PREVALÊNCIA DE MICRORGANISMOS MULTIRRESISTENTES EM INFECÇÕES DE PELE NO HOSPITAL MUNICIPAL DE MARABÁ: UM ESTUDO PROSPECTIVO NA AMAZÔNIA

PREVALENCE OF MULTIRESISTANT MICROORGANISMS IN SKIN INFECTIONS AT MUNICIPAL HOSPITAL OF MARABÁ: A PROSPECTIVE STUDY IN THE AMAZON

PREVALENCIA DE MICROORGANISMOS MULTIRRESISTENTES EN INFECCIONES CUTÁNEAS EN EL HOSPITAL MUNICIPAL DE MARABÁ: UN ESTUDIO PROSPECTIVO EN LA AMAZONIA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202512111402


José Fellipe Santiago de Sousa1
Sergiane Miqueli Gonçalves Lira1*
Tatiana Teixeira de Castro Carvalho Beckemkamp1
Harbi Amjad Nabih Othman1


RESUMO

Objetivo: Investigar a prevalência e o perfil de sensibilidade de microrganismos multirresistentes em infecções de pele e tecido celular subcutâneo em pacientes internados no Hospital Municipal de Marabá (HMM) e seus impactos para o desfecho clínico. Métodos: Estudo observacional, epidemiológico, prospectivo e de abordagem quantitativa-qualitativa. Coletou-se dados de pacientes internados no HMM, por meio de entrevista direta e reavaliações seriadas dos prontuários de junho de 2023 a janeiro de 2024. 39 pacientes foram avaliados. Resultados: Infecções de pele e complicações subsequentes predominaram no sexo masculino; indivíduos de 61-70 anos; pacientes advindos da zona rural; e de menor escolaridade, bem como em portdores de doenças cardiovasculares e metabólicas. Nos 6 (15,4%) isolamentos de microrganismo feitos, Klebsiella, Acinetobacter, Proteus, Enterobacter e Pseudomonas foram gêneros relatados. Quase todas as infecções advieram da comunidade, com a possibilidade de microrganismos multirresistentes não isolados, como A. baumanii e P. aeruginosa, terem causado complicações nosocomiais, como necrose e sepse. Considerações finais: As infecções de pele constituem importante causa de internação hospitalar. Devido às solicitações reduzidas de cultura microbiológica, o perfil dos microrganismos prevalentes não foi bem elucidado. Contudo, entre as culturas coletadas, houve o predomínio de P. aeroginosa e outras bactérias multi e pan-resistentes.

Palavras-chave: Infecções Cutâneas; Farmacorresistência Bacteriana Múltipla; Região Amazônica.

ABSTRACT

Objective: It was aimed to investigate the prevalence and antimicrobial sensibility profile of multidrug-resistant microorganisms in skin and subcutaneous tissue infections among inpatients at the Municipal Hospital of Marabá (HMM), as well as their impact on clinical outcomes. Methods: This is an observational, epidemiological and prospective study with a quantitative–qualitative approach. Data were extracted from patients hospitalized at HMM through direct interviews and serial reviews of medical records from June 2023 to January 2024. A total of 39 patients were evaluated. Results: Skin infections and their subsequent complications were more frequent among males, individuals aged 61 to 70 years, residents of rural areas, and those with lower educational levels, as well as in patients with cardiovascular and metabolic conditions. Among the six (15.4%) microorganism isolates obtained, the genera Klebsiella, Acinetobacter, Proteus, Enterobacter, and Pseudomonas were revealed. Almost all infections were acquired in the community, although unisolated multidrug-resistant microorganisms such as A. baumannii and P. aeruginosa may have contributed to nosocomial complications, including necrosis and sepsis. Final considerations: Skin infections are a significant cause of hospital admission. Due to the limited number of microbiological cultures requested, the profile of prevalent microorganisms could not be fully elucidated. However, among the cultures obtained, P. aeruginosa and other multi- and pan-resistant bacteria predominated.

Keywords: Skin Infections; Multiple Bacterial Drug Resistance; Amazon Region.

