OS PRINCIPAIS DESAFIOS ENFRENTADOS NO PROGRAMA DE MEDICINA DE FAMÍLIA E COMUNIDADE NO MUNICÍPIO DE MONTEIRO-PB

THE MAIN CHALLENGES FACED IN THE FAMILY AND COMMUNITY MEDICINE PROGRAM IN THE MUNICIPALITY OF MONTEIRO-PB

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202512131030


Flaviano Bezerra Silva¹
Fillipe de Farias Leite Nobrega²


Resumo

A presente pesquisa descreveu os principais desafios vivenciados no programa de Residência em Medicina de Família e Comunidade no município de Monteiro-PB, tomando como referência a atuação do médico residente na Atenção Primária à Saúde. O estudo teve como objetivo analisar as limitações estruturais, organizacionais e formativas que comprometem a resolutividade da Estratégia Saúde da Família, com destaque para as dificuldades relacionadas ao acesso a exames complementares, a fragmentação do cuidado e as restrições à autonomia clínica do médico da família. Trata-se de um relato de experiência fundamentado em vivências práticas do residente, associado a uma revisão de literatura realizada em bases científicas indexadas na Biblioteca Virtual em Saúde. A análise apontou que a escassez de recursos diagnósticos, a ausência de contrarreferência e a fragilidade da comunicação entre os níveis de atenção dificultam o desenvolvimento das competências essenciais da MFC e impactam diretamente na formação em serviço. Os resultados também revelaram que a residência médica possui um papel central na qualificação da APS ao favorecer o raciocínio clínico, o uso racional de exames e a construção de práticas centradas na pessoa e no território. Conclui-se que o fortalecimento da MFC depende da articulação entre a formação especializada, os investimentos estruturais e a reorganização dos fluxos assistenciais, de modo que a APS seja efetivamente reconhecida como coordenadora do cuidado.

Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde. Estratégia Saúde da Família. Medicina de Família e Comunidade. Residência Médica.  

1 INTRODUÇÃO

A Atenção Primária à Saúde (APS) é um dos pilares estruturantes do Sistema Único de Saúde (SUS), atuando como a porta de entrada preferencial dos usuários e como o eixo central da coordenação do cuidado. A Estratégia Saúde da Família (ESF), principal modelo de organização da APS no Brasil, consolidou-se a partir de um conjunto de políticas públicas que buscaram ampliar a cobertura, qualificar as equipes e fortalecer a resolutividade dos serviços. Nesse cenário, a formação de médicos especialistas em Medicina de Família e Comunidade (MFC) tornou-se essencial para sustentar um modelo assistencial baseado na integralidade, na continuidade e na coordenação do cuidado (Izecksohn et al., 2010).

Nesse contexto, a residência em MFC, por meio da supervisão direta, da discussão de casos e das atividades de educação permanente, tem contribuído para o aprimoramento da prática clínica e para o desenvolvimento de competências que nem sempre são completamente consolidadas durante a graduação. Entre elas, destaca-se a capacidade de solicitar exames de forma racional, interpretar resultados em diferentes contextos clínicos e adotar abordagens centradas na pessoa, aspectos apontados por estudos como fundamentais para qualificar o cuidado na APS (Figueiredo et al., 2017).

No município de Monteiro-PB, entretanto, a experiência no Programa de Medicina de Família e Comunidade mostram que os desafios afetam tanto a qualidade da assistência quanto o processo formativo dos residentes. A dificuldade de acesso a exames complementares, a fragmentação do cuidado e a limitada articulação entre os serviços são fatores que comprometem a resolutividade da atenção e dificultam a manutenção da longitudinalidade, elementos essenciais para o exercício da MFC. Embora se manifestem no contexto local, compreende-se que esses problemas refletem as limitações estruturais presentes em diversos municípios brasileiros, principalmente naqueles de pequeno e médio porte.

