O PAPEL DO PROFISSIONAL DE ENFERMAGEM DIANTE DA SÍNDROME DOS OVÁRIOS POLICÍSTICOS: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511092132


Ádella Manykelle Batista da Silva1
Deuziane Bezerra Meireles2
Ellen Sabrina Neves Franco3
Marceli Ferreira de Sousa4
Mirelle Barreto Rabelo5
Pedro Henrique Rodrigues Alencar6


Resumo: A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é uma endocrinopatia complexa e a desordem hormonal mais prevalente em mulheres na idade reprodutiva. Caracterizada por hiperandrogenismo e anovulação crônica, a SOP configura um distúrbio metabólico e psicossocial. Fisiologicamente, acarreta riscos como a resistência à insulina (RI) e obesidade, enquanto a nível psicossocial, a prevalência de ansiedade e depressão é significativamente elevada, impactando a autoimagem e a fertilidade. Neste cenário, o presente trabalho objetivou analisar o papel estratégico do profissional de enfermagem no diagnóstico precoce e no manejo holístico da SOP na Atenção Primária à Saúde (APS). A metodologia utilizada foi a Revisão Integrativa da Literatura de abordagem qualitativa, com foco em artigos publicados de 2020 a 2025. A busca foi conduzida em bases de dados abrangentes, resultando em uma amostra final de sete publicações. Os resultados demonstram que a atuação da Enfermagem é crucial na APS para o rastreio ativo, buscando sinais clínicos como irregularidade menstrual, hirsutismo e marcadores metabólicos, como a Acantose Nigricans. O manejo é ancorado na modificação do estilo de vida (dieta de baixo índice glicêmico e exercício), tida como tratamento de primeira linha por mitigar a RI. A Revisão confirma a essencialidade do cuidado integral ao eixo psicossocial, exigindo do enfermeiro a escuta ativa e a coordenação do encaminhamento para o suporte psicológico. Conclui-se que a aplicação formal da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) é o instrumento que confere método e rigor ao cuidado crônico. A SAE valida o papel preventivo do enfermeiro, sendo essencial para promover o empoderamento do paciente e a redução de complicações a longo prazo, como o desenvolvimento de Diabetes Mellitus Tipo 2 e doenças cardiovasculares.

Palavras-chave: Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP). Enfermagem. SAE.

Abstract: Polycystic Ovary Syndrome (PCOS) is a complex endocrinopathy and the most prevalent hormonal disorder in women of reproductive age. Characterized by hyperandrogenism and chronic anovulation, PCOS establishes both a metabolic and psychosocial disorder. Physiologically, it carries risks such as insulin resistance (IR) and obesity, while on a psychosocial level, the prevalence of anxiety and depression is significantly high, severely impacting self-image and fertility. In this scenario, the present study aimed to analyze the strategic role of the nursing professional in the early diagnosis and holistic management of PCOS in Primary Health Care (PHC). The methodology used was an Integrative Literature Review of a qualitative approach, focusing on articles published from 2020 to 2025. The search was conducted across comprehensive databases, resulting in a final sample of seven publications. The results demonstrate that the role of Nursing in PHC is crucial for active screening, seeking clinical signs such as menstrual irregularity, hirsutism, and metabolic markers like Acanthosis Nigricans. Management is anchored in lifestyle modification (low glycemic index diet and exercise), considered the first-line treatment for mitigating IR. The Review confirms the essentiality of integral care for the psychosocial axis, requiring the nurse to provide active listening and coordinate referrals for psychological support. It is concluded that the formal application of the Systematization of Nursing Care (SNC) is the instrument that confers method and rigor to chronic care. SNC validates the nurse’s preventive role, being essential to promote patient empowerment and the reduction of long-term complications, such as the development of Type 2 Diabetes Mellitus and cardiovascular diseases.

Keywords: Polycystic Ovary Syndrome (PCOS). Nursing. SNC.

1. INTRODUÇÃO

A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é uma endocrinopatia complexa, caracterizada por disfunções hormonais, hiperandrogenismo e morfologia ovariana alterada, que afetam milhões de mulheres globalmente. Em uma perspectiva mundial, a Organização Mundial da Saúde (OMS) a classifica como uma das desordens endócrinas mais comuns na idade reprodutiva, com prevalência estimada entre 5% e 15% das mulheres em idade fértil (OMS, 2021). Abreu et al. (2024) corroboram, indicando que a obesidade, diabetes ou síndrome metabólica são importantes fatores de risco para seu desenvolvimento. 

No Brasil, estudos epidemiológicos apontam uma incidência preocupante, especialmente em regiões urbanas, onde o estilo de vida sedentário e a dieta inadequada podem agravar os sintomas (Santos et al., 2022). Tal complexidade reflete, além de um problema endocrinológico, uma questão de saúde pública com amplas ramificações socioeconômicas.

O conceito da Síndrome dos Ovários Policísticos começou a ser delineado em 1935, quando Irving Freiler Stein e Michael Leventhal observaram a presença de cistos ovarianos “em mulheres inférteis e obesas com sinais de hiperandrogenismo” (Souza, 2022, p. 13). Esse marco inicial impulsionou novos estudos e discussões que, desde então, têm incessantemente ampliado o conhecimento acerca de sua etiopatogenia, fisiopatologia, quadro clínico e terapias. 

Atualmente, o diagnóstico é estabelecido a partir dos renomados Critérios de Rotterdam (2003), que preconizam a presença de pelo menos dois dos seguintes achados: oligo-ovulação e/ou anovulação, sinais clínicos e/ou bioquímicos de hiperandrogenismo, e morfologia de ovários policísticos na ultrassonografia. A síndrome, contudo, manifesta-se de forma heterogênea, com sinais clínicos que incluem irregularidade menstrual, anovulação crônica, acne, hirsutismo e, em muitos casos, obesidade e resistência à insulina.

Além dos critérios diagnósticos, a compreensão da SOP exige uma abordagem holística, conforme enfatizado pela OMS (2021). Isso porque a síndrome está associada a uma série de agravantes físicos e psicossociais que impactam profundamente a vida da mulher. Fisiologicamente, a Síndrome aumenta a tendência a desenvolver pressão arterial elevada, dificuldades no parto e gestação, distúrbios do sono, sobrepeso ou obesidade, dislipidemia e, notavelmente, infertilidade, uma das principais razões para a busca por auxílio médico.

 A dimensão psicossocial é igualmente crítica; os sintomas visíveis, como hirsutismo e acne, juntamente com o ganho de peso e as disfunções hormonais, podem desencadear ou agravar distúrbios de humor, como depressão e ansiedade, e comportamentos obsessivo-compulsivos. Essa situação resulta em uma redução significativa da qualidade de vida (Almeida, 2023) e impacta diretamente a autoimagem e a autoestima da paciente. Essa complexidade ressalta que a alta prevalência e a natureza crônica da síndrome exigem atenção contínua e um manejo multidisciplinar que supere o tratamento de sintomas isolados.

Neste cenário de complexidade e impacto multifacetado da SOP, a atuação do enfermeiro, especialmente na Atenção Primária à Saúde, revela-se de fundamental importância. A descoberta precoce da SOP contribui diretamente para a adoção de medidas que amenizam os sinais clínicos e aumentam a qualidade de vida da paciente, um aspecto ainda mais evidenciado pela compreensão de que as mulheres “geralmente são responsáveis não apenas por sua saúde, mas pela de outras pessoas: seus filhos e sua família” (Ricci, 2023, p. 04). 

