and breathing and occurs in 1 out of every 650 live births, according to epidemiological data from Brazil. Its etiology is multifactorial, involving genetic and environmental factors. Velopharyngeal dysfunction (VPD), characterized by hypernasal speech, is a primary feature of patients with clefts affecting the soft palate and can be rehabilitated through surgery or the use of a palatal prosthesis, an effective and less invasive alternative. This prosthesis is individually molded and promotes separation between the oral and nasal cavities, regulating airflow to correct hypernasality and improve speech. It is complemented by speech therapy to ensure adaptation and treatment success. Objective: The main objective of this study is to present, analyze, and synthesize the scientific evidence available in the literature on the palatal prosthesis and its indication for the morphofunctional treatment of velopharyngeal insufficiency (VPI) in patients with cleft lip and palate (CLP), highlighting its impact on the functions of the stomatognathic system, such as speech, swallowing, and breathing, as well as its benefits for patients’ quality of life. Methodology: This study is a literature review on the use of the palatal prosthesis in the rehabilitation of patients with cleft lip and palate. The research was guided by the question: “What are the impacts of using a palatal prosthesis on the functional, morphological, and social rehabilitation of patients with cleft lip and palate?” Articles published between 2004 and 2024 were selected from databases such as SciELO, PubMed, LILACS, BVS, and Web of Science, using specific keywords and Boolean operators. Rigorous inclusion and exclusion criteria were applied, with the screening process carried out in three stages: title reading, abstract reading, and full-text reading. Results and Discussion: The palatal prosthesis is an effective solution for the rehabilitation of patients with cleft lip and palate, significantly improving speech, mastication, and swallowing functions, while also contributing to quality of life and social inclusion. The analyzed studies emphasize its efficacy in controlling hypernasality and reducing velopharyngeal insufficiency, especially in patients unable to undergo surgery or requiring temporary treatment. Interdisciplinary collaboration, particularly between dentists and speech therapists, was identified as essential for treatment success, particularly in prosthesis adjustment and functional adaptation. Conclusion: The clinical importance of the palatal prosthesis is highlighted in the rehabilitation of patients with cleft lip and palate, improving speech related to velopharyngeal insufficiency, swallowing, and breathing, while also promoting social inclusion. The prosthesis is a viable alternative, especially when surgery is not an option, underscoring the need for interdisciplinary management. 

Keywords: Cleft lip and palate. Rehabilitation. Dentistry. 

INTRODUÇÃO 

As Fissuras Labiopalatinas (FLP) são anomalias craniofaciais de origem congênita e multifatorial, ou seja, fatores genéticos e ambientais são combinados para a incidência desta malformação. No que tange à embriologia, as FLP ocorrem quando não há o fechamento dos processos maxilares durante a vida intrauterina, geralmente, no primeiro trimestre gestacional até a décima segunda semana, atingindo assim o lábio superior, o alvéolo dental e o palato, dependendo da condição clínica do indivíduo. Como resultado, há o comprometimento estético e funcional craniofacial, o que acarreta uma série de intercorrências no crescimento dos ossos da face e nas funções do sistema estomatognático, como, na fala, na mastigação e, até mesmo, na respiração. As fissuras orofaciais apresentam fenótipos variados dependendo das alterações embrionárias e das evidências epidemiológicas apresentadas (Trevilatto; Werneck, 2014). Por isso, classificam-se, basicamente, em: Fissura Pré-forame Incisivo, Fissura Pós-forame Incisivo, Fissura Transforame e Fissuras Raras da Face, existindo, também, subdivisões no interior de cada grupo de classificação (Silva Filho et al., 1992).  

De acordo com o Ministério da Saúde, no Brasil, 1 a cada 650 crianças possui algum tipo de fissura. O tratamento é extenso e multiprofissional, envolvendo principalmente fonoaudiólogos, nutricionistas, cirurgiões-dentistas, cirurgiões plásticos, psicólogos e otorrinolaringologistas. A reabilitação engloba concomitantemente procedimentos cirúrgicos como: a Queiloplastia, o Enxerto Ósseo Alveolar, a Palatoplastia, entre outras, que dependem exclusivamente das necessidades fisiológicas e morfológicas de cada paciente. A Queiloplastia se trata de uma cirurgia reconstrutora do lábio, que realiza-se em pacientes com fissuras labiais aproximadamente dos 3 aos 6 meses de vida. O Enxerto Ósseo Alveolar conhecido como o “padrão ouro” reconstitui o rebordo alveolar comprometido. Já a Palatoplastia tem como objetivo reconstruir o palato ósseo e mole nos casos clínicos de fissuras pós-forames e transforames (Carrer, 2019).  

