PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE PACIENTES COM INFECÇÃO POR INFLUENZA H1N1 NO ANO DE 2013 EM BELÉM DO PARÁ 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202503142317


Izabel Cristina Ataide da Silva de Moura


RESUMO

A gripe é uma das doenças mais antigas da humanidade e nas últimas décadas o mundo vem enfrentando pandemias causadas pelos vírus influenza. O vírus da influenza é um vírus de RNA, pertencente à família Orthomyxoviridae. A necessidade de conhecimento sobre a epidemiologia dos pacientes infectados com influenza justificou a realização deste estudo. Assim sendo, este trabalho objetivou analisar a prevalência de casos de influenza HIN1 no ano de 2013 em pacientes internados em hospitais no município de Belém-PA. A pesquisa foi analisado o banco de dados do SINAN do Ministério da Saúde, a partir de fichas de registros de casos de SRAG, confirmado para influenza HIN1 (57 casos). Nas associações e comparações foram aplicados testes não paramétricos (Qui-quadrado, Teste G, Mann-Whitney), por meio do Software Bio Estat 5.3. Foi encontrado maior prevalência (p<0,05) nos pacientes com faixa etária de 0 a 9 anos, do gênero feminino, dentre os sintomas o mais comum foi a tosse, a maioria (87,7%) fez uso de antiviral oseltamivir e não necessitou de uso de suporte ventilatório, evoluindo com alta hospitalar. É imprescindível a realização de trabalhos futuros, para que tais ocorrências possam ser evitadas e/ou minimizadas, para que possa servir de benefício para a sociedade.

Palavras-Chaves: Síndrome Respiratória Aguda Grave. Síndrome do Desconforto Respiratório do Adulto. Vírus da Influenza A Subtipo H1N1. Epidemiologia.

1. INTRODUÇÃO

A gripe é tida como uma das mais antigas doenças conhecidas da humanidade. Acredita-se que o primeiro relato de um provável surto epidêmico de gripe remonta à época de Hipócrates (século V antes de Cristo). Considerado o “pai da medicina”, ele descreveu uma doença respiratória que teve uma mortalidade alta na região de Perinthus, no norte da Grécia e depois de algum tempo desapareceu (AUERBACH ET AL., 2013).

O termo gripe tem origem da palavra francesa grip, que significa “garra” ou “gancho”, por ser uma doença que ataca bruscamente. Em vários países a doença é designada influenza, expressão que derivou do vocabulário italiano “influência”, pois incluía todo conjunto de doenças que hoje denominamos como infecciosas. Ele baseia-se no conceito hipocrático que entre outros, defendia que esse tipo de patologias surgia devido à influência do clima e dos astros (AUERBACH ET AL., 2013).

Ao longo dos tempos o mundo vem enfrentando pandemias causadas pelos vírus influenza, que resulta em aumento importante nas taxas de morbimortalidades. Essas pandemias geralmente acontecem em um intervalo de 10 a 40 anos, cujas alterações gênicas na composição desses vírus, permitem a circulação de um subtipo viral não reconhecido pelo sistema imune humano (ISON & LEE, 2010).

No século XX, ocorreu a gripe de 1918-1919, também conhecida como gripe espanhola. Esta foi causada pelo subtipo HIN1, que apresentou uma taxa de mortalidade de 2,5% (na época era menos de 0,1% para os surtos de gripe) tendo atingido principalmente os segmentos mais jovens da população, sendo responsável por mais de 50 milhões de mortes (YOSHIKURA, 2014).

Em fevereiro de 1957, ocorreu outra pandemia, denominada gripe Asiática, começando no sul da China e logo se espalhando para Singapura, Hong Kong, Japão, Estados Unidos e Inglaterra. Causada pelo subtipo H2N2, uma recombinação viral entre cepas humanas e aviárias (NEUMANN ET AL., 2009).

Em 1968 ocorreu a Gripe de Hong Kong (H3N2), determinada por uma nova recombinação entre vírus aviários e humanos. Nos Estados Unidos, esse vírus causou 33.800 mortes (YOSHIKURA, 2014).

