REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202505240915
Dayanne de Oliveira1
Gabriele Limberger Ribeiro2
Patrícia Farias3
Pâmela Adrielle Meyer4
RESUMO:
O papel do enfermeiro nos processos de transplante e doação de órgãos ainda é, por vezes, subvalorizado em determinadas etapas do cuidado. No entanto, como profissional responsável por grande parte da assistência prestada em ambiente hospitalar, o enfermeiro desempenha uma função essencial no reconhecimento de potenciais doadores e receptores, especialmente no contexto de doações pediátricas. A atuação da equipe de enfermagem inicia-se precocemente no cuidado ao paciente crítico, sendo o enfermeiro o elo central na identificação do potencial doador, na manutenção clínica adequada e no acolhimento humanizado das famílias envolvidas. Diante disso, este estudo tem como objetivo destacar a importância do papel do enfermeiro no processo de doação e transplante de órgãos, com ênfase especial nos casos envolvendo crianças. A metodologia adotada baseia-se em uma pesquisa bibliográfica, com foco na análise de produções científicas relacionadas ao tema. Este estudo destaca o papel do enfermeiro no processo de doação e transplante de órgãos, com foco na doação pediátrica. As descobertas sugerem que a atuação do enfermeiro é crucial para garantir a eficiência do processo de captação, além de ser essencial no acolhimento emocional das famílias, contribuindo para o consentimento informado e a redução da taxa de recusa.
A discussão evidencia que a captação de órgãos em crianças apresenta desafios técnicos e emocionais que exigem preparo especializado da enfermagem. O enfermeiro é fundamental na identificação do doador, manutenção clínica e na comunicação empática com as famílias, influenciando positivamente o consentimento. Além disso, o trabalho integrado com a equipe multiprofissional e o respeito às normas legais são indispensáveis para o sucesso do processo.
Conclui-se que a atuação do enfermeiro no contexto pediátrico é essencial não só para o cuidado clínico, mas também para o suporte emocional às famílias e a coordenação do processo. A capacitação contínua e o reconhecimento da enfermagem são necessários para melhorar as taxas de doação e garantir um processo ético e humanizado.
PERGUNTA NORTEADORA: Quais são as estratégias adotadas pelo enfermeiro no processo de doação e transplante de órgãos em crianças, considerando os aspectos éticos, técnicos e emocionais no cuidado à criança doadora e à sua família?
PALAVRAS-CHAVES: Papel do Enfermeiro, Transplante, Doação de Órgãos.
1. Introdução
O transplante de órgãos pediátricos é uma intervenção complexa que exige a colaboração de uma equipe multiprofissional. A equipe de enfermagem, embora com responsabilidade técnica menor que os médicos, tem papel essencial no cuidado contínuo de doadores e receptores. Sua atuação vai desde o atendimento inicial até as etapas críticas do processo. A qualificação técnica e emocional dos enfermeiros é crucial para a eficácia do transplante e para garantir a humanização do cuidado (DE ALMEIDA et al., 2023).
Para viabilizar o processo de captação de órgãos e reduzir a fila de espera por transplantes, a Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) atua de forma estratégica, garantindo a equidade e transparência na rede nacional de captação. Essa comissão é composta por uma equipe multiprofissional, incluindo médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, psicólogos e assistentes sociais (CARVALHO & PAIVA, 2024).
Os transplantes de órgãos no Brasil iniciaram-se na década de 1960, mas só foram regulamentados em 1997, com a Lei nº 9.434. Essa lei trata da doação post mortem, doação em vida e sanções legais. O Sistema Nacional de Transplantes (SNT), criado pelo Decreto nº 2.268/1997 e atualizado em 2017, passou a coordenar e fiscalizar todas as etapas do processo (FREITAS COELHO & BONELLA, 2019).
Atualmente, mais de 90% dos transplantes realizados no Brasil são financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), configurando o maior sistema público de transplantes do mundo. Em 2017, esse índice atingiu 98% para transplantes de rim e pâncreas, 96% para coração e rim, 95% para fígado, 93% para pulmão e 90% para pâncreas. Além disso, o SUS garante o fornecimento gratuito de medicamentos imunossupressores após o procedimento, o que amplia o acesso ao tratamento e favorece a adesão dos pacientes (FREITAS COELHO & BONELLA, 2019).
