PERFIL E DESFECHO CLÍNICO DE PACIENTES INTERNADOS  DIAGNOSTICADOS COM INFECÇÃO RELACIONADA À ASSISTÊNCIA À SAÚDE  EM UM HOSPITAL PÚBLICO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202509041303


João Pedro Fernandes Doneux
Orientadora: Profa. Me. Maria Antonieta Velosco Martinho


RESUMO 

As infecções relacionadas à assistência à saúde geram sérios problemas que assolam  a saúde pública, aumentando a morbidade e a mortalidade dos pacientes que as  contraem. Essas infecções também encarecem o tratamento, pois demandam novos  medicamentos e estratégias para superá-las. Este estudo descreve o perfil e os  desfechos clínicos de pacientes adultos com infecção relacionada à assistência à  saúde internados em um hospital público da Baixada Santista. Trata-se de uma  pesquisa de campo com abordagem quantitativa, utilizando dados retrospectivos de  prontuários físicos e eletrônicos. A pesquisa identificou dois perfis principais: ambos  com idade média de 57,5 anos, prevalência de hipertensão e ausência de quadro  oncológico. O primeiro perfil inclui pacientes do sexo feminino, internados na unidade  de terapia intensiva, com infecção primária de corrente sanguínea causada por A.  baumannii, resultando em óbito sem recuperação da infecção. O segundo perfil inclui  pacientes do sexo masculino, internados na clínica médica, com infecção primária de  corrente sanguínea ou infecção relacionada ao cateter por S. aureus ou K.  pneumonia e alta hospitalar após recuperação da infecção. Apesar das campanhas  de higienização das mãos, os índices nacionais de infecções relacionadas à  assistência à saúde permanecem elevados, indicando a necessidade da elaboração de novas abordagens, como estratégias voltadas à empatia dos profissionais com os  pacientes, tratando-os com maior atenção e cuidado. De forma complementar, traçar  o perfil clínico e epidemiológico dos pacientes e seus locais de internação, além de  fornecer dados, alimentando pesquisas semelhantes para aprofundar o conhecimento  do tema, também poderá contribuir para diminuir infecções. 

Palavras-chave: Infecção relacionada à assistência à saúde, IRAS, Enfermagem,  Desfecho clínico.

ABSTRACT 

Healthcare-associated infections pose serious problems that plague public health,  increasing morbidity and mortality among patients who contract them. These infections  also increase treatment costs, as they require new medications and strategies to  overcome them. This study describes the profile and clinical outcomes of adult patients  with healthcare-associated infections admitted to a public hospital in Baixada Santista.  This is a field study with a quantitative approach, using retrospective data from physical  and electronic medical records. The study identified two main profiles: both with a  mean age of 57.5 years, prevalence of hypertension, and absence of cancer. The first  profile includes female patients admitted to the intensive care unit with primary  bloodstream infection caused by A. baumannii, resulting in death without recovery from  the infection. The second profile includes male patients admitted to the medical clinic  with primary bloodstream infection or catheter-related infection by S. aureus or K.  pneumoniae and hospital discharge after recovery from the infection. Despite hand  hygiene campaigns, national rates of healthcare-associated infections remain high,  indicating the need for new approaches, such as strategies aimed at fostering empathy  between professionals and patients, treating them with greater attention and care. In  addition, profiling the clinical and epidemiological characteristics of patients and their  places of hospitalization, as well as providing data to fuel similar research to deepen  knowledge on the subject, may also contribute to reducing infections. 

Keywords: Healthcare-related infection, HAI, Nursing, Clinical outcome.