Em maio de 1977 outro pico de infecção pelo Influenza começou na China, afetando adultos jovens, o que ficou conhecido como a Gripe Russa. Essa nova pandemia ocorreu pelo vírus HIN1 muito semelhante ao que havia circulado no começo dos anos 50. O reaparecimento do HIN1 não substituiu o H3N2, e esses dois vírus circularam juntos em humanos, determinando uma nova recombinação com o surgimento do HIN2 em 2001, entretanto esse novo subtipo desapareceu (PEIRIS ET AL., 2009).

Em março de 2009 houve o surgimento da Influenza A HIN1 no México, mas foi em abril, quando o alerta do vírus foi realizado após a detecção em laboratório canadense, que o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) anunciou a identificação de um novo vírus influenza em dois doentes na Califórnia. O novo vírus era resultante da recombinação do vírus influenza de origem suína, aviária e humana, tinha características de uma estirpe pandémica: era transmissível pessoa a pessoa, era virulento e os humanos não possuíam imunidade para aquele vírus, a pandemia foi declarada em Junho (WANG & PALESE, 2009).

É válido salientar que ainda que o número de casos de infecção por HIN1 tenha sido reduzido significativamente desde a pandemia de 2009, inúmeros estudos apontam que o vírus continua circulando em conjunto com outros vírus sazonais, com diferentes prevalências (BRASIL, 2012).

Segundo dados do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN) do Ministério da Saúde, pode-se verificar casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) notificados e confirmados para influenza A nos anos de 2009, 2010 e 2011, verificou-se que houve maior prevalência do Vírus Respiratório Sincicial (VRS) na Região Norte nos três anos; na Região Nordeste houve predomínio do influenza A em 2009 e VRS em 2010 e 2011; na Região Sudeste houve predomínio do influenza A e VRS no ano de 2009 e VRS em 2010 e 2011; na Região Sul predominou a circulação do influenza A nos anos de 2009 e 2011 e do influenza B em 2010 e na região Centro-Oeste obteve destaque o influenza A no ano de 2009, VRS em 2010 e influenza A e VRS em 2011.

Quando observado mais especificamente o estado do Pará, constatou-se um grande número de casos (477) no ano de 2009 e nos anos de 2010 (281 casos) e nenhum caso em 2011. O que se justifica pelo fato do vírus estar no período pandêmico que ocorreu no início do ano de 2009 até agosto de 2010, após esse tempo se deu início a fase pós- pandêmica, onde o vírus ainda continuou se disseminando, porém em menor intensidade. Segundo dados do SINAN, em 2012, no Pará foram notificados 160 casos de SRAG, destes apenas 3 foram causados pelo Influenza H1N1 (BRASIL, 2012; BRASIL, 2013).

Em 1931 o Americano Richard Shope isolou, pela primeira vez, o vírus da gripe nos porcos. Sendo que o primeiro vírus humano somente foi descrito em 1933 pelos ingleses Smith, Andrews e Laidla e foi denominado de vírus A. Já o vírus B só foi descoberto em 1940 e o vírus C em 1947 (DERENE & BRICAIRE, 2006).

A gripe é uma síndrome específica do trato respiratório causada principalmente pelos vírus da influenza A e B, que pode atacar pessoas de todas as idades, este vírus manifesta uma grande variabilidade antigênica, e com isso é capaz de gerar cepas virais antigenicamente distintas a cada dois ou três anos (JENNINGS ET AL., 1985; AMORIN ET AL, 2013).

O vírus da influenza é um vírus de RNA, pertencente à família Orthomyxoviridae, constitui o tipo mais estudado de vírus associado ao homem, podendo ser classificado em A, B e C. O vírus do tipo A é o principal responsável pelas grandes epidemias, infectando humanos e outros animais (aves, mamíferos). O vírus do tipo B infecta humanos (gripe sazonal) e causa pequenas epidemias, enquanto o vírus C também é exclusivo de humanos, e não é epidêmico (MARTINEZ, 2009; ROBERTSON, 2009).

