MOOD DISORDERS IN OLDER ADULTS IN BRAZIL OVER THE LAST 10 YEARS AND THE IMPACT OF PROBLEM-SOLVING THERAPY ON ITS MANAGEMENT IN PRIMARY CARE IN THE CONTEXT OF POLYPHARMACY
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202601110844
Dr. Nelson Camilo Ribeiro Júnior1
Drª. Juliana da Luz Araújo2
Drª Carolina da Silva Bezerra3
Dr. Northon Oliveira Rocha Brito4
Drª Pollyana Ferreira Dias5
Drª Isabelle Dias Cavalcante Rapouzeiro6
Augusto Dias Cavalcante7
RESUMO
Os transtornos de humor em idosos representam um importante problema de saúde pública no Brasil, especialmente nas últimas décadas, marcadas pelo envelhecimento acelerado da população e pelo aumento das condições crônicas e da multimorbidade. Entre esses transtornos, o Transtorno Depressivo Maior (TDM) destaca-se por sua elevada prevalência, impacto funcional e associação com maior risco de hospitalizações, incapacidade e mortalidade. A presente revisão analisou os números relacionados aos transtornos de humor em idosos no Brasil nos últimos dez anos (2015–2024), com base em dados do DATASUS, considerando variáveis como internações, mortalidade, sexo, faixa etária e distribuição regional. Paralelamente, examinou-se o papel da Terapia de Resolução de Problemas (TRP) como intervenção não farmacológica eficaz para o manejo da depressão leve a moderada na Atenção Primária à Saúde (APS), especialmente no contexto da polifarmácia — condição altamente prevalente entre idosos e associada a eventos adversos, quedas, declínio cognitivo e maior utilização dos serviços hospitalares. A literatura demonstra que a TRP é segura, viável e apresenta tamanhos de efeito comparáveis aos antidepressivos nessa população e para essa gravidade, sem os riscos associados às múltiplas medicações. Assim, discutir sua implementação rotineira na APS configura estratégia promissora para qualificar o cuidado, reduzir a dependência de psicofármacos e mitigar riscos associados à polifarmácia, especialmente em idosos frágeis e multimórbidos.
Palavras-chave: Terapia de Resolução de Problemas. Transtorno do Humor. Atenção Primária. Medicina de Família e Comunidade.
ABSTRACT
Mood disorders in older adults are a significant public health concern in Brazil, particularly over the last decade, during which the population has aged rapidly and chronic conditions have become increasingly prevalent. Major Depressive Disorder (MDD) stands out due to its high prevalence, functional impairment, and strong association with hospitalization, disability, and mortality. This review analyzed national data from DATASUS on mood disorders in older adults from 2015 to 2024, including hospital admissions, mortality, sex distribution, age groups, and regional disparities. Additionally, the study examined the role of Problem-Solving Therapy (PST) as an effective non-pharmacological intervention for managing mild to moderate depression in Primary Health Care (PHC), especially in the context of polypharmacy—a highly prevalent condition among older adults and a major contributor to adverse drug events, cognitive decline, falls, and increased hospital utilization. Evidence shows that PST is safe, feasible, and achieves effect sizes comparable to antidepressants, without the risks associated with multiple medications. Its implementation within PHC is therefore a promising strategy to improve the quality of care, reduce unnecessary antidepressant use, and mitigate the risks of polypharmacy in frail and multimorbid older adults.
Keywords: Problem-Solving Therapy. Major Depressive Disorder. Primary Health Care. Polypharmacy. Older Adults. Family and Community Medicine.
1. INTRODUÇÃO
A depressão e os transtornos de humor, de forma geral, são um dos principais problemas de saúde pública no mundo, associando-se a elevado sofrimento individual, perda de funcionalidade, aumento da morbimortalidade e impacto econômico significativo (ABDOLI et al., 2022). Estimativas globais indicam crescimento progressivo da prevalência do transtorno depressivo ao longo das últimas décadas, em paralelo às profundas transformações demográficas observadas mundialmente, marcadas pelo envelhecimento populacional, pela inversão da pirâmide etária e pelo aumento consistente da expectativa de vida. Nesse contexto, os transtornos de humor assumem especial relevância entre os idosos, grupo etário mais exposto a multimorbidades, perdas funcionais, isolamento social e maior utilização dos serviços de saúde (CAI et al., 2023). Revisões sistemáticas e metanálises recentes apontam prevalências expressivas de depressão e de transtorno depressivo maior (TDM) na população idosa em diferentes regiões do mundo, bem como outros transtornos de humor, com variações relacionadas a fatores socioeconômicos, culturais e metodológicos, mas convergindo para a constatação de que se tratam de condições altamente prevalentes e frequentemente subdiagnosticadas nessa faixa etária (ABDOLI et al., 2022; CAI et al., 2023; JALALI et al., 2024).