1. INTRODUÇÃO 

A assistência por parte dos profissionais da saúde vai além do conforto e  cuidado, envolvendo a prevenção e a cooperação mútua entre as áreas de atuação,  visto que durante a assistência à saúde precisamos zelar pela segurança do paciente,  desde a higiene das mãos e do ambiente até a segurança no uso de tecnologias. Ao  longo de sua estadia na unidade de saúde, o paciente é exposto a múltiplas formas  de se contrair uma infecção relacionada à assistência à saúde (IRAS), devido às  diversas ações invasivas em locais específicos do corpo, nomeados sítios de infecção  (SI). São exemplos de SI: 

1 – Infecção no trato respiratório (ITR) está geralmente relacionada com a  ventilação mecânica, denominada pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV), que pode ser tanto em centro cirúrgico (CC), quanto em unidades de terapia  intensiva (UTI). Um estudo em um hospital do Paraná indicou que 98,5% dos  pacientes da instituição com ITR foram submetidos ao dispositivo em sua internação,  indicando uma associação entre seu uso e as IRAS. A pesquisa ainda aponta que  53,3% dos pacientes com ITR tiveram o óbito como desfecho clínico, porém, não  detalha se foram ou não decorrentes da infecção. (Lemos et al., 2021);  

2 – Infecção primária da corrente sanguínea (IPCS), geralmente relacionada ao  cateter venoso central (CVC) e periférico (CVP), está entre as principais formas de se  contrair sepse no contexto hospitalar, com publicações indicando que um em cada  quatro casos de sepse em hospitais e um em cada dois casos de sepse em UTI´s  resultam de IRAS (WHO, 2020). 

A sepse é a resposta inflamatória decorrente da infecção da corrente sanguínea  por microrganismos, que, quando é atestada como a principal responsável pelo óbito,  é considerada um código garbage de nível um pela Global Burden of Disease 2017.  Entende-se que os códigos de nível um podem causar a ocultação da doença que  originou a internação, e o encobrimento das comorbidades prévias, assim como  possíveis complicações na estadia, ocasionando perda parcial das informações do  paciente no desfecho clínico, possibilitando que parte dos atestados de óbito por  sepse, na verdade, estejam equivocados e imprecisos, dificultando a realização de  estudos (Santos et al., 2019);  

3 – Infecção do trato urinário (ITU) no contexto das IRAS é fortemente  associada à passagem de sonda vesical de demora (SVD), segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA, 2017), estimando-se que até um quarto dos  pacientes hospitalizados são submetidos a tais sondas, por vezes utilizadas de  maneira equivocada, com uso além do necessário, mesmo com complicações  associadas à sua utilização, como desconforto, traumas uretrais e a ITU. Indo de  acordo com os dados anteriores, um estudo realizado na UTI de um hospital do Rio  Grande do Sul demonstrou que, de seus 140 pacientes internados, 62,9% contraíram  ITU, e dentre eles, 63,6% utilizaram a SVD, com permanência média da sonda entre  15 e 18 dias (Almeida et al., 2020). O estudo em questão não destaca se os pacientes  foram a óbito;  

4 – Infecção no sítio cirúrgico (ISC) é costumeiramente associada ao risco  envolvido na quebra de barreira natural, ligada ao comprometimento de uma cirurgia,  sendo passiva de contaminação tanto por fontes endógenas, ao transferir a microbiota  do paciente, como a da pele ou das mucosas para dentro da incisão cirúrgica, quanto  por fontes exógenas, que podem estar relacionadas à equipe cirúrgica, como por  quebra de técnicas assépticas ou sujidade nas vestimentas (SBIBAE, 2014). 

Um estudo realizado no Pará, sobre ISC em cirurgias ortopédicas, aponta que  alguns dos fatores determinantes para se desenvolver ISC são: a duração do  procedimento, tempo de internação pré-operatório, idade do paciente, comorbidades  e a implantação de prótese no paciente. Além de listar estes fatores, a pesquisa  também concluiu que a instituição estudada atingiu uma média anual de 2,1% de ISC,  resultado ruim se comparado a países desenvolvidos, como Estados Unidos da  América (EUA) e Canadá, que possuíam respectivamente a média anual de 0,7% e  1,22%, porém, acima de países menos desenvolvidos, como Índia e Senegal, com  respectivamente 6,5% e 9% de média anual. Embora o estudo tenha abordado dados  relevantes do pós-operatório, não relatou o desfecho clínico dos pacientes envolvidos  (Coutinho et al., 2022). 