Com relação à estrutura da partícula viral, os vírus Influenza apresentam de 80-120 nanômetros de diâmetro, e suas partículas são pleomórficas, podendo ser filamentoso ou esférico. A superfície exterior do vírion encontra-se protegida por um envelope de dupla camada lipídica, derivado da membrana citoplasmática da célula hospedeira, onde são inseridas as proteínas de superfície hemaglutinina (HA), que apresenta um importante papel na patogenicidade do vírus e medeia ligação ao receptor celular e fusão à célula infectada; a neuraminidase (NA), que está envolvida na liberação do vírus da célula, e M2, uma proteína transmembrana que atua como canal iônico. A proteína de matriz Ml forma uma camada interna ao envelope viral, e envolve o complexo RNP (ribonucleoproteína), que é formado pelo genoma viral, pela RNA polimerase (medeia a replicação da partícula) e pela nucleoproteína (NP) (SCHNITZLER, 2009). (Figura 1)

Figura 1 – Estrutura da partícula viral, os vírus Influenza H1N1
Fonte: https://www.medicinanet.com.br/ (2024)

Com relação a fisiopatologia do vírus, a infecção viral começa com a transmissão do hospedeiro infectado para o não infectado através de partículas respiratórias pequenas (<10 um = aerossóis) ou grandes (gotículas). A transmissão por partículas pequenas (aerossóis) requer um número cem vezes menor para iniciar uma infecção (FLAHAULT, 2009).

No trato respiratório, o vírus influenza pode se ligar a mucoproteínas ou anticorpos IgA da mucosa, ser varrido pelo sistema mucociliar ou se ligar a uma célula do epitélio colunar. Esta se dá entre o sítio de ligação da HA ao ácido siálico na superfície da célula. A diversidade genética deste ácido constitui uma barreira interespécies, obrigando mutações para novas adaptações. Os porcos expressam polimorfismo do ácido siálico, isso faz. com que ocorra coinfecção por vírus humanos e aviários, dessa forma um rearranjo genético será necessário para sobrepujar a barreira imunológica dos humanos (KRAUSE ET AL., 2009).

Posteriormente a ligação nas células do epitélio colunar, o vírus inicia uma intensa replicação, junto com outros eventos que resultam com a morte celular. O bloqueio da síntese proteica através da degradação de novas moléculas de RNAm e bloqueio das antigas leva à perda de proteínas críticas e a expressão de alguns antígenos interfere no funcionamento mitocondrial, induzindo apoptose. Este evento pode acontecer tanto em células do epitélio respiratório alto, bronquial e alveolar. Ocorre a liberação de novos vírus por brotamento, permitindo a infecção de células adjacentes, à medida que após alguns ciclos de replicação ou cerca de 1 a 3 dias após o início da infecção, um grande número de células respiratórias entra em processo de necrose e liberação viral (WALKER, 2010).

As repercussões respiratórias causadas após a infecção com o vírus H1N1 incluem aumento da resistência pulmonar, particularmente nas vias aéreas menores que 2mm de diâmetro, aumento da resposta à broncoestimulação, redução da capacidade de difusão de monóxido de carbono e aumento do gradiente alvéolo-arterial de oxigênio. Essas alterações podem durar por várias semanas após a recuperação e serem mais evidentes em pacientes imunocomprometidos (CUNHA, 2010).

Esse efeito leva a um quadro denominado Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), que é caracterizada como uma síndrome gripal que evolui com comprometimento da função respiratória, sem outra causa específica, que na maioria dos casos leva à hospitalização. Geralmente são causados por vírus respiratórios, dentre os quais predominam os da influenza do tipo A c B; ou por bactérias, fungos e outros agentes (WALKER, 2010).

Segundo Marchiori et al. (2010) e Nicolini (2011), os achados clínicos mais comuns na apresentação da infecção pelo vírus HINI são febre, tosse, dispneia, mialgia e cefaleia, em alguns casos ocorrem sintomas gastrointestinais, tais como náuseas, vômito e diarreia. Na maioria dos casos, os sintomas são leves e com evolução autolimitada, no entanto, alguns indivíduos tem um curso grave, que pode resultar em insuficiência respiratória e morte (PEREZ ET AL., 2009; MAUAD ET AL., 2010).