A Disfunção Velofaríngea (DVF), popularmente conhecida como “fala fanhosa” ou “voz anasalada”, é uma alteração que ocorre por ausência de tecidos velofaríngeos, denominando-se, assim, a Insuficiência Velofaríngea. Com a ausência tecidual, os músculos do palato mole não promovem a função de fechamento da faringe adequada durante a pronúncia de sons orais (Cyrillo, 1997). Esta é uma das consequências mais comuns e estigmatizadas da FLP, porém, que pode ser reabilitada anatomicamente através da cirurgia reparadora do palato ou da utilização da prótese de palato. Em casos em que, naquele momento, a cirurgia não é a melhor opção de tratamento ou o paciente recusa-se a enfrentar um procedimento cirúrgico, opta-se pela instalação da prótese. Por isso, o tratamento fonoaudiológico se torna essencial para a confecção, para a adaptação do paciente e para uma evolução no tratamento (Aferri, 2011). 

A prótese de palato é um aparelho removível, que, em sua porção faríngea (posterior), possui um bulbo, que é moldado de acordo com a variação anatômica de cada paciente, ou seja, com o tamanho da fissura existente entre o palato mole e a parede posterior da faringe. Sua função é promover a separação da cavidade oral com a cavidade nasal, assim evitando a hipernasalidade e promovendo a assonância correta da fala, ou seja: a prótese deve permitir a passagem de ar para a cavidade nasal em alguns sons nasais, como: /m/ e /n/, mas deve conter sua nasalidade nos demais sons orais (Pinto; Dalben; Pegoraro-Krook, 2007). A prótese atua em conjunto com a musculatura faríngea, sendo assim há um controle do ar a ser direcionado para a cavidade nasal ou para a cavidade oral (Souza, 2009). Em consonância, a reabilitação protética torna-se uma terapêutica eficaz e menos invasiva para a insuficiência velofaríngea (Aferri, 2011). O objetivo principal deste estudo é apresentar, analisar e sintetizar as evidências científicas disponíveis na literatura acerca da Prótese de Palato e sua indicação para o tratamento morfofuncional dos casos de Insuficiência Velofaríngea (IVF) em pacientes com Fissuras Labiopalatinas (FLP), destacando seu impacto nas funções do sistema estomatognático, como fala, deglutição e respiração, além dos benefícios na qualidade de vida destes pacientes.  

METODOLOGIA 

O estudo em questão trata-se de uma revisão de literatura acerca da utilização da Prótese de Palato na reabilitação morfofuncional de pacientes com Fissura Labiopalatina. Inicialmente, definiu-se a questão norteadora do trabalho: “Quais são os impactos do uso da prótese de palato na reabilitação funcional, morfológica e social de pacientes com fissura labiopalatina?”.  

As palavras-chave utilizadas para a busca na literatura foram: fissura labial, fissura palatina, insuficiência velofaríngea, prótese de palato, obturador velofaríngeo e reabilitação oral em Inglês, Português e Espanhol. As plataformas de dados selecionadas foram: SciELO, PubMed, LILACS, BVS e Web of Science. Como critério de elegibilidade, definiu-se artigos originais, nos idiomas supracitados, com datação dos últimos 20 anos, ou seja, de 2004 a 2024 (exceto estudos de referência na área, como o da classificação nacional de FLP) e que tivessem como temática a prótese de palato em pacientes com FLP. Descartou-se artigos não tangíveis à temática estudada, estudos em pacientes oncológicos com insuficiência velofaríngea derivada de ressecção tumoral, revisões integrativas, resumos publicados em anais, artigos não disponíveis na íntegra e aqueles publicados em periódicos predatórios. 

Para maior direcionamento na pesquisa, houve a combinação dos termos por meio de operadores booleanos (AND, OR e NOT), adaptando as estratégias de busca para cada base de dados. Os estudos encontrados foram organizados em planilha e passaram por três etapas de triagem: leitura dos títulos, leitura dos resumos e leitura completa para aplicação dos critérios de inclusão e exclusão.  

