PERFIL DAS INTERNAÇÕES E ÓBITOS EM POPULAÇÃO PEDIÁTRICA POR DIABETES MELLITUS NO ESTADO DO MARANHÃO, 2015 A 2024

PROFILE OF HOSPITALIZATIONS AND DEATHS IN THE PEDIATRIC POPULATION DUE TO DIABETES MELLITUS IN THE STATE OF MARANHÃO, 2015 TO 2024

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202602112113


Jully Anne Oliveira Chagas Machado1
Camila Cristina Bastos Silva Raposo Ramos2


RESUMO

O diabetes mellitus em crianças é a doença que exige cuidados contínuos e, em muitos casos, resulta em internações hospitalares, gerando impactos significativos na morbimortalidade e nos custos do sistema de saúde. Objetivou-se analisar o perfil das internações e dos óbitos pediátricos decorrentes de diabetes mellitus no estado do Maranhão, no período de 2015 a 2024. Tratou-se de uma pesquisa epidemiológica de natureza descritiva, com delineamento retrospectivo, que incluiu todos os casos de internações e óbitos por diabetes mellitus em crianças, registrados no estado do Maranhão no período de 2015 a 2024, localizados no Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS) do DATASUS. Os resultados revelaram que, no período em questão foram registradas 1.425 internações, com média anual de 142,5 casos e taxa média de prevalência de 8,0 por 100 mil crianças. Observou-se tendência de crescimento nas internações ao longo dos anos, com picos em 2017 e 2022. Foram notificados 15 óbitos no período, com mortalidade decrescente e baixa letalidade. A maioria das internações ocorreu em meninas (54,5%) e na faixa etária de 10 a 14 anos (48,4%), grupo que também concentrou 60,0% dos óbitos. Predominaram atendimentos de urgência (91,2%). O valor total das internações foi de R$ 917.722,38, com média de R$ 742,23 por internação e permanência média de 6,0 dias. Crianças menores de 1 ano apresentaram a maior taxa de mortalidade (1,90%), enquanto a faixa etária de 5 a 9 anos teve menor letalidade (0,52%) e maior tempo médio de internação (6,8 dias). São Luís e Imperatriz concentraram 35,9% das internações, sugerindo maior demanda nos grandes centros urbanos. Portanto, foi possível evidenciar um aumento progressivo nas internações, com maior concentração de casos em meninas e na faixa etária de 10 a 14 anos. 

Palavras-chave: Diabetes mellitus. Criança. Morbimortalidade. Epidemiologia.

1 INTRODUÇÃO

O Diabetes Mellitus (DM) é uma condição crônica de grande impacto na saúde pública, associada a altos índices de morbidade e mortalidade. Trata-se de um distúrbio metabólico que afeta a digestão e o aproveitamento de gorduras, proteínas e carboidratos, sendo provocado por diferentes causas, conforme o tipo de diabetes (Ladeira et al., 2020). No Brasil, os tipos mais comuns são o Diabetes Mellitus tipo 1 (DM1), caracterizado pela produção insuficiente de insulina devido a um processo autoimune que compromete as células beta do pâncreas, e o tipo 2 (DM2), relacionado principalmente à resistência à insulina nas células do organismo (Farinha et al., 2020).

O tipo 2, em especial, representa um dos maiores desafios em saúde pública global, com uma taxa de prevalência de 10,5% em todo o mundo (Muzy et al., 2021). No cenário nacional, aproximadamente 16 milhões de brasileiros convivem com a doença, o que posiciona o país como o sexto com maior número de casos. Observa-se ainda um crescimento constante na incidência da condição, que passou de 5,5% da população em 2006 para 7,4% em 2019, sendo mais frequente entre os idosos (Brasil, 2021).

O DM1 é uma condição crônica, autoimune e de origem multifatorial, diagnosticada predominantemente em crianças, adolescentes e, com menor frequência, em adultos jovens, afetando igualmente indivíduos de ambos os sexos (Smaniotto; Pascolat, 2022). Geralmente, apresenta início súbito e, em cerca de um terço dos casos, a manifestação inicial é a cetoacidose diabética uma complicação metabólica grave que requer atendimento hospitalar imediato (Silva et al., 2021). 