O que pode levar ao agravo da doença ou mesmo ao óbito são as complicações decorrentes da influenza HIN1. Estas complicações estão diretamente ligadas à resposta do organismo frente a infecção, que pode ser desde uma leve infecção viral até um quadro de resposta inflamatória sistêmica. As complicações respiratórias podem se apresentar no início da doença, como a Insuficiência Respiratória Aguda (IRpA), e evoluir rapidamente para Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA) (PEREZ ET AL., 2009).

A SDRA é uma doença grave que se apresenta clinicamente como uma lesão pulmonar aguda e que se caracteriza por um dano alveolar difuso, pelo desenvolvimento de edema pulmonar não cardiogênico decorrente de aumento da permeabilidade da membrana alvéolo-capilar pulmonar, podendo ser classificada como Leve, Moderada ou Grave. Para se diagnosticar se há SDRA associada a Influenza IIN1, é preciso observar alguns critérios, tais quais: lesão pulmonar de instalação aguda (um a três dias), infiltrado radiológico bilateral consistente com edema pulmonar não cardiogênico, PaO2/FiO2 menor que 200, pressão capilar menor que 18 mmHg ou ausência clínica ou ecocardiográfica de disfunção do ventrículo esquerdo (RELLO ET AL., 2009; DIRETRIZES BRASILEIRAS DE VENTILAÇÃO MECANICA, 2013).

O tratamento é prescrito mediante a suspeição clínica, para alguns grupos de pacientes (crianças com menos de 2 anos, idosos, doentes crônicos, obesos mórbidos, gestantes e indígenas) que corram risco potencial de evoluir com formas graves da doença, independente de fatores de risco ou de confirmação laboratorial. As drogas antivirais são mais eficazes se forem iniciadas dentro das 48 horas depois do início dos sinais clínicos, mas podem ser iniciadas mesmo após esse período, principalmente em pacientes do grupo de risco para complicações. Ressaltando que a resistência ao antiviral pode se desenvolver rapidamente ou durante o tratamento (REWAR ET AL., 2015).

Os inibidores de neuraminidases (oseltamivir e zanamivir) são as drogas de escolha para o tratamento e profilaxia da influenza. Sendo que o oseltamivir deve ser considerado a primeira escolha terapêutica, enquanto o zanamivir deve ser guardado para o tratamento de pacientes cujo vírus tenha demonstrado resistência ao oseltamivir ou para aqueles que apresentarem reações adversas (CARNEIRO ET AL., 2010).

O oseltamivir (Tamiflu®) age inibindo seletivamente as neuraminidases, glicoproteínas de liberação dos vírions, ou seja, ele impede a saída do vírus de uma célula para outra. Tem como objetivo reduzir as complicações, diminuição da taxa de utilização de antibióticos, redução no tempo de duração dos sintomas, diminuição das internações hospitalares e óbito (REWAR ET AL., 2015).

O zanamivir (Rclenza®), é um antiviral de inalação oral, assim como o osetalmivir também é capaz de diminuir a duração da doença em cerca de 24 horas. Ressaltando que as evidências quanto à capacidade do zanamivir de diminuir o surgimento de complicações ou casos graves são ainda mais frágeis que as do oseltamivir. Ele não está liberado para uso em crianças menores de 5 anos ou mulheres grávidas (CHOCKALINGAM ET AL., 2016).

O paracetamol ou ibuprofeno podem ser utilizados para febre, mialgia e dores de cabeça, os pacientes são aconselhados a beber muito líquido, os fumantes devem evitar fumar. Salicilatos, aspirina, são estritamente contraindicados em qualquer paciente com a gripe devido ao seu potencial para causar síndrome de Reye. Pacientes com sinais de taquipnéia, dispnéia, insuficiência respiratória e saturação de oxigênio inferior a 90% deve ser complementada com a terapia de oxigênio. Os pacientes com pneumonia grave (oxigênio no sangue <90% e da pressão parcial de oxigênio <60 mm Hg com a terapia de oxigênio) e insuficiência respiratória aguda deve ser apoiada com ventilação mecânica (REWAR ET AL., 2015).

