THE IMPACT OF THE USE OF MEDIA CONTENT ON THE DEVELOPMENT OF SCHOOL-AGE CHILDREN
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202601112111
Flavia Alessandra Coloda Scalssavara
Maria Izabel Pereira
Marta Regina Clivati
RESUMO
O presente estudo se propôs a investigar os impactos do consumo de mídias no desenvolvimento de crianças em idade escolar, particularmente entre 4 a 10 anos, que frequentaram a clínica odontológica Suprema Odontologia Avançada, localizada na cidade de Primavera do Leste-MT. Estudos sugerem que o excesso de tempo de tela está relacionado ao surgimento de sintomas emocionais, como ansiedade e depressão, além de problemas cognitivos e comportamentais. Procurou-se entender como o tipo de conteúdo consumido, desde o educativo ao violento, pôde influenciar o desenvolvimento da criança, enquanto avaliou a supervisão parental. Foram aplicados questionários para identificar os padrões de uso de mídia, incluindo frequência e tipo de conteúdo, relacionando esses fatores ao comportamento social, emocional e neurocognitivo. Foram realizadas análises descritivas e estatísticas dos resultados, utilizando o teste do qui-quadrado de independência, com nível de significância de p<0,05.
Palavras-chave: Mídias digitais. Uso de telas. Desenvolvimento infantil.
1. INTRODUÇÃO
É indubitável afirmar que a modernização de equipamentos e dispositivos eletrônicos trouxe, como consequência, diversas alterações no comportamento psicossocial do homem hodierno, sobretudo do público infantil.10 As mídias digitais se configuram como qualquer dispositivo de acesso eletrônico, incluindo computadores, tablets e celulares, e seu conteúdo pode ser o mais variado possível, desde aplicativos de mensagens instantâneas, até plataformas de streaming.5, 9, 13
Conforme a evolução constante da tecnologia, os antigos aparelhos que antes eram conhecidos como mídias tradicionais, tais como a televisão (TV) e o rádio, e que não necessitavam de acesso à internet, hoje, são preferencialmente substituídos pelas mídias digitais, dispositivos capazes de proporcionar novas experiências através de um acesso ilimitado e instantâneo ao conteúdo desejado,1 de modo a se tornarem extremamente atrativos ao público infantil, principalmente devido às grandes variações de cores e sons emitidos, que acabam não desenvolvendo certos aspectos da neurocognição, tais como a linguagem.4, 16
Esse fascínio e preferência pelo mundo virtual, quando comparado às mídias tradicionais, também pode ser explicado pelo fato de que as crianças deixaram de ser um público apenas passivo, de tal forma que a única opção era apenas assistir a um conteúdo que era transmitido, sem grandes participações ou diálogos, para serem um público ativo, que não só permite selecionar o que será assistido, mas também, de poder criar um conteúdo por si próprio.1, 12
A constante atualização de novos modelos de dispositivos eletrônicos que prometem gerar entretenimento e uma fuga momentânea da realidade, têm produzido indivíduos com autonomia limitada, de tal forma que opiniões, gostos e padrões são previamente moldados pelas elites e pelos algoritmos presentes em mídias digitais. As novas gerações, nascidas nesse contexto, substituíram os livros – antes a principal fonte de entretenimento infantil – por dispositivos eletrônicos, os quais o brilho das telas se torna mais atrativo do que as interações humanas.
Não é raro encontrar crianças usufruindo de conteúdos midiáticos desde muito cedo, além de serem portadoras de um dispositivo eletrônico próprio. Apesar dos conteúdos midiáticos permitirem, além da distração momentânea, uma complexa rede de conhecimentos e possibilidades, muitos estudos apontam para os malefícios causados pelo tempo excedente de exposição às telas, com grandes impactos não só no desenvolvimento neurocognitivo, mas também, na criação de sintomas psicológicos, como ansiedade e depressão, dificuldades de atenção15 e até mesmo no aumento de risco para doenças cardiovasculares12 .
