PRÉ-ECLÂMPSIA: UM DESAFIO CONTEMPORÂNEO NA SAÚDE MATERNO-FETAL – UMA REVISÃO DA LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202507311054


Anne Gabrielle dos Santos Silva1
Rízia Evangelista de Brito2
Lara Freire Martins3
Verônica Souza Bento4
Mariana Camacho Machado5
Fernanda Lima Miranda6


Resumo 

A pré-eclâmpsia representa uma das principais causas de morbidade e mortalidade materna e perinatal, caracterizada pelo surgimento de hipertensão arterial após a 20ª semana de gestação, acompanhada ou não de proteinúria e sinais de disfunção orgânica. Esta condição possui etiologia que envolve fatores genéticos, imunológicos e ambientais, além de alterações na placentação. O presente trabalho teve como objetivo revisar a literatura científica recente acerca da pré-eclâmpsia, abordando a epidemiologia, etiologia, fisiopatologia, manifestações clínicas, diagnóstico e condutas terapêuticas. A metodologia consistiu em uma revisão narrativa de literatura, utilizando bases de dados como PubMed, BVS e SciELO, selecionando artigos publicados nos últimos dez anos. Foram incluídos oito estudos que trataram de aspectos distintos da doença. Os resultados reforçam a importância do diagnóstico precoce, da estratificação do risco e da intervenção adequada para minimizar complicações. Conclui-se que, apesar dos avanços, a pré-eclâmpsia ainda demanda estratégias mais eficazes de prevenção, detecção e manejo. 

Palavras-chave: Pré-eclâmpsia. Hipertensão na gravidez. Fisiopatologia. Gravidez de alto risco. Tratamento 

1 INTRODUÇÃO 

A gravidez é um período marcado por diversas alterações anatômicas, bioquímicas e fisiológicas maternas, as quais, embora normais no contexto gestacional, podem agravar patologias preexistentes (CUNNINGHAM, 2020). As alterações pressóricas patológicas que ocorrem durante o período gestacional são classificadas em hipertensão arterial crônica, hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia/eclâmpsia e hipertensão arterial crônica sobreposta por pré-eclâmpsia (ACOG, 2013).  

A pré-eclâmpsia é uma condição caracterizada pelo surgimento de hipertensão arterial após a 20ª semana de gestação, associada à presença de proteinúria ou, na sua ausência, a lesão de órgãos-alvo. Entre esses sinais, destacam-se alterações hematológicas, como trombocitopenia, e disfunções hepática ou renal, além de manifestações clínicas como edema pulmonar, sintomas de eclâmpsia iminente e comprometimento da perfusão placentária (BRASIL, 2022). 

Essa condição pode ser classificada conforme a idade gestacional em pré-eclâmpsia precoce (<34 semanas), pré-eclâmpsia tardia (≥34 semanas), pré-eclâmpsia pré-termo (<37 semanas) ou a termo (≥37 semanas) (BRASIL, 2022). 

Diversos fatores de risco clínicos estão associados ao desenvolvimento da pré-eclâmpsia, incluindo nuliparidade, histórico prévio da doença, antecedentes familiares, gestações múltiplas, lúpus eritematoso sistêmico, diabetes melito pré-gestacional, hipertensão crônica, além da idade materna acima de 35 anos, obesidade e concepção por técnicas de reprodução assistida (BARTSCH et al., 2016). 

Quando não tratada adequadamente, tal condição pode evoluir para complicações graves, já que aumenta significativamente o risco de descolamento prematuro da placenta, parto pré-termo, restrição do crescimento fetal e eclâmpsia, caracterizada por convulsões tônicoclônicas (SILVA SACRAMENTO et al., 2020). 

Portanto, o objetivo desse estudo foi descrever os principais tópicos acerca da pré-eclâmpsia através da literatura científica mais atualizada, abordando o assunto de forma clara e coerente, a fim de contribuir para a abordagem dessa patologia que se mostra cada vez mais presente na prática. 

