PRESCRIÇÃO DE DEXAMETASONA EM PROCEDIMENTOS CIRÚRGICOS  ODONTOLÓGICOS: QUANDO USAR?

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202510072102


Raffael Nunes Pimenta de Sousa1
Daniele Paraguassu Fagundes2


RESUMO 

O presente trabalho aborda a importância da dexametasona no contexto cirúrgico  odontológico, com ênfase em procedimentos que envolvem osteotomia e  odontosecção, nos quais sua atuação como anti-inflamatório esteroidal promove  significativa redução da morbidade pós-operatória. A problemática centra-se na  relevância do uso da dexametasona nesses procedimentos e nos momentos mais  adequados para sua administração. O objetivo geral da pesquisa é demonstrar que,  em exodontias complexas, o conhecimento detalhado da anatomia cirúrgica e a  escolha apropriada das técnicas cirúrgicas são fundamentais para minimizar riscos e  complicações. A dexametasona, assim como a metilprednisolona, é utilizada por  diferentes vias de administração — oral, intramuscular, submucosa, intravascular ou  intramassetérica — nos períodos pré-operatório, transoperatório e pós-operatório,  promovendo controle eficaz da resposta inflamatória, redução de dor, edema e trismo,  além de acelerar a recuperação funcional do paciente. Estudos clínicos indicam que  o momento e a via de administração influenciam diretamente sua eficácia terapêutica.  Apesar de apresentar potenciais efeitos adversos em populações específicas, seu uso  racional, fundamentado em evidências científicas, torna a dexametasona uma  ferramenta essencial no planejamento cirúrgico odontológico, garantindo maior  conforto, segurança e qualidade de vida aos pacientes submetidos a intervenções  invasivas na região bucomaxilofacial. A pesquisa é de caráter bibliográfico, com  abordagem qualitativa e quantitativa, permitindo uma compreensão ampla e  aprofundada do tema. 

Palavras chaves: Dexametasona. Exodontia. Osteotomia. Odontosecção.  Inflamação. 

ABSTRACT 

This study addresses the importance of dexamethasone in the context of dental  surgery, with emphasis on procedures involving osteotomy and tooth sectioning, in  which its action as a steroidal anti-inflammatory agent significantly reduces  postoperative morbidity. The central issue focuses on the relevance of dexamethasone  use in these procedures and the most appropriate timing for its administration. The  main objective of the research is to demonstrate that, in complex extractions, detailed  knowledge of surgical anatomy and the appropriate choice of surgical techniques are  essential to minimize risks and complications. Dexamethasone, as well as methylprednisolone, is used via different routes — oral, intramuscular, submucosal,  intravenous, or intramasseteric — in the preoperative, intraoperative, and  postoperative periods, providing effective control of the inflammatory response,  reducing pain, edema, and trismus, and accelerating functional recovery. Clinical  studies indicate that the timing and route of administration directly influence therapeutic  efficacy. Although potential adverse effects may occur in specific populations, rational  use based on scientific evidence makes dexamethasone an essential tool in dental  surgical planning, ensuring greater comfort, safety, and quality of life for patients  undergoing invasive procedures in the maxillofacial region. The research is  bibliographic in nature, with qualitative and quantitative approaches, allowing a broad  and in-depth understanding of the topic. 

Keywords: Dexamethasone; Tooth extraction; Osteotomy; Tooth sectioning;  Inflammation.  

1. INTRODUÇÃO 

O presente trabalho apresentou a importância do uso da dexametasona no  contexto cirúrgico odontológico, com ênfase em procedimentos que envolvem  osteotomia e odontosecção, nos quais a atuação desse fármaco como anti inflamatório esteroidal (AIE) demonstra resultados significativos na redução da  morbidade pós-operatória. As cirurgias odontológicas apresentam diferentes níveis  de complexidade, desde procedimentos ambulatoriais simples até intervenções de  maior porte, que exigem ambientes hospitalares e anestesia geral3

A dexametasona e a metilprednisolona são os medicamentos mais utilizados  nesse contexto, administrados por diferentes vias, como oral, intramuscular,  submucosa, intravascular ou intramassetérica, tanto no pré-operatório quanto no  transoperatório e pós-operatório, com o objetivo de reduzir complicações e acelerar  o processo de recuperação4

