O TECIDO ADIPOSO COMO ÓRGÃO ENDÓCRINO: REVISÃO HISTOLÓGICA DE SEU PAPEL NA INFLAMAÇÃO CRÔNICA E NAS DOENÇAS METABÓLICAS

ADIPOSE TISSUE AS AN ENDOCRINE ORGAN: A HISTOLOGICAL REVIEW OF ITS ROLE IN CHRONIC INFLAMMATION AND METABOLIC DISEASES

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511132050


Samuel Elias de Souza Rosa1
Jhonatan Braga da Silva2
Elieth Afonso de Mesquita3


Resumo

O tecido adiposo, anteriormente considerado apenas um reservatório de energia, é atualmente reconhecido como um órgão endócrino e imunomodulador altamente complexo, desempenhando papel central na regulação metabólica e inflamatória. Esta estudo teve como objetivo revisar criticamente a literatura científica publicada nos últimos anos, com foco nas características histológicas do tecido adiposo em condições fisiológicas e patológicas, destacando os principais marcadores morfológicos, celulares e moleculares descritos. Trata-se de uma revisão sistemática de literatura, de caráter qualitativo e descritivo, baseia-se na análise crítica de publicações científicas, que busca sintetizar e discutir evidências referentes às características histológicas do tecido adiposo em condições fisiológicas e patológicas com uma abordagem interpretativa e integradora. Foram analisados 15 estudos publicados entre 2000 e 2025, os quais evidenciaram alterações histológicas características da obesidade, como hipertrofia dos adipócitos, infiltração de macrófagos M1, ativação do inflamassoma NLRP3, fibrose da matriz extracelular e modificação do perfil de adipocinas. Também foi observada a presença de tecido adiposo bege, cuja indução termogênica se encontra prejudicada em contextos de inflamação crônica e resistência à insulina. Os achados indicam que o microambiente inflamatório do tecido adiposo contribui para o desenvolvimento de resistência insulínica, disfunção endotelial e aumento do risco cardiovascular. Destaca-se, portanto, a relevância das análises histológicas e moleculares como ferramentas diagnósticas e preditivas, fornecendo subsídios para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas voltadas à modulação da inflamação e à restauração da homeostase metabólica.

Palavras-chave: Tecido adiposo branco. Inflamação crônica. Obesidade. Fibrose. Termogênese.

1 INTRODUÇÃO

O tecido adiposo, por décadas subestimado como simples reserva energética, vem sendo reconceituado como um órgão endócrino altamente dinâmico, dotado de intensa atividade secretora e imunomoduladora. A partir do advento da biologia molecular e da histologia funcional moderna, tornou-se evidente que esse tecido possui papel fundamental na homeostase energética, na sinalização hormonal e nos mecanismos de inflamação crônica associados a doenças metabólicas (Ahima e Flier, 2000). Sua arquitetura celular heterogênea, composta por adipócitos maduros, células-tronco mesenquimais, macrófagos, fibroblastos, células endoteliais e componentes da matriz extracelular, reflete a complexidade morfofuncional do tecido adiposo (Emont et al., 2022). 

Histologicamente, distingue-se entre os tecidos adiposos branco (WAT – white adipose tissue) e marrom (BAT – brown adipose tissue), cada qual com características estruturais e funcionais específicas. Enquanto o WAT atua majoritariamente no armazenamento de triglicerídeos e secreção de adipocinas, como leptina, resistina e adiponectina, o BAT está envolvido na termogênese adaptativa, notadamente por conter mitocôndrias ricas em proteína desacopladora UCP-1 (Chondronikola et al., 2014). Recentemente, descrições de um fenótipo intermediário, denominado tecido adiposo bege, revelaram plasticidade funcional entre WAT e BAT, modulada por estímulos térmicos e hormonais (Shinoda et al., 2015). 

Em condições de obesidade, observa-se uma remodelação tecidual que transcende a simples hipertrofia dos adipócitos. O acúmulo lipídico leva à hipoxia local, recrutamento de macrófagos inflamatórios tipo M1, ativação do inflamassoma NLRP3 e liberação de citocinas pró-inflamatórias, como TNF-α, IL-1β e IL-6, caracterizando um estado de inflamação crônica de baixo grau (Zhou et al., 2022). Tal microambiente inflamatório repercute diretamente na sinalização insulínica, promovendo resistência periférica à insulina e disfunção endotelial, fenômenos que pavimentam a fisiopatologia de doenças como o diabetes mellitus tipo 2 e a aterosclerose (Chandel et al., 2020). 