2 METODOLOGIA  

Trata-se de uma revisão narrativa de literatura, que possui caráter amplo e se propõe a descrever o desenvolvimento de determinado assunto, sob o ponto de vista teórico ou contextual, mediante análise e interpretação da produção científica existente. Essa síntese de conhecimentos a partir da descrição de temas abrangentes favorece a identificação de lacunas de conhecimento a fim de contribuir para a realização de novos estudos (BRUM et al., 2015).  

A pesquisa foi realizada por meio do levantamento bibliográfico nas bases de dados Scielo, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Pubmed, além de livros e manuais da área.  Para tanto, foram aplicados os filtros de seleção que incluiu os artigos publicados nos últimos quinze anos e texto completo. Os descritores utilizados localizados na plataforma Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) foram: “Pré-eclâmpsia”, “fisiopatologia”, “Gravidez de alto risco” e “Tratamento” os quais foram unidos pelo operador booleano AND.  

Inicialmente, foram encontrados 608 artigos. Após aplicação de filtros e refinamento da busca, o número foi reduzido para 119. Procedeu-se à leitura dos títulos e resumos, sendo excluídas as publicações com temática divergente ou que não atendiam aos critérios estabelecidos. Ao final, foram selecionados e analisados oito artigos na íntegra, os quais compuseram a presente revisão.  

Tabela 1. Artigos selecionados para o estudo

N° AUTOR/ ANO  OBJETIVO/ ACHADO  
Jung, E et all., 2022 Este artigo analisa as etiologias potenciais da pré-eclâmpsia. O papel da isquemia uteroplacentária está bem estabelecido com base em um sólido corpo de evidências clínicas e experimentais.  
Almeida, S.G.P, 2012 Avaliar a eficácia do uso de ácido acetilsalicílico em mini dose na prevenção da pré-eclâmpsia em grávidas diabéticas pré-gestacionais.  
3     Steegers E.A et all., 2010 A placentação precoce ruim está especialmente associada à doença de início precoce. Riscos cardiovasculares ou metabólicos predisponentes para disfunção endotelial, como parte de uma resposta inflamatória sistêmica exagerada, podem dominar nas origens da pré-eclâmpsia de início tardio.    
Giordano, J. C. et all., 2017 A morbidade e a mortalidade associadas à eclâmpsia foram altas no Brasil, especialmente em regiões de baixa renda. Promover cuidados de saúde materna de qualidade e melhorar a disponibilidade de cuidados de emergência obstétrica são ações essenciais para aliviar o fardo da eclâmpsia.  
Kahhale S et all., 2018 As síndromes hipertensivas são as complicações mais frequentes na gestação e constituem, no Brasil, a primeira causa de morte materna, principalmente quando se instalam nas suas formas graves, como a eclâmpsia e a síndrome hellp. São ainda responsáveis por altas taxas de mortalidade perinatal, prematuridade e restrição de crescimento fetal.  
Filho, L.C.C.D et all., 2021 A pré-eclâmpsia juntamente com outras doenças da doença hipertensiva específica da gestação precisam ser precocemente causadas no pré-natal como mecanismo de redução da morbimortalidade materno-fetal.  
Peraçoli, J. C et all., 2018 As complicações fetais e neonatais resultam principalmente de insuficiência placentária e da frequente necessidade de antecipação prematura do parto, resultando em elevadas taxas de morbimortalidade perinatal.  
Zuccolotto E. B et all., 2016 A síndrome HELLP, caracterizada porhemólise, altos níveis de enzimas hepáticas e baixa contagem de plaquetas, é um estágio clínico avançado da pré-eclâmpsia, evoluindo para alta mortalidade materna (24%) e perinatal (até 40%), apesar do atendimento ao parto em tempo hábil. O objetivo é descrever o manejo anestésico de um caso com indicação de cesárea de emergência.  

FONTE: Elaborado pelas Autoras, 2025. 