RESUMEN

Objetivo: El objetivo de este estudio fue investigar la prevalencia y el perfil de sensibilidad antimicrobiana de microorganismos multirresistentes en infecciones de piel y tejido celular subcutáneo en pacientes hospitalizados en el Hospital Municipal de Marabá (HMM), así como su impacto en el desenlace clínico. Métodos: Se trató de un estudio observacional, epidemiológico, prospectivo y con un enfoque cuantitativo–cualitativo. Se recolectaron datos de pacientes internados en el Hospital Municipal de Marabá mediante entrevistas directas y reevaluaciones seriadas de las historias clínicas entre junio de 2023 y enero de 2024. En total se evaluaron 39 pacientes. Resultados: Las infecciones cutáneas y sus complicaciones subsecuentes fueron más frecuentes en hombres; individuos de 61 a 70 años; residentes de zonas rurales; y personas con menor nivel educativo, así como portadores de enfermedades cardiovasculares y metabólicas. En los seis (15,4%) aislamientos microbianos realizados, se identificaron los géneros Klebsiella, Acinetobacter, Proteus, Enterobacter y Pseudomonas. Casi todas las infecciones fueron adquiridas en la comunidad, aunque es posible que microorganismos multirresistentes no aislados, como A. baumannii y P. aeruginosa, hayan contribuido a complicaciones nosocomiales, incluyendo necrosis y sepsis. Consideraciones finales: Las infecciones cutáneas constituyen una causa importante de hospitalización. Debido al número reducido de cultivos microbiológicos solicitados, el perfil de los microorganismos prevalentes no pudo ser completamente esclarecido; sin embargo, entre los cultivos obtenidos predominaron P. aeruginosa y otras bacterias multi y panresistentes.

Palabras clave: Infecciones Cutáneas; Farmacorresistencia Bacteriana Múltiple; Región Amazónica.

INTRODUÇÃO

O conceito de Resistência Antimicrobiana (RAM) compreende a capacidade adaptativa dos microrganismos de aumentar a sua tolerância aos mecanismos de ação dos antimicrobianos, dessa maneira os mais resistentes proliferam-se apesar do efeito dos fármacos, enquanto os que permanecem sensíveis são eliminados (AIRES CAM, et al., 2017). Embora a resistência seja um fenômeno natural, vários fatores estão ampliando essa pressão seletiva, induzindo um aumento da RAM e tornando os microrganismos multirresistentes um percalço da saúde contemporânea.

O uso hospitalar excessivo de antibióticos, a automedicação e a interrupção do tratamento antes do tempo ideal são alguns fatores que aceleram o surgimento de bactérias multirresistentes (AIRES CAM, et al., 2017). Estes microrganismos, em face da efetividade reduzida das terapias farmacológicas, tornam-se, portanto, mais difíceis de controlar e com maior capacidade de disseminação, o que se associa a maiores índices de complicações e mortalidade, configurando um fator de substancial importância para a saúde, necessitando de intervenções nacionais e locais (CASSINI A, et al., 2019).

Ademais, ao passo que a população amazônica possui um contexto sociodemográfico particular, dispondo de fatores inerentes, tais quais a dimensão territorial, a diversidade demográfica e o baixo nível socioeconômico da população, que também podem contribuir significativamente para a ocorrência da RAM, que podem predispor uma significativa desigualdade de acesso à saúde (GAMA ASM, et al., 2018). Porquanto, este cenário relaciona-se diretamente aos Determinantes Sociais em Saúde próprios da região.

Na Amazônia, a assistência de saúde inadequada normalmente se associa à prevalência endêmica de doenças infectocontagiosas específicas, como a hanseníase, que vem apresentando reduções graduais na efetividade do seu tratamento devido à resistência bacteriana (BRASIL, 2020). Outrossim, infecções de pele e tecido mole, como impetigo, foliculite, celulite e erisipela contam com uma alta prevalência na região (PIRES CA, et al., 2015). Além de que, uma possível ineficácia terapêutica destas patologias relaciona-se, ora por uso incorreto de antibióticos, ora pela influência da RAM local, com a evolução para complicações mais graves, como sepse.

