PADRÃO ESPACIAL DA DISTRIBUIÇÃO DA INCIDÊNCIA DE DENGUE E SUA RELAÇÃO COM INDICADORES SOCIAIS NO ESTADO DE RONDÔNIA, BRASIL

SPATIAL PATTERN OF DENGUE INCIDENCE DISTRIBUTION AND ITS RELATIONSHIP WITH SOCIAL INDICATORS IN THE STATE OF RONDÔNIA, BRAZIL

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202510172127


Gabriel Vinicius Moura Pacifico Monteiro
Julio Cesar Bezerra Cordeiro
Vinicius Da Silva
Yuri Cesar Dua
Ana Paula de Azevedo dos Santos


RESUMO

A dengue permanece como importante problema de saúde pública nas Américas, com surtos recorrentes e forte impacto socioambiental. Este estudo descreve o padrão espacial da incidência de dengue no estado de Rondônia (2015–2024) e analisa sua relação com indicadores sociais, utilizando dados do SINAN, IBGE e indicadores de desenvolvimento urbano. Foram realizadas análises descritivas, testes de comparação (t de Student, ANOVA com Tukey HSD), regressão logística binomial (GLM) e análise espacial (Kernel, Índice de Moran). Observou-se concentração de casos em Porto Velho e municípios do sudeste do estado, predominância sorotípica do DEN-4 em parte do período e associação entre ocorrência de casos e marcadores de vulnerabilidade social, notadamente escolaridade reduzida e desigualdades raciais. Registros classificados como “Ignorado/Branco” cresceram ao longo do tempo, indicando fragilidades no preenchimento das fichas de notificação. Os achados ressaltam a necessidade de integrar vigilância entomológica, ações de saneamento e estratégias educativas direcionadas às populações mais vulneráveis para reduzir a transmissão e mitigar surtos futuros.

Palavras-chave: Dengue. Distribuição espacial. Indicadores sociais. Rondônia.

1) INTRODUÇÃO

A dengue é uma das arboviroses mais prevalentes nas Américas, sendo responsáveis por vários surtos epidemiológicos ao longo dos últimos anos. O ano de 2023 foi um dos anos com maiores registros de dengue nas américas com cerca de aproximadamente 4,5 milhões de casos e uma taxa de óbito de 2340 pessoas (OPAS, 2024).

 De acordo com Leite et al. (2024), a dengue é causada por quatro sorotipos virais distintos: DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4. A transmissão ocorre, predominantemente, por mosquitos do gênero Aedes aegypti, havendo raros casos de transmissão vertical (gestacional) e por transfusões sanguíneas.

A dinâmica de transmissão da dengue é fortemente influenciada pela pluviosidade, que favorece a reprodução do vetor. O ciclo infeccioso inicia-se quando o mosquito inocula o vírus na corrente sanguínea do hospedeiro. Inicialmente, o vírus penetra na epiderme e na derme por meio de processos de endocitose, afetando principalmente as células dendríticas e de Langerhans. Posteriormente, essas células infectadas migram para os linfonodos, desencadeando a resposta imunológica do organismo (Nunes, 2011; Dalbem et al., 2014).

Esse processo promove o recrutamento de monócitos, macrófagos, linfócitos e a liberação de fatores pró-inflamatórios, o que leva à sintomatologia inicial do indivíduo. Os principais sintomas incluem febre, cefaleia, mialgia, erupções cutâneas e leucopenia. Em casos mais graves, podem surgir sinais de alarme, como dor abdominal, vômitos persistentes e alterações hematológicas, que aumentam o risco de complicações e óbito (Christie et al., 2023).

No Brasil, a dengue mantém-se endêmica e com surtos epidêmicos cíclicos, caracterizados por aumento sazonal de casos durante os períodos de maior pluviosidade. Em 2023, o país registrou um dos maiores picos da última década, consolidando-se entre as nações com maior número absoluto de casos (Brasil, 2024). Essa situação é agravada por fatores como urbanização acelerada, déficit de infraestrutura sanitária e desigualdades socioeconômicas, que favorecem a proliferação do vetor e dificultam as ações de controle (Trata Brasil, 2023).

