OSTEOSSARCOMA APENDICULAR EM CÃO ROTTWEILER – RELATO DE CASO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202510191753


Pedro Tadeu Fassina Barbosa1; Rodrigo Augusto Silva Filho2; Leonardo Cesar Lopes Silva3; Isabella Mateus Faustino Saporito4


RESUMO

O osteossarcoma é a neoplasia óssea primária mais comum em cães, caracterizada por comportamento agressivo local e elevado potencial de invasão óssea. O presente relato descreve um caso de osteossarcoma osteoblástico produtivo em membro pélvico esquerdo de um cão da raça Rottweiler, macho, oito anos. O animal apresentou claudicação progressiva e aumento de volume em terço distal do fêmur. Após avaliação radiográfica, foi realizada amputação do membro acometido e linfadenectomia inguinal. O exame histopatológico revelou neoplasia maligna de origem mesenquimal produtora de matriz óssea compatível com osteossarcoma osteoblástico. O paciente apresentou boa recuperação pós-operatória e retorno satisfatório da função locomotora. O caso demonstra a importância do diagnóstico e do tratamento cirúrgico adequado no controle da dor e na melhora da qualidade de vida.

Palavras-chave: neoplasia óssea, amputação, oncologia veterinária, cão.

ABSTRACT

Osteosarcoma is the most common primary bone neoplasm in dogs, characterized by aggressive local behavior and a high potential for bone invasion. This case report describes a productive osteoblastic osteosarcoma in the left pelvic limb of an eight-year-old male Rottweiler. The animal presented with progressive lameness and swelling in the distal third of the femur. After radiographic evaluation, amputation of the affected limb and inguinal lymphadenectomy were performed. Histopathological examination revealed a malignant neoplasm of mesenchymal origin producing bone matrix, consistent with osteoblastic osteosarcoma. The patient showed good postoperative recovery and satisfactory return of locomotor function. This case highlights the importance of diagnosis and correct surgical treatment in pain control and improvement of quality of life.

Keywords: bone tumor, limb amputation, veterinary oncology, dog.

INTRODUÇÃO

O osteossarcoma (OSA) representa cerca de 80 a 85% dos tumores ósseos primários em cães, acometendo preferencialmente animais de grande porte e meia-idade (THOMSON, 2020). Acomete com maior frequência os ossos longos das extremidades, especialmente a região distal do fêmur, proximal da tíbia e distal do rádio (LASCELLES et al., 2012). Clinicamente, manifesta-se por claudicação, dor e aumento de volume local, podendo evoluir rapidamente para fratura patológica. O tratamento de escolha envolve a amputação do membro acometido, associada ou não à quimioterapia adjuvante, visando o controle da dor e o prolongamento da sobrevida (BERGMAN, 2013). O presente relato descreve um caso de OSA osteoblástico produtivo em Rottweiler, ressaltando os achados clínico-patológicos e a boa evolução pós-operatória após amputação e linfadenectomia.

RELATO DO CASO

Um cão, macho, da raça Rottweiler, oito anos, pesando 40 kg, foi atendido em um hospital veterinário na cidade de Pirassununga/SP em maio de 2025, com histórico de claudicação progressiva do membro pélvico esquerdo há seis meses e encaminhamento externo. Ao exame físico, animal se mostrou agressivo, com frequência cardíaca de 120 batimentos por minuto, ofegante, frequência pulsátil forte e rítmica, temperatura retal de 38,8 ºC, observou-se aumento de volume firme e doloroso em terço distal do fêmur, sem ulceração cutânea. Responsáveis referiram apetite seletivo, com hiporexia.

A radiografia de membro, realizada previamente a consulta, revelou lesão osteolítica e proliferativa com reação periosteal irregular, compatível com neoplasia óssea primária. Assim, inicialmente foram realizados exames laboratoriais para estadiamento oncológico e pré-operatórios (hemograma, perfis hepático e renal), ecocardiografia e eletrocardiografia, ultrassonografia abdominal e radiografia torácica, sem alterações relevantes. Após discussão com o setor de cirurgia e com o setor de oncologia, optou-se pela amputação do membro pélvico esquerdo e linfadenectomia inguinal ipsilateral, seguido de análise histopatológica do tumor e do linfonodo inguinal esquerdo. Até o momento da cirurgia, a analgesia foi realizada com tramadol na dose de 2,5 mg/kg e dipirona na dose de 25 mg/kg.

O procedimento transcorreu sem intercorrências e o exame histopatológico do fragmento ósseo evidenciou neoplasia maligna composta por osteoblastos moderadamente pleomórficos, com anisocitose e anisocariose moderadas, mitoses típicas e atípicas frequentes e produção abundante de matriz osteóide, confirmando o diagnóstico de osteossarcoma osteoblástico produtivo. O linfonodo inguinal apresentou hiperplasia folicular discreta e histiocitose sinusal moderada, sem evidência de infiltração neoplásica.

