PERFIL CLÍNICO E LABORATORIAL DE CRIANÇAS BRASILEIRAS COM LEUCEMIA LINFOIDE AGUDA: UMA REVISÃO INTEGRATIVA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511301848


Erica Fernanda de Oliveira Serra1
Karina Souza Santos1
Leandro de Jesus Queiroz Aníbal1
Leticia Pinheiro Araújo1
Marcos de Jesus Costa Lopes1
Meire Rosa Pereira Silva1
Orientadores: Ana Rafaela Pereira Silva2
Lana Priscila Barbosa Pereira3
Renata Larisa Rodrigues Pereira4


RESUMO

A Leucemia Linfoide Aguda (LLA) caracteriza-se pela proliferação desordenada de linfoblastos na medula óssea, comprometendo a hematopoiese normal e manifestando-se como o câncer pediátrico mais frequente. O objetivo deste estudo foi analisar o perfil clínico, laboratorial, terapêutico e prognóstico da LLA, com ênfase no contexto brasileiro. Este estudo consistiu em uma revisão integrativa realizada em bases de dados nacionais e internacionais entre 2015 e 2025, com o objetivo de reunir evidências sobre os perfis clínicos, laboratoriais, terapêuticos e prognósticos da LLA, em especial no contexto brasileiro. Foram incluídos 21 artigos que abordaram aspectos da apresentação clínica, como febre, sudorese, perda de peso, dor óssea, linfadenomegalia, hepatomegalia e infiltrações extramedulares, além de alterações laboratoriais típicas, como anemia normocítica normocrômica, trombocitopenia, leucocitose ou leucopenia, neutropenia e presença de blastos em mielograma. A caracterização imunofenotípica, citogenética e molecular mostrou-se fundamental para a estratificação prognóstica, destacando-se translocações como t(9;22), t(12;21) e t(4;11). O tratamento foi centrado na quimioterapia, associada em alguns casos à radioterapia e ao transplante de células-tronco hematopoiéticas, enquanto terapias inovadoras, como o uso de células CAR-T, ampliaram as perspectivas de sobrevida. Dessa forma, verificou-se que, apesar dos avanços diagnósticos e terapêuticos, ainda existem limitações relacionadas ao acesso a exames especializados e às terapias de alto custo, evidenciando a necessidade de maior investimento em políticas públicas e pesquisas nacionais para reduzir desigualdades e melhorar o prognóstico da LLA em crianças brasileiras.

Palavras-chave: Leucemia linfoide aguda; Perfil clínico; Exames laboratoriais; Tratamento; Prognóstico.

INTRODUÇÃO

A leucemia linfoide aguda (LLA) é uma neoplasia hematológica maligna caracterizada pela proliferação desordenada de linfoblastos imaturos na medula óssea, resultando na substituição das células hematopoiéticas normais e comprometendo a produção de hemácias, leucócitos e plaquetas (Santos, et al 2020; Duarte et al., 2024). Trata-se do tipo de câncer mais frequente na infância, correspondendo a 30–35% dos casos pediátricos de neoplasias, embora também acometa adultos, nos quais geralmente apresenta evolução mais agressiva e prognóstico reservado (Santos et al., 2020). 

Historicamente, a LLA é reconhecida como uma doença de progressão rápida e de etiologia multifatorial, envolvendo predisposições genéticas, alterações cromossômicas e fatores ambientais (Duarte et al., 2024). Sua classificação passou por avanços significativos: desde os critérios morfológicos da classificação FAB (Franco-Americano-Britânica), que subdivide a doença em LLA-L1, LLA-L2 e LLA-L3, até as atualizações propostas pela Organização Mundial da Saúde, que integram aspectos clínicos, imunofenotípicos, citogenéticos e moleculares para uma definição mais precisa dos subtipos (Santos et al., 2020; Duarte et al., 2024).

