POR QUE O MEDO FALHA: LIMITES DAS TÁTICAS ALARMISTAS E CAMINHOS HUMANIZADOS NA PREVENÇÃO E TRATAMENTO DO ABUSO DE ESTEROIDES ANABÓLICOS ANDROGÊNICOS 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202510261524


Lucas Caseri Câmara1


RESUMO

O uso não terapêutico de esteroides anabólicos androgênicos (EAA) tem aumentado em diversos grupos populacionais, especialmente entre homens jovens e frequentadores de academias, configurando um desafio crescente para a saúde pública. Apesar da ampla adoção de campanhas baseadas em medo e repressão, as evidências demonstram que tais estratégias são ineficazes para reduzir o consumo e podem produzir efeitos adversos. Mensagens alarmistas frequentemente aumentam o estigma, reforçam o isolamento dos usuários e reduzem a procura por acompanhamento médico. Este artigo analisa criticamente as limitações das táticas de medo, revisando estudos experimentais, qualitativos e revisões sistemáticas sobre o tema. Os achados indicam que o medo, por não fortalecer a percepção de autoeficácia nem promover senso de controle pessoal, falha em modificar crenças e comportamentos. Em contrapartida, intervenções educativas equilibradas, que integram informações sobre riscos e benefícios, habilidades de tomada de decisão e estratégias de redução de danos, apresentam melhores resultados na prevenção e no engajamento terapêutico. Programas como o ATLAS e o ATHENA demonstraram eficácia sustentada ao estimular o pensamento crítico e a responsabilidade individual. A capacitação médica é outro elemento fundamental: a falta de formação específica em farmacologia e comportamento humano, aliada à censura institucional, dificulta abordagens empáticas e baseadas em evidências. Conclui-se que o enfrentamento do uso de EAA exige abandonar o paradigma moralizante e adotar políticas centradas em ciência, educação, empatia e cuidado contínuo. 

Palavras-chave:  Agentes anabólicos, educação em saúde, comportamento em saúde, redução de danos, relações médico-paciente. 

INTRODUÇÃO

O uso não terapêutico de esteroides anabólicos androgênicos (EAA) é um fenômeno global em expansão, ultrapassando o esporte profissional e atingindo academias e contextos recreativos, onde a prevalência estimada é de 1% a 5% entre homens adultos, alcançando valores ainda maiores entre praticantes de musculação (1). A busca por melhora estética, desempenho físico e sensação subjetiva de bem-estar são as principais motivações relatadas (2,3). Embora os efeitos adversos cardiovasculares, endócrinos e neuropsiquiátricos sejam amplamente reconhecidos (4), estratégias tradicionais de prevenção e educação sobre o tema mostram eficácia limitada (5). 

Desde os anos 1980, políticas de prevenção adotaram predominantemente abordagens baseadas em medo, nas chamadas “táticas de assustar” (scare tactics), enfatizando riscos graves como infertilidade, hepatotoxicidade ou morte súbita. No entanto, Rogol e Yesalis (1992) já alertavam que tais campanhas careciam de fundamentação científica e eram incapazes de alterar comportamentos por exagerarem os riscos e desconsiderarem as motivações reais dos usuários (4). O estudo clássico de Goldberg et al. (1991) confirmou essa limitação ao comparar uma intervenção centrada apenas nos riscos a outra abordagem mais equilibrada, que discutia tanto os efeitos adversos quanto os motivos que levavam ao uso. Apenas a segunda obteve ganhos significativos em conhecimento e percepção crítica (6). Nas décadas seguintes, programas estruturados como o Adolescents Training and Learning to Avoid Steroids (ATLAS) e o Athletes Targeting Healthy Exercise and Nutrition Alternatives (ATHENA) demonstraram maior efetividade ao integrar educação científica, promoção de comportamentos saudáveis e fortalecimento da autoeficácia (crença do indivíduo em sua própria capacidade de organizar e executar ações necessárias para alcançar determinados resultados, ou seja, diz respeito à confiança do indivíduo em conseguir atingir seus objetivos físicos ou estéticos sem recorrer ao uso de drogas) (7,8). 