Nesse cenário, o processo de desenvolver e sustentar medidas efetivas de controle da RAM a nível nacional e, principalmente, amazônico é amplamente desafiador (BRASIL, 2018). Contanto, desbravar essa possibilidade é fundamental visto a relevância e os impactos deste problema. Este contexto fomenta a realização desta pesquisa como ferramenta epidemiológica colaborativa para mitigar os impactos regionais específicos da RAM. De tal maneira, salientou-se, como problemática de pesquisa, questionar a prevalência, o perfil de sensibilidade e os impactos clínicos conferidos por microrganismos multirresistentes em infecções de pele e tecido mole nos pacientes internados no Hospital Municipal de Marabá (HMM), entre junho de 2023 e janeiro de 2024.

Em suma, tem-se como objetivo geral deste estudo investigar a prevalência e o perfil de sensibilidade de microrganismos multirresistentes em infecções de pele e tecido celular subcutâneo em pacientes internados HMM e seus impactos para o desfecho clínico, bem como avaliar o perfil de sensibilidade antimicrobiana, aspectos epidemiológicos e fortalecer o sistema de informação para controle de infecções intra-hospitalares e comunitárias.

MÉTODOS

Engloba um estudo de base observacional, de natureza epidemiológica, delineamento prospectivo e abordagem tanto quantitativa quanto qualitativa, cuja instituição escolhida para a pesquisa foi o Hospital Municipal de Marabá (HMM), situado na cidade de Marabá, sudeste do estado do Pará.

O HMM integra uma das principais instituições de saúde públicas da cidade, com serviços de média e alta complexidade, cuja demanda atendida em saúde se estende para a população de mais vinte municípios próximos, que somam um total de 827.061 habitantes, uma vez que representa a sede da 11ª Regional de Saúde do estado do Pará (SESPA REGIONAIS DE SAÚDE, 2022).

A população desta pesquisa foi composta por pacientes internados em leitos de enfermaria do HMM, no período de junho de 2023 a janeiro de 2024, com quadros de infecção de pele e/ou tecido subcutâneo. A amostragem seguiu-se por conveniência a medida das visitas para coleta de dados pela equipe, totalizando 39 pacientes. Em contraposição ao proposto inicialmente em projeto, foram incluídos todos os pacientes candidatos à realização de exame de cultura microbiológica para fins estatísticos, em virtude da carência de exames realizados. O detalhamento das etapas de execução da pesquisa é descrito no fluxograma contido na Figura 1.

Foram empregados dois instrumentos de coleta de dados, de autoria própria, conforme projeto inicial, em formato de formulário, sendo um destes (“arquivo à parte 1”) direcionado a obtenção de dados sociodemográficos, via questionário, para estimar os determinantes pessoais em saúde e suas possíveis associações com o quadro clínico, por meio de entrevista direta. Em segundo momento, a coleta também se valeu do uso de formulário (“arquivo à parte 2”) para registro de dados clínicos específicos e perfil microbiológico da infecção, recolhidos de informações contidas em prontuário.

Os dados foram coletados nas dependências do HMM a partir de visitas programadas da equipe de pesquisa, inicialmente com a seleção de indivíduos aplicáveis à pesquisa registrados no mapeamento diário dos leitos em uso, seguida de entrevista dos pacientes, após autorização formal por assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), e por fim da avaliação dos respectivos prontuários. Enfatiza-se que, frente a natureza prospectiva da pesquisa, foram realizadas reavaliações seriadas dos prontuários de pacientes incluídos durante o período de internação.

Consideraram-se como variáveis de interesse características sociodemográficas relevantes como idade, sexo, estado civil, hábitos de vida, escolaridade e habitação. Ademais, estas serão associadas às variáveis clínicas e infecciosas, sendo estas principalmente a presença de comorbidades, complicações, hábitos de vida, desfechos, a realização de exame de cultura e o perfil microbiológico da infecção.

