PRÁTICAS INTEGRATIVAS COM ENFOQUE ESPIRITUAL NO CUIDADO DA ANSIEDADE E DEPRESSÃO EM ADULTOS: REVISÃO DE LITERATURA

INTEGRATIVE PRACTICES WITH A SPIRITUAL FOCUS IN THE CARE OF ANXIETY AND DEPRESSION IN ADULTS: A LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202511300011


Ana Lara Molon Marconi Penna de Oliveira¹
Bianca de Paula Nogueira¹
Isabella Furtado de Assis Hamaoka¹
Noah Henrique Batista Presoto¹
Docente Orientador Anderson Scherer¹


RESUMO

Introdução: A ansiedade e a depressão figuram entre os principais transtornos mentais da contemporaneidade, impactando a funcionalidade, o bem-estar e o sentido existencial do ser humano. Diante da busca por abordagens terapêuticas integrativas, a espiritualidade — compreendida como a procura por sentido, propósito, conexão e transcendência — tem se mostrado um recurso relevante no cuidado da saúde mental. Objetivo: Apresentar uma revisão integrativa sobre práticas integrativas e intervenções com enfoque espiritual voltadas ao cuidado da ansiedade e depressão em adultos. Metodologia: Revisão integrativa da literatura (2015–2025) nas bases PubMed, SciELO e CAPES Periódicos, utilizando descritores relacionados à espiritualidade, práticas integrativas e saúde mental. Após triagem de 569 estudos, 11 atenderam aos critérios de inclusão e compuseram a amostra. Resultados e Discussão: Os estudos selecionados englobam correlações entre espiritualidade e saúde mental, programas de meditação e estilo de vida espiritual (MBLM, Tamarkoz, Yagna Pathy), psicoterapia integrativa com conteúdo espiritual (MeCBT e psicoterapia espiritualmente integrada), programas de saúde integrativa para mulheres veteranas e propostas de cuidado espiritual em unidades de terapia intensiva, além de análises sobre Práticas Integrativas e Complementares em Saúde em contextos populacionais. Em conjunto, apontam para redução de estresse, ansiedade e sintomas depressivos, fortalecimento de significado e paz interior, aumento de bem-estar e qualidade de vida. Conclusão: A análise sugere que integrar a dimensão espiritual às práticas integrativas potencializa o cuidado humanizado e contribui para a reconexão com o sentido da vida, aspectos essenciais à promoção da saúde integral. 

PALAVRAS-CHAVE: Práticas Integrativas e Complementares; Espiritualidade; Ansiedade; Depressão; Naturologia.

ABSTRACT

Introduction: Anxiety and depression are among the main mental disorders in contemporary society, affecting the functionality, well-being, and existential meaning of individuals. In the search for integrative therapeutic approaches, spirituality — understood as the pursuit of meaning, purpose, connection, and transcendence — has emerged as a relevant resource in mental health care. Objective: To present an integrative review of practices and interventions with a spiritual focus aimed at the care of anxiety and depression in adults. Methodology: An integrative literature review (2015–2025) was conducted using the PubMed, SciELO, and CAPES Periodicals databases, with descriptors related to spirituality, integrative practices, and mental health. After screening 569 studies, 11 met the inclusion criteria and comprised the final sample. Results and Discussion: The selected studies include correlations between spirituality and mental health; meditation programs and spiritually oriented lifestyles (MBLM, Tamarkoz, Yagna Pathy); integrative psychotherapy with spiritual components (MeCBT and spiritually integrated psychotherapy); integrative health programs for women veterans; proposals for spiritual care in intensive care units; and analyses of Integrative and Complementary Health Practices in population contexts. Collectively, these studies indicate reductions in stress, anxiety, and depressive symptoms; strengthening of meaning and inner peace; and improvements in well-being and quality of life. Conclusion: The findings suggest that incorporating the spiritual dimension into integrative practices enhances humanized care and supports reconnection with life meaning, both of which are essential for promoting holistic health.

KEYWORDS: Integrative and Complementary Practices; Spirituality; Anxiety; Depression; Naturopathy.