A Espanha é referência mundial em doação de órgãos, adotando o modelo de consentimento presumido, onde todos são doadores, salvo recusa prévia. Mesmo assim, a decisão é validada com a família. Em 2017, 87,1% consentiram com a doação. O sucesso é atribuído à criação da Organização Nacional de Transplantes (ONT) em 1989 (FREITAS COELHO & BONELLA, 2019).
No Brasil, existem atualmente equipes especializadas e qualificadas para conduzir todas as etapas do processo de transplante pediátrico, desde o diagnóstico de morte encefálica até a retirada e o transplante dos órgãos. O enfermeiro está presente em todas essas etapas, desempenhando também um papel fundamental no acolhimento e suporte emocional às famílias envolvidas (CARVALHO & PAIVA, 2024).
A abordagem do enfermeiro tem se mostrado decisiva para que as famílias compreendam o processo e se sintam acolhidas diante de uma situação extremamente dolorosa. Ainda que a taxa de recusa familiar à doação de órgãos no Brasil esteja em torno de 40%, esse número vem diminuindo graças ao trabalho de conscientização e à atuação humanizada dos profissionais de saúde (CARVALHO & PAIVA, 2024).
2. Metodologia
Este estudo caracteriza-se como uma revisão bibliográfica, com base na análise de materiais já publicados, como livros, dissertações, teses e artigos científicos. Trata-se, portanto, de uma pesquisa que utiliza fontes secundárias, ou seja, fundamenta-se nas contribuições de diversos autores sobre o tema investigado, sem recorrer diretamente a dados empíricos (OLIVEIRA et al., 2008; ALMEIDA & GUINDANI, 2009).
A metodologia de revisão bibliográfica tem como finalidade o esclarecimento de um tema específico por meio da análise de produções teóricas disponíveis em revistas, periódicos científicos, livros e outras fontes confiáveis. Esse tipo de revisão permite reconhecer, sistematizar e avaliar as evidências disponíveis na literatura acadêmica sobre determinada problemática, possibilitando ao pesquisador uma compreensão atualizada e crítica acerca do objeto de estudo. Dessa forma, por meio da leitura e interpretação dos materiais selecionados, é possível construir novos entendimentos e reflexões pertinentes (SILVA et al., 2020).
O presente artigo foi conduzido com foco no papel do enfermeiro no processo de captação de órgãos infantis, e desenvolveu-se em etapas. Na primeira fase, foi formulada a pergunta norteadora e o objetivo geral e os específicos do estudo. Em seguida, iniciou-se o processo de busca, definição dos critérios de inclusão e exclusão e seleção dos materiais a serem analisados.
Em relação aos critérios de inclusão, esses foram: artigos científicos disponíveis na íntegra, publicados entre os anos de 2020 e 2025, em português, inglês ou espanhol. Também foi permitida a inclusão de até 3% de artigos mais antigos, desde que considerados relevantes para a fundamentação teórica. Já os critérios de exclusão abrangeram publicações que não apresentavam relação com a pergunta norteadora ou cuja data de publicação era considerada excessivamente antiga, sem valor atual para o tema.
A busca foi realizada no primeiro semestre de 2025, por meio da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e PubMed. Utilizaram-se os descritores controlados “Papel do Enfermeiro”, “Transplante” e “Doação de Órgãos”. Inicialmente, foram encontrados 45 artigos. Após a aplicação dos critérios definidos, 12 estudos foram selecionados para compor a análise e discussão do trabalho.
3. Resultados
Tabela 1 – Artigos utilizados








Elaboração: autoria própria.
4. Discussão
4.1 A captação de órgãos em crianças: aspectos gerais e especificidades pediátricas
A captação de órgãos em crianças envolve desafios únicos que não podem ser ignorados. Embora a padronização traga eficiência, é crucial considerar as particularidades emocionais e éticas da doação pediátrica. Caetano et al., (2024) defendem uma abordagem que una protocolos padronizados à sensibilidade necessária. Assim, é essencial garantir um processo ético, eficiente e humanizado, especialmente quando envolve crianças.