A partir desse panorama, surge a seguinte problemática: por que o uso da  dexametasona é essencial nas cirurgias odontológicas que envolvem osteotomia e  odontosecção, e qual momento ideal para sua administração? É relevante destacar que, mesmo com todo o planejamento cirúrgico, nem sempre é possível prever a  necessidade de técnicas mais invasivas, como o uso de brocas para seccionamento  dentário ou remoção óssea. Dessa forma, o profissional deve estar preparado para  atuar de forma preventiva e terapêutica, contando com um arsenal farmacológico  eficiente, no qual os corticosteroides se destacam. 

Durante e após o ato cirúrgico, o organismo desencadeia uma resposta  inflamatória natural, que pode variar em intensidade. Para minimizar essa resposta  e seus sintomas, como dor, edema e trismo, é fundamental a adoção de medidas  farmacológicas eficazes, destacando-se o uso de anti-inflamatórios esteroidais  (AIEs) e não esteroidais (AINEs). Esses medicamentos são frequentemente  utilizados no manejo pré-operatório e pós-operatório, especialmente em cirurgias de  terceiros molares e outros procedimentos invasivos na região bucomaxilofacial5

Esta revisão bibliográfica busca analisar e descrever a utilização da  dexametasona nos cuidados pré-operatórios e pós-operatórios em exodontias que  exigem osteotomia e odontosecção, contribuindo para uma recuperação mais  rápida, confortável e com menor incidência de complicações. Propõe ainda, avaliar  os principais fármacos utilizados na redução da dor, edema e trismo nos tecidos  bucais; demonstrar como o uso da dexametasona nas cirurgias odontológicas,  especialmente em osteotomias e odontosecções, se mostra eficaz na promoção do  bem-estar do paciente; promover práticas clínicas que visem o conforto e a  qualidade de vida do paciente no período pós-operatório. 

Por fim, espera-se que os resultados obtidos contribuam para uma reflexão  crítica sobre a eficácia e segurança do uso da dexametasona no contexto das  cirurgias odontológicas, bem como para o aprimoramento das práticas clínicas,  visando oferecer aos pacientes um pós-operatório com menor desconforto, redução  das intercorrências inflamatórias e melhoria na qualidade de vida durante o processo  de cicatrização. 

A relevância deste estudo reside na contribuição para a prática odontológica,  ao evidenciar a eficácia da dexametasona no controle da resposta inflamatória em  cirurgias que envolvem osteotomia e odontosecção. Além disso, reforça a importância de condutas baseadas em evidências científicas, auxiliando o cirurgião dentista na tomada de decisões seguras e eficazes durante o planejamento e  execução de procedimentos cirúrgicos.

2. MATERIAL E MÉTODOS 

A presente revisão bibliográfica adota uma natureza básica, uma vez que  busca gerar conhecimentos aplicáveis à prática clínica, solucionando problemas  específicos da odontologia cirúrgica no que se refere ao uso de fármacos anti inflamatórios. O método de raciocínio será dialético, permitindo uma análise crítica  e reflexiva das evidências científicas disponíveis. 

Quanto à sua abordagem, a pesquisa será de caráter misto, combinando  métodos qualitativos e quantitativos, de forma a proporcionar uma compreensão  ampla e aprofundada do tema. Os procedimentos metodológicos incluirão uma  revisão de literatura sistemática, considerando artigos publicados nos últimos 5  anos, utilizando bases de dados como o Portal de Periódicos da CAPES e o Google  Acadêmico, com os seguintes descritores: “dexametasona”, “odontosecção”,  “exodontia” e “osteotomia”. 

Serão incluídos artigos atualizados, que abordem tanto os benefícios quanto  as limitações do uso da dexametasona, especialmente no que se refere aos riscos  associados ao uso prolongado, como hipertensão descontrolada e insuficiência  cardíaca. Serão excluídos estudos desatualizados, duplicados ou não disponíveis  em idiomas acessíveis. 