1. INTRODUÇÃO

A ansiedade e a depressão constituem as condições mentais mais prevalentes na sociedade contemporânea, afetando cerca de 9,3% e 5,8% da população brasileira, respectivamente, segundo estimativas recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2023). Esse cenário revela um quadro preocupante de sofrimento psíquico e esgotamento emocional, agravado por fatores socioculturais, econômicos e existenciais que caracterizam a chamada “crise de sentido” (FRANKL, 1989) do mundo moderno. Apesar dos avanços da biomedicina e da eficácia das terapias farmacológicas e psicoterapêuticas, muitos indivíduos continuam a vivenciar sentimentos persistentes de vazio, desconexão e desesperança, indicando a necessidade de abordagens que transcendam o cuidado sintomático e valorizem a integralidade do ser.

Nesse contexto, a espiritualidade emerge como uma dimensão essencial do cuidado em saúde, sendo compreendida como a busca de sentido, propósito, conexão e transcendência — elementos que sustentam a vitalidade e o equilíbrio interior. Diferentemente da religiosidade institucional, a espiritualidade abrange o cultivo de valores existenciais, práticas contemplativas e experiências simbólicas que fortalecem a resiliência e a autopercepção. Pesquisas apontam que o cultivo espiritual está associado à diminuição dos sintomas de ansiedade e depressão, ao aumento do bem-estar subjetivo e à maior capacidade de enfrentamento de adversidades (KOENIG, 2012; LUCCHETTI et al., 2021; VITORINO et al., 2018).

As práticas integrativas em saúde, fundamentadas em racionalidades médicas vitalistas, reconhecem a espiritualidade como parte indissociável do ser humano e eixo estruturante da integralidade. Dentro desse campo, a Naturologia se destaca por articular saberes tradicionais, científicos e simbólicos, promovendo um cuidado que visa à harmonização entre corpo, mente, emoção e espírito. Inspirada em sistemas médicos antigos, como a Medicina Tradicional Chinesa, o Ayurveda e outras abordagens baseadas na energia vital — o Qi e o Prana nas tradições chinesa e indiana, respectivamente —, a Naturologia compreende o adoecimento como expressão de desequilíbrios energéticos e emocionais, propondo caminhos de reconexão com a própria essência e com o fluxo vital da existência. Assim como outras práticas integrativas, valoriza o autoconhecimento, a consciência e o protagonismo do indivíduo em seu processo de cuidado. 

Durante as últimas décadas, a ampliação das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) — institucionalizadas pela Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC/SUS) — reforçou o reconhecimento da espiritualidade e das práticas simbólicas como recursos terapêuticos legítimos e eficazes no campo da saúde. Estudos populacionais recentes demonstram elevada adesão às PICS no Brasil, especialmente durante a pandemia de COVID-19, com destaque para meditação, fitoterapia e aromaterapia, frequentemente utilizadas para o manejo do estresse e cuidado da saúde mental (BOCCOLINI et al., 2024).

Na perspectiva da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), a saúde mental e espiritual está intimamente ligada ao Shen, entendido como a expressão mais sutil da energia vital e o princípio organizador da consciência e das emoções. Segundo Maciocia (2019, p. 85), “o Shen reside no Coração e manifesta-se na lucidez, na vitalidade e na presença do espírito no olhar”. Assim, o fortalecimento do Shen é visto como um processo de harmonização profunda entre corpo, mente e espírito, aspecto que dialoga diretamente com a proposta das práticas integrativas de cuidado integral e humanizado.

Compreender a espiritualidade como recurso terapêutico dentro das práticas integrativas permite ampliar o olhar sobre o sofrimento psíquico e propor estratégias de cuidado que integrem o simbólico, o emocional e o energético. Diante desse panorama, este estudo tem como objetivo investigar as contribuições das práticas integrativas com enfoque espiritual para o cuidado da ansiedade e da depressão, buscando evidenciar seus efeitos, mecanismos de ação e interfaces com a promoção da saúde integral.