A análise estatística prosseguiu predominantemente a partir de estatística descritiva e multivariada, em virtude da associação entre variáveis numéricas, binominais e multinominais. Foi realizado o agrupamento categórico das variáveis a fim de auxiliar a comparação de dados. A tubulação e processamento estatístico dos dados foi executada nos softwares Microsoft Excel 2017 e JAMOVI, respectivamente.

O seguimento metodológico da pesquisa deu-se em conformidade aos preceitos da Declaração de Helsinque e do Código de Nuremberg, bem como às normas de pesquisa envolvendo seres humanos na Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde e demais legislações. Ressalta-se a obtenção de autorização institucional protocolada na Secretaria Municipal de Saúde de Marabá (SMS), aprovação da Coordenação de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão, Inovação e Internacionalização (COPPEXII) da Afya Marabá, e, por fim, aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário Tocantinense Presidente Antônio Carlos (CEP-UNITPAC), via cadastro na Plataforma Brasil, com parecer emitido de nº 6.209.218 de 31 de julho de 2023.

Figura 1 – Fluxo de aprovação, coleta e análise de dados.

Fonte: De Sousa JFS, et al., 2025.

RESULTADOS

Após a distribuição estatística dos indivíduos segundo as variáveis sociodemográficas, exposta na Tabela 1, obteve-se que a maioria foi representada pelo sexo masculino (56%), que também contou com o maior número de culturas realizadas, todavia se destaca a predominância de comorbidades e complicações no sexo feminino. 

Constatou-se, ainda, predomínio de faixa etária entre 61-70 anos (38,5%), possivelmente relacionado à maior suscetibilidade dos idosos a ocorrência de infecções de pele, tanto pela debilidade física quanto pela ocorrência de doenças subjacentes, o que possivelmente também explica o predomínio de casos complicados nessa categoria. 

A escolaridade foi a variável mais diversa entre as avaliadas, sendo ensino fundamental incompleto a categoria mais relatada, ainda que a maioria tenha optado por não declarar. Acerca da habitação, a grande maioria afirmou residir em área urbana (76,9%), notou-se, entretanto, que apesar da quantidade reduzida, os moradores da zona rural foram mais afetados por complicações (66,7%). Não houve relato de pessoas que residiam em áreas de alagamento sazonal da cidade.

Entre as comorbidades encontradas, Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) e Diabetes Mellitus (DM) configuram-se como as mais prevalentes, presentes praticamente em metade dos pacientes avaliados, e em quase todos os casos de culturas realizadas. Tal contexto corrobora com o potencial agravante dessas condições sobre processos infecciosos em pele e tecidos moles, predispondo maior risco de complicações, conforme observado neste estudo. 

Pouco menos da metade do total de casos pesquisados (46,2%) resultaram em algum tipo de complicação ao longo do período de estudo, como demonstrado na Tabela 2. Nesse sentido, cabe enfatizar a ocorrência de necrose em um terço dos indivíduos, condição com grande potencial de agravar e cronificar as infecções. A respeito das demais complicações, osteomielite e amputação merecem destaque, uma vez que respondem por uma morbimortalidade elevada e prolongamento do período de internação.

Tabela 1 – Associação de variáveis sociodemográficas da população estudada no Hospital Municipal de Marabá com a presença de complicações (n = 39).

COMPLICAÇÕES
VARIÁVEIS:N (%):SIM (N)NÃO (N)
Sexo
Feminino17 (43,6)1007
Masculino22 (56,4)814
Idade
< 40 anos04 (10,2)0202
40-50 anos08 (20,5)0206
51-60 anos06 (15,4)0204
61-70 anos15 (38,5)0807
> 70 anos06 (15,4)0402
Etnia/Raça
Pardo22 (56,4)1210
Preto05 (12,8)0104
Branco11 (28,2)0506
Não declarado01 (2,6)00
Estado Conjugal
Com companheiro(a)27 (69,2)1413
Sem companheiro(a)11 (28,2)0407
Não declarado01 (2,6)– – 
Escolaridade
Superior completo01 (2,6)0100
Superior incompleto02 (5,2)0101
Médio completo05 (12,8)0401
Médio incompleto00 (0,0)– 
Fundamental completo01 (2,6)0100
Fundamental incompleto10 (25,6)0604
Analfabeto01 (2,6)0001
Não declarado19 (48,7)0514
Habitação
Zona urbana30 (76,9)1416
Zona rural06 (15,4)0402
Não declarado03 (7,7)– – 

Fonte: De Sousa JFS, et al., 2025.

