REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511271140
João Victor Lima Semblano
Kaylane Paulino Alves
Thaís Greyce Sousa Nogueira Rodrigues
Orientadora: Profa. Esp. Joyce Gorayeb Giménez
1. INTRODUÇÃO
Segundo Lobbezzo et al. (2016), a área da Odontologia do Sono surge como uma ciência para estudar as causas e consequências orais e maxilofaciais dos distúrbios do sono e está relacionada aos seguintes distúrbios:
dor orofacial; distúrbios da umidificação oral, incluindo xerostomia e sialorréia; distúrbio do refluxo gastroesofágico; distúrbios respiratórios relacionados ao sono, incluindo ronco e síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS); distúrbios do movimento mandibular, discinesia, distonia, e principalmente, o bruxismo do sono (Lobbezoo et al., 2016).
Para Ribeiro Lages et al. (2022), o sono está relacionado a questões dentárias, e também ao bruxismo, risco de cárie, trauma alvéolo-dental, problemas comportamentais, ansiedade, irritabilidade, alterações de humor durante procedimentos clínicos e maior sensibilidade à dor.
Os distúrbios respiratórios do sono (DRS) são apresentados conforme os diferentes graus de obstrução do espaço das vias aéreas superiores (VAS). Nos quais, o ronco é visto como a alteração mais simples e a síndrome da apneia obstrutiva do sono é um distúrbio crônico (Alansari, 2021). Quanto à apneia do sono, de acordo com Ribeiro Lages et al. (2022), ocorre quando há obstrução parcial ou total das vias aéreas superiores durante o sono, o que pode causar interrupções na respiração e, consequentemente, afetar a qualidade do sono e a saúde geral.
De acordo com Darien (2021), o tratamento odontológico para a apneia do sono utiliza o uso de dispositivos intraorais, que representam uma alternativa não invasiva, e são uma opção favorável e com resultados positivos a curto prazo. Esses dispositivos apresentam como mecanismo de ação o avanço mandibular, não precisam de energia elétrica, não apresentam ruídos e são portáteis, são benéficos ao paciente, pois promovem um diâmetro maior das vias aéreas superiores durante o adormecimento, evitando assim, a ocorrência de colapsos.
Essa especialidade, portanto, envolve uma abordagem interdisciplinar, com os dentistas trabalhando em conjunto com médicos do sono, otorrinolaringologistas e outros profissionais de saúde para oferecer soluções eficazes e personalizadas para os pacientes. Assim, a odontologia do sono busca não só melhorar a qualidade do sono, mas também prevenir complicações associadas aos distúrbios do sono, promovendo a saúde geral e o bem-estar do paciente.
Justifica-se abordar a importância da odontologia do sono e de que forma os dispositivos intraorais contribuem aos pacientes como uma alternativa segura, acessível e eficaz no tratamento de pacientes com distúrbios do sono. Dessa forma, a realização de uma revisão literária sobre o tema irá dispor de evidências científicas atualizadas que discorrem sobre a eficácia desses procedimentos.
Além disso, para o meio acadêmico, contribui aos futuros profissionais sobre o conhecimento da odontologia do sono e uso de dispositivos intraorais. Logo, a realização dessa pesquisa não busca somente apresentar a importância do diagnóstico, do tratamento, mas também apontar os benefícios que o uso desses dispositivos promove na qualidade de vida dos pacientes.
2. OBJETIVOS
2.1 Geral
Apresentar a importância da odontologia do sono e a atuação de dispositivos intraorais no tratamento do ronco, bruxismo e apneia obstrutiva do sono a partir de uma revisão de literatura.
2.2 Específicos
- Discorrer sobre a importância do cirurgião-dentista nos tratamentos de distúrbios do sono;
- Identificar os dispositivos intraorais utilizados nos tratamentos de distúrbios do sono, destacando sua eficácia.
- Compreender os mecanismos de ação desses dispositivos no tratamento do ronco, bruxismo e apneia obstrutiva do sono.
3. METODOLOGIA
A pesquisa caracteriza-se como uma revisão bibliográfica, na qual, segundo Gil (2008), é desenvolvida a partir de material já elaborado, utilizando principalmente livros e artigos científicos. O estudo será baseado em estudos científicos publicados nas bases de dados: SciELO, PubMed, Web of Science e Lilacs.
Como critérios de inclusão, foram selecionados para a revisão apenas artigos disponíveis na íntegra de forma gratuita; publicados entre 2015 e 2025 em língua portuguesa, inglês ou espanhol. Os descritores em português utilizados foram: apneia do sono; dispositivos intraorais; odontologia do sono; qualidade de vida. E em inglês: sleep apnea; intraoral devices; sleep dentistry e quality of life. Para refinar os resultados e garantir a precisão da busca, foram utilizados operadores booleanos (AND, OR, NOT).
Como critérios de exclusão, foram excluídos artigos publicados fora do recorte temporal, revisões de literatura, sistemática, narrativa, integrativa ou meta-análises, teses, dissertações e artigos que não correspondem ao objetivo da pesquisa. Tais estudos, de caráter essencialmente teórico, foram excluídos por não contemplarem dados empíricos, visto que o presente estudo busca analisar publicações científicas que apresentem resultados oriundos de investigações de campo, experimentais ou observacionais referentes ao tema proposto.