Para evitar IRAS e estimular uma assistência segura, é essencial seguir  atentamente as orientações da cartilha: 10 passos para a Segurança do Paciente, do  Conselho Regional de Enfermagem do Estado de São Paulo (Coren-SP), como um  complemento às seis metas internacionais para a segurança do paciente, ressaltando  aos profissionais de saúde como é possível, com a boa higiene das mãos e práticas  custo-efetivas, evitar até 70% das IRAS, segundo publicação da Organização Mundial  da Saúde (OMS). Estima-se ainda que 15 a cada 100 pacientes em países de baixa  e média renda – sendo este o caso do Brasil – adquirirão ao menos uma IRAS durante seu período de internação no mundo, enquanto um em cada 10 destes evoluirá a óbito  (OMS, 2022 apud ONU, 2022). 

Aponta-se que uma parcela dos profissionais da saúde – inclusive aqueles que  possuem ensino superior – não consegue compreender o motivo da higienização das  mãos dentro do âmbito hospitalar, indicando a necessidade de realizar intervenções  conscientizadoras mais incisivas, para que os passos se tornem hábitos duradouros  e constantes [Neves et al., ca.2021 apud Souto et al., 2023].  

Tende-se a que, conforme os anos passem, por consequência da resistência  que bactérias e vírus têm adquirido, a quantidade de pacientes diagnosticados com  IRAS cresça exponencialmente, podendo chegar a 10 milhões de óbitos até 2050,  decorrente de bactérias resistentes (WBG, 2017 apud IACG, 2019), com parte destas  infecções sendo adquiridas dentro do contexto da saúde. Atualmente, mesmo com  estudos apontando informações relevantes a respeito de complicações e  comorbidades envolvendo as IRAS, poucos são os dados fornecidos de maneira  completa sobre o desfecho clínico de seus pacientes, impossibilitando a melhor  compreensão deste cenário no Brasil, o que inviabiliza a realização de estratégias  baseadas em evidências para promover uma assistência mais segura. 

Este estudo tem como objetivo descrever o perfil e desfechos clínicos dos  pacientes adultos com infecção relacionada à assistência à saúde internados em  hospital público da Baixada Santista. 

2. METODOLOGIA 

Trata-se de um projeto de pesquisa de campo com abordagem quantitativa,  propondo buscar dados retrospectivos, coletados em prontuários físicos e eletrônicos  de pacientes que desenvolveram IRAS durante seu período de internação notificados  pela instituição, com idade igual ou superior a 18 anos. 

O estudo contempla o período de seis meses, em que foram incluídos os  pacientes que desenvolveram IRAS no período de janeiro a junho de 2023, evitando  períodos em que a instituição tem demanda cirúrgica diminuída, como os meses de  julho e dezembro, distanciando possíveis vieses da pesquisa. 

Os seguintes dados foram utilizados para a elaboração da pesquisa: razão da  internação – sendo clínica ou cirúrgica, origem da admissão: domicílio ou local de  assistência, motivo da internação. E, como caracterização da amostra, foram separados: iniciais dos nomes, idade, sexo, doenças pré-existentes, se possui  diagnóstico oncológico, se há diagnóstico de quadro infeccioso na internação,  classificação da IRAS por topografia e o desfecho clínico envolvendo o paciente. 

Foram analisados 99 casos de IRAS, e após utilizar os critérios de inclusão, 83  pacientes se adequaram à pesquisa, com total de 90 IRAS, com dados avaliados  utilizando o programa de Banco de dados e estatística EPI INFO e apresentados por  meio de tabelas. 

3. RESULTADOS 

No período proposto para este estudo, foram analisados 99 casos de IRAS,  disponibilizados pelo Centro de Controle de Infecções Hospitalares (CCIH) da  instituição avaliada. Deste total, foram excluídos nove, pois não atendiam aos critérios  de inclusão. Foram selecionados 90 casos, resultando em 83 pacientes. 