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES

Após análise dos artigos, foi possível listar os principais tópicos relacionados à epidemiologia, etiologia, fisiopatologia, manifestações clínicas, diagnóstico, tratamento e conduta obstétrica diante da pré-eclâmpsia.  

EPIDEMIOLOGIA  

Um estudo recente estimou que a frequência da pré-eclâmpsia variou entre 1,7 e 6,2%, no Brasil, sendo este um percentual similar à estudos internacionais. No entanto, há escassez de estudos nacionais de base populacional, o que limita a estimativa precisa da incidência da doença no país. (Guida et al, 2022) 

ETIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA  

A pré-eclâmpsia, mostra- se como um distúrbio enigmático relacionado a gravidez, de tal modo que foi rotulada como a “doença das teorias”, já que a sua etiologia ainda não foi totalmente elucidada (ZUGAIB, 2023).  

Atualmente, acredita-se que a via final comum envolvida na fisiopatologia da doença inclui a ativação generalizada do endotélio materno, um processo inflamatório intravascular e o estresse do sinciciotrofoblasto (JUNG et al., 2022). 

Ademais, dentre as múltiplas etiologias implicadas a essa condição, a isquemia útero- placentária possui destaque. Isso acontece, pois o incorreto suprimento sanguíneo do útero para a placenta levaria a infartos nas artérias placentárias, que, por sua vez, causam a liberação de toxinas na circulação materna. (JUNG et al., 2022) Uma evidência que apoia essa ideia foram os estudos de Ogden, Hildebrand e Page, que relataram que o clampeamento da aorta abdominal abaixo das artérias renais (para evitar hipertensão renovascular) em cães reduziu a perfusão útero-placentária; além disso, essa resposta foi seguida por hipertensão materna que se resolveu após a liberação do clampeamento. Além disso, após a remoção do útero grávido, o clampeamento da aorta não provocou hipertensão (OGDEN et al.,1940), o que reforça a ideia de que o suprimento sanguíneo inadequado por meio das artérias espiraladas à placenta desencadeia fatores sugestivos da pré-eclâmpsia.   

Desse modo, infere-se que a pré-eclâmpsia, ocorre em virtude da placentação anormal. Haja vista que, fisiologicamente o citotrofoblasto de origem fetal invade as artérias espiraladas maternas, transformando-as, de vasos resistentes de pequeno calibre em vasos com maior calibre e maior complacência, capazes de promover perfusão adequada para manter o crescimento fetal (STEEGERS et al., 2014).  

Porém, a remodelação ineficiente desses vasos, resultam em déficit na perfusão placentária, induzindo uma resposta inflamatória intravascular sistêmica materna exagerada e disfunção endotelial generalizada, com ativação da cascata de coagulação e das plaquetas. Assim, em virtude do processo de placentação anormal, ocorrem alterações endoteliais, tais como o déficit na produção intravascular de prostaciclinas (vasodilatadoras) e produção plaquetária excessiva de tromboxano A2 (vasoconstritor e estimulante da agregação plaquetária) (ALMEIDA, 2011). Esses desequilíbrios promovem um estado de vasoconstrição persistente e hipercoagulabilidade, contribuindo para o desenvolvimento das manifestações clínicas da pré-eclâmpsia. 

MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS  

As manifestações clínicas da pré-eclâmpsia envolvem um conjunto de sinais e sintomas que decorrem da alteração em múltiplos sistemas, que é característica dessa condição hipertensiva que acomete gestantes.   

Historicamente, a pré-eclâmpsia era classificada como leve ou grave com base nas manifestações clínicas apresentadas. Contudo, essa abordagem tem sido questionada, uma vez que pacientes diagnosticadas com pré-eclâmpsia podem apresentar desfechos adversos inesperados, independentemente da gravidade aparente. Além disso, a classificação como grave frequentemente leva à interrupção precoce da gestação, o que pode acarretar consequências negativas para o recém-nascido (FEBRASGO, 2018). 