2. OBJETIVOS

Investigar a importância da busca de sentido, propósito, conexão e transcendência (compreendida como dimensão espiritual) em casos de ansiedade e depressão, analisando-a como estratégia de cuidado complementar sob a ótica das práticas integrativas em saúde. Buscou-se analisar a literatura científica recente sobre a relação entre espiritualidade e saúde mental; identificar os principais mecanismos pelos quais a espiritualidade favorece o bem-estar emocional e existencial; e discutir a associação desta dimensão no cuidado integrativo, destacando-a para uma abordagem mais humanizada e integral da saúde mental.

3. METODOLOGIA

Segundo Souza, Silva e Carvalho (2010), a revisão integrativa reúne estudos com diferentes abordagens metodológicas, como estudo piloto, transversal e qualitativo, entre outros, oferecendo uma visão ampla e crítica sobre determinado fenômeno. Assim, este trabalho buscou integrar as evidências científicas acerca das práticas integrativas e intervenções com enfoque espiritual no cuidado da ansiedade e depressão, destacando seus efeitos terapêuticos e contribuições para a saúde integral.

A questão norteadora que orientou o estudo foi: De que forma práticas integrativas e intervenções com enfoque espiritual — como meditação, programas de estilo de vida espiritual, rituais, cuidados espirituais em ambientes de saúde e PICS — contribuem para a redução dos sintomas de ansiedade e depressão, bem como para a promoção do equilíbrio emocional e existencial em adultos?

Fontes de dados e estratégia de busca

A busca bibliográfica foi realizada entre setembro e outubro de 2025 nas bases PubMed, SciELO e CAPES Periódicos, utilizando combinações de descritores controlados (MeSH) e palavras-chave livres em inglês e português.

A string principal aplicada à base PubMed foi:

(“Anxiety Disorders”[Mesh] OR anxiety[tiab] OR “Depressive Disorder”[Mesh] OR depression[tiab]) AND (“Spirituality”[Mesh] OR spirituality[tiab] OR “Meaning in Life”[tiab] OR transcendence[tiab]) AND (“Complementary Therapies”[Mesh] OR “Integrative Medicine”[Mesh] OR “Naturopathy”[Mesh]) AND(“Adult”[Mesh] OR adult*[tiab]) NOT (“Review”[Publication Type] OR “Meta-Analysis”[Publication Type])

Foram encontrados 569 artigos na base PubMed e outros registros complementares nas demais bases. Após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 11 artigos compuseram a amostra final da revisão. Além desses artigos empíricos, foram utilizados livros e revisões clássicas (KOENIG, 2012; FRANKL, 1989; JUNG, 2000; MACIOCIA, 2019; LUCCHETTI et al., 2021) apenas para fundamentação teórica e contextualização, não sendo contabilizados na amostra da revisão integrativa.

Critérios de inclusão e exclusão

Foram incluídos artigos publicados entre 2015 e 2025, redigidos em português ou inglês, que abordassem populações adultas (entre 18 a 60 anos) e contemplassem estudos originais sobre espiritualidade, sentido, propósito e saúde mental — especialmente voltados a quadros de ansiedade e depressão. Também foram considerados elegíveis os trabalhos que apresentavam enfoque em práticas integrativas com dimensão espiritual. Por outro lado, foram excluídos estudos duplicados nas bases de dados, teses, dissertações, editoriais, revisões, resumos de eventos, publicações anteriores a 2015, pesquisas voltadas exclusivamente à religiosidade institucional e artigos teóricos que não apresentavam resultados empíricos.

Processo de seleção dos estudos

O processo de seleção dos estudos foi conduzido em três etapas sucessivas. Inicialmente, realizou-se a leitura dos títulos e resumos, excluindo-se as publicações que não apresentavam relação com o escopo temático. Em seguida, procedeu-se à leitura integral dos textos potencialmente elegíveis, avaliando sua aderência aos critérios previamente definidos. Por fim, foi feita a extração e síntese dos dados relevantes, considerando autor, ano, país, população, amostra, tipo de intervenção espiritual, instrumentos utilizados e principais resultados.