No Brasil, a captação de órgãos pediátricos enfrenta desafios significativos. Apesar dos avanços do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), a demanda supera a oferta, como destaca Victorino et al., (2017). Dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) de 2020 mostram que, embora a taxa de doadores seja de 9,4 por milhão, apenas 12% são pediátricos, evidenciando a grande disparidade entre necessidade e disponibilidade.
Fontenele et al., (2023) apontam que a captação de órgãos pediátricos possui especificidades fisiológicas e anatômicas, como a raridade da morte encefálica em crianças e a dificuldade de compatibilidade. Caetano et al., (2024) complementam que a escassez de doadores infantis afeta a efetividade dos transplantes, exigindo políticas voltadas à conscientização social e qualificação profissional.
Enquanto Fontenele et al., (2023) destacam os aspectos clínicos, Caetano et al., (2024) abordam fatores organizacionais e sociais, propondo maior sensibilização institucional. Ambos concordam quanto à importância do enfermeiro no acolhimento familiar, especialmente diante das complexidades emocionais que envolvem a doação infantil, papel que exige preparo e empatia.
Além dos fatores clínicos, há consenso entre os autores sobre a necessidade de uma abordagem ética mais sensível. Almeida et al., (2023) destacam que a decisão familiar pela doação é um momento de grande sofrimento, influenciado por fatores culturais, religiosos e psicológicos. Nesse contexto, a atuação empática da equipe de enfermagem é essencial para um processo consciente e respeitoso.
Fontenele et al., (2023) reforça, com base no Journal of Pediatric Transplantation (2021), que a escassez de doadores pediátricos impacta diretamente o tempo de espera por transplantes e a taxa de mortalidade infantil enquanto aguardam o transplante renal no Brasil é de 16,5%. Amarante (2023) comenta que, diante disso, alternativas como o uso de órgãos adultos são buscadas, embora nem sempre viáveis por diferenças anatômicas.
Benguella et al., (2022) mostram que, apesar dos esforços, os números estão aquém da necessidade. Em 2020, foram realizados 200 transplantes hepáticos e 150 renais em crianças, frente a mais de 1.500 pacientes na fila. A situação é ainda mais crítica nos transplantes cardíacos, com apenas 5% destinados a crianças, agravada pela maioria dos doadores ter menos de 5 anos.
Diante desse cenário, Carvalho & Paiva (2024) destacam a necessidade de políticas públicas eficientes e investimento em capacitação das equipes de saúde, sobretudo da enfermagem. A conscientização da população sobre a doação de órgãos pediátricos é vital para reduzir a mortalidade infantil e dar a crianças dependentes de transplante uma chance real de sobrevivência.
4.2 O Enfermeiro na Identificação e Notificação de Potenciais Doadores
Caetano et al., (2024) afirmam que o enfermeiro tem papel essencial na identificação precoce de sinais de morte encefálica, especialmente em unidades de terapia intensivas pediátricas. A notificação à Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDO), é uma de suas responsabilidades, conforme os protocolos e legislações vigentes. A capacitação é decisiva para o reconhecimento clínico, aplicação correta dos protocolos e agilidade na preservação dos órgãos.
Silva et al., (2023) concordam que o enfermeiro é peça-chave na detecção precoce de doadores, sendo o profissional que acompanha continuamente o paciente. Seu papel inclui identificar sinais neurológicos sugestivos, monitorar sinais vitais, registrar alterações clínicas e apoiar a equipe médica, promovendo a agilidade necessária à ativação dos protocolos de captação.
Contiero et al., (2021) destacam que o enfermeiro, conforme diretrizes do Ministério da Saúde, pode acionar a Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDO) diante da suspeita de morte encefálica. Apesar de qualquer profissional poder notificar, essa função costuma recair sobre o enfermeiro, que mantém vigilância constante e exerce liderança, o que favorece o início imediato dos trâmites legais e clínicos da doação.
Em relação a capacitação técnica da enfermagem, Freitas Coelho & Bonella (2019) reforçam que é essencial para o sucesso do processo. O diagnóstico de morte encefálica em crianças exige exames clínicos com intervalos e critérios específicos, diferentes dos adultos. A correta aplicação desses protocolos depende do preparo técnico do enfermeiro, elo fundamental do cuidado.