Diante desse cenário, formulou-se a seguinte questão norteadora: quais são os principais desafios enfrentados no Programa de Medicina de Família e Comunidade em Monteiro-PB e de que maneira eles repercutem na formação dos residentes e na organização da assistência na APS? A relevância deste estudo decorre da necessidade de compreender como esses entraves influenciam no desempenho das equipes, no desenvolvimento das competências profissionais e no acesso da população a um cuidado qualificado. A análise dessas dificuldades pode subsidiar melhorias no processo formativo, no planejamento municipal e na integração entre ensino e serviço.

Diante desse contexto, o objetivo deste estudo foi analisar os principais desafios enfrentados no Programa de MFC no município de Monteiro-PB, discutindo as condições estruturais e organizacionais da APS no município e compreendendo de que forma essas dificuldades repercutem na formação dos residentes e na atuação dos preceptores. O estudo caracteriza-se como descritivo e qualitativo, fundamentado na vivência prática durante o período de residência em MFC no município, complementada por uma revisão narrativa da literatura e por uma análise crítica dos fluxos, rotinas e práticas observadas no cotidiano das Unidades Básicas de Saúde.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 A Atenção Primária à Saúde e a Formação em Medicina de Família e Comunidade

A Atenção Primária à Saúde (APS) é reconhecida como a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) e configura-se como um espaço estruturado de práticas de cuidado conduzidas por equipes multiprofissionais. A APS é orientada por atributos essenciais (o acesso de primeiro contato, a integralidade, a longitudinalidade e a coordenação do cuidado), além de atributos derivados (enfoque na família, na comunidade e a competência cultural) (Carvalho et al., 2024). 

A organização de um sistema de saúde baseado na APS requer, além da implementação de políticas, a mensuração do grau de orientação dos serviços a esses atributos, uma vez que o aumento a adesão a eles está associado a melhoras nos indicadores de saúde, a maior satisfação dos usuários, à redução de custos, ao aumento da equidade e, consequentemente, a impactos positivos no estado de saúde individual e coletivo (Carvalho et al., 2024).

A Residência em Medicina de Família e Comunidade (MFC), nesse cenário, tornou-se um pilar essencial na qualificação de profissionais capazes de responder às necessidades reais das populações e de fortalecer as estruturas de cuidado. Diversos estudos apontam que a formação específica em MFC possibilita o desenvolvimento de competências clínicas, comunicacionais e organizacionais indispensáveis para uma APS que funcione como porta de entrada e ordenadora da rede de atenção (Allen et al., 2002; Arantes; Shimizu; MerchánHamann, 2016).

Sob essa perspectiva, os pesquisadores internacionais defendem que os sistemas de saúde orientados por cuidados primários alcançam melhores resultados, tanto em termos de eficiência econômica quanto de efetividade clínica. Allen et al. (2002) destacam que os países que estruturam seus modelos assistenciais a partir de médicos generalistas altamente capacitados tendem a apresentar menores custos, maior coordenação do cuidado e aumenta a capacidade de resolução de problemas de saúde no nível local.

Essas evidências dialogam diretamente com as análises desenvolvidas no contexto brasileiro, as quais identificam a Estratégia Saúde da Família (ESF) como um modelo superior à atenção básica tradicional, principalmente por fortalecer o vínculo, a continuidade do cuidado e a abordagem centrada nas necessidades reais das pessoas (Arantes; Shimizu; Merchán-Hamann, 2016).

Outro ponto discutido na literatura diz respeito ao papel do médico de família na gestão dos recursos e na coordenação do cuidado. Allen et al. (2002) destacam que os profissionais formados em MFC devem ser capazes de utilizar de forma responsável os recursos disponíveis, dialogar com outras especialidades, trabalhar em parceria com equipes multiprofissionais e atuar como defensores do paciente quando necessário. 

Essa perspectiva reforça a compreensão de que o médico de família não atua apenas nas funções clínicas, mas também nas funções organizacionais, essenciais dentro da rede de atenção à saúde. Esse entendimento converge com as conclusões de Arantes, Shimizu e Merchán-Hamann (2016), que identificam a ESF como um modelo capaz de reorganizar o processo de trabalho em equipe e de promover práticas de cuidado mais integradas e coordenadas. Dessa forma, os autores fortalecem a noção de que a formação especializada constitui um instrumento estratégico para qualificar a gestão dos fluxos assistenciais e elevar a resolutividade da APS.