Como demonstrado na tabela um, a variação de idade foi entre 21 e 88 anos,  com média de 57,5 anos, totalizando 43 (51,8%) pacientes idosos e havendo um  predomínio de pacientes do sexo feminino, 47 (56,6%). 

Fonte: autoria própria, 2024. 

Ao analisar as comorbidades constantes na tabela dois, foram observados 41  (49,4%) pacientes hipertensos, 29 (34,9%) diabéticos e 24 (28,9%) oncológicos. Oito (9,6%) não possuíam comorbidades. Alguns pacientes apresentaram uma ou mais  insuficiências agudas ao serem admitidos na instituição, com 26 (31,3%) casos de  insuficiência respiratória, 22 (26,5%) de insuficiência renal e 19 (22,9%) de  insuficiência cardíaca. Não sendo condições crônicas, não foram julgadas como  caracterizantes de comorbidades.

Fonte: autoria própria, 2024. 

Na tabela três, identifica-se que 52 pacientes não possuíam infecção de origem.  Entretanto, a ITR e a ITU foram dominantes em relação às demais, com 13 (15,7%) e  11 (13,3%), respectivamente. 

Fonte: autoria própria, 2024. 

Como visto na tabela quatro, a principal unidade de entrada dos pacientes na  instituição foi a UTI, com 47 pacientes (56,6%), seguida pela Unidade de Emergência  Referenciada (UER), que recebeu 13 (15,7%) e, por não ser responsável por  internações, não possui casos de IRAS adquiridas. Em contraste, na tabela cinco, a  UTI foi o setor com maior número de notificações de infecções relacionadas à  assistência, com 39 casos (43,3%), seguida pela clínica médica (CM), com 34 casos  (37,8%), ambos possuindo vantagem em relação aos demais. 

Fonte: autoria própria, 2024. 

Fonte: autoria própria, 2024. 

A tabela seis aponta que as IRAS mais frequentes foram a IPCS, com 30  (33,3%) notificações, e a Infecção Relacionada ao Cateter (IRC), com 24 (26,7%), destoando-se das demais, que possuíram uma quantidade similar de casos: ITU com  12 (13,3%), ISC 10 (11,1%) e PAV nove (10%), e as menos notificadas foram  pneumonia intra-hospitalar (PNM IH) e infecção de corrente sanguínea (ICS) com  quatro (4,4%) e um (1,1%) respectivamente. ICS não ficou claro se seria uma IRAS  nova ou uma IPCS. 

Fonte: autoria própria, 2024. 

Em relação aos pacientes oncológicos, na tabela sete, a IPCS e a IRC também  foram as de maior acometimento, com oito (30,8%) casos cada. Com metade dos  casos, ITU apresentou quatro (15,4%), além de dois (7,7%) casos de PAV, ISC e PHN  IH. 

Fonte: autoria própria, 2024. 

Como demonstrado na tabela oito, os principais agentes infectantes notificados  foram Staphylococcus aureus com 22 (22,9%), Klebsiella pneumoniae, 18 (18,8%),  Acinetobacter baumannii com 14 (14,6%). Os casos envolvendo os fundos da família  Candida foram compilados em Candida ssp., com total de nove (9,4%). Alguns  pacientes tiveram suas IRAS notificadas por possuírem sinais de infecção, porém,  sem agente localizado, como os casos de busca fonada das pacientes pós-cesárea e  do pós-cirúrgico, que totalizaram 11 (11,3%).

Fonte: autoria própria, 2024. 

Os dados sobre os agentes infecciosos na tabela nove mostram variações nas  suas aparições e resistência em diferentes alas hospitalares. Na CM, Staphylococcus  aureus apareceu em 13 ocorrências (59,1%), enquanto na UTI e no centro cirúrgico  foram cinco (22,7%) e três (13,6%) respectivamente, com apenas uma ocorrência  (4,6%) de multirresistência. Klebsiella pneumoniae apresentou 11 ocorrências (61,1%)  na CM, seis (33,3%) na UTI e uma (5,6%) no centro cirúrgico, com uma alta  multirresistência de 12 (66,7%). 

