O SUS QUE VOCÊ NÃO VÊ: UMA ANÁLISE SOCIAL SOBRE O SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE

THE SUS YOU DON’T SEE: A SOCIAL ANALYSIS OF THE SINGLE HEALTH SYSTEM 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511161439


 Ana Vitória Neres Cirino1; Cássia Gonçalves Azevedo1; Isadora Cristina Marinho Lopes1; Karla Danielly Lima Vinhadelli1; Maria Solange Oliveira Alves1; Nathália Lima Araújo1; Lillian Carolyne Flores Brito2


RESUMO:  

O presente estudo teve como objetivo evidenciar a atuação do Sistema Único de Saúde (SUS) em dimensões pouco conhecidas pela população, por meio da aplicação de um teste social no município de Porto Nacional – TO. Trata-se de um estudo qualitativo, exploratório, realizado em espaços públicos com entrevistas gravadas em vídeo, mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. As falas foram analisadas segundo o método de análise temática, identificando percepções e lacunas de conhecimento sobre o SUS. Observou-se que os participantes associam o SUS principalmente a consultas médicas, campanhas de vacinação e fornecimento de medicamentos, demonstrando desconhecimento sobre áreas como vigilância sanitária, segurança alimentar e controle da qualidade da água. A divulgação do vídeo nas redes sociais ampliou o alcance da pesquisa, despertando o interesse da população sobre o papel fiscalizador e protetivo do sistema. Conclui-se que o fortalecimento da comunicação e da educação em saúde é fundamental para tornar visível a amplitude das ações do SUS no cotidiano.

Palavras-chave: Sistema Único de Saúde; Vigilância em Saúde; Educação em Saúde; Saúde Coletiva; Políticas Públicas.

Abstract

The present study aimed to highlight the role of the Brazilian Unified Health System (SUS) in dimensions that are little known to the population, through the application of a social test in the city of Porto Nacional – TO. This is a qualitative and exploratory study carried out in public spaces, with interviews recorded on video, under informed consent. The speeches were analyzed using the thematic analysis method, identifying perceptions and knowledge gaps about the SUS. It was observed that participants mainly associate the SUS with medical care, vaccination campaigns, and drug supply, demonstrating a lack of knowledge about areas such as sanitary surveillance, food safety, and water quality control. The dissemination of the video on social media expanded the reach of the research, raising public awareness about the system’s supervisory and protective role. It is concluded that strengthening communication and health education is essential to make the broad scope of SUS actions visible in everyday life.

Keywords: Unified Health System; Health Surveillance; Health Education; Public Health; Health Policies.

1 Introdução

O Sistema Único de Saúde (SUS) é amplamente reconhecido como uma das maiores conquistas sociais do Brasil, instituído pela Constituição Federal de 1988 como direito de todos e dever do Estado (Brasil 1988). Fundamentado nos princípios da universalidade, integralidade, equidade, descentralização e participação social, o SUS tornou-se referência mundial em políticas públicas de saúde (Brasil, 2022).

No contexto dessa estrutura, a Vigilância em Saúde ocupa papel estratégico, integrando ações de promoção, prevenção e controle de riscos. Atua em áreas como vigilância epidemiológica, sanitária, ambiental e saúde do trabalhador (BRASIL, 2023).

O Sistema Único de Saúde (SUS) não se resume à remoção de dores ou à cura de doenças; sua atuação se estende, com profundidade, à vigilância sanitária e à promoção da saúde coletiva. Uma das faces menos visíveis dessa atuação está na fiscalização de alimentos: um estudo publicado nos Cadernos de Saúde Pública discute os desafios impostos pelo uso de aditivos em alimentos ultraprocessados, apontando a necessidade de mecanismos que “avaliem como o uso […] pode aumentar a quantidade de ultraprocessados no mercado” (Monteiro et al., 2021). Isso demonstra que a vigilância atua não apenas na doença, mas também na prevenção ambiental e nutricional.

Na esfera da água para consumo humano, o SUS opera por meio do VIGIAGUA, com coleta de dados e monitoramento contínuo da potabilidade. Parâmetros como turbidez, contaminação por E. coli e agente desinfetante residual são controlados e divulgados conforme a Portaria GM/MS nº 888/2021. Um artigo da Ciência & Saúde Coletiva destaca a importância da gestão integrada da água para proteção da saúde pública, embora reconheça fragilidades na divulgação dessas informações ao cidadão (Morais et al., 2022).