Outro eixo discutido por Allen et al. (2002) refere-se à segurança do paciente. Os autores argumentam que a formação apropriada dos médicos de família é indispensável para que esses profissionais consigam lidar com a diversidade epidemiológica, social e cultural presente nos distintos contextos nacionais. Nesse sentido, trata-se de considerar a realidade brasileira, marcada por profundas desigualdades socioeconômicas e por perfis populacionais heterogêneos, que demandam uma prática clínica adaptada às múltiplas necessidades dos territórios.

Nessa direção, Izecksohn et al. (2017) reforçam que a formação em MFC deve ser institucionalizada como política prioritária do sistema de saúde, uma vez que representa o único caminho capaz de preparar médicos para lidar tanto com os problemas clínicos prevalentes quanto com os determinantes sociais da saúde, que influenciam diretamente o bem-estar das comunidades. Assim, a literatura sustenta que a qualificação profissional continuada é um componente fundamental para o fortalecimento da APS enquanto eixo estruturante do SUS.

2.2 A ESF e a Formação em MFC

Arantes, Shimizu e Merchán-Hamann (2016) discutem que, no âmbito técnicoassistencial, a ESF representa um avanço em relação ao modelo tradicional de UBS. Os autores destacam que a ESF fortalece o vínculo, qualifica o acolhimento, incorpora o enfoque familiar, promove a humanização do cuidado e amplia a integração com a comunidade. Essa análise se aproxima da proposta de Allen et al. (2002), que argumentam que a prática médica centrada na pessoa requer competências específicas adquiridas por meio de formação continuada e treinamento. 

No âmbito político-institucional, a expansão da ESF permitiu ampliar o acesso aos cuidados primários, fortalecer práticas avaliativas e promover maior equidade. O modelo também contribuiu para reorganizar o processo de gestão municipal e favorecer a institucionalização da APS como eixo estratégico do sistema de saúde (Arantes; Shimizu; Merchán-Hamann, 2016).

Essa perspectiva dialoga diretamente com as recomendações de organismos internacionais e com a afirmação de Allen et al. (2002) de que sistemas eficientes são aqueles orientados pelo cuidado primário. Assim, a literatura demonstra que a expansão e qualificação da ESF não apenas melhoram resultados clínicos, mas também fortalecem o próprio sistema em suas dimensões organizacionais.

A necessidade de uma formação alinhada ao território e aos determinantes sociais é outro ponto defendido na literatura. Arantes, Shimizu e Merchán-Hamann (2016) destacam que profissionais da APS precisam ser preparados para compreender as condições socioeconômicas e culturais da população, de modo que a prática clínica seja integrada à compreensão da realidade local. 

Esse argumento é reforçado por Izecksohn et al. (2017), que afirmam que o currículo das residências em MFC deve assegurar a coerência entre teoria e prática, com atividades desenvolvidas nas próprias unidades de saúde e em contato direto com as famílias do território. Dessa forma, a formação passa a contemplar tanto habilidades clínicas quanto habilidades voltadas para comunicação, trabalho interprofissional e atuação comunitária.

Outro ponto importante na literatura diz respeito à coordenação da rede de atenção. A coordenação é compreendida como uma competência essencial da prática em Medicina de Família e Comunidade e envolve a articulação entre diferentes pontos do sistema de saúde, garantindo continuidade, integralidade e racionalidade no uso dos serviços. Allen et al. (2002) destacam que médicos de família devem ser capazes de gerenciar a interface entre o nível primário e o nível especializado, mantendo o acompanhamento dos pacientes mesmo quando estes necessitam de intervenções de maior complexidade.