Pode-se afirmar que o enfermeiro tem um papel essencial neste processo, contribuindo para a orientação das mulheres afetadas, atuando no aconselhamento sobre os tratamentos disponíveis, tirando dúvidas e dando o suporte necessário para a paciente e para todas as pessoas envolvidas na promoção de seus cuidados. Além disso, a enfermagem desempenha um papel vital no monitoramento contínuo da condição, na educação em saúde e no provimento de apoio emocional, elementos cruciais para o enfrentamento de uma doença crônica. 

O planejamento e a aplicação da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) – embasada nos diagnósticos da NANDA, intervenções da NIC e resultados da NOC – permitem uma abordagem estruturada e individualizada, que considera as necessidades específicas de cada paciente. Essa metodologia abrange desde o controle dos sintomas até o suporte para mudanças significativas no estilo de vida, contribuindo para a redução de complicações a longo prazo e para a melhoria substancial da qualidade de vida das mulheres com SOP.

Apesar dos avanços na área, a SOP continua sendo subdiagnosticada e o papel do enfermeiro no manejo da doença ainda precisa ser mais explorado na literatura. Assim, a presente pesquisa justifica-se pela necessidade de aprofundar o conhecimento sobre a importância do profissional de enfermagem no cuidado integral de mulheres com Síndrome dos Ovários Policísticos. Ao analisar a atuação do enfermeiro desde a identificação até o tratamento e o acompanhamento, busca-se contribuir para a melhoria da prática clínica e para a valorização desse profissional na equipe multidisciplinar de saúde.

Desse modo, o estudo almeja analisar o papel do profissional de enfermagem no diagnóstico e manejo da Síndrome dos Ovários Policísticos. Além de levantar os principais sinais e sintomas da SOP descrevendo a fisiopatologia da doença identificando as principais atuações do enfermeiro na assistência à mulher com SOP, baseadas nos modelos NANDA, NIC e NOC, ressaltando a importância do enfermeiro na promoção da saúde e na melhoria da qualidade de vida das pacientes. Diante da relevância clínica e psicossocial da SOP, torna-se essencial ampliar os estudos sobre o tema, a fim de fortalecer a atuação da enfermagem com base em evidências científicas, promover intervenções mais eficazes e garantir um cuidado integral, acolhedor e humanizado às mulheres afetadas por essa condição.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

A Síndrome do Ovário Policístico (SOP) consiste em um distúrbio endócrino que afeta de 3 a 15% das mulheres durante a menacme, ou seja, seu período de fertilidade, “que inicia desde a primeira menstruação até a última, sendo a menopausa” (Mendonça et al., 2023, p. 142). Diante disso, ela é “considerada a principal causa de infertilidade e de anovulação hiperandrogênica crônica” (Abreu et al. 2024, p. 01). Trata-se, portanto:

[…] de uma condição heterogênea que envolve a presença de múltiplos folículos inativos dentro do ovário que interferem na função ovariana. Na SOP, os folículos têm uma aparência semelhante a um cisto. Com o funcionamento normal, o óvulo amadurece e o folículo o libera, mas na SOP os óvulos nunca amadurecem e a ovulação não ocorre (Ricci, 2023, p. 242).

Em 1990, a primeira conferência internacional sobre a Síndrome dos Ovários Policísticos, organizada pelo Instituto Nacional de Saúde e Desenvolvimento Humano (NIH/NICHD), estabeleceu os primeiros critérios diagnósticos para a doença. Esses critérios foram um passo importante e foram consolidados, e posteriormente revisados, pelo Consenso de Rotterdam, publicado oficialmente em 2004 pela Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) e Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), e revisado em 2012 (Souza, 2022).

Esses critérios foram um primeiro passo importante para a padronização do diagnóstico e levaram a uma série de ensaios clínicos multicêntricos randomizados de referência na SOP. São eles: Oligo ou anovulação, ou seja, menstruações irregulares ou ausência de ovulação; sinais clínicos e/ou bioquímicos de hiperandrogenismo, identificados por evidências clínicas como o excesso de pelos ou por exames laboratoriais; e identificação de 12 ou mais folículos com 2 a 9 mm de diâmetro, ou volume ovariano maior que 10 cm³. Esse último é avaliado em Ultrassom Pélvica ou Transvaginal (Rottedam, 2003).

Para o diagnóstico da SOP, a paciente deve apresentar pelo menos dois dos três critérios, após a exclusão de outras condições que possam causar sintomas semelhantes. A principal mudança em relação aos critérios anteriores do NIH é a adoção da ultrassonografia como um critério obrigatório. Essa inclusão ajuda a diagnosticar mulheres que apresentam os sinais físicos e têm ovários de aparência policística, mas cujos níveis hormonais podem não estar elevados, além daquelas que têm os ciclos menstruais relativamente regulares, mas apresentam hiperandrogenismo e ovários de aparência policística. Além disso, o atual modelo permite um diagnóstico mais preciso e precoce, facilitando o início do tratamento adequado para cada paciente (Cremonez; Siqueira, 2022).

A fisiopatologia da Síndrome é complexa e ainda não totalmente compreendida. Sabe-se, porém, que ela envolve uma interação multifatorial entre fatores genéticos, endócrinos e ambientais. O principal problema é uma disfunção no eixo hormonal, que leva à produção excessiva de andrógenos e a uma resistência do corpo à insulina, criando um ciclo vicioso:

A etiologia da SOP é pouco compreendida, embora a SOP seja considerada uma característica genética complexa poligênica. Estudos familiares encontraram uma alta taxa de SOP nas mães e irmãs de mulheres diagnosticadas com SOP. Um grande estudo com gêmeos monozigóticos e dizigóticos identificou a herdabilidade da SOP como cerca de 70%. Além disso, estudos de associação em todo o genoma relataram vários loci de suscetibilidade associados a um risco aumentado de desenvolver SOP. Além da genética, fatores ambientais, como a exposição pré-natal a andrógenos, também podem desempenhar um papel na etiologia da SOP (Cremonez; Siqueira, 2022, p. 02).

O hiperandrogenismo é a característica central da endocrinologia e o ponto de partida para a maioria dos seus sintomas. Esse aumento na produção de andrógenos ocorre principalmente nos ovários, mas também nas glândulas suprarrenais. Os mecanismos incluem a disruptura do Eixo Hipotálamo-Hipófise-Ovários: em mulheres com SOP, há uma alteração na secreção de hormônio luteinizante (LH) e hormônio folículo-estimulante (FSH). O hipotálamo libera o GnRH (hormônio liberador de gonadotropina) em pulsos mais rápidos, que estimulam a hipófise a produzir mais LH do que FSH (Nascimento et al., 2024).

Mais ainda, Cremonez e Siqueira (2022) apontam que o excesso de LH age diretamente sobre as células da teca nos ovários, incentivando-as a produzir mais andrógenos. Normalmente, o FSH ajudaria a converter esses andrógenos em estrogênios, mas como o nível de FSH é relativamente baixo, essa conversão não acontece de forma eficiente. O resultado é um acúmulo de andrógenos no ovário e na circulação sanguínea. 

A resistência à insulina é outro pilar fundamental da SOP. A maioria das mulheres com a síndrome, mesmo as que não têm excesso de peso, apresenta algum grau de resistência à insulina (Nascimento et al., 2024; Pena et al., 2022). Isso quer dizer que as células do corpo não respondem de forma eficiente à insulina, o hormônio que ajuda a glicose a entrar nas células. Em decorrência disso, o pâncreas produz ainda mais insulina (hiperinsulinemia) para compensar. O excesso de insulina no sangue age sinergicamente com o LH, estimulando ainda mais as células da teca a produzirem andrógenos e reduzindo a produção, pelo fígado, da globulina ligadora de hormônios sexuais (SHBG). Essa globulina atua como uma “esponja”, ligando-se aos andrógenos na circulação. Com menos SHBG, a quantidade de andrógenos “livres” e biologicamente ativos aumenta, exacerbando os sintomas de hiperandrogenismo (hirsutismo, acne).