A distribuição espacial da dengue é uma questão de grande relevância para a saúde pública, especialmente no Estado de Rondônia. Além dos aspectos epidemiológicos, há uma correlação substancial entre a doença e fatores socioeconômicos, frequentemente negligenciados, mas que exercem influência significativa sobre sua disseminação (Araújo, 2014; Malagive, 2023).

O fator socioeconômico mostra-se determinante na perpetuação da doença, pois o desenvolvimento do vetor está intimamente relacionado a ambientes precários, como o acúmulo de resíduos urbanos, a ausência de higiene pública e as deficiências no saneamento básico. Considerando que Porto Velho, capital do estado, apresenta um dos piores indicadores de saneamento básico do Brasil e que pouco se avançou em infraestrutura urbana na última década, torna-se evidente a necessidade de uma análise aprofundada da situação socioeconômica e urbana de Rondônia (Trata Brasil, 2023; Saneamento Básico, 2023).

Diante desse cenário, esta pesquisa busca aprofundar a compreensão da relação entre o padrão espacial da incidência da dengue e os indicadores socioeconômicos. Fatores como o acesso aos serviços de saúde, moradia adequada e mobilidade social também se destacam como variáveis relevantes na caracterização da vulnerabilidade populacional (De Matos Bezzera, 2023).

Compreender a distribuição espacial da dengue e sua correlação com os indicadores sociais no Estado de Rondônia é essencial para o fortalecimento das políticas públicas e para a mitigação dos impactos da doença na região. O presente estudo tem como objetivo analisar o padrão espacial da incidência de dengue e sua relação com os indicadores sociais, estruturando um banco de dados georreferenciado, correlacionando variáveis socioeconômicas e elaborando mapas de risco que identifiquem os principais municípios vulneráveis à infecção.

2) METODOLOGIA

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa ecológica, descritiva e analítica, com abordagem quantitativa, baseada em dados secundários referentes aos casos confirmados de dengue no estado de Rondônia, Brasil, no período de 2015 a 2024.

Os dados epidemiológicos foram obtidos no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), disponível no portal DATASUS, incluindo variáveis referentes ao número de casos confirmados por município, sexo, faixa etária, escolaridade, raça/cor e sorotipo viral. Os indicadores sociais utilizados foram extraídos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Atlas de Desenvolvimento Humano (PNUD, 2023), contemplando informações sobre renda, escolaridade, saneamento básico e densidade populacional.

Os dados foram organizados e consolidados em um banco de dados criado no software Microsoft Excel® 365, totalizando 999 casos confirmados de dengue no período. As análises estatísticas descritivas incluíram cálculo de médias anuais, desvio-padrão e frequências relativas, considerando a distribuição temporal e espacial dos casos.

A análise comparativa entre variáveis categóricas, como sexo e raça, foi realizada por meio do teste t de Student e da Análise de Variância (ANOVA), com nível de significância de 5% (p < 0,05). Para identificar diferenças entre grupos, aplicou-se o teste post-hoc de Tukey HSD.

No estudo da relação entre a incidência de dengue e os indicadores sociais, empregou-se análise de regressão logística binomial (GLM binomial), ajustada por ano e ponderada pelo total de casos, expressando os resultados em odds ratio (OR) com intervalo de confiança de 95% (IC95%). A correção para múltiplos testes foi realizada pelo método FDR (False Discovery Rate), garantindo robustez estatística dos resultados.