Quadro 1 – Base de dados e estratégias de busca
| Base de dados | Estratégia de Busca | Busca por descritores | Filtro de 5 anos |
| SciELO | (“apneia do sono” OR “sleep apnea”) AND (“dispositivos intraorais” OR “intraoral devices”) AND (“odontologia do sono” OR “sleep dentistry”) AND (“qualidade de vida” OR “quality of life”) | 31 | 24 |
| PubMed | (“apneia do sono” OR “sleep apnea”) AND (“dispositivos intraorais” OR “intraoral devices”) AND (“odontologia do sono” OR “sleep dentistry”) AND (“qualidade de vida” OR “quality of life”) | 18 | 15 |
| Lilacs | (“apneia do sono” OR “sleep apnea”) AND (“dispositivos intraorais” OR “intraoral devices”) | 25 | 17 |
| Web of Science | (“Sleep Apnea Syndromes” OR “sleep apnea”) AND (“Intraoral Devices” OR “intraoral devices”) AND (“Sleep Dentistry” OR “Dental Sleep Medicine”) AND (“Quality of Life” OR “quality of life”) | 22 | 19 |
| Total | 75 |
Fonte: Autores (2025)
Após a seleção inicial, procedeu-se à leitura dos resumos de 75 artigos identificados nas bases de dados, com o objetivo de realizar uma triagem preliminar dos estudos potencialmente relevantes. Na sequência, os 34 artigos que correspondem a estudos de caso e que atenderam aos critérios de inclusão foram analisados integralmente.
Com base nos resultados encontrados, realizou-se uma síntese dos estudos apresentados no Quadro 2, informando os autores, ano de publicação, título, objetivo e dispositivos intraorais utilizados:
Quadro 2 – Síntese dos estudos selecionados na revisão
| Nº | Autor/ano | Título | Objetivo |
| 1 | Quintão et al. (2015) | Dispositivos intraorais no tratamento do ronco e síndrome da apneia e hipopneia do sono: relato de caso clínico. | Apresentar um caso clínico onde será identificado o problema e proposto um método de construção, avaliação e tratamento da eficácia dos dispositivos intraorais. |
| 2 | Souza et al. (2017) | Influência do aparelho intraoral em pacientes com apneia obstrutiva do sono por meio de avaliação polissonográfica pré e pós instalação do dispositivo oral. | Avaliar a influência do AIO em pacientes com SAOS, por meio de análise polissonográfica pré e pós instalação do dispositivo oral. |
| 3 | Dekon; Lima e Gomes (2018) | Tratamento com aparelho intraoral da síndrome obstrutiva do sono: relato de caso. | Analisar o tratamento com o uso de aparelhos intraorais para a síndrome de apneia e hipopnéia obstrutiva do sono e relatar o caso de um paciente portador da síndrome em estágio moderado. |
| 4 | Marklund, Braem, Verbraecken, (2019). | Atualização sobre o aparelho oral. | Avaliar as terapias com aparelhos intraorais no tratamento dos distúrbios do sono. |
| 5 | Lobbezoo et al., (2020). | O rosto da Medicina do Sono Dental no século 21. | Discutir a associação entre dor orofacial e distúrbios do sono; e o papel do cirurgião dentista no diagnóstico e tratamento. |
| 6 | Alansari, (2022). | O papel da ortodontia no tratamento da apneia obstrutiva do sono. | Fornecer uma compreensão abrangente como ortodontistas e médicos trabalhar em conjunto para maximizar os benefícios para o paciente com SAOS. |
| 7 | Ferraz et al. (2020) | Eficácia do dispositivo de avanço mandibular no tratamento de pacientes com Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono – estudo retrospectivo. | O estudo apresentado tem como objetivo avaliar a eficácia do dispositivo Silensor SL no tratamento da síndrome de apneia/hipopneia obstrutiva do sono. |
| 8 | Aarab et al. (2020) | Efeitos da terapia com aparelho de avanço mandibular na atividade muscular de fechamento da mandíbula durante o sono em pacientes com apneia obstrutiva do sono: acompanhamento de 3 a 6 meses. | Investigar os efeitos da terapia com aparelho de avanço mandibular na atividade muscular de fechamento da mandíbula relacionada ao tempo de despertares respiratórios relacionado aos despertares não respiratórios em pacientes com apneia obstrutiva do sono. |
| 9 | Mayoral; Lagravere; Correa (2023) | Bruxismo do sono e apneia obstrutiva do sono: prescrição de um dispositivo de avanço mandibular sob a perspectiva odontológica. | Analisar e sintetizar a evidência científica atual sobre a relação entre bruxismo do sono e apneia obstrutiva do sono. |
| 10 | (Oliveira et al. 2023) | Atuação Da Odontologia No Disgnóstico E Tratamento Da Síndrome Da Apneia Obstrutiva Do Sono (SAOS). | Evidenciar a importância do conhecimento e da conduta do cirurgião-dentista acerca do diagnóstico precoce e tratamento da SAOS, da solicitação de exames complementares adequados, das suas classificações e medidas terapêuticas assertivas de acordo com as peculiaridades do indivíduo. |