No Brasil, a transição demográfica ocorre de forma acelerada, com crescimento rápido da população idosa e aumento proporcional da carga de doenças crônicas e transtornos mentais. O envelhecimento populacional, associado à maior sobrevida, amplia o tempo de exposição a fatores de risco biopsicossociais para o adoecimento mental, tornando o TDM uma condição cada vez mais relevante na Atenção Primária à Saúde (APS) (HAO et al., 2023). Estudos internacionais demonstram que a depressão, e os transtornos de humor, em idosos, estão associados a maior incapacidade funcional, pior qualidade de vida, aumento do risco de hospitalizações e maior mortalidade, sobretudo quando coexistem comorbidades clínicas, comprometimento cognitivo e disfunções executivas (ABDOLI et al., 2022; CAI et al., 2023). Além disso, formas subclínicas ou subthreshold de depressão também são altamente prevalentes e clinicamente relevantes, uma vez que se associam a pior prognóstico funcional e maior risco de progressão para quadros depressivos maiores (HAO et al., 2023).
Diante desse cenário, intervenções psicoterapêuticas têm ganhado destaque como estratégias eficazes e seguras no manejo da depressão em idosos, especialmente no âmbito da APS. Entre essas intervenções, a Terapia de Resolução de Problemas (Problem-Solving Therapy – PST ou TRP) destaca-se como uma abordagem estruturada, breve e focal, originalmente desenvolvida a partir de modelos cognitivo-comportamentais, com o objetivo de aprimorar habilidades de enfrentamento, tomada de decisão e manejo de problemas cotidianos associados ao sofrimento psíquico (KIRKHAM; CHOI; SEITZ, 2016). A TRP baseia-se na identificação sistemática de problemas relevantes, geração de alternativas, tomada de decisões e implementação de soluções, sendo particularmente adequada para idosos com limitações funcionais, comorbidades físicas ou disfunção executiva.
Evidências acumuladas ao longo das últimas décadas demonstram a eficácia da TRP no tratamento do TDM em idosos, inclusive quando comparada a intervenções de suporte, com impacto positivo sobre sintomas depressivos, funcionalidade e incapacidade (ALEXOPOULOS; RAUE; AREÁN, 2003; ALEXOPOULOS et al., 2011; AREÁN et al., 2010; KIRKHAM; CHOI; SEITZ, 2016).
Ensaios clínicos e estudos comparativos reforçam que a TRP é eficaz em diferentes contextos assistenciais, incluindo cuidados domiciliares e Atenção Primária, além de apresentar boa aceitabilidade e viabilidade operacional. Estudos mais recentes indicam benefícios da TRP não apenas na redução dos sintomas depressivos, mas também na prevenção de transtornos mentais comuns e na melhora do funcionamento global em idosos com necessidades complexas de cuidado (ALBERT et al., 2019; ALEXOPOULOS et al., 2021). Revisões sistemáticas e metanálises sugerem que intervenções psicoterapêuticas, incluindo a TRP, apresentam eficácia consistente no tratamento da depressão e outros transtornos de humor em diferentes faixas etárias, com resultados particularmente relevantes na população idosa e no contexto da APS (CUIJPERS et al., 2020; HOLVAST et al., 2017; JONSSON et al., 2016; FROST; BAUERNFREUND; WALTERS, 2019).
Paralelamente ao aumento da prevalência de depressão em idosos, observa-se crescimento expressivo da polifarmácia nessa população, definida geralmente como o uso concomitante de cinco ou mais medicamentos. A polifarmácia é altamente prevalente entre idosos e associa-se a maior risco de eventos adversos, interações medicamentosas, quedas, hospitalizações, declínio cognitivo e mortalidade. Revisões sistemáticas demonstram que fatores como multimorbidade, fragilidade e acesso fragmentado aos serviços de saúde contribuem significativamente para esse fenômeno (DELARA et al., 2022). No contexto da depressão, o uso de antidepressivos soma-se frequentemente a múltiplos fármacos prescritos para condições crônicas, ampliando o risco de efeitos adversos e iatrogenias. Evidências recentes indicam que estratégias de revisão medicamentosa e desprescrição em idosos podem reduzir eventos adversos e melhorar desfechos clínicos, reforçando a necessidade de abordagens terapêuticas que minimizem a carga farmacológica quando clinicamente apropriado (CAROLLO et al., 2024).
Nesse cenário, intervenções não farmacológicas eficazes, como a Terapia de Resolução de Problemas, assumem papel estratégico no manejo do TDM e outros transtornos de humor em idosos, especialmente na APS, onde a longitudinalidade do cuidado e a abordagem centrada na pessoa favorecem sua implementação (ALBERT et al., 2019). Ao oferecer uma alternativa ou complemento ao tratamento farmacológico, a TRP pode contribuir para a redução do uso desnecessário de antidepressivos em casos selecionados, mitigando riscos associados à polifarmácia e promovendo cuidado mais seguro e integral (DELARA et al., 2022).
Dessa forma, o presente estudo tem como objetivo descrever e analisar a evolução dos números relacionados aos transtornos de humor em idosos no Brasil ao longo da última década, bem como discutir o papel da Terapia de Resolução de Problemas como estratégia não farmacológica no manejo da depressão na Atenção Primária em Saúde, particularmente frente aos desafios impostos pela polifarmácia nessa população.
