THE USE OF INFORMATION AND COMMUNICATION TECHNOLOGIES AS A MATRIX SUPPORT STRATEGY IN PRIMARY HEALTH CARE: AN EXPERIENCE REPORT
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202601141337
Andreza Moreira Santos1
Lucas Mike Naves Silva1
Richard Roque Santos1
Susan Gonçalves Oliveira Mendes Siqueira1
Thays de Oliveira Rocha Mendes2
Renann Lores de Sousa2
Resumo
A Atenção Primária à Saúde (APS) constitui o eixo organizador do Sistema Único de Saúde, sendo responsável pela coordenação do cuidado e pela resolutividade das demandas mais frequentes da população. O apoio matricial surge como estratégia para ampliar essa capacidade, por meio do compartilhamento de saberes entre equipes e especialistas, podendo ser potencializado pelo uso da teleconsultoria. Este trabalho tem como objetivo relatar a experiência de uma residente de Medicina de Família e Comunidade na implementação de um programa de matriciamento em psiquiatria e nefrologia em uma Unidade Básica de Saúde, utilizando tecnologias de informação e comunicação. Trata-se de um estudo qualitativo, descritivo, do tipo relato de experiência, desenvolvido a partir da vivência da autora durante a residência médica. A experiência evidenciou que o matriciamento favoreceu a qualificação do manejo de casos complexos, fortaleceu o trabalho em rede e ampliou a segurança clínica na APS, além de se configurar como importante espaço de educação permanente. Conclui-se que o matriciamento mediado por teleconsultoria contribui para a integralidade, a resolutividade e a coordenação do cuidado na APS.
Palavras-chave: Matriciamento. Educação Médica. Medicina de Família e Comunidade. Teleconsultoria. Sistema de Apoio à Decisão Clínica.
1. INTRODUÇÃO
Deve-se fazer uma contextualização/apresentação breve do tema a ser estudado ou do tema que será abordado em seu projeto de pesquisa. A introdução é a parte do artigo onde são apresentados o tema de pesquisa, o problema, a justificativa e os objetivos.
A Atenção Primária à Saúde (APS) integra a organização do Sistema Único de Saúde (SUS) como porta de entrada preferencial e coordenadora do cuidado, compondo a rede de atenção em articulação com os demais níveis de atenção à saúde. No Brasil, a estruturação da APS por meio das equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF) é um pilar central para garantir acesso, continuidade e integralidade do cuidado, com capacidade de resolver grande parte das demandas mais frequentes da população e de direcionar, quando necessário, para a Atenção Secundária (especializada/ambulatorial) e para a Atenção Terciária (hospitalar e de alta complexidade). Esse modelo apresenta sólidas evidências de melhores desfechos em saúde quando sustentado por uma organização consistente e bem estruturada (MEDEIROS, 2023).
O Apoio Matricial (AM), ou matriciamento, é definido como um novo modo de produzir saúde. É um arranjo organizacional baseado em um método de compartilhamento de conhecimentos que envolve duas ou mais equipes de saúde em um processo de construção compartilhada, com o objetivo de definir uma conduta com embasamento teórico profissional de diferentes áreas. A partir dessa definição o paciente se beneficia com a opinião de especialistas sem necessidade de encaminhamento e consequente espera dentro do sistema de saúde. O matriciamento é realizado por equipes multidisciplinares através da discussão de casos e do compartilhamento de informações, e essas equipes podem ser compostas por diferentes tipos de especialistas (CHIAVERINI et. al., 2011).
Esse arranjo de matriciamento se aproxima do conceito de apoio matricial: uma estratégia em que equipes especializadas oferecem suporte técnico às equipes da APS por meio de discussão de casos e construção compartilhada de planos terapêuticos, ampliando a resolutividade e a integralidade do cuidado. O matriciamento é importante no desenvolvimento de raciocínio clínico e negociação de responsabilidades entre APS e especialidade. Esse tipo de construção dialoga com o que a literatura aponta como um dos principais ganhos do matriciamento em saúde mental: qualificação do cuidado, construção de um segmento estruturado com base nas melhores evidências científicas e fortalecimento dos vínculos no território (SANTOS, et al., CANOVAS et al., 2022).
A teleconsultoria quando bem implementada tende a ser o apoio especializado (seja presencial ou à distância) à APS que torna o cuidado mais resolutivo e pode se relacionar com redução de internações por condições sensíveis à APS (CASTRO FILHO et al., 2022; MEDEIROS, 2023).