| 11 | Peker et al. (2019) | Apneia obstrutiva do sono: uma atualização sobre mecanismos e consequências cardiovasculares | Examinar as evidências que relacionam a apneia do sono com doenças cardiovasculares e discute os mecanismos potenciais subjacentes a essa relação. |
| 12 | Brenner; Dort, 2019) | Apneia obstrutiva do sono. | Descrever como a apneia obstrutiva do sono afeta uma grande proporção da população e as consequências na qualidade de vida e saúde do indivíduo. |
| 13 | Beri et al. (2023) | Aparelhos terapêuticos em apneia obstrutiva do sono: uma revisão sistemática e meta-análise. | Avaliar a efetividade e eficácia da terapia de aparelhos em apneia obstrutiva do sono. |
| 14 | Cavadas (2020) | O contributo do médico dentista para o diagnóstico da síndrome da apneia obstrutiva do sono. | Identificar pacientes com diagnóstico provável de SAOS pelo Médico Dentista. |
| 15 | Eckert; White (2019) | Apneia obstrutiva do sono. | Descrever as características da apneia obstrutiva do sono. |
| 16 | Lima (2023) | Apnéia do sono: as consequências de uma doença silenciosa e perigosa. | Avaliar a apneia, examinando suas consequências para a saúde e explorando as estratégias de diagnóstico e tratamento que podem ser adotadas para melhorar a qualidade de vida dos indivíduos afetados por essa condição. |
| 17 | Ramar et al. (2015). | Diretriz de prática clínica para o tratamento da apneia obstrutiva do sono e ronco com terapia com aparelho oral: uma atualização para 2015 | Apresentar a diretriz de prática clínica para o tratamento da apneia obstrutiva do sono e ronco com terapia com aparelho oral: uma atualização para 2015. |
| 18 | Anwer et al. (2021). | O papel do dentista no diagnóstico e tratamento da apneia obstrutiva do sono pediátrica. | Analisar o papel do dentista no diagnóstico precoce da apneia obstrutiva do sono pediátrica. |
| 19 | Potts et al. (2020) | Aparelhos orais para apneia obstrutiva do sono | Avaliar a eficácia clínica e o impacto na qualidade de vida de aparelhos orais no tratamento da apneia obstrutiva do sono (AOS) em adultos. |
| 20 | Souza et al. (2020) | Benefícios do tratamento de pessoas com a Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono. | Descrever os benefícios que o CPAP pode trazer como forma de tratamento aos portadores da SAOS |
| 21 | Almeida; Prehn (2019) | Terapia com aparelho oral para respiração desordenada do sono: uma atualização. | Investigar as terapias com aparelho oral para respiração desordenada do sono. |
| 22 | Sutherland; Cistulli, (2019) | Terapia com aparelho oral para apneia obstrutiva do sono | Descrever o papel dos aparelhos auditivos no cuidado da apneia obstrutiva do sono como um distúrbio crônico. |
| 23 | Darien (2021) | Tratar distúrbios do sono é seguro e eficaz. | Descrever como tratar distúrbios do sono é seguro e eficaz aos pacientes. |
| 24 | Miranda; Buffon; Vidor, (2019) | Perfil miofuncional orofacial de pacientes com distúrbios do sono: relação com resultado da polissonografia. | caracterizar o perfil miofuncional orofacial de pacientes com distúrbios do sono e relacionar esses com a gravidade do resultado da polissonografia |
| 25 | Guilleminault; Huang, (2018). | Do aparelho oral ao biomarcador na apneia obstrutiva do sono: um passo na direção certa. | Descrever o uso de um aparelho oral ao biomarcador na apneia obstrutiva do sono. |
| 26 | Alzate; Zafra; Fajardo (2020). | O papel do odontólogo na intervenção da apnéia obstrutiva do sono. | Apresentar relatos de apneia obstrutiva do sono até o presente. |
| 27 | Anitua et al. (2017) | Guia espanhol de prática clínica sobre a utilização dos dispositivos de avanço mandibular (DAM) no tratamento de pacientes adultos com síndrome de apnéias-hipopnéias do sono. | O documento também visa ser útil para as diversas especialidades envolvidas no acompanhamento de pacientes com AOS. |
| 28 | Patel et al. (2020). | Apneia obstrutiva do sono: CPAP ainda é o padrão de ouro? | Descrever se nos procedimentos de tratamento de apneia do sono o CPAP ainda é o procedimento padrão. |
| 29 | Carnicelli et al. (2019) | Adesão ao tratamento CPAP em indivíduos com síndrome da apneia obstrutiva do sono/hipopnéia: uma avaliação crítica. | Investigar a adesão ao tratamento CPAP em indivíduos com síndrome da apneia obstrutiva do sono/hipopneia. |
| 30 | Bartolucci et al. (2023) | A eficácia de diferentes quantidades de avanço mandibular em pacientes com AOS: uma revisão sistemática e análise de metarregressão. | Investigar a eficácia de diferentes graus de avanço mandibular na redução do índice de apneia-hipopneia (IAH) em pacientes com AOS. |
| 31 | Francis; Quinnell (2021) | Dispositivos de avanço mandibular para AOS: uma alternativa ao CPAP?. | Apresentar de forma eficiente, se os pacientes com maior probabilidade de responder à terapia com DAM, a fim de melhorar a eficácia clínica e a relação custo-benefício do tratamento da apneia obstrutiva do sono (AOS) como um todo. |