Percebeu-se, também, uma prevalência marcante do sedentarismo, sobrepeso e obesidade como condições associadas ao perfil dos pacientes estudados, fatores que podem estar indiretamente associados a uma maior predisposição a quadros de insuficiência venosa e ulceração de extremidades, com risco de complicação para infecções graves (MOURA AB, et al., 2021). Hábitos como etilismo e tabagismo, contudo, não apresentaram prevalência maior do que o esperado para a população geral e não se associaram a uma maior ocorrência de complicações neste estudo.

A incidência de infecções de pele no cenário avaliado mostrou-se significativamente alta, embora nem todos os pacientes afetados tenham sido incluídos neste estudo estima-se que entre 10-20% dos leitos hospitalares de Clínica Médica tenham sido ocupados por casos em que infecções de pele e tecido subcutâneo estavam presentes como queixa principal ou associada. Evidência consistente com estudos que expressam essa patologia como uma das principais causas de internações e morbimortalidade em todo o mundo (VALDERRAMA-BELTRAN S, et al., 2019).

Os microrganismos isolados entre as culturas obtidas foram representados por Klebisiella pneumonie, Acientobacter baumanni, Proteus mirabis, Enterobacter cloacae e Pseudomonas aerogionosa, com destaque ao último pela dupla ocorrência. Enfoca-se, nessa perspectiva, que a maioria dos microrganismos detectados estão incluídos entre os patógenos com maior potencial de resistência antimicrobiana, assim como detentores de alta virulência, conforme dados da OMS e de revisões recentes (MURRAY CJL, et al., 2022). Todavia, não foi possível associar a incidência de patógenos multirresistentes a maiores frequências de desfechos desfavoráveis e complicações, dado a amostra reduzida.

É evidente o predomínio gram-positivos em infecções comunitárias de pele na população geral, possivelmente pela colonização fisiológica, mas, em pacientes diabéticos a proporção de gram-negativos mostra-se aumentada e com maior tendência a resistência antimicrobiana, pois ao analisar os dados de culturas colhidas, das seis amostras apenas uma caracterizava-se como gram-positiva a Enterococcus spp. Isso pode estar relacionado ao uso rotineiro de drogas orais como a Clindamicina, tradicionalmente utilizada como terapia empírica (DE OLIVEIRA AF e DE OLIVEIRA FILHO H, 2014).

Frickmann H, et al. (2018) relataram o crescimento recente da incidência de gram-negativos em infecções de pele, especialmente em casos de internações prolongadas, associadas a maior gravidade e pacientes com múltiplas comorbidades. Dada a amostra de 39 pacientes, somente 6 (15,4%) realizaram efetivamente culturas das lesões, embora 18 (46,1%) tenham apresentado complicações. Como uma possível explicação, considera-se a existência de viés de gravidade para as solicitações do exame de cultura microbiológica, presumindo-se que os pacientes que mais frequentemente realizaram apresentavam-se com quadros mais graves e persistentes, notando-se que casos leves, possivelmente acometidos por patógenos menos agressivos e resistentes, alcançaram resolução por antibioticoterapia empírica, sem que houvesse a identificação laboratorial do agente.

Convém salientar, nessa perspectiva, que a exequibilidade do projeto desta pesquisa conforme proposto inicialmente foi consideravelmente afetada pelo contexto de solicitações insuficientes culturas microbianas das lesões infectadas. Embora este exame esteja acessível na instituição em questão é fundamental para o direcionamento terapêutico, poucos pacientes se beneficiaram em função da falta de realizações.

