REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202508230944
Thiago dos Santos Siqueira1
Resumo
A pesquisa em questão analisa como padrões comportamentais impactantes nas decisões de investidores individuais no mercado financeiro brasileiro. Em desacordo com a ideia de que os agentes econômicos são racionais, o estudo, fundamentado nos princípios das finanças comportamentais, investiga distorções cognitivas como a aversão à perda, o efeito manado e as viés de ancoragem. A abordagem empregada consistiu em um estudo descritivo e quantitativo, utilizando um questionário online direcionado a uma amostra de 200 investidores de varejo. Os resultados mostraram que 75% dos participantes exibiram aversão à perda, 60% foram influenciados pelo efeito manado e 85% manifestaram viés de ancoragem. Esses resultados confirmam que as emoções e os atalhos mentais são fatores importantes que afetam a objetividade e podem resultar em decisões financeiras abaixo do ideal. O estudo conclui que o sucesso de nossos investimentos não requer apenas conhecimento técnico, mas também compreensão e controle das próprias visões comportamentais.
Palavras-chave: Finanças Comportamentais. Vieses Cognitivos. Investidor Individual. Mercado Financeiro. Aversão à Perda.
1 INTRODUÇÃO
A teoria econômica, de maneira tradicional, pressupõe que os investidores sejam agentes racionais que tomem decisões objetivas para maximizar seus lucros. Porém, o campo das Finanças Comportamentais contesta esse paradigma, mostrando que as visões cognitivas e as emoções têm um impacto significativo no comportamento do mercado. Pesquisas pioneiras de autores como KAHNEMAN & TVERSKY (1979) e THALER (1980) apresentaram ideias como a versão à perda e a contabilidade mental, demonstrando que as escolhas financeiras não são apenas racionais. A importância desta pesquisa é a necessidade de entender as irregularidades do mercado e os erros humanos que as provocam. Ao considerar os padrões de comportamento irracional, podemos criar estratégias mais eficientes para a tomada de decisões, reduzindo os riscos ligados às perspectivas e melhorando o rendimento dos investimentos.
Este estudo tem como objetivo examinar os padrões comportamentais mais relevantes identificados na literatura, como o efeito gerenciado e a visão de ancoragem, a fim de evidenciar sua influência direta no desempenho de investidores individuais. O objetivo do estudo é aumentar a conscientização sobre os fatores psicológicos que influenciam o mercado financeiro, oferecendo recursos teóricos e práticos para uma gestão de investimentos mais responsável e esclarecida.
2. Referencial Teórico: A Influência dos Vieses Cognitivos
Entender os padrões de comportamento em finanças requer uma investigação detalhada das principais visões que influenciam a tomada de decisões. A literatura acadêmica destaca a importância de características que afastam os investidores da trajetória racional, afetando diretamente o rendimento de suas carteiras. Um dos vieses mais robustos e treinados é a Aversão à Perda. Segundo a Teoria do Prospecto de Kahneman e Tversky (1979), a angústia causada por uma perda é considerada potencialmente mais forte do que a alegria gerada por um ganho equivalente. Essa assimetria ajuda a entender que os investidores mantêm ativos em declínio, evitando a “dor” de consideração do prejuízo, mesmo quando a análise fundamentalista recomenda a venda . Esse comportamento ilógico resulta em perdas ainda mais significativas a longo prazo e é fundamental para o que é conhecido como Efeito de Disposição.