O diagnóstico precoce é essencial, já que os sintomas iniciais podem ser inespecíficos, muitas vezes confundidos com outras enfermidades. Exames laboratoriais desempenham papel central nesse processo: hemograma, mielograma, citoquímica, imunofenotipagem e análises citogenéticas permitem não apenas a confirmação diagnóstica, mas também a estratificação prognóstica e o direcionamento terapêutico (Santos et al., 2020). Entre as alterações genéticas, destacam-se translocações como t(9;22), t(12;21) e t(4;11), além de alterações na ploidia, que possuem impacto direto na resposta ao tratamento (Santos et al., 2020; Duarte et al., 2024).

Apesar dos avanços científicos e tecnológicos, a literatura evidencia que os estudos sobre LLA, sobretudo no contexto nacional, ainda enfrentam limitações relacionadas ao acesso a exames especializados e à necessidade de maior aprofundamento em pesquisas clínicas (Duarte et al., 2024). Nesse cenário, a integração entre achados laboratoriais, características clínicas e marcadores moleculares mostra-se indispensável para ampliar as possibilidades de cura e melhorar a sobrevida dos pacientes.

Portanto, o intuito deste estudo é analisar o perfil clínico, laboratorial, terapêutico e prognóstico da LLA, com ênfase no contexto brasileiro.

METODOLOGIA

Este estudo foi realizado por meio de uma revisão integrativa, o processo metodológico desse tipo de estudo é descrito por Whittemore e Knafl (2005) e pelas etapas sistematizadas por Souza, Silva e Carvalho (2010), atendendo às orientações da ABNT para elaboração de trabalhos científicos. O objetivo foi reunir e analisar criticamente a produção científica sobre o perfil clínico, laboratorial, terapêutico e prognóstico da Leucemia Linfoide Aguda (LLA) no contexto brasileiro e internacional.

Estratégia de Busca

A busca bibliográfica foi realizada em setembro de 2025 nas seguintes bases de dados eletrônicas:

  • PubMed/MEDLINE
  • SciELO
  • Web of Science
  • Scopus
  • Banco institucional Biblioteca FAEMA e Google Acadêmico (como busca complementar)

Foram utilizados descritores controlados dos vocabulários MeSH e DeCS, além de termos não controlados, combinados com operadores booleanos AND e OR. Os principais descritores incluíram:

  • “Acute Lymphoblastic Leukemia” OR “Acute Lymphoid Leukemia”
  • “Leucemia Linfoblástica Aguda” OR “Leucemia Linfoide Aguda”
  • “Prognosis”
  • “Targeted Therapy”
  • “Treatment Outcome”
  • “Children” OR “Pediatrics”

Exemplo de combinação utilizada na PubMed: (“Acute Lymphoblastic Leukemia” AND “children”) AND (“clinical profile” OR “laboratory findings” OR prognosis OR treatment).

Critérios de Inclusão

Foram incluídos estudos que:

  • Fossem publicados entre 2015 e 2025;
  • Estivessem em português ou inglês;
  • Apresentassem dados clínicos, laboratoriais, terapêuticos ou prognósticos de pacientes com LLA;
  • Envolvessem crianças e/ou adolescentes (para manter coerência com o tema do artigo);
  • Incluíssem estudos originais, revisões sistemáticas, metanálises e revisões narrativas de relevância para o tema.

Critérios de Exclusão

Foram excluídos:

  • Artigos duplicados entre as bases;
  • Estudos restritos exclusivamente a adultos;
  • Relatos de caso isolados, editoriais, cartas ao editor e resumos de congresso;
  • Trabalhos não relacionados diretamente à LLA;
  • Estudos voltados à Leucemia Linfoide Crônica (LLC) ou a outras neoplasias hematológicas.

Processo de Seleção dos Estudos

A seleção seguiu as etapas recomendadas pelo PRISMA 2020:

  1. Identificação: 60 estudos recuperados na busca inicial.
  2. Triagem: após remoção de duplicatas (n=3), 57 estudos foram avaliados por títulos e resumos.
  3. Elegibilidade: 51 artigos foram lidos na íntegra.
  4. Inclusão: 21 estudos atenderam aos critérios e compuseram a amostra final.

O fluxograma do processo de seleção foi elaborado conforme o modelo PRISMA 2020.