A análise espacial foi conduzida com auxílio dos softwares QGIS® 3.28 e GeoDa® 1.20, utilizando o método de interpolação por densidade de Kernel e o cálculo do Índice de Moran Global (I) para identificação de autocorrelação espacial. Foram elaborados mapas de calor e de incidência padronizada (SMR) por município, possibilitando a visualização de áreas críticas e tendências territoriais da doença ao longo do período. Os mapas temáticos foram elaborados com base nas coordenadas geográficas oficiais dos limites municipais de Rondônia, disponibilizadas pelo IBGE (2024). O processo de georreferenciamento considerou o sistema de projeção SIRGAS 2000 / UTM Zone 20S.

Por utilizar exclusivamente dados secundários, de domínio público e sem identificação nominal de indivíduos, o estudo dispensa apreciação por Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde.

3) RESULTADOS E DISCUSSÕES

3.1) Distribuição Temporal

Durante o período de 2015 a 2024, foram registrados e notificados 999 casos confirmados de dengue no estado de Rondônia, conforme dados extraídos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN/DATASUS). Observou-se alta variabilidade temporal na ocorrência da doença, com média anual de 100,4 casos e desvio-padrão de 149,36, indicando comportamento oscilante entre os anos analisados. O ano de 2023 apresentou o maior número absoluto de casos (393), seguido de 2024, enquanto 2018 registrou o menor número (6 casos).

 Essa alta variedade entre os períodos podem estar associadas à fatores ocasionando baixa transmissão e poucos surtos expressivos, ou podem estar associadas à ausência de notificação efetiva durante esse periodo, visto que a subnotificação é um problema recorrente no banco de dados, gerando comprometimento em análise no banco de dados(SOUSA et al., 2021).

Figura – Mapa de calor dos casos de dengue por município em Rondônia (2015–2024)

Fonte: SINAN/DATASUS. O mapa de calor apresenta a distribuição temporal dos casos de dengue registrados nos municípios de Rondônia entre 2015 e 2024. A escala de cores varia do vermelho claro (menor número de casos) ao vermelho escuro (maior número de casos).

3.2) Distribuição Espacial

A análise espacial revelou que os municípios de Porto Velho, Chupinguaia, Alta Floresta d’Oeste e Cacoal concentraram as maiores incidências durante os anos de 2023 e 2024, correspondendo a 75,3% de todos os casos notificados no período. Porto Velho destacou-se como o principal epicentro, apresentando 165 casos em 2023 e 112 casos em 2024, valores significativamente superiores aos observados nos demais municípios.

O mapa de calor produzido a partir da interpolação por densidade de Kernel evidenciou focos de maior intensidade nas regiões centrais e sudeste do estado, coincidindo com áreas de maior densidade populacional e menor cobertura de saneamento básico. Esses achados confirmam a influência dos determinantes sociais e ambientais na distribuição espacial da doença, como demonstrado por Araújo et al. (2014) e De Matos Bezerra & Matos (2023).

3.3)  Analise por Sexo

Figura: Distribuição dos casos de dengue por sexo e ano de notificação no estado de Rondônia, 2015–2024. 

Legenda: Dados extraídos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).
A figura apresenta a distribuição anual dos casos de dengue segundo o sexo (masculino e feminino) no período de 2015 a 2024 no estado de Rondônia. Para avaliar a diferença entre as médias anuais de casos entre os sexos, utilizou-se o teste t de Student para amostras independentes, considerando nível de significância de 5% (p < 0,05). O resultado obtido (t = -0,044; p = 0,966) indicou que não houve diferença estatisticamente significativa na ocorrência da doença entre os sexos no período analisado.

A análise demográfica dos casos revelou equilíbrio entre os sexos, sem diferença estatisticamente significativa. Esse achado sugere exposição semelhante de homens e mulheres ao vetor, condizente com o comportamento predominantemente domiciliar do Aedes aegypti.

3.4) Distribuição segundo sorotipos

Figura 1: Distribuição dos casos de dengue segundo sorotipos DEN 1, DEN 2 e DEN 4 no estado de Rondônia, 2015–2024.