Estimativas globais indicam que aproximadamente 542 mil crianças com menos de 14 anos vivem com DM1, sendo o Brasil o terceiro país com maior número de casos nessa faixa etária, com cerca de 30 mil crianças afetadas. Preocupa ainda mais a taxa de crescimento anual de novos casos, estimada em 3%, especialmente entre menores de cinco anos. Segundo a diretriz brasileira sobre diabetes, a incidência da doença em indivíduos com menos de 15 anos no país é de aproximadamente 7,6 casos para cada 100 mil habitantes (Sociedade Brasileira de Diabetes, 2023-2024).

O manejo do DM1, especialmente na forma insulinodependente, envolve diversas estratégias que devem ser seguidas com rigor. Entre elas estão a aplicação diária de insulina, o monitoramento contínuo da glicemia, a adoção de uma alimentação balanceada, a realização de consultas médicas regulares, a prática de atividade física e o desenvolvimento de habilidades para lidar com intercorrências no tratamento (Araújo et al., 2020).

Por acometer majoritariamente crianças e adolescentes, o tratamento do DM1 demanda atenção especial. Questões como o desenvolvimento puberal, mudanças fisiológicas e o crescimento corporal devem ser cuidadosamente observadas, pois influenciam na ação da insulina e exigem que o paciente comece a desenvolver práticas de autocuidado desde o diagnóstico. A participação da família é fundamental para que o esquema terapêutico seja efetivamente implantado e seguido. Nesse contexto, cabe à equipe de saúde assegurar o controle metabólico adequado e contínuo da doença, o que exige uma comunicação eficiente entre profissionais e usuários (Diretrizes de Consenso de Prática Clínica do ISPAD, 2022).

Em crianças, aspectos emocionais e dificuldades na adaptação ao tratamento nem sempre são verbalizados com clareza. Nessas situações, ferramentas como o desenho livre podem ser úteis para acessar percepções e sentimentos, funcionando como instrumento expressivo e avaliativo da vivência infantil frente ao tratamento (Fornari et al., 2022).

Diante desse contexto, torna-se imprescindível compreender o impacto do DM1 no sistema de saúde, especialmente no que se refere às internações e aos óbitos pediátricos associados à doença. O estado do Maranhão, como parte da realidade brasileira, apresenta desafios particulares relacionados à distribuição geográfica dos casos, aos custos hospitalares e ao acesso aos serviços de saúde.

Nesse sentido, a presente pesquisa justifica-se pela relevância em analisar o perfil das internações e dos óbitos por DM em crianças no Maranhão, entre 2015 e 2024, fornecendo subsídios para o planejamento de ações em saúde que visem à prevenção de complicações, à qualificação do cuidado e à redução de desfechos negativos. Ao investigar variáveis como sexo, faixa etária, cor/raça, tipo de atendimento hospitalar, distribuição geográfica dos casos, custos e tempo médio de permanência hospitalar, este estudo poderá contribuir para a formulação de políticas públicas mais eficazes e voltadas às necessidades do público pediátrico acometido pelo DM1.

Portanto, o objetivo geral desta pesquisa analisar o perfil das internações e dos óbitos pediátricos decorrentes de diabetes mellitus no estado do Maranhão, no período de 2015 a 2024, e especificamente descrever o perfil demográfico das crianças internadas e dos óbitos por diabetes mellitus no estado do Maranhão, considerando variáveis como sexo, faixa etária e cor/raça; caracterizar os tipos e regimes de atendimento hospitalar das crianças internadas e dos óbitos por diabetes mellitus; identificar os municípios com maior número de internações por diabetes mellitus em crianças, destacando a distribuição geográfica dos casos no estado do Maranhão; avaliar os custos hospitalares, o tempo médio de permanência e a taxa de mortalidade relacionados às internações pediátricas por diabetes mellitus, considerando diferenças entre sexo e faixas etárias.