2. METODOLOGIA
O presente trabalho consiste em um estudo retrospectivo, de delineamento observacional e analítico, fundamentado na utilização de dados secundários extraídos de sistemas oficiais de informação em saúde do Sistema Único de Saúde (SUS), disponibilizados pela plataforma DATASUS, com ênfase nos sistemas de informações hospitalares (SIH/SUS) e ambulatoriais, quando pertinentes. Paralelamente, realizou-se uma revisão da literatura científica nacional e internacional, com o objetivo de contextualizar os achados epidemiológicos e analisar o impacto da Terapia de Resolução de Problemas (TRP) no manejo do Transtorno Depressivo Maior (TDM) e outros transtornos de humor em idosos, especialmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS) e no contexto da polifarmácia.
O recorte temporal adotado compreende o período de 2015 a 2024 – último ano com dados integralizados na plataforma TABNET. O recorte populacional restringe-se a indivíduos idosos (≥60 anos), residentes no Brasil, atendidos na rede pública de saúde, com diagnóstico de transtorno de humor, identificado por meio dos códigos correspondentes da Classificação Internacional de Doenças – CID-10 (F30 a F39). A obtenção dos dados epidemiológicos foi realizada por meio da seleção dos registros de internação hospitalar e mortalidade associados aos códigos de transtorno de humor, organizados por ano, sexo, faixa etária e cor/raça.
Considerando que os sistemas de informação do DATASUS não disponibilizam dados diretos sobre intervenções psicoterapêuticas específicas, como a Terapia de Resolução de Problemas, nem informações detalhadas sobre esquemas farmacológicos individuais, tornou-se necessária a complementação metodológica por meio de revisão narrativa integrativa da literatura. Outra limitação é a ausência de dados específicos para transtorno depressivo maior na plataforma TABNET, os quais se encontram agrupados como “transtornos de humor/afetivos”.
A revisão de literatura foi conduzida nas bases PubMed, Scopus, Web of Science e SciELO, utilizando descritores controlados e não controlados, tais como: “Problem-Solving Therapy”, “major depressive disorder”, “late-life depression”, “elderly”, “older adults”, “primary health care”, “polypharmacy” e “nonpharmacological interventions”. Foram considerados elegíveis artigos publicados entre 2005 e 2025, nos idiomas inglês, português ou espanhol, que abordassem a utilização da TRP ou intervenções psicossociais semelhantes no tratamento do TDM e outros transtornos de humor em idosos, especialmente em contextos de APS ou cuidados comunitários. Foram excluídos relatos de caso, estudos exclusivamente pediátricos, publicações sem dados clínicos ou sem relação com o manejo da depressão em idosos.
Entre os estudos selecionados, privilegiaram-se ensaios clínicos randomizados, estudos observacionais de base populacional, revisões sistemáticas e metanálises que avaliassem desfechos como redução da gravidade dos sintomas depressivos, funcionalidade, qualidade de vida, adesão ao tratamento, uso de psicofármacos e impacto sobre a polifarmácia. As variáveis extraídas incluíram características da população estudada, contexto assistencial, descrição da intervenção em TRP, comparadores farmacológicos ou cuidados usuais, bem como indicadores estatísticos apresentados, tais como valores de p, intervalos de confiança, razões de risco e tamanhos de efeito.
3. RESULTADOS
A análise da distribuição regional das internações evidencia marcadas desigualdades geográficas no Brasil. As regiões Sul e Sudeste concentram, juntas,393.189 internações, correspondendo a aproxi madamente 72,7% do total nacional.
A Região Sul, isoladamente, apresenta o maior número absoluto de internações (207.107; 38,3%), seguida pela Região Sudeste (186.082; 34,4%). Esses valores contrastam de forma expressiva com os observados nas regiões Norte (20.735; 3,8%) e Centro-Oeste (52.942; 9,8%), indicando forte concentração dos registros hospitalares em regiões mais desenvolvidas do ponto de vista socioeconômico e com maior oferta de serviços especializados (tabela 1).
Tabela 1. Números de internações por transtornos de humor/afetivos no Brasil, de 2015 a 2024, conforme Região da Federação.
| Região | Internações |
| 1 Região Norte | 20.735 |
| 2 Região Nordeste | 74.212 |
| 3 Região Sudeste | 186.082 |
| 4 Região Sul | 207.107 |
| 5 Região Centro-Oeste | 52.942 |
| Total | 541.078 |
Essa distribuição pode refletir múltiplos fatores concomitantes. Do ponto de vista assistencial, regiões Sul e Sudeste possuem maior densidade de leitos hospitalares, maior cobertura de serviços especializados em saúde mental e maior capacidade de registro e notificação no SIH/SUS. Do ponto de vista epidemiológico, é plausível supor maior identificação diagnóstica e encaminhamento para internação nessas regiões, o que pode inflar os números absolutos quando comparados a regiões com acesso mais restrito aos serviços. A Região Nordeste, com 74.212 internações (13,7%), ocupa posição intermediária, possivelmente refletindo tanto sua grande população quanto desigualdades internas de acesso à rede de saúde.