A presença de hipertensão arterial associada a disfunção sistêmicas pode manifestar-se por meio de apresentações clínicas variadas, incluindo cefaleia, alterações do nível de consciência, distúrbios visuais, anemia, dor abdominal, oligúria, náuseas, vômitos, e edema em extremidades. Em quadro mais graves pode ocorrer o acidente vascular cerebral, disfunção hepática com possível, icterícia, insuficiência cardíaca, envolvimento pancreático com risco de pancreatite. Do ponto de vista laboratorial, podem ser observados elevação dos níveis séricos de creatinina e das enzimas hepáticas, presença de proteinúria e trombocitopenia refletindo, assim, o comprometimento sistêmico que ocorre nessa condição (FEBRASGO, 2018) 

Além disso, é pertinente ressaltar que a pré-eclâmpsia pode evoluir para eclâmpsia e a síndrome HELLP, condições que associadas elevam consideravelmente o risco de ocorrência de eventos adversos, como coagulação intravascular disseminada (CIVD), insuficiência renal aguda, edema pulmonar agudo e hemorragia intracraniana. (KAHHALE; FRANCISCO; ZUGAIB, 2018).  

Todas essas condições acarretam seriamente em prejuízos maternos além de limitar o desenvolvimento fetal, podendo ocorrer desfechos desfavoráveis. Assim tal patologia requer uma abordagem cuidadosa, atenta e individualizada, levando em conta as possíveis complicações adversas e a necessidade de um manejo clínico criterioso.  

DIAGNÓSTICO   

A pré-eclâmpsia é diagnosticada em gestantes previamente normotensas que apresentam hipertensão arterial (pressão sistólica ≥140 mmHg e/ou pressão diastólica ≥90 mmHg) a partir da 20ª semana de gestação em pelo menos duas aferições com intervalo de quatro horas. Deve estar associado a proteinúria (≥ 300 mg em urina de 24 horas) ou na ausência, à presença de disfunção orgânica materna (trombocitopenia, elevação de enzimas hepáticas com dor no hipocôndrio direito, insuficiência renal, edema agudo de pulmão, manifestações neurológicas ou visuais) ou evidências de disfunção uteroplacentária, como restrição de crescimento fetal ou alterações na dopplervelocimetria uterina (BRASIL, 2022; FEBRASGO, 2018).     

TRATAMENTO  

A pré-eclâmpsia é uma condição que exige atenção cuidadosa para evitar complicações materno-fetais graves, como descolamento prematuro de placenta, acidente vascular cerebral, edema pulmonar, insuficiência renal, síndrome HELLP, eclâmpsia, parto prematuro e desconforto respiratório do recém-nascido (KAHHALE; FRANCISCO; ZUGAIB, 2018). O manejo adequado visa garantir a segurança da gestante e do feto, respeitando as individualidades de cada caso.  

A pré-eclâmpsia com sinais de gravidade deve ser manejada em ambiente hospitalar e pré-eclâmpsia sem sinais de gravidade por motivos socioeconômicos e falta de leitos hospitalares pode ser tratada em ambiente ambulatorial (KAHHALE; FRANCISCO; ZUGAIB, 2018; ADRIANO, 2023).  

TRATAMENTO NÃO FARMACOLÓGICO  

Atualmente, recomenda-se que gestantes com pré-eclâmpsia mantenham uma dieta equilibrada, sem necessidade de restrição de sal, uma vez que não há evidências concretas de que essa conduta seja eficaz no controle da pressão arterial (ACOG, 2018). No entanto, alguns estudos sugerem que uma dieta hipossódica, com ingestão de 2g a 3g de sal e rica em proteínas, pode trazer benefícios (KAHHALE; FRANCISCO; ZUGAIB, 2018).  

