REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202509041303
João Pedro Fernandes Doneux
Orientadora: Profa. Me. Maria Antonieta Velosco Martinho
RESUMO
As infecções relacionadas à assistência à saúde geram sérios problemas que assolam a saúde pública, aumentando a morbidade e a mortalidade dos pacientes que as contraem. Essas infecções também encarecem o tratamento, pois demandam novos medicamentos e estratégias para superá-las. Este estudo descreve o perfil e os desfechos clínicos de pacientes adultos com infecção relacionada à assistência à saúde internados em um hospital público da Baixada Santista. Trata-se de uma pesquisa de campo com abordagem quantitativa, utilizando dados retrospectivos de prontuários físicos e eletrônicos. A pesquisa identificou dois perfis principais: ambos com idade média de 57,5 anos, prevalência de hipertensão e ausência de quadro oncológico. O primeiro perfil inclui pacientes do sexo feminino, internados na unidade de terapia intensiva, com infecção primária de corrente sanguínea causada por A. baumannii, resultando em óbito sem recuperação da infecção. O segundo perfil inclui pacientes do sexo masculino, internados na clínica médica, com infecção primária de corrente sanguínea ou infecção relacionada ao cateter por S. aureus ou K. pneumonia e alta hospitalar após recuperação da infecção. Apesar das campanhas de higienização das mãos, os índices nacionais de infecções relacionadas à assistência à saúde permanecem elevados, indicando a necessidade da elaboração de novas abordagens, como estratégias voltadas à empatia dos profissionais com os pacientes, tratando-os com maior atenção e cuidado. De forma complementar, traçar o perfil clínico e epidemiológico dos pacientes e seus locais de internação, além de fornecer dados, alimentando pesquisas semelhantes para aprofundar o conhecimento do tema, também poderá contribuir para diminuir infecções.
Palavras-chave: Infecção relacionada à assistência à saúde, IRAS, Enfermagem, Desfecho clínico.
ABSTRACT
Healthcare-associated infections pose serious problems that plague public health, increasing morbidity and mortality among patients who contract them. These infections also increase treatment costs, as they require new medications and strategies to overcome them. This study describes the profile and clinical outcomes of adult patients with healthcare-associated infections admitted to a public hospital in Baixada Santista. This is a field study with a quantitative approach, using retrospective data from physical and electronic medical records. The study identified two main profiles: both with a mean age of 57.5 years, prevalence of hypertension, and absence of cancer. The first profile includes female patients admitted to the intensive care unit with primary bloodstream infection caused by A. baumannii, resulting in death without recovery from the infection. The second profile includes male patients admitted to the medical clinic with primary bloodstream infection or catheter-related infection by S. aureus or K. pneumoniae and hospital discharge after recovery from the infection. Despite hand hygiene campaigns, national rates of healthcare-associated infections remain high, indicating the need for new approaches, such as strategies aimed at fostering empathy between professionals and patients, treating them with greater attention and care. In addition, profiling the clinical and epidemiological characteristics of patients and their places of hospitalization, as well as providing data to fuel similar research to deepen knowledge on the subject, may also contribute to reducing infections.
Keywords: Healthcare-related infection, HAI, Nursing, Clinical outcome.
1. INTRODUÇÃO