A interação entre o hiperandrogenismo e a hiperinsulinemia resulta em uma disfunção na maturação dos folículos ovarianos. Em um ciclo menstrual saudável, um folículo dominante cresce e libera um óvulo. Na SOP, o excesso de andrógenos inibe o desenvolvimento dos folículos. Eles crescem até um certo ponto e depois param, acumulando-se logo abaixo da superfície do ovário, dando a ele o aspecto “policístico” visto no ultrassom (Mendonça et al., 2023). Como o folículo dominante não se forma e a ovulação não ocorre, a mulher tem ciclos menstruais irregulares ou ausentes (oligo/anovulação), o que está ligado à infertilidade.

Assim, esses três mecanismos se interconectam, formando um ciclo: 1. Resistência à insulina → Hiperinsulinemia → Aumento da produção de andrógenos nos ovários e diminuição da SHBG; 2. Aumento dos andrógenos → Inibe o desenvolvimento dos folículos → Acúmulo de folículos imaturos e falha na ovulação; 3. Falha na ovulação → Ciclos irregulares/anovulação → Exacerbação do quadro hormonal.

A morfologia ovariana é um dos pilares diagnósticos da SOP, sendo avaliada por ultrassom pélvico ou transvaginal. Nesses exames, os ovários policísticos são definidos pela presença de 12 ou mais folículos medindo entre 2 e 9 mm de diâmetro em um ou ambos os ovários, ou por um volume ovariano maior que 10 cm³ (Mendonça et al., 2023). É importante notar que essas estruturas não são cistos grandes, mas sim folículos imaturos que não se desenvolveram completamente.

A formação desses folículos se deve à interação do hiperandrogenismo com a resistência à insulina, que resulta em uma disfunção na maturação folicular (Nascimento et al., 2024; Pena et al., 2022). O excesso de andrógenos inibe o desenvolvimento final dos folículos, fazendo com que eles cresçam apenas até um certo ponto e depois parem, acumulando-se logo abaixo da superfície do ovário, dando a ele o aspecto característico que é observado no ultrassom (Pena et al., 2022). Além disso, a anovulação, ou seja, a ausência de ovulação, é a principal consequência desse acúmulo de folículos imaturos.

A etiologia da Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é multifatorial e ainda não é totalmente compreendida. Sabe-se, no entanto, que a doença tem uma forte base genética, sendo considerada uma característica complexa e poligênica. Dabravolski SA et  al. descrevem que, “a SOP se desenvolve como uma doença sistêmica ligada a alterações genéticas e epigenéticas que variam entre diferentes populações e linhagens familiares” (2021, p. 01). Estudos familiares, por exemplo, demonstram uma alta taxa de SOP em mães e irmãs de mulheres diagnosticadas.

Além da predisposição genética, fatores ambientais também desempenham um papel crucial no desenvolvimento e na manifestação da SOP, como a exposição pré-natal a andrógenos. A causa da síndrome pode, ainda, estar relacionada a fatores embrionários. A mudança no estilo de vida, que inclui uma boa alimentação e atividade física, também é fundamental no manejo da síndrome e pode impactar diretamente a sua manifestação.

Entre os agravantes está o fato de que a prevalência da SOP aumenta para mais de 25% em mulheres gravemente obesas. Além disso, a condição é a principal causa de infertilidade relacionada à anovulação, afetando de 2 a 26% das mulheres entre 18 e 44 anos. A SOP permanece subestimada, e um estudo estima que 50 a 75% das mulheres com a síndrome não sabem que a têm (Souza, 2022). 

2.1 Sinais e sintomas clínicos da SOP e seu impacto na qualidade de vida

A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é caracterizada por um espectro heterogêneo de sinais e sintomas que interagem, afetando o sistema reprodutor, o metabolismo e o bem-estar psicossocial da mulher O diagnóstico é de exclusão, sendo confirmado pela presença de, no mínimo, dois dos três critérios do Consenso de Rotterdam (disfunção ovulatória, hiperandrogenismo e morfologia ovariana policística), após a exclusão de outras endocrinopatias (Cavalcante et al., 2021). 

Os distúrbios reprodutivos são centrais na SOP, resultando primariamente da anovulação crônica. A irregularidade menstrual, por exemplo, é uma característica essencial (Mendonça et al., 2023). A apresentação clínica mais comum é a oligomenorreia, definida por ciclos menstruais que ocorrem em intervalos superiores a 35 dias ou pela ocorrência de menos de nove ciclos por ano. Em casos mais severos, pode ocorrer a amenorreia, caracterizada pela ausência de menstruação por três meses ou mais (Souza, 2022).

A irregularidade menstrual é causada pela anovulação crônica, um estado no qual o folículo ovariano não amadurece, impedindo a liberação do óvulo. Consequentemente, a SOP é reconhecida como a principal causa de infertilidade anovulatória em mulheres em idade reprodutiva, devido à falha na ovulação que impede a concepção (Souza, 2022).

Na gestação, a paciente acometida pela SOP está mais propensa a desenvolver diabetes gestacional, pré-eclâmpsia, parto prematuro e hipertensão arterial gestacional, o que pode refletir em complicações neonatais. Psicologicamente, a Síndrome dos Ovários Policísticos está associada ao aumento do risco de depressão, frustração, ansiedade, transtornos alimentares, transtornos bipolares e obsessivos-compulsivos. A longo prazo, essas mulheres têm mais chance de serem acometidas por doenças cardiovasculares, câncer (de mama, ovário e endométrio), dislipidemia, entre outras (Gilbert et al., 2018).

Já o hiperandrogenismo, excesso de andrógenos como a testosterona, é a principal característica endócrina da SOP e se manifesta de forma cutânea. O hirsutismo é o sinal clínico mais prevalente, afetando entre 60% e 70% das pacientes (Souza, 2022). Ele consiste no crescimento excessivo de pelos terminais, escuros e ásperos, em áreas tipicamente masculinas (andrógeno-sensíveis), como face (buço, mento), tórax e abdômen (Catrinque, 2019).

É importante citar o mecanismo, que resulta do aumento da testosterona livre circulante e da amplificação da atividade da enzima 5α-redutase nos folículos pilosos, convertendo a testosterona em di-hidrotestosterona (DHT), um andrógeno mais potente (Souza, 2022). A gravidade é avaliada pela Escala de Ferriman-Gallwey (Catrinque, 2019). Além disso, o excesso de andrógenos estimulam as glândulas sebáceas, aumentando a produção de sebo (seborreia) e os quadros de acne (Souza, 2022). A acne na SOP tende a ser inflamatória e persistente, afetando comumente a região da mandíbula, pescoço e parte superior das costas.

Outro aspecto que abala as mulheres acometidas pela Síndrome dos Ovários Policísticos é a alopecia Androgenética, a queda de cabelo que segue um padrão masculino (afinamento do cabelo na linha frontal e superior do couro cabeludo), também induzida pela ação dos andrógenos nos folículos capilares do couro cabeludo (Mendonça    2023).