Outro ponto de destaque relaciona-se ao fato, aparentemente discrepante, acerca do perfil bacteriano identificado e a origem das infecções, cuja maioria foi adquirida na comunidade. Todavia, em contraposição, os microrganismos mais isolados representaram patógenos típicos de infecções hospitalares, mais resistentes, denotando que os dados obtidos sobre estes foram pouco representativos para a amostra avaliada. Além de que, praticamente todos os exames obtidos remetem a casos graves, com internações prolongadas e prováveis infecções secundárias. Nesse tocante, destaca-se a origem comunitária das infecções como predominante no cenário avaliado.

Houve crescimento bacteriano na totalidade das culturas realizadas. Ademais, evidenciaram-se, com base nos perfis de resistência, dois microrganismos classificados segundo laudo de antibiograma como pan-resistentes, tendo um destes casos, cuja infecção foi causada pela bactéria A. baumannii, evoluiu para óbito, após complicações de osteomielite e sepse. Ressalta-se que a deterioração clínica também foi fortemente influenciada por comorbidades e idade avançada do paciente. A. baumannii constitui um microorganismo especialmente prejudicial por seu potencial causador de infecções nosocomiais associadas a resistência antimicrobiana. Na região amazônica, em especial, Caldart RV, et al. (2019) desempenharam um estudo de reconhecimento molecular de resistência a carbapenêmicos para o patógeno em questão, cujo resultado evidenciou cepas de alta resistência relevantes em cenário mundial.

Trabalho conduzido por Gato PC, et al. (2021) em um hospital também localizado no estado Pará buscou avaliar a prevalência de K. pneumoniae multirresistente em pacientes internados em leitos de terapia intensiva, evidenciando infecções de pele como segundo foco mais comum, atrás de pneumonias e grande proporção de bactérias produtoras de Beta-Lactamase de Espectro Estendido (ESBL), com significativa resistência aos beta-lactâmicos.

Pesquisas propostas por Samad A, et al. (2018) e Menezes LK, et al. (2021) também demonstram o predomínio de cepas de P. aeruginosa, E. coli e Enterobacter spp. entre as bactérias gram-negativas mais frequentemente encontradas em infecções de tecidos moles. Estes últimos, ainda que não classificados como emergentes, apresentam uma capacidade notável de desenvolver resistência a diferentes classes antibióticas, evidenciando seu papel agravante em infecções de pele (CHAVES LC, et al., 2002). Outro estudo, movido na Amazônia remota, tendo como população indivíduos indígenas atendidos em serviços especiais de saúde, também realizou genotipagem de amostras de fezes em pacientes com suspeita de gastroenterocolite aguda, apresentando alta incidência de multirresistentes e produtores de ESBL (DA SILVA QM, 2017).

Durante o período de 2012 a 2016, em um hospital público paraense, foi avaliada a correlação entre o consumo de antimicrobianos e a evolução da resistência antimicrobiana, com base em hemoculturas positivas realizadas, observando-se então, o predomínio de gram-negativas e ESBL como padrão de resistência mais comum, elevando-se, em decorrência, o consumo de carbapenêmicos.

Tabela 2 – Associação de variáveis epidemiológicas da população estudada no Hospital Municipal de Marabá com a realização de exames de cultura microbiológica (n = 39).

VARIÁVEIS:N (%):CULTURA REALIZADA
Sexo
Feminino17 (43,6)01
Masculino22 (56,4)05
Idade
< 40 anos04 (10,2)00
40-50 anos08 (20,5)00
51-60 anos06 (15,4)00
61-70 anos15 (38,5)04
> 70 anos06 (15,4)02
Comorbidades
Diabetes Mellitus26 (66,7)05
Hipertensão Arterial Sistêmica19 (48,7)05
Sobrepeso (IMC* > 25)05 (12,8)00
Obesidade (IMC > 30)14 (35,9)02
Trombose Venosa em Membros Inferiores02 (5,1)00
Doença Renal Crônica04 (10,2)02
Outras07 (17,9)04
Nenhuma07 (17,9)00
Hábitos
Sedentarismo16 (41,0)02
Etilismo08 (20,5)01
Tabagismo06 (15,4)01
Complicações 
Necrose13 (33,3)03
Osteomielite04 (10,2)01
Amputação04 (10,2)01
Sepse02 (5,2)01
Óbito01 (2,6)01
Outras03 (7,7)01
Nenhuma21 (53,8)01

Legenda: *Índice de Massa Corporal.