Revisões de literatura reforçam que mensagens baseadas apenas no medo falham em modificar atitudes e podem gerar reatância psicológica, isto é, resistência e descrédito frente às fontes institucionais (5). Petróczi et al. (2014) evidenciaram que a percepção de severidade e vulnerabilidade não é suficiente para reduzir a intenção de uso quando a mensagem carece de credibilidade ou não dialoga com o contexto social do público-alvo (5). A prevenção efetiva exige, portanto, abordagens multifatoriais que considerem crenças de saúde, autoeficácia e influência de pares (busca por pertencimento e aprovação social) (9). Além disso, o estigma e a criminalização do uso de EAA afastam usuários dos serviços de saúde e reduzem o acesso a estratégias de redução de danos (2,3,10). Em contrapartida, intervenções clínicas centradas em acolhimento, educação pragmática e acompanhamento laboratorial mostram maior adesão e possibilitam redução gradual e segura do uso (1). 

Pesquisas qualitativas recentes indicam que a maioria dos usuários obtém informações em redes de pares ou fóruns on-line, onde predominam recomendações empíricas e, por vezes, arriscadas (2,3,10). Vinther (2022) resume o desafio contemporâneo afirmando que “os EAA são tão eficazes” que simples advertências não competem com a experiência empírica dos usuários (11). Assim, a prevenção moderna deve abandonar o alarmismo e adotar uma comunicação fundamentada em evidências, reconhecendo tanto os efeitos fisiológicos quanto os fatores psicossociais que sustentam o uso. Reavaliar o tema à luz da medicina baseada em evidências é essencial para reconstruir a credibilidade da mensagem científica e desenvolver políticas de saúde mais efetivas e humanizadas. 

EFICÁCIA DAS TÁTICAS DO MEDO

Desde a década de 1980, campanhas educativas e políticas públicas voltadas à prevenção do uso de EAA adotam predominantemente abordagens baseadas em medo, com foco em consequências graves, como hepatotoxicidade, infertilidade e morte súbita (4,6). Essas intervenções partem do pressuposto de que a exposição repetida a informações alarmistas seria suficiente para desestimular o comportamento de risco. Entretanto, evidências acumuladas ao longo de mais de três décadas demonstram que táticas de medo não produzem alterações sustentadas em conhecimento, atitude ou comportamento entre adolescentes e jovens atletas (5–8). 

O ensaio controlado conduzido por Goldberg et al. (1991) foi o primeiro a testar empiricamente a eficácia desse tipo de abordagem. Os autores compararam uma intervenção educativa exclusivamente centrada em riscos com outra que apresentava, de forma equilibrada, riscos, benefícios percebidos e aspectos éticos do desempenho esportivo (6). Os resultados mostraram que apenas a intervenção equilibrada promoveu aumento significativo no conhecimento e na compreensão crítica sobre os efeitos adversos, enquanto a exposição isolada a mensagens negativas não teve impacto estatisticamente relevante nas intenções de uso. Esses achados inauguraram um corpo de evidências que passou a questionar a validade das campanhas alarmistas. 

Rogol e Yesalis (1992) reforçaram que o discurso preventivo baseado em ameaças e descrições extremas carece de credibilidade junto ao público jovem e pode comprometer a confiança na mensagem científica (4). Segundo os autores, quando indivíduos testemunham benefícios físicos e funcionais em usuários de EAA, tendem a considerar exageradas as advertências institucionais, o que reduz a efetividade da comunicação. Essa discrepância entre experiência pessoal e narrativa oficial contribui para o afastamento das fontes médicas e aumenta a busca por informações em canais informais. Petróczi et al. (2014) revisaram a literatura disponível e concluíram que as campanhas centradas apenas em riscos falham porque não abordam variáveis psicológicas mediadoras, como percepção de vulnerabilidade, autoeficácia e normas sociais, que são determinantes do comportamento de uso (5). Além disso, a exposição contínua a mensagens alarmistas tende a gerar reatância psicológica, isto é, resistência ativa à persuasão, tornando o público menos receptivo a orientações de saúde (5). 

Pesquisas mais recentes ampliaram essa análise, demonstrando que o fracasso das táticas de medo não se restringe à ausência de resultados positivos, mas também envolve efeitos adversos (9,10). Halliburton e Fritz (2018) evidenciaram que crenças de saúde e percepção de autoeficácia funcionam como mediadores consistentes da intenção de uso, sendo que campanhas puramente negativas não fortalecem esses fatores e, portanto, não previnem o comportamento (9). De forma convergente, Vinther (2022) observou que, no contexto contemporâneo, o impacto do medo é ainda mais limitado, pois “os EAA são tão eficazes” em produzir resultados desejados que o argumento do risco perde poder persuasivo frente à experiência empírica dos usuários (11). Dessa forma, quanto mais o discurso institucional ignora as motivações reais e o contexto social do uso, menor é sua capacidade de influenciar decisões individuais (11). 