O processo de identificação e seleção seguiu as diretrizes do PRISMA 2020 (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), conforme ilustrado no Fluxograma 1. Na etapa de identificação, foram encontrados 569 artigos nas bases de dados PubMed e complementares. Durante a triagem, 531 artigos foram removidos por não apresentarem relação direta com o tema. Na fase de elegibilidade, 35 artigos foram avaliados na íntegra, dos quais 13 foram excluídos por ausência de enfoque espiritual, 11 por se tratarem de revisões da literatura. Ao final, 11 estudos compuseram a amostra final desta revisão.

Fluxograma 1 – Etapas do processo de seleção dos estudos (PRISMA 2020 adaptado)

(Fonte: elaborado pelos autores, 2025.)

Análise dos dados

A análise dos dados teve natureza qualitativa e descritiva, com categorização temática das evidências. As categorias emergentes compreenderam: (1) a espiritualidade como fator protetor da saúde mental; (2) práticas espiritualmente integradas e intervenções complementares; (3) mecanismos psicológicos e existenciais de regulação emocional; e (4) implicações para o cuidado integrativo e a integralidade do ser. Essas categorias permitiram compreender como as práticas espirituais atuam como mediadoras entre o sofrimento psíquico e a restauração da energia vital, promovendo equilíbrio emocional e fortalecimento do Shen.

Tabela 1 – Categorização temática dos estudos incluídos na rev

(Fonte: elaborado pelos autores, 2025.)

Para complementar a categorização temática apresentada na Tabela 1, elaborou-se a Figura 1, que ilustra a distribuição dos tipos de intervenções espirituais identificadas nos estudos incluídos na revisão. Observa-se que as práticas baseadas em conceitos ampliados de espiritualidade e das PICS aparecem com maior frequência entre os artigos analisados, seguidas por intervenções de meditação e estilo de vida espiritual e por abordagens de psicoterapia espiritual. Também foram identificados programas integrativos, rituais espirituais e intervenções classificadas como cuidados espirituais em saúde. Essa representação gráfica evidencia a predominância de abordagens contemplativas e integrativas no cenário contemporâneo de práticas espirituais voltadas ao cuidado em saúde mental.

Figura 1 – Distribuição dos tipos de intervenções espirituais identificadas nos estudos 

(Fonte: elaborado pelos autores, 2025.)

Aspectos éticos 

Por tratar-se de uma revisão de literatura sem envolvimento direto de seres humanos, o estudo dispensa apreciação pelo Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Foram respeitados todos os princípios de integridade científica, com a devida citação dos autores e observância das normas da ABNT NBR 6023:2018.

4. RESULTADOS

A busca bibliográfica resultou em 569 artigos identificados, dos quais 11 atenderam aos critérios de inclusão e compuseram a amostra final. Os estudos selecionados apresentam diversidade metodológica, abrangendo ensaios clínicos, estudos de viabilidade, estudos observacionais transversais, protocolos de ensaio e análises conceituais ligadas à saúde mental, espiritualidade e PICS.

A seguir, apresenta-se a Tabela 1, sintetizando as principais características dos artigos incluídos.