A assistência por parte dos profissionais da saúde vai além do conforto e cuidado, envolvendo a prevenção e a cooperação mútua entre as áreas de atuação, visto que durante a assistência à saúde precisamos zelar pela segurança do paciente, desde a higiene das mãos e do ambiente até a segurança no uso de tecnologias. Ao longo de sua estadia na unidade de saúde, o paciente é exposto a múltiplas formas de se contrair uma infecção relacionada à assistência à saúde (IRAS), devido às diversas ações invasivas em locais específicos do corpo, nomeados sítios de infecção (SI). São exemplos de SI:
1 – Infecção no trato respiratório (ITR) está geralmente relacionada com a ventilação mecânica, denominada pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV), que pode ser tanto em centro cirúrgico (CC), quanto em unidades de terapia intensiva (UTI). Um estudo em um hospital do Paraná indicou que 98,5% dos pacientes da instituição com ITR foram submetidos ao dispositivo em sua internação, indicando uma associação entre seu uso e as IRAS. A pesquisa ainda aponta que 53,3% dos pacientes com ITR tiveram o óbito como desfecho clínico, porém, não detalha se foram ou não decorrentes da infecção. (Lemos et al., 2021);
2 – Infecção primária da corrente sanguínea (IPCS), geralmente relacionada ao cateter venoso central (CVC) e periférico (CVP), está entre as principais formas de se contrair sepse no contexto hospitalar, com publicações indicando que um em cada quatro casos de sepse em hospitais e um em cada dois casos de sepse em UTI´s resultam de IRAS (WHO, 2020).
A sepse é a resposta inflamatória decorrente da infecção da corrente sanguínea por microrganismos, que, quando é atestada como a principal responsável pelo óbito, é considerada um código garbage de nível um pela Global Burden of Disease 2017. Entende-se que os códigos de nível um podem causar a ocultação da doença que originou a internação, e o encobrimento das comorbidades prévias, assim como possíveis complicações na estadia, ocasionando perda parcial das informações do paciente no desfecho clínico, possibilitando que parte dos atestados de óbito por sepse, na verdade, estejam equivocados e imprecisos, dificultando a realização de estudos (Santos et al., 2019);
3 – Infecção do trato urinário (ITU) no contexto das IRAS é fortemente associada à passagem de sonda vesical de demora (SVD), segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA, 2017), estimando-se que até um quarto dos pacientes hospitalizados são submetidos a tais sondas, por vezes utilizadas de maneira equivocada, com uso além do necessário, mesmo com complicações associadas à sua utilização, como desconforto, traumas uretrais e a ITU. Indo de acordo com os dados anteriores, um estudo realizado na UTI de um hospital do Rio Grande do Sul demonstrou que, de seus 140 pacientes internados, 62,9% contraíram ITU, e dentre eles, 63,6% utilizaram a SVD, com permanência média da sonda entre 15 e 18 dias (Almeida et al., 2020). O estudo em questão não destaca se os pacientes foram a óbito;
4 – Infecção no sítio cirúrgico (ISC) é costumeiramente associada ao risco envolvido na quebra de barreira natural, ligada ao comprometimento de uma cirurgia, sendo passiva de contaminação tanto por fontes endógenas, ao transferir a microbiota do paciente, como a da pele ou das mucosas para dentro da incisão cirúrgica, quanto por fontes exógenas, que podem estar relacionadas à equipe cirúrgica, como por quebra de técnicas assépticas ou sujidade nas vestimentas (SBIBAE, 2014).
Um estudo realizado no Pará, sobre ISC em cirurgias ortopédicas, aponta que alguns dos fatores determinantes para se desenvolver ISC são: a duração do procedimento, tempo de internação pré-operatório, idade do paciente, comorbidades e a implantação de prótese no paciente. Além de listar estes fatores, a pesquisa também concluiu que a instituição estudada atingiu uma média anual de 2,1% de ISC, resultado ruim se comparado a países desenvolvidos, como Estados Unidos da América (EUA) e Canadá, que possuíam respectivamente a média anual de 0,7% e 1,22%, porém, acima de países menos desenvolvidos, como Índia e Senegal, com respectivamente 6,5% e 9% de média anual. Embora o estudo tenha abordado dados relevantes do pós-operatório, não relatou o desfecho clínico dos pacientes envolvidos (Coutinho et al., 2022).