A redução da prática de exercícios físicos pode ser benéfica para melhorar a circulação útero-placentária e evitar a piora do quadro hipertensivo. Entretanto, o repouso absoluto não é recomendado, pois não há evidências científicas que sustentem essa prática (FEBRASGO, 2018).  

TRATAMENTO FARMACOLÓGICO  

O uso de anti-hipertensivos na gestação deve ser criterioso, considerando os riscos teratogênicos nos 3 primeiros meses da gestação. Inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA), bloqueadores dos receptores de angiotensina II (BRA II) e inibidores diretos da renina não devem ser utilizados devido ao risco fetal. Além disso, o uso inadequado do anti-hipertensivos pode ocasionar a queda abrupta da pressão arterial, podendo comprometer a perfusão placentária e gerar consequências adversas para o feto (KAHHALE; FRANCISCO; ZUGAIB, 2018; BRASIL, 2022).  

Anti-hipertensivos recomendados para uso na gestação são: os simpatolíticos de ação central, alfa 2 agonistas como a metildopa e clonidina; bloqueadores de canais de cálcio: nifedipino retard, nifedipino de liberação rápida, anlodipino; vasodilatador periférico: hidralazina; B-bloqueadores: metoprolol, pindolol e carvedilol. (BRASIL,2022). A metildopa é a droga mais utilizada para tratamento da hipertensão na gestação em diversos países (KAHHALE; FRANCISCO; ZUGAIB, 2018).  

Todos os anti-hipertensivos atravessam a barreira placentária, porém os agentes citados acima apresentam perfil de segurança aceitável para serem utilizados na gestação (RBEHG, 2023).  

Em casos de crises hipertensivas, os hipotensores devem ser utilizados de forma urgente. Os anti-hipertensivos preferenciais incluem a nifedipina oral de rápida ação e a hidralazina via intravenosa. Nos casos refratários, além da internação em uma unidade de terapia intensiva, o nitroprussiato de sódio pode ser administrado.  Esses são os fármacos de primeira linha para o manejo de emergências hipertensivas (DUARTE FILHO et al., 2021; ANDRINO, 2023; RBEHG,2023).  

Tabela 2. Anti-hipertensivos recomendados para o tratamento de formas não graves da pressão arterial

AGENTE POSOLOGIA  
Metildopa (250-500 mg)  750-2000 mg/dia, 2 a 4x/dia  
Nifedipino retard (10-20 mg)  20-120mg/dia, 1 a 3x/dia  
Nifedipino de liberação rápida (10-20mg)  20-60 mg/doa, 1 a 2x/dia  
Anlodipino (2,5-5-10 mg)  5-20 mg/dia, 1 a 2x/dia  
Hidralazina(25-50mg)  50-150mg/dia, 2 a 3x/dia  
Metoprolol(25-50-100mg)  100-200 mg/dia, 1 a 2x/dia  
Carvedilol (6,25-12,5mg)  12,5-50 mg/dia, 1 a 2x/dia  
Recomenda-se iniciar com 12,5 mg/dia por dois dias e a partir de então aumentar a dose  

FONTE: Protocolo da Rede Brasileira de Estudos de Hipertensão na Gravidez (2023)

A Pressão arterial sistólica ≥160 mmHg e/ou PA diastólica ≥110 mmHg, mesmo na ausência de sintomas, indica a profilaxia de convulsão com sulfato de magnésio (BRASIL, 2022).  O sulfato de magnésio se apresenta como uma excelente alternativa em situações críticas, pois diminui em mais de 50% o risco de desenvolvimento de eclâmpsia. (DUARTE FILHO et al., 2021). Contudo, é essencial que sua administração seja monitorada constantemente para prevenir a depressão respiratória e possíveis efeitos tóxicos, que são: reflexo tendinoso abolido; frequência respiratória reduzida; diminuição da diurese (BARTAL; SIBAI, 2022).  