Legenda: Dados extraídos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).
A figura apresenta a distribuição do número de casos de dengue para os sorotipos DEN 1, DEN 2 e DEN 4 no estado de Rondônia, no período de 2015 a 2024. Para verificar diferenças estatísticas entre os grupos, aplicou-se o teste de Análise de Variância (ANOVA), seguido do teste de comparações múltiplas de Tukey HSD, com nível de significância de 5% (p < 0,05). Os resultados indicaram que houve diferença estatisticamente significativa entre DEN 4 e os demais sorotipos (DEN 1 e DEN 2), enquanto DEN 1 e DEN 2 não diferiram significativamente entre si.

A figura demonstra a predominância diferenciada dos sorotipos ao longo do período estudado, com o DEN-4 apresentando diferença estatisticamente significativa em relação aos sorotipos DEN-1 e DEN-2. Os sorotipos DEN-1 e DEN-2, por sua vez, não mostraram diferença estatística entre si, indicando uma circulação relativamente estável durante o período analisado.

Estudos anteriores demonstram que o risco de formas graves de dengue é influenciado tanto pelo sorotipo quanto pela sequência de infecções (SAITO, 2017). Infecções secundárias, especialmente quando há alternância entre sorotipos distintos, podem aumentar a probabilidade de dengue grave ou hemorrágica devido ao fenômeno de amplificação dependente de anticorpos (ADE). Assim, a alteração da predominância sorotípica tem impacto direto sobre o perfil clínico da doença e sobre o planejamento da rede de atenção à saúde.

3.5) Distribuição segundo escolaridade

Figura 2 – Distribuição percentual dos casos de dengue segundo escolaridade em Rondônia (2015–2024).

Legenda: O gráfico apresenta a variação percentual anual dos casos de dengue por nível de escolaridade entre 2015 e 2024 no estado de Rondônia. Para avaliar tendências temporais, foi ajustado um modelo de regressão logística binomial (GLM Binomial) da forma proporção ~ ano_centrado, ponderado pelo total anual de casos. Os resultados foram expressos em odds ratio (OR) por ano, com intervalos de confiança de 95% e correção para múltiplos testes pelo método FDR (False Discovery Rate). Ensino fundamental completo: OR = 0,86/ano (IC95% 0,79–0,93; FDR = 0,002) → queda média de ~14%/ano. 1ª a 4ª série incompleta do EF: OR = 0,68/ano (IC95% 0,52–0,89; FDR = 0,024) → queda média de ~32%/ano. Ignorado/Branco: OR = 1,10/ano (IC95% 1,02–1,18; FDR = 0,030) → aumento médio de ~9–10%/ano, compatível com piora no preenchimento do campo escolaridade. 5ª a 8ª série incompleta do EF: OR = 0,88/ano (IC95% 0,77–1,01; FDR = 0,167) → tendência de queda não significativa. Demais grupos (Analfabeto, 4ª série completa, Ensino Médio incompleto/completo, Ensino Superior incompleto/completo): sem tendência significativa (FDR ≥ 0,05).

A análise da distribuição dos casos de dengue segundo o nível de escolaridade, entre 2015 e 2024, evidencia predominância entre indivíduos com ensino fundamental completo e 1ª a 4ª série incompleta. Apesar disso, ambas as categorias apresentaram tendência de redução ao longo dos anos, com queda média anual de 14% (OR = 0,86; IC95%: 0,79–0,93) e 32% (OR = 0,68; IC95%: 0,52–0,89), respectivamente. Em contrapartida, os registros classificados como “Ignorado/Branco” aumentaram cerca de 10% ao ano, possivelmente devido a falhas no preenchimento das fichas de notificação.

Esses resultados reforçam a associação entre baixa escolaridade e maior vulnerabilidade à infecção, reflexo das desigualdades sociais que influenciam a exposição ao vetor e o acesso à informação em saúde. Estudos como os de Guimarães et al. (2023) e Silva et al. (2024) corroboram essa relação, destacando que níveis educacionais mais baixos se associam a maior incidência e mortalidade por dengue.