 “Figura 1 – Fluxograma do processo de seleção dos artigos (adaptado de PRISMA, 2009) ”

Extração e Organização dos Dados

Os estudos incluídos foram organizados em planilha contendo:

• autor e ano;

• país;

• tipo de estudo;

• amostra/população;

• características clínicas avaliadas;

• achados laboratoriais;

• terapias investigadas;

• desfechos clínicos e prognósticos.

Análise dos Dados

A análise dos dados foi conduzida por leitura crítica e categorização temática, agrupando os achados em eixos analíticos:

1. características clínicas da LLA;

2. perfil laboratorial;

3. abordagens terapêuticas;

4. fatores prognósticos.

A síntese foi realizada de forma comparativa, buscando convergências e divergências entre os estudos, sempre mantendo fidelidade aos dados originais.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Através do quadro sinóptico (Quadro 1) apresenta-se o resumo esquematizado dos estudos encontrados, permitindo verificar a estrutura e a organização do conteúdo, constando o nome dos autores e ano, título, objetivo, metodologia e principais resultados. 

Quadro 1 – Quadro sinóptico dos artigos incluídos na revisão.

Autor/AnoTítuloObjetivoMetodologiaPrincipais Resultados
1ARAGÃO et al., 2021Perfil clínico e genômico de adultos com LMA submetidos ao TCTH alogênicoDescrever características clínicas e genômicas de adultos com LMA submetidos a TCTH.Estudo observacional com análise clínica e genômica.Identificação de perfis moleculares associados a prognóstico e resposta ao transplante.
2ARAÚJO et al., 2022Perfil de neoplasias hematológicas em jovensDescrever perfil de neoplasias hematológicas.Estudo epidemiológico.LLA foi a neoplasia mais prevalente.
3BONILHA et al., 2021Tratamento da LLA infantil em centro únicoAvaliar desfechos terapêuticos.Análise de sobrevivência.Taxas de sobrevida compatíveis com padrões internacionais.
4DUARTE et al., 2024Marcadores hematológicos e citogenéticos na LLA adultaAssociar características hematológicas a alterações citogenéticas.Estudo analítico.Associações significativas que auxiliam no prognóstico.
5FARIAS et al., 2021Perfil clínico-epidemiológico da LLA em MADescrever perfil epidemiológico regional.Estudo descritivo transversal.Alta incidência em faixas etárias jovens.
6GONG et al., 2024Regime inspirado pediátrico para LLA Ph- em adolescentes e adultosAvaliar eficácia e segurança de protocolo inspirado em pediatria.Estudo prospectivo.Melhora nas taxas de remissão e sobrevida.
7LORDÊLO et al., 2024Perfil de doadores de medula óssea no BrasilDescrever características demográficas dos doadores.Estudo descritivo.Predomínio de jovens e maior participação feminina.
8MEBS CANTO et al., 2023Perfil epidemiológico de LLA em FortalezaDescrever perfil de pacientes acompanhados.Estudo descritivo.Predomínio de casos em meninos e evolução variável.
9MIGUEL et al., 2024Acesso ao transplante em LLA/LMA no BrasilAvaliar distribuição e tempo de acesso ao TCTH.Estudo analítico de dados nacionais.Desigualdade regional no acesso ao transplante.
10MORALES et al., 2025Desfechos do TCTH em LLA pediátricaAvaliar resultados após TCTH.Coorte multicêntrica.Melhora significativa da sobrevida global.
11PAIVA et al., 2022Evolução nutricional em crianças e adolescentes com LLAAvaliar evolução nutricional durante terapia oncológica.Estudo longitudinal.Alterações expressivas no estado nutricional ao longo do tratamento.
12SANTOS et al., 2020Imunofenotipagem no diagnóstico precoceAvaliar eficácia de métodos imunofenotípicos.Estudo laboratorial.Melhora na detecção precoce e precisão diagnóstica.
13SANTOS et al., 2022Desafios no cuidado ao paciente com leucemia agudaAnalisar desafios multidisciplinares.Revisão narrativa.Dificuldades estruturais e necessidade de cuidado integrado.
14SCHUBERT et al., 2023CAR T de 3ª geração em adultos com LLAAnalisar eficácia terapêutica.Ensaio clínico.Resultados promissores com boa resposta imunológica.
15SOUSA et al., 2015Fatores prognósticos na LLA infantojuvenilIdentificar fatores de risco e prognóstico.Estudo clínico analítico.Idade e resposta inicial foram fatores determinantes.
16SOUZA et al., 2024Perfil clínico e prognóstico da LLA em criançasAnalisar fatores clínicos associados ao prognóstico.Estudo descritivo.Identificação de fatores que influenciam sobrevida.
17VORA et al., 2016Impacto da radioterapia craniana em LLA pediátricaAvaliar influência da radioterapia nos desfechos.Estudo clínico.Diminuição de recaídas centrais.
18WANG et al., 2024Tratamento CAR-T CD19 em jovens com LLA BAvaliar desfechos em longo prazo do CAR-T.Estudo clínico com seguimento prolongado.Alta taxa de remissão e sobrevida a longo prazo.
19XU et al., 2024Reconstituição imune após QT em LLA infantilAvaliar recuperação imunológica pós-QT.Estudo clínico.Reconstituição gradual com marcadores específicos.
20YERUSHAL et al., 2023Segundo transplante como resgate em LMA/SMDAvaliar eficácia do segundo TCTH.Estudo retrospectivo.Possibilidade de sobrevida em casos refratários.
21ZAGO et al., 2013Hematologia: fundamentos e práticaAprofundar fundamentos hematológicos.Livro técnico.Referência teórica consolidada.