Assim, as evidências disponíveis indicam que a comunicação baseada em medo apresenta baixa validade psicológica e reduz a confiança do público nas instituições médicas e esportivas (4–6,9,11). O uso reiterado de ameaças e descrições sensacionalistas contribui para o descrédito da autoridade científica e pode favorecer a disseminação de informações alternativas, frequentemente obtidas em redes sociais, treinadores ou fóruns online. Os resultados acumulados sustentam a necessidade de substituir estratégias coercitivas por abordagens educativas baseadas em credibilidade, realismo e diálogo, capazes de promover compreensão crítica e engajamento genuíno na prevenção do uso de EAA (4–6,9,11). 

LIMITAÇÕES E CONSEQUÊNCIAS DAS ABORDAGENS BASEADAS NO MEDO

As estratégias preventivas centradas no medo, além de apresentarem eficácia limitada para modificar comportamentos, podem gerar efeitos adversos importantes no contexto do uso de EAA (7,8,10). Diversos estudos apontam que a ênfase em mensagens alarmistas está associada ao aumento do estigma, à criminalização e ao consequente afastamento dos usuários dos serviços de saúde (7,8,10). A construção social do usuário de EAA como alguém moralmente reprovável, impulsivo ou desinformado contribui para o isolamento e reduz a confiança nas instituições médicas e esportivas (7,8). Essa percepção é reforçada por campanhas públicas que associam o uso de EAA à trapaça ou à dependência, ignorando a diversidade de perfis e motivações envolvidas. O resultado é uma comunicação pouco empática, que dificulta a adesão a estratégias de prevenção e acompanhamento clínico (7,8,10). 

Estudos qualitativos realizados no Reino Unido e na Austrália indicam que o medo de julgamento e de repercussões legais está entre as principais barreiras para o acesso a cuidados de saúde entre usuários de EAA (7,10). Muitos evitam procurar atendimento médico por receio de exposição, perda de confidencialidade ou possível responsabilização jurídica, optando por buscar informações em fóruns, academias e grupos de pares (7,10). Essa substituição das fontes formais de cuidado por redes informais de apoio mantém o usuário distante de intervenções baseadas em evidências e o expõe a orientações empíricas, sem supervisão clínica, o que aumenta o risco de eventos adversos e complica o manejo de efeitos colaterais (8,10). Harvey et al. (2019) observaram que, mesmo em contextos com políticas de redução de danos, o estigma e o medo da reprovação social limitam a adesão a programas de aconselhamento e reduzem o alcance das intervenções preventivas (7). 

Além das barreiras individuais, o discurso alarmista tem implicações institucionais e estruturais (8). Vázquez-Mourelle et al. (2018) destacam que muitos profissionais de saúde se sentem despreparados para atender usuários ativos de EAA, em parte porque as políticas públicas privilegiam abordagens de abstinência e não o manejo clínico das complicações relacionadas ao uso (20). Essa lacuna de formação contribui para a manutenção de posturas moralistas e reduz o engajamento dos pacientes em estratégias de acompanhamento e monitorização laboratorial (7,8,10). O resultado é a perda de oportunidades de intervenção precoce e a perpetuação de uma relação de desconfiança entre usuários e profissionais de saúde (7,8,10). 

O conjunto das evidências indica que campanhas baseadas em medo não apenas falham em reduzir o uso de EAA, mas também produzem efeitos contraproducentes, como o afastamento do cuidado médico, o reforço do estigma e o fortalecimento de redes informais de informação e suporte (7,8,10). A superação dessas limitações depende da substituição das abordagens punitivas e moralizantes por modelos educativos fundamentados na empatia, na confidencialidade e na confiança, capazes de restabelecer o vínculo terapêutico e a credibilidade das intervenções de saúde pública (7,8,10). 

As principais conclusões dos estudos revisados são sintetizadas a seguir na Tabela 1, com destaque para o tipo de evidência predominante e o raciocínio sustentado pelos autores. Essa organização visa facilitar a visualização comparativa entre as diferentes abordagens preventivas, seus fundamentos e o nível de suporte empírico disponível. 