Tabela 2 – Caracterização dos estudos incluídos na revisão 

Autor/AnoPaísTipo de intervenção/enfoque espiritualPopulação/amostraResultados principais
ROSMARIN et al. (2015)EUAInteresse em psicoterapia espiritualmente integrada (SIP)253 pacientes psiquiátricos agudos58,2% relataram interesse moderado/alto em integrar espiritualidade na psicoterapia; depressão associou-se a maior interesse.
VITORINO et al. (2018)BrasilEspiritualidade, religiosidade e transtornos mentais comuns948 adultos brasileirosEspiritualidade mais elevada associou-se a menor prevalência de transtornos mentais comuns e maior qualidade de vida.
RICHERT & DECLOEDT (2018)EUAAnálise histórico-cultural de yoga e psicodélicos na saúde mentalRevisão histórico-críticaDiscute como práticas corporais e estados ampliados de consciência foram incorporados à psiquiatria, enfatizando dimensões espirituais do cuidado.
HAUN et al. (2020)EUAPrograma integrativo THRIVE (saúde integrativa, autocuidado e espiritualidade) para mulheres veteranas65 veteranas (ensaio de viabilidade)Melhoras em ansiedade, depressão e qualidade de vida; alta aceitação do programa.
FRICK et al. (2020)AlemanhaProtocolo de estudo da Loving-Kindness Meditation-Based CBT (MeCBT) para depressão crônicaAdultos com depressão crônica (ensaio proposto)Descreve racional teórico e protocolo de RCT que integra meditação da bondade amorosa à TCC para promover aceitação e autocompaixão.
BRINGMANN et al. (2021)AlemanhaMeditation-Based Lifestyle Modification (MBLM) – programa baseado em yoga e espiritualidade25 pacientes ambulatoriais com depressão leve/moderadaRedução média de 39% dos sintomas depressivos e aumento significativo de mindfulness, bem-estar e aspectos espirituais; alta adesão.
BAHADORANI et al. (2021)EUAMeditação sufi TamarkozUniversitários (três grupos: intervenção, lista de espera, cuidados usuais)Tamarkoz reduziu estresse percebido e frequência cardíaca, além de aumentar experiências espirituais diárias e emoções positivas.
TALA & PLAZA (2023)ChileMedicina integrativa no sistema de saúde chilenoArtigo de reflexãoDiscute a incorporação de medicina integrativa (incluindo naturopatia) na rede pública chilena e suas barreiras, ressaltando visão ampliada de saúde.
BOCCOLINI et al. (2024)BrasilUso de PICS na população brasileira durante a pandemia de COVID-1912.136 adultos brasileirosPrevalência de 61,8% de uso de PICS, sobretudo meditação, fitoterapia, Reiki e aromaterapia; objetivo principal foi promoção de saúde e bem-estar emocional.
BALKRISHNA et al. (2024)ÍndiaYagna Pathy (ritual espiritual védico) como intervenção em saúde mental426 praticantes adultosA prática regular de Yagna Pathy por 30 dias associou-se à redução significativa de estresse, ansiedade e depressão e aumento de bem-estar.
REPETTO et al. (2025)ChileCuidado espiritual generalista em UTI – protocolo de ensaio clínico piloto30 adultos em UTI, ventilados ≥72h (projeto)Propõe avaliar viabilidade e efeitos preliminares de cuidado espiritual na prevenção de ansiedade, depressão e TEPT pós-UTI.

(Fonte: elaborado pelos autores, 2025.)

A análise dos estudos permitiu agrupar as evidências em quatro grandes categorias. A primeira refere-se à espiritualidade como fator protetor da saúde mental: Vitorino et al. (2018) identificaram que espiritualidade e religiosidade estão associadas à menor prevalência de transtornos mentais comuns e maior bem-estar em adultos brasileiros. De forma semelhante, o estudo de Balkrishna et al. (2024) demonstrou que a prática ritualística de Yagna Pathy reduziu significativamente os níveis de estresse, ansiedade e depressão em praticantes adultos. 

Figura 2 – Distribuição do número de participantes segundo os níveis combinados de religiosidade e espiritualidade (Vitorino et al. 2018)

(Fonte: elaborado pelos autores, 2025.)

A Figura 2, representando o artigo de Vitorino et al. (2018), apresenta a distribuição percentual dos participantes de acordo com os níveis de religiosidade e espiritualidade. Observa-se que a maior parte da amostra concentra-se no grupo de baixa espiritualidade e baixa religiosidade, representando o maior percentual entre os avaliados. Em contraste, os grupos que apresentaram alta espiritualidade e/ou alta religiosidade, embora menos numerosos, demonstraram resultados mais favoráveis em relação aos desfechos analisados – melhores resultados à qualidade de vida, sintomas depressivos, ansiedade, otimismo e felicidade. Essa distribuição evidencia que, apesar de a predominância da amostra situar-se em níveis baixos dessas dimensões, os participantes classificados em categorias mais elevadas de espiritualidade e/ou religiosidade apresentaram melhores indicadores de bem-estar e saúde mental. Tais achados reforçam a relevância das dimensões internas de significado, conexão e transcendência como fatores potencialmente protetores, confirmando o que a literatura já aponta sobre a influência positiva da religiosidade e da espiritualidade nos processos de enfrentamento e na promoção da saúde.