RESULTADOS E DISCUSSÃO 

As fissuras labiopalatinas são alterações na morfogênese da face, em que os processos maxilares não se fundem, assim restando uma fenda, que, por sua vez, pode atingir o lábio, unilateralmente, bilateralmente ou medialmente; o rebordo alveolar, chegando ou não ao forame incisivo, o palato duro e/ou o palato mole. São anomalias multifatoriais de origem sindrômica ou não sindrômica (isolada) (Trevilatto; Werneck, 2014). Sendo assim, as FLP podem ser classificadas em, basicamente, quatro grupos, conforme Figura 1: pré-forame incisivo, pós-forame incisivo, transforame e fissuras raras da face. Por isso há grande variedade fenotípica, que requer tratamento diferenciado e adaptado a cada indivíduo (Silva Filho et al., 1992). 

Figura 1. Classificação das Fissuras Labiopalatinas 

A fissura pré-forame é o tipo de fenda, que acomete os lábios unilateralmente e bilateralmente, podendo também causar danos no rebordo alveolar, assim sendo completa, quando este é atingido, e incompleta quando o alvéolo não é comprometido. A fissura pós-forame está localizada posteriormente ao forame incisivo e provoca modificações anatômicas no palato, podendo receber a denominação de completa, quando se estende desde o palato ósseo até o palato mole, ou incompleta quando se localiza apenas no palato mole (Spina, et al., 1972).  A fissura transforame é a junção da pré-forame com a pós-forame. Portanto, atinge os lábios (unilateralmente ou bilateralmente), o rebordo alveolar, o palato ósseo (completa) e o palato mole (completa ou incompleta). As fissuras raras da face são um conjunto de alterações, que possuem uma prevalência menor na sociedade, como a fissura mediana, uma fenda inferior à base do nariz e mediana em relação ao lábio superior (Silva Filho et al., 1992; Tessier, 1976). Por isso, infere-se que as estruturas anatômicas afetadas dependem exclusivamente do tipo de fissura apresentada (Tabela 1).

Tabela 1. Tipos de FLP e estruturas alteradas

Em casos de fendas labiais, há a alteração anatômica dos músculos da face, além do comprometimento estético, ocorrendo uma descontinuidade das fibras musculares e acarretando uma perda funcional. Músculos como o orbicular da boca, o levantador do lábio superior e da asa do nariz, o levantador do lábio superior e o zigomático menor são, geralmente, os mais comprometidos devido à localização próxima à fissura. Em casos de fissuras palatinas, pode-se evidenciar alterações no palato duro, que é composto pelo processo palatino da maxila e pelos ossos palatinos, e no palato mole, cuja constituição é realizada pelos músculos: tensor do véu palatino, levantador do véu palatino, músculo da úvula, palatoglosso e palatofaríngeo (Manzi, et al., 2013). Alterações no palato mole são mais comuns nos três primeiros músculos citados, principalmente os que estão inseridos na aponeurose palatina. Além das modificações ósseas e musculares, casos de otite média são comuns entre os pacientes com fissura palatina devido ao mau funcionamento dos músculos tensor do véu palatino e levantador do véu palatino, que, em uma de suas funções durante a contração, regulam a pressão no interior da orelha média (Sheahan et al., 2003). Outras intercorrências são as alterações dentárias, como agenesia ou dentes supranumerários, que atingem principalmente os incisivos laterais superiores (12 e 22) (Corrêa et al. 2017). Como existe uma variação muito extensa de genes afetados, cromossomos alterados e síndromes associadas, é impossível estabelecer um fenótipo comum e único a todos os indivíduos com fissura, logo a evidência e o tratamento das modificações morfológicas e funcionais dependerá do caso clínico apresentado (Trevilatto; Werneck, 2014). 