Tabela 1. Síntese das principais afirmações, racional teórico e evidências empíricas sobre estratégias de prevenção do uso de EAA. 

Afirmação principal Racional / Fundamentação Tipo de evidência predominante Estudos e referências 
Táticas de medo isoladas não reduzem o uso de esteroides Estudos controlados e revisões mostram ausência de efeito em conhecimento e comportamento. Ensaios controlados, revisões narrativas e sistemáticas Goldberg et al., 1991; Petróczi et al., 2014; Rogol & Yesalis, 1992; Vinther, 2022; Halliburton & Fritz, 2017 
Abordagens educativas equilibradas são mais eficazes Programas como o ATLAS demonstram redução sustentada da intenção de uso e melhora de fatores de proteção. Ensaios randomizados e estudos de intervenção multidimensional Goldberg et al., 1991; Halliburton & Fritz, 2017; Goldberg et al., 1996 
Estigma e criminalização afastam usuários dos serviços de saúde Evidências qualitativas e revisões apontam para aumento do isolamento e redução da busca por ajuda. Estudos qualitativos e revisões integrativas Piatkowski et al., 2023; Bonnecaze et al., 2021; Harvey et al., 2019 
Usuários buscam informações em pares e treinadores Estudos qualitativos mostram preferência por fontes informais, o que pode aumentar ou reduzir riscos. Estudos etnográficos e entrevistas em profundidade Kimergård & McVeigh, 2014; Harvey et al., 2019 
Não há consenso sobre estratégias comportamentais eficazes isoladas Revisões sistemáticas indicam ausência de avaliações robustas de intervenções específicas. Revisões sistemáticas e scoping reviews Vinther, 2022; Bates et al., 2019; McVeigh et al., 2021 
Campanhas de medo podem gerar resistência e desconfiança Relatos de especialistas e estudos qualitativos indicam backlash e diminuição da credibilidade das fontes médicas. Relatos de especialistas e estudos qualitativos Vinther, 2022; Hoffman & Ratamess, 2006; Harvey et al., 2019 
ALTERNATIVAS MAIS EFICAZES

Diante das limitações das campanhas baseadas em medo, estudos empíricos e revisões sistemáticas apontam que abordagens educativas equilibradas (apresentando os efeitos positivos e potenciais riscos) e programas multidimensionais são mais eficazes na prevenção do uso de EAA (5,6,7,9,11). Essas estratégias reconhecem que a simples exposição aos riscos não é suficiente para modificar comportamentos e que a educação deve considerar fatores psicológicos, sociais e contextuais que influenciam as decisões individuais (5,6,7,9,11). Diferentemente das táticas punitivas, os programas educativos contemporâneos enfatizam o desenvolvimento de habilidades cognitivas e comportamentais, a correção de percepções distorcidas e o fortalecimento de recursos pessoais, como a autoeficácia e o senso de autonomia (9,11). 

Goldberg et al. (1991) demonstraram que intervenções que apresentam de forma equilibrada os riscos e os benefícios percebidos do uso de EAA produzem resultados superiores às estratégias puramente negativas (6). Esse estudo pioneiro mostrou que o aumento do conhecimento e da compreensão crítica só ocorre quando as mensagens preventivas são percebidas como realistas e coerentes com a experiência dos participantes. Posteriormente, programas estruturados como o Adolescents Training and Learning to Avoid Steroids (ATLAS) e o Athletes Targeting Healthy Exercise and Nutrition Alternatives (ATHENA) confirmaram esses achados, mostrando reduções sustentadas na intenção de uso e melhorias em fatores de proteção comportamental e social (7,8,9). Esses programas integram educação científica, incentivo à nutrição e ao treinamento natural, valorização da saúde e do desempenho sem drogas e promoção de normas sociais positivas dentro do ambiente esportivo (7,8,9). 