A segunda categoria diz respeito às práticas espiritualmente integradas e intervenções complementares: diversos estudos avaliam intervenções estruturadas que combinam espiritualidade, meditação e princípios de estilo de vida saudável. O programa MBLM, baseado em yoga e em aspectos éticos e contemplativos dessa tradição, mostrou alta adesão e redução clinicamente relevante dos sintomas depressivos em pacientes ambulatoriais, além de aumento de mindfulness e bem-estar eudaimônico (BRINGMANN et al., 2021). A meditação sufi Tamarkoz demonstrou reduzir estresse e frequência cardíaca, ao mesmo tempo em que ampliou emoções positivas e experiências espirituais diárias em universitários (BAHADORANI et al., 2021). O programa integrativo THRIVE, voltado a mulheres veteranas, combinou espiritualidade, autocuidado, mindfulness e práticas corporais, resultando em diminuição de ansiedade e depressão e melhoria da qualidade de vida (HAUN et al., 2020). Já Frick et al. (2020) descreveram o protocolo da MeCBT, que integra meditação da bondade amorosa à terapia cognitivo-comportamental para depressão crônica, enfatizando compaixão e autotranscendência como recursos terapêuticos. Repetto et al. (2025), por sua vez, propuseram um ensaio clínico piloto de cuidado espiritual generalista em UTI para prevenir ansiedade, depressão e TEPT em sobreviventes de doenças críticas. 

A terceira categoria engloba os mecanismos psicológicos, energéticos e existenciais de regulação emocional: os estudos sugerem que as intervenções espirituais atuam por múltiplas vias, incluindo a regulação do estresse fisiológico (por meio da redução da frequência cardíaca e de marcadores de estresse, como observado em Tamarkoz), a promoção de autocompaixão e aceitação (MeCBT, MBLM) e a ampliação de experiências espirituais e sentimentos de conexão com algo maior, o que, à luz da Logoterapia de Frankl (1989) e da Psicologia Analítica de Jung (2000), favorece a ressignificação do sofrimento e a integração simbólica da experiência. Richert & DeCloedt (2018) reforçam, em abordagem histórico-cultural, que práticas como yoga e estados ampliados de consciência sempre foram utilizados como caminhos de reorganização psíquica e espiritual. 

Por fim, a quarta categoria diz respeito às implicações para o cuidado integrativo e para as políticas públicas: Boccolini et al. (2024) evidenciam elevada utilização de PICS no Brasil durante a pandemia, especialmente para manejo de estresse e cuidado emocional, apontando a necessidade de integração dessas práticas — muitas delas com componentes espirituais explícitos — ao sistema de saúde. Tala & Plaza (2023) discutem a implementação da medicina integrativa no Chile, ressaltando avanços normativos, barreiras institucionais e a importância de formar profissionais com visão ampliada de saúde, enquanto Repetto et al. (2025) reforçam a viabilidade e pertinência de incluir cuidado espiritual em unidades de terapia intensiva, articulando ciência, espiritualidade e humanização do cuidado.

Em conjunto, os resultados demonstram que a espiritualidade — vivenciada por meio de crenças, valores, meditações, rituais e práticas integrativas — é um recurso terapêutico consistente na prevenção e tratamento da ansiedade e depressão, atuando em níveis psicológicos, fisiológicos e existenciais.

5. DISCUSSÃO

A análise dos estudos selecionados evidencia convergência quanto ao papel da espiritualidade como fator protetor da saúde mental e componente relevante de intervenções terapêuticas.