Ao discutir os desafios da formação, diversos autores chamam atenção para a necessidade de consolidar uma cultura de avaliação e aprimoramento contínuo. A literatura mostra que a expansão rápida dos programas de residência no Brasil trouxe ganhos importantes, mas também revelou dificuldades relacionadas à supervisão, infraestrutura e disponibilidade de serviços especializados (Izecksohn et al., 2017). Essas dificuldades se somam aos desafios estruturais da APS, como a limitada oferta de exames, a sobrecarga das equipes, a alta demanda assistencial e a rotatividade de profissionais. Arantes, Shimizu e

Merchán-Hamann (2016) acrescentam que esses problemas podem comprometer a capacidade de a APS atuar como ordenadora da rede, especialmente quando o trabalho fragmentado impede o acompanhamento adequado dos usuários. Assim, a literatura demonstra que o fortalecimento da MFC depende tanto de políticas formativas quanto de investimentos estruturais.

A questão do acesso aos exames aparece como um dos temas mais recorrentes nas pesquisas. Figueiredo et al. (2017) argumentam que a dificuldade de acessar determinados exames restringe a atuação clínica e gera dependência excessiva de especialistas focais, o que contraria o princípio da resolutividade da APS. 

Quando exames simples, como a Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA), espirometria ou ultrassonografias básicas, não estão disponíveis para o médico de família, a tendência é que os pacientes sejam encaminhados desnecessariamente para médicos especializados, gerando filas e atrasos na continuidade do cuidado. Essa situação também afeta a formação, pois restringe a possibilidade do residente desenvolver competências relacionadas à interpretação e ao uso racional dos métodos diagnósticos. Os achados se aproximam das recomendações de Allen et al. (2002), que defendem que médicos de família devem ter autonomia para solicitar exames essenciais, pois isso faz parte da prática clínica baseada em evidências.

Outro problema identificado é a fragmentação do cuidado decorrente da falta de contrarreferência. Tanto Arantes, Shimizu e Merchán-Hamann (2016) quanto Figueiredo et al. (2017) explicam que, quando os pacientes são encaminhados a especialistas e não retornam adequadamente para a APS, ocorre uma descontinuidade no acompanhamento, prejudicando a longitudinalidade e impedindo que a equipe acompanhe o curso do tratamento. 

Essa falha compromete a capacidade do médico de família de coordenar o cuidado e, consequentemente, compromete a efetividade da rede assistencial. Essa análise se articula às preocupações de Allen et al. (2002), que destacam que sistemas de saúde eficientes dependem de comunicação eficaz entre níveis de atenção.

A literatura aponta ainda que, quando há ausência de integração entre APS, especialidades e serviços de apoio diagnóstico, a formação dos residentes também é prejudicada. Izecksohn et al. (2017) ressaltam que parte da aprendizagem em MFC ocorre na discussão de casos que envolvem retorno com exames, resultados de consultas especializadas e acompanhamento longitudinal. Quando esses elementos não estão disponíveis, a formação se torna incompleta e fragmentada. Essa perspectiva converge com Figueiredo et al. (2017), que afirmam que o raciocínio clínico depende de ciclos contínuos de observação, intervenção e reavaliação. Sem esses ciclos, o processo formativo perde consistência.

Por fim, a literatura reforça que, apesar dos desafios, a Residência em Medicina de Família e Comunidade continua sendo a estratégia mais consistente para formar profissionais capazes de sustentar uma APS forte, resolutiva e democrática. Allen et al. (2002) defendem que os sistemas que priorizam o cuidado primário alcançam melhores indicadores de saúde e maior eficiência global. 

Arantes, Shimizu e Merchán-Hamann (2016) demonstram que a ESF gera impactos positivos tanto na dimensão técnica quanto na política, ampliando acesso, promovendo equidade e fortalecendo práticas humanizadas. Izecksohn et al. (2017) reforçam que a formação especializada é condição indispensável para consolidar e expandir esses resultados. Figueiredo et al. (2017) completam a análise ao mostrar que a prática clínica do médico de família exige habilidades específicas, incluindo raciocínio clínico aprofundado, uso racional de exames e capacidade de manejar situações de incerteza.

3 METODOLOGIA 

Este artigo se trata de um relato de experiência, no qual o autor tem como objetivo, descrever os principais desafios enfrentados pelo médico residente do programa de Medicina de Família e Comunidade no município de Monteiro-PB durante sua experiência como residente em Medicina de Família e Comunidade.