3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 

3.1 Dexametasona no contexto odontológico 

A dexametasona é um corticosteroide sintético com potente ação anti inflamatória e imunossupressora, amplamente utilizada na prática odontológica para  o controle de dor, edema e trismo decorrentes de procedimentos cirúrgicos e  inflamatórios. Sua ação baseia-se na inibição da fosfolipase A2, impedindo a formação  de ácido araquidônico e, consequentemente, reduzindo a síntese de prostaglandinas  e leucotrienos, importantes mediadores da inflamação. Além disso, interfere na expressão de citocinas pró-inflamatórias, como fator de necrose tumoral (TNF) e  interleucinas, contribuindo para a diminuição da resposta inflamatória sistêmica6. No contexto odontológico, a dexametasona é frequentemente utilizada como  medicação pré e pós-operatória, principalmente em cirurgias de terceiros molares  inclusos. Revisão sistemática com metanálise conduzida por Barbosa7 demonstrou  que a administração oral pré-operatória de 4 mg de dexametasona promoveu discreta  redução da dor em 24 e 72 horas após a cirurgia, embora a qualidade da evidência  tenha sido considerada baixa a muito baixa. Em estudo clínico comparativo, Alcântara8 verificaram que a administração pré-operatória de 8 mg de dexametasona por via oral  apresentou melhor desempenho no controle de edema e trismo em relação à  metilprednisolona, sem diferença significativa no controle da dor. A via de administração da dexametasona pode interferir nos resultados  clínicos. Em ensaio clínico, Nóboa9 comparara a eficácia da administração oral e  submucosa de 4 mg do fármaco, constatando que ambas as vias proporcionaram  redução significativa de dor, edema e trismo, sem diferenças estatísticas relevantes  entre elas. Resultados semelhantes foram observados por Latt10, que aplicaram 8 mg  de dexametasona por via pterigomandibular, obtendo melhora expressiva no controle  de edema e dor pós-operatória. 

A aplicação da dexametasona não se restringe à cirurgia oral. Em casos de  dor pós-endodôntica, estudo randomizado de Jorge-Araújo11 indicou que uma dose única de 8 mg do corticosteroide reduziu significativamente a necessidade de uso de  analgésicos de resgate em comparação ao placebo, embora a intensidade da dor  relatada não tenha diferido significativamente. 

Evidencia-se que a dexametasona também desempenha papel relevante  como adjuvante em terapias de urgência odontológica, contribuindo para o conforto  do paciente no período inicial de recuperação. 

3.1.1 Indicações 

Segundo Tapia-García12, a administração de dexametasona no pós-operatório de cirurgias odontológicas contribui significativamente para a redução do  edema facial, da dor e do trismo, promovendo uma recuperação mais confortável para  o paciente. Os autores destacam a eficácia comprovada da dexametasona no controle  dos sintomas pós-operatórios, evidenciando seu papel essencial na melhora do bem estar do paciente após intervenções cirúrgicas orais. 

Esses efeitos são atribuídos à capacidade da dexametasona de inibir a  síntese de mediadores inflamatórios, como prostaglandinas e citocinas, diminuindo a  resposta inflamatória local. A explicação fisiológica fornecida reforça a fundamentação  científica do uso da dexametasona, mostrando que sua ação não é apenas  sintomática, mas atua diretamente nos processos bioquímicos da inflamação13

Além do controle de sintomas pós-cirúrgicos, a dexametasona é indicada em  casos de condições inflamatórias agudas, como edema alérgico e lesões ulcerativas,  onde sua ação rápida e eficaz pode evitar complicações maiores14. Também é  empregada em procedimentos que envolvem risco de inflamação excessiva, como  cirurgias periodontais e implantes dentários, visando minimizar desconfortos e  acelerar a cicatrização tecidual15. A indicação dos autores ressalta o uso preventivo e profilático da dexametasona em procedimentos odontológicos invasivos,  evidenciando a preocupação com a melhoria da recuperação e conforto do paciente. Em suma, a dexametasona é um medicamento valioso na prática  odontológica por sua eficácia no controle da inflamação e alívio dos sintomas pós-operatórios, quando usada corretamente e com indicação precisa. 