Os distúrbios metabólicos na SOP resultam, em grande parte, da Resistência à Insulina (RI), que aumenta o risco de comorbidades em longo prazo (Souza, 2022; Cremonez; Siqueira, 2022). A resistência dos tecidos à ação da insulina leva à hiperinsulinemia compensatória. O excesso de insulina, por sua vez, atua nos ovários e adrenal, estimulando a produção e a secreção de andrógenos, o que exacerba o quadro:

O nível glicêmico da mulher com SOP, necessita de uma avaliação desde a primeira consulta e sendo avaliada com exames de rotinas. Pois a prevalência de Resistência Insulínica (RI) em mulheres com SOP varia de 44% a 70%. Onde existe uma maior associação entre os níveis séricos de androgênios e a RI, sendo em maior quantidade a concentração androgênica na circulação, sendo maior a possibilidade de desenvolvimento de RI, intolerância à glicose e a diabetes melitos tipo 2. Portanto, a RI caracteriza-se pela diminuição da absorção dos tecidos à ação da insulina, que gera implicações hepáticas e metabólicas (Souza, 2022, p. 22).

Souza (2022) reforça que a presença de Acantose Nigricans (AN) – manchas aveludadas e hiperpigmentadas em dobras (pescoço, axilas) – é um marcador cutâneo da hiperinsulinemia. 

A obesidade também acomete uma parcela significativa das pacientes (50% a 70%), com destaque para a obesidade central (ou androide), que é a mais relevante clinicamente, pois a gordura visceral aumenta a inflamação e a resistência à insulina (Mendonça et al., 2023). Soma-se a isso o fato de que a persistência da RI e da hiperglicemia resultante aumenta o risco de desenvolvimento de Diabetes Melito Tipo 2. Além disso, a SOP está associada à dislipidemia, caracterizada por alterações nos níveis de lipídios, como o aumento do LDL-colesterol e dos triglicerídeos e a redução do HDL-colesterol (Cremonez; Siqueira, 2022).

Frequentemente negligenciado, o impacto da Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) na Qualidade de Vida (QdV) é um aspecto crucial da doença. Assim, ele demanda atenção integral. Os sintomas físicos, visíveis e metabólicos interagem, afetando profundamente a saúde mental e a vida social das pacientes. Afinal, eles impõem um custo diário ao bem-estar e à funcionalidade das mulheres. 

A infertilidade decorrente da anovulação crônica é um dos eventos mais traumáticos. Ela é frequentemente associada a sentimentos de tristeza profunda, falha e pressão social para conceber, o que afeta diretamente o relacionamento conjugal e a vida sexual. A atividade sexual pode se tornar mecanizada e focada apenas na reprodução, diminuindo o prazer e o desejo (Catrinque, 2019; Cavalcante et al., 2021).

Sinais e sintomas já citados como o hirsutismo e a acne podem levar ao desconforto físico constante, exigindo tempo e esforço significativos em rituais de depilação e cuidados com a pele. Assim como a obesidade (especialmente a central) e a fadiga relacionada a distúrbios metabólicos e sono podem limitar a capacidade funcional, as atividades diárias e a participação em exercícios, agravando o ciclo da doença e impactando a saúde (Catrinque, 2019; Campos. Leão & Souza, 2022).

Como resultado, o comprometimento psicossocial na Síndrome é significativo, sendo os sintomas cutâneos e o ganho de peso os principais catalisadores para a deterioração da autoimagem e da saúde mental. Podem gerar, com isso, depressão e ansiedade, tendo em vista que as mulheres com SOP apresentam uma prevalência significativamente maior de transtornos de saúde mental (Mendonça et al., 2023). Estudos de revisão sistemática indicam que a prevalência de ansiedade e depressão pode variar consideravelmente, afetando até 64% das pacientes com SOP (Tavares et al., 2019). Esses transtornos estão fortemente ligados às consequências psicossociais do hiperandrogenismo e da infertilidade (Mendonça et al., 2023).

A perda de feminilidade ocasionada por alguns sintomas reflete em baixa autoestima situacional (Cavalcante et al., 2021). Este sentimento de estar “diferente” ou de ter uma aparência que não corresponde ao padrão feminino ideal imposto socialmente é uma fonte contínua de angústia e o sofrimento com a autoimagem e o medo do julgamento alheio podem levar ao isolamento social, à evitação de situações que exponham os sintomas (como ir à piscina ou usar roupas específicas) e, em casos mais graves, a dificuldades nos relacionamentos sociais e profissionais (Catrinque, 2019). O impacto na função social é um dos domínios da qualidade de vida mais afetados, conforme evidenciado por estudos quali-quantitativos (Tomaz Moreira et al., 2010).

2.2 Atuação do enfermeiro no diagnóstico e manejo da SOP na Atenção Primária à Saúde

O enfermeiro atua na Atenção Primária à Saúde (APS) como a principal porta de entrada e elo de acesso para as mulheres no sistema de saúde, o que lhe confere um papel estratégico no cuidado integral à mulher com suspeita ou diagnóstico de SOP (Souza, 2022; Mendonça, et al., 2023). A atuação deste profissional é essencial no rastreio, no manejo inicial das comorbidades e na promoção das intervenções não farmacológicas, que são a base do tratamento (Abreu et al., 2024).

A competência do enfermeiro se manifesta na capacidade de realizar o acolhimento e a escuta qualificada, identificando queixas que muitas vezes são normalizadas ou tratadas de forma isolada, mas que configuram o quadro da Síndrome dos Ovários Policísticos (Mendonça et al., 2023). Sendo vital para a descoberta precoce da SOP, o profissional de enfermagem contribui diretamente para a adoção de medidas que amenizam os sinais clínicos e aumentam a qualidade de vida do paciente. O rastreio deve ser ativamente conduzido durante as consultas de rotina, como as de ginecologia, pré-natal ou planejamento familiar, por meio de uma anamnese detalhada e um exame físico direcionado.

Diante disso, a coleta de dados deve ser minuciosa, com foco em aspectos reprodutivos e nas manifestações cutâneas do hiperandrogenismo. O enfermeiro deve investigar ativamente a irregularidade menstrual (oligomenorreia ou amenorreia), que é uma das características centrais da SOP (Cremonez & Siqueira, 2021). O rastreio do hirsutismo (crescimento excessivo de pelos em áreas andrógeno-sensíveis), acne e alopecia é realizado na consulta de enfermagem como parte da avaliação do hiperandrogenismo clínico (Souza, 2022).

Em consonância, o exame físico é crucial para identificar comorbidades associadas. Como já pontuado, a obesidade é um fator que agrava a resistência à insulina (RI) e o hiperandrogenismo (Campos, Leão & Souza, 2021). O enfermeiro deve realizar a mensuração do Índice de Massa Corporal (IMC) e buscar ativamente sinais de hiperinsulinemia, como a presença de Acantose Nigricans (AN) (Mendonça et al., 2023). O entendimento da SOP como um distúrbio endócrino e metabólico sustenta a capacidade do profissional de solicitar exames de rotina, como glicemia e perfil lipídico, conforme protocolos da APS, para rastrear a RI, o Diabetes Melito Tipo 2 (DM2) e a dislipidemia (Abreu et al., 2024).

Embora o diagnóstico final seja de exclusão e requeira a avaliação médica para confirmação dos critérios de Rotterdam e descarte de outras endocrinopatias, o enfermeiro tem a responsabilidade de realizar o encaminhamento oportuno e fundamentado (Mendonça et al., 2023). Quanto às intervenções não farmacológicas e educação em saúde, aspectos importantes no tratamento da Síndrome, a modificação do estilo de vida é considerada a primeira linha e a base do tratamento para a SOP (Teede et al., 2018; Zanin et al., 2023). Neste contexto, o enfermeiro é o principal agente promotor da educação em saúde e das intervenções não farmacológicas (Silva & Neto, 2021).