Fonte: Autores, 2025

A partir da análise dos estudos listados, observou-se que a maioria enfatiza o diagnóstico precoce e o papel dos exames laboratoriais na estratificação de risco. Estudos como os de Santos et al. (2020) e Mebs Canto et al. (2023) destacam a importância da integração entre achados clínicos e moleculares, enquanto Wang et al. (2024) e Schubert et al. (2023) abordam avanços terapêuticos, como a introdução da terapia CAR-T no Brasil.

Principais sinais e sintomas observados

A Leucemia Linfoide Aguda (LLA) em crianças apresenta um conjunto de sinais e sintomas que, apesar de inespecíficos, são fundamentais para a suspeita clínica inicial. Estes achados podem apresentar complexidade diagnóstica, sendo de difícil diferenciação em relação a enfermidades prevalentes e autolimitadas da infância, como viroses, doenças reumatológicas ou infecções comuns, podendo retardar o diagnóstico. Os sintomas gerais podem incluir febre, sudorese noturna, perda do apetite, redução ponderal, dor nos ossos, hematomas ou hemorragias. (Clarke et al., 2016; Araújo et al., 2022; Xu, et al., 2024, 2025).

Conforme o estudo de Farias et al. (2021) apontou, em crianças a principal sintomatologia foi a febre, entre os estudados a maiora era do sexo feminino e a maior parte dos pacientes com LLA demorou de 1 a 4 entre o primeiro sintoma e primero atendimento.

Além dos sintomas inespecíficos, a LLA pode apresentar sinais clínicos específicos relacionados à infiltração em órgãos e tecidos. O acúmulo de células leucêmicas no fígado e no baço pode resultar em hepatomegalia e esplenomegalia, manifestando-se como inchaço abdominal e sensação precoce de saciedade após pequenas refeições. Outro achado frequente é a linfadenopatia, perceptível sob a pele em regiões como pescoço, axilas e virilha. Já os linfonodos localizados no tórax e abdômen, quando comprometidos, podem ser identificados apenas por exames de imagem, como tomografia computadorizada ou ressonância magnética. (Souza et al., 2024).

A infiltração leucêmica também pode provocar dor óssea e articular, em decorrência do acúmulo de células anormais próximas à superfície óssea ou na parte interna das articulações. Em casos mais avançados, a doença pode se disseminar para o sistema nervoso central, ocasionando cefaleia, convulsões, vômitos, alterações visuais, fraqueza muscular e distúrbios de equilíbrio. A infiltração intratorácica, por sua vez, pode gerar acúmulo de líquido pleural e dispneia, enquanto manifestações menos comuns incluem comprometimento da pele, olhos, testículos, ovários, rins e outros órgãos (Souza et al., 2024).