2 METODOLOGIA

Tratou-se de uma pesquisa epidemiológica de natureza descritiva, com delineamento retrospectivo, baseada em análise documental e desenvolvida por meio de abordagem quantitativa.

Esta pesquisa censitária incluiu todos os casos de internações e óbitos por diabetes mellitus em crianças, obtidos por meio do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), com base nas notificações disponíveis no Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS). Foram incluídos todos os casos de internações e óbitos por diabetes mellitus ocorridos no Maranhão, entre 1º de janeiro de 2015 e 31 de dezembro de 2024, em crianças com idade entre 0 e 14 anos. Foram desconsiderados os registros de internações e óbitos referentes a pacientes oriundos de outros estados ou que não se enquadravam na faixa etária estabelecida. 

A coleta de dados foi realizada por meio da análise de registros públicos disponibilizados no DATASUS, com foco nas internações e óbitos decorrentes de diabetes mellitus ocorridos no estado do Maranhão. As informações foram obtidas digitalmente por meio da plataforma TABNET, acessando o menu “Epidemiológicas e Morbidade”, no subitem “Morbidade Hospitalar do SUS (SIH/SUS)”, especificamente na opção “Geral, por local de Internação – a partir de 2008”.

Para delimitar a pesquisa, definiu-se como recorte geográfico o estado do Maranhão e como intervalo temporal o período de janeiro de 2015 a dezembro de 2024. No campo “Conteúdo”, foram selecionados, primeiramente, os casos de internações e, posteriormente, os óbitos. Na Lista de Morbidade do CID-10, foi escolhida a categoria correspondente ao Diabetes mellitus. As variáveis analisadas incluíram: ano da internação e do óbito, faixa etária (0 a 14 anos), sexo, cor/raça, caráter e regime do atendimento, além dos municípios com maior número de registros.

As informações coletadas foram sistematizadas e lançadas em uma planilha construída no software Microsoft Excel 2020. A interpretação dos dados foi realizada pelo pesquisador responsável. Para a análise, empregaram-se métodos de estatística descritiva, com ênfase no cálculo de frequências relativas (percentuais com base em 100) e na determinação da taxa de mortalidade. Os achados foram expostos por meio de tabelas e representações gráficas, visando facilitar a compreensão e a visualização dos resultados obtidos.

Para o cálculo da taxa de prevalência e mortalidade, foram consideradas as populações de 0 a 19 anos fornecidas pelo IBGE na plataforma do DATASUS, para o estado do Maranhão, de 2015 a 2025, conforme detalhado no Quadro 1.

Quadro 1. Distribuição da população residente no Maranhão no período avaliado.

Fonte: IBGE – DATASUS (SIH/SUS)

De acordo com o que dispõem as Resoluções nº 466/12 e nº 510/16 do Conselho Nacional de Saúde, esta pesquisa, por utilizar exclusivamente dados secundários de acesso público e por possuir natureza epidemiológica, não exigiu submissão à avaliação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). Apesar disso, todas as diretrizes éticas e legais pertinentes à condução de investigações científicas foram rigorosamente seguidas, garantindo a responsabilidade, a integridade e o respeito aos princípios éticos ao longo de toda a execução do estudo.

3 RESULTADOS

Entre os anos de 2015 e 2024, foram registradas 1.425 internações por diabetes mellitus em crianças no estado do Maranhão, resultando em uma média anual de 142,5 casos. Nesse intervalo, a taxa média de prevalência foi de 8,0 casos por 100.000 crianças. A distribuição anual dessas internações e suas respectivas taxas de prevalência, estão ilustradas no Gráfico 1.

Gráfico 1. Distribuição das internações por diabetes mellitus em crianças, no Maranhão, 2015 a 2024. (n = 1.425)

Fonte: DATASUS (SIH/SUS)

Observa-se uma tendência geral de aumento, com picos em 2017 (155 casos) e 2022 (167 casos), apesar de oscilações ao longo do período. A prevalência também cresceu, variando de 6,3 a 9,8 por 100 mil crianças. A linha de tendência indica um crescimento contínuo nas internações da doença infantil no estado ao longo dos anos.