Hostim et al., (2018) e Contiero et al., (2021) concordam sobre o protagonismo do enfermeiro nas etapas iniciais da captação. O Protocolo de Morte Encefálica exige dois médicos para confirmação, mas o enfermeiro atua na preparação do paciente, manutenção hemodinâmica e controle laboratorial. Em comissões intra-hospitalares, este profissional também articula setores e apoia as famílias.
Em consonância a isso, Alves et al., (2025) destacam que, além do conhecimento técnico, o enfermeiro deve ter habilidades comunicacionais e sensibilidade para lidar com famílias em luto. Para isto, formação continuada em temas como morte encefálica, bioética e cuidados paliativos é fundamental para sua atuação eficaz, impactando positivamente na taxa de doações e no tempo de espera por transplantes.
4.3 Abordagem Familiar: humanização, acolhimento e comunicação
Hostim et al., (2018) destacam o papel do enfermeiro nas etapas iniciais do Protocolo de Morte Encefálica. Complementando, Alves (2025) ressalta a importância da sensibilidade e da comunicação diante das famílias em momentos de dor. Já Silva et al., (2023) afirma que, a abordagem familiar é uma das fases mais delicadas, especialmente na pediatria, e que a maneira como a notícia é comunicada influencia diretamente na aceitação da doação. Abordagens humanizadas aumentam as chances de consentimento.
Autores como Almeida et al., (2023), Hostim et al., (2018) e Alves et al., (2025) concordam que o enfermeiro atua como mediador entre equipe técnica e família. Este profissional é estratégico e sensível, criando um ambiente de empatia e confiança. A comunicação clara, sem jargõ técnicos, e o uso da escuta ativa são fundamentais para facilitar a aceitação ou recusa da doação com respeito e clareza.
Aspectos éticos e culturais exigem atenção especial, pois segundo Almeida et al., (2023), a fragilidade emocional das famílias deve ser acolhida com respeito às crenças, valores e direito de recusa. A decisão pela doação deve ser livre de pressões, e o enfermeiro precisa garantir um ambiente de compreensão e apoio. O respeito à autonomia familiar é princípio essencial da bioética no processo de captação.
A qualidade da abordagem influencia diretamente a aceitação da doação. Dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) de 2023 mostram que 42% das famílias recusaram a doação, muitas vezes por falta de preparo ou desconhecimento da vontade do doador. Isso reforça a importância de uma abordagem ética e humanizada, em que o enfermeiro tem papel central no acolhimento, esclarecimento de dúvidas e construção de confiança com os familiares.
Em uma análise realizada, Victorino et al., (2017) destacam que países com modelos estruturados, como a Espanha, apresentam taxas de recusa inferiores a 15%. O sucesso espanhol se deve a equipes treinadas para abordagens humanizadas, com acolhimento contínuo, comunicação clara e vínculo precoce. Essas estratégias aumentam significativamente a efetividade das doações, servindo de referência para outros países.
Fontenele et al., (2023) defendem que a abordagem técnica isolada é insuficiente, ou seja, o cuidado humanizado exige que o enfermeiro compreenda as limitações culturais, espirituais e emocionais da família. Assim, ele se torna um mediador ético, respeitando o tempo e as crenças da família, e valorizando a decisão tomada, mesmo diante da dor e da complexidade da situação.
A formação ética e emocional do enfermeiro deve ser prioridade nas políticas públicas sobre doação de órgãos. Presença contínua, escuta ativa e acolhimento não só aliviam a dor da perda, mas também criam condições para decisões livres e conscientes. Negligenciar essa dimensão humana é falhar no momento em que o cuidado deveria ser mais sensível e transformador.
4.4 O Enfermeiro e a Logística do Processo de Captação de Órgãos
A atuação do enfermeiro na doação de órgãos vai além da abordagem familiar, estendendo-se à manutenção rigorosa do potencial doador até a cirurgia. Benguella et al., (2022) ressaltam o papel do enfermeiro na monitorização hemodinâmica, controle da temperatura, suporte ventilatório e correção de distúrbios metabólicos. Esses cuidados são essenciais para garantir a viabilidade dos órgãos.
A complexidade destas intervenções exige uma atuação integrada à equipe multiprofissional. O enfermeiro deve comunicar-se de forma eficaz com os demais profissionais, respeitando protocolos técnicos e éticos. Em pediatria, essa atuação requer ainda mais atenção, já que os parâmetros fisiológicos infantis são mais delicados e exigem resposta imediata.