Para Acinetobacter baumannii, a maioria das ocorrências foi na UTI, totalizando  11 (78,6%), com 10 (71,4%) de multirresistência. Pseudomonas aeruginosa mostrou  equilíbrio entre UTI e CM, com quatro (57,1%) e três (42,9%) respectivamente, assim  como multirresistência com quatro (57,1%) multirresistentes e três sensíveis (42,9%).  Por fim, Candida spp. atingiu seis ocorrências (66,7%) na UTI e não apresentou casos  de multirresistência

Os SI mais afetados pela Staphylococcus aureus se mostram divididos, pois  IRC apresentou nove (40,9%) e IPCS oito (36,3%), enquanto a Klebsiella pneumoniae destacou-se mais na IPCS, com nove (50%). Já a Acinetobacter baumannii apareceu  em vantagem na IPCS e PAV, com seis (41,9%) e quatro (28,6%) respectivamente. A  Pseudomonas aeruginosa ocorre em IPCS, IRC e PAV, dois (28,6%) casos cada,  mostrando maior consistência que as demais, assim como a Candida ssp., variando  entre quatro (44,5%) e dois (22,2%) na IPCS e IRC, respectivamente.

Fonte: autoria própria, 2024. 

A tabela 10 contém apenas as comorbidades que demonstram relevância, com  ao menos 20 pacientes e desfechos discutíveis, além dos pacientes sem  comorbidades. Como já destacado anteriormente, a hipertensão foi o cenário de maior  relevância, pois aproximadamente metade dos pacientes a possuía. Destes, 19  (46,3%) se recuperaram da infecção e tiveram alta, enquanto 16 (39%) foram a óbito  sem se recuperar da IRAS. Respectivamente, pacientes oncológicos atingiram 10 (41,7%) e 11 (45,8%), diabéticos 14 (48,8%) e nove (31%). Pacientes isentos de  comorbidades, em sua maioria, receberam alta pós-recuperação da infecção, com  cinco (62,6%) e apenas um (12,5%) caso de óbito sem recuperação.

Fonte: autoria própria, 2024. 

Na tabela 11, ao comparar o desfecho: alta hospitalar e recuperação da IRAS  com óbito sem recuperação da IRAS, entre faixas etárias, percebe-se que mais  pacientes entre 60 e 69 anos se recuperaram do que foram a óbito: 14 (63,6%) contra  cinco (22,7%), entretanto, na mesma comparação, porém na faixa etária acima de 70  anos, óbito sem recuperação da IRAS sobressai, 12 (57,2%) contra sete (33,3%),  diferente da faixa etária entre 40 e 59 anos, havendo maior equilíbrio entre desfechos:  12 (46,2%) de alta com recuperação e 10 (38,5%) de óbito sem recuperação. 

Fonte: autoria própria, 2024. 

A tabela 12 aponta para os desfechos clínicos baseados nas unidades da  instituição, com informações valiosas a respeito de possíveis destinos da estadia do  paciente. Na UTI, 18 (60%) casos foram de óbito sem recuperação da IRAS, quase o  dobro da CM com 10 (33,3%). A CM possui vantagem na alta com recuperação, com  19 (48,7%), com a UTI em seguida, 13 (33,3%) casos. Por fim, a clínica cirúrgica aparece com dois cenários iguais, alta com recuperação e infecção diagnosticada pós alta, ambos com seis (15,4%). 

Fonte: autoria própria, 2024. 

O desfecho, baseado nas IRAS de cada paciente na tabela 13, mostra que a  IPCS corresponde a 15 (50%) pacientes que foram a óbito sem a recuperação, dado  importante ao compará-lo com o desfecho de alta com recuperação, que representa  nove (23,1%), menos da metade. IRC representa o contrário, a alta possui 16 (41%),  enquanto o óbito não recuperado chega a apenas quatro (13,3%), também menos da  metade. Os sete pacientes que contraíram mais de duas infecções foram separados  dos demais, com óbito sem recuperação como desfecho principal, seguido de alta. 

Fonte: autoria própria, 2024.