3.1.2 Benefícios e limitações 

A dexametasona é um glicocorticoide sintético amplamente utilizado no  tratamento de processos inflamatórios e na modulação da resposta imunológica,  sendo indicada em diversas condições clínicas, como doenças autoimunes, alergias  graves, edemas cerebrais e até mesmo em infecções virais severas. Sua principal  propriedade terapêutica é o efeito anti-inflamatório e imunossupressor, sendo  “significativamente mais potente que a prednisolona” 16, o que a torna mais eficaz no  controle de inflamações intensas. 

Durante a pandemia de COVID-19, a dexametasona ganhou destaque por  reduzir a mortalidade em pacientes graves. Conforme estudo publicado no New  England Journal of Medicine, “o uso da dexametasona resultou em menor mortalidade  em 28 dias entre aqueles que recebiam ventilação mecânica ou oxigênio”17 demonstrando seu papel essencial no manejo de casos críticos. Além disso, é amplamente empregada em situações agudas, como  “exacerbações agudas de esclerose múltipla, alergias, edema cerebral, inflamação e  choque”18, evidenciando sua versatilidade clínica. No campo oncológico, a  dexametasona é utilizada para tratar edema cerebral, especialmente no glioblastoma multiforme, sendo que “tem sido usada por muitos anos para tratar edema cerebral e  inflamação causados pelo glioblastoma”19, auxiliando na melhora dos sintomas  neurológicos e na qualidade de vida. 

Apesar desses benefícios, a dexametasona apresenta riscos significativos,  especialmente quando utilizada por períodos prolongados, pois “os riscos tendem a  superar os benefícios associados ao uso prolongado da dexametasona”20, o que  indica que seus efeitos adversos podem superar as vantagens terapêuticas. 

Assim, a dexametasona configura-se como um fármaco de alto valor  terapêutico, capaz de salvar vidas e aliviar sintomas severos, mas cujo uso requer  criteriosa avaliação da relação risco-benefício e acompanhamento médico rigoroso. 

3.2 Efeitos adversos e contraindicações da dexametasona 

Os efeitos adversos da dexametasona são variados e influenciados pela dose,  via de administração, duração do tratamento e características individuais do paciente.  Barnes21 descreve que um dos principais riscos associados ao seu uso é a supressão  do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), condição que ocorre principalmente  quando a medicação é administrada em doses elevadas ou por períodos prolongados.  Esse autor explica que tal supressão compromete a resposta natural do organismo ao  estresse, aumentando a vulnerabilidade a insuficiências adrenais. Hussain e Hashim22 destacam que o corticosteroide também pode provocar  alterações metabólicas, como a hiperglicemia transitória, especialmente em pacientes  diabéticos, e recomendam um acompanhamento rigoroso da glicemia para evitar  complicações.

O efeito imunossupressor da dexametasona pode reduzir a capacidade de defesa do organismo, o que eleva o risco de infecções, sobretudo em indivíduos com o sistema imunológico comprometido. Em bula oficial aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), ressalta que a medicação pode causar desconfortos gastrointestinais, como irritação da mucosa, aumento do risco de úlceras e hemorragias digestivas, especialmente quando associada a anti-inflamatórios não esteroides23

No que diz respeito às contraindicações, Shah e Luthra24 reforçam que  pacientes com infecções ativas e não controladas não devem receber o  corticosteroide, pois a supressão imunológica pode agravar o quadro infeccioso. O uso é contraindicado em pessoas com hipersensibilidade conhecida à dexametasona  ou a outros corticosteroides.  

Freire e Santos25 destacam que pacientes com insuficiência renal ou hepática  grave podem apresentar risco aumentado de toxicidade devido à metabolização e  eliminação comprometidas. Ainda enfatiza que o uso em pacientes com úlcera péptica  ativa é desaconselhado, visto que a medicação pode agravar as lesões gástricas.  

Em síntese, Oelke26 conclui que a dexametasona é uma ferramenta eficaz no  controle de sintomas pós-exodontia, mas seu uso deve sempre estar condicionado a  uma avaliação criteriosa do paciente, pesando os benefícios contra os riscos. O  profissional de odontologia, segundo os autores, deve realizar uma anamnese  detalhada, identificar possíveis contraindicações e monitorar continuamente os efeitos  colaterais para assegurar um tratamento seguro e eficaz. 