DISFUNÇÃO VELOFARÍNGEA E PRÓTESE DE PALATO 

A reabilitação palatina ocorre através da palatoplastia primária, que deve ser realizada, em média, quando a criança completa seu primeiro ano e possui condições sistêmicas, como boa nutrição, para realizar a cirurgia. Além do fechamento anatômico da fissura, o cirurgião deve possuir o máximo de planejamento para alongar o palato mole, a fim de que este promova com eficiência o vedamento velofaríngeo adequado (Bertier; Trindade; Silva Filho, 2007). Quando o palato mole não realiza a sua função perfeitamente, classifica-se, então, a Disfunção Velofaríngea (DVF), que, por sua vez, pode ser apresentada como insuficiência ou incompetência. A insuficiência velofaríngea (IVF) se pauta na falta de tecido para promover o fechamento que divide a cavidade oral da cavidade nasal. Já a incompetência velofaríngea ocorre quando há tecido suficiente para que o vedamento aconteça, porém ele não é eficaz em sua função por questões neurofuncionais. Sendo a insuficiência mais recorrente em indivíduos com fissuras que acometem o palato mole (Pegoraro-Krook; Aferri; Uemeoka, 2009). 

A prótese de palato é um aparelho removível confeccionado através de um cirurgião-dentista e de um fonoaudiólogo que tem como função substituir a falta tecidual, para que haja o vedamento velofaríngeo com eficácia, assim respeitando as variações anatômicas de cada indivíduo (Pinto; Dalben; Pegoraro-Krook, 2007). Para que seja instalada a prótese, é necessária a ancoragem da porção anterior do aparelho nos dentes para haver estabilidade durante a fala e durante a alimentação. Portanto, indubitavelmente, a saúde odontológica deve estar em harmonia, embora seja possível associar a prótese de palato com a prótese dentária. O bulbo faríngeo é a parte posterior da prótese, que articula com as paredes da faringe. Sendo este que promove a independência da cavidade oral e da cavidade nasal, assim possibilitando que correções na disfunção velofaríngea sejam realizadas. Durante sua confecção, as estruturas faríngeas devem ser moldadas com o máximo de cautela para que se obtenha o melhor resultado na fala do paciente e para que não cause nenhum desconforto durante a utilização (Pegoraro-Krook; Aferri; Uemeoka, 2009). A eficácia da prótese está justamente em eliminar a hipernasalidade. Neste ponto, exercendo a mesma função da cirurgia faringoplastia, que tem como objetivo reconstruir anatomicamente e funcionalmente o tecido do véu palatino. O uso da prótese associado com a fonoterapia é um tratamento temporário para que a movimentação dos músculos faríngeos seja estimulada, a fim de melhorar o planejamento da cirurgia e, posteriormente, seu resultado (Aferri, 2011).  

A prótese de palato é indicada para pacientes com fissura palatina e com insuficiência velofaríngea. Sua utilização também é recomendada a fim de promover estímulos na movimentação dos músculos do palato, quando a faringoplastia ainda não é indicada ou encontra-se temporariamente adiada. Sua contraindicação é realizada quando há o encaminhamento cirúrgico, quando a família ou o paciente não cooperam com o tratamento e realizando a fonoterapia e quando não for possível conciliar a prótese com o tratamento ortodôntico devido à movimentação dentária. Há também a contraindicação em casos de higiene oral deficitária, uma vez que a prótese de palato é um aparato a mais na cavidade oral dificultando a escovação (Pegoraro-Krook; Aferri; Uemeoka, 2009). A interrupção do uso só é feita em casos de estados patológicos, má higienização bucal, indicações para cirurgias secundárias como ortognática, colocação de aparelhos ortodônticos e em caso de reclamações durante a adaptação do paciente (Aferri, 2011). 

Por conseguinte, a prótese de palato é subdividida em três partes: o bulbo, a porção intermediária e a porção anterior. O bulbo que aloca-se na fissura e é o principal componente. A porção intermediária de ligação e, por fim, a porção anterior cuja funcionalidade é ancorar a prótese nos elementos dentários (Aferri, 2011), conforme Figura 2. 

Figura 2. Partes da prótese de palato.