 Esses dados sugerem uma elevação consistente da carga da doença entre crianças no estado, o que pode refletir mudanças no diagnóstico, aumento da incidência ou falhas na prevenção e manejo da doença nesse grupo etário.

No Gráfico 2 é possível verificar o registro de óbitos no período avaliado. Verifica-se que foram registrados quinze óbitos por diabetes mellitus no Maranhão, indicando baixa letalidade.

Gráfico 2. Distribuição dos óbitos por diabetes mellitus em crianças, no Maranhão, 2015 a 2024. (n = 15)

Fonte: DATASUS (SIH/SUS)

Observa-se uma tendência de queda, destacando-se picos em 2017 (4 óbitos) e 2019 (3 óbitos). A mortalidade variou de 0,34 a 1,42 por 100 mil crianças. A partir de 2020, os números se estabilizaram em um óbito por ano, com exceção de 2024, que não registrou nenhuma morte. A linha de tendência indica uma redução gradual nos óbitos ao longo do tempo.

Na Tabela 1 é possível verificar o perfil demográfico dos casos de internações e óbitos por diabetes mellitus em crianças no estado do Maranhão.

Tabela 1. Características demográficas das internações e óbitos por diabetes mellitus em crianças, no Maranhão, 2015 a 2024.

Fonte: DATASUS (SIH/SUS)

Verifica-se que houve predominância de internações no sexo feminino (54,5%), e essa tendência também se manteve entre os óbitos (53,3%). A faixa etária mais afetada foi a de 10 a 14 anos, representando 48,4% das internações e 60,0% dos óbitos. Quanto à cor/raça, a maioria das internações ocorreu entre crianças pardas (52,8%), porém uma parcela significativa dos registros (39,1%) não continha essa informação, grupo que também concentrou a maioria dos óbitos (60,0%).

Na Tabela 2 é possível verificar as características dos atendimentos das internações e óbitos avaliados na pesquisa.

Tabela 2. Características dos atendimentos das internações e óbitos por diabetes mellitus em crianças, no Maranhão, 2015 a 2024.

Fonte: DATASUS (SIH/SUS)

Verifica-se que a grande maioria das internações por diabetes mellitus em crianças no Maranhão, entre 2015 e 2024, ocorreu sob regime de atendimento não especificado (92,9%), o que também se refletiu nos óbitos (93,3%). Observa-se ainda que praticamente todos os atendimentos tiveram caráter de urgência, correspondendo a 91,2% das internações e à totalidade dos óbitos (100%), evidenciando a gravidade clínica dos casos no momento da admissão hospitalar.

Na Tabela 3 é possível visualizar as características das internações, distribuídas por sexo e faixa etária.

Tabela 3. Características das internações por diabetes mellitus em crianças, no Maranhão, 2015 a 2024. (n = 1.425) 

Fonte: DATASUS (SIH/SUS)

Observa-se que o custo total dos serviços hospitalares foi de R$ 917.722,38, com valor médio por internação de R$ 742,23 e tempo médio de permanência de 6,0 dias. Ao se analisar os dados por sexo, observa-se que as internações femininas geraram maior custo total (R$ 535.138,87) e apresentaram valor médio por internação mais elevado (R$ 794,48), além de uma média de permanência ligeiramente superior (6,1 dias) quando comparadas às internações masculinas. No entanto, a taxa de mortalidade foi um pouco maior entre os meninos (1,07%) do que entre as meninas (1,03%).

Quanto à faixa etária, destaca-se que crianças menores de 1 ano apresentaram a maior taxa de mortalidade (1,90%), o que pode refletir uma maior fragilidade imunológica e metabólica desse grupo etário. Já o maior tempo médio de permanência foi observado entre crianças de 5 a 9 anos (6,8 dias), enquanto a menor média de permanência ocorreu entre as de 10 a 14 anos (5,4 dias). Além disso, essa mesma faixa etária (10 a 14 anos) concentrou o maior volume de recursos hospitalares (R$ 460.381,49), indicando possível maior complexidade nos atendimentos. Por outro lado, a faixa etária de 5 a 9 anos apresentou a menor taxa de mortalidade (0,52%), sugerindo prognóstico mais favorável nesse grupo. 