Grande parte das pesquisas sobre esses efeitos provém, sobretudo, de países asiáticos e europeus, deixando lacunas sobre o impacto nas crianças brasileiras em idade escolar. Desta forma, o presente projeto abordará correlações entre o tempo de exposição à dispositivos eletrônicos, – tais como celulares, tablets, computadores, videogames e televisões -, os tipos de conteúdos consumidos, – incluindo os educativos, violentos e inapropriados para a idade –, e a forma com que tais aspectos podem impactar no comportamento social e pró-social, na regulação de sintomas emocionais, na atenção e concentração de crianças entre 4 a 10 anos. Também serão analisados aspectos como o papel dos pais frente ao controle e supervisão ao tipo de conteúdo consumido e se há verificação da classificação indicativa antes do uso pela criança.
Espera-se que exista uma correlação entre tempo de exposição às telas e tipo de conteúdo consumido, de tal forma que conteúdos violentos e inapropriados para a idade são precursores de sintomas emocionais como irritabilidade e agressividade, bem como períodos longos de exposição diários estejam diretamente relacionados a prejuízos na atenção, no aprendizado e no comportamento social, além de hiperatividade e descontrole emocional. Estima-se, também, que conteúdos educativos, dentro da exposição limite diária, podem trazer benefícios para o desenvolvimento de domínios sociais e da capacidade de auto regulação emocional.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A relação entre o uso excessivo de telas e os efeitos adversos no desenvolvimento de crianças é estudado por pesquisadores por mais de quatro décadas.13 Um estudo feito por Levine et al.8 (2000), coletou informações de crianças entre 8 a 9 anos, no ano de 1999, e descobriu que elas faziam uso de cerca de 1,29 à 1,71 horas por dia de telas. Já Miller et al.11 (2006), relatou, em 2006, em um grupo de crianças com uma média de 4,3 anos, que o tempo de exposição diária era de 2,35 horas por dia, sendo que cerca de 68% das crianças entrevistadas foram classificadas na faixa de risco para o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).
Em 2011, Conners-Burrow et al..3 (2011) encontrou uma média diária de 3,3 horas, além de correlacionar o consumo de mídias mais agressivas e impróprias para a idade, com sintomas de agressão e hiperatividade. Chegando aos tempos atuais, Hedderson et al.6 (2023), em uma pesquisa feita entre 2019 à 2021, observou que, antes do período pandêmico da COVID-19, as crianças faziam uma média de uso de 4,4 horas por dia; já no primeiro período pandêmico, esse tempo aumentou, chegando a 6,6 horas por dia. Além disso, os autores também encontraram uma alta prevalência, durante a pandemia, de crianças que possuíam contas ativas em alguma rede social, visto que a idade mínima necessária para tal é de 13 anos.6
Segundo alguns autores, parte desse consumo excessivo de mídias digitais parece estar atrelado ao comportamento dos pais, de tal modo que muitos utilizam esses dispositivos como uma forma de entretenimento para a criança ou para tranquilizá-la, enquanto praticam atividades de vida diárias ou tarefas domésticas.5,16 Além disso, muitos pais utilizam a permissão às telas como um modo de regular o emocional dos filhos, com a estratégia de que as crianças que são mais agitadas, que choram mais ou que são mais temperamentais, passem a ter um comportamento melhor, em troca dos dispositivos eletrônicos.5,14 Todavia, essa forma de disciplina pode acabar prejudicando o desenvolvimento das crianças, causando déficits na capacidade de auto regulação emocional.14
De acordo com a Academia Americana de Pediatria, o tempo de uso diário às telas não deve exceder o período de duas horas,16 já a Organização Mundial da Saúde prevê que o tempo ideal de uso para crianças entre 2 a 5 anos seria de apenas 1 hora por dia.14 No entanto, pesquisas recentes demonstram que a maioria das crianças não respeitam os limites de uso recomendados, ficando expostas a telas por períodos significativamente maiores, o que pode acarretar diversos impactos, sobretudo no desenvolvimento de áreas cerebrais que regulam emoções, comportamentos e respostas ao ambiente social.5,7