Para evitar IRAS e estimular uma assistência segura, é essencial seguir atentamente as orientações da cartilha: 10 passos para a Segurança do Paciente, do Conselho Regional de Enfermagem do Estado de São Paulo (Coren-SP), como um complemento às seis metas internacionais para a segurança do paciente, ressaltando aos profissionais de saúde como é possível, com a boa higiene das mãos e práticas custo-efetivas, evitar até 70% das IRAS, segundo publicação da Organização Mundial da Saúde (OMS). Estima-se ainda que 15 a cada 100 pacientes em países de baixa e média renda – sendo este o caso do Brasil – adquirirão ao menos uma IRAS durante seu período de internação no mundo, enquanto um em cada 10 destes evoluirá a óbito (OMS, 2022 apud ONU, 2022).
Aponta-se que uma parcela dos profissionais da saúde – inclusive aqueles que possuem ensino superior – não consegue compreender o motivo da higienização das mãos dentro do âmbito hospitalar, indicando a necessidade de realizar intervenções conscientizadoras mais incisivas, para que os passos se tornem hábitos duradouros e constantes [Neves et al., ca.2021 apud Souto et al., 2023].
Tende-se a que, conforme os anos passem, por consequência da resistência que bactérias e vírus têm adquirido, a quantidade de pacientes diagnosticados com IRAS cresça exponencialmente, podendo chegar a 10 milhões de óbitos até 2050, decorrente de bactérias resistentes (WBG, 2017 apud IACG, 2019), com parte destas infecções sendo adquiridas dentro do contexto da saúde. Atualmente, mesmo com estudos apontando informações relevantes a respeito de complicações e comorbidades envolvendo as IRAS, poucos são os dados fornecidos de maneira completa sobre o desfecho clínico de seus pacientes, impossibilitando a melhor compreensão deste cenário no Brasil, o que inviabiliza a realização de estratégias baseadas em evidências para promover uma assistência mais segura.
Este estudo tem como objetivo descrever o perfil e desfechos clínicos dos pacientes adultos com infecção relacionada à assistência à saúde internados em hospital público da Baixada Santista.
2. METODOLOGIA
Trata-se de um projeto de pesquisa de campo com abordagem quantitativa, propondo buscar dados retrospectivos, coletados em prontuários físicos e eletrônicos de pacientes que desenvolveram IRAS durante seu período de internação notificados pela instituição, com idade igual ou superior a 18 anos.
O estudo contempla o período de seis meses, em que foram incluídos os pacientes que desenvolveram IRAS no período de janeiro a junho de 2023, evitando períodos em que a instituição tem demanda cirúrgica diminuída, como os meses de julho e dezembro, distanciando possíveis vieses da pesquisa.
Os seguintes dados foram utilizados para a elaboração da pesquisa: razão da internação – sendo clínica ou cirúrgica, origem da admissão: domicílio ou local de assistência, motivo da internação. E, como caracterização da amostra, foram separados: iniciais dos nomes, idade, sexo, doenças pré-existentes, se possui diagnóstico oncológico, se há diagnóstico de quadro infeccioso na internação, classificação da IRAS por topografia e o desfecho clínico envolvendo o paciente.
Foram analisados 99 casos de IRAS, e após utilizar os critérios de inclusão, 83 pacientes se adequaram à pesquisa, com total de 90 IRAS, com dados avaliados utilizando o programa de Banco de dados e estatística EPI INFO e apresentados por meio de tabelas.
3. RESULTADOS
No período proposto para este estudo, foram analisados 99 casos de IRAS, disponibilizados pelo Centro de Controle de Infecções Hospitalares (CCIH) da instituição avaliada. Deste total, foram excluídos nove, pois não atendiam aos critérios de inclusão. Foram selecionados 90 casos, resultando em 83 pacientes.
Como demonstrado na tabela um, a variação de idade foi entre 21 e 88 anos, com média de 57,5 anos, totalizando 43 (51,8%) pacientes idosos e havendo um predomínio de pacientes do sexo feminino, 47 (56,6%).