O foco é no combate à obesidade e à RI. A perda de 5% a 10% do peso corporal é reconhecida por melhorar a regularidade menstrual, o hirsutismo e o metabolismo (Campos, Leão & Souza, 2021). O enfermeiro atua como conselheiro, orientando sobre questões como a importância de um planejamento alimentar focado na redução de carboidratos de alto índice glicêmico para controlar a hiperinsulinemia e favorecer a perda de peso (Santos et al., 2023). Além disso, a prática regular de exercícios físicos, tanto aeróbicos quanto de resistência, é vital para aumentar a sensibilidade à insulina e mitigar os sintomas da SOP (Silva & Neto, 2021).

Outro ponto a ser considerado é o suporte psicossocial. Dada a alta prevalência de ansiedade e depressão em mulheres com SOP (Mendonça et al., 2023), devido ao impacto do hiperandrogenismo e da infertilidade na autoimagem e qualidade de vida, o enfermeiro deve prover escuta ativa e apoio emocional. É função dele avaliar o estado de saúde mental da paciente, fornecendo suporte e, se necessário, coordenando o encaminhamento para a equipe de saúde mental, garantindo a integralidade do cuidado (Abreu et al., 2024).

Além das intervenções diretas na saúde da mulher, o enfermeiro atua na esfera familiar. As mulheres geralmente são responsáveis não apenas por sua saúde, mas pela de outras pessoas: seus filhos e sua família. Dessa forma, o profissional da APS tem a responsabilidade de envolver o núcleo familiar no processo de cuidado, fornecendo informações sobre a SOP e estimulando o apoio às mudanças de estilo de vida, garantindo o suporte e o acolhimento necessários (Ricci, 2023).

O papel do enfermeiro se estende ao monitoramento longitudinal e contínuo da SOP, o que é vital para gerenciar a natureza crônica e os riscos de longo prazo da síndrome. Isso inclui o acompanhamento da evolução dos sintomas (como a regularidade menstrual e a remissão do hirsutismo e acne), a vigilância da pressão arterial e do peso corporal. A aplicação da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), embasada nos diagnósticos da NANDA, intervenções da NIC e resultados da NOC, permite uma abordagem estruturada para este acompanhamento (Souza, 2022; Abreu et al., 2024).

Dada a complexidade da Síndrome, a enfermagem na Atenção Primária à Saúde atua como coordenadora do cuidado, sendo responsável pelo encaminhamento oportuno para a equipe multidisciplinar, conforme a necessidade individual de cada paciente. Além do ginecologista ou endocrinologista para o manejo medicamentoso e a confirmação diagnóstica, são cruciais os encaminhamentos para o nutricionista (para planos alimentares que visem a resistência à insulina) e para o psicólogo ou psiquiatra (para a abordagem dos distúrbios de humor e do impacto na autoimagem).

Ao prover esse cuidado integral, acolhedor e humanizado, o enfermeiro promove o empoderamento da paciente, ajudando-a a desmistificar a condição e a sentir-se mais no controle da sua saúde, o que é fundamental para lidar com os sentimentos de baixa autoestima e a perda de feminilidade causados pelos sintomas visíveis.

2.3 Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) em mulheres com SOP: NANDA, NIC, NOC

A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) constitui o arcabouço metodológico fundamental que organiza e valida o cuidado prestado pelo enfermeiro. É um processo deliberado e sistemático que orienta a prática, garantindo uma assistência qualificada, individualizada e sistematizada. Sua aplicação, embasada em terminologias padronizadas como a NANDA-I, NIC e NOC, permite documentar as necessidades de saúde da mulher com Síndrome do Ovário Policístico e avaliar os resultados alcançados (Souza, 2022).

A etapa de Diagnóstico de Enfermagem, utilizando a taxonomia NANDA-I, permite ao enfermeiro identificar as respostas humanas da paciente à SOP em diversas dimensões. Dada a natureza complexa e crônica da Síndrome, os diagnósticos mais comuns, frequentemente abordados na literatura, refletem os seus eixos sintomáticos e metabólicos, como pode ser observado na Tabela 1:

Tabela 1. Diagnósticos de Enfermagem (NANDA-I) e sua correlação com a Síndrome do Ovário Policístico.

Diagnóstico de Enfermagem (NANDA)Código (NANDA-I, 2018-2020)Relação com a SOPAutores
Distúrbio na imagem corporal00118Relacionado às manifestações visíveis do hiperandrogenismo, como hirsutismo e acne, além do ganho de peso, afetando a autoestima e a identidade feminina.Mendonça et al., 2023; Cavalcante et al., 2021; Souza, 2022
Risco de glicemia instável00179Decorrente da RI e da hiperinsulinemia, que são centrais na fisiopatologia da SOP. O diagnóstico é crucial, pois a RI é altamente prevalente, variando de 44% a 70%.Cremonez e Siqueira, 2022; SOUZA, 2022; Nascimento et al., 2024
Ansiedade00146Alta prevalência devido aos sintomas estéticos, infertilidade e pressão social, afetando o bem-estar mental das pacientes.Mendonça et al., 2023; Cremonez e Siqueira, 2022
Sobrepeso00233Associado à dificuldade de perda de peso e à RI, sendo um fator que agrava as alterações metabólicas e reprodutivas.Silva et al., 2021; Campos, Leão & Souza., 2021
Estilo de vida sedentário00168Um fator de risco para o desenvolvimento e o agravamento da SOP e de suas comorbidades metabólicas.Silva, Neto & Serra, 2021; Campos, Leão & Souza, 2021
Padrão de sexualidade ineficaz00065Decorrente da disfunção sexual e infertilidade, além das alterações físicas que diminuem a autoestima.Cavalcante et al., 2021; Mendonça et al., 2023
Fadiga00093Sensação opressiva de exaustão e capacidade diminuída, que pode estar associada a distúrbios metabólicos e do sono.Mendonça et al., 2023
Distúrbio no padrão de sono00198Despertares ou dificuldade em manter o sono, sendo um sintoma frequente nas pacientes com SOP.Silva et al., 2021
Fonte: Elaboração própria com base nos dados dos autores referenciados.

 Com base nos diagnósticos da NANDA, o enfermeiro seleciona as Intervenções de Enfermagem (NIC), que visam a educação e o apoio psicossocial (Abreu et al., 2024):

Tabela 2. Relação de Diagnósticos de Enfermagem (NANDA-I) e Intervenções (NIC) com as condições da Síndrome do Ovário Policístico (SOP)

Diagnóstico de Enfermagem (NANDA)Intervenções de Enfermagem (NIC)
Distúrbio da imagem corporalApoio à imagem corporal: Proporcionar uma atmosfera de aceitação sobre as mudanças. Aconselhamento: Orientar-se a procurar um especialista em tratamento estético e dermatológico (Mendonça et al., 2023).
Risco de glicemia instávelManejo da hiperglicemia: Monitoramento da glicemia basal. Ensino: dieta prescrita: Orientação sobre dieta de baixo índice glicêmico e a importância do exercício físico regular, que é a linha de frente do tratamento (Silva, Neto & Serra, 2021; Cremonez e Siqueira, 2022).
Ansiedade / Risco de depressãoRedução da ansiedade: Prover escuta ativa e apoio emocional, elementos cruciais para o enfrentamento da doença. Terapia de relaxamento: Ensino de métodos para manejo do estresse (Abreu et al., 2024; Mendonça et al., 2023).
Padrão sexual ineficazAconselhamento sexual / Planejamento Reprodutivo: Oferecer suporte para abordar as questões de infertilidade, que é uma das principais razões para a busca por auxílio (Silva et al., 2021).
Fonte: Elaboração própria com base na análise dos dados dos autores referenciados.