Vitorino et al. (2018) apresentam que espiritualidade e religiosidade estão associadas a menores índices de transtornos mentais comuns e maior bem-estar, sugerindo efeito protetor mesmo fora de contextos de doença grave. Em sintonia com a perspectiva da Logoterapia, a falta de sentido aparece como elemento central do adoecimento psíquico (FRANKL, 1989), enquanto o reencontro com propósito e transcendência potencializa resiliência e vitalidade.

No campo das intervenções, Bringmann et al. (2021) e Bahadorani et al. (2021) enfatizam programas contemplativos que integram práticas de meditação, ética espiritual e estilo de vida saudável. O MBLM, ao articular yoga, meditação, mantras e reflexões sobre virtudes, mostrou-se altamente aceitável e produziu reduções expressivas dos sintomas depressivos, além de aumentar mindfulness e bem-estar eudaimônico. De forma semelhante, a meditação sufi Tamarkoz reduziu o estresse percebido e a frequência cardíaca e aumentou emoções positivas e experiências espirituais diárias em estudantes universitários, indicando capacidade de modular o sistema nervoso autônomo e a vivência subjetiva da espiritualidade.

O programa THRIVE, descrito por Haun et al. (2020), integra espiritualidade, autocuidado e práticas corporais em um modelo de saúde integrativa para mulheres veteranas. Os resultados de melhora em ansiedade, depressão e qualidade de vida aproximam-se dos princípios naturológicos, inseridos no campo das práticas integrativas, de autorregulação e protagonismo do interagente: a pessoa é convidada a envolver-se ativamente em seu processo de cuidado, reconhecendo-se como agente de sua própria transformação.

Frick et al. (2020) contribuem ao propor a MeCBT, que agrega meditação da bondade amorosa à terapia cognitivo-comportamental. Embora o artigo seja um protocolo e não apresente resultados finais, seu racional destaca a importância de trabalhar compaixão, aceitação e conexão com os outros — elementos que dialogam com a noção de Shen equilibrado na MTC e com a perspectiva das práticas integrativas orientadas à ampliação da consciência.

Rosmarin et al. (2015) exploram a demanda por psicoterapia espiritualmente integrada entre pacientes psiquiátricos agudos e mostram que mais da metade da amostra manifesta interesse em integrar espiritualidade ao tratamento. Esse dado é crucial para a prática clínica integrativa: indica que muitos pacientes desejam que seus valores espirituais e experiências de fé sejam reconhecidos e acolhidos no setting terapêutico, mesmo quando não possuem filiação religiosa formal. Essa abertura também aparece no estudo de Balkrishna et al. (2024), no qual a prática ritualística de Yagna Pathy foi bem aceita e associada à redução de sofrimento emocional, sugerindo que rituais espirituais podem ser adaptados como recursos terapêuticos de forma respeitosa e culturalmente situada.

Além das intervenções específicas, trabalhos como os de Richert & DeCloedt (2018) e Tala & Plaza (2023) ajudam a compreender o lugar da espiritualidade e das PICS no campo ampliado da saúde. Richert & DeCloedt mostram que práticas corporais como o yoga e experiências de consciência ampliada vêm sendo historicamente incorporadas à psiquiatria e discutidas como vias para a “flexibilização” do corpo e da mente, abrindo espaço para formas alternativas de lidar com sofrimento psíquico. Tala & Plaza, ao discutir a medicina integrativa no Chile, evidenciam a necessidade de superar visões reducionistas, articular diferentes racionalidades médicas e formar profissionais aptos a lidar com dimensão espiritual e energética do cuidado.

No âmbito populacional, o estudo de Boccolini et al. (2024) mostra alta prevalência de uso de PICS durante a pandemia de COVID-19 no Brasil, sobretudo meditação, fitoterapia, Reiki e aromaterapia, com foco em saúde mental e bem-estar. Tal achado reforça o papel social das práticas integrativas e espirituais como estratégias de enfrentamento em momentos de crise, aproximando-se da visão integrativa de promoção da saúde por meio do fortalecimento da autonomia, da consciência corporal e da espiritualidade.