Do ponto de vista histológico, essas alterações são observadas por meio de técnicas de coloração e imunohistoquímica que evidenciam áreas de fibrose, necrose celular, infiltrado de células imunes e aumento da deposição de colágeno, especialmente do tipo VI, alterando a integridade da matriz extracelular (Spencer et al., 2010). A substituição do fenótipo M2 anti-inflamatório por M1 em macrófagos teciduais, bem como a expressão de marcadores como F4/80, CD11c e CD206, têm sido fundamentais para o entendimento da dinâmica imunohistológica do tecido adiposo em estados patológicos (Kratz et al., 2014). 

É nesse contexto que a histologia do tecido adiposo adquire protagonismo não apenas na compreensão da fisiologia metabólica, mas também como ferramenta diagnóstica e preditiva em patologias sistêmicas. A análise morfológica e molecular dos compartimentos adiposos revela uma intrincada rede de sinais intercelulares que ultrapassa os limites do tecido em si, influenciando a função hepática, muscular, vascular e até mesmo a imunidade inata sistêmica (Li et al., 2019). 

Portanto, diante da crescente prevalência das doenças crônicas relacionadas ao excesso de tecido adiposo disfuncional, como obesidade, diabetes e síndrome metabólica, impõe-se a necessidade de uma revisão abrangente que sistematize os conhecimentos histológicos atuais sobre a estrutura, remodelação e função inflamatória do tecido adiposo. Este estudo teve o objetivo de revisar criticamente a literatura científica publicada nos últimos anos, com foco nas características histológicas do tecido adiposo em condições fisiológicas e patológicas, destacando os principais marcadores morfológicos, celulares e moleculares descritos nas pesquisas recentes. 

2 METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, elaborada com base nas diretrizes atualizadas do protocolo PRISMA 2020 (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), com o objetivo de garantir clareza, transparência e rigor metodológico. A construção da pergunta de pesquisa foi estruturada segundo o modelo PICO, sendo a população composta por indivíduos adultos com obesidade ou distúrbios metabólicos; a intervenção definida como a análise histológica do tecido adiposo branco (WAT); a comparação estabelecida com indivíduos eutróficos ou sem alterações inflamatórias; e os desfechos considerados foram marcadores morfofuncionais, inflamatórios e estruturais associados à inflamação crônica de baixo grau. 

A pergunta norteadora da revisão foi: “Quais são as principais alterações histológicas associadas à inflamação crônica de baixo grau no tecido adiposo branco de indivíduos adultos com distúrbios metabólicos?” 

A pesquisa bibliográfica foi realizada entre março à agosto de 2025, utilizando-se as bases de dados PubMed, Scopus, Web of Science, SciELO e Google Scholar. Foram utilizados descritores controlados (DeCS/MeSH) e termos livres, combinados com operadores booleanos, como: “adipose tissue” AND “inflammation” AND “histology” AND “obesity” AND “metabolic syndrome”. 

Foram incluídos artigos originais e estudos experimentais publicados entre 2020 e 2025, redigidos em inglês, português ou espanhol, que abordassem análise histológica do tecido adiposo humano e investigassem marcadores inflamatórios, remodelação da matriz extracelular, fibrose ou infiltração de células imunes. Foram excluídos artigos sem acesso ao texto completo, estudos exclusivamente em modelo animal sem validação paralela em humanos, textos fora do período delimitado, resumos de eventos, dissertações e trabalhos que não abordavam especificamente o tecido adiposo sob a perspectiva histológica inflamatória. 

O processo de seleção dos estudos seguiu as quatro etapas preconizadas pelo PRISMA: identificação, triagem, elegibilidade e inclusão. Inicialmente, os artigos encontrados foram importados para um gerenciador de referências. Após a remoção de duplicatas e registros inaptos, os estudos foram avaliados por título e resumo, seguidos da leitura integral dos textos potencialmente relevantes. A inclusão final contemplou apenas os artigos que atenderam plenamente aos critérios de elegibilidade. 

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados desta revisão reforçam a visão contemporânea do tecido adiposo como órgão endócrino ativo, cuja disfunção estrutural e imunológica representa um eixo central na fisiopatologia das doenças metabólicas (Duan et al., 2025; Matar et al., 2025).

A Figura 01 ilustra, por meio de um fluxograma, todas as etapas de seleção dos estudos conforme o protocolo PRISMA, incluindo os motivos para exclusão e o número de publicações incluídas na análise qualitativa. 

Figura 01. Fluxo de Identificação, Triagem, Elegibilidade e Inclusão de Estudos na Revisão Sistemática com base no Protocolo PRISMA 2020.