| 32 | Sánchez-Ariza (2017) | Tratamento com dispositivos orais para síndrome de apnéia-hipopnéia obstrutiva do sono (SAHOS). | Aprimorar o manejo de dispositivos orais (DO) por dentistas, por meio da seleção adequada de DO e da garantia de segurança e eficácia para o paciente. |
| 33 | Wojda et al. (2018) | Dispositivos de avanço mandibular em pacientes com apneia obstrutiva do sono intolerantes ao tratamento com pressão positiva contínua nas vias aéreas. | Avaliar a eficácia terapêutica do DAM em pacientes com AOS intolerantes ao CPAP. |
| 34 | Maniglia et al. (2022) | Cirurgias nasal e palatal combinadas para o tratamento da síndrome da apneia e hipopneia obstrutiva do sono. | Avaliar o Índice de Apneia/Hipopneia (IAH) pré-operatório como indicação cirúrgica dos pacientes submetidos a cirurgia combinada de septoplastia, turbinectomia e uvulopalatofaringoplastia (UPFP) em um Hospital de Otorrinolaringologia do interior paulista e as complicações desse procedimento cirúrgico. |
Fonte: Elaborado pelos autores (2025)
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 Definição e impacto da síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS)
A apneia obstrutiva do sono, segundo Oliveira et al. (2023), caracteriza-se como uma disfunção respiratória durante o sono, sendo acompanhada de efeitos nocivos à qualidade do sono e, consequentemente, à saúde dos indivíduos. Segundo Peker (2019), essa disfunção pode levar a múltiplos despertares durante a noite, sonolência diurna excessiva e outros sintomas que afetam significativamente a qualidade de vida dos pacientes.
A SAOS afeta uma grande proporção da população e pode ter consequências graves na qualidade de vida e saúde do indivíduo, incluindo sonolência diurna excessiva, risco aumentado de acidentes de trânsito e doenças cardiovasculares (Brenner; Dort, 2019), também causa hipertensão arterial, diabetes, obesidade, depressão e ansiedade (Peker, 2019).
Segundo Beri et al. (2023), os tratamentos dos distúrbios respiratórios do sono são multifatoriais e podem envolver fisioterapia, medicamentos, terapia comportamental, procedimentos cirúrgicos (cirurgia faríngea, maxilofacial, bariátrica), controle respiratório (pressão positiva contínua nas vias aéreas) e aparelhos intraorais.
O possível mecanismo da síndrome da apneia obstrutiva do sono surge a partir de uma pressão negativa intraluminal, com fatores anatômicos inadequados resultantes de divergências como o comprimento do corpo da mandíbula reduzido, osso hióide em posição mais baixa, e seus fatores funcionais, ligados diretamente à obesidade, pois aumenta a redução da compensação neuromuscular e a falta de reflexo do protetor da faringe ajuda o fechamento das vias aéreas superiores (Cavadas, 2020).
Segundo Eckert e White (2019), com o aumento da pressão negativa na caixa torácica, devido à tentativa de respirar contra a obstrução, pode aumentar o risco de problemas cardiovasculares, como hipertensão arterial, insuficiência cardíaca e arritmias.
Como destaca Lima et al. (2023), o tratamento da SAOS é fundamental não apenas para melhorar a qualidade do sono, mas também para minimizar comorbidades e os prejuízos mentais associados à doença. Os autores enfatizam a estreita relação entre a SAOS e a saúde mental, apontando que distúrbios como depressão e ansiedade podem surgir em decorrência da sonolência excessiva e da fadiga provocadas por essa condição.
4.2 Papel do cirurgião-dentista e abordagem multidisciplinar
Em 2015, as diretrizes publicadas pela Academia Americana de Medicina do Sono e pela Academia Americana de Medicina Dentária do Sono reforçam que o “dentista qualificado” precisa ter excelente treinamento na área da medicina do sono para ser capaz de identificar e reconhecer os primeiros sinais e sintomas típicos da SAOS e direcionar o paciente para o caminho diagnóstico e terapêutico correto. Assim, como o ortodontista ou dentista qualificado também deve ser capaz de administrar de forma otimizada a terapia com aparelhos orais e, em casos de cirurgia bimaxilar, colaborar com o cirurgião bucomaxilofacial para o sucesso do tratamento (Ramar et al., 2015).
Para Anwer et al. (2021), quando um paciente com características intra e extraorais de SAOS (face adenoideana, palato arqueado, mordidas cruzadas unilaterais/bilaterais, macroglossia, micrognatia e retrognatia) é recebido, o cirurgião dentista deve solicitar exames de imagem para auxiliar na avaliação das vias aéreas superiores, tais como radiografia cefalométrica e tomografia computadorizada de feixe cônico.