A recuperação pulmonar dos pacientes tende a ser lenta, com alterações persistentes de imageamento tomográfico, Estudos espirométricos e de função pulmonar inicial mostram uma tendência a distúrbios restritivos, com diminuição dos volumes pulmonares e da capacidade de difusão (RELLO ET AL., 2009).

Como pode ser observado, as epidemias de influenza têm potencial para grande morbimortalidade na população, e a gravidade de suas complicações clínicas causam efeitos negativos no plano socioeconômico. Contudo apesar do vírus influenza HINI está na fase pós-pandêmica, segundo dados do boletim de vigilância epidemiológica do Ministério da Saúde do ano de 2013, ele ainda está presente causando pequenos surtos. As buscas foram realizadas nas bases de dados da Pubmed, Scielo, Lilacs, Medline e Plataforma PEDro, com as palavras-chaves Vírus da Influenza A Subtipo H1N1 e Síndrome Respiratória Aguda Grave, nos idiomas inglês, português e espanhol. Desta forma, esta pesquisa tem como objetivo o conhecimento do perfil epidemiológico desses pacientes no ano de 2013, produzindo conhecimento para a sociedade e para os profissionais da saúde.

2. MATERIAL E MÉTODOS

Tratou-se de uma pesquisa quantitativa, ecológica, analítica-descritiva, com um estudo de coorte retrospectivo, onde foi feita análise no banco de dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAM) no Departamento de Vigilância à Saúde (DEVS). Foram inclusos na pesquisa pacientes com diagnostico confirmado para influenza A H1N1, de qualquer faixa etária ou sexo, internados em hospitais no município de Belém-PA, que apresentassem dados preenchidos de forma correta, independente do município de procedência. Foram encontrados 58 casos, sendo um excluído por apresentar dados incorretos. A pesquisa iniciou após a autorização Termo de Consentimento para Utilização de Dados (TCUD) da SESMA/DEVS.

Para a ficha de coleta de dados (Anexo A), foram analisadas as seguintes variáveis: idade, gênero, gestação, grau de escolaridade, sintomas apresentados, comorbidades associadas, data de início dos primeiros sintomas, uso de antiviral, data do início do antiviral, suporte ventilatório, internação em UTI e evolução da doença.

Na análise estatística, foi estipulado como nível de significância e de decisão para rejeição da hipótese de nulidade alfa = 0,05 ou 5%. Nas associações e comparações foram aplicados testes não paramétricos (Qui-quadrado, Teste G, Mann Whitney), levando-se conta a amostra, variável e o tipo de dado (categórico) com 95% de nível de confiabilidade para realização da presente pesquisa, dotando-se para realização da análise estatística em todos os testes o suporte do Software BioEstat 5.3. As variáveis associadas foram: Data de início dos sintomas, início do tratamento medicamentoso e evolução da doença; comorbidades associadas e evolução da doença; tipo de suporte ventilatório e evolução da doença.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Segundo dados do SINAN no ano de 2013 foram encontrados um total de 72 casos de pacientes positivos para influenza no estado do Pará, onde 58 foram internados em hospital no município de Belém, 2 casos em hospital em Ananindeua e 12 casos ignorados. Destes 58 casos, 1 foi excluído por apresentar dados preenchidos de forma errônea. Sendo assim esta pesquisa contou com uma amostra de 57 pacientes.

Com relação a faixa etária dos pacientes, observou-se maior prevalência significativa nos que apresentavam faixa etária no intervalo de 0 a 9, enfatizando o risco da doença e sua maior disseminação na faixa etária infantil, o que possivelmente justifique as políticas preventivas e educativas serem amplamente voltada para essa população, caracterizando-a como um dos grupos de risco. Nesta pesquisa observou-se uma média de idade de 29 anos, se equiparando com estudos de Chacon et al. (2015) onde a idade média foi de 32 anos.