Para a revisão de literatura e elaboração do artigo foi realizado pesquisa na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), plataforma que indexa diversas bases de dados como: SCIELO, MEDLINE, PUBMED, LILACS entre outras, utilizando-se os seguintes descritores em saúde DECS/MESH: Medicina de Família e Comunidade, Saúde da Família e Longitudinalidade. Na estratégia de pesquisa, buscou-se a combinação dos descritores com o booleano AND.

A pesquisa considerou estudos dos últimos 15 anos, em Português, Inglês e Espanhol publicações e resoluções do Ministério da Saúde e da Educação, além de utilizar a literatura apresentada no Programa de Especialização de Preceptoria em Medicina de Família e Comunidade na plataforma do Hospital Moinhos de Vento.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

A Residência em Medicina de Família e Comunidade, é fundamental para a formação profissional, contribuindo para que o médico desenvolva habilidades e competências que resultarão em ganhos, não apenas para o profissional, mas para a Atenção Primária e para o Sistema de Saúde como um todo.

Um estudo recente realizado no Estado do Rio de Janeiro, mensurou o efeito da Residência em Saúde da Família e Comunidade na continuidade e coordenação do cuidado. A pesquisa examinou 2.414.508 consultas médicas e 284.754 encaminhamentos à atenção secundária de 504.940 pacientes, que foram atendidos por 633 profissionais generalistas (médicos sem Residência em MFC) e 204 médicos de família (médicos com 2 anos de Residência em MFC) de um distrito de saúde entre janeiro de 2015 e dezembro de 2018, revelando que os médicos de família eram menos propensos a solicitar serviços de atendimento ambulatorial (incluindo especialidades cirúrgicas), mas eram mais propensos a solicitar avaliações de oftalmologia, fisioterapia, reabilitação e cirurgia para seus pacientes (Jantsch et al., 2022).

O estudo aponta ainda que os pacientes encaminhados para cuidados secundários por médicos de família eram mais propensos a ter uma visita de acompanhamento na atenção primária para quase todos os serviços solicitados. Se todas as consultas médicas fossem realizadas por médicos de família, um aumento de 37,6% na demanda por serviços de reabilitação seria notado. Por outro lado, haveriam menos solicitações para dermatologia a cada ano. Desse modo os autores argumentam que a Residência em Medicina de Família, melhora a coordenação e a continuidade do cuidado, tornando os médicos de família mais competentes para reter aquelas condições de saúde que podem ser gerenciadas adequadamente na atenção primária e tornando os médicos de família mais competentes para detectar condições de saúde que exigem tecnologias e habilidades biomédicas específicas, aumentando a demanda por esses serviços (Jantsch et al., 2022).

De acordo com Wander (2025), a especialidade em medicina de família e comunidade possui princípios e características peculiares responsáveis por desenvolver no profissional residente, competências fundamentais para o exercício da medicina de família e comunidade.

Contudo, no contexto da formação em MFC, alguns desafios têm se mostrado recorrentes, principalmente aqueles relacionados à integração entre as instituições de ensino e os serviços de saúde. 

Essa articulação é essencial para uma formação alinhada às necessidades reais da APS, mas ainda apresenta fragilidades que dificultam a consolidação de um modelo assistencial baseado na integralidade e na continuidade do cuidado. No município de Monteiro-PB, essas dificuldades aparecem de forma clara e repercutem no funcionamento do Programa de Medicina de Família e Comunidade 

Embora essas limitações se expressem com maior intensidade no contexto local, elas também estão presentes em diversos outros municípios, o que aponta para a existência limitações estruturais e organizacionais comuns na APS brasileira. Como consequência, a prática do médico de família e comunidade pode se tornar menos resolutiva diante das demandas da população, gerando percepções de frustração profissional e expondo as fragilidades que comprometem a qualidade da APS enquanto coordenadora efetiva das redes de atenção.