O comportamento pró-social, como foi descrito por Liu et al.9 (2024), inicia-se a partir de 1 ano de idade e se modula a partir de 3 a 6 anos. É caracterizado como as ações positivas e de cooperação realizadas por uma criança, como ajudar, compartilhar e mostrar empatia pelos demais, envolvendo conexões interneurais complexas que garantem a construção da habilidade de interação social.5,9 O estudo publicado por esses autores demonstrou que, quanto maior era o tempo de uso de mídias eletrônicas, menor era a capacidade de construção do comportamento pró-social, através da diminuição do contato direto com outros indivíduos e, consequentemente, das relações interpessoais que permitem o aprendizado de elementos fundamentais para a construção da habilidade de interagir socialmente.9
Ainda com relação aos impactos neurocognitivos, estudos identificaram correlações negativas entre o tempo de exposição às telas e a idade de início de contato, de tal forma que crianças que extrapolam os limites diários recomendados e que tiveram acesso, sobretudo desde a primeira infância, ou seja, no período de 0 a 6 anos, apresentam mais déficits em relação a linguagem, atenção, aprendizado, funções executivas, habilidade motora fina, comportamento social e capacidade de auto controle da regulação emocional.1, 5, 7, 9, 12, 13
As áreas cerebrais que estão relacionadas ao processamento emocional também são afetadas, de modo a gerar sintomas psicológicos como ansiedade, depressão e hiperatividade.4, 5, 9 Um estudo demonstrou que acesso a jogos online está intrinsicamente associado à diminuição da massa cinzenta do hipocampo, afetando a regulação humoral.4 Além disso, evidências também mostraram uma correlação entre o tipo de mídia consumido e o impacto no desenvolvimento, de tal maneira que conteúdos violentos e inapropriados para a idade podem desencadear comportamentos mais agressivos.1, 4
Além do impacto nas funções cerebrais, vale ressaltar que o uso excessivo de telas também está associado a maiores fatores de risco para doenças cardiovasculares futuras, podendo causar obesidade e aumento da pressão arterial, considerando a diminuição da prática de exercícios físicos.12 Pesquisas mostraram que tempos de uso maiores de mídias eletrônicas estavam relacionadas a maiores índices de massa corporal (IMC).6
3. METODOLOGIA
O presente estudo utilizou o método descritivo, analítico, transversal e observacional. A Pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa em Seres Humanos da Fundação Assis Gurgacz (FAG), através do CAAE 86923825.6.0000.5219 e a coleta de dados ocorreu no mês de maio, na recepção da clínica odontológica Suprema Odontologia Avançada, localizada na cidade de Primavera do Leste – MT, através da aplicação de formulários aos pais de crianças de 4 a 10 anos.
Participaram da pesquisa, de forma voluntária, os pacientes da clínica odontológica que eram pais de crianças na faixa etária de 4 a 10 anos. O recrutamento dos participantes foi feito na recepção da clínica, para os pacientes que aguardavam ser atendidos pelo consultório odontológico em questão. Afim de que fossem somente recrutados os pais de crianças na faixa etária esperada, foi questionado previamente à distribuição do formulário se os mesmos possuíam crianças nas idades estimadas.
Como critérios de inclusão da pesquisa, participaram os pais de crianças de 4 a 10 anos que apresentaram consentimento à pesquisa em questão, com desejo de participação voluntária e que assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram excluídos do estudo os pais que não puderam responder e/ou que se recusaram a fornecer o consentimento necessário para a participação da pesquisa. Também foram excluídos pais de crianças fora da faixa etária esperada de 4 a 10 anos.
Quanto aos questionários, esses foram aplicados através formulários online, através da ferramenta Google Forms®, com perguntas e respostas de múltiplas escolhas, ambas simples e de fácil entendimento. O formulário teve uma média de 20 perguntas, de múltipla escolha, algumas com possibilidade de resposta subjetiva, com uma média de 4 alternativas por pergunta, abordando questões, sob o viés dos pais, quanto ao tempo de uso de tela, o tipo de conteúdo consumido e respostas emocionais, sociais e comportamentais frente a exposição infantil à essas ferramentas tecnológicas.
Foram feitas adaptações de questionários amplamente utilizados em pesquisas científicas como o “ScreenQ Questionnaire”, o qual permite identificar aspectos como a frequência de uso de mídias digitais, o modo de acesso, o tipo de conteúdo consumido pelas crianças, bem como o nível de supervisão parental. Além disso, também foi realizada uma adaptação do Questionário de Capacidades e Dificuldades (SDQ), que mede o comportamento social e emocional das crianças, permitindo uma análise correlacional entre o uso de mídias e as respostas emocionais e sociais apresentadas, entre outros questionários validados.