3.2.1 Populações especiais (diabéticos, hipertensos, imunossuprimidos) 

A dexametasona é um corticosteroide sintético amplamente utilizado devido  às suas potentes propriedades anti-inflamatórias e imunossupressoras, sendo  empregada no tratamento de diversas condições clínicas, como doenças autoimunes, inflamatórias e reações alérgicas graves. Contudo, seu uso em populações especiais,  como pacientes diabéticos, hipertensos e imunossuprimidos, requer atenção  diferenciada, considerando as particularidades fisiopatológicas e o risco aumentado  de eventos adversos27. O autor apresenta o fármaco e alerta que, em determinados  grupos, os riscos podem se sobrepor aos benefícios, justificando maior cautela. 

Em indivíduos com diabetes mellitus, a dexametasona pode induzir  hiperglicemia por aumentar a resistência periférica à insulina e estimular a  gliconeogênese hepática, o que compromete o controle glicêmico. O uso prolongado  ou em doses elevadas pode demandar ajuste na terapia antidiabética e  monitoramento constante dos níveis de glicose28. Assim, para pacientes diabéticos, o  principal risco é o descontrole da glicemia, exigindo acompanhamento rigoroso e  possíveis mudanças no tratamento. 

Nos pacientes hipertensos, a dexametasona pode provocar retenção de sódio e água, elevando a pressão arterial. Apesar de apresentar menor efeito mineralocorticoide em comparação a outros corticosteroides, em tratamentos prolongados ou com doses elevadas há potencial para agravamento do quadro hipertensivo, sendo recomendadas medidas preventivas como a redução da ingestão de sal e ajuste da terapia anti-hipertensiva. Mesmo com efeito menor sobre a retenção hídrica, a dexametasona ainda pode agravar a hipertensão, reforçando a necessidade de medidas preventivas29

Em pacientes imunossuprimidos, como aqueles submetidos a quimioterapia,  portadores de HIV ou receptores de transplante, a dexametasona pode potencializar  a imunossupressão, elevando o risco de infecções oportunistas. Embora seja  frequentemente utilizada para prevenir reações inflamatórias decorrentes de terapias  específicas, sua administração deve ser acompanhada de vigilância clínica e laboratorial rigorosa30. Portanto, para imunossuprimidos, o risco maior é a maior  suscetibilidade a infecções, exigindo um monitoramento próximo. Diante disso, o uso da dexametasona nessas populações deve ser  individualizado, considerando a relação risco-benefício e implementando protocolos  que minimizem complicações. Em conclusão, é reafirmado que a prescrição segura  depende de personalização do tratamento e de protocolos específicos para cada  grupo de pacientes. 

3.3 Administração da dexametasona no pré-operatório 

A dexametasona é um corticosteroide amplamente utilizado como medida  adjuvante no perioperatório odontológico, sobretudo em cirurgias de terceiros molares  e procedimentos de maior porte, como exodontias complexas e osteotomias. Seu  objetivo principal é atenuar a resposta inflamatória e, com isso, reduzir dor, edema e  trismo no pós-operatório imediato. Meta-análises e ensaios clínicos randomizados  indicam que a administração pré-operatória de dexametasona reduz de forma  clinicamente relevante esses desfechos quando comparada ao placebo, com efeito  particularmente consistente sobre edema e limitação de abertura bucal31

Quanto à posologia e via de administração, os estudos em cirurgia oral mais robustos utilizam doses entre 4 mg e 8 mg, por via submucosa, intravenosa ou oral, administrados de 30 a 60 minutos antes da incisão. Em terceiros molares, ensaios clínicos indicam que 8 mg de dexametasona administrados por via submucosa no pré-operatório reduzem dor, edema e trismo em comparação aos controles, sendo comparáveis às vias intravenosa e oral32

Em relação ao momento da administração, há evidências de benefício tanto  no pré quanto no pós-operatório. Entretanto, ensaios prospectivos sugerem que a aplicação pré-incisional é mais eficaz para modular a cascata inflamatória inicial, razão  pela qual permanece a prática mais adotada na odontologia33