A revisão conduzida por Petróczi et al. (2014) reforça que programas de prevenção eficazes combinam múltiplos componentes, incluindo informação baseada em evidências, discussão ética, modelagem de comportamentos e incentivo à autoeficácia (5). Esse modelo educacional, ao abordar as motivações reais dos usuários e oferecer alternativas plausíveis, gera maior engajamento e reduz o efeito de resistência típico das campanhas moralistas. Halliburton e Fritz (2018) demonstraram que crenças de saúde e percepção de competência pessoal mediam a intenção de uso de EAA, sugerindo que intervenções devem trabalhar o sentimento de capacidade individual para alcançar objetivos sem recorrer a substâncias (9). Essa abordagem é congruente com a teoria social cognitiva de Bandura, segundo a qual o comportamento preventivo depende não apenas da informação, mas da confiança do indivíduo em sua capacidade de agir de forma eficaz (9). 

Além das estratégias educativas, a incorporação de princípios de redução de danos tem se mostrado fundamental para reaproximar usuários de serviços de saúde e reduzir riscos associados (8). Revisões recentes destacam que o manejo clínico deve priorizar a escuta ativa, o acolhimento e o acompanhamento laboratorial, mesmo quando o paciente decide continuar o uso (8,10). Essa abordagem não implica em endosso do comportamento, mas em reconhecimento da autonomia do indivíduo e compromisso com a redução de complicações médicas. Ao substituir o julgamento moral pela prática clínica pragmática e empática, cria-se um ambiente mais propício à adesão, à comunicação aberta e à eventual decisão de cessar o uso. 

A convergência entre educação equilibrada e redução de danos representa um novo paradigma na abordagem do uso de EAA. Em vez de reforçar o medo e o estigma, essa combinação oferece informação realista, promove senso de controle e estabelece confiança entre profissionais e usuários. As evidências disponíveis sugerem que programas educativos integrados e abordagens clínicas centradas na autonomia e no diálogo são as alternativas mais eficazes para reduzir o uso de EAA e minimizar seus impactos na saúde individual e coletiva (5–11). 

INFLUÊNCIA DE PARES E FONTES DE INFORMAÇÃO

A influência de pares e o acesso a diferentes fontes de informação exercem papel decisivo na iniciação e manutenção do uso de EAA (2,3,7). Estudos qualitativos e revisões sistemáticas mostram que a maioria dos usuários obtém conhecimento sobre protocolos de uso, doses e medidas de segurança por meio de treinadores, colegas de academia e fóruns online, em vez de buscar orientação profissional (2,3,7). Essa tendência reflete a construção de redes informais de confiança que se estabelecem em ambientes esportivos e virtuais, nas quais a experiência empírica é valorizada em detrimento da informação científica (2,3). A preferência por conselhos de pares é explicada pela acessibilidade, pela linguagem compartilhada e pela percepção de que essas fontes compreendem melhor as demandas estéticas e de desempenho típicas do público envolvido (2,7). 

Kimergård e McVeigh (2014) relataram que a principal via de comunicação entre usuários de EAA é a troca de informações entre pares, frequentemente baseada em relatos pessoais e observações informais, sem validação científica (2). Embora esse intercâmbio possa reduzir alguns riscos imediatos, ao difundir práticas de monitoramento básico, também tende a reforçar condutas inseguras, como o uso simultâneo de múltiplas substâncias e a automedicação sem acompanhamento médico (2,3,10). Harvey et al. (2019) observaram que, diante da ausência de acolhimento clínico e da predominância de discursos moralistas, muitos usuários passaram a considerar essas redes alternativas como mais confiáveis do que as instituições de saúde (7). Essa percepção de credibilidade entre pares decorre, em parte, da desconfiança gerada por campanhas alarmistas e do medo de julgamento ou punição, que afastam o público-alvo dos canais formais de cuidado (3,7,10). 

O papel dos pares não se limita à transmissão de informação, mas também influencia normas e percepções coletivas (9). Estudos sobre comportamento em academias e ambientes esportivos mostram que a crença de que “a maioria das pessoas usa EAA” aumenta a probabilidade de experimentação, ao criar uma sensação de aceitação e normalidade social (9). Essa dinâmica, conhecida como efeito de consenso falso, foi descrita em diversas populações jovens e atletas recreativos (9). A intervenção educativa, nesse contexto, deve corrigir percepções normativas equivocadas e promover novas referências de grupo, baseadas em valores de saúde e desempenho natural (7,9). Programas como o ATLAS e o ATHENA mostraram que envolver atletas e líderes de equipe como mediadores de mensagens preventivas aumenta a eficácia das ações educativas e reduz a intenção de uso de EAA (6–9). Esses resultados indicam que, quando a comunicação ocorre dentro de um contexto social familiar e de confiança, o impacto preventivo é maior do que o obtido por campanhas externas e impessoais (7,9). 

