REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202601191008
Amanda Valuá da Silva Araújo1
Lucas Miranda Amgarten2
Resumo
Objetivos: Determinar o perfil epidemiológico dos casos de internação por tuberculose pulmonar registrados no estado do Tocantins no período compreendido entre janeiro de 2014 e dezembro de 2024. Analisar o número de óbitos e o coeficiente de mortalidade, seguindo as mesmas variáveis para determinar a eficácia do manejo dessa doença no estado. Metodologia: Trata-se de um estudo epidemiológico descritivo, transversal e quantitativo, cujos dados foram coletados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS) acerca do número de internações, número de óbitos e coeficiente de mortalidade, no período de janeiro de 2014 a dezembro de 2024. O perfil epidemiológico dos casos de tuberculose pulmonar no estado do Tocantins no período compreendido entre janeiro de 2014 a dezembro de 2024 indica que os pacientes com maiores índices de internação foram homens, pardos com idade de 30 a 39 anos. Já para os óbitos, os com maiores índices foram homens, pardos com faixa etária entre 30 a 39 anos. O coeficiente de mortalidade foi de 8,89.
Palavras-chave: Tuberculose Pulmonar; Pneumologia; Clínica Médica; Perfil epidemiológico.
Abstract
Objectives: To determine the epidemiological profile of cases of hospitalization for pulmonary tuberculosis recorded in the state of Tocantins between January 2014 and December 2024. To analyze the number of deaths and the mortality rate, using the same variables to determine the effectiveness of managing this disease in the state. Methodology: This is a descriptive, cross-sectional, quantitative epidemiological study, whose data were collected from the Hospital Information System (SIH/SUS) on the number of hospitalizations, number of deaths, and mortality rate from January 2014 to December 2024. The epidemiological profile of pulmonary tuberculosis cases in the state of Tocantins from January 2014 to December 2024 indicates that the patients with the highest hospitalization rates were men, brown-skinned, aged 30 to 39 years. As for deaths, the highest rates were among men, brown-skinned, aged 30 to 39 years. The mortality rate was 8.89,
Keywords: Pulmonary tuberculosis; Pulmonology; Internal medicine; Epidemiological profile.
Introdução
A tuberculose (TB), causada pelo Mycobacterium tuberculosis, persiste como uma das doenças infecciosas de maior mortalidade em escala global, representando um grave problema de saúde pública (SANTOS et al., 2020; FREITAS; MÜLLER; GAZETTA, 2022). Apesar dos esforços mundiais para seu controle, delineados em estratégias como a “End TB” da Organização Mundial da Saúde, a doença continua a afetar milhões de pessoas anualmente, com o Brasil figurando entre os países com maior carga da doença (OLIVEIRA et al., 2023; SILVA et al., 2022).
Epidemiologicamente, a tuberculose pulmonar é a forma clínica predominante e a principal responsável pela manutenção da cadeia de transmissão (FREITAS; MÜLLER; GAZETTA, 2022; SANTOS et al., 2021). No contexto brasileiro, dados recentes indicam uma incidência significativa, com dezenas de milhares de novos casos diagnosticados anualmente (OLIVEIRA et al., 2023; NASCIMENTO et al., 2022). A forma pulmonar não só acarreta maior morbidade ao paciente, mas também impõe um ônus substancial aos sistemas de saúde, exigindo diagnóstico precoce e tratamento supervisionado para interrupção da transmissão (SALES; MACIEL; ANDRADE, 2021).
O desafio da tuberculose pulmonar transcende a esfera biológica, estando intrinsecamente ligado aos determinantes sociais da saúde. Estudos demonstram que a doença afeta desproporcionalmente populações em situação de vulnerabilidade, como indivíduos privados de liberdade, pessoas vivendo com HIV/AIDS, populações indígenas e pessoas em situação de rua (SANTOS et al., 2020; GONÇALVES et al., 2023). Fatores como pobreza, baixa escolaridade, más condições de moradia e insegurança alimentar são barreiras estruturais que dificultam tanto o acesso ao diagnóstico quanto a adesão ao tratamento (SANTOS et al., 2021; HORTA et al., 2020).