Esses dados evidenciam importantes diferenças no perfil clínico e no impacto assistencial conforme sexo e idade, sendo fundamentais para subsidiar estratégias específicas de prevenção, diagnóstico precoce e cuidado em saúde infantil no estado.

No Gráfico 3, é possível verificar a distribuição dos casos segundo os municípios com maior número de notificações.

Gráfico 3. Distribuição do número de internações por diabetes mellitus em crianças, no Maranhão, 2015 a 2024. (n = 1.425)

Fonte: DATASUS (SIH/SUS)

Nota-se que o maior número de internações por diabetes mellitus em crianças, no Maranhão entre 2015 e 2024, ocorreu em São Luís (372; 26,1%), seguido por Imperatriz (140; 9,8%), indicando uma concentração significativa da demanda em centros urbanos maiores.

4 DISCUSSÃO

A análise dos dados de internações e óbitos por Diabetes Mellitus (DM) em crianças entre 2015 e 2024 no Maranhão evidencia uma tendência geral de crescimento nas hospitalizações, com picos notáveis nos anos de 2017 e 2022. Essa tendência de elevação, ainda que com oscilações ao longo do período, mostra-se compatível com os achados de Silva et al. (2019) e Prazeres e Vargas (2019), que também identificaram um aumento nas hospitalizações pediátricas por DM, particularmente nas faixas etárias mais avançadas da infância.

Silva et al. (2019) observaram esse crescimento de forma generalizada nas regiões brasileiras, especialmente entre adolescentes de 10 a 14 anos, o que coincide com os dados atuais que apontam essa mesma faixa etária como a de maior prevalência de internações e óbitos. Esse achado é reforçado por Prazeres e Vargas (2019), que relataram que adolescentes representaram 66,7% das internações por DM em seu estudo. Tal convergência sugere que a adolescência representa um período crítico para o manejo da doença, possivelmente pela associação entre a instabilidade hormonal da puberdade e a menor adesão ao tratamento, fatores já descritos na literatura.

Outro ponto de concordância entre os estudos é a predominância de internações do sexo feminino, achado evidenciado tanto no presente estudo quanto no levantamento realizado por Silva et al. (2019), especialmente nas regiões Norte e Nordeste. Costa et al. (2023) também identificaram taxas mais elevadas entre meninas na faixa etária de 5 a 14 anos. Esse padrão reforça a necessidade de análises mais aprofundadas sobre possíveis fatores socioculturais, biológicos ou de acesso ao cuidado que influenciem essas diferenças de gênero.

Em relação à cor/raça, o presente estudo aponta maior prevalência de internações e óbitos entre crianças de cor parda. Embora os estudos comparativos não tenham abordado diretamente essa variável, a informação é relevante, especialmente considerando a diversidade étnico-racial do Brasil e as desigualdades de acesso à saúde, que podem interferir no diagnóstico precoce, na adesão terapêutica e na prevenção de complicações.

Quanto ao caráter do atendimento, a predominância de internações de urgência e o regime de atendimento público evidenciam a insuficiência da atenção primária na condução eficaz do tratamento de DM infantojuvenil, sobretudo nos casos de debut diabético e complicações agudas como a cetoacidose diabética (CAD). Esse dado dialoga diretamente com os achados de Prazeres e Vargas (2019), que identificaram a CAD como principal causa de internação no momento do diagnóstico, o que também pode justificar a elevada frequência de atendimentos emergenciais no período analisado.