A experiência na MFC no município de Monteiro-PB mostrou que, assim como ocorre em muitos outros municípios, ainda existem limitações importantes para garantir que a Atenção Básica seja realmente resolutiva e mantenha a continuidade do cuidado. Exames complementares considerados fundamentais para o diagnóstico e para a condução adequada dos casos, como a MAPA, a Endoscopia Digestiva Alta (EDA), a colonoscopia, as tomografias, as espirometrias e até mesmo alguns exames laboratoriais, permanecem restritos aos médicos especialistas focais.

Essa limitação compromete a continuidade do cuidado, fragmenta a assistência no nível primário e interfere diretamente no processo de ensino-aprendizagem da residência. O médico de família e comunidade, enquanto especialista capacitado para solicitar e interpretar esses exames, poderia conduzir grande parte das investigações clínicas sem necessidade de encaminhamento. Além disso, a possibilidade de discutir cada caso com os residentes fortaleceria a formação e ampliaria a resolutividade da APS.

Quando esses exames ficam condicionados ao especialista focal, cria-se um fluxo desnecessário de encaminhamentos, sobrecarregando os serviços secundários e atrasando a resolução dos problemas de saúde da população. Soma-se a isso o fato de que muitos pacientes, ao serem direcionados ao especialista, acabam não sendo contrarreferenciados, o que rompe a continuidade do cuidado e enfraquece a rede assistencial como um todo.

Sobre a formação do MFC, a Organização Mundial de Médicos de Família (WONCA, 2023), estabelece seis áreas de competências essenciais para o médico de família: gestão de cuidados de saúde primários, cuidados centrados na pessoa, habilidades para resolução de problemas específicos, abordagem abrangente, orientação comunitária e modelação holística.

O arcabouço teórico aliado à vivência prática deve possibilitar ao Médico de Família e Comunidade lançar mão de estratégias que o capacitem a relacionar os processos específicos de decisão com a prevalência e a incidência das doenças na comunidade, reunir e interpretar de forma seletiva as informações obtidas na anamnese, no exame físico e nos exames complementares, aplicando-as na construção de um plano de ação adequado em colaboração com o paciente. 

Além disso, espera-se que o profissional seja capaz de intervir de maneira urgente quando necessário, adotar princípios de trabalho apropriados, como a solicitação sequencial de exames complementares e o uso do tempo como instrumento clínico para lidar com a incerteza, gerir situações que se apresentam precocemente e de forma indiferenciada e, utilizar intervenções diagnósticas e terapêuticas com efetividade e eficiência.

De acordo com a Sessão II da Resolução nº 3, de 20 de junho de 2014, Art. 6º§ 1º No tocante a gestão do cuidado, o médico de família e comunidade deve fazer uso de saberes e dispositivos de todas as densidades tecnológicas, de modo a promover a organização dos sistemas integrados de saúde para a formulação e desenvolvimento de Planos Terapêuticos individuais e coletivos (Brasil, 2014).

Para Arantes, Shimizu e Merchán-Hamann (2016).

(…) entre os desafios, ressalta-se a necessidade de uma formação fundamentalmente voltada para a realidade de saúde da população, considerando sua complexidade social, econômica e cultural. De igual maneira, a formação deve focar o desenvolvimento de profissionais capazes de se articular com outras profissões e realizar um trabalho efetivo entre diferentes setores que influenciam na determinação social da saúde.

Um fator dificultador da adoção da Estratégia Saúde da Família (ESF) como porta de entrada é a coexistência de outros serviços concorrentes no sistema de saúde, o que impede que a ESF assuma seu papel de referência para o primeiro contato. Esse cenário é comum principalmente nos grandes centros urbanos e tem resultado em uma menor procura da população adscrita pela Unidade de Saúde da Família (USF), retardando a reorganização da APS a partir da ESF (Arantes; Shimizu; Merchán-Hamann, 2016). 

Para ilustrar como a estruturação dos fluxos assistenciais pode contribuir para superar esses desafios e qualificar a condução dos casos clínicos, apresenta-se a seguir o Fluxograma de Atividades na APS adotado na residência em Monteiro-PB, que demonstra o percurso ideal de atendimento e os postos-chaves para garantir maior resolutividade (Figura 1).