A avaliação da assistência é realizada através dos Resultados de Enfermagem (NOC) (Moorhead et al., 2016), que definem os alvos do cuidado e permitem medir a eficácia das intervenções (Abreu et al., 2024). O uso do NOC na SOP é vital porque exige um cuidado a longo prazo e focado em desfechos complexos (Silva et al., 2021). Os resultados esperados transcendem a remissão de sintomas imediatos, focando na melhoria da qualidade de vida e na prevenção de comorbidades (Catrinque, 2019; Cremonez e Siqueira, 2022). 

O NOC permite ao enfermeiro avaliar, de forma mensurável, se as intervenções (NIC) promoveram o controle metabólico; a adaptação psicossocial; e o conhecimento e autocuidado. Em essência, a etapa NOC é o termômetro da SAE, comprovando a eficácia do plano de cuidados para o alcance da saúde integral da mulher com SOP (Abreu et al., 2024).

Tabela 3. Relação de Intervenções (NIC) e Resultados Esperados (NOC) na Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) à mulher com SOP

Intervenção de Enfermagem (NIC)Resultados esperados
Apoio à imagem corporalImagem Corporal (melhorada): Paciente relata aceitação da sua imagem corporal. Autoestima: Fortalecimento da autoestima.
Manejo da hiperglicemiaControle da glicemia: Manutenção dos níveis glicêmicos /e do perfil lipídico dentro da faixa alvo, prevenindo o DM2. Conhecimento: Processo da Doença: Paciente demonstra entendimento claro sobre a SOP e o regime de tratamento.
Redução da ansiedadeControle da ansiedade: Utilização eficaz de mecanismos de enfrentamento e redução do nível de ansiedade (Mendonça et al., 2023).
Ensino: estilo de vidaAdesão ao regime de tratamento: Paciente demonstra adesão às mudanças no estilo de vida, o que contribui para a melhoria da qualidade de vida.
Fonte: Elaboração própria com base na análise dos dados dos autores referenciados.

A aplicação da Sistematização de Assistência de Enfermagem, do diagnóstico à avaliação, transforma o cuidado à mulher com SOP em um processo estruturado, individualizado e humanizado. Essa metodologia garante que o cuidado seja contínuo e planejado, abordando a integralidade da condição, desde os riscos metabólicos até os impactos psicossociais. A aplicação da SAE contribui estrategicamente em dois eixos cruciais para a saúde crônica da mulher com SOP.

Ao envolver a paciente em cada etapa do processo e promover o autocuidado, a SAE contribui para o empoderamento da mulher, ajudando-a a se sentir mais ativa e no controle da sua condição. A metodologia NOC, ao focar em resultados como controle metabólico e adesão ao estilo de vida, reforça o papel preventivo da Enfermagem na redução de complicações a longo prazo, como o desenvolvimento de Diabetes Mellitus Tipo 2 e doenças cardiovasculares.

3. METODOLOGIA

O artigo resulta de uma pesquisa retrospectiva e descritiva, “que tem como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno ou o estabelecimento de relações entre variáveis” (Gil, 2012, p. 28). Propõe, assim, uma revisão integrativa da literatura de abordagem qualitativa, a ser realizada entre agosto e outubro de 2025. Objetiva, assim, analisar o papel do profissional de enfermagem diante da SOP.  

A coleta de dados foi realizada entre os meses de agosto e outubro de 2025, tendo como base a consulta a artigos científicos disponíveis nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), PubMed, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Scopus e CAPES Periódicos. A busca foi refinada por meio dos descritores: Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) AND Enfermagem, ajustados com operadores booleanos.

Na busca inicial, a aplicação dos descritores resultou em 370 artigos (conforme análise preliminar). O primeiro momento da pesquisa consistiu na triagem inicial do material, com uma leitura analítica dos resumos dos artigos identificados. A busca e a triagem foram rigorosamente conduzidas para garantir a qualidade da evidência.

Foram incluídas publicações em português, com recorte temporal de 2020 a 2025, que abordam diretamente a atuação do enfermeiro em casos de SOP. Foram excluídos trabalhos anteriores a 2020, títulos em desacordo com a temática e artigos cujo acesso integral não estivesse disponível. Ao total, foram definidos sete artigos, quantidade considerada suficiente para aprofundar a análise qualitativa e alcançar a saturação teórica em relação ao tema. O tratamento e a análise dos dados foram feitos por síntese e análise temática das evidências, procedendo na discussão e resultado. A amostra consiste, portanto, em uma seleção realizada após a leitura integral dos textos, assegurando sua relevância e qualidade metodológica.

Por se tratar de uma revisão integrativa da literatura, que utiliza dados de domínio público e secundários, o presente estudo é dispensado de apreciação pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). Contudo, serão respeitados os direitos autorais e as referências conforme a legislação vigente, seguindo a Associação Brasileira de Normas e Técnicas (ABNT).

Por meio da abordagem, espera-se aprimorar e consolidar conhecimentos atualizados sobre a atuação do enfermeiro nos casos de Síndrome dos Ovários Policísticos, com ênfase nas lacunas que precisam ser reparadas, bem como nos avanços vivenciados na área.

4. RESULTADOS

Os achados da Revisão Integrativa da Literatura (RIL), organizados de modo a evidenciar o processo de seleção das publicações e os principais achados que fundamentam a discussão, estão aqui apresentados de forma objetiva e concisa. O levantamento bibliográfico foi conduzido conforme o percurso metodológico descrito resultando na identificação de um total de 370 artigos nas bases de dados selecionadas. O processo de filtragem e seleção rigorosa, que garantiu a elegibilidade da amostra final, está detalhado no Fluxograma 1.

Fluxograma 1. Processo de seleção de estudos utilizados na pesquisa

Fonte: Elaboração própria com base na pesquisa realizada.

Conforme observado, o Fluxograma, adaptado do protocolo PRISMA (Page et al., 2021), demonstra as quatro etapas de seleção. Na primeira fase (Triagem), o maior volume de exclusões deve-se à eliminação de duplicatas e de estudos que não se enquadram nos critérios primários, como período de publicação e idioma.

A amostra final para esta Revisão Integrativa foi composta por sete artigos, que abordam diretamente o papel da Enfermagem no manejo da SOP. A análise da distribuição temporal dos estudos revela uma concentração de publicações nos últimos anos, o que sugere um interesse crescente da Enfermagem pela temática. Tal enfoque é justificado pela alta prevalência da SOP na idade reprodutiva, que pode atingir taxas de até 21% em algumas populações (Cremonez & Siqueira, 2022) e pelo reconhecimento da SOP como uma doença metabólica complexa (Spritzer, 2014; Cavalcante, 2021).

Quanto à abordagem, a maioria dos estudos incluídos enfatiza a atuação da Enfermagem na Atenção Primária à Saúde (APS). Esse foco está alinhado com a necessidade de intervenção precoce e continuada, uma vez que o cuidado integral à mulher com SOP transcende o foco ginecológico, exigindo o manejo de comorbidades como obesidade, resistência à insulina e questões psicossociais (Abreu, Silva & Rodrigues, 2024; Souza, 2022). 

Os artigos analisados convergem em três eixos temáticos centrais que refletem as áreas de atuação da Enfermagem: Eixo I – Aspectos clínicos e diagnósticos: foco na identificação dos sinais e sintomas (hirsutismo, irregularidade menstrual) e na orientação sobre a importância da confirmação diagnóstica; Eixo II – Intervenções não farmacológicas e educação em saúde: ênfase na mudança do estilo de vida (dieta e exercício), sendo esta a base terapêutica para a síndrome (Silva, Neto & Serra, 2021; Campos, Leão & Souza, 2021); Eixo III – Impactos psicossociais e qualidade de vida: abordagem da ansiedade, depressão e baixa autoestima que acompanham a SOP, demandando intervenções de suporte e acolhimento.