Ao analisar o perfil dos pacientes da UTI na tabela 14, considerando que houve  39 IRAS em 37 pacientes, percebe-se que pouco mais da metade (51,4%) eram  idosos, assim como os casos de hipertensão (54,1%). A infecção que prevaleceu com  16 (41%) foi a IPCS, seguida da PAV, com nove (23,1%). Representando quase  metade dos desfechos, com 18 casos (48,7%), óbito sem recuperação superou a alta  com recuperação da IRAS, que atingiu 13 (35,1%). 

Fonte: autoria própria, 2024. 

Enquanto na tabela 15, com 34 IRAS para 32 pacientes, o perfil da CM  demonstra-se majoritariamente como pacientes idosos (59,4%), com metade sendo  hipertensos (50%). Os SI prevalentes foram IPCS e IRC, com 13 (38,2%) cada. O  principal desfecho foi a alta com recuperação da IRAS com 20 (62,5%),  consideravelmente à frente do óbito sem recuperação, com 10 (31,2%). 

Fonte: autoria própria, 2024.

4. DISCUSSÃO 

Sítios de infecção e IRAS predominantes: 

Nos EUA, estima-se que a ITU represente 40% das IRAS adquiridas no  contexto hospitalar (Bouchillon et al., 2013). Já no Brasil, é difícil afirmar de maneira  concreta qual a IRAS predominante, visto que, embora existam estudos voltados a  este intuito, há constante divergência entre as instituições e regiões analisadas,  devido à ausência de estudos epidemiológicos em nível nacional (Maciel, 2021). No  hospital estudado, IPCS e IRC representam 60% das contaminações, com larga  vantagem sobre ITU e PAV – terceiro e quinto lugar, respectivamente – e, mesmo  somadas, atingiram apenas 23,3%. 

ITU e PAV são fortemente associadas a fatores como tempo de internação e  uso incorreto e prolongado da SVD e da IOT VM. Embora os prontuários analisados  mostrem que houve pacientes submetidos a tais procedimentos, poucos adquiriram  estas infecções se comparados às de corrente sanguínea. Por outro lado, a IPCS e  IRC são vinculadas à passagem e manuseio de seus cateteres e, assim como a SVD  e a IOT VM, esses procedimentos requerem técnica estéril, mas apresentaram taxas  de infecção distintas. Essa diferença seria devido à necessidade de manutenção  frequente do curativo do CVC e do CVP com trocas em casos de sujidade ou após o  tempo máximo de uso: 48 horas para gaze e sete dias de película transparente,  enquanto a SVD poderia ser mantida sem contato por maiores períodos (ANVISA,  2017). 

Proliferação das IRAS por unidades: 

A predominância da UTI nos casos de IRAS está de acordo com o esperado,  visto que é o local que mais recebe pacientes fragilizados das instituições de saúde,  possuindo maior suscetibilidade à complicações em sua estadia e a contração de  infecções (Oliveira et al., 2024). Entretanto, a prevalência da UTI não seria apenas  devida às condições dos pacientes, visto que a CM possui quantidade similar de  casos. A revisão literária de Carvalho e Relvas (2022) indica que, assim como no  presente estudo, as bactérias Klebsiella pneumoniae e Acinetobacter baumannii estão  entre as IPCS mais notificadas em diversas instituições e, como citado nos resultados,  apenas a A. baumannii prepondera na UTI, enquanto K. pneumoniae é destaque na  CM, com prevalência de multirresistência em ambas. 

Em complemento, um guia da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ, 2018)  destaca que estes microrganismos estão presentes em áreas íntegras da pele dos  pacientes e podem ser proliferados pelas mãos dos profissionais entre os leitos. Logo,  possíveis descuidos no manuseio das tecnologias e nas ações realizadas estariam  relacionados a tais casos de infecções tanto da UTI quanto da CM. 

Perfil baseado na UTI: 

Os desfechos clínicos relacionados a infecções hospitalares apresentam dados  polarizados. Observa-se que a alta hospitalar com recuperação da IRAS e os óbitos  sem a recuperação são os desfechos mais frequentes. A maioria dos pacientes  conseguiu se recuperar e retornar ao lar, porém, uma parcela significativa dos óbitos  não superou a infecção. 