Fonte: Autores

Historicamente negligenciado como mero reservatório energético, o tecido adiposo revela-se, hoje, um complexo sistema de comunicação celular capaz de integrar sinais metabólicos, endócrinos e imunes (Ahima e Flier, 2000; Li et al., 2019). 

A análise qualitativa dos 15 estudos incluídos nesta revisão sistemática revelou evidências consistentes do papel ativo do tecido adiposo branco (WAT) como modulador central das respostas inflamatória e metabólica em indivíduos com obesidade e síndrome metabólica. Conforme exposto no quadro 1.

Quadro 1. Estudos sobre o tecido adiposo

Fonte: autores

Em condições fisiológicas, o white adipose tissue (WAT) mantém um equilíbrio entre adipocinas pró e anti-inflamatórias, favorecendo a sensibilidade à insulina e a homeostase energética. Contudo, a expansão exacerbada dos adipócitos durante a obesidade provoca hipóxia tecidual, levando à ativação do fator hypoxia-inducible factor 1 alpha (HIF-1α) e à consequente expressão de mediadores inflamatórios, como o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) e a interleucina 6 (IL-6) (Chandel et al., 2020). Essa sequência de eventos desencadeia a transição fenotípica de macrófagos do tipo M2 (anti-inflamatórios) para M1 (pró-inflamatórios), culminando na formação das coroas inflamatórias observadas nas análises histológicas (Kratz et al., 2014).

A literatura recente tem reforçado a noção de que o tecido adiposo ultrapassa a função tradicional de depósito energético, atuando como um órgão endócrino e imunomodulador capaz de secretar citocinas, quimiocinas e hormônios que exercem influência direta sobre a homeostase sistêmica (Emont et al., 2022; Li et al., 2019).

Do ponto de vista histológico, os estudos analisados demonstraram alterações morfofuncionais recorrentes associadas ao estado inflamatório crônico de baixo grau característico da obesidade. Quatro eixos principais de remodelação tecidual foram identificados. O primeiro refere-se à hipertrofia e à hiperplasia dos adipócitos, acompanhadas pelo aumento do diâmetro celular e pela redução da vascularização local, o que leva à hipóxia tecidual e à expressão de marcadores de estresse oxidativo (Pourdashti et al., 2023; Zhou et al., 2022). O segundo eixo relaciona-se à infiltração de células imunes — predominantemente macrófagos M1, linfócitos T CD8⁺ e células natural killer (NK) — que formam estruturas conhecidas como “coroas inflamatórias” ao redor de adipócitos necróticos (Chandel et al., 2020; Kratz et al., 2014).

O terceiro eixo envolve fibrose e remodelação da matriz extracelular, caracterizadas pelo aumento da deposição de colágeno tipo VI, pela elevação da expressão de transforming growth factor beta (TGF-β) e pelo consequente comprometimento da integridade tecidual (Juhl et al., 2020; Spencer et al., 2010; Khan et al., 2008). Por fim, o quarto eixo diz respeito à alteração do perfil secretor de adipocinas, com redução da expressão de adiponectina e aumento de leptina, resistina e TNF-α — fatores que contribuem para a resistência à insulina e para a amplificação da inflamação sistêmica (Chondronikola et al., 2014; Ahima & Flier, 2000).

Nos estudos comparativos entre indivíduos eutróficos e obesos, observou-se aumento expressivo da expressão de marcadores pró-inflamatórios, como CD11c, IL-6, IL-1β e MCP-1, concomitante à redução de marcadores anti-inflamatórios, como CD206 e IL-10, no grupo obeso (Shinoda et al., 2015; Kratz et al., 2014). Análises imunohistoquímicas e de biologia molecular corroboraram esses achados, destacando a ativação do inflamassoma NLRP3 como eixo molecular central da disfunção metabólica associada ao WAT, mediada principalmente pelas vias JNK e NF-κB (Zhou et al., 2022).

Outro achado recorrente entre os estudos revisados foi a identificação do tecido adiposo bege (beige adipose tissue), um fenótipo intermediário com capacidade termogênica parcial, cuja indução se mostrou reduzida em contextos de inflamação crônica e resistência à insulina (Emont et al., 2022; Shinoda et al., 2015). Essa perda de plasticidade funcional esteve associada à diminuição da expressão de proteínas-chave, como uncoupling protein 1 (UCP-1) e peroxisome proliferator-activated receptor gamma coactivator 1-alpha (PGC-1α), indicando comprometimento da termogênese adaptativa (Zhu et al., 2024).