Quando analisados de forma proporcional, os dados sugerem que o volume de internações não acompanha linearmente a distribuição populacional brasileira, apontando para possíveis iniquidades no cuidado em saúde mental. Regiões com menor número absoluto de internações podem apresentar subdiagnóstico ou barreiras de acesso, enquanto regiões com maior concentração de casos podem estar absorvendo demandas reprimidas ou atuando como polos de referência. Esses achados reforçam a necessidade de fortalecimento da Atenção Primária e da rede de atenção psicossocial em todo o território nacional, de modo a reduzir a dependência do cuidado hospitalar e equilibrar regionalmente a assistência.
Houve um total de 541.078 internações por transtornos de humor/afetivos no Brasil ao longo do período de 2015 a 2024, revelando uma tendência global de crescimento ao longo da série histórica, apesar de flutuações pontuais. Observa-se que, em 2015, foram registradas 48.021 internações, número que apresentou discreta redução em 2016 (45.239; variação percentual aproximada de −5,8%), seguido de retomada em 2017 (48.587) e crescimento mais consistente a partir de 2018. O pico inicial ocorre em 2019, com 59.473 internações, representando um aumento de cerca de 23,8% em relação a 2015. Esse crescimento progressivo sugere aumento da carga assistencial relacionada aos transtornos de humor no sistema hospitalar brasileiro, possivelmente associado à maior detecção diagnóstica, agravamento dos quadros ou insuficiência de estratégias efetivas de manejo ambulatorial e comunitário.
Entre 2020 e 2021, observa-se uma redução relativa no número absoluto de internações (49.023 e 51.525, respectivamente), quando comparadas ao ano imediatamente anterior. Essa queda, da ordem de aproximadamente 17,6% entre 2019 e 2020, pode ser interpretada como um efeito indireto da reorganização do sistema de saúde e da redução de internações eletivas durante esse período, sem necessariamente indicar diminuição real da incidência ou gravidade dos transtornos de humor. A partir de 2022, entretanto, nota-se nova inflexão ascendente, com 57.534 internações, culminando em 64.768 em 2023, o maior valor de toda a série, mantendo-se elevado em 2024 (64.335). Comparando-se os extremos da série, há um incremento absoluto de 16.314 internações entre 2015 e 2024, correspondendo a um aumento relativo aproximado de 34%, o que reforça a relevância crescente desses transtornos no contexto da saúde pública brasileira.
Do ponto de vista estatístico descritivo, a média anual de internações no período foi de aproximadamente 54.108 casos, com desvio expressivo em relação aos valores iniciais da série, indicando heterogeneidade temporal relevante. A tendência ascendente observada nos últimos três anos da série (2022–2024) sugere possível efeito cumulativo de fatores demográficos, como envelhecimento populacional, associado a limitações da rede de Atenção Primária e de cuidados psicossociais em absorver e manejar casos moderados e graves, culminando em maior necessidade de internação hospitalar. Esses dados reforçam a importância de estratégias preventivas e terapêuticas eficazes no nível ambulatorial, especialmente para populações vulneráveis, como os idosos.
Tabela 2. Números de internações por transtornos de humor/afetivos no Brasil, de 2015 a 2024
| Ano atendimento | Internações |
| 2015 | 48.021 |
| 2016 | 45.239 |
| 2017 | 48.587 |
| 2018 | 52.573 |
| 2019 | 59.473 |
| 2020 | 49.023 |
| 2021 | 51.525 |
| 2022 | 57.534 |
| 2023 | 64.768 |
| 2024 | 64.335 |
| Total | 541.078 |
FONTE: SIH/SUS, 2025
Gráfico 1. Números de internações por transtornos de humor/afetivos no brasil, de 2015 a 2024

FONTE: SIH/SUS, 2025
Nota-se clara predominância do sexo feminino nas internações por transtornos de humor/afetivos ao longo do período analisado. Do total de 541.078 internações, 358.626 ocorreram em mulheres, correspondendo a aproximadamente 66,3%, enquanto os homens responderam por 182.452 internações (33,7%). Essa razão feminino:masculino de aproximadamente 2:1 é consistente com a literatura epidemiológica, que aponta maior prevalência de transtornos depressivos e afetivos entre mulheres em diferentes contextos e faixas etárias (tabela 3).
Do ponto de vista estatístico, a diferença absoluta entre os sexos é de 176.174 internações, o que representa um excesso expressivo de hospitalizações femininas. Essa disparidade pode ser explicada por uma combinação de fatores biológicos, psicossociais e culturais, incluindo maior vulnerabilidade feminina a transtornos do humor, maior procura por serviços de saúde e maior probabilidade de diagnóstico formal. Além disso, mulheres tendem a viver mais, o que aumenta sua representação nos estratos etários mais avançados, nos quais a carga de depressão e suas complicações tende a ser maior.
Entretanto, é importante ressaltar que a menor proporção de internações masculinas não implica necessariamente menor gravidade ou impacto da doença nesse grupo. Estudos apontam que homens frequentemente apresentam maior subdiagnóstico e menor adesão ao tratamento ambulatorial, o que pode resultar em desfechos mais graves, incluindo maior risco de suicídio. Assim, os dados apresentados sugerem que, embora as mulheres sejam mais frequentemente hospitalizadas, há necessidade de estratégias específicas de detecção precoce e manejo adequado para ambos os sexos, considerando suas particularidades clínicas e comportamentais (ALBERT et al., 2019).