A influência de pares também pode ser transformada em uma ferramenta de proteção quando incorporada de forma estruturada às estratégias de saúde pública (7,9,11). Revisões recentes destacam que a capacitação de multiplicadores, como treinadores, profissionais de educação física e atletas influentes, amplia a disseminação de informações baseadas em evidências e aumenta a legitimidade das mensagens preventivas (7,9,11). Vinther (2022) ressalta que, ao reconhecer a centralidade das relações sociais na decisão de usar ou não EAA, os programas educativos tornam-se mais realistas e culturalmente adequados (11). Esse modelo de comunicação horizontal, que privilegia o diálogo e a cooperação entre profissionais e praticantes, é apontado como uma das formas mais promissoras de reconstruir a credibilidade das mensagens médicas e reduzir o distanciamento entre usuários e instituições (2,3,7,9–11). 

Assim, diversas evidências sugerem que compreender a influência de pares é fundamental para o desenho de políticas eficazes de prevenção e redução de danos. A interação social entre usuários e não usuários constitui um espaço de negociação simbólica sobre riscos e benefícios, no qual o conhecimento técnico e o senso comum se misturam (2,3,7,9,10). Estratégias que ignoram essa dimensão social tendem a fracassar, pois deixam de atuar sobre os fatores que sustentam o comportamento de uso. Em contrapartida, programas que valorizam o engajamento coletivo e a construção compartilhada do conhecimento mostram-se mais adequados para enfrentar um fenômeno que é, antes de tudo, relacional e cultural (2,3,7,9–11). 

DISCUSSÃO

As estratégias repressivas e campanhas de medo historicamente utilizadas para conter o uso de EAA têm se mostrado ineficazes em diferentes contextos populacionais e culturais (8,10,17,19). Estudos mostram que a criminalização, a fiscalização excessiva e o discurso alarmista não reduziram a prevalência do consumo, mas estimularam sua migração para o mercado ilegal, onde há maior risco de adulteração e ausência de supervisão médica (8,10,17,19). Esse deslocamento, somado ao medo de julgamento e às possíveis sanções legais (incluindo profissionais que atuam neste cenário), contribui para o afastamento dos usuários dos serviços de saúde e dificulta o acompanhamento clínico e laboratorial adequado (8,10,19,22). Assim, políticas centradas em coerção e medo acabam reforçando exatamente os comportamentos que pretendem inibir, perpetuando o ciclo de desinformação e vulnerabilidade (17,19,22). 

A compreensão desse fenômeno exige análise comportamental fundamentada em teorias psicológicas reconhecidas. A Teoria da Autoeficácia, proposta por Bandura, estabelece que a mudança de comportamento depende da percepção de capacidade pessoal para agir, o que é reduzido por campanhas que induzem medo ou vergonha (15,16,20). De forma semelhante, a Teoria do Comportamento Planejado de Ajzen indica que crenças, normas subjetivas e percepção de controle moldam a intenção de uso, sendo pouco influenciadas por mensagens unicamente negativas (15,16,20). Em estudos experimentais com adolescentes e jovens atletas, abordagens baseadas apenas na ênfase nos riscos não alteraram significativamente o comportamento, enquanto programas educativos equilibrados (apresentando benefícios e riscos, de maneira mais objetiva e não tendenciosa), que abordam também aspectos de identidade e autoimagem, apresentaram maior impacto (3,4,15). Dessa forma, o fracasso das táticas de medo tem base empírica e teórica consistente. 

As motivações para o uso de EAA são múltiplas e frequentemente relacionadas à autoestima, à identidade corporal e à busca por pertencimento (12,16,20). A rotulagem moral do usuário como transgressor ou dependente ignora a complexidade dessas motivações e aprofunda o estigma social (8,16,20). Essa estigmatização limita o diálogo e reduz a confiança nos profissionais de saúde (8,10,19,22). Em contrapartida, abordagens centradas em escuta ativa, educação científica e estratégias de redução de danos demonstraram maior eficácia em promover engajamento, reduzir práticas de risco e favorecer a adesão a cuidados médicos (17,19,20,22,23). Revisões recentes indicam que o vínculo terapêutico é determinante para a mudança comportamental, superando o efeito de intervenções puramente informativas (14,17,23). 