De acordo com Lima et al. (2023) e Oliveira et al. (2023), faz-se necessário a elaboração de um plano terapêutico eficaz, torna-se indispensável não apenas para a melhoria da qualidade do sono, mas também para a promoção da saúde mental e do bem-estar geral dos indivíduos afetados.
Reforça-se também que, de maneira multidisciplinar, considera-se que a abordagem terapêutica deve variar conforme a gravidade do quadro clínico e as características individuais de cada paciente. A escolha da intervenção mais apropriada deve, portanto, levar em consideração não apenas a gravidade da apneia obstrutiva do sono, mas também as particularidades clínicas e fisiológicas de cada indivíduo, além dos fatores pessoais e das preferências do paciente (Potts et al., 2020; Souza, 2020).
Por conseguinte, reforça-se no presente estudo a importância do cirurgião-dentista no diagnóstico e tratamento da SAOS, pois as terapias propostas variam de procedimentos não invasivos, como o caso dos aparelhos, até cirurgias ortognáticas. Conforme citado pelos autores, dentre as opções, o uso dos aparelhos intraorais (AIOS), quando indicados e confeccionados de forma correta, pode suprir parcial ou totalmente a síndrome da apneia obstrutiva do sono e o ronco (Cavadas, 2020).
4.3 Opções terapêuticas: aparelhos intraorais e alternativas
A odontologia do sono emergiu como uma alternativa de tratamento para a apneia obstrutiva do sono, utilizando aparelhos orais projetados para posicionar a mandíbula e a língua para manter as vias aéreas abertas durante o sono. Esses aparelhos orais têm demonstrado ser uma opção viável para o tratamento da apneia obstrutiva do sono em pacientes que apresentam dificuldades em tolerar o uso do Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas (CPAP) (Almeida; Prehn, 2019).
Os aparelhos intraorais melhoram os parâmetros respiratórios dos pacientes com distúrbios respiratórios do sono: os índices de eventos respiratórios, bem como a saturação de oxigênio, o índice de excitação e a eficiência do sono demonstraram melhorias em comparação com seus valores basais (Sutherland et al., 2019). Os dispositivos têm como mecanismo de ação o avanço mandibular, não precisam de energia elétrica, não apresentam ruídos e são portáteis, trazendo benefícios ao paciente, ao promover um diâmetro maior das vias aéreas superiores durante seu estado de adormecimento, evitando então o colapso (Darien, 2021).
Para a seleção do tipo de aparelho intraoral mais adequado, depende do grau de apneia do sono e das características anatômicas e funcionais do paciente, sendo necessária uma avaliação individualizada e personalizada (De Miranda; Buffon; Vidor, 2019). São apresentados diferentes tipos de aparelhos, como os de avanço mandibular e os de retenção de língua, que agem de formas distintas para melhorar a respiração durante o sono. É importante que a confecção e ajustes do aparelho sejam realizados por um profissional capacitado e experiente em odontologia do sono (Guilleminault; Huang, 2018).
No entanto, é necessário, primeiramente, investigar minuciosamente como os aparelhos ortodônticos podem contribuir para o tratamento da SAOS e a supressão parcial ou total do ronco, que, quando corretamente fabricado e indicado, pode melhorar a qualidade de vida dos pacientes afetados (Alzate; Zafra; Farjado, 2020; Anitua et al., 2017).
Entre os métodos utilizados, descrevem-se os tratamentos com CPAP, elevadores de palato mole, retentores linguais e dispositivos de avanço mandibular (MAD), conforme apresentados a seguir:
- CPAP: Alguns estudos, como o de Patel (2020), compararam, em seus estudos, a eficácia do CPAP com a de aparelhos orais no tratamento da apneia obstrutiva do sono e encontraram que ambos os tratamentos são eficazes, mas o CPAP apresenta uma maior taxa de sucesso e é mais indicado para casos graves de apneia. Para Carnicelli (2019), realizaram estudos onde foi possível demonstrar que a adesão ao tratamento com CPAP pode ser melhorada por meio de intervenções educacionais e de suporte, como a orientação sobre a importância do tratamento, o fornecimento de feedback sobre o uso do dispositivo e a oferta de suporte técnico para solução de problemas.
- Elevadores de palato mole: Eles agem como uma ponte, elevando o palato mole, a úvula está localizada em um plano mais superior, então atenuam a vibração gerada pela passagem do ar durante o sono, sendo a principal causa do ronco. Pode ser usado em pacientes submetidos à cirurgia de tecidos moles com SAOS e pacientes com ronco (Bartolucci et al., 2016).
- Retentores linguais: Eles mantêm a língua em uma posição mais avançada, sem avanço mandibular. Assim, por aumentar a distância entre a língua e a parede posterior da faringe, o espaço aéreo posterior aumenta. Seu uso é indicado para pacientes com problemas dentários como protrusão insuficiente ou ausência de dentes de suporte que não são candidatos ao MAD ou podem ser usados em conjunto com o MAD para uma menor quantidade de avanço mandibular (Bartolucci et al., 2016).