Considerando uma meta inicial de 100 participantes, a pesquisa apresentou um total de 113 respostas. Todos os dados foram tabulados em Planilha do Microsoft Excel, onde foram analisados. Para realização da análise estatística, foi utilizado o teste do qui-quadrado de independência (χ2 ), com objetivo de verificar possíveis associações entre variáveis categóricas, como o tempo diário de exposição às telas, o tipo de conteúdo consumido e a presença de sintomas emocionais e comportamentais. A análise foi conduzida considerando um nível de significância com valor de p menor que 0,05. Também foi feita uma análise descritiva dos dados, utilizando frequências absolutas (n) e relativas (%), organizados em tabelas para melhor interpretação dos resultados.
4. ANÁLISE DOS DADOS
4.1 Perfil etário da amostra
Para a realização do presente estudo, foram coletados 113 formulários, os quais foram preenchidos por pais e responsáveis de crianças entre 4 a 10 anos. A maior concentração de respostas se deu na faixa etária de 7 anos, representando cerca de 20,4% do total de crianças analisadas, seguido pela faixa etária de 6 anos (17,7%), 5 anos (15,9%), 4 anos (14,2%), 8 anos (11,5%), 9 anos (10,6%), e, por fim, 10 anos (9,7%) (Figura 1).

4.2 PADRÕES DE USO DE TELAS
Os resultados revelaram que a quase totalidade das crianças avaliadas faz uso de algum tipo de tela, incluindo televisão, tablets, celulares e computadores. Das 113 respostas coletadas, 111 responsáveis afirmaram que seus filhos utilizam dispositivos com tela diariamente. Dentre essas crianças 55,9% (n=62) possuem um dispositivo eletrônico portátil próprio.
Quando questionados sobre a idade de início do contato com as telas, observou-se que uma parcela significativa foi exposta ainda nos primeiros anos de vida: 30,6% (n=34) iniciaram o uso entre 0 e 11 meses, 20,7% a partir de 12 meses (n=34), 9% entre 13 a 18 meses (n=10) e 39,6% após os 18 meses (n=44) (Figura 2).
Quanto ao tempo médio diário de exposição, 1,8% (n=25) das crianças utilizam telas por menos de uma hora, 79,6% (n=68) entre 1h e 2h30min, e 8,5% (n=18) permanecem por 3 horas ou mais (Figura 3).


4.3 TIPO DE CONTEÚDO CONSUMIDO E REAÇÕES ASSOCIADAS
Os conteúdos mais consumidos pelas crianças foram vídeos longos (como desenhos, fimes, séries) representando cerca de 48,6% das respostas (n=54), seguido por vídeos curtos como Reels, vídeos do Youtube e TikTok, com 27% das respostas (n=20); conteúdos educativos (12,6%) (n=14) e jogos eletrônicos (11,7%) (n=13) (Figura 4).
Além disso, muitos pais relataram ter percebido seus filhos assistindo a conteúdos inapropriados: 28,8% (n=32) relataram presença de violência física, 42,3% (n=47) linguagem inadequada, 42,3% (n=47) temas de terror ou suspense, e 9,9% (n=11) desafios perigosos. Cerca de 31,5% (n=35) afirmaram não ter observado esses tipos de conteúdos sendo consumidos pelas crianças (Figura 5).
Reações emocionais negativas após o consumo também foram relatadas. Cento e nove pais afirmaram que seus filhos demonstraram medo, ansiedade ou comportamentos incomuns após assistirem certos conteúdos, sendo que 52,3% disseram que isso ocorre algumas vezes e 1,8% disseram que isso ocorre frequentemente (Figura 6).
Além das questões objetivas do questionário, os responsáveis tiveram a oportunidade de descrever, de forma subjetiva, quais tipos de conteúdos digitais consumidos desencadearam reações incomuns. O tema mais citado foi o terror (monstros, fantasmas, bruxas), presente em 17 relatos, seguido por vídeos no YouTube (n=9), que incluíam sustos, pegadinhas violentas e linguagem imprópria (Figura 7).
Os jogos digitais também foram mencionados em 7 respostas. Jogos como Roblox e experiências envolvendo inteligência artificial causaram desconforto, inquietação e medo antes de dormir. Alguns relatos destacaram o impacto das interações com elementos virtuais agressivos ou bizarros (Figura 7).