A dimensão ética e institucional também deve ser considerada. Muitos médicos relatam insegurança para atender usuários ativos de EAA, seja por ausência de treinamento, seja pelo receio de parecerem coniventes com o uso (14,17,23). Essa lacuna formativa é agravada pela postura restritiva de conselhos e sociedades médicas, que, ao desestimular a discussão aberta sobre o tema, acabam perpetuando a desinformação (14,17,23). Tal censura velada desloca o debate científico para espaços informais e pouco qualificados, nos quais proliferam orientações empíricas e condutas sem base em evidências (8,10,16,20). A falta de capacitação adequada em farmacologia dos EAA, fisiologia hormonal e comportamento de risco compromete a capacidade do médico de exercer papel educativo e preventivo (14,17,23). Essa omissão institucional reforça o distanciamento entre a medicina e um grupo que, paradoxalmente, mais necessita de acompanhamento especializado. 

A ética médica, orientada pelos princípios de autonomia e beneficência, sustenta que o cuidado deve prevalecer sobre o julgamento. Negar acolhimento a quem utiliza EAA equivale a negar o princípio da não maleficência (14,17,23). Programas estruturados de redução de danos, implementados em países como Reino Unido e Austrália, mostram que a oferta de escuta, orientação sobre riscos, monitoramento laboratorial e aconselhamento empático reduzem complicações hepáticas, cardiovasculares e psiquiátricas (17,19,21-23). Esses resultados reforçam que a abordagem mais efetiva é aquela que integra conhecimento técnico, empatia e acompanhamento contínuo. 

Por fim, é fundamental que instituições médicas e educacionais assumam postura ativa na formação de profissionais aptos a compreender o uso de EAA em suas dimensões farmacológica, psicológica e social. A promoção de educação médica continuada, livre de censura e baseada em evidências, é essencial para que a medicina retome protagonismo no enfrentamento desse fenômeno (14,17,23). Iniciativas como os programas ATLAS e ATHENA demonstram que intervenções multidimensionais, ao equilibrar informação, desenvolvimento de habilidades e reflexão ética, alcançam resultados duradouros na prevenção do uso de EAA (3,4,15). A síntese desses achados aponta que o medo e a punição são instrumentos frágeis de saúde pública, enquanto o conhecimento e o diálogo são fundamentos sólidos de transformação. Somente a substituição do controle pelo cuidado permitirá que a medicina volte a ocupar seu papel central de orientar e proteger, e não de punir. 

CONCLUSÃO

As evidências analisadas indicam de forma consistente que campanhas baseadas em medo e políticas de repressão não são eficazes para prevenir o uso de EAA. Ao contrário, reforçam o estigma, ampliam o distanciamento entre usuários e profissionais de saúde e contribuem para o deslocamento do consumo para ambientes informais e desassistidos. O medo, quando utilizado como instrumento educativo, fracassa porque ignora os determinantes cognitivos e sociais que sustentam o comportamento, além de minar a percepção de autonomia e autoeficácia necessárias para a mudança. 

O enfrentamento do uso de EAA requer, portanto, uma mudança de paradigma. Estratégias centradas em educação equilibrada, empatia e redução de danos mostram-se mais coerentes com a realidade clínica e com os princípios bioéticos da medicina. O diálogo deve substituir a coerção, e o cuidado deve preceder o julgamento. É imperativo que médicos recebam formação adequada em farmacologia, endocrinologia e ciências do comportamento, capacitando-os a compreender o fenômeno em sua complexidade e a oferecer acompanhamento ético e seguro. 

A censura institucional, paradoxal e comumente realizada, e o tabu ainda presentes em parte das entidades médicas e acadêmicas impedem a circulação do conhecimento e perpetuam lacunas formativas. Promover um debate aberto, científico e destituído de preconceitos é condição essencial para reduzir danos, prevenir complicações e reconstruir a confiança entre médicos e usuários. Assim, o combate ao uso indevido de EAA não se alcança com medo ou proibição, mas com ciência, educação e humanização. 

REFERÊNCIAS

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1Médico, Diretor do Colégio Brasileiro de Medicina do Exercício e do Esporte E-mail:lucascc_med@hotmail.com  https://orcid.org/0000-0001-6329-2897