- Dispositivos de avanço mandibular (MAD): Eles são os DIOs mais comumente usados como tratamento para SAOS. Eles agem produzindo um avanço mandibular que alcança um reposicionamento anterior da língua e do palato mole, devido ao deslocamento superior do osso hióide, lateral das bolsas de gordura parafaríngeas e anterior dos músculos da base da língua (Francis; Quinnel, 2020; Sánchez-Ariza, 2017; Wojda et al., 2018).
Maniglia (2022) avaliou os resultados do tratamento da apneia obstrutiva do sono com dispositivos de avanço mandibular (DAMs). O estudo ressalta a importância de selecionar o DAM mais adequado para cada paciente, levando em consideração fatores como a gravidade da apneia do sono e a anatomia da mandíbula. Portanto, apresenta eficácia do tratamento combinado com aparelhos orais e tratamentos para obstrução nasal e seus resultados indicam uma melhora significativa nos sintomas da apneia do sono em pacientes que receberam o tratamento combinado.
4.4 Evidências do tratamento com Dispositivos Intraorais realizados em pacientes
Para contextualização e definição dos distúrbios do sono e AIOS, são apontados os estudos de Alansari (2022), Lobezzo et al. (2020) e Marklund; Braem; Verbraecken (2019).
Segundo Alansari (2022), os distúrbios respiratórios do sono são caracterizados por diferentes graus de obstrução do espaço das vias aéreas superiores (VAS). Sendo o ronco a alteração mais simples e a síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS) um distúrbio crônico. Os autores ressaltam que o ronco sugere que as vias aéreas superiores estão parcialmente bloqueadas durante o sono e isso pode levar à alteração do padrão respiratório e contribuir para problemas de saúde mais sérios, necessitando de tratamento.
Após o início do tratamento, o dentista ainda acompanha regularmente a evolução do paciente e faz modificações conforme necessário para assegurar que o tratamento permaneça eficaz ao longo do tempo. Isso pode envolver ajustes nos dispositivos utilizados ou sugestões de alterações no estilo de vida que possam influenciar os distúrbios do sono (Alansari, 2022).
No estudo realizado por esse autor, foi relatada alta eficácia da terapia com aparelho intraoral para o tratamento do ronco primário na redução da intensidade e frequência do ronco, melhorando a qualidade do sono tanto para roncadores quanto para parceiros de cama, e sua qualidade de vida. Dessa forma, pacientes com ronco primário devem ser encaminhados ao ortodontista/dentista do sono por seu médico do sono com uma prescrição de aparelho intraoral (Alansari, 2022).
Para Lobbezoo et al. (2020), a introdução de aparelhos intraorais (AIOs) no tratamento da SAOS teve seu maior passo no final do século XIX, contudo, só nos anos 2000 houve evidências científicas suficientes para serem totalmente aceitos pela comunidade médica como uma alternativa eficaz de tratamento para pacientes que não toleravam o aparelho de pressão positiva contínua nas vias aéreas.
A maioria dos distúrbios respiratórios do sono é diagnosticada e tratada por médicos especialistas em sono, que geralmente encaminham o paciente para um teste que avalia o padrão de sono noturno chamado polissonografia. Entretanto, torna-se cada vez mais clara a associação dos distúrbios respiratórios do sono com a odontologia. Além disso, com o tratamento adequado, a melhoria das vias aéreas nasais representa um impacto na capacidade de respirar com mais conforto, o que pode reduzir o ronco e melhorar a apneia (Lobbezoo et al., 2020).
Destaca-se também que pacientes com distúrbios do sono podem sofrer de outros sintomas além da sonolência, como dores de cabeça, insônia, pernas inquietas e disfunção temporomandibular (Olmos, 2016; Marklund; Braem; Verbraecken, 2019). Isto indica que distúrbios do sono podem ser influenciados pela morfologia craniofacial e, por sua vez, afetar diretamente a saúde bucal. Assim, a modificação da estrutura maxilofacial pode auxiliar no manejo dos distúrbios respiratórios do sono (Marklund; Braem; Verbraecken, 2019).
Em estudos sobre o papel do cirurgião-dentista e acompanhamento clínico, são apresentadas as pesquisas de Quintão et al. (2015), Dekon; Lima; Gomes (2018) e Souza et al. (2017).
Diante dos achados apresentados no estudo, evidencia-se que existem vários tipos de Dispositivos Intraorais (DIO) e é obrigação do cirurgião-dentista conhecê-los e saber a indicação de cada um deles. Todos os DIO devem, obrigatoriamente, ser construídos pelo cirurgião-dentista, visto que a obtenção de modelos prévios à construção dos aparelhos é de competência do mesmo. Entretanto, não é papel do dentista indicá-lo sem a avaliação do otorrinolaringologista ou pneumologista, ou seja, trata-se indubitavelmente de procedimentos multidisciplinares (Quintão et al., 2015).