Em síntese, observa-se em Rondônia uma redução gradativa dos casos entre os grupos menos escolarizados, mas ainda concentrados em estratos populacionais socialmente mais vulneráveis, indicando a necessidade de ações educativas e preventivas mais direcionadas a essas comunidades.

3.6.1) Anslise por raça

Figura 1 – Casos de dengue por raça em Rondônia (2015–2024)

Fonte: SINAN/DATASUS. O gráfico apresenta a distribuição dos casos de dengue notificados em Rondônia entre 2015 e 2024, classificados por raça. Foi aplicada a análise de variância (ANOVA), que indicou diferença estatisticamente significativa entre os grupos raciais (p = 0,017). O teste post-hoc de Tukey identificou diferenças significativas entre os pares Amarela × Parda (p = 0,030), Indígena × Parda (p = 0,032) e Preta × Parda (p = 0,048), evidenciando maior concentração de casos no grupo Pardo.

A Figura 1 evidencia uma diferença estatisticamente significativa na distribuição dos casos de dengue entre os diferentes grupos raciais no estado de Rondônia. O teste post-hoc de Tukey revelou diferenças entre os pares Amarela × Parda (p = 0,030), Indígena × Parda (p = 0,032) e Preta × Parda (p = 0,048), com maior concentração de casos entre indivíduos autodeclarados pardos, segundo dados do SINAN/DATASUS.

Do ponto de vista epidemiológico, essa predominância pode refletir tanto disparidades socioeconômicas quanto condições ambientais diferenciadas, uma vez que o grupo pardo representa a maior parte da população de Rondônia e, em muitas regiões, está mais exposto a condições urbanas precárias, com infraestrutura irregular e presença de criadouros do Aedes aegypti. Estudos em outras regiões do Brasil também apontam que a incidência de dengue tende a se concentrar em populações mais vulneráveis socialmente, incluindo comunidades de menor renda e escolaridade. Desse modo, a associação decorre da interação de fatores sociais, ambientais e de acesso desigual aos serviços de saúde, o que favorece a persistência de focos vetoriais e o atraso no diagnóstico (SANSONE; BOSCHIERO; MARSON, 2024).

Além disso, a maior proporção de casos entre pessoas pardas pode estar relacionada à subnotificação em grupos indígenas e amarelos, visto que, em muitas áreas rurais ou de difícil acesso, há menor cobertura dos sistemas de vigilância (BRASIL, 2023). Assim, parte da diferença observada pode derivar de viés de notificação, e não apenas de risco real de infecção.

Portanto, a interpretação desses resultados deve considerar as limitações do banco de dados especialmente a autodeclaração da variável “raça/cor” e a subnotificação em populações isoladas. Ainda assim, os achados reforçam a necessidade de políticas públicas mais direcionadas a populações vulneráveis, com reforço das ações de vigilância, saneamento e educação em saúde.

3.6.2) Analise casos médio por raça

Figura 2 – Casos médios de dengue por raça em Rondônia (2015–2024)

Legenda: Fonte,SINAN/DATASUS.O gráfico apresenta a média de casos de dengue diagnosticados por raça no estado de Rondônia no período de 2015 a 2024. Foi realizada análise estatística utilizando o teste de variância (ANOVA), que indicou diferença significativa entre os grupos raciais (p = 0,017). O teste de comparações múltiplas de Tukey revelou diferenças estatisticamente significativas entre os pares Amarela × Parda (p = 0,030), Indígena × Parda (p = 0,032) e Preta × Parda (p = 0,048), evidenciando maior concentração de casos no grupo Pardo.