Em conjunto, os achados histológicos e moleculares analisados convergem para o entendimento de que o microambiente inflamatório do tecido adiposo desempenha papel determinante na progressão das doenças metabólicas. A hipertrofia celular, a infiltração imune e a fibrose tecidual não apenas promovem resistência insulínica e disfunção endotelial, mas também contribuem para o aumento do risco cardiovascular, consolidando o tecido adiposo como um elemento ativo e estratégico na fisiopatologia das disfunções metabólicas associadas à obesidade.

Os dados também indicam que o inflamassoma NLRP3 constitui um dos principais mediadores moleculares da inflamação crônica de baixo grau. Sua ativação resulta na clivagem da pró-caspase-1 e na liberação de IL-1β e IL-18, que amplificam o recrutamento celular e comprometem a sinalização insulínica (Zhou et al., 2022). Paralelamente, ocorre aumento da rigidez da matriz extracelular e deposição de colágeno tipo VI, eventos que contribuem para a fibrose e para a perda da elasticidade tecidual, interferindo na lipólise e na perfusão capilar local (Spencer et al., 2010).

Outro achado recorrente refere-se à perda da termogênese adaptativa mediada pelo tecido adiposo bege. A redução da expressão de UCP-1 e de genes termogênicos evidencia que a inflamação crônica compromete a plasticidade do tecido, limitando sua capacidade de dissipar energia e agravando o balanço lipídico positivo (Shinoda et al., 2015; Emont et al., 2022). Esse fenômeno cria um círculo vicioso no qual o acúmulo lipídico intensifica a inflamação, perpetuando a disfunção metabólica.

É importante salientar a heterogeneidade metodológica dos estudos incluídos, sobretudo quanto às técnicas histológicas empregadas (hematoxilina e eosina – H&E, tricrômico de Masson, imunofluorescência, quantitative polymerase chain reaction – qPCR) e aos marcadores avaliados. Apesar dessas variações, a convergência dos achados morfológicos e moleculares reforça a robustez das evidências apresentadas.

Portanto, a compreensão histológica da inflamação no tecido adiposo transcende o campo morfológico e apresenta implicações clínicas diretas, ao possibilitar a identificação precoce de processos inflamatórios subclínicos e fornecer subsídios para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas direcionadas, como intervenções anti-inflamatórias, modulação da matriz extracelular e estímulo ao beiging do WAT.

4 CONCLUSÃO

Os resultados desta revisão sistemática evidenciam que o tecido adiposo, especialmente o white adipose tissue (WAT), deve ser reconhecido não apenas como um reservatório energético, mas como um órgão endócrino e imunomodulador ativo, com papel determinante na manutenção e na disfunção da homeostase metabólica. As análises histológicas e moleculares revelaram que a hipertrofia adipocitária, a infiltração de macrófagos M1, a fibrose da matriz extracelular e a ativação do inflamassoma NLRP3 configuram um eixo patogênico central na inflamação crônica de baixo grau observada em indivíduos obesos.

A evidência acumulada demonstra que tais alterações estruturais e funcionais favorecem a resistência à insulina, a disfunção endotelial e o aumento do risco cardiovascular, estabelecendo o tecido adiposo como um elo essencial entre a inflamação e as doenças metabólicas. Além disso, a redução da atividade termogênica do tecido adiposo bege reflete a perda de plasticidade celular e contribui para o agravamento do desequilíbrio energético sistêmico.

Diante desse panorama, reforça-se a importância das análises histológicas e moleculares como ferramentas diagnósticas e preditivas, capazes de identificar precocemente alterações no microambiente tecidual e orientar intervenções terapêuticas direcionadas. Estratégias voltadas à modulação inflamatória, ao controle da fibrose e ao estímulo da termogênese adaptativa despontam como abordagens promissoras para a restauração da homeostase metabólica.

Por fim, destaca-se a necessidade de padronização metodológica nos estudos futuros, a fim de possibilitar comparações mais consistentes e aprofundar a compreensão dos mecanismos celulares e moleculares que interligam o tecido adiposo às doenças metabólicas.

REFERÊNCIAS

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1Discente do Curso Superior de Ciências Biológicas do Instituto Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR) Campus Porto Velho
e-mail: samuelunir@gmail.com
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-2074-8094

2Discente do Curso Superior de Ciências Biológicas do Instituto Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR) Campus Porto Velho
e-mail: Jb8464752@gmail.com
Orcid: https://orcid.org/0009-0006-1963-5542

3Docente do Curso Superior de Biologia do Instituto Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR) Campus Porto Velho
Doutora em Biologia Experimental (CIBEBI/UNIR)
e-mail: eliethbio@unir.br
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-6562-5656

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