A Tabela 4, a seguir, sintetiza os principais aspectos metodológicos e resultados dos sete estudos selecionados, servindo como base para a discussão.

Tabela 4. Quadro sinóptico dos artigos selecionados para a Revisão Integrativa sobre a atuação do enfermeiro na SOP.

Autor(es) / AnoTítulo da publicaçãoTipo de estudoObjetivo do EstudoPrincipais achados/Contribuição
Abreu et al. (2024)Diagnóstico e manejo da síndrome de ovários policísticos pelo enfermeiro na atenção primária em saúdeRevisão Bibliográfica (Qualitativa)Determinar o manejo e diagnóstico da SOP pelo enfermeiro na atenção primária em saúde.O enfermeiro é o principal agente no diagnóstico e manejo. A SAE (NANDA, NIC, NOC) é fundamental para uma abordagem estruturada e interdisciplinar.
Souza (2022)O enfermeiro (a) da atenção básica diante dos principais sinais e sintomas da SOP–Síndrome dos Ovários PolicísticosTCC / Revisão de LiteraturaDescrever a atuação do enfermeiro da atenção básica diante dos principais sinais e sintomas da SOP e suas implicações na qualidade de vida.Enfatiza a importância da triagem de sintomas (AN, hirsutismo, irregularidade) e a necessidade de o enfermeiro estar qualificado para informar, examinar e acompanhar.
Mendonça et al. (2023)Aspectos clínicos da síndrome dos ovários policísticos: atuação da enfermagem na atenção primáriaRevisão de Literatura (QualitativaDescrever a atuação do enfermeiro na APS relacionado aos aspectos clínicos da SOP e as principais manifestações.Reforça o papel da enfermagem na APS e na promoção de estratégias de melhora e combate às complicações, como a resistência à insulina (RI).
Silva et al. (2021)Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP): intervenções não farmacológicas no tratamentoEstudo de Caso / RevisãoAnalisar as produções científicas envolvendo a assistência de enfermagem à mulher com SOP e planejar uma assistência holística com base nas taxonomias NANDA, NIC e NOC.Fornece exemplos diretos de aplicação de NANDA/NIC/NOC, ligando o cuidado de enfermagem à melhora do estado emocional e do estilo de vida.
Campos, Leão & Souza (2021)O impacto da mudança do estilo de vida em mulheres com síndrome dos ovários policísticosRevisão BibliográficaDescrever o impacto da mudança do estilo de vida em mulheres com SOP.A prática de exercício físico e dieta é um tratamento de primeira linha. A perda de 5% a 10% do peso corporal é reconhecida por melhorar o perfil metabólico e reprodutivo.
Zanin et al. (2023)Síndrome do ovário policístico e suas possíveis abordagens terapêuticasRevisão IntegrativaAbordar as implicações psicossociais e analisar as opções de manejo terapêutico disponíveis.Reforça a necessidade de tratamento multidisciplinar (nutricionista, psicólogo) e o alto impacto psicossocial (ansiedade, depressão) da Síndrome.
Cavalcante et al. (2021)Síndrome dos ovários policísticos: aspectos clínicos e impactos na saúde da mulherRevisão IntegrativaDescrever os aspectos clínicos da SOP e seu impacto na saúde da mulher.Conclui-se que a SOP manifesta sintomas heterogêneos em mais de uma fase da vida e que é essencial uma abordagem holística para o paciente.
Fonte: Elaboração própria com base na análise dos dados dos autores referenciados.

A análise das publicações demonstra que a atuação do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde (APS) é estratégica para a descoberta precoce da SOP (Abreu et al., 2024; Souza, 2022). A vigilância inicia-se com o rastreio da irregularidade menstrual e do hiperandrogenismo, sendo a identificação desses sinais uma competência essencial do profissional (Mendonça et al., 2023). O hirsutismo, por exemplo, é o sinal clínico mais prevalente, afetando até 70% das pacientes (Ricci, 2023). Além disso, o enfermeiro tem a competência de buscar marcadores de complicações metabólicas, como a Acantose Nigricans (AN), um sinal cutâneo de hiperinsulinemia (Cavalcante et al., 2021).

Os estudos convergem ao afirmar que o tratamento de primeira linha é a modificação do estilo de vida. O enfermeiro, como promotor da saúde, é o principal agente para a intervenção não farmacológica. As evidências apontam que a perda de 5% a 10% do peso corporal melhora a RI, a regularidade menstrual e o perfil metabólico. Essa intervenção é reforçada pela orientação sobre dieta de baixo índice glicêmico e prática regular de exercícios (Silva, Neto & Serra, 2021; Abreu et al., 2024).

A revisão reforça o alto impacto psicossocial da SOP, que vai além dos problemas físicos (Cavalcante et al., 2021; Zanin et al., 2023). A prevalência de ansiedade e depressão é alta (podendo afetar até 64% das pacientes) devido à infertilidade e à baixa autoestima causada pelo hiperandrogenismo. O cuidado integral exige que o enfermeiro ofereça escuta ativa e apoio emocional (Mendonça et al., 2023; Abreu et al., 2024), atuando como coordenador do encaminhamento para a equipe de saúde mental, conforme demonstrado nos artigos (Abreu et al., 2024).

A aplicação formal da SAE confere organização e mensurabilidade ao cuidado. As taxonomias traduzem as necessidades do paciente em ações estruturadas, como a identificação do Distúrbio da Imagem Corporal (NANDA) e a execução do Apoio à imagem corporal (NIC). A avaliação da eficácia é comprovada pelo NOC, que foca em resultados de longo prazo, como o Controle Metabólico e o Empoderamento, validando o papel preventivo da Enfermagem (Abreu et al., 2024; Silva et al., 2021).

5. DISCUSSÃO

É essencial estabelecer a interpretação crítica dos resultados obtidos na Revisão Integrativa da Literatura (RIL), confrontando as evidências identificadas nas sete publicações selecionadas com o referencial teórico estabelecido para a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP). Essa análise visa demonstrar de que forma os achados confirmam e aprofundam a compreensão sobre o papel estratégico do profissional de enfermagem no diagnóstico precoce e no manejo metabólico e psicossocial da SOP, estabelecendo um diálogo direto entre os questionamentos levantados na Introdução e os artigos que embasaram o estudo.

A atuação do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde (APS) é a principal porta de entrada para a descoberta precoce da SOP. Esta prerrogativa é central em publicações como “Diagnóstico e manejo da síndrome de ovários policísticos pelo enfermeiro na atenção primária em saúde” (Abreu et al., 2024) e “O enfermeiro (a) da atenção básica diante dos principais sinais e sintomas da SOP–Síndrome dos Ovários Policísticos” (Souza, 2022). Tais estudos estabelecem a competência do enfermeiro para um rastreio ativo e intencional, focado na identificação de sinais clínicos que compõem os critérios diagnósticos clássicos da Síndrome.

Essa função de rastreio assume importância crítica ao considerarmos o Consenso de Rotterdam (Rottedam Eshre/ASRM-SPOS Consensus Workshop Group, 2004), que define a SOP pela presença de pelo menos dois de três critérios: oligo/anovulação, hiperandrogenismo clínico e/ou laboratorial e ovários policísticos à ultrassonografia. A RIL demonstra que a enfermagem atua diretamente na identificação dos dois primeiros: Irregularidade Menstrual/Oligo-anovulação: Achado primordial na anamnese de enfermagem; Hiperandrogenismo Clínico: A vigilância do hirsutismo é o sinal clínico mais prevalente, sendo um achado crucial na consulta, conforme o referencial da saúde da mulher (Ricci, 2023).