Tabela 3. Números de internações por transtornos de humor/afetivos no Brasil, de 2015 a 2024, conforme o sexo.
| Sexo | Internações |
| Masculino | 182.452 |
| Feminino | 358.626 |
| Total | 541.078 |
FONTE: SIH/SUS, 2025
A distribuição das internações por faixa etária revela padrão claramente concentrado na população adulta jovem e de meia-idade, com declínio progressivo a partir dos 60 anos. As faixas etárias de 35 a 39 anos (62.986 internações), 40 a 44 anos (61.531) e 30 a 34 anos (58.434) concentram os maiores volumes absolutos, configurando um pico entre a terceira e a quinta décadas de vida. Em conjunto, os indivíduos de 20 a 59 anos respondem por aproximadamente 80% de todas as internações, evidenciando elevada carga hospitalar nessa fase produtiva da vida.
A partir dos 60 anos, observa-se redução acentuada do número absoluto de internações, com 26.260 casos entre 60 e 64 anos e queda progressiva nas faixas subsequentes, chegando a apenas 2.735 internações em indivíduos com 80 anos ou mais. Essa redução pode refletir múltiplas hipóteses: menor acesso dos idosos muito longevos aos serviços hospitalares, subdiagnóstico de transtornos depressivos nessa faixa etária, priorização de outras causas clínicas de internação ou manejo predominantemente ambulatorial e domiciliar desses pacientes. Do ponto de vista proporcional, os idosos representam cerca de 10% do total de internações, valor inferior ao esperado quando se considera o envelhecimento populacional e a elevada prevalência de depressão nessa faixa etária descrita em estudos epidemiológicos.
Essa aparente discrepância sugere que a depressão em idosos pode estar sendo subtratada ou invisibilizada no ambiente hospitalar, possivelmente mascarada por comorbidades clínicas ou atribuída erroneamente ao envelhecimento “normal”. Além disso, o menor número de internações não implica menor impacto clínico, uma vez que a depressão em idosos associa-se a maior incapacidade funcional, pior prognóstico e maior complexidade terapêutica, especialmente no contexto da polifarmácia. Assim, os dados reforçam a necessidade de fortalecimento de estratégias de cuidado em saúde mental voltadas especificamente à população idosa na Atenção Primária, com vistas à prevenção de agravamentos, redução de hospitalizações evitáveis e promoção de cuidado integral e contínuo (CUIJPERS et al., 2020; HOLVAST et al., 2017; JONSSON et al., 2016; FROST; BAUERNFREUND; WALTERS, 2019).
Tabela 4. Números de internações por transtornos de humor/afetivos no Brasil, de 2015 a 2024, conforme a faixa etária, a partir dos 20 anos.
| Faixa Etária | Internações |
| 20 a 24 anos | 50.111 |
| 25 a 29 anos | 53.456 |
| 30 a 34 anos | 58.434 |
| 35 a 39 anos | 62.986 |
| 40 a 44 anos | 61.531 |
| 45 a 49 anos | 56.633 |
| 50 a 54 anos | 51.628 |
| 55 a 59 anos | 41.138 |
| 60 a 64 anos | 26.260 |
| 65 a 69 anos | 15.461 |
| 70 a 74 anos | 7.619 |
| 75 a 79 anos | 3.913 |
| 80 anos e mais | 2.735 |
| Total | 541.078 |
FONTE: SIH/SUS, 2025
Gráfico 2. Internações por transtornos de humor entre 2015 e 2024

FONTE: SIH/SUS, 2025
4. DISCUSSÃO
Os achados do presente estudo, ao descreverem a evolução dos números do Transtorno Depressivo Maior (TDM) em idosos no Brasil ao longo da última década, inserem-se em um cenário epidemiológico amplamente documentado pela literatura internacional, que aponta aumento consistente da prevalência de depressão em populações envelhecidas. Revisões sistemáticas e metanálises globais estimam prevalências de depressão em idosos variando entre aproximadamente 13% e 28%, a depender do método diagnóstico, do contexto assistencial e da região estudada, com prevalências específicas de TDM frequentemente situadas entre 5% e 10% na comunidade e significativamente maiores em contextos clínicos e institucionais (ABDOLI et al., 2022; CAI et al., 2023; JALALI et al., 2024). Esses dados corroboram a tendência observada no Brasil, onde o rápido envelhecimento populacional, associado ao aumento da expectativa de vida e à maior carga de doenças crônicas, contribui para o crescimento absoluto e relativo dos casos de depressão em idosos, com impacto direto sobre os serviços de saúde, especialmente na Atenção Primária.