Além dos efeitos anti-inflamatórios, a dexametasona também contribui para a  profilaxia de náuseas e vômitos pós-operatórios, sobretudo quando associada a antagonistas da serotonina, como a ondansetrona. Em cirurgias ortognáticas, a associação dexametasona + ondansetrona mostrou reduzir a náusea precoce e a necessidade de resgate antiemético em comparação ao uso isolado do corticosteroide34

No que se refere à comparação com outros anti-inflamatórios, revisões  apontam que a dexametasona apresenta desempenho igual ou superior à  metilprednisolona no controle de edema e trismo, e eficácia semelhante ou superior  aos anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) na analgesia preemptiva. Estudos  sugerem ainda que a combinação dexametasona + AINE potencializa o efeito  analgésico e anti-inflamatório35

Quanto à segurança, uma dose única de 4 a 8 mg é geralmente bem tolerada.  Contudo, deve-se considerar cautela em pacientes com diabetes mellitus, em virtude  da possibilidade de pico hiperglicêmico transitório, além de contraindicações em casos  de infecções ativas não controladas, imunossupressão ou uso crônico de  corticosteroides36

Dessa forma, a administração pré-operatória de dexametasona na  odontologia representa uma medida eficaz e segura para reduzir complicações pós-operatórias em procedimentos de maior complexidade, sendo recomendada em  protocolos clínicos contemporâneos.

4. RESULTADOS 

A análise detalhada dos estudos selecionados evidencia que as exodontias  complexas, especialmente aquelas que envolvem dentes inclusos, exigem do  cirurgião-dentista um conhecimento aprofundado e minucioso da anatomia cirúrgica  local, considerando a estreita proximidade com estruturas anatômicas críticas, como  o nervo alveolar inferior, o seio maxilar, os vasos sanguíneos, além de outras  estruturas nobres da região bucomaxilofacial37. Essa compreensão anatômica precisa  é imprescindível para a correta execução das técnicas cirúrgicas específicas, como a  osteotomia, procedimento que envolve a remoção seletiva de tecido ósseo, e a  odontosecção, que consiste no seccionamento segmentado do dente incluso. Ambas  as técnicas são fundamentais para facilitar a remoção dos dentes impactados,  permitindo uma abordagem menos traumática, com redução da extensão do trauma  cirúrgico e menor risco de complicações intraoperatórias e pós-operatórias38

O trauma cirúrgico inerente a esses procedimentos invasivos desencadeia  uma resposta inflamatória local intensa, caracterizada pela manifestação de edema,  dor e trismo, além de alterações significativas na resposta tecidual, que podem  comprometer severamente o conforto e a qualidade da recuperação do paciente no  pós-operatório imediato e mediato39. Frente a essa fisiopatologia complexa, a  literatura especializada destaca o uso da dexametasona como um agente anti inflamatório esteroidal de comprovada eficácia na modulação da resposta inflamatória.  Por meio de sua potente ação farmacológica, a dexametasona promove melhora  significativa dos sintomas pós-operatórios, contribuindo para a redução do  desconforto, acelerando o processo de cicatrização e favorecendo a retomada  precoce das funções orais40.

Diversos estudos clínicos robustos corroboram esses achados. Entre eles,  destaca-se o ensaio clínico controlado e randomizado realizado por Alcântara et al.41,  que demonstrou que a administração preemptiva, ou seja, antes do início do  procedimento cirúrgico, da dexametasona e da metilprednisolona reduz de forma  expressiva os níveis de dor, edema e trismo em pacientes submetidos à cirurgia de  terceiros molares. Tal evidência ressalta a importância do momento da administração  do corticosteroide como fator crítico para a maximização dos efeitos terapêuticos.  Complementarmente, a revisão sistemática e meta-análise conduzida por O’Hare42 reforça que a via submucosa de administração da dexametasona é particularmente  eficaz, proporcionando uma ação local rápida e sustentada que resulta na prevenção  mais eficiente das complicações inflamatórias, com impactos positivos diretos na  qualidade de vida do paciente durante o período pós-operatório imediato. 