Fonte: autoria própria, 2024.
Ao analisar as comorbidades constantes na tabela dois, foram observados 41 (49,4%) pacientes hipertensos, 29 (34,9%) diabéticos e 24 (28,9%) oncológicos. Oito (9,6%) não possuíam comorbidades. Alguns pacientes apresentaram uma ou mais insuficiências agudas ao serem admitidos na instituição, com 26 (31,3%) casos de insuficiência respiratória, 22 (26,5%) de insuficiência renal e 19 (22,9%) de insuficiência cardíaca. Não sendo condições crônicas, não foram julgadas como caracterizantes de comorbidades.


Fonte: autoria própria, 2024.
Na tabela três, identifica-se que 52 pacientes não possuíam infecção de origem. Entretanto, a ITR e a ITU foram dominantes em relação às demais, com 13 (15,7%) e 11 (13,3%), respectivamente.

Fonte: autoria própria, 2024.
Como visto na tabela quatro, a principal unidade de entrada dos pacientes na instituição foi a UTI, com 47 pacientes (56,6%), seguida pela Unidade de Emergência Referenciada (UER), que recebeu 13 (15,7%) e, por não ser responsável por internações, não possui casos de IRAS adquiridas. Em contraste, na tabela cinco, a UTI foi o setor com maior número de notificações de infecções relacionadas à assistência, com 39 casos (43,3%), seguida pela clínica médica (CM), com 34 casos (37,8%), ambos possuindo vantagem em relação aos demais.

Fonte: autoria própria, 2024.

Fonte: autoria própria, 2024.
A tabela seis aponta que as IRAS mais frequentes foram a IPCS, com 30 (33,3%) notificações, e a Infecção Relacionada ao Cateter (IRC), com 24 (26,7%), destoando-se das demais, que possuíram uma quantidade similar de casos: ITU com 12 (13,3%), ISC 10 (11,1%) e PAV nove (10%), e as menos notificadas foram pneumonia intra-hospitalar (PNM IH) e infecção de corrente sanguínea (ICS) com quatro (4,4%) e um (1,1%) respectivamente. ICS não ficou claro se seria uma IRAS nova ou uma IPCS.

Fonte: autoria própria, 2024.
Em relação aos pacientes oncológicos, na tabela sete, a IPCS e a IRC também foram as de maior acometimento, com oito (30,8%) casos cada. Com metade dos casos, ITU apresentou quatro (15,4%), além de dois (7,7%) casos de PAV, ISC e PHN IH.

Fonte: autoria própria, 2024.
Como demonstrado na tabela oito, os principais agentes infectantes notificados foram Staphylococcus aureus com 22 (22,9%), Klebsiella pneumoniae, 18 (18,8%), Acinetobacter baumannii com 14 (14,6%). Os casos envolvendo os fundos da família Candida foram compilados em Candida ssp., com total de nove (9,4%). Alguns pacientes tiveram suas IRAS notificadas por possuírem sinais de infecção, porém, sem agente localizado, como os casos de busca fonada das pacientes pós-cesárea e do pós-cirúrgico, que totalizaram 11 (11,3%).