Portanto esse trabalho tem como objetivo realizar um relato de experiência, sob a perspectiva de uma residente de Medicina de Família e Comunidade, sobre a implementação e vivência de um programa de matriciamento em uma Unidade Básica de Saúde, utilizando tecnologias de informação e comunicação, com ênfase na teleconsultoria, como ferramenta de apoio ao cuidado e à qualificação do atendimento na Atenção Primária à Saúde.
2. RELATO DE EXPERIÊNCIA
2.1. Contexto da vivência
Ingressei em março de 2024 no programa de Residência de Medicina de Família (MFC) e Comunidade da Universidade Evangélica de Goiás, em Anápolis (GO), sendo alocada em uma das Unidades Básicas da região, na Atenção Primária à Saúde (APS). Minha função enquanto médica residente é atuar em equipe multiprofissional na Estratégia Saúde da Família, realizando consultas clínicas, visitas domiciliares, ações coletivas, participação em reuniões de equipe e construção de Projetos Terapêuticos Singulares (PTS) para usuários e famílias do território.
A UBS na qual trabalho atende um território com importante carga de adoecimento crônico, como hipertensão, diabetes, doenças cardiopulmonares e doença renal crônica, além de demandas significativas em saúde mental, como depressão, ansiedade, transtorno bipolar, uso abusivo de álcool e outras drogas e situações de sofrimento psíquico relacionadas à vulnerabilidade social. No início de 2025, a Universidade Evangélica de Goiás implantou um programa de matriciamento em que, aproximadamente duas vezes ao mês, os médicos residentes em MFC passaram a ter um espaço estruturado para discutir casos complexos com especialistas em psiquiatria e nefrologia.
3. Relato cronológico da atuação e desafios enfrentados
3.1. Ano de 2024: antes do matriciamento
No primeiro ano de residência, antes da implantação formal do matriciamento, já era possível perceber a APS como um ponto de grande responsabilidade na rede de saúde, mas com limitações importantes na condução de casos complexos, sobretudo em casos de saúde mental e nefrologia. Na prática, embora os casos de saúde mental em geral fossem bem conduzidos pelos meus preceptores e por nós, residentes de MFC, percebia que os quadros mais graves de depressão, transtorno bipolar e transtornos de personalidade, ideação suicida, uso problemático de substâncias ou esquizofrenia, precisavam de um olhar mais próximo do especialista focal para garantir um cuidado realmente integral ao paciente. Mesmo assim, ainda que fossem realizados encaminhamentos para os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e para a psiquiatria ambulatorial, frequentemente nos deparávamos com importantes barreiras de acesso na rede de atenção, o que contribui para uma sensação de insegurança clínica e de fragmentação do cuidado. Essas dificuldades estavam relacionadas, sobretudo, à existência de longas filas de espera, à escassez de profissionais especializados, à alta rotatividade das equipes, à sobrecarga dos serviços de saúde mental e à insuficiência de unidades com estrutura física adequada para acolhimento, manejo de crises e eventual internação. Somam-se a isso fragilidades na comunicação entre os pontos da rede, fluxos pouco claros de referência e contrarreferência, além de limitações logísticas e territoriais, que dificultavam o acompanhamento longitudinal e compartilhado dos casos mais complexos.
Em nefrologia, os desafios também eram claros: pacientes diabéticos e hipertensos com doença renal crônica já estabelecida, proteinúria persistente, uso concomitante de múltiplas medicações potencialmente nefrotóxicas e dificuldade para conseguir seguimento conjunto na rede de saúde e realizar intervenção precoce.
3.2. Ano 2025: implantação do programa de matriciamento
No início de 2025 criou-se um calendário fixo de encontros de matriciamento com psiquiatria e nefrologia, aproximadamente duas vezes ao mês. Esses encontros ocorriam em horário previamente estabelecido na agenda da unidade, na forma de teleconsultoria por chamada de vídeo, com a participação dos especialistas, preceptores, residentes de MFC e estudantes de medicina.
Inspirado no modelo de apoio matricial descrito na literatura, o espaço foi organizado para privilegiar a discussão de casos reais do território, escolhidos pela equipe da UBS assim como a construção compartilhada de planos terapêuticos, com foco no que poderia ser resolvido na APS e no que demandava cuidado especializado. Como residente, minha atuação nestes encontros incluía: levantar e sistematizar os casos complexos da minha agenda e da agenda dos preceptores; preparar resumos clínicos com dados relevantes (evolução, exames, medicações, contexto familiar e social); apresentar os casos ao especialista; articular o raciocínio clínico e as dúvidas da equipe; e registrar as condutas pactuadas e transformá-las em condutas factíveis de serem implementadas no cotidiano da UBS. Durante todo o processo, o anonimato dos pacientes em discussão foi integralmente preservado.