A literatura evidencia que a depressão em idosos apresenta características clínicas e prognósticas particulares, incluindo maior associação com incapacidade funcional, comprometimento cognitivo e disfunção executiva, fatores que dificultam tanto o diagnóstico quanto o manejo adequado. Nesse sentido, os estudos de Alexopoulos e colaboradores demonstraram de forma consistente que idosos com TDM e disfunção executiva apresentam pior resposta funcional quando submetidos apenas a abordagens de suporte, ao passo que intervenções estruturadas, como a Terapia de Resolução de Problemas (TRP), promovem reduções significativas na incapacidade e melhora do funcionamento global. Em ensaio clínico randomizado, Alexopoulos et al. (2011) observaram que pacientes submetidos à TRP apresentaram redução significativamente maior nos escores de incapacidade quando comparados à terapia de suporte, com tamanhos de efeito moderados a elevados. Resultados semelhantes já haviam sido descritos em estudos anteriores, nos quais a TRP demonstrou superioridade em relação à terapia de suporte na redução dos sintomas depressivos e na melhora funcional em idosos com TDM e comprometimento executivo (ALEXOPOULOS; RAUE; AREÁN, 2003; AREÁN et al., 2010).
Esses achados individuais são reforçados por evidências de síntese. A metanálise conduzida por Kirkham, Choi e Seitz (2016), que incluiu ensaios clínicos randomizados avaliando TRP em idosos com TDM, demonstrou efeito significativo da intervenção sobre a redução dos sintomas depressivos, com tamanho de efeito padronizado favorável à TRP em comparação aos cuidados usuais ou intervenções de suporte. De modo convergente, revisões sistemáticas mais amplas indicam que a psicoterapia, de forma geral, apresenta eficácia consistente no tratamento da depressão em diferentes faixas etárias, incluindo idosos, com efeitos comparáveis aos observados em adultos mais jovens e perfil de segurança superior ao tratamento exclusivamente farmacológico (CUIJPERS et al., 2020; JONSSON et al., 2016).
No contexto específico da Atenção Primária à Saúde, os achados da literatura são particularmente relevantes. A revisão sistemática e metanálise de Holvast et al. (2017) demonstraram que intervenções não farmacológicas para depressão em idosos na APS, incluindo TRP, estão associadas a reduções estatisticamente significativas nos sintomas depressivos, com tamanhos de efeito pequenos a moderados, mas clinicamente relevantes, considerando-se a alta prevalência e a cronicidade dos quadros. Frost, Bauernfreund e Walters (2019) reforçam esses resultados ao evidenciarem que intervenções não farmacológicas são eficazes mesmo em idosos com comorbidades físicas que impactam o funcionamento, grupo frequentemente excluído de ensaios farmacológicos tradicionais.
Estudos mais recentes ampliam a compreensão do papel da TRP em contextos complexos de cuidado. Albert et al. (2019), ao avaliarem idosos com necessidades de cuidados domiciliares, demonstraram que a TRP reduziu significativamente o risco de transtornos mentais comuns, com diferença estatisticamente significativa em comparação ao cuidado usual. Já Alexopoulos et al. (2021), ao compararem a TRP com a psicoterapia “Engage”, observaram eficácia semelhante na redução dos sintomas depressivos em idosos com depressão tardia, reforçando que intervenções estruturadas e breves podem ser adaptadas a diferentes realidades assistenciais, mantendo efetividade clínica.
Outro aspecto central discutido neste estudo refere-se à polifarmácia, condição altamente prevalente entre idosos e intimamente relacionada ao manejo da depressão. A metanálise de Delara et al. (2022) estimou prevalência global de polifarmácia em idosos superior a 40%, com valores ainda mais elevados em populações com multimorbidade e uso frequente de serviços de saúde. No contexto da depressão, o acréscimo de antidepressivos a esquemas terapêuticos já complexos eleva substancialmente o risco de interações medicamentosas, eventos adversos e iatrogenias. Evidências robustas indicam que a polifarmácia está associada a maior risco de quedas, hospitalizações e mortalidade, tornando-se um problema prioritário de saúde pública em populações envelhecidas.
Nesse cenário, os achados de Carollo et al. (2024) são particularmente relevantes, ao demonstrarem que intervenções sistemáticas de revisão medicamentosa e desprescrição em idosos hospitalizados resultam em redução significativa de eventos adversos e melhora de desfechos clínicos. Esses resultados reforçam a importância de estratégias que reduzam a dependência exclusiva de abordagens farmacológicas, sobretudo em condições como o TDM, nas quais intervenções psicoterapêuticas apresentam eficácia comprovada. Além disso, a literatura sobre depressão subclínica indica que intervenções não farmacológicas são eficazes na redução de sintomas e na prevenção da progressão para quadros depressivos maiores, com resultados estatisticamente significativos em comparação ao cuidado usual (HAO et al., 2023), o que amplia ainda mais o potencial da TRP como estratégia preventiva e terapêutica.