Outras categorias menos frequentes incluíram conteúdos relacionados à morte ou perdas de familiares totalizaram 4 relatos; já conteúdos que abordavam temas como isolamento social ou medo de ficar sozinho apresentaram 2 relatos. Também foram citados conteúdos com estímulos sensoriais excessivos, como sons e cores fortes (n=2), e até violência e linguagens inadequadas (n=1), mesmo dentro de plataformas voltadas a esse público. Filmes infantis, como Coraline, também foram relatados (n=2) (Figura 7).




4.4 SUPERVISÃO PARENTAL E LIMITES DE USO
No que se refere à supervisão, a maioria dos pais relatou verificar a classificação indicativa dos conteúdos: 64% (n=71) sempre o fazem, 26,1% (n=29) fazem às vezes, 8,1% (n=9) nunca verificam, e 1,8% (n=2) desconheciam a existência de classificação indicativa (Figura 8).
Quanto à supervisão ativa durante o uso de telas, 73% (n=81) dos pais acompanham sempre o que os filhos assistem, 26,1% (n=29) apenas às vezes, 0,9% (n=1) afirmaram que nunca supervisionam (Figura 9).
Com relação à imposição de limites, 70,3% (n=78) dos responsáveis disseram sempre impor restrições quanto ao tempo de uso das telas, enquanto 28,8% (n=32) afirmaram que às vezes o fazem (Figura 10).



4.5 CONSUMO DE CONTEÚDOS EDUCATIVOS
De acordo com os dados coletados, uma parte expressiva das crianças, 96,4% (n=107), consome conteúdos com foco educativo. Dentre as crianças que consomem esse tipo de conteúdo, 97,2% dos responsáveis relataram melhora no vocabulário e 95,3% apontaram que seus filhos demonstraram maior interesse por aprender coisas novas após a exposição a esse tipo de conteúdo.
No que diz respeito aos aspectos comportamentais, 93,5% dos pais afirmaram reprodução, de forma espontânea, de comportamentos positivos abordados nesses programas, como respeito, cooperação e resolução de conflitos. Já 78,5% indicaram que houve efeito calmante ou emocional após a exposição, indicando o possível benefícios desses conteúdos no que diz respeito a autorregulação emocional. Por fim, 82,1% dos responsáveis relataram maior contribuição para comportamentos de empatia e leitura emocional do outro.
A Tabela 1 apresenta as perguntas realizadas aos pais que responderam sim frente ao consumo de conteúdos educativos pelas crianças.
Tabela 1 – Perguntas e respostas apresentadas no questionário à respeito dos possíveis benefícios dos conteúdos educativos
| Sim | Não | |
| A criança já aprendeu novas palavras ou melhorou a linguagem assistindo a conteúdos educativos? | 97,2% (n=104) | 2,8% (n=3) |
| A criança demonstra interesse em aprender coisas novas após assistir a programas educativos? | 95,3% (n=102) | 4,7% (n=5) |
| A criança imita/já imitou comportamentos positivos (ex: respeito, cooperação, resolução de problemas) apresentados em conteúdos educativos? | 93,5% (n=100) | 6,5% (n=7) |
| A criança costuma se acalmar ou se sentir mais tranquila ao assistir a conteúdos educativos? | 78,5% (n=84) | 21,5% (n=23) |
| Você já percebeu se a criança, após assistir a conteúdos educativos, passou a compreender melhor as emoções e sentimento dos outros? | 82,1% (n=87) | 17,9% (n=19) |
4.6 SINTOMAS EMOCIONAIS x TEMPOS DE EXPOSIÇÃO
O presente estudo fez uma análise comparativa entre as crianças que apresentaram queixas como ansiedade, tristeza, preocupação, insegurança, desobediência, não aceitação de regras e dependência emocional excessiva, com as respostas dos tempos de exposição diário de telas (Tabelas 1, 2 e 3). O grupo com <1hora de exposição (grupo 1) apresentou 25 respostas totais, o grupo com 1h a 2h30min de exposição (grupo 2) apresentou 68 respostas totais e o grupo com >3horas de exposição (grupo 3) apresentou 18 respostas totais.