Fonte: autoria própria, 2024.
Os dados sobre os agentes infecciosos na tabela nove mostram variações nas suas aparições e resistência em diferentes alas hospitalares. Na CM, Staphylococcus aureus apareceu em 13 ocorrências (59,1%), enquanto na UTI e no centro cirúrgico foram cinco (22,7%) e três (13,6%) respectivamente, com apenas uma ocorrência (4,6%) de multirresistência. Klebsiella pneumoniae apresentou 11 ocorrências (61,1%) na CM, seis (33,3%) na UTI e uma (5,6%) no centro cirúrgico, com uma alta multirresistência de 12 (66,7%).
Para Acinetobacter baumannii, a maioria das ocorrências foi na UTI, totalizando 11 (78,6%), com 10 (71,4%) de multirresistência. Pseudomonas aeruginosa mostrou equilíbrio entre UTI e CM, com quatro (57,1%) e três (42,9%) respectivamente, assim como multirresistência com quatro (57,1%) multirresistentes e três sensíveis (42,9%). Por fim, Candida spp. atingiu seis ocorrências (66,7%) na UTI e não apresentou casos de multirresistência.
Os SI mais afetados pela Staphylococcus aureus se mostram divididos, pois IRC apresentou nove (40,9%) e IPCS oito (36,3%), enquanto a Klebsiella pneumoniae destacou-se mais na IPCS, com nove (50%). Já a Acinetobacter baumannii apareceu em vantagem na IPCS e PAV, com seis (41,9%) e quatro (28,6%) respectivamente. A Pseudomonas aeruginosa ocorre em IPCS, IRC e PAV, dois (28,6%) casos cada, mostrando maior consistência que as demais, assim como a Candida ssp., variando entre quatro (44,5%) e dois (22,2%) na IPCS e IRC, respectivamente.


Fonte: autoria própria, 2024.
A tabela 10 contém apenas as comorbidades que demonstram relevância, com ao menos 20 pacientes e desfechos discutíveis, além dos pacientes sem comorbidades. Como já destacado anteriormente, a hipertensão foi o cenário de maior relevância, pois aproximadamente metade dos pacientes a possuía. Destes, 19 (46,3%) se recuperaram da infecção e tiveram alta, enquanto 16 (39%) foram a óbito sem se recuperar da IRAS. Respectivamente, pacientes oncológicos atingiram 10 (41,7%) e 11 (45,8%), diabéticos 14 (48,8%) e nove (31%). Pacientes isentos de comorbidades, em sua maioria, receberam alta pós-recuperação da infecção, com cinco (62,6%) e apenas um (12,5%) caso de óbito sem recuperação.

Fonte: autoria própria, 2024.
Na tabela 11, ao comparar o desfecho: alta hospitalar e recuperação da IRAS com óbito sem recuperação da IRAS, entre faixas etárias, percebe-se que mais pacientes entre 60 e 69 anos se recuperaram do que foram a óbito: 14 (63,6%) contra cinco (22,7%), entretanto, na mesma comparação, porém na faixa etária acima de 70 anos, óbito sem recuperação da IRAS sobressai, 12 (57,2%) contra sete (33,3%), diferente da faixa etária entre 40 e 59 anos, havendo maior equilíbrio entre desfechos: 12 (46,2%) de alta com recuperação e 10 (38,5%) de óbito sem recuperação.

Fonte: autoria própria, 2024.
A tabela 12 aponta para os desfechos clínicos baseados nas unidades da instituição, com informações valiosas a respeito de possíveis destinos da estadia do paciente. Na UTI, 18 (60%) casos foram de óbito sem recuperação da IRAS, quase o dobro da CM com 10 (33,3%). A CM possui vantagem na alta com recuperação, com 19 (48,7%), com a UTI em seguida, 13 (33,3%) casos. Por fim, a clínica cirúrgica aparece com dois cenários iguais, alta com recuperação e infecção diagnosticada pós alta, ambos com seis (15,4%).

Fonte: autoria própria, 2024.
O desfecho, baseado nas IRAS de cada paciente na tabela 13, mostra que a IPCS corresponde a 15 (50%) pacientes que foram a óbito sem a recuperação, dado importante ao compará-lo com o desfecho de alta com recuperação, que representa nove (23,1%), menos da metade. IRC representa o contrário, a alta possui 16 (41%), enquanto o óbito não recuperado chega a apenas quatro (13,3%), também menos da metade. Os sete pacientes que contraíram mais de duas infecções foram separados dos demais, com óbito sem recuperação como desfecho principal, seguido de alta.