Com relação a variável gênero, houve maior prevalência significativa com 73,7% casos sendo do sexo feminino. Onde há uma discordância parcial de outros estudos, onde foi observado aproximadamente uma proporção igual entre ambos os sexos, como em estudos de Chacon et al. (2015), onde 55% dos casos de influenza HIN1 eram do sexo feminino e Rossetto & Luna (2015), com 56,73% de casos do sexo feminino. Nota -se que em ambos têm uma pequena tendência ao sexo feminino, diferente do estudo de Alavi et al. (2014) onde 54,1% dos casos foram do sexo masculino.

Quando analisado o grau de escolaridade este estudo apresentou um elevado número de variáveis não preenchidas tidas como ignoradas (42,1%), assim como em estudos de Marques (2012), onde no ano de 2009 a maioria desses dados também foram ignorados (36,1%), isso pode ser associado a diversos fatores, entre eles a falta de atenção dos profissionais de saúde, incapacidade do paciente em responder as perguntas, desconhecimento por parte dos acompanhantes ou até mesmo sua ausência, por ser uma doença altamente contagiosa.

Com relação a sintomatologia as mais prevalentes nesta pesquisa foram tosse (98,2%), febre (93 %), dispneia (93%), concordando os resultados desta pesquisa estão diversos estudos, entres eles, Machado (2009), apresentando como sintomas mais comuns febre (94%) e tosse (92%); Chacon et al. (2015) com o mais prevalente sendo Dispneia (68%); Rossetto & Luna (2015) onde os mais comuns foram febre (99,74%), tosse (99,59%) e dispneia (95,11%); Alavi et al. (2014), onde os sinais e sintomas mais prevalentes foram febre (96%) e tosse (86,6%); e Busaidi et al. (2016) em seu estudo observou que todos os pacientes tiveram febre e a grande maioria (79%) apresentou tosse. Todos estes estudos corroboram com os resultados desta pesquisa e o que se pode constatar com isso é que os sinais e sintomas mais prevalentes são febre, tosse e dispneia, servindo com isso de fonte de informação e alerta para os possíveis casos de Influenza H1N1.

Segundo o uso de antiviral, nesta pesquisa uma maioria significativa de 87,7% fez uso antiviral osetalmivir.  Dados semelhante foram encontrados na pesquisa de Chacon et al. (2015), onde 65% dos indivíduos realizaram tratamento com Oseltamivir, e quando comparado início dos sintomas e tratamento com a variável evolução da doença, o que foi concluído é que os pacientes que tiveram alta obtiveram uma média de 7 dias de início do tratamento, enquanto que nos pacientes que evoluíram a óbito obtiveram uma média de 4 dias, sendo que é recomendado que o tempo de início do tratamento com o antiviral seja de até 48 horas após o aparecimento dos sintomas, no entanto segundo Martins (2012) em seu estudo no qual o tratamento medicamentoso mostrou benefícios mesmo após esse intervalo de 48 horas, igualmente como observado nesta pesquisa. (Tabela 1)

Tabela 1 – Distribuição dos indivíduos com relação ao início dos sintomas e o início do tratamento
Fonte: Pesquisa de Campo (2015)

Sendo assim, quando se questiona o motivo pelo qual os pacientes que iniciaram o tratamento precocemente (4 dias) evoluíram a óbito, surge a hipótese de uma associação com número de comorbidades associadas, ou seja, quanto maior o número de morbidades relacionadas, maiores as chances de óbito. Quando se correlacionou a variável comorbidades com a evolução da doença, o que se constatou foi que dos que tiveram alta todos apresentavam no máximo 2 comorbidades associadas, e dos que evoluíram a óbito apresentavam até 3 ou mais comorbidades associadas. Semelhante ao encontrado no estudo de Lenzi et al. (2013), onde as comorbidades, influenciaram significativamente nos desfechos dos pacientes tratados, causando aumento nas taxas de óbitos mesmo na vigência do uso de antiviral; e Busaidi et al. (2016) onde as comorbidades foram uma das razões mais comuns para admissão de pacientes com Influenza H1N1 no hospital. (Tabela 2)