CONDUTA OBSTÉTRICA  

Segundo Ives et al. (2020), o único tratamento definitivo para a pré-eclâmpsia é a interrupção da gestação. Nos casos em que há possibilidade de prolongar a gestação com segurança, recomenda-se avançar pelo menos até 34 semanas, com a administração de corticosteroides para acelerar a maturação pulmonar fetal (BRASIL, 2022). Para gestantes sem sinais de gravidade, indica-se que a conduta seja expectante somente até às 37 semanas (FEBRASGO, 2019). Apesar disso, cada situação é individualizada e o profissional deve-se avaliar a melhor escolha para a paciente.  

Na Pré-eclâmpsia com situações de deterioração clínica ou laboratorial, a resolução da gestação deve ser considerada diante de condições como: síndrome HELLP, eclâmpsia, descolamento prematuro de placenta, hipertensão refratária ao tratamento com três drogas antihipertensivas, edema agudo de pulmão ou comprometimento cardíaco, alterações laboratoriais progressivas (trombocitopenia, elevação de enzimas hepáticas), insuficiência renal, evidenciada principalmente por elevação progressiva dos níveis de ureia e creatinina, oligúria e anasarca e, alterações na vitalidade fetal. Na pré-eclâmpsia com sinais de gravidade deve-se avaliar também, a via de parto mais segura. Embora a cesariana seja frequentemente realizada, a parturição vaginal é a melhor escolha com a intenção de não agregar potenciais riscos cirúrgicos. Vale ressaltar que a decisão por adiar o parto por interesses fetais pode ensejar a piora da situação materna (FEBRASGO, 2019; BRASIL,2022).    

O manejo da pré-eclâmpsia deve ser individualizado, considerando os riscos e benefícios para mãe e bebê. O tratamento envolve uma abordagem multidisciplinar, que inclui medidas farmacológicas e não farmacológicas, além de um planejamento cuidadoso para a resolução da gestação. O acompanhamento contínuo e humanizado é essencial para garantir a melhor evolução possível tanto para a gestante quanto para o feto.   

MEDIDAS DE PREVENÇÃO  

A prevenção da pré-eclâmpsia é um componente essencial do cuidado pré-natal, especialmente em gestantes com fatores de risco. Uma das estratégias recomendadas é a suplementação com ácido acetilsalicílico em baixa dose (100 a 150 mg/dia), iniciada entre a 12ª e a 16ª semana de gestação, principalmente para aquelas com risco elevado de desenvolver a condição, como gestantes com histórico de hipertensão ou diabetes (FEBRASGO, 2023) 

Além disso, em fevereiro de 2025, o Ministério da Saúde publicou uma recomendação baseada nas orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para que todas as gestantes atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) recebam suplementação universal de cálcio. A orientação consiste na administração de dois comprimidos diários de carbonato de cálcio (1.250 mg, equivalente a 1.000 mg de cálcio elementar) a partir da 12ª semana de gestação até o parto. A suplementação visa reduzir os riscos de pré-eclâmpsia grave e mortalidade materna, condições que podem ser prevenidas com esse simples e eficaz suplemento (BRASIL, 2025). 

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A pré-eclâmpsia é uma condição multifatorial e de alta complexidade clínica, representando um dos principais desafios obstétricos. Apesar dos avanços na compreensão de sua fisiopatologia e no aprimoramento dos protocolos de manejo, a condição ainda é responsável por expressiva morbimortalidade materna e fetal, especialmente em países em desenvolvimento. 

Diante da sua imprevisibilidade e potencial gravidade, torna-se imprescindível o acompanhamento pré-natal qualificado, com identificação precoce dos fatores de risco e implementação de estratégias preventivas, como o uso de ácido acetilsalicílico em baixa dose e a suplementação universal de cálcio, respaldadas pelos protocolos atualizados. Além disso, o manejo clínico da gestante com pré-eclâmpsia requer uma abordagem individualizada, baseada em evidências e centrada na paciente, a fim de equilibrar os riscos maternos e fetais. 