Logo nos primeiros meses, discutimos o caso de uma paciente do sexo feminino, de meia-idade, com provável diagnóstico de transtorno bipolar em fase aguda, com sintomas psicóticos e pensamentos de morte recorrentes, alta vulnerabilidade social, baixa aceitação de psicoterapia, manejo farmacológico já otimizado na UBS sem resposta satisfatória e grande resistência à indicação de internação em hospital psiquiátrico. Apesar desse cenário complexo, a paciente contava com uma boa rede de apoio e vigilância, representada sobretudo por sua filha, que se mostrava presente e participativa do cuidado.
A discussão de caso com a psiquiatra incluiu a discussão e ajuste do tratamento farmacológico, com introdução e otimização de estabilizador de humor e antipsicótico, considerando a refratariedade ao esquema em uso na UBS, encaminhamento articulado para o CAPS, valorizando o vínculo já existente com a equipe da APS e pactuando o compartilhamento do cuidado, elaboração de um plano de segurança envolvendo ativamente a filha como rede de apoio/vigilância, com orientações claras sobre sinais de alerta e quando acionar a equipe da UBS, o CAPS ou a emergência psiquiátrica. Além disso, definição de periodicidade das consultas de retorno e de critérios bem estabelecidos em que a internação psiquiátrica voltaria a ser discutida de forma mais enfática, caso houvesse piora clínica ou aumento do risco, sempre buscando respeitar a autonomia da paciente, mas sem perder de vista a necessidade de proteger sua integridade.
Na nefrologia, um caso emblemático foi o de uma mulher idosa, diabética e hipertensa de difícil controle, com alto risco cardiovascular e doença renal crônica já em estágio avançado, mas sem seguimento regular com especialista focal. A discussão permitiu realizar revisão criteriosa de medicações potencialmente nefrotóxicas; a organização de solicitação e periodicidade de exames laboratoriais; a pactuação de metas pressóricas e glicêmicas realistas para o contexto e o encaminhamento estruturado à nefrologia, com carta contendo síntese do caso e hipóteses diagnósticas.
Apesar dos ganhos, deparei-me com alguns desafios, como a sobrecarga e conflito de agendas, especialmente em semanas com alta demanda assistencial, dificultando a participação de todos nos encontros. Além disso, notei dificuldades estruturais, como limitação de tempo por encontro e número de casos que podiam ser discutidos.
3.3. Análise crítica e reflexiva: impacto na formação pessoal e profissional
Do ponto de vista da minha formação como residente de MFC, o matriciamento em psiquiatria e nefrologia representou um ponto de virada. Primeiro, pelo impacto pedagógico: passei a compreender o apoio matricial não apenas como “tirar dúvidas com o especialista”, mas como um espaço de educação permanente, diálogo e construção coletiva do cuidado.
Em psiquiatria, o processo me ajudou a aprimorar o raciocínio clínico em quadros complexos, indo além de escalas, listas de sintomas e solicitação de exames; perder o medo de manejar psicofármacos na APS, entendendo melhor indicações, combinações e monitorização; reconhecer o papel central da APS na desinstitucionalização e na manutenção do cuidado em saúde mental na comunidade, como reforçado pelas propostas de cuidado psicossocial e de trabalho articulado entre UBS e CAPS.
Em nefrologia, o matriciamento contribuiu para desenvolver uma visão mais ampliada da doença renal crônica, compreendendo-a como processo contínuo, prevenível e modulável na APS; e ganhar segurança para ajustar medicações, solicitar exames e definir critérios de encaminhamento.
As reuniões de matriciamento possibilitaram que eu me percebesse cada vez mais como médica de família responsável por coordenar o cuidado dos meus pacientes, articulando recursos do território, especialistas e outros níveis de atenção. Ao mesmo tempo, o contato com as dificuldades – tempo curto, sobrecarga, barreiras estruturais – me trouxe uma visão mais crítica do sistema de saúde, mostrando que são necessárias condições concretas de trabalho e apoio da gestão local.