BENEFÍCIOS DO USO DA PRÓTESE 

A prótese de palato oferece ao paciente uma intervenção menos invasiva do que o procedimento cirúrgico, assim acarretando pouco ou nenhum risco à saúde, além de ser versátil, tendo em vista que toda a moldagem e confecção são específicas de acordo com as variações anatômicas de cada indivíduo. A sua utilização é reversível, ou seja: o tratamento pode ser paralisado a qualquer momento retirando-se a prótese. Outro benefício é o de que a confecção é realizada com o paciente acordado, assim não ocorrendo a administração de qualquer tipo de fármaco no organismo, além de possibilitar uma avaliação instantânea sobre as melhorias no escapamento de ar nasal. A maior vantagem do uso do aparelho é a correção da disfunção velofaríngea e o estímulo nos músculos faríngeos, que, por sua vez, posteriormente, irá fornecer um resultado melhor na palatoplastia secundária (Aferri, 2011).           

Crianças com fissura palatina, na tentativa de compensar as alterações estruturais e funcionais no mecanismo velofaríngeo, acabam criando as articulações compensatórias, que são consideradas desvios na produção dos sons, estes que, por sua vez, se estabelecem ainda nas primeiras fases da aquisição fonológica e da oralização (Peterson-Falzone et al., 2006). A fissura palatina faz com que o paciente apresente a disfunção valofaríngea e, consequentemente, as articulações compensatórias. A prótese de palato atua restaurando as estruturas palatinas, logo reabilitando o indivíduo acerca da disfunção, assim melhorando a fala, a deglutição, a respiração e o entendimento em diálogos, o que promove maior inclusão social destes indivíduos. Entretanto, as articulações compensatórias só são amenizadas e convertidas à produção normalizada do som, quando o tratamento fonoaudiológico é associado ao uso da prótese (Aferri, 2011). 

CONFECÇÃO DA PRÓTESE DE PALATO 

A confecção da prótese de palato envolve critérios como a saúde bucal, pois dentes saudáveis são essenciais para a ancoragem, além de etapas específicas: a porção anterior de acrílico, responsável pela fixação e, em alguns casos, pelo vedamento de fístulas palatinas; a porção intermediária, que conecta a porção anterior ao bulbo faríngeo; e o próprio bulbo, que separa as cavidades oral e nasal, favorecendo funções como fala e deglutição. A elaboração do bulbo exige conhecimento da anatomia velofaríngea e colaboração interdisciplinar entre o dentista e o fonoaudiólogo, que auxilia na adaptação e ajuste da prótese por meio de testes fonoaudiológicos e estratégias terapêuticas, essenciais para tratar disfunções velofaríngeas e distúrbios da fala (Aferri, 2011). 

POSSÍVEIS INTERCORRÊNCIAS DA UTILIZAÇÃO DA PRÓTESE 

As intercorrências elucidadas na literatura, majoritariamente, estão presentes ao longo do processo de confecção. Na moldagem da porção anterior (acrílica) da prótese, observou-se o reflexo de êmese e desconforto. Durante a elaboração da porção intermediária, as intercorrências foram: problemas de retenção e estabilidade, presença de reflexo de êmese na instalação e na modelagem e problemas de irritação ou ferimento no palato mole. Respectivamente da evidência mais recorrente para a de menor incidência. Por fim, na etapa de colocação do bulbo faríngeo, observou-se a necessidade de reajustar o acrílico da porção anterior, reflexo de êmese durante a confecção e instalação, irritação e ferimentos na faringe após a instalação (AFERRI, 2011).            

A microbiota oral é extremamente diversificada e dinâmica, que, normalmente convive de forma comensal com os indivíduos, porém microrganismos do gênero Candida, em determinados casos clínicos, desenvolvem-se até que atinjam sua forma parasitária, assim produzindo candidíases bucais (JORGE et al., 1997). Além disso, bactérias típicas como Streptococcus mutans colonizam a superfície dentária e alojam-se no biofilme, em que realizam fermentação lática, desmineralizando o esmalte, quando há uma má higienização da cavidade bucal (SILVA, et al., 2019). Tendo em vista tal fato, a saúde bucal é um fator relevante para a colocação da prótese, já que esta pode potencializar problemas decorrentes de uma higienização deficitária e fomentar a proliferação do biofilme. Além da não indicação em casos de estados patológicos bucais, posteriormente, a indicação de retirada do aparelho removível pode ser solicitada (Aferri, 2011).  

Algumas alterações podem levar o paciente a ter que solicitar a troca da prótese junto ao profissional responsável, como, por exemplo: quando há um tempo prolongado com a mesma prótese. Outros fatores como: alterações nos grampos da placa de acrílico, crescimento da maxila, após uma intervenção cirúrgica, irrupção do incisivo central superior e esfoliação dos dentes decíduos suportes da prótese também devem ser preponderados quanto à continuidade com o mesmo aparelho (AFERRI, 2011).  