Tabela 2 – Distribuição da variável evolução da doença segundo comorbidades associadas
Fonte: Pesquisa de Campo (2015)

Com relação a distribuição dos indivíduos segundo o suporte ventilatório utilizado observou-se que a maioria 40,3% não fizeram uso de suporte algum, um estudo feito na Índia, vem ratificar essa mesma conclusão, uma vez que a maioria dos pacientes (73.02%) participantes do estudo não necessitaram de uso de suporte ventilatório. Ao se comparar as variáveis tipo de suporte ventilatório e a evolução da doença, foi apurado que dos pacientes que receberam alta, 91,67% fizeram uso da VNI, para reverter quadro de desconforto respiratório de leve a moderado, discordando dessa forma com a recomendação da AMIB, onde a VNI é contra indicada nestes pacientes. Os pacientes que evoluíram a óbito 66,6% fizeram uso de suporte invasivo, isso pode ser associado com maior gravidade da doença e a necessidade de entubação, assim como a associação entre o uso de VMI e maior taxa de mortalidade (PATEL & GORMAN, 2013). (Tabela 3)

Tabela 3 – Distribuição dos indivíduos segundo suporte ventilatório e evolução da doença
Fonte: Pesquisa de Campo (2015)

Muito dos pacientes acometidos pelo influenza HIN1 têm um decurso rápido da doença, com evolução para SDRA, porém o que se observou neste estudo foi que a maioria dos pacientes (47,4%) não necessitou de internação em UTI, concordando com estudos de Esquinas et al. (2014) onde 70 a 90% dos pacientes também não precisaram de internação em UTI. Assim como a maioria (77,2%) evoluiu com alta hospitalar, igualmente dos resultados encontrados em Rossetto & Luna (2015) onde a maioria dos casos, (93,77%), evoluíram para a cura. Pode-se procurar associar isto com uma menor gravidade da doença nestes pacientes, fazendo com que eles tenham tido uma boa evolução da doença. (Tabela 4)

Tabela 4 – Distribuição dos indivíduos segundo a evolução da doença
Fonte: Pesquisa de Campo (2015)

4. CONCLUSÃO

O vírus influenza HINI tem se mantido constante na população, reemergindo sazonalmente, nesta pesquisa foi constatado que ele acometeu mais as crianças, sendo mais prevalente na faixa etária de 0 a 9 anos de idade, teve como sintomas mais prevalentes tosse, febre e dispneia, sendo que a maioria dos pacientes fizeram uso antiviral (oseltamivir).

Os pacientes que foram de alta tiveram uma média de 7 dias para iniciar o tratamento medicamentoso, enquanto os que evoluíram a óbito tiveram 4 dias, demonstrando com isso que os benefícios perduram mesmo após o tempo recomendado. Dos pacientes que receberam alta, eles apresentaram até duas comorbidades associadas e dos que foram a óbito, eles apresentaram até mais de três comorbidades associadas. Sugerindo com isto que este fator seja uma variável intimamente ligada com o desfecho morte, ou seja, quanto mais comorbidades associadas, maiores as chances de óbito do paciente.

Dos pacientes internados a maioria não precisou de cuidados em Unidades de Terapia Intensiva e nem de Suporte Ventilatório, com predomínio de alta hospitalar.

É imprescindível a realização de trabalhos futuros, de forma que essas pesquisas venham trazer inúmeros benefícios a sociedade acadêmica e a população, fazendo com que melhore a superlotação em hospitais, uma vez que por meio destas, poderemos agir no foco das doenças. Vale ressaltar ainda que conforme foi citado na pesquisa, esses vírus apresentam um padrão sazonal, sendo assim os coordenadores de saúde poderão se antecipar a possíveis novas pandemias de influenza, tendo como foco principal a criação de estratégias de combate ao avanço dessas doenças.

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