A atuação ampliada do SUS também se reflete na normatização de ambientes de uso coletivo, como salões de beleza, consultórios odontológicos e estabelecimentos que lidam com alimentos. Embora menos visível, essa fiscalização ocorre por meio de normas como RDCs da ANVISA e exigência de alvarás sanitários municipais. Assim, mesmo serviços de manicure e estética são regulados, prevenindo infecções como hepatites, HIV e outras doenças transmissíveis. O que demonstra como o SUS está presente no cotidiano das pessoas de forma muitas vezes imperceptível.

Contudo, grande parte da população ainda associa o SUS apenas ao atendimento médico e hospitalar, sem reconhecer sua atuação na proteção cotidiana da saúde. Estudos recentes, como o de Morais et al. (2022), demonstram que há falhas na comunicação entre os serviços de vigilância e a sociedade, o que dificulta a apropriação do conhecimento sobre as ações preventivas realizadas pelo sistema. Diante disso, este trabalho buscou evidenciar as dimensões invisíveis da atuação do SUS, promovendo reflexão e sensibilização social por meio de um teste social.

2 Metodologia

Trata-se de um estudo qualitativo, de caráter exploratório, realizado em espaços públicos de Porto Nacional – TO. O objetivo foi identificar o nível de conhecimento da população sobre os serviços do SUS, especialmente aqueles que ultrapassam a assistência médica tradicional. 

Os dados foram coletados por meio de entrevistas presenciais, com perguntas abertas e diretas, gravadas em vídeo após o consentimento dos participantes, conforme o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

A amostra foi não probabilística e intencional, composta por cidadãos que aceitaram participar no momento da abordagem. A análise seguiu o método de análise temática, permitindo identificar percepções e lacunas no conhecimento popular sobre o SUS. 

O material audiovisual foi editado e divulgado em redes sociais, alcançando mais de 1.500 visualizações em sete dias, o que possibilitou observar a reação do público diante das funções menos conhecidas do sistema.

3 Discussões

Os resultados evidenciaram que a maioria dos entrevistados associa o SUS a serviços de atendimento médico, consultas e campanhas de vacinação. Essa visão limitada mostra que as ações de promoção, vigilância e fiscalização realizadas pelo sistema ainda são pouco conhecidas.

Durante as entrevistas, alguns participantes citaram espontaneamente programas de vacinação, o fornecimento de medicamentos e a assistência hospitalar como principais funções do SUS, enquanto poucos mencionaram a fiscalização de alimentos, o controle da qualidade da água ou a regulamentação de estabelecimentos de uso coletivo. Esses achados reforçam a análise de Morais et al. (2022), que aponta fragilidades na comunicação entre os sistemas de vigilância e a população, dificultando a apropriação social dessas políticas.

A Portaria de Consolidação nº 5/2017 e a Portaria GM/MS nº 888/2021 garantem bases legais para as ações de vigilância em saúde e padrões de potabilidade da água, mas sua divulgação é restrita. Essa invisibilidade institucional reforça a necessidade de ampliar a comunicação sobre as dimensões preventivas do SUS (BRASIL, 2021). 

A divulgação do vídeo nas redes sociais demonstrou o potencial das mídias digitais como ferramentas de educação em saúde. Muitos comentários indicaram surpresa e curiosidade sobre as funções do SUS relacionadas à vigilância sanitária, ambiental e regulatória. Conforme o relatório da Organização Mundial da Saúde (WHO, 2022), a comunicação social é essencial para o fortalecimento da confiança pública nos sistemas de saúde. 

A inserção do código QR neste artigo visa ampliar o acesso ao vídeo produzido na pesquisa. O uso desse recurso digital permite que o leitor visualize o material de forma interativa, compreendendo melhor os resultados e fortalecendo o vínculo entre ciência, prática e cidadania. Para assistir ao vídeo, aponte a câmera do celular para o código QR.

4 Considerações Finais

O estudo mostrou que, embora o SUS seja amplamente reconhecido pelos serviços assistenciais, suas funções preventivas e fiscalizatórias ainda são pouco conhecidas pela população. 

O teste social revelou lacunas de informação e reforçou a importância da educação em saúde e da comunicação acessível. O fortalecimento de estratégias de divulgação, especialmente nas redes sociais, pode aproximar o cidadão das políticas públicas e valorizar o SUS como sistema universal e protetivo. Reconhecer o SUS como agente de vigilância e promoção da saúde é essencial para ampliar sua legitimidade e visibilidade social.