Quanto a questão dos sintomas de ansiedade, tristeza e preocupação frequentes, foi encontrado uma taxa de 32% no grupo 1 (Tabela 2), 30,8% no grupo 2 (Tabela 3) e cerca de 38,8% no grupo 3 (Tabela 4). Em relação aos sintomas de insegurança, foi registrado em cerca 44% das respostas do grupo 1 (Tabela 2), 69,1% das respostas do grupo 2 (Tabela 3) e 66,7% das respostas do grupo 3 (Tabela 4).
A dependência emocional excessiva se apresentou em 36% das respostas do grupo 1 (Tabela 2), 35,3% das respostas do grupo 2 (Tabela 3) e 55,56% das respostas do grupo 3 (Tabela 4). Já questões como aceitação de limites impostos por pais e professores obteve uma totalidade de 100% das respostas do grupo 1 (Tabela 2), 98,5% das respostas do grupo 2 (Tabela 3) e 88,9% das respostas do último grupo (Tabela 4). A questão da ausência de autoconfiança ficou com 96% das respostas do grupo 1 (Tabela 2), 95,6% das respostas do grupo 2 (Tabela 3) e 88,9% das respostas do grupo 3 (Tabela 4).
Foi aplicado o teste do qui-quadrado de independência para verificar se há associação estatística significativa entre os tempos de exposição e a manifestação de sintomas emocionais. Considerando os três grupos de tempo de exposição, nenhum deles apresentou relevância estatística, muito embora sintomas como insegurança e baixa autoconfiança apresentaram tendências à associação (p entre 0,08 e 0,09), mas sem alcançar dados estatísticos importantes.




4.7 SINTOMAS SOCIAIS x TEMPO DE EXPOSIÇÃO
Os 3 grupos de tempos de exposição de telas também foram associados a sintomas sociais de maneira estatística. Fazendo comparação estatística entre os dados, apenas a preferência por uso de telas à realização de brincadeiras fora de casa, sozinho ou com outras crianças apresentou associação estatisticamente significativa (teste de χ 2, p = 0,0017). As demais respostas abordando assuntos como empatia, solidariedade, respeito à vez, comportamento pró-social, isolamento ou fobia social não apresentaram relevância estatística (todos os p-valores > 0,3).
4.8 ASSOCIAÇÃO ENTRE CONTEÚDOS VIOLENTOS E INAPROPRIADOS PARA A IDADE COM SINTOMAS DE HIPERATIVIDADE E AGRESSIVIDADE
Uma análise estatística foi feita comparando o consumo de conteúdos agressivos e inapropriados para a idade, tais como violência física, linguagem imprópria, assuntos de terror/suspense ou desafios perigosos (Figura 5), com sintomas de emocionais de agressividade e acessos de raiva (Figura 11). As respostas foram agrupadas em dois segmentos: expostos a conteúdos agressivos/impróprios e não expostos (aqueles cujo responsável respondeu a “não percebi nada disso”). Foi encontrada uma relação estatística significativa entre as variáveis (teste de χ 2, p = 0,0001), indicando que os sintomas de irritabilidade podem estar associados ao tipo de conteúdo consumido, sobretudo os violentos e impróprios para a idade.
A associação entre sintomas de hiperatividade e déficit de atenção com os conteúdos impróprios/violentos também foi realizada. Entre as perguntas presentes no questionário sobre tais sintomas, as que apresentaram correlação estatística de relevância foram: dificuldade de concentração ou finalização de tarefas (teste de χ 2, p = 0,0149), dificuldade em ouvir e prestar atenção (teste de χ 2, p = 0,0020) e troca rápida de atividades sem concluir (teste de χ 2, p = 0,0021), sugerindo que tais conteúdos podem interferir em aspectos como a atenção e comportamento.

5. CONCLUSÃO
O presente estudo teve como objetivo analisar os impactos do uso de conteúdos midiáticos no desenvolvimento emocional, social e comportamental de crianças em idade escolar, considerando o tempo de exposição às telas, o tipo de conteúdo consumido e o papel da supervisão parental. A partir dos dados obtidos, foi possível constatar que o uso de dispositivos eletrônicos é uma prática amplamente inserida no cotidiano infantil atual, de modo que quase a totalidade inteira das crianças analisadas fazem uso diário de telas, sendo que mais da metade possui um dispositivo eletrônico próprio.