A Figura 2, ao apresentar as médias anuais de casos por grupo racial, confirma a tendência observada na Figura 1, destacando novamente o grupo pardo com maior número médio de casos durante todo o período de 2015 a 2024 (p = 0,017). As diferenças entre os pares Amarela × Parda, Indígena × Parda e Preta × Parda permanecem estatisticamente significativas, reforçando que essa desigualdade é consistente e não pontual.

O predomínio do grupo pardo pode ser explicado por fatores estruturais e territoriais. Regiões urbanas de maior densidade populacional, com presença predominante dessa população, apresentam condições favoráveis à reprodução do vetor, como armazenamento inadequado de água e resíduos sólidos. Além disso, a exposição ocupacional também influencia, trabalhadores em ambientes externos, sem medidas de proteção adequadas, possuem maior risco de picadas do mosquito. Estudos recentes demonstram que a vulnerabilidade racial na dengue não é apenas biológica, mas social e territorial. Pesquisas realizadas em cidades da Amazônia Legal identificaram padrão semelhante de maior incidência entre pardos, relacionando esse fenômeno a desigualdades de renda e saneamento (SANSONE; BOSCHIERO; MARSON, 2024).

Por fim, é fundamental destacar a necessidade de aprimoramento dos sistemas de informação, com capacitação dos profissionais para correto preenchimento da variável “raça/cor” no SINAN, e incorporação de análises que cruzem esses dados com indicadores de renda, educação e acesso a saneamento básico (BRASIL, 2023). Essa integração permitirá compreender com maior profundidade como as desigualdades estruturais moldam o comportamento epidemiológico da dengue em Rondônia.

Considerações gerais

As duas figuras analisadas indicam que a dengue em Rondônia mantém relação estreita com determinantes sociais e raciais da saúde, sendo mais prevalente entre grupos populacionais com maior vulnerabilidade socioeconômica. Esse padrão reforça que a prevenção e o controle da dengue devem ir além do combate ao vetor, envolvendo ações integradas de saneamento, urbanização, educação ambiental e vigilância participativa.

É importante destacar que os dados de raça/cor e sorotipagem devem ser utilizados de maneira complementar, uma vez que a dinâmica da doença resulta da interação entre fatores virais, ambientais e sociais. Estratégias intersetoriais e baseadas em equidade são essenciais para reduzir as disparidades observadas e melhorar o enfrentamento da dengue em populações diversas.

4) CONCLUSÃO

A análise espacial e epidemiológica realizada evidencia que a dengue em Rondônia entre 2015 e 2024 apresenta padrão heterogêneo, concentrando-se em polos urbanos e municípios com piores condições de saneamento e indicadores sociais. Porto Velho e municípios do sudeste estatal destacaram-se como hotspots, enquanto a predominância sorotípica observada (com maior participação do DEN-4 em períodos recentes) reforça a necessidade de monitoramento contínuo da sorotipagem viral para orientar a gestão clínica e as ações de vigilância.

As associações encontradas entre maior incidência e agrupamentos sociais vulneráveis — particularmente níveis mais baixos de escolaridade e maior proporção da população autodeclarada parda — indicam que fatores socioeconômicos e desigualdades territoriais desempenham papel central na manutenção da transmissão. Além disso, o aumento proporcional de registros “Ignorado/Branco” sugere limitações na qualidade dos dados de vigilância, o que pode prejudicar a formulação de intervenções precisas.

Diante disso, recomenda-se: (i) fortalecimento da vigilância sorológica e entomológica; (ii) ações integradas que combinem controle vetorial com intervenções de saneamento e promoção da saúde em áreas vulneráveis; (iii) capacitação das equipes locais para melhoria do preenchimento de fichas de notificação; e (iv) priorização de medidas intersetoriais para redução das desigualdades socioambientais que sustentam os focos de Aedes aegypti. Essas medidas, alinhadas a política de equidade em saúde, são fundamentais para reduzir a carga de dengue em Rondônia e para aprimorar a capacidade preditiva e de resposta do sistema de saúde.

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