Além do rastreio clínico, a Revisão Integrativa da Literatura demonstrou a importância da competência do enfermeiro em buscar marcadores de complicações metabólicas, como a Acantose Nigricans (AN) – um sinal cutâneo de hiperinsulinemia. Essa visão ampliada é crucial, confirmando que o profissional de enfermagem enxerga a SOP como um distúrbio endócrino-metabólico complexo, e não apenas ginecológico.

Os resultados convergem diretamente com as Diretrizes Internacionais baseadas em evidências (Teede et al., 2018), estabelecendo que o tratamento de primeira linha para a SOP é a modificação do estilo de vida. O enfermeiro emerge como o principal agente promotor da intervenção não farmacológica, dada sua função educativa na APS, conforme evidenciado no estudo “Síndrome dos Ovarios Policísticos (SOP): intervenções não farmacológicas no tratamento” (Silva, Neto & Serra, 2021).

A eficácia desta abordagem é detalhada no artigo “O impacto da mudança do estilo de vida em mulheres com síndrome dos ovários policísticos” (Campos, Leão e Souza, 2022), que aponta que a perda de 5% a 10% do peso corporal é suficiente para melhorar a Resistência à Insulina (RI), regularizar o ciclo menstrual e atenuar o hiperandrogenismo. Esta perspectiva é endossada pela revisão “Síndrome do ovário policístico e suas possíveis abordagens terapêuticas” (Zanin et al., 2023), que reafirma a prioridade da orientação sobre dieta de baixo índice glicêmico e prática regular de exercícios, visto que a Resistência à Insulina é o problema central na maioria das pacientes. A Enfermagem, por meio da educação em saúde, media a adesão a essas práticas, alcançando o maior impacto terapêutico sob sua autonomia clínica.

A Síndrome possui um alto custo psicossocial que se soma à sintomatologia física. Os achados do estudo “Síndrome dos ovários policísticos: aspectos clínicos e impactos na saúde da mulher” (Cavalcante et al., 2021) e a pesquisa de Mendonça et al. (2023) reforçam essa dimensão, destacando que a prevalência de ansiedade e depressão é significativamente elevada, impulsionada pela baixa autoestima (devido ao hiperandrogenismo) e pela infertilidade.

O referencial teórico do cuidado integral exige que o cuidado de enfermagem seja holístico, transcendendo o manejo dos sintomas físicos. O enfermeiro deve oferecer escuta ativa e apoio emocional e atuar como coordenador do cuidado, garantindo o encaminhamento oportuno para o suporte psicológico, conforme preconizado no artigo “Aspectos clínicos da síndrome dos ovários policísticos: atuação da enfermagem na atenção primária” (Mendonça et al., 2023). Essa necessidade é validada pela literatura de apoio que foca no tema, como Tomaz Moreira et al. (2015), que aponta a deterioração da Qualidade de Vida (QdV) e a necessidade de suporte psicossocial para o empoderamento e adesão da paciente.

O diálogo entre os resultados da RIL e a metodologia da Enfermagem se estabelece plenamente pela aplicação da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE). A SAE estrutura e confere rigor à gestão desse cuidado crônico, tal como abordado no artigo de Abreu et al. (2024) sobre o “Diagnóstico e manejo da síndrome de ovários policísticos pelo enfermeiro na atenção primária em saúde”.

A utilização de taxonomias padronizadas, como a NANDA-I, NIC e NOC, formaliza a prática de Enfermagem. Os achados da RIL, por exemplo, sobre a dificuldade de adesão à mudança de estilo de vida, são traduzidos em diagnósticos como “Comportamento de Saúde Propenso a Risco” ou “Controle Ineficaz da Saúde”. O estudo “Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP): intervenções não farmacológicas no tratamento” (Silva, Neto & Serra, 2021) exemplifica como a SAE, ao focar em Resultados de Enfermagem (NOC), valida o papel preventivo da Enfermagem, demonstrando o impacto mensurável na melhoria do Controle Metabólico e no Empoderamento da paciente. Assim, a SAE é o elemento teórico-metodológico que garante a qualidade e a continuidade do cuidado crônico descrito pelos artigos selecionados.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A Revisão Integrativa da Literatura realizada neste estudo cumpriu o objetivo de analisar o papel estratégico do profissional de enfermagem no diagnóstico precoce e no manejo metabólico e psicossocial da Síndrome dos Ovários Policísticos na Atenção Primária à Saúde.

Os resultados demonstram que a atuação do enfermeiro é fundamental, iniciando-se pelo rastreio ativo e intencional das mulheres em idade reprodutiva, focando nos critérios clínicos essenciais para o diagnóstico, como a irregularidade menstrual e o hiperandrogenismo (hirsutismo). Essa vigilância clínica, que inclui a identificação de marcadores metabólicos como a Acantose Nigricans, é crucial para que a SOP seja abordada de maneira oportuna, transcendendo a visão ginecológica para enxergá-la como um complexo distúrbio endócrino-metabólico, cuja patogênese central é a Resistência à Insulina.

O manejo da SOP se estabelece, segundo as evidências, tendo a modificação do estilo de vida (dieta e exercício físico) como tratamento de primeira linha. Neste contexto, o enfermeiro emerge como o principal agente promotor da saúde, mediando a educação em saúde e facilitando a adesão às mudanças necessárias, que resultam em benefícios diretos na redução do peso, na melhoria do perfil metabólico e na atenuação dos sinais androgênicos.

Adicionalmente, a Revisão Integrativa da Literatura ressalta a importância do cuidado integral e holístico, uma vez que a Síndrome impõe um significativo impacto psicossocial, manifestado pela alta prevalência de ansiedade, depressão e baixa autoestima. A Enfermagem, por meio da escuta ativa e da articulação da rede de apoio multiprofissional (principalmente o suporte psicológico), é essencial para garantir o empoderamento e a melhoria da Qualidade de Vida (QdV) destes pacientes.

Todo o escopo de atuação do enfermeiro no manejo crônico da SOP é validado e estruturado pela aplicação da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), que confere método e rigor científico ao processo de rastreio, diagnóstico, planejamento e avaliação das intervenções.

Como limitação do estudo, destaca-se o uso exclusivo de revisões de literatura, o que restringe a profundidade de dados primários sobre a aplicação prática de protocolos de enfermagem. Sugere-se que pesquisas futuras explorem a elaboração e validação de protocolos específicos de Sistematização da Assistência de Enfermagem para a Síndrome dos Ovários Policísticos, bem como estudos de intervenção que avaliem o impacto direto da consulta de enfermagem na adesão da paciente às mudanças de estilo de vida em longo prazo.

Em síntese, o presente trabalho contribui para o fortalecimento da autonomia clínica do enfermeiro e para a consolidação de sua posição como agente coordenador e essencial no cuidado integral da mulher com SOP na Atenção Primária.

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1Acadêmica do 8º período do curso de Enfermagem (UNIP), endereço eletrônico: adellamanykelle@icloud.com
2Acadêmica do 8º período do curso de Enfermagem (UNIP), endereço eletrônico: deuzianemeireles@gmail.com
3Graduada em Pedagogia (UFMA/2011). Acadêmica do 8º período do curso de Enfermagem (UNIP), endereço eletrônico: ellensabrina.neves@gmail.com
4Acadêmica do 8º período do curso de Enfermagem (UNIP), endereço eletrônico: marceli.ferreira.eiz@gmail.com
5Acadêmica do 8º período do curso de Enfermagem (UNIP), endereço eletrônico: mirellebrrt@hotmail.com
6Orientador, Especialista, Professor do curso de graduação em bacharel em enfermagem, endereço eletrônico: enfpedrp.alencar@gmail.com