A célula-tronco hematopoiética origina a linhagem de células linfoides, que por sua vez, dá origem aos linfócitos T e B. No subtipo de Leucemia Linfoide Aguda de células T, é comum o acometimento do timo, cuja expansão pode comprimir estruturas vizinhas, como a traqueia, resultando em tosse e dificuldade respiratória. Em situações mais graves, pode ocorrer compressão da veia cava superior (SVC), levando à chamada síndrome da veia cava superior, que se caracteriza por edema de face, pescoço, braços e parte superior do tórax, cefaleia, tontura e alterações do nível de consciência. Essa condição é potencialmente fatal e requer intervenção imediata (Sousa, et al., 2015).

As manifestações clínicas e a duração dos sintomas nas crianças portadoras de LLA são bastante variadas e dependem do grau de infiltração dos linfoblastos na medula óssea e da extensão do comprometimento extra-medular (Mebs Canto, et al., 2023).

Perfil Laboratorial

O diagnóstico da Leucemia Linfóide Aguda (LLA) depende de uma avaliação laboratorial detalhada, capaz de identificar alterações hematológicas, morfológicas, imunofenotípicas e genéticas que caracterizam a doença. O hemograma é frequentemente o primeiro exame a indicar alterações sugestivas, mas testes complementares, como o mielograma, a citoquímica, a imunofenotipagem e a citogenética, são essenciais para a confirmação diagnóstica e definição prognóstica (Santos et al., 2020).

Exames de sangue

O hemograma completo evidencia a chamada tríade leucêmica: anemia, trombocitopenia e leucocitose/leucopenia. A anemia costuma ser normocítica e normocrômica, com valores de hemoglobina entre 7,5–10 g/dl, sendo <7,5 g/dl em mais da metade dos pacientes. Os leucócitos apresentam grande variabilidade: <5.000/mm³ em 30% dos casos, >10.000/mm³ em 45% e >100.000/mm³ em cerca de 10%, geralmente associados às variantes T. A trombocitopenia é frequente (73%), sendo grave (<25.000/mm³) em 30% dos pacientes (Santos et al., 2020). A neutropenia intensa (<500/mm³) está presente em aproximadamente 23% dos casos, favorecendo o risco de infecções oportunistas (Santos et al., 2020; Zago et al., 2013;).

Além das alterações hematológicas, exames bioquímicos podem revelar elevação de LDH e ácido úrico, decorrentes do alto turnover celular, aumentando o risco de síndrome da lise tumoral. Funções hepáticas e renais devem ser monitoradas, pois podem ser comprometidas tanto pela infiltração leucêmica quanto pelos efeitos da quimioterapia (Santos et al., 2020).

Exames de imagem

Os exames de imagem, embora não específicos, auxiliam na detecção de complicações associadas. A radiografia de tórax pode identificar massas mediastinais, características da LLA de linhagem T. A tomografia computadorizada e a ressonância magnética ajudam na avaliação de infiltrações no sistema nervoso central e massas em órgãos sólidos, enquanto o ultrassom abdominal pode detectar hepatomegalia e esplenomegalia, comuns na evolução da doença (Santos et al., 2022).

Testes específicos da patologia

O mielograma é o exame padrão-ouro, evidenciando infiltração medular por blastos em mais de 25% das células nucleadas. Essas células apresentam morfologia imatura, com núcleo grande e citoplasma escasso (Santos et al., 2020).

A citoquímica é utilizada para diferenciar as leucemias de linhagem linfoide das mieloides. Nas LLA, observa-se negatividade para mieloperoxidase e presença de vacúolos citoplasmáticos e atividade nuclear típica (Santos et al., 2020).

A imunofenotipagem por citometria de fluxo é fundamental para a classificação, distinguindo a LLA de precursores B (CD19, CD22, CD79a) da LLA de precursores T (CD3, CD5, CD7). Além disso, permite identificar o grau de diferenciação celular e é amplamente utilizado no monitoramento da doença residual mínima (DRM) (Santos et al., 2020).