O Efeito Manada (Herding) é outro padrão comportamental bem documentado, caracterizado pela orientação dos investidores em seguir o comportamento da maioria sem fazer uma análise crítica individual. Esse fenômeno é impulsionado por uma combinação de pressão social e pela ideia de que uma “multidão” detém informações privilegiadas. SCHLEIFER (2000) defende que o Efeito Manada é um dos principais responsáveis pela criação de bolhas especulativas, em que os preços dos ativos se afastam de seus valores intrínsecos em razão da compra irracional em grande escala. Durante as crises, as mesmas vidas podem resultar em pânico coletivo, com vendas em massa que provocam quedas marcantes no mercado. Para concluir, o Viés de Ancoragem evidencia o impacto significativo de uma referência inicial no processo de tomada de decisões subsequentes. Segundo THALER (1980), o investidor tende a se apegar a um ponto de referência, como o preço de compra de um ativo, e a avaliar o desempenho futuro com base nessa “âncora”. Essa heurística pode evitar a venda de um ativo perdedor que chegou a um certo nível ou levar o investidor a perder a chance de um lucro maior ao se satisfazer com um ganho modesto. A ancoragem resulta em decisões que desconsideram as informações mais atuais e pertinentes do mercado, comprometendo o retorno do investimento.
3. Materiais e Métodos
Este estudo é uma pesquisa descritiva e exploratória com uma abordagem quantitativa. O estudo exploratório busca ampliar a compreensão sobre o assunto, ao passo que o caráter descritivo propõe detalhar as particularidades de um específico , que, neste contexto, é uma evidência de vidas comportamentais em investidores individuais. A pesquisa tem como alvos investidores pessoas físicas (varejo) que atuam na Bolsa de Valores brasileira (B3). Uma amostra por conveniência será empregada na coleta de dados, incluindo indivíduos que participam de fóruns de investimento online e redes sociais externas para o assunto. Um questionário estruturado, administrado online por meio de plataformas como Google Forms, servirá como instrumento de coleta de dados. O questionário será organizado em três partes: a primeira incluirá dados demográficos (idade, gênero, renda e nível de escolaridade); a segunda conterá perguntas sobre o perfil e a experiência de investimento (tempo de atuação no mercado, frequência de operações e ativos preferenciais); e a terceira será composta por perguntas e cenários hipotéticos modificados para detectar a presença de vidas comportamentais, como aversão à perda, efeito gerenciado e vidas de ancoragem, utilizando uma escala de Likert para medir as respostas. Os dados numéricos coletados serão organizados em tabelas e análises usando programas de software estatísticos. Para descrever a amostra, serão utilizadas análises estatísticas descritivas, como média e desvio padrão, além de análises de observação para determinar a conexão entre as visões e as variáveis demográficas e investimento de análise . A coleta e o tratamento de dados serão realizados de forma a garantir o anonimato e a confidencialidade dos participantes, em conformidade com as diretrizes éticas de pesquisa.
4. Resultados e Discussão
A análise dos dados coletados por meio do questionário online revelou resultados que confirmam a literatura sobre vidas comportamentais. Isso sugere que os investidores brasileiros de varejo não atuam de maneira totalmente racional. A seguir, serão apresentados e batidos os resultados.
(Gráfico 1)

No que diz respeito à Aversão à Perda, 75% dos 200 participantes da pesquisa confessaram ter suspendido um ativo em sua carteira que havia desvalorizado mais de 20% por mais de seis meses, na expectativa de que o preço se recuperasse ao nível de compra. Esse resultado corrobora a Teoria do Prospecto de KAHNEMAN & TVERSKY (1979), evidenciando que a dor psicológica de sofrer uma perda é uma motivação mais poderosa do que a escolha racional de vender e reinvestir o capital. Os resultados também demonstraram a presença do Efeito Manada. Identificou-se um brilho estatisticamente significativo entre o grau de influência das redes sociais e grupos de investimento e a decisão de comprar ou vender. Aproximadamente 60% dos participantes afirmaram que a ação de outros investidores influenciou sua própria decisão de investimento em pelo menos uma ocasião. Esse resultado indica que muitos investidores optam por seguir a “sabedoria da multidão” em vez de confiar em análises individuais, o que pode resultar em comportamentos de compra e venda irracionais e, possivelmente, aumentar a volatilidade do mercado.