No que tange à letalidade, o estudo destaca uma baixa taxa de óbitos por DM em crianças no período de 2015 a 2024, o que está em consonância com a literatura, que aponta para a escassez de dados sobre mortalidade por DM na infância, como discutido por Silva et al. (2019) e Costa et al. (2023). No entanto, destaca-se que, apesar da letalidade global reduzida, a maior taxa de mortalidade (1,90%) foi observada em crianças menores de 1 ano, um dado de extrema relevância que não é mencionado nos estudos comparados. Essa especificidade etária pode refletir a fragilidade metabólica e imunológica dos lactentes, sugerindo a necessidade de investigação aprofundada sobre os fatores associados à mortalidade neonatal por DM, ainda pouco abordados na literatura nacional.

A análise do tempo médio de permanência hospitalar também permite inferências sobre a gravidade e complexidade dos casos. O maior tempo de internação foi observado entre crianças de 5 a 9 anos (6,8 dias), enquanto a faixa de 10 a 14 anos, apesar de apresentar a menor média de permanência (5,4 dias), concentrou o maior volume de recursos hospitalares (R$ 460.381,49). Esses dados sugerem que, mesmo com internações mais breves, os casos em adolescentes demandam maior uso de tecnologia, insumos e suporte multidisciplinar, possivelmente refletindo o manejo de descompensações agudas severas. Esses achados convergem com os dados de Prazeres e Vargas (2019), que associaram as internações em adolescentes à ocorrência de CAD e ao debut clínico da doença.

Além disso, o padrão etário de hospitalizações e diagnóstico segue o modelo bimodal descrito por Prazeres e Vargas (2019), com picos no final da pré-escola/início da idade escolar e na adolescência, reforçando a necessidade de vigilância ativa em ambas as faixas etárias. A ausência de dados mais precisos sobre os sintomas ao diagnóstico no presente estudo impede uma comparação mais minuciosa com as manifestações clínicas predominantes identificadas por esses autores, como poliúria, polidipsia e perda de peso.

Ademais, destaca-se a observação de Silva et al. (2019) e Costa et al. (2023) quanto à carência de estudos epidemiológicos brasileiros sobre mortalidade e internações por DM em crianças. O presente estudo, ao abordar de forma detalhada as internações, letalidade, perfil demográfico e financeiro dos atendimentos hospitalares, contribui para preencher parcialmente essa lacuna e reforça a necessidade de ampliação das políticas públicas de vigilância e prevenção.

O estudo de Souza et al. (2022) revela uma tendência crescente nas internações por Diabetes Mellitus (DM) em crianças, com picos notáveis em 2017 e 2022, evidenciando um padrão de aumento das taxas de hospitalização, apesar de oscilações pontuais no período observado. Este fenômeno de aumento nas internações é consistente com outras pesquisas nacionais que apontam a diabetes mellitus como uma preocupação crescente no cenário pediátrico, refletindo a complexidade do manejo e da evolução da doença. A letalidade, entretanto, permanece baixa entre as crianças afetadas, com uma taxa de mortalidade reduzida entre 2015 e 2024. 

Este dado pode ser atribuído ao avanço nas estratégias de tratamento precoce, educação em saúde e a melhoria do acesso a serviços médicos especializados, fatores que têm contribuído para o controle mais eficaz das complicações do DM, principalmente nas faixas etárias pediátricas.

O estudo de Souza et al. (2022) revela que o sexo feminino apresenta o maior percentual de hospitalizações (65,12%), o que é consistente com dados de outras localidades, como Fortaleza-CE, Mato Grosso e Blumenau-SC, onde as taxas de internação feminina variaram entre 55% e 65%. Este achado reforça a hipótese de que fatores comportamentais e socioculturais podem influenciar o aumento das internações no sexo feminino. 

Estudos sugerem que as meninas tendem a ter uma maior percepção das mudanças em sua saúde e são mais propensas a buscar atendimento médico de forma precoce, o que facilita o diagnóstico precoce de complicações, como a cetoacidose diabética (CAD). Além disso, adolescentes do sexo feminino frequentemente mantêm um nível mais alto de adesão ao tratamento médico, o que pode ser um fator que contribui para o aumento das hospitalizações em momentos críticos.