Benguella et al., (2022) também destacam a gestão do suporte hemodinâmico feita pelo enfermeiro, por meio da administração de drogas vasoativas e análise de exames como gasometria arterial. O enfermeiro atua ainda na normotermia, prevenção de lesões pulmonares e correção de desequilíbrios metabólicos como hiperglicemia e acidose, essenciais para manter os órgãos viáveis.
Além dos cuidados clínicos, o enfermeiro tem papel estratégico na logística da retirada dos órgãos. Este profissional coordena a Central de Transplantes, prepara o corpo do doador, organiza a documentação e verifica os materiais necessários. Sua atuação assegura o cumprimento dos trâmites legais e a preparação física adequada do paciente.
Além disso, a comunicação entre os profissionais é vital nesse processo. A enfermagem atua como elo entre médicos, fisioterapeutas, CIHDOTT, laboratoristas e a Central de Transplantes. Como Almeida et al., (2023) afirmam, o trabalho conjunto com a Comissão Intra-Hospitalar é essencial para garantir princípios éticos e decisões logísticas seguras e organizadas.
Assim, Benguella et al., (2022) e Almeida et al., (2023) evidenciam que o enfermeiro, ao unir conhecimento técnico, competência organizacional e sensibilidade ética, é peça-chave na manutenção do doador e na segurança do processo. Seu papel garante qualidade, dignidade e viabiliza efetivamente a doação de órgãos no Brasil.
4.5 Capacitação, Legislação e Ética Profissional na Atuação do Enfermeiro
O processo de doação e transplante de órgãos no Brasil é regulamentado por normativas legais que asseguram respaldo jurídico, ético e operacional. A Lei nº 9.434/1997 (Lei de Transplantes) define os critérios legais para remoção e uso de órgãos, enquanto os Decretos nº 2.268/1997 e nº 9.175/2017 detalham os procedimentos administrativos. Segundo Freitas Coelho e Bonella (2019), o enfermeiro precisa dominar essas normas para garantir segurança jurídica e promover a confiança no sistema.
Além da legislação, a prática do enfermeiro é guiada pelo Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem, que reforça valores como dignidade, autonomia e respeito às crenças. Em relação a isso, Freitas Coelho e Bonella (2019) afirmam que a decisão sobre a doação deve ser livre de coações, ou seja, o enfermeiro, nesse momento delicado, precisa agir com sensibilidade e respeito, conciliando critérios clínicos com apoio emocional à família.
O cumprimento dessas responsabilidades exige mais do que boa vontade; requer capacitação técnica contínua. A captação de órgãos envolve aspectos técnicos, legais, éticos e emocionais. Silva et al., (2023) defendem a qualificação do enfermeiro desde o reconhecimento de sinais de morte encefálica até a comunicação com familiares, pois a educação permanente fortalece a segurança e a eficácia do profissional.
Portanto, a atuação do enfermeiro deve unir conhecimento legal, ética profissional e competência técnica. O domínio da legislação, o compromisso com o cuidado humanizado e a formação contínua formam a base para uma atuação segura e sensível. Como destacam Freitas Coelho e Bonella (2019), Silva et al., (2023) é essa articulação que assegura que o processo de doação ocorra com legalidade, ética e respeito à dignidade humana.
4.6 Desafios e Possibilidades na Prática da Enfermagem na Captação de Órgãos Infantis
Apesar dos avanços na doação e transplante de órgãos, a atuação do enfermeiro na captação pediátrica enfrenta desafios estruturais, institucionais e emocionais. A falta de treinamentos específicos, a sobrecarga de trabalho e a ausência de protocolos claros comprometem a eficácia do processo. Caetano et al., (2024) destacam que muitos enfermeiros sentem-se despreparados emocionalmente para lidar com a morte encefálica infantil e com a abordagem familiar, agravando-se pelas limitações institucionais e organizacionais.
Diante disso, é fundamental investir na qualificação técnica e humana do enfermeiro. A formação continuada com foco em captação de órgãos, morte encefálica e cuidados pediátricos deve incluir competências interpessoais como escuta ativa e comunicação empática. Silva et al., (2023) reforçam a importância desses aspectos para uma abordagem ética e humanizada. Campanhas educativas para profissionais e população também ajudam a superar resistências culturais e aumentar a adesão à doação.