Além disso, os autores ressaltam que qualquer um dos DIO quando indicados, deve ser precedido de polissonografia e, após a instalação do mesmo, o exame deve ser obrigatoriamente repetido, preferencialmente no mesmo centro em que foi realizado o primeiro. É fundamental reforçar que a não realização deste exame prévio à instalação do aparelho pode ser considerada negligência grave, uma vez que, se a apneia for central, não obstrutiva, os aparelhos considerados neste artigo são completamente ineficazes, o que eventualmente poderá levar o paciente a óbito (Quintão et al., 2015).
Com isso, o papel do cirurgião-dentista é o de indicar o aparelho correto, participar da confecção, instalá-lo e acompanhar o tratamento enquanto houver necessidade. No entanto, o cirurgião-dentista deve participar de todo o processo de tratamento das SHAOS, desde a fase de diagnóstico até as consultas periódicas de controles posteriores. O cirurgião-dentista deve ter um conhecimento geral da síndrome, assim como de todos os instrumentos utilizados no diagnóstico, desde os questionários iniciais até a polissonografia. O tratamento com AIO, portanto, possui uma alta adesão por parte dos pacientes e resultados clínicos comprovados cientificamente (Dekon; Lima; Gomes, 2018).
Estudos clínicos sobre a eficácia dos aparelhos intraorais apontam a pesquisa de Dekon, Lima e Gomes (2018), ao analisar o tratamento com o uso de aparelhos intraorais para a síndrome de apneia e hipopnéia obstrutiva do sono, foi relatado o caso de um paciente em estágio moderado. O diagnóstico e o planejamento do caso foram realizados a partir de um exame de Polissonografia, laudado por um médico especialista em sono.
Com a realização do exame, constatou-se um índice moderado de apneias e hipopneias (IAH), sendo mais frequentes durante o sono REM, presença de roncos intensos e frequentes, índices de despertares aumentados e eficiência do sono diminuída devido ao aumento do tempo desperto no meio da noite. Após o exame, foi-lhe indicado um tratamento não invasivo, mediante um aparelho intraoral. Através de moldagens funcionais realizadas com hidrocolóides irreversíveis e com o aparelho de registro da posição terapêutica “george gauge”, um aparelho intraoral de protrusão mandibular, foi confeccionado e instalado (Dekon; Lima; Gomes, 2018).
No primeiro controle, o paciente relatou que o ronco havia sido eliminado, segundo relatos da sua cônjuge. Além disso, relatou estar se sentindo mais disposto e considerou que o seu sono passou a ser mais reparador com o uso do aparelho intraoral. Durante o período de estudo, foi necessária a realização de 3 reparos do aparelho por fratura do braço dorsal, provavelmente devido ao bruxismo associado à apneia. Os resultados mostraram uma melhora considerável no quadro, entretanto, sugeriu-se ao paciente a confecção de um novo aparelho com a realização de polissonografia dentro do período ideal. Além disso, o paciente relatou sentir-se confortável e com a certeza de que o aparelho melhorou sua qualidade de vida (Dekon; Lima; Gomes, 2018).
O estudo Souza et al. (2017) caracteriza-se como um estudo observacional transversal, de abordagem quantitativa, com coleta de dados secundários. Utilizando amostra de prontuários e laudos de 26 pacientes com diagnóstico polissonográfico de SAOS e indicação de tratamento com AIO. Como resultados, o estudo observou redução no índice de apneia e hipopneia. Foi apresentada melhora significativa no índice de microdespertar, porcentagem de ronco, no tempo total de sono, no IAH-NREM (non rapid eye movement), número de apneias mistas, hipopneias e número total de eventos respiratórios. A partir da terapia utilizada, houve melhora significativa do IAH, índice de despertar, número total de eventos respiratórios e porcentagem de ronco no tempo total de sono.
Para Dekon, Lima e Gomes (2018) e Souza et al. (2017), os estudos reforçam a eficácia dos aparelhos intraorais no tratamento da SAOS moderada, com melhora de parâmetros clínicos, qualidade do sono e redução de roncos.
São apresentados também na revisão estudos sobre o uso de dispositivos de avanço mandibular (DAM) e dispositivo Silensor SL. O estudo de Mayoral, Lagravere e Correa (2023) apresenta um caso clínico de um paciente com AOS grave apresentando melhora significativa após o uso do DAM, o que representou resolução clínica da apneia, juntamente com controle do bruxismo e proteção dentária. Assim, os resultados descrevem que os dispositivos de avanço mandibular (DAM) são eficazes tanto no controle da apneia obstrutiva do sono (AOS) quanto na redução do bruxismo do sono (BS).
O uso do DAM resultou em uma diminuição significativa da atividade motora rítmica dos músculos mastigatórios (RMMA), principalmente nos episódios relacionados a eventos respiratórios da AOS. Contudo, nos casos de bruxismo não associados à respiração, o dispositivo não reduziu a frequência, mas atuou como proteção, evitando o desgaste dentário de maneira semelhante às placas oclusais. Ao comparar as duas abordagens, os DAMs apresentaram melhor desempenho que as placas oclusais na redução dos episódios de bruxismo. Além disso, proporcionaram benefícios anatômicos e funcionais adicionais, como o aumento do espaço aéreo, redução do colapso das vias respiratórias e melhora do fluxo inspiratório (Mayoral; Lagravere; Correa, 2023).