No tocante à faixa etária, Souza et al. (2022) destacam que as faixas etárias de 10 a 14 anos (38,10%) e 15 a 19 anos (38,46%) concentraram a maior porcentagem de hospitalizações, com uma diferença não estatisticamente significativa entre elas. Esse achado é compatível com os dados de Fortaleza, onde a faixa etária de 10 a 14 anos foi predominante, representando 63,12% das hospitalizações. 

A prevalência de internações nestas faixas etárias é um reflexo da maior autonomia dos adolescentes no que diz respeito ao controle e manejo do DM. Ao atingirem a adolescência, os indivíduos, especialmente meninas, têm maior compreensão sobre sua condição e são mais propensos a buscar atendimento médico assim que percebem a gravidade dos sintomas (Araújo et al., 2020). 

No entanto, isso também reflete a complexidade do controle da doença durante essa fase da vida, caracterizada por mudanças hormonais, dificuldades de adesão ao tratamento e, muitas vezes, um comportamento desleixado com a saúde. A adolescência é uma fase crítica em que a aderência ao autocuidado pode ser desafiadora, resultando em descontrole glicêmico e complicações graves.

No tocante à faixa etária, Souza et al. (2022) destacam que as faixas etárias de 10 a 14 anos (38,10%) e 15 a 19 anos (38,46%) concentraram a maior porcentagem de hospitalizações, com uma diferença não estatisticamente significativa entre elas. Esse achado é compatível com os dados de Fortaleza, onde a faixa etária de 10 a 14 anos foi predominante, representando 63,12% das hospitalizações. A prevalência de internações nestas faixas etárias é um reflexo da maior autonomia dos adolescentes no que diz respeito ao controle e manejo do DM. 

Ao atingirem a adolescência, os indivíduos, especialmente meninas, têm maior compreensão sobre sua condição e são mais propensos a buscar atendimento médico assim que percebem a gravidade dos sintomas. No entanto, isso também reflete a complexidade do controle da doença durante essa fase da vida, caracterizada por mudanças hormonais, dificuldades de adesão ao tratamento e, muitas vezes, um comportamento desleixado com a saúde. A adolescência é uma fase crítica em que a aderência ao autocuidado pode ser desafiadora, resultando em descontrole glicêmico e complicações graves.

A análise de Souza et al. (2022) também revela um predomínio de hospitalizações entre crianças pardas (56,16%), um dado que se alinha com pesquisas realizadas em Fortaleza-CE, onde a proporção foi de 56,25%. Embora esses dados sugiram uma relação entre raça/cor e incidência de hospitalizações por DM, a literatura científica ainda carece de estudos conclusivos que associem diretamente o DM com fatores étnico-raciais. 

A maior prevalência de internações entre indivíduos pardos pode ser, em parte, explicada pela distribuição demográfica no Brasil. Segundo o Censo Demográfico de 2010, um grande número de crianças e adolescentes na faixa etária de 5 a 19 anos se declararam pardos, o que implica uma maior representatividade numérica desse grupo nas estatísticas de saúde. 

Além disso, fatores sociais e econômicos, como acesso limitado ao sistema de saúde e condições de vida, podem estar associados ao aumento das internações em determinados grupos raciais, uma vez que as disparidades no acesso à atendimento médico e à educação em saúde continuam sendo um desafio no país.

O estudo de Souza et al. (2022) reportou que 98,30% das internações ocorreram com caráter de urgência, o que é particularmente preocupante, pois indica que a maior parte das hospitalizações aconteceu em estágios graves da doença. Este dado coloca em evidência o risco elevado associado ao DM em crianças e adolescentes, especialmente em casos de descontrole glicêmico. A urgência nas hospitalizações está intimamente relacionada com as complicações mais graves da doença, como a cetoacidose diabética (CAD), uma complicação aguda que é predominante entre as crianças e adolescentes, especialmente entre o sexo feminino. O tempo prolongado de internação associado a essa condição tem um impacto direto nos custos hospitalares, representando um ônus significativo para os sistemas de saúde, sejam públicos ou privados.