A farmacocinética da dexametasona também contribui para sua eficácia  clínica. A substância possui meia-vida prolongada e alta biodisponibilidade, o que  garante uma ação anti-inflamatória duradoura. Seu mecanismo de ação envolve a  supressão da síntese das prostaglandinas e citocinas pró-inflamatórias, elementos  centrais na cascata inflamatória, o que promove o controle efetivo e sistematizado do  processo inflamatório desencadeado pelo trauma cirúrgico43.

Apesar dos inquestionáveis benefícios terapêuticos, o uso da dexametasona  deve ser realizado com precaução, especialmente em populações especiais, como  pacientes com diabetes mellitus, hipertensão arterial, distúrbios imunológicos ou  estados imunossuprimidos, uma vez que o corticosteroide pode induzir efeitos  adversos significativos, como a desregulação glicêmica, aumento da pressão arterial  e supressão do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal44. Desta forma, torna-se imprescindível o monitoramento clínico contínuo e a individualização do protocolo  terapêutico, de modo a mitigar riscos e garantir a segurança do paciente. Ademais, a literatura enfatiza que o emprego da dexametasona deve ser parte  integrante de um protocolo cirúrgico abrangente e multidisciplinar, que contemple o  planejamento detalhado da cirurgia, a escolha criteriosa das técnicas de osteotomia e  odontosecção e o manejo clínico apropriado do paciente, incluindo analgesia  complementar e cuidados pós-operatórios eficazes45. Essa abordagem integrada  favorece a recuperação pós-operatória mais rápida e confortável, reduzindo a  incidência de intercorrências clínicas e elevando os níveis de satisfação e bem-estar  dos pacientes submetidos a essas intervenções. 

Dessa forma, os resultados da presente revisão indicam claramente que a  dexametasona é uma ferramenta terapêutica essencial no arsenal do cirurgião dentista frente às exodontias complexas, especialmente quando associada às  técnicas cirúrgicas de osteotomia e odontosecção. Reafirma-se, assim, a necessidade  de seu uso racional, criterioso e fundamentado em evidências científicas atualizadas  para a otimização do cuidado clínico odontológico. 

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

O presente trabalho teve como objetivo analisar o uso da dexametasona no  contexto cirúrgico odontológico, com ênfase em procedimentos de maior  complexidade, como a osteotomia e a odontosecção. Tais técnicas, que envolvem  remoção óssea e seccionamento dentário, são indispensáveis para a realização de  exodontias complexas, mas estão associadas a um elevado grau de morbidade pós-operatória, expressa principalmente por dor, edema e trismo. 

A revisão sistemática da literatura evidenciou que a dexametasona, enquanto  anti-inflamatório esteroidal de ampla utilização, desempenha papel central na  modulação da resposta inflamatória induzida pelo trauma cirúrgico. Seu uso racional contribui para a redução significativa dos principais sintomas pós-operatórios,  proporcionando maior conforto, aceleração da cicatrização e melhor qualidade de vida  ao paciente durante a recuperação. Esses benefícios estão diretamente relacionados  ao momento da administração e à via escolhida, sendo a utilização preemptiva,  especialmente por via submucosa, a estratégia mais eficaz. 

Os achados reforçam que, embora a inflamação seja um processo fisiológico  essencial à reparação tecidual, sua modulação controlada é fundamental para evitar  sofrimento excessivo e complicações. A farmacodinâmica e a farmacocinética da  dexametasona – caracterizadas por meia-vida prolongada, elevada biodisponibilidade  e supressão de mediadores inflamatórios-chave – explicam sua eficácia clínica  robusta, confirmada em ensaios clínicos randomizados e revisões sistemáticas  recentes. 

Outro aspecto relevante ressaltado foi a importância do planejamento  cirúrgico cuidadoso, sustentado por anamnese detalhada, exames clínicos e  radiográficos, além do domínio das técnicas cirúrgicas e do conhecimento anatômico  preciso. A proximidade com estruturas nobres, como o nervo alveolar inferior, o seio  maxilar e vasos sanguíneos, exige do cirurgião-dentista preparo técnico e científico  rigoroso para minimizar riscos e conduzir a cirurgia com segurança. Nesse contexto,  a associação entre habilidade cirúrgica e manejo farmacológico adequado, incluindo  o uso criterioso da dexametasona, torna-se decisiva para o sucesso terapêutico. 