Fonte: autoria própria, 2024.
Ao analisar o perfil dos pacientes da UTI na tabela 14, considerando que houve 39 IRAS em 37 pacientes, percebe-se que pouco mais da metade (51,4%) eram idosos, assim como os casos de hipertensão (54,1%). A infecção que prevaleceu com 16 (41%) foi a IPCS, seguida da PAV, com nove (23,1%). Representando quase metade dos desfechos, com 18 casos (48,7%), óbito sem recuperação superou a alta com recuperação da IRAS, que atingiu 13 (35,1%).

Fonte: autoria própria, 2024.
Enquanto na tabela 15, com 34 IRAS para 32 pacientes, o perfil da CM demonstra-se majoritariamente como pacientes idosos (59,4%), com metade sendo hipertensos (50%). Os SI prevalentes foram IPCS e IRC, com 13 (38,2%) cada. O principal desfecho foi a alta com recuperação da IRAS com 20 (62,5%), consideravelmente à frente do óbito sem recuperação, com 10 (31,2%).


Fonte: autoria própria, 2024.
4. DISCUSSÃO
Sítios de infecção e IRAS predominantes:
Nos EUA, estima-se que a ITU represente 40% das IRAS adquiridas no contexto hospitalar (Bouchillon et al., 2013). Já no Brasil, é difícil afirmar de maneira concreta qual a IRAS predominante, visto que, embora existam estudos voltados a este intuito, há constante divergência entre as instituições e regiões analisadas, devido à ausência de estudos epidemiológicos em nível nacional (Maciel, 2021). No hospital estudado, IPCS e IRC representam 60% das contaminações, com larga vantagem sobre ITU e PAV – terceiro e quinto lugar, respectivamente – e, mesmo somadas, atingiram apenas 23,3%.
ITU e PAV são fortemente associadas a fatores como tempo de internação e uso incorreto e prolongado da SVD e da IOT VM. Embora os prontuários analisados mostrem que houve pacientes submetidos a tais procedimentos, poucos adquiriram estas infecções se comparados às de corrente sanguínea. Por outro lado, a IPCS e IRC são vinculadas à passagem e manuseio de seus cateteres e, assim como a SVD e a IOT VM, esses procedimentos requerem técnica estéril, mas apresentaram taxas de infecção distintas. Essa diferença seria devido à necessidade de manutenção frequente do curativo do CVC e do CVP com trocas em casos de sujidade ou após o tempo máximo de uso: 48 horas para gaze e sete dias de película transparente, enquanto a SVD poderia ser mantida sem contato por maiores períodos (ANVISA, 2017).
Proliferação das IRAS por unidades:
A predominância da UTI nos casos de IRAS está de acordo com o esperado, visto que é o local que mais recebe pacientes fragilizados das instituições de saúde, possuindo maior suscetibilidade à complicações em sua estadia e a contração de infecções (Oliveira et al., 2024). Entretanto, a prevalência da UTI não seria apenas devida às condições dos pacientes, visto que a CM possui quantidade similar de casos. A revisão literária de Carvalho e Relvas (2022) indica que, assim como no presente estudo, as bactérias Klebsiella pneumoniae e Acinetobacter baumannii estão entre as IPCS mais notificadas em diversas instituições e, como citado nos resultados, apenas a A. baumannii prepondera na UTI, enquanto K. pneumoniae é destaque na CM, com prevalência de multirresistência em ambas.
Em complemento, um guia da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ, 2018) destaca que estes microrganismos estão presentes em áreas íntegras da pele dos pacientes e podem ser proliferados pelas mãos dos profissionais entre os leitos. Logo, possíveis descuidos no manuseio das tecnologias e nas ações realizadas estariam relacionados a tais casos de infecções tanto da UTI quanto da CM.
Perfil baseado na UTI:
Os desfechos clínicos relacionados a infecções hospitalares apresentam dados polarizados. Observa-se que a alta hospitalar com recuperação da IRAS e os óbitos sem a recuperação são os desfechos mais frequentes. A maioria dos pacientes conseguiu se recuperar e retornar ao lar, porém, uma parcela significativa dos óbitos não superou a infecção.