Embora a literatura existente não discuta amplamente o caráter de urgência das internações, é possível inferir que o aumento da grave complexidade das internações reflete as dificuldades de manejo da doença, que se traduzem em uma demanda maior por recursos hospitalares. A abordagem emergencial das complicações do DM, como a CAD, exige equipamentos especializados, medicações intensivas e monitoramento constante, o que eleva consideravelmente os custos e o tempo de internação, especialmente em unidades de terapia intensiva.

A análise da distribuição temporal das hospitalizações por DM em crianças revelou um aumento significativo nas taxas de internações nas faixas etárias de 10 a 14 anos e 15 a 19 anos, o que coincide com dados de estudos sobre mortalidade por DM. Esse aumento pode ser atribuído a várias causas, incluindo a maior dificuldade de controle glicêmico nesta faixa etária, onde os adolescentes frequentemente enfrentam desafios relacionados à adesão ao tratamento, flutuações hormonais e a adolescência em si, uma fase de transição marcada por mudanças físicas e emocionais. 

O aumento nas hospitalizações nessa faixa etária também pode ser uma consequência do diagnóstico mais precoce de DM, o que, embora positivo em termos de prevenção, também leva a um aumento na demanda por internações hospitalares. A maior exposição a fatores de risco e a comorbidades associadas ao DM nesta fase, como a hipertensão e as doenças cardiovasculares, também podem justificar o número crescente de hospitalizações.

A análise do tempo médio de permanência hospitalar mostrou que as crianças de 5 a 9 anos apresentaram a maior média de internação (6,8 dias), enquanto aquelas da faixa etária de 10 a 14 anos apresentaram a menor média (5,4 dias). Curiosamente, essa mesma faixa etária (10 a 14 anos) foi responsável pelo maior volume de recursos hospitalares gastos (R$ 460.381,49). Esses dados sugerem que, embora as crianças menores apresentem uma maior taxa de mortalidade devido à fragilidade imunológica e metabólica, as crianças de 10 a 14 anos enfrentam complicações mais graves e complexas, exigindo um maior consumo de recursos hospitalares e tempo prolongado de tratamento. Isso pode indicar que essa faixa etária não apenas apresenta complicações mais frequentes, mas também requer cuidados especializados mais intensivos.

5 CONCLUSÃO

A comparação entre os achados do presente estudo e os dados da literatura revela grande convergência quanto ao crescimento das internações por DM em crianças, à maior vulnerabilidade dos adolescentes, especialmente do sexo feminino, e à importância da CAD como complicação aguda prevalente. Divergências pontuais, como a maior mortalidade entre lactentes, ainda pouco explorada nos estudos anteriores, apontam para novos caminhos de investigação. 

A concentração das internações em caráter de urgência e no sistema público de saúde evidencia a fragilidade da atenção básica no acompanhamento do DM pediátrico. Nesse contexto, torna-se essencial o fortalecimento das estratégias de rastreamento precoce, educação em saúde e adesão ao tratamento, especialmente voltadas às populações mais vulneráveis em termos socioeconômicos, raciais e etários.

A baixa taxa de letalidade observada, juntamente com o alto número de atendimentos de urgência e os elevados custos associados, destaca a necessidade de estratégias para melhorar a gestão do DM na pediatria, com foco na prevenção de complicações e promoção de adesão ao tratamento. A combinação desses fatores torna evidente que, embora a mortalidade seja baixa, os custos e os desafios relacionados ao controle do DM em crianças e adolescentes são significativos e exigem atenção contínua do sistema de saúde.

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, E. F.; RIBEIRO, A. L. T.; PINHO, I. V. O. S.; MELO, M. C.; ABREU, V. J.; NASCIMENTO, É. T. S.; DUTRA, L. M. AL.; QUEIROZ, C. C. Elaboração de tecnologia educacional sobre educação em saúde para crianças com diabetes mellitus tipo I. Enferm. foco. Brasília, v. 11, n. 6, p. 185-91, dez. 2020. 

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1Discente da Residência de Pediatria do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão Unidade Materno Infantil
2Docente da Residência de Pediatria do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão Unidade Materno Infantil

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