A atuação do enfermeiro deve ocorrer de forma integrada com a equipe multiprofissional, incluindo médicos, psicólogos e assistentes sociais. A interprofissionalidade permite considerar os aspectos técnicos, éticos e logísticos de maneira abrangente. Almeida et al., (2023) ressaltam a importância da articulação com as Comissões Intra-Hospitalares de Doação (CIHDOTT), que promovem coordenação eficaz e sensível em contextos pediátricos.
Almeida et al., (2023) também defendem o reconhecimento do enfermeiro como elo central no processo, mediando entre equipe médica, família e comissões. Esse protagonismo exige autonomia, suporte emocional e capacitação para decisões clínicas e éticas. O incentivo institucional a esse papel fortalece a confiança da população no sistema de doações e pode aumentar os índices de autorização familiar e captação de órgãos.
Por fim, a humanização da prática é essencial para consolidar uma assistência ética e integral. Criar espaços de apoio psicológico para profissionais e famílias ajuda a mitigar o sofrimento emocional e favorece vínculos de empatia e acolhimento. Essa abordagem melhora a qualidade técnica do cuidado e garante uma doação de órgãos pediátrica mais ética, sensível e eficaz.
5. Considerações finais
As análises dos estudos selecionados reforçam a centralidade do enfermeiro no processo de captação de órgãos, especialmente em contextos pediátricos, nos quais o cuidado exige competências técnicas e emocionais altamente desenvolvidas. Evidencia-se que a atuação desse profissional vai além da assistência clínica, abrangendo o apoio às famílias enlutadas, a comunicação ética e sensível sobre a possibilidade de doação, e a articulação eficaz com a equipe multiprofissional e com a Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT).
Os estudos demonstram que estratégias como a abordagem humanizada, a utilização de uma linguagem compatível com a realidade da família e o suporte emocional contínuo são fundamentais para reduzir as recusas à doação. A literatura também destaca a necessidade de educação permanente para os profissionais de enfermagem, visando à qualificação da atuação diante de situações delicadas e emocionalmente desafiadoras, como a morte encefálica de uma criança.
Observa-se, ainda, que a atuação do enfermeiro no Brasil carece de maior reconhecimento e valorização institucional, apesar de sua relevância em todas as etapas do processo. Em países como a Espanha, onde a cultura da doação é mais consolidada, o envolvimento das famílias é facilitado por políticas públicas eficazes e por uma formação continuada estruturada dos profissionais de saúde (ALVES et al., 2025). Essas experiências internacionais podem servir de referência para o aprimoramento do contexto brasileiro, especialmente no que se refere à abordagem e acolhimento familiar.
Por fim, os resultados revelam lacunas na formação acadêmica dos enfermeiros no que tange à temática da captação de órgãos, sobretudo no contexto pediátrico. Esse achado reforça a importância da inclusão do tema nos currículos dos cursos de graduação em Enfermagem, bem como da oferta de capacitações específicas nas instituições de saúde, de modo a assegurar uma atuação qualificada, ética e humanizada frente a esse processo tão complexo e sensível.
Em conclusão, a atuação do enfermeiro no processo de captação de órgãos pediátricos é indispensável, não apenas para os cuidados clínicos, mas também para o apoio emocional às famílias. O fortalecimento da capacitação contínua e a sensibilização dos profissionais de enfermagem são fundamentais para melhorar as taxas de doação e assegurar que o processo seja conduzido com respeito e dignidade.
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1Graduanda em Enfermagem, Instituição: Unisociesc, Endereço: Jaraguá do Sul, Santa Catarina, Email: dayanneoliveiraneris@gmail.com
2Graduanda em Enfermagem, Instituição: Unisociesc, Endereço: Jaraguá do Sul, Santa Catarina, Email: gabilimribeiro@gmail.com
3Enfermeira Mestre em Tecnologia e Inovação pela UFPR e Orientadora, Instituição: Unisociesc, Endereço: Jaraguá do Sul, Santa Catarina, Email: farias.patricia@unisociesc.com.br
4Enfermeira e Coorientadora Email: pamelaameyer13@gmail.com