O manejo clínico da tuberculose pulmonar é complexo. O tratamento padrão, embora eficaz, é prolongado (mínimo de seis meses) e baseado em um regime de múltiplos fármacos, o que frequentemente resulta em reações adversas e contribui para a baixa adesão terapêutica (SALES; MACIEL; ANDRADE, 2021; DALCOLMO; TIBERI, 2023). O abandono do tratamento é um dos principais entraves para a cura, aumentando o risco de recidiva, mortalidade e, crucialmente, o desenvolvimento de tuberculose multirresistente (TB-MDR), um desafio terapêutico ainda maior (SANTOS et al., 2020; SANTOS et al., 2024).
Diante desse cenário, agravado por desafios sanitários recentes — como a pandemia de COVID-19, que impactou negativamente os programas de controle da TB (SILVA et al., 2022; OLIVEIRA et al., 2023) — torna-se imperativo revisitar e fortalecer as estratégias de cuidado. A compreensão aprofundada dos fatores de risco, dos desafios na adesão ao tratamento e da epidemiologia local é fundamental para otimizar as políticas públicas e melhorar os desfechos clínicos dos pacientes com tuberculose pulmonar.
Objetivos
Determinar o perfil epidemiológico dos casos de internação por tuberculose pulmonar registrados no estado do Tocantins no período compreendido entre janeiro de 2014 e dezembro de 2024. Analisar o número de óbitos e o coeficiente de mortalidade, seguindo as mesmas variáveis para determinar a eficácia do manejo dessa doença no estado.
Para além disso, analisar perfis de outros nosocômios e verificar a existência de divergências em comparação com o obtido no Estado do Tocantins.
Metodologia
Trata-se de um estudo epidemiológico descritivo, transversal e quantitativo, cujos dados foram coletados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS) acerca do número de internações, número de óbitos e coeficiente de mortalidade, no período de janeiro de 2014 a dezembro de 2024.
Para fins de melhor detalhamento das informações obtidas, foram utilizadas as variáveis sexo (masculino/feminino), faixa etária (foi utilizada a mesma conformação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e cor/raça (branco, pardo, preto, amarelo e não identificado). Para além da análise epidemiológica, este estudo irá analisar e comparar os resultados obtidos com os encontrados em outros nosocômios, para isso foi incluída revisão da literatura, com a seleção artigos científicos relevantes publicados entre 2020 e 2025.
Resultados
Após a coleta de dados, tem-se que o número total de pacientes internados no estado do Tocantins em decorrência do diagnóstico de tuberculose pulmonar, no período compreendido entre janeiro de 2014 e dezembro de 2024, foi de 135. Sendo o ano de 2021 o que apresentou maior número de ocorrências de internação com 25 casos (18,52%).
Quanto às variáveis de análise, em relação ao sexo, o mais acometido foi o masculino com 101 casos (74,81%), quanto à cor/raça a mais acometida foi a parda com 89 casos (65,92%), quanto a faixa etária mais acometida foi a de 30 a 39 anos com 31 casos (22,96%), seguida pela faixa etária de 40 a 49 anos com 30 casos (22,22%).
Do número de óbitos, o número total registrado foi de 12 casos, sendo o ano com maior incidência o de 2020 e 2022 com 5 casos (41,67%), juntos totalizando 10 casos (83,34%).
Quanto às variáveis de análise, em relação ao sexo, o mais acometido foi o masculino com 9 casos (75%), quanto à cor/raça a mais acometida foi a parda com 6 casos (50%), quanto a faixa etária mais acometida foi a de 30 a 39 anos ou mais com 4 casos (25%), seguido pelas faixas etárias de 20 a 29 anos, 60 a 69 anos e 70 a 79 anos com 2 registros cada (16,67%).