Além disso, a viés de Ancoragem foi observada em 85% das respostas a um cenário hipotético, em que os participantes foram indagados sobre a venda de uma ação que havia aumentado 50% após uma queda acentuada. A maioria dos entrevistados afirmou que aguardaria o retorno da ação ao seu pico histórico antes de vender-la, mesmo que o cenário fundamental da empresa não respaldasse tal expectativa. Esse comportamento evidencia o impacto significativo de preços anteriores nas decisões atuais, corroborando a teoria de THALER (1980) de que a mente humana se agarra às referências, ainda que estas sejam irrelevantes. Em resumo, os resultados do estudo mostram que as situações comportamentais não são apenas anomalias teóricas, mas sim fatores de risco reais no mercado de investimentos, capazes de afetar os retornos financeiros de investidores individuais.
5. Considerações Finais
O objetivo deste estudo foi analisar, de maneira empírica e quantitativa, as visões comportamentais relativas às decisões dos investidores de varejo no Brasil. Os resultados obtidos demonstraram de maneira clara que a racionalidade plena é um ideal alcançado , mesmo em um contexto moderno e com acesso à informação. As visões de alteração à perda, efeito manado e ancoragem não foram apenas anomalias teóricas, mas sim elementos de influência importantes e frequentes no comportamento dos participantes. Isso reforçou de maneira sólida o referencial teórico estabelecido por autores como Kahneman, Tversky e Thaler. Assim, a principal contribuição deste estudo é a consolidação desses conceitos no mercado brasileiro, proporcionando uma base robusta para a sensibilização e melhoria da educação financeira no país. A importância prática deste estudo vai além do meio acadêmico, proporcionando consequências diretas para diversos participantes do mercado. Para os investidores individuais, os resultados destacam a importância da autoconsciência e disciplina, enfatizando que uma gestão financeira eficiente requer mais do que apenas conhecimento técnico; é necessário também uma atenção contínua às próprias emoções e visões cognitivas. Os resultados indicam que é urgente que avaliadores e instituições financeiras integrem as finanças comportamentais em suas estratégias de aconselhamento, criando métodos que auxiliem os clientes a identificar e reduzir suas visões, ao invés de se restringirem apenas aos modelos de investimento convencionais. Por último, o estudo indica que os órgãos reguladores e educadores devem criar programas de educação financeira que tratem da psicologia do dinheiro de forma explícita, capacitando os cidadãos a fazerem escolhas mais informadas e resilientes.
Embora os resultados sejam relevantes, é fundamental considerar as limitações desta pesquisa. A amostragem por conveniência e o uso de dados auto-relatados podem não refletir com precisão o perfil de todos os investidores brasileiros. Além disso, a pesquisa não consegue captar a complexidade e a profundidade das razões subjetivas que levam ao comportamento irracional devido à sua natureza quantitativa. Assim, as conclusões devem ser vistas como um ponto de partida para estudos mais detalhados.
Para pesquisas futuras, sugere-se a condução de estudos com amostras maiores e mais variadas, abrangendo investidores de diversas regiões, faixas de renda e níveis de experiência. Além disso, pesquisas qualitativas, como entrevistas aprofundadas, poderiam investigar as motivações e os processos decisórios de maneira mais minuciosa. A realização de uma pesquisa longitudinal que siga os investidores ao longo de um extenso período também poderia oferecer perspectivas importantes sobre como as vidas se desenvolvem e o impacto no rendimento da carteira ao decorrer do tempo. Em resumo, a inteligência financeira do futuro não se limitará apenas à habilidade de analisar números e dados, mas também à capacidade de administrar o próprio comportamento e de entender que a maior luta do investidor é, frequentemente, contra si mesmo.
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1Discente do Curso Superior de Bacharel em Ciências Contábeis do Instituto UNIP EAD Campus PARNAMIRIM e-mail: Parnamirim.dir@unip.br