Os dados discutidos ao longo deste trabalho reforçam que a Terapia de Resolução de Problemas (TRP) apresenta maior robustez de evidência para o manejo do Transtorno Depressivo Maior de gravidade leve a moderada em idosos, especialmente no contexto da Atenção Primária à Saúde. Revisões sistemáticas e metanálises indicam que, nesses níveis de gravidade, a TRP alcança reduções significativas dos sintomas depressivos, com tamanhos de efeito comparáveis aos antidepressivos, porém com perfil de segurança superior, aspecto particularmente relevante diante da alta prevalência de polifarmácia nessa população (KIRKHAM; CHOI; SEITZ, 2016; CUIJPERS et al., 2020; HOLVAST et al., 2017). Em contrapartida, quadros depressivos graves, com risco suicida, sintomas psicóticos ou comprometimento funcional intenso, tendem a demandar abordagem combinada ou prioritariamente farmacológica, muitas vezes associada a cuidados especializados. Assim, a TRP se consolida como estratégia terapêutica de primeira linha ou adjuvante nos casos leves a moderados, enquanto a farmacoterapia mantém papel central nos quadros de maior gravidade, reforçando a necessidade de estratificação clínica adequada e de decisões terapêuticas individualizadas (ALEXOPOULOS et al., 2011; JONSSON et al., 2016).
Quadro 1. Síntese dos achados dos trabalhos utilizados no presente estudo.
| Autor e Ano | Tipo de trabalho | População estudada | Intervenção estudada | Principais valores estatístico s | Conclusão geral e implicações para polifarmácia |
| Abdoli et al., 2022 | Revisão sistemática e metanálise | Idosos ≥60 anos (global) | Epidemiologia do TDM | Prevalência global de TDM em idosos ≈ 7– 10%; maior em contextos clínicos | Confirma alta carga de TDM em idosos, reforçando necessidade de intervenções eficazes e seguras não farmacológicas |
| Albert et al., 2019 | Ensaio clínico randomizad o | Idosos com necessidade s de cuidado domiciliar | TRP vs cuidado usual | Redução significativa do risco de transtornos mentais comuns (RR <1; p<0,05) | TRP eficaz na APS/domicílio, potencial para reduzir escalonamento farmacológico |
| Alexopoulo s et al., 2003 | ECR | Idosos com TDM e disfunção executiva | TRP vs terapia de suporte | Maior redução de sintomas depressivos com TRP (p<0,05) | TRP superior ao suporte, especialmente em idosos complexos, evitando polifarmácia |
| Alexopoulo s et al., 2011 | ECR | Idosos com TDM e disfunção executiva | TRP vs suporte | Redução significativa da incapacidad e funcional (effect size moderado- alto) | Benefício funcional relevante sem aumento de fármacos |
| Areán et al., 2010 | ECR | Idosos com TDM | TRP vs terapia de suporte | Melhora clínica superior com TRP (p<0,05) | Reforça TRP como alternativa terapêutica primária |
| Alexopoulos et al., 2021 | ECR | Idosos com depressão tardia | TRP vs Engage | Não inferioridad e; ambas eficazes | Psicoterapias estruturadas substituem/adiam farmacoterapia |
| Cai et al., 2023 | Revisão sistemática e metanálise | Idosos (global) | Epidemiologia da depressão | Prevalência global ≈ 20% (depressão maior + subclínica) | Alta prevalência reforça impacto potencial da TRP em larga escala |
| Cuijpers et al., 2020 | Revisão sistemática e metanálise | Adultos e idosos | Psicoterapia para depressão | Tamanho de efeito padronizad o ~0,6–0,8 | Psicoterapia tão eficaz quanto antidepressivos em idosos |
| Kirkham et al., 2016 | Metanálise | Idosos com TDM | TRP | SMD favorável à TRP (≈ −0,34 a −0,45) | Evidência robusta da eficácia da TRP em idosos |
| Shang et al., 2021 | Metanálise atualizada | Idosos com TDM | TRP | Redução significativa de sintomas (p<0,01) | Confirma TRP como tratamento baseado em evidências |
| Holvast et al., 2017 | Revisão sistemática e metanálise | Idosos na APS | Intervenções não farmacológica s | Redução modesta, porém significativa dos sintomas | Viabilidade da TRP na APS, com menor risco medicamentoso |
| Frost et al., 2019 | Metanálise | Idosos com comorbidade s físicas | Intervenções não farmacológica s | Melhora funcional e depressiva (p<0,05) | Alternativa segura frente à polifarmácia |
| Hao et al., 2023 | Network metanálise | Idosos com depressão subclínica | Intervenções não farmacológica s | Psicoterapi a superior ao cuidado usual | TRP útil na prevenção, evitando antidepressivos precoces |
| Jonsson et al., 2016 | Revisão sistemática | Idosos ≥65 anos | Psicoterapia | Boa eficácia e custoefetividade | Sustenta TRP como opção custo-efetiva |
| Jalali et al., 2024 | Metanálise | Idosos (global) | Epidemiologia | Depressão: ≈ 31%; ansiedade elevada | Alta carga reforça necessidade de terapias seguras |
| Delara et al., 2022 | Metanálise | Idosos | Polifarmácia | Prevalência global >40 % | Contexto crítico para reduzir uso de antidepressivos |
| Wang et al., 2024 | Metanálise | Idosos (global) | Polifarmácia | Prevalência ≈ 50% | Alto risco de interações e eventos adversos |
| Leelakanok et al., 2017 | Metanálise | Idosos | Polifarmácia | Aumento da mortalidade (HR ~1,2– 1,4) | Reforça evitar adição desnecessária de antidepressivos |