3.4. Reflexão sobre aprendizados e limitações
A experiência do matriciamento em psiquiatria e nefrologia trouxe importantes benefícios para minha formação, como a melhora técnica na avaliação e manejo de casos complexos nestas especialidades, reduzindo a sensação de insegurança e o número de encaminhamentos precoces, além da compreensão do matriciamento como estratégia de educação permanente, em que a residência deixa de ser apenas “aprendizado com o preceptor” e passa a integrar especialistas focais e equipe multiprofissional.
Ao mesmo tempo, essa vivência expôs limitações, como a dificuldade de estruturação da agenda médica com horários fixos para as discussões, a alta carga de demandas imediatas que sobrecarregam as equipes durante os períodos de discussão, a baixa frequência de reuniões e o tempo limitado para discussões. Acredito que para que o matriciamento seja consolidado é necessário que haja investimento continuado em educação permanente, apoio da gestão, maior tempo e frequência de encontros e ampliação da participação de toda a equipe, e não apenas dos médicos.
4. METODOLOGIA
Trata-se de um estudo qualitativo, descritivo, do tipo relato de experiência, desenvolvido a partir da vivência da autora durante a residência médica em Medicina de Família e Comunidade. O relato aborda a experiência vivenciada com a utilização de tecnologias de informação e comunicação para o aprimoramento do cuidado nas Unidades Básicas de Saúde em casos clínicos complexos. A estrutura narrativa usada para construção do relato de experiência foi dividida nas seguintes etapas: (1) contexto da vivência; (2) relato cronológico da atuação e desafios enfrentados; (3) análise crítica e reflexiva, demonstrando como as experiências influenciaram na formação pessoal e profissional; (4) reflexão sobre aprendizados e limitações. Além disso, ao final do relato foi abordado as principais dificuldades enfrentadas para implementação do sistema de matriciamento, as maneiras utilizadas para resolução das problemáticas e os benefícios atingidos com a utilização dessa metodologia.
Para corroboração teórica foi realizada revisão da literatura que se deu pela busca de artigos científicos sobre o tema nas plataformas Google Acadêmico, SciELO e Pubmed. Foram utilizados para realização da pesquisa os seguintes Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): Matriciamento; Educação Médica; Medicina de Família e Comunidade; Teleconsultoria; Sistema de Apoio à Decisão Clínica.
Como critérios de inclusão, foram selecionados artigos entre o período de 2019 até 2025. Após essa seleção, foram lidos os resumos dos artigos e selecionados os que se encaixavam dentro do tema proposto envolvendo as duas vertentes incluídas no processo de matriciamento e teleconsultoria, ou seja, as duas equipes. Por fim, foram incluídos artigos na língua portuguesa, espanhola e inglesa. Foram excluídos aqueles que, após a leitura do resumo, não se enquadrarem dentro do tema proposto para o presente trabalho.
5. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
O apoio matricial é definido como uma intervenção terapêutico-pedagógica compartilhada entre duas ou mais equipes, voltada ao fortalecimento de vínculos, ao desenvolvimento de projetos coletivos, intervenções terapêuticas e à participação ativa dos usuários (GOUVEIA et al., 2021). Na prática da UBS, isso se expressava em encontros que iam além de “respostas prontas” junto aos especialistas em psiquiatria e nefrologia, eram construídos projetos de intervenção compatíveis com a realidade do paciente, com a capacidade de manejo da APS e com os recursos disponíveis na rede.
Os estudos destacam que o matriciamento fortalece a integralidade do cuidado e a resolutividade da APS, especialmente em casos de maior complexidade, por meio de trabalho em rede e compartilhamento de saberes (FIGUEIREDO; PAULA, 2021; CANOVAS et al., 2022). Isso era perceptível após os encontros, uma vez que o matriciamento possibilita o início do cuidado ainda na APS de pacientes que demandam encaminhamento para níveis secundários e terciários, enquanto aguardavam vaga com um especialista focal.
As revisões realizadas na literatura mostram também que o apoio matricial tem um forte caráter educativo, transformando os encontros em espaços de educação permanente e problematização da prática (GOUVEIA et al., 2021; CANOVAS et al., 2022). Como residente, percebi que cada discussão de caso era, na verdade, uma aula contextualizada, em que o aprendizado acontecia a partir do problema real, do território real e das limitações concretas do SUS.