Apesar dos comprovados benefícios, o uso da dexametasona não é isento de  limitações. Sua administração deve considerar contraindicações e riscos em  populações específicas, como pacientes diabéticos, hipertensos e imunossuprimidos.  Nesses casos, a individualização da conduta e o monitoramento rigoroso são  imprescindíveis para prevenir efeitos adversos sistêmicos. Tal perspectiva reforça a  necessidade de protocolos clínicos baseados em evidências, capazes de aliar eficácia  terapêutica e segurança do paciente. 

Por fim, os resultados demonstram que a dexametasona, quando incorporada  de forma racional aos cuidados pré, trans e pós-operatórios, constitui uma ferramenta  indispensável no arsenal do cirurgião-dentista. Aliada às técnicas de osteotomia e  odontosecção, possibilita a redução do trauma cirúrgico, otimiza o controle da dor,  edema e trismo, favorece a recuperação precoce e amplia os níveis de satisfação dos  pacientes. Assim, reafirma-se a relevância do uso criterioso desse corticosteroide, fundamentado em protocolos científicos atualizados, como elemento essencial para a  prática odontológica moderna e segura. 


3SAMBROOK, Paul J.; GOSS, A. N. Exodontia contemporânea. Australian Dental Journal, Adelaide,  South Australia, v. 63, p. 11-18, mar. 2018. Disponível em:  https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/adj.12586. Acesso em: 11 ago. 2025.

4SELVIDO, Diane Isabel; et al. Review of dexamethasone administration for management of  complications in postoperative third molar surgery. Journal of Korean Association of Oral and  Maxillofacial Surgery, v. 47, n. 5, p. 341–350, 2021. Disponível em:  https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8564082/. Acesso em: 25 ago. 2025.

5MARQUES, Rogério Vera Cruz Ferro; et al. Efeito da administração intra-alveolar de  dexametasona no inchaço, trismo e dor após extração de terceiro molar inferior impactado: um  ensaio clínico randomizado, duplo-cego. Medicina Oral, Patología Oral y Cirugía Bucal, v. 27, n. 1,  p. 51-58, set. 2021. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8719784/. Acesso  em: 11 ago. 2025.

6SELVIDO, Diane Isabel; et al. Review of dexamethasone administration for management of  complications in postoperative third molar surgery. Journal of Korean Association of Oral and  Maxillofacial Surgery, v. 47, n. 5, p. 341–350, 2021. Disponível em:  https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8564082/. Acesso em: 25 ago. 2025. 

7BARBOSA, Iuri Mira; et al. Uso preemptivo da dexametasona via oral em exodontias de terceiros  molares inclusos: revisão sistemática e metanálise. 2023. Disponível em:  https://sestsus.go.gov.br/handle/123456789/178. Acesso em: 07 jul. 2025. 

8ALCÂNTARA, C. E et. al. Pre-emptive effect of dexamethasone and methylprednisolone on pain,  swelling, and trismus after third molar surgery: a split-mouth randomized triple-blind clinical  trial. Int J Oral Maxillofac Surg. 2024 Jan;43(1):93-8. doi: 10.1016/j.ijom.2013.05.016. Epub 2013 Jun  28. PMID: 23810681. 2024. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23810681/. Acesso em: 07  jul. 2025. 

9NÓBOA, Marsal Moretto; et. al. Avaliação dos efeitos de duas formulações de dexametasona em  cirurgias de terceiros molares inclusos. Revista Dor, v. 15, n. 3, jul.–set. 2024. Disponível em:  https://www.scielo.br/j/rdor/a/qtfL9vcsDNmLqqrr8Qz7bvk/?lang=pt. Acesso em: 10 jul. 2025.

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1Acadêmico de Odontologia. E-mail: raffaelpimentan@hotmail.com. Artigo apresentado a (nome da  instituição), como requisito para obtenção do título de Bacharel em Odontologia, Porto Velho/RO, 2024.

2Professora Orientadora. Me. Professora do curso de Odontologia. E-mail:  daniparaguassu@yahoo.com.br.

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