Quanto a idade de introdução às telas, há uma grande expressividade nos números de crianças que iniciaram o contato ainda nos primeiros anos de vida, de tal forma que mais da metade apresentou início de contato antes mesmo dos 18 meses. Já o tempo de exposição, a maioria das crianças permanece entre uma hora e duas horas e meia por dia, valor que se aproxima ou ultrapassa as recomendações de órgãos nacionais e internacionais de saúde, enquanto uma parcela menor permanece exposta por períodos superiores a três horas diárias.
No que se refere à relação entre tempo de exposição e sintomas emocionais, não foram encontradas associações estatisticamente significativas entre as variáveis analisadas. Entretanto, observou-se uma tendência de maior frequência de sintomas como insegurança, dependência emocional excessiva e dificuldades relacionadas à autoconfiança nas crianças com maior tempo diário de uso, especialmente no grupo com exposição superior a três horas. Esses achados sugerem que, embora o tempo de tela isoladamente não determine alterações emocionais de forma direta, ele pode atuar como um fator agravante quando associado a outros elementos do contexto infantil.
Em relação aos aspectos sociais, a análise estatística revelou associação significativa apenas quanto à preferência pelo uso de telas em detrimento de brincadeiras presenciais, tanto sozinho quanto com outras crianças. Tal resultado indica que o uso prolongado de dispositivos eletrônicos pode favorecer a substituição das interações sociais diretas por atividades mediadas por telas, o que pode impactar o desenvolvimento social ao longo do tempo. As demais variáveis sociais, como empatia, solidariedade, respeito às regras e comportamento pró-social, não apresentaram associação estatisticamente significativa com o tempo de exposição.
Os dados também evidenciaram que o tipo de conteúdo consumido exerce papel central nos impactos observados. O consumo de conteúdos violentos ou inadequados para a faixa etária, como violência física, linguagem imprópria, temas de terror ou desafios perigosos, apresentou associação estatisticamente significativa com sintomas de agressividade, irritabilidade e acessos de raiva. Além disso, esse tipo de conteúdo também se mostrou associado a dificuldades de atenção, como problemas de concentração, dificuldade em finalizar tarefas, menor capacidade de escuta e troca frequente de atividades sem conclusão, indicando possível interferência no comportamento e nas funções atencionais das crianças.
Os relatos subjetivos dos responsáveis reforçaram esses achados, ao apontarem que conteúdos relacionados ao terror, vídeos com sustos, jogos digitais com elementos agressivos ou estímulos excessivos e determinados conteúdos disponíveis em plataformas digitais desencadearam medo, ansiedade, inquietação e alterações comportamentais, inclusive dificuldades para dormir e maior dependência emocional.
Por outro lado, o consumo de conteúdos educativos foi amplamente relatado e associado a diversos benefícios no desenvolvimento infantil. A maioria dos responsáveis observou melhora no vocabulário, maior interesse por aprender, reprodução espontânea de comportamentos positivos, como respeito e cooperação, além de melhor compreensão das emoções e sentimentos dos outros. Também foi relatado efeito calmante após a exposição a esse tipo de conteúdo, sugerindo possível contribuição para a autorregulação emocional, quando utilizado de forma adequada.
A supervisão parental mostrou-se presente na maior parte dos casos, uma vez que a maioria dos responsáveis afirmou verificar a classificação indicativa, acompanhar o que as crianças assistem e impor limites quanto ao tempo de uso. Ainda assim, a expressiva exposição a conteúdos impróprios indica que, apesar da supervisão, existem dificuldades no controle efetivo do acesso.
Diante dos resultados obtidos, conclui-se que os impactos do uso de mídias digitais na infância não estão relacionados exclusivamente ao tempo de exposição, mas decorrem de uma interação complexa entre a duração do uso, o tipo de conteúdo acessado, a idade da criança e a mediação exercida pelos adultos. Nesse sentido, torna-se fundamental a orientação contínua aos pais e responsáveis quanto à seleção criteriosa dos conteúdos e à mediação ativa do uso das tecnologias, bem como a realização de novos estudos, especialmente de caráter longitudinal, que possibilitem aprofundar a compreensão dos efeitos a longo prazo da exposição às mídias digitais no desenvolvimento infantil.
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