O paciente apresentou boa recuperação pós-operatória, com cicatrização adequada, retomada do apetite e deambulação satisfatória no retorno de 15 dias. Assim o paciente foi encaminhado para acompanhamento oncológico com o setor responsável. Entretanto, apesar das recomendações, os responsáveis não retornaram para o acompanhamento oncológico do paciente.

DISCUSSÃO

O caso apresentado é compatível com a forma clássica de osteossarcoma apendicular, a neoplasia óssea primária mais frequente em cães de grande porte, representando até 85% dos tumores ósseos (THAMM & VAIL, 2021). O acometimento da metáfise dos ossos longos, especialmente da região distal do fêmur e proximal da tíbia, é amplamente descrito (LASCELLES et al., 2012; MORELLO et al., 2011). Cães das raças Rottweiler, Labrador Retriever e Golden Retriever estão entre os mais predispostos, com predileção por machos adultos e senis (BOSTON et al., 2020).

O padrão histológico osteoblástico, identificado neste caso, é o subtipo mais comum, caracterizado pela produção intensa de matriz osteóide por células neoplásicas mesenquimais pleomórficas (BERGMAN, 2013; GROSSO et al., 2022). A proliferação de osteoblastos atípicos, associada a áreas de necrose e osteólise, confere comportamento localmente invasivo e rápida progressão clínica (THOMSON, 2020).

A amputação do membro acometido permanece o tratamento de escolha para o controle da dor e da infiltração tumoral, sendo capaz de promover alívio imediato e aumento significativo da qualidade de vida (RIGGS et al., 2023). Em cães sem evidência de metástase, a sobrevida média pós-amputação isolada varia entre 3 e 5 meses, podendo chegar a 10–12 meses quando associada à quimioterapia com carboplatina ou doxorrubicina (MUELLER et al., 2021).

Estudos recentes têm avaliado terapias adjuvantes como imunoterapia e terapias alvo-moleculares, que demonstram potencial para melhorar o tempo de sobrevida e reduzir recidivas locais (HANSEN et al., 2023; FERNÁNDEZ et al., 2024). Ainda assim, o prognóstico depende fortemente da resposta clínica inicial, da localização tumoral e do grau histológico (SOUZA et al., 2022).

A ausência de complicações pós-operatórias e o bom retorno funcional observados neste caso reforçam a eficácia da abordagem cirúrgica em casos diagnosticados precocemente e sem evidências de disseminação. O acompanhamento clínico e por imagem é essencial para monitorar possíveis recidivas, visto que o osteossarcoma apresenta alta taxa de micrometástases pulmonares mesmo na ausência de sinais radiográficos iniciais (BOSTON et al., 2020; THAMM & VAIL, 2021).

Portanto, o presente caso destaca a importância do diagnóstico, do estadiamento oncológico completo e da integração entre as áreas de clínica, oncologia, cirurgia e patologia para o manejo eficaz dessa enfermidade altamente agressiva.

Figura 1: Radiografia do paciente em projeção laterolateral de membro pélvico esquerdo, região de articulação femorotibial, com área de osteólise, em região metafisária de fêmur.

CONCLUSÃO

O presente relato descreve um caso típico de osteossarcoma osteoblástico em cão de grande porte, com boa resposta ao tratamento cirúrgico. A amputação do membro acometido mostrou-se eficaz no controle da dor e na restauração da qualidade de vida. O diagnóstico precoce, associado a exames complementares adequados, é essencial para definir o plano terapêutico e melhorar o prognóstico desses pacientes.

REFERÊNCIAS

BOSTON, S. E. et al. Clinical, prognostic, and histologic features of canine appendicular osteosarcoma. Journal of Veterinary Internal Medicine, v. 34, p. 1149-1156, 2020.

FERNÁNDEZ, L. A. et al. Molecular markers and targeted therapies in canine osteosarcoma: current advances and translational perspectives. Frontiers in Veterinary Science, v. 11, p. 145–159, 2024.

GROSSO, C. F. et al. Histopathological grading and survival analysis in 75 canine osteosarcomas. Veterinary Pathology, v. 59, n. 6, p. 940–951, 2022.

HANSEN, R. J. et al. Novel immunotherapeutic strategies for canine osteosarcoma: updates from translational research. Veterinary and Comparative Oncology, v. 21, p. 201–210, 2023.

MUELLER, F. et al. Outcome of 150 dogs with appendicular osteosarcoma treated by limb amputation and carboplatin chemotherapy. Journal of Small Animal Practice, v. 62, p. 635–643, 2021.

RIGGS, C. M. et al. Functional outcomes following limb amputation in large-breed dogs with osteosarcoma. Veterinary Surgery, v. 52, p. 331–340, 2023.

SOUZA, M. V. et al. Clinicopathological characterization and prognostic factors in canine osteosarcoma. Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 42, p. e07122, 2022


1Médico veterinário aprimorando do Hospital Veterinário da FZEA/USP, Pirassununga-SP.
2Médico veterinário, Londrina-PR
3Médico veterinário, Londrina-PR.
4Aluna de Medicina Veterinária, Universidade Estadual de Londrina (UEL), Londrina-PR.