A citogenética revela alterações cromossômicas com forte impacto prognóstico. A translocação t(9;22) (cromossomo Filadélfia) está associada a mau prognóstico; a t(12;21) é comum em crianças e associada a bom prognóstico; e a t(4;11) costuma indicar evolução agressiva. A deleção 9p também é relevante, associada à resistência terapêutica (Duarte et al., 2024; Santos et al., 2020).

Por fim, a biologia molecular (PCR em tempo real) permite identificar mutações específicas e avaliar a DRM, oferecendo alta sensibilidade para a detecção de recaídas precoces (Santos et al., 2020).

Valores médios e intervalos

Os principais parâmetros laboratoriais da LLA estão resumidos na tabela a seguir:

ExameAchados típicos / Valores médios e intervalosRelevância clínica
Hemoglobina7,5–10 g/dl em média; <7,5 g/dl em >50% dos pacientes (Santos et al., 2020).Indica anemia normocítica normocrômica; explica sintomas como fadiga e palidez.
Leucócitos<5.000/mm³ em 30%; >10.000/mm³ em 45%; >100.000/mm³ em 10%, mais comum na LLA-T (Santos et al., 2020).Reflete a infiltração de blastos; pode indicar risco de leucostase em contagens altas.
Plaquetas<150.000/mm³ em 73%; <25.000/mm³ em 30% (Santos et al., 2020).Explica sangramentos (petéquias, equimoses, epistaxes); marcador de gravidade.
NeutrófilosNeutropenia intensa (<500/mm³) em 23% (Santos et al., 2020).Predispõe a infecções oportunistas e complicações infecciosas graves.
MielogramaBlastos >25% das células nucleadas (Santos et al., 2020).Exame padrão-ouro para diagnóstico; confirma infiltração leucêmica.
CitoquímicaNegatividade para mieloperoxidase; presença de vacúolos e atividade nuclear (Santos et al., 2020).Diferencia LLA de leucemias mieloides.
ImunofenotipagemLLA-B: CD19, CD22, CD79a; LLA-T: CD3, CD5, CD7 (Santos et al., 2020).Define linhagem (B ou T) e estratifica risco; usada também para doença residual mínima.
CitogenéticaAlterações mais comuns: t(9;22), t(12;21), t(4;11), deleção 9p (Santos et al., 2020).Fundamentais no prognóstico e na escolha terapêutica.
PCR/Genética molecularDetecta translocações e mutações específicas; monitora doença residual mínima (Santos et al., 2020).Alta sensibilidade para recaída precoce; permite personalizar terapêutica.

Tratamento

O diagnóstico e o tratamento precoce são condições importantes no prognóstico na LLA, o que pode ser dificultado devido aos exames complexos em pacientes que dependem do sistema de saúde pública no Brasil. (Gong et al., 2024). O tratamento inicial padrão da LLA atualmente inclui quimioterapia geralmente seguida   por   transplante   de   células-tronco.

Quimioterapia é a principal modalidade de tratamento para a Leucemia Linfoide Aguda (LLA) é, geralmente, a primeira escolha. Sua importância reside na alta probabilidade de cura e no aumento da sobrevida dos pacientes. A terapia para a LLA tem um alto potencial de recuperação, principalmente quando realizada de forma precoce. Um tratamento iniciado no estágio inicial da doença pode levar a um prognóstico favorável de 98% a 99%, permitindo a remissão antes que as células se tornem resistentes aos medicamentos (Bonilha et al.,2021)

A radioterapia pode ser associada com a quimioterapia com o objetivo de eliminar que essas células estejam infiltradas (Vora et al., 2016).  A ação da radioterapia é induzir a ionização celular tendo como resultado a produção de nitrogênio e oxigênio reativas que atuam nos radicais livres, levando a células leucêmicas na medula óssea e órgãos um dano celular (Zago, Falcão, Pasquini, 2013).

Vale destacar os efeitos adversos relacionados ao tratamento antineoplásicos de LLA, como exemplo, no estudo de Paiva et al. (2022), apresentaram uma redução na velocidade de crescimento, assim como ganho de peso, sugerindo interferência negativa da terapêutica empregada sobre o estado nutricional em crianças com essa condição.