Para Aarab et al. (2020), a terapia com aparelho de avanço mandibular melhorou o tempo de atividade muscular de fechamento da mandíbula para excitações respiratórias sem ter efeito na atividade muscular de fechamento da mandíbula, tempo relacionado a despertares não respiratórios. Além disso, observou-se que os pacientes apresentaram diminuição da atividade muscular de fechamento da mandíbula e do índice de excitação respiratória relacionado ao tempo, enquanto o índice de atividade muscular de fechamento da mandíbula relacionada à excitação não respiratória variou entre pacientes após a inserção do MAA.
Os resultados do estudo demonstraram que a utilização do aparelho de avanço mandibular foi eficaz em reduzir de forma significativa o índice de apneia-hipopneia, o índice de despertares respiratórios e a atividade muscular de fechamento da mandíbula associada a esses despertares. Além disso, observou-se melhora do sono, com aumento do tempo em sono profundo e redução do sono leve, bem como diminuição do tempo de ronco e dos episódios de dessaturação de oxigênio (Aarab et al., 2020).
No entanto, não foram identificados efeitos significativos do aparelho de avanço mandibular sobre a atividade muscular de fechamento da mandíbula relacionada a despertares não respiratórios, sobre eventos respiratórios sem despertares ou sobre o índice total de atividade muscular de fechamento da mandíbula. Da mesma forma, não houve alteração relevante nos níveis de sonolência diurna relatados pelos pacientes, o que pode ser explicado pelo fato de que a amostra não apresentava níveis elevados de sonolência no início do estudo. Em relação à adesão, os pacientes relataram uso consistente do dispositivo durante a maior parte do período de sono, enquanto os efeitos colaterais mais comuns incluíram boca seca, salivação excessiva, gosto desagradável e estalos na articulação temporomandibular, em geral leves e transitórios (Aarab et al., 2020).
Ferraz et al. (2020) avaliaram a eficácia do dispositivo Silensor SL no tratamento da síndrome de apneia/hipopneia obstrutiva do sono. Após o diagnóstico de SAOS, os pacientes foram submetidos ao tratamento com o dispositivo Silensor SL. Entre os pacientes avaliados, todos apresentaram pelo menos oito dentes em cada arcada dentária, ausência de doença periodontal avançada, ausência de patologia da articulação temporo-mandibular, assim como tolerância ao dispositivo de avanço mandibular ao longo de todo o tratamento.
O dispositivo utilizado foi o Silensor SL, constituído por duas férulas que cobrem a arcada superior e a arcada inferior, respectivamente. Estas duas férulas são unidas por um conector fixo, na parte superior ao nível do canino e na parte inferior ao nível dos primeiros e segundos molares inferiores. A orientação do conector permite definir o movimento de protrusão mandibular. Este dispositivo tem como objetivo induzir avanços mandibulares de 65% a 75% da protrusão máxima de cada doente (Ferraz et al., 2020).
Segundo o estudo, o Silensor SL não apresentou eficácia em pacientes com SAHOS grave, visto que foram mostrados resultados significativos no tratamento da SAHOS leve a moderada. Isso ocorre, pois os conectores são dinamicamente fracos. No mais, por ser uma doença multifatorial, os pacientes com SAHOS e bruxismo devem ser examinados por uma equipe multidisciplinar (Ferraz et al., 2020).
Em síntese, os estudos clínicos apresentados demonstram a eficácia comprovada dos aparelhos intraorais em diferentes contextos de síndrome da apneia obstrutiva do sono. Logo, evidencia-se que os aparelhos intraorais são capazes de reduzir a intensidade e frequência do ronco, promovendo melhorias na qualidade do sono do paciente e de seus parceiros.
Os estudos reforçam a fundamental participação do cirurgião-dentista para o sucesso terapêutico, destacam que o profissional deve conhecer os diferentes tipos de dispositivos intraorais (DIO), realizar a confecção adequada e acompanhar o tratamento, sempre em colaboração com otorrinolaringologistas ou pneumologistas. Reforçando assim, a importância do acompanhamento contínuo e ajustes precisos do aparelho intraoral garantem resultados clínicos satisfatórios e melhora da qualidade de vida do paciente.
5. CONCLUSÃO
A realização dos estudos evidencia que os aparelhos intraorais são ferramentas eficazes no manejo da síndrome da apneia obstrutiva do sono e do ronco, proporcionando benefícios funcionais, anatômicos e melhoria na qualidade do sono. A atuação do cirurgião-dentista é central em todas as etapas do tratamento, desde a avaliação inicial e confecção dos dispositivos até o acompanhamento e ajustes, em conjunto com outros profissionais de saúde.
Assim, a integração entre pesquisa científica e prática clínica reforça a relevância dos estudos e a necessidade de protocolos individualizados para cada paciente, consolidando os AIOs como uma abordagem confiável e segura no tratamento dos distúrbios respiratórios do sono.
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