Como apresentado anteriormente, 48% dos pacientes da UTI evoluíram ao óbito sem recuperação como desfecho clínico prevalente, sendo pressuposto que a UTI mantenha este posto devido às condições frágeis de seus pacientes (Oliveira et al., 2024). Entretanto, a bactéria dominante na ala e com mais multirresistência, a Acinetobacter baumannii, esteve em oito pacientes deste desfecho e, de todas as alas da instituição, a única em que o paciente não se recuperou da A. baumannii e houve falecimento foi na UTI. Esta unidade também abriga outros agentes, como K. pneumoniae e Candida spp., mas estes não atingem a quantidade de óbitos sem recuperação e notificações da A. baumannii.
Logo, mesmo que a fragilidade do paciente seja um diferencial para ir ao óbito, esta bactéria pode ser um dos fatores essenciais para tal desfecho. Ao observar os resultados pelo todo, quando há uma infecção por qualquer agente, a probabilidade de recuperação seguida de falecimento é baixa, enquanto a probabilidade de óbito sem recuperação do agente infeccioso é alta. Portanto, para interromper este ciclo, é essencial evitar a proliferação de microrganismos, visto que a fragilidade do paciente, por si só, não parece ser determinante para a ocorrência de infecção e seu desfecho.
Comorbidades e desfechos:
À luz das comorbidades, os casos de hipertensão foram maiores que a média nacional, que beira os 27% (Brasil, 2022), mas não demonstraram ser um fator para destoar os desfechos clínicos, com os óbitos totais sendo pouco acima da alta com recuperação da infecção. A diabetes e as neoplasias foram vistas em menos pacientes, e apenas os óbitos sem recuperação de IRAS em pacientes oncológicos foram superiores à alta se comparado às outras comorbidades, levando à possibilidade de não haver interferência das comorbidades nos desfechos clínicos destes pacientes.
Como levantado por Valdes e Souza (2024), parte dos prontuários eletrônicos e físicos das instituições de saúde possuem falhas de registro, com falta de clareza de determinadas informações. Alguns prontuários analisados nesta pesquisa corroboram com este autor, o que por vezes impediu o avanço em determinados casos devido à fragilidade dos registros, levando-os à exclusão.
5. CONCLUSÃO
Traçando um perfil hipotético dos pacientes das duas principais unidades da instituição, é perceptível a diferença entre UTI e CM. Em ambas, o paciente típico seria idoso, hipertenso, sem neoplasias e com uma única IRAS. As divergências começam pelo sexo: na UTI seria feminino, com desfecho de óbito sem recuperação da IPCS causado por A. baumannii, enquanto na CM seria masculino, com alta hospitalar após recuperação de sua IRC ou IPCS, visto que possuem a mesma quantidade de casos, causados pela K. pneumoniae ou S. aureus.
Embora existam muitos estudos sobre IRAS, SI e agentes infecciosos, são raras as pesquisas que exploram a relação humana desses fatores. Por trás de cada estatística, há um ser humano que enfrentou complicações até se tornar parte de um dado. Muito se busca saber sobre os locais e a quantidade de infecções que ocorreram, mas pouco se analisa a trajetória do indivíduo e, principalmente, como sua história terminou, sendo de grande necessidade mais trabalhos relacionados ao tema, tanto em instituições públicas quanto particulares.
É possível que, ao invés de insistir apenas em campanhas de higienização das mãos, que muitas vezes não têm adesão suficiente e não são eficazes a médio e longo prazo, seja necessário complementá-las com ações que promovam empatia e atenção ao ser humano atendido, pois, na busca para retorno à homeostase, muitos pacientes adquiriram infecções, encerrando suas trajetórias e tornando-se apenas mais um óbito sem recuperação de IRAS.
REFERÊNCIAS
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