ADAPTAÇÃO E FONOTERAPIA 

O processo de adaptação à prótese de palato ocorre em fases, iniciando com a instalação da porção anterior de acrílico, geralmente bem tolerada pelos pacientes, sendo reajustada apenas quando necessário para garantir conforto. A segunda fase envolve a habituação durante a alimentação, começando com alimentos líquidos e progredindo gradualmente para sólidos, com acompanhamento profissional para avaliar possíveis desconfortos, dores ou ferimentos. Após a adaptação ao acrílico, a porção intermediária é confeccionada para conectar a porção anterior ao bulbo faríngeo, proporcionando maior conforto, embora irritações na mucosa possam surgir. A adaptação ao bulbo faríngeo é mais complexa, podendo causar reflexos de vômito, dificuldades na deglutição e irritações faríngeas, mas esses sintomas são temporários e manejados com o acompanhamento próximo do dentista e do fonoaudiólogo, garantindo a segurança do paciente (Aferri, 2011). 

O fonoaudiólogo é o profissional que realiza a avaliação fonoaudiológica, baseando-se na observação das estruturas orofaciais (lábios, língua, palato, úvula, tonsilas palatinas e faringe) quanto ao aspecto morfofuncional. Concomitantemente, é efetuada a análise perceptivo-auditiva da fala do paciente por intermédio de uma lista de vocábulos, frases e sons, que visam avaliar a articulação, a ressonância, a quantidade de ar emitida pela cavidade nasal, a fraca pressão e o nível de inteligibilidade da fala (Genaro et al., 2004). 

O espelho de Glatzel caracteriza-se como um instrumento objetivo de avaliação da permeabilidade nasal, assim resultados mais minuciosos acerca do escape de ar são obtidos durante a emissão dos sons /s/, /f/, /∫/, /i/ e /u/ prolongados isoladamente e alguns vocábulos orais (Genaro et al., 2004). A avaliação da função velofaríngea é mensurada a partir dos testes de escape de ar nasal, pela presença ou ausência de articulações compensatórias e pelos escores de hipernasalidade. Assim, ao final da verificação de todos os resultados, é possível diagnosticar o paciente com disfunção velofaríngea (Trindade et al., 2005). 

Em se tratando da prótese de palato, o fonoaudiólogo é um dos profissionais que acompanham todo o tratamento, desde a avaliação para a indicação de uso até durante a fonoterapia cotidiana do paciente, assim fazendo-se presente ao decorrer da reabilitação. Primeiramente, avalia a necessidade da colocação da prótese, assim testando os distúrbios da fala e diagnosticando a disfunção velofaríngea. Posteriormente, durante a confecção da prótese, mensura o quanto a colocação do bulbo promoveu melhoras com relação a pronúncia de sons e ao escape de ar nasal. Por fim, auxilia na adaptação com o aparelho, planeja exercícios de assonância e acompanha a evolução do paciente até que a disfunção seja corrigida juntamente com as articulações compensatórias (Aferri, 2011).             

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Com este estudo, indubitavelmente, observa-se a relevância clínica do uso da prótese de palato como uma ferramenta na reabilitação morfofuncional de pacientes com fissura labiopalatina. Os estudos analisados evidenciam que a prótese de palato desempenha um papel fundamental na melhora das funções de fala, deglutição e respiratória, contribuindo significativamente para a qualidade de vida e inclusão social desses indivíduos. Além disso, observa-se que a aplicação da prótese é uma alternativa viável, especialmente em casos em que intervenções cirúrgicas não são possíveis ou apresentam limitações. Portanto, demonstra-se a importância de um manejo interdisciplinar e a continuidade das investigações científicas para aperfeiçoar as práticas clínicas relacionadas à reabilitação de pacientes com fissura labiopalatina, promovendo intervenções cada vez mais eficazes e centradas no paciente. 

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1Discente do Curso de Odontologia. UNIFACCAMP.
E-mail: odontomally@gmail.com;
2Docente do Curso de Odontologia. UNIFACCAMP.
E-mail:marianna.goncalves@faccamp.br