O coeficiente de mortalidade do período de análise foi de 8,89, sendo o ano com maior índice foi o de 2022 com 50, seguido pelo ano de 2020 que obteve 26,32.
Discussão
Estudos em diferentes regiões apontam uma carga desproporcional da doença no sexo masculino. Em Maringá-PR (2014-2024), 71,76% dos casos eram homens (PINHEIRO et al., 2025), proporção similar à encontrada na Região Centro-Sul do Rio de Janeiro (2015-2019), com 69,64% (BORGES; GONÇALVES, 2021), e no estado do Pará (2005-2014), com 63,1% (SILVA et al., 2018).
Quanto à faixa etária, houve uma concentração na população economicamente ativa (20-49 anos), alinhando-se ao observado em Maringá-PR, onde o grupo de 20 a 39 anos representou 46,12% dos casos (PINHEIRO et al., 2025), e na Região Centro-Sul/RJ, com 38,73% (BORGES; GONÇALVES, 2021). Este padrão ressalta o impacto da TB não apenas na saúde individual, mas também na estrutura socioeconômica das famílias.
Em relação à raça/cor, a literatura frequentemente aponta a predominância da raça/cor parda, como no Pará (71,5%) (SILVA et al., 2018) e entre populações vulneráveis, como a privada de liberdade no Mato Grosso (70,3%) (MARQUES et al., 2024). A baixa escolaridade também é um marcador de vulnerabilidade, embora um estudo em São Luís-MA (2013-2023) tenha notado uma presença relevante de casos em indivíduos com ensino médio completo, sugerindo uma heterogeneidade nesse perfil (SANTOS et al., 2024).
No Pará, a forma pulmonar representou 87,3% dos casos (SILVA et al., 2018), e na Região Centro-Sul/RJ, 89,61% (BORGES; GONÇALVES, 2021). Em populações específicas, como a privada de liberdade no Tocantins (2008-2018), essa proporção foi de 93,4% (OLIVEIRA et al., 2021). No perfil nacional de 2021, casos novos representaram cerca de 79% das notificações (SILVA; SANTOS; PEREIRA, 2022), e ao da Região Centro-Sul/RJ, com 82,19% (BORGES; GONÇALVES, 2021).
A associação com comorbidades e fatores de risco é um pilar da vigilância. Este é um indicador crucial, e os valores variam amplamente. Um estudo nacional sobre a população em situação de rua (2014-2022) identificou alta prevalência de outros fatores, como alcoolismo (53,8%) e uso de drogas ilícitas (57,1%) (SILVA et al., 2024), também destacados como relevantes em Maringá-PR (PINHEIRO et al., 2025). Curiosamente, em um estudo sobre a população privada de liberdade no próprio estado do Tocantins, o HIV não se destacou como fator de risco principal (OLIVEIRA et al., 2021), indicando a necessidade de análises estratificadas.
Conclusão
O perfil epidemiológico dos casos de tuberculose pulmonar no estado do Tocantins no período compreendido entre janeiro de 2014 a dezembro de 2024 indica que os pacientes com maiores índices de internação foram homens, pardos com idade de 30 a 39 anos. Já para os óbitos, os com maiores índices foram homens, pardos com faixa etária entre 30 a 39 anos. O coeficiente de mortalidade foi de 8,89. O estudo demonstrou que o perfil epidemiológico dos casos de tuberculose pulmonar no HGPP nos últimos 10 anos seguiu os mesmos padrões de outros perfis já constituídos e estudados em outros estabelecimentos de saúde, estados da união e, até mesmo, com a avaliação nacional.
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1 Médica residente de clínica médica pela Universidade Federal do
Tocantins – amandavalua@hotmail.com ; ORCID: 0009-0005-4484-9211
2 médica especialista em clínica médica pela Universidade Federal do
Triângulo Mineiro e em geriatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo de
Ribeirão Preto – ; ORCID: 0000-0003-0609-299X