Como apresentado anteriormente, 48% dos pacientes da UTI evoluíram ao óbito sem recuperação como desfecho clínico prevalente, sendo pressuposto que a  UTI mantenha este posto devido às condições frágeis de seus pacientes (Oliveira et  al., 2024). Entretanto, a bactéria dominante na ala e com mais multirresistência, a  Acinetobacter baumannii, esteve em oito pacientes deste desfecho e, de todas as alas  da instituição, a única em que o paciente não se recuperou da A. baumannii e houve  falecimento foi na UTI. Esta unidade também abriga outros agentes, como K.  pneumoniae e Candida spp., mas estes não atingem a quantidade de óbitos sem  recuperação e notificações da A. baumannii. 

Logo, mesmo que a fragilidade do paciente seja um diferencial para ir ao óbito,  esta bactéria pode ser um dos fatores essenciais para tal desfecho. Ao observar os  resultados pelo todo, quando há uma infecção por qualquer agente, a probabilidade  de recuperação seguida de falecimento é baixa, enquanto a probabilidade de óbito  sem recuperação do agente infeccioso é alta. Portanto, para interromper este ciclo, é  essencial evitar a proliferação de microrganismos, visto que a fragilidade do paciente,  por si só, não parece ser determinante para a ocorrência de infecção e seu desfecho. 

Comorbidades e desfechos: 

À luz das comorbidades, os casos de hipertensão foram maiores que a média  nacional, que beira os 27% (Brasil, 2022), mas não demonstraram ser um fator para  destoar os desfechos clínicos, com os óbitos totais sendo pouco acima da alta com recuperação da infecção. A diabetes e as neoplasias foram vistas em menos  pacientes, e apenas os óbitos sem recuperação de IRAS em pacientes oncológicos  foram superiores à alta se comparado às outras comorbidades, levando à possibilidade de não haver interferência das comorbidades nos desfechos clínicos  destes pacientes. 

Como levantado por Valdes e Souza (2024), parte dos prontuários eletrônicos e físicos das instituições de saúde possuem falhas de registro, com falta de clareza de determinadas informações. Alguns prontuários analisados nesta pesquisa  corroboram com este autor, o que por vezes impediu o avanço em determinados casos devido à fragilidade dos registros, levando-os à exclusão. 

5. CONCLUSÃO 

Traçando um perfil hipotético dos pacientes das duas principais unidades da  instituição, é perceptível a diferença entre UTI e CM. Em ambas, o paciente típico  seria idoso, hipertenso, sem neoplasias e com uma única IRAS. As divergências  começam pelo sexo: na UTI seria feminino, com desfecho de óbito sem recuperação  da IPCS causado por A. baumannii, enquanto na CM seria masculino, com alta  hospitalar após recuperação de sua IRC ou IPCS, visto que possuem a mesma  quantidade de casos, causados pela K. pneumoniae ou S. aureus

Embora existam muitos estudos sobre IRAS, SI e agentes infecciosos, são  raras as pesquisas que exploram a relação humana desses fatores. Por trás de cada  estatística, há um ser humano que enfrentou complicações até se tornar parte de um  dado. Muito se busca saber sobre os locais e a quantidade de infecções que  ocorreram, mas pouco se analisa a trajetória do indivíduo e, principalmente, como sua  história terminou, sendo de grande necessidade mais trabalhos relacionados ao tema,  tanto em instituições públicas quanto particulares. 

É possível que, ao invés de insistir apenas em campanhas de higienização das  mãos, que muitas vezes não têm adesão suficiente e não são eficazes a médio e longo  prazo, seja necessário complementá-las com ações que promovam empatia e atenção  ao ser humano atendido, pois, na busca para retorno à homeostase, muitos pacientes  adquiriram infecções, encerrando suas trajetórias e tornando-se apenas mais um óbito  sem recuperação de IRAS. 

REFERÊNCIAS 

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