Por fim, o protocolo de Repetto et al. (2025) sinaliza um movimento importante de incorporação do cuidado espiritual em ambientes de alta complexidade, como UTIs. Ao avaliar a viabilidade de cuidado espiritual generalista para redução de ansiedade, depressão e TEPT em pacientes críticos, o estudo abre caminho para que a espiritualidade seja reconhecida como componente legítimo de planos terapêuticos interdisciplinares, o que converge com as diretrizes da PNPIC e com a visão integrativa de cuidado.

À luz das práticas integrativas — campo do qual a Naturologia é parte —, esses achados podem ser compreendidos como expressões do movimento de restauração da energia vital (Qi/Prana) e fortalecimento do Shen: práticas contemplativas, rituais, cuidado espiritual e PICS favorecem a reorganização do campo psicoenergético, a ressignificação do sofrimento e a reconexão com o sentido de vida. Tal compreensão dialoga com Frankl (1989), que aponta o vazio existencial como núcleo do adoecimento, e com Jung (2000), que destaca a importância de símbolos, mitos e imagens arquetípicas no processo de individuação.

Em síntese, embora os estudos selecionados apresentem diferentes desenhos metodológicos e abordagens da espiritualidade (religiosa, existencial, ritualística ou contemplativa), há consenso de que a dimensão espiritual atua como mediadora essencial na promoção da saúde mental e na reconstrução do sentido de vida. Para a Naturologia, isso reforça o compromisso com um cuidado que contemple as dimensões física, emocional, energética e espiritual em um modelo realmente integral. Contudo, apesar dos achados consistentes, os estudos analisados apresentam limitações que precisam ser consideradas: o número escasso de ensaios clínicos reduz a força das evidências, a diversidade de instrumentos e escalas dificulta comparações diretas e a falta de padronização das intervenções espirituais — que variam em método, duração e enfoque — limita a replicabilidade dos protocolos. Ainda assim, tais limitações não anulam a tendência observada: a espiritualidade emerge como dimensão relevante e promissora no cuidado integrativo em saúde mental.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta revisão integrativa evidenciou que práticas integrativas e intervenções com enfoque espiritual constituem recursos promissores e profundamente humanizados no cuidado da ansiedade e da depressão. Programas de meditação e estilo de vida inspirados em tradições como o yoga e o sufismo (MBLM e Tamarkoz), rituais espirituais como Yagna Pathy, programas integrativos de saúde (THRIVE), iniciativas de psicoterapia espiritualmente integrada (MeCBT e SIP) e propostas de cuidado espiritual em UTIs demonstram potencial para reduzir sintomas ansiosos e depressivos, modular o estresse, fortalecer o sentido de vida e ampliar o bem-estar.

Ao reconhecer e valorizar a espiritualidade como dimensão essencial da existência humana, as práticas integrativas reafirmam seu compromisso com a integralidade, a autonomia e o respeito à singularidade do ser. Nessa perspectiva, a reconexão com o sentido e o propósito de vida favorece o movimento vital de restauração, restabelecendo a harmonia entre corpo, mente e espírito.

Observa-se, entretanto, que parte dos estudos apresenta limitações metodológicas, como amostras reduzidas, ausência de grupos controle em alguns casos, heterogeneidade das intervenções e recorte cultural específico. Tais aspectos indicam a necessidade de novas pesquisas com maior rigor científico, metodologias diversificadas (ensaios clínicos randomizados, estudos longitudinais e qualitativos aprofundados) e populações mais amplas e representativas.

Recomenda-se que futuras investigações aprofundem a integração entre práticas integrativas, espiritualidade e políticas públicas de saúde mental, consolidando a espiritualidade como eixo estruturante da promoção da saúde integral e humanizada. A incorporação dessas abordagens nos diferentes níveis de atenção em saúde poderá contribuir para a construção de um modelo de cuidado mais inclusivo, sensível e coerente com as necessidades humanas em sua totalidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

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¹Universidade Anhembi Morumbi – Faculdade de Naturologia