Por fim, destaca-se a importância da capacitação contínua dos profissionais de saúde, do investimento em políticas públicas voltadas à saúde materno-infantil e da produção científica constante, visando ampliar o conhecimento e melhorar os desfechos relacionados à pré-eclâmpsia. Essa condição, ainda cercada por lacunas, demanda atenção contínua por parte dos profissionais de saúde, especialmente no contexto da saúde pública brasileira. 

5 REFERÊNCIAS 

ALMEIDA, S. G. P. Uso de ácido acetilsalicílico em mini-dose na prevenção da pré-eclâmpsia em grávidas diabéticas pré-gestacionais: estudo retrospectivo. Porto: Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, 2011. 

AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS. Gestational Hypertension and Preeclampsia: ACOG Practice Bulletin, Number 222. Obstetrics & Gynecology, v. 135, n. 6, p. e237–e260, 2020. DOI: 10.1097/AOG.0000000000003891. 
Disponível em: https://www.preeclampsia.org/frontend/assets/img/advocacy_resource/Gestational_Hypertens ion_and_Preeclampsia_ACOG_Practice_Bulletin,_Number_222_1605448006.pdf. Acesso em: 28 de janeiro de 2025. 

AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS’ COMMITTEE ON PRACTICE BULLETINS—OBSTETRICS; SOCIETY FOR MATERNAL-FETAL MEDICINE. ACOG Practice Bulletin No. 204: Fetal Growth Restriction. Obstetrics & Gynecology, v. 133, n. 2, p. e97-e109, 2019. DOI: 10.1097/AOG.0000000000003070.  

AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS; TASK FORCE ON HYPERTENSION IN PREGNANCY. Hypertension in pregnancy. Report of the American College of Obstetricians and Gynecologists’ Task Force on Hypertension in Pregnancy. Obstetrics & Gynecology, v. 122, n. 5, p. 1122-1131, 2013. Disponível em: https://journals.lww.com/greenjournal/Citation/2013/11000/Hypertension_in_Pregnancy__Ex ecutive_Summary.36.aspx. Acesso em: 12 de fevereiro de 2025. 

BARTSCH, Emily et al. Clinical risk factors for pre-eclampsia determined in early pregnancy: systematic review and meta-analysis of large cohort studies. BMJ, v. 353, p. i1753, 2016. DOI: 10.1136/bmj.i1753. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4837230/. Acesso em: 03 de março de 2025. 

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco. Brasília – DF, 2022. 

BRASIL. Ministério da Saúde. Orientação sobre suplementação universal de cálcio para gestantes. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202502/suplementacao-de-calcio-passa-a-seruniversal-para-gestantes-contra-riscos-de-mortalidade-materna. Acesso em: [27 de abril de 2025]. 

CUNNINGHAM, F. G. et al. Obstetrícia de Williams. 25. ed. Porto Alegre: AMGH, 2021. 1344 p. ISBN 978-65-5804-006-4. 

FEBRASGO POSITION STATEMENT – Predição e prevenção da pré-eclâmpsia. Número 1 – Janeiro 2023. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/images/pec/posicionamentosfebrasgo/FPS-N1-Janeiro-2023-portugues.pdf Acesso em: 27 de abril de 2025 

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1Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Ages de Irecê. e-mail: annegabrielle8486@gmail.com
2Discente do Curso Superior da Faculdade Ages de Medicina de Irecê. e-mail: rizia2004@gmail.com
3Discente do Curso Superior da Faculdade Ages de Medicina de Irecê. e-mail: laramartins.freire@gmail.com
4Discente do Curso Superior da Faculdade Ages de Medicina de Irecê. e-mail: veronicasouzabentto55@gmail.com
5Docente do Curso Superior da Faculdade Ages de Medicina de Irecê. e-mail: camachomiranda@outlook.com
6Docente do Curso Superior da Faculdade Ages de Medicina de Irecê. Email: fernanda.l.miranda@animaeducacao.com.br