Fonte: De Sousa JFS, et al., 2025.

Acerca dos padrões observados de prescrição de antimicrobianos na instituição avaliada e o comportamento bacteriano frente a estes não foi possível detalhar individualmente as respostas específicas, porém se notou o uso predominante de Cefalosporinas de terceira geração, sobretudo ceftriaxona, em associação a outras classes. Dentre os demais antibióticos mais utilizados destaca-se a vancomicina e carbapenêmicos. Percebe-se, portanto, tendência de uso de drogas preferenciais para infecções nosocomiais e/ou resistentes (STEVENS DL, et al., 2014).

A quase totalidade das infecções estudadas apresentavam origem comunitária, seguida por casos de infecções de ferida operatória. No entanto, não é possível descartar infecções nosocomiais secundárias, tendo em vista a gravidade dos casos e a identificação de agentes tipicamente encontrados em Infecções Relacionadas à Assistência em Saúde (IRAS), ainda que poucas culturas tenham sido realizadas (MUNOZ-PRICE LS, et al., 2019).

À vista disso, é viável considerar que as terapias empiricamente prescritas em primeira linha englobaram predominantemente antimicrobianos de espectro superior ao indicado para infecções comunitárias, o que desvaloriza o papel das culturas como ferramenta essencial para adequar o processo de escalonamento de terapias, além de induzir pressão seletiva nos microrganismos e resistência a antibióticos de maior potência. 

É recomendável a realização habitual de exames de cultura e antibiograma para casos de infecções de pele e tecido subcutâneo a fim de possibilitar ao serviço hospitalar o conhecimento do perfil microbiológico típico e, assim, subsidiar a elaboração de protocolos de tratamento, sobretudo acerca da antibioticoterapia empírica inicial, produzindo impactos positivos que vão desde maior efetividade terapêutica, reduções de complicações e custos com internações prolongadas, além de evitar o uso inadequado de antimicrobianos e aumento da RAM.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados desta pesquisa não foram capazes de estimar adequadamente a prevalência de microrganismos multirresistentes, em grande parte devido ao número inexpressivo de solicitações de cultura microbiológica, ainda que a maioria dos pacientes possivelmente se beneficiasse deste exame. No entanto, foi possível compreender as infecções de pele como uma das principais causas de internação no hospital avaliado, o que destaca ainda mais a necessidade de investigar e aperfeiçoar o uso de antibioticoterapia, principalmente empírica, para reduzir agravamentos e aumento de resistência antimicrobiana. Além disso, dentre as diversas comorbidades encontradas nos pacientes avaliados, o diabetes mellitus mostrou-se o mais prevalente, provavelmente influenciando a maioria das complicações, dado já esperado, visto que, além da dificuldade de controle glicêmico, a doença cursa com perda de sensibilidade e dificuldade de cicatrização, reafirmando a necessidade de acompanhamento assíduo destes pacientes na Atenção Primária, a fim de reduzir internações. Mesmo com uma amostra limitada o presente estudo apresentou entre as culturas realizadas duas amostras de microrganismos pan-resistentes, que pertencem ao grupo de maior risco de resistência e virulência segundo a OMS, e um óbito, o que realça a necessidade de mais estudos para entender o real panorama epidemiológico de infecções de pele, sobretudo na Região Amazônica. Com isso, os dados fornecidos por este estudo são intuitivamente mais relacionados a ressaltar a necessidade de melhorias no tratamento de infecções de pele, caracterizando a realização de culturas microbiológicas e do teste de sensibilidade antimicrobiana como instrumentos de grande potencial para modificação do quadro dos doentes, sobretudo quando aliados a hábitos cautelosos e fundamentados de prescrição de antimicrobianos.

REFERÊNCIAS

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1Afya Marabá – Faculdade de Ciências Médicas, Marabá – PA.
*E-mail:  sergianemiqueli1@gmail.com

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