O matriciamento, além de qualificar a gestão do cuidado ao paciente, configura-se como um potente espaço de educação continuada no cotidiano da UBS, pois promove trocas sistemáticas de conhecimento entre as equipes (CANOVAS et al., 2022). Ele não se configura como um dispositivo destinado a transferir à APS soluções prontas para os casos em discussão, tampouco implica uma relação hierárquica na qual a equipe de referência se limite a cumprir determinações da equipe matricial. Trata-se, ao contrário, de uma estratégia de produção do cuidado em rede, baseada na corresponsabilização e na construção compartilhada de intervenções, a partir da análise das necessidades das pessoas e das especificidades do território, com pactuação de ações entre as equipes envolvidas (IGLESIAS et al., 2024).
Conclui-se que um matriciamento bem estruturado, apoiado por tecnologias de informação e comunicação (como a teleconsultoria e outras estratégias de comunicação síncrona e assíncrona), tem papel fundamental na qualificação do cuidado na Atenção Primária à Saúde, por favorecer a corresponsabilização entre equipes, a construção compartilhada de projetos terapêuticos e o fortalecimento do trabalho em rede (FIGUEIREDO; PAULA, 2021; CANOVAS et al., 2022). Ao aproximar a APS do especialista focal de forma ágil e contextualizada, essas ferramentas ampliam a capacidade de manejo de casos complexos no próprio território, reduzem encaminhamentos evitáveis e contribuem para a integralidade e longitudinalidade do cuidado. Além disso, ao transformar cada discussão em um espaço sistemático de educação permanente, o matriciamento mediado por tecnologias de informação e comunicação fortalece competências clínicas e organizacionais da equipe, melhora a resolutividade da UBS e sustenta decisões mais seguras e alinhadas às necessidades reais das pessoas e aos recursos disponíveis no SUS (IGLESIAS et al., 2024).
6. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência com o matriciamento em psiquiatria e nefrologia na Unidade Básica de Saúde (UBS), no contexto da residência de Medicina de Família e Comunidade da Universidade Evangélica em Anápolis, permitiu transformar desafios concretos do cotidiano em oportunidades de aprendizagem, qualificação do cuidado e fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS). Ao associar minhas vivências com o que é demonstrado na literatura, consegui enxergar o matriciamento não apenas como uma série de reuniões, mas como uma forma de reafirmar meu compromisso com um cuidado integral, humanizado e resolutivo com meus pacientes, o que foi essencial em minha formação. Por meio dele, foi possível ampliar minhas competências clínicas, fortalecer minha capacidade de trabalhar em rede e reconhecer minhas limitações profissionais.
Para além de uma teleconsultoria, o matriciamento tem grande impacto no cuidado à saúde, pois permite que pacientes tenham suas condições comórbidas manejadas com técnica adequada, mas sem a burocracia do encaminhamento que, por vezes, pode ser evitado. Dessa forma, preserva-se a integralidade do cuidado, mantendo o acompanhamento longitudinal na UBS, ao mesmo tempo em que se garante suporte especializado e assistência adequada às necessidades identificadas.
O matriciamento é uma estratégia potencialmente replicável e deve ser incorporada como uma prática permanente na APS. Para seu correto funcionamento, a gestão deve ter em foco alguns elementos fundamentais, tais como: horários protegidos na agenda, participação da equipe multiprofissional, maior frequência de encontros, espaço para discussão de maior quantidade de casos e possibilidade de continuidade de cuidado do paciente na rede secundária e terciária. Assim ampliação progressiva do matriciamento para um maior número de especialidades, em consonância com as principais demandas do território — como psiquiatria, neurologia, nefrologia, pneumologia, infectologia, geriatria, entre outras — configura-se como estratégia estruturante para o fortalecimento da capacidade resolutiva da APS e para a qualificação do cuidado longitudinal. Dessa forma, o matriciamento deixa de ser um evento pontual e passa a funcionar como um dispositivo contínuo de cuidado e educação permanente em outros territórios do SUS com impacto direto na integralidade, na resolutividade e na coordenação do cuidado.
Para os usuários, isso se traduz em maior acesso ao cuidado no próprio território, menor tempo de espera por avaliação especializada, redução de deslocamentos desnecessários, maior continuidade do cuidado e maior satisfação com o atendimento. Para o sistema de saúde, o matriciamento contribui para a racionalização dos fluxos assistenciais, otimização do uso dos serviços de média e alta complexidade, redução de custos evitáveis e fortalecimento do papel coordenador da APS na Rede de Atenção à Saúde.
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1Residentes de Medicina de Família e Comunidade pela Universidade Evangélica de Goiás. E-mail: andrezamed12@gmail.com
2Preceptores da residência médica de Medicina de Família e Comunidade na Universidade Evangélica de Goiás. E-mail: th_rocha@hotmail.com; renannlores@hotmail.com