Figura 1 – Fluxograma de Atividades para melhor condução e desfecho de casos clínicos na APS

Diante do exposto ao longo deste estudo, pôde-se compreender que por se tratar de uma especialidade médica de natureza holística, a Medicina de Família e Comunidade exige o desenvolvimento de múltiplas competências nucleares que vão além do domínio técnico. O médico de família e comunidade é um clínico qualificado cuja prática é influenciada pelas características da população e do território em que atua. 

Por isso, precisa desenvolver habilidades de comunicação para lidar com a diversidade cultural, social e etária presente na comunidade, bem como considerar as nuances do território, considerando os aspectos culturais, as vulnerabilidades sociais e as condições socioeconômicas do território em que atua. Nesse contexto, a relação médico-paciente aparece como o elemento central para a efetivação dos princípios da Atenção Primária à Saúde e para uma atuação realmente resolutiva e integrada.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Espera-se que este relato de experiência, direcione gestores e novos residentes em MFC a reorganizar fluxos e a qualificar a APS como coordenadora do cuidado numa rede integrada, hierarquizada, tornando-se resolutiva nos principais problemas de saúde, sanando alguns entraves encontrados, como por exemplo, encaminhamentos desnecessários e limitações para requerer exames complementares.

O médico de família e comunidade em sua formação precisa realizar a gestão dos recursos públicos necessários para resolver os problemas de saúde da sua comunidade, além de ter aptidão em assistência, orientação comunitária e docência, pois se trata de um programa de residência médica voltado para formar médicos especialistas em medicina de família e comunidade.

O médico residente ao longo da sua formação em MFC precisa despertar um olhar voltado para os princípios da APS em especial o princípio da resolutividade, para tanto é necessário a colaboração da gestão oferecendo maiores recursos com diversas densidades tecnológicas para o desenvolvimento do processo de ensino e aprendizado e assim consiga-se atingir os objetivos da APS prestando assistência à saúde de forma integral e sendo resolutiva nos problemas de saúde da população de forma efetiva e eficiente, ou seja, é necessário tornar a APS realmente a ordenadora dos cuidados em saúde da população.

O programa de residência em MFC direciona e orienta o processo de formação qualificada para solicitação de exames complementares na APS e o encaminhamento quando necessário para atenção especializada. O ensino por parte dos preceptores sobre a solicitação de exames sistematizado, contextualizado e pautado no conceito ampliado de saúde, entendendo o contexto do paciente é fundamental para realizar mudanças nas habilidades do médico residente fazer uso racional dos recursos. 

Para que esse processo formativo se concretize, a gestão deve assegurar condições estruturais adequadas, com oferta de exames, disponibilidade de tecnologias compatíveis com as demandas do território e garantia de uma rede capaz de acolher, contrarreferenciar e acompanhar os pacientes de forma contínua. A resolutividade, como princípio central da APS, depende tanto da qualificação do profissional quanto do ambiente institucional em que ele atua. A formação do residente em MFC precisa estar acompanhada de investimentos que ampliem sua autonomia clínica e lhe permitam atuar com segurança, evitando a dependência excessiva de especialistas e reduzindo a fragmentação do cuidado. Somente assim será possível consolidar uma APS que se responsabilize pelo percurso do usuário no sistema e que se configure como ordenadora dos fluxos assistenciais.

O programa de residência em MFC tem papel decisivo nesse processo, pois orienta o desenvolvimento de competências relacionadas à solicitação criteriosa de exames, ao uso racional dos recursos disponíveis e ao encaminhamento adequado para outros níveis de atenção. A supervisão direta dos preceptores, aliada às discussões de casos e às atividades de educação permanente, constitui um instrumento essencial para aprimorar o raciocínio clínico e orientar o residente para uma prática mais segura e eficiente.

REFERÊNCIAS

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¹Residente do Programa de Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade da Escola de Saúde Pública da Paraíba. E-mail: nome@provedor.com.br 
²Docente Programa de Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade da Escola de Saúde Pública da Paraíba. Especialista em Medicina de Família e Comunidade pela Escola de Saúde Pública da Paraíba (ESP/PB). E-mail: fillipeflnobrega@gmail.com.