4.3 Transplante De Células-Tronco

O perfil sociodemografico e do acesso ao transplante em pacientes com LLA é importante de ser mencionado, no estudo de Miguel et al. (2024) e Lôrdelo et al. (2024), esse perfil varia por faixa etária e por regiões, com predominância de transplantados no sexo masculino, adulto, brancos e com maior tempo de espera entre os atendidos em rede pública.

De acordo com Aragão et al. (2021) e Morales et al. (2025) o transplante de células-tronco hematopoiéticas (TCTH) é realizado naqueles pacientes com leucemia de alto risco ao diagnóstico e com chance de recidiva em 5 anos a partir do início do tratamento. Transplante é realizado por uma infusão intravenosa de células-tronco hematopoiéticas com o propósito de reconstruir a função medular e imune dos pacientes com leucemia. CÉLULAS CAR-T: entre os novos tratamentos para a LLA destaca-se a terapia com linfócitos T modificados   do   paciente   expressando   receptores   antigênicos   quiméricos (CAR-T) específicos para o reconhecimento de marcadores de células tumorais (Wang et al., 2024).

Apesar dos transplantes terem boas respostas, há pacientes que apresentam recidivas após o primeiro transplante, para isso, uma alternativa promissora pode ser o segundo transplante alogênico de células tronco hematopoiéticas (HSCT2), onde no estudo de Yerushalmi et al. (2023), foi destacado que o HSCT2 está associado a uma sobrevida mais longa em comparação com tratamentos sem transplante e pode ser uma boa abordagem nesses pacientes com recidiva. 

CONCLUSÃO

A análise dos estudos selecionados permitiu compreender que a Leucemia Linfoide Aguda (LLA) constitui um desafio clínico e laboratorial significativo, sobretudo em pacientes pediátricos. A doença apresenta sinais e sintomas muitas vezes inespecíficos, o que pode atrasar o diagnóstico e comprometer o prognóstico. Nesse contexto, o hemograma, o mielograma, a imunofenotipagem, a citogenética e a biologia molecular configuram-se como ferramentas indispensáveis para a confirmação diagnóstica e para a estratificação de risco.

No que se refere ao tratamento, observou-se que a quimioterapia ainda representa a principal modalidade terapêutica, mas novas abordagens, como o transplante de células-tronco hematopoiéticas e a terapia celular com CAR-T, vêm ampliando as perspectivas de sobrevida, especialmente em casos refratários ou de alto risco.

Apesar dos avanços, permanecem limitações relacionadas ao acesso a exames especializados e às terapias de alto custo, o que evidencia a necessidade de investimento em políticas públicas e em pesquisas nacionais que possibilitem maior equidade no tratamento.

Dessa forma a integração entre diagnóstico precoce, estratificação adequada e terapias inovadoras é fundamental para melhorar os desfechos clínicos e prognósticos da LLA em crianças brasileiras.

REFERÊNCIAS

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ARAÚJO, L. G. L.; RODRIGUES, V. P.; SILVA, M. M. L.; AZEVEDO, G. C. A.; MONTEIRO, P. M.; FERREIRA, J. M. S.; SOUSA, H. M. de. Perfil demográfico e clínico de casos de neoplasias hematológicas em crianças e adolescentes. Revista Brasileira de Cancerologia, v. 68, n. 2, e-242356, 2022. 

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FARIAS, J. V. M.; CHAVES, R. G. R.; ALBUQUERQUE, M. T. F. Perfil clínico-epidemiológico das crianças e adolescentes com leucemia linfoide aguda atendidas em um hospital de referência de Imperatriz-MA. Facit Business and Technology Journal, v. 1, n. 23, p. 85-98, 2021. 

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1Acadêmicos do curso de Farmácia, Faculdade Supremo Redentor (FACSUR), Pinheiro – MA.
2Orientador. Especialista em Análises Clínicas e Pós-graduado em Hematologia Oncológica. Docente da Faculdade Supremo Redentor (FACSUR), Pinheiro – MA.
3Orientador. Docente da Faculdade Supremo Redentor (FACSUR), Pinheiro – MA.
4Orientador. Farmacêutica bioquímica, Especialista em gestão de assistência farmacêutica e farmácia clínica.