A tirinha apresenta dois personagens construindo uma parede de tijolos. Um deles afirma que, “de tijolinho em tijolinho, podemos construir os maiores muros”, ao que o outro responde: “muros não! Podemos construir pontes!”. Essa mensagem simples e simbólica convida à reflexão sobre a importância da cooperação, do diálogo e da construção de vínculos. No contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), a tirinha representa a necessidade de romper barreiras — sejam elas de comunicação, de acesso ou de preconceitos — e de construir pontes que unam profissionais, gestores e comunidade. Assim como os tijolos formam uma estrutura sólida, cada ação integrada de promoção, prevenção e cuidado fortalece o SUS e amplia sua capacidade de acolher, proteger e aproximar pessoas em torno de um objetivo comum: a saúde como direito de todos e dever do Estado.

Fonte: Adaptado de Bocchi Ilustrações.

Referências:  

ANVISA. Manual de Segurança do Paciente: higiene das mãos. 2. ed. Brasília: Agência Nacional de Vigilância Sanitária, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa. Acesso em 02 de outubro 2025. 

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 out 1988. Disponível em: https://www.gov.br/participamaisbrasil/constituicaodarepublicafederativadobrasil. Acesso em: 04 set. 2025.

BRASIL. Portaria de Consolidação nº 5, de 28 de setembro de 2017. Brasília: Ministério da Saúde, 2017. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br. Acesso em: 11 nov. 2025.

BRASIL. Portaria GM/MS nº 888, de 4 de maio de 2021. Brasília: Ministério da Saúde, 2021. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br. Acesso em: 11 nov. 2025.

BRASIL. Boletim de Vigilância em Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2023.

MORAIS, R. F. et al. Qualidade da água para consumo humano e vulnerabilidades na gestão integrada: desafios para a saúde pública. Ciência & Saúde Coletiva, v. 27, n. 6, p. 2109-2118, 2022.

MONTEIRO, C. A. et al. Aditivos alimentares e a produção de alimentos ultraprocessados: perspectivas críticas. Cadernos de Saúde Pública, v. 37, n. 5, p. 113, 2021.

Monteiro, C. A. et al. Aditivos alimentares e os novos desafios da vigilância sanitária. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 37, supl. 1, p. e00038921, 2021. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/csp/2021.v37suppl1/e00038921/pt/. Acesso em: 04 set. 2025.

Moraes, L. R. S. et al. Governança e intersetorialidade na gestão da água para consumo humano no Brasil: um panorama da atuação da vigilância em saúde ambiental. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 27, n. 7, p. 2935-2947, 2022. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/csc/2022.v27n7/29352947/. Acesso em: 04 set. 2025.

MORAIS, R. F. et al. Qualidade da água para consumo humano e vulnerabilidades na gestão integrada: desafios para a saúde pública. Ciência & Saúde Coletiva, v. 27, n. 6, p. 2109-2118, 2022.

WHO – World Health Organization. Global report on infection prevention and control. Geneva: WHO, 2022. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240051164. Acesso em: 25 de setembro de 2025.


1Graduanda do curso de Enfermagem do AFYA Porto Nacional. anav10neres@gmail.com.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/2383344855118720. 

1Graduanda do curso de Enfermagem do AFYA Porto Nacional. enfcassiaazevedo@gmail.com.
Lattes: https://lattes.cnpq.br/6411450446761876.

1Graduanda do curso de Enfermagem do AFYA Porto Nacional. isadoracris884@gmail.com.
Lattes: https://lattes.cnpq.br/6585427587633519.

1Graduanda do curso de Enfermagem do AFYA Porto Nacional. lvkarladanielly@gmail.com.
Lattes: https://lattes.cnpq.br/3379215468794134.

1Graduanda do curso de Enfermagem do AFYA Porto Nacional. mariasolangeoliveiraalves@gmail.com.
Lattes: https://lattes.cnpq.br/0254971904519402.

1Graduanda do curso de Enfermagem do AFYA Porto Nacional. natharaujolima2003@gmail.com.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/2157328575456871.

2Professor doutor do AFYA Porto Nacional. britolillian8@gmail.com. Lattes: http://lattes.cnpq.br/1084136613776588.