| Li et al., 2022 | Metanálise | Idosos | Polifarmácia | Associação positiva com mortalidade (RR significativo ) | Sustenta racionalização terapêutica |
| Carollo et al., 2024 | Metanálise | Idosos hospitalizado s | Desprescrição | Redução de eventos adversos (p<0,01) | Psicoterapia favorece desprescrição |
| Zhou et al., 2023 | Metanálise | Idosos | Intervenções de desprescrição | Melhora de desfechos clínicos | TRP pode facilitar redução de psicofármacos |
| Lenouvel et al., 2024 | Metanálise | Idosos com demência | Antidepressivo s | Sem benefício clínico significativo | Fortalece preferência por TRP |
| Robinson et al., 2017 | ECR | Idosos pós- AVC | TRP vs escitalopram | TRP reduziu mortalidade pós-AVC | Psicoterapia como alternativa ao ISRS |
| Soysal et al., 2017 | Metanálise | Idosos | Depressão e fragilidade | Forte associação (OR significativo ) | TRP pode reduzir cascata de fragilidade e fármacos |
| Tan et al., 2023 | Revisão sistemática | Idosos | Modelos preditivos | Identifica grupos de risco | Apoia uso precoce de TRP |
| NowrouziKia et al., 2025 | Metanálise | Adultos e idosos | Psicoterapia via telehealth | Eficácia significativa (p<0,05) | TRP escalável, reduz dependência farmacológica |
FONTE: próprio autor, 2025
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
De forma consistente, os estudos demonstram que a TRP é eficaz, segura e aplicável em idosos, com tamanhos de efeito comparáveis aos antidepressivos, sem os riscos inerentes à polifarmácia. Em um cenário de alta prevalência de depressão e uso excessivo de medicamentos, a TRP emerge como intervenção estratégica na APS, com potencial para reduzir internações, minimizar eventos adversos e racionalizar o uso de antidepressivos, especialmente em idosos frágeis e multimórbidos.
À luz desses achados, os resultados do presente estudo dialogam de forma consistente com a literatura internacional ao evidenciar a magnitude do TDM em idosos e a necessidade de abordagens terapêuticas alinhadas às especificidades dessa população. A TRP emerge como intervenção eficaz, segura e viável no contexto da APS, com potencial não apenas para reduzir sintomas depressivos e melhorar a funcionalidade, mas também para mitigar os riscos associados à polifarmácia. Embora o uso de antidepressivos permaneça fundamental em muitos casos, os dados discutidos sugerem que, em situações selecionadas, a TRP pode reduzir a necessidade de introdução ou manutenção de psicofármacos, contribuindo para um cuidado mais racional, centrado na pessoa e orientado pela segurança do paciente idoso.
Conclui-se que a TRP é particularmente indicada para idosos com TDM de gravidade leve a moderada, nos quais demonstra eficácia clínica semelhante à medicação antidepressiva, com menor risco de eventos adversos e sem contribuir para o agravamento da polifarmácia (KIRKHAM; CHOI; SEITZ, 2016; CUIJPERS et al., 2020). Embora o tratamento farmacológico permaneça indispensável em quadros depressivos graves ou refratários, os achados reforçam que a TRP pode reduzir a necessidade de introdução precoce ou manutenção prolongada de antidepressivos em casos selecionados, promovendo cuidado mais seguro e racional na APS. Dessa forma, a incorporação sistemática da TRP nos serviços de Atenção Primária representa estratégia alinhada às evidências atuais, capaz de responder à elevada carga de depressão em idosos, respeitando a gravidade do transtorno e equilibrando efetividade clínica com redução de riscos associados ao uso excessivo de medicamentos.
Por fim, é importante destacar que a integração da TRP à prática da Atenção Primária no Brasil requer investimento em capacitação profissional, organização do processo de trabalho e valorização de intervenções psicossociais baseadas em evidências. Considerando o envelhecimento acelerado da população brasileira e o crescimento contínuo da carga de depressão em idosos, os achados discutidos reforçam a relevância de estratégias que articulem cuidado longitudinal, efetividade clínica e redução de danos, posicionando a Terapia de Resolução de Problemas como componente central de um modelo de atenção integral à saúde mental do idoso.
Mais estudos, no entanto, se mostram necessários para entender melhor tal realidade e auxiliar no desenvolvimento de estratégias mais adequadas dessa intervenção na Atenção Primária em Saúde.
6. REFERÊNCIAS
ABDOLI, N. et al. The global prevalence of major depressive disorder (MDD) among the elderly: A systematic review and meta-analysis. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, v. 132, p. 1067-1073, 2022.
ALBERT, S. et al. Depression agency-based collaborative: effect of problem-solving therapy on risk of common mental disorders in older adults with home care needs. The American Journal of Geriatric Psychiatry, v. 27, n. 6, p. 619-624, 2019.
ALEXOPOULOS, G. et al. Problem-solving therapy and supportive therapy in older adults with major depression and executive dysfunction: effect on disability. Archives of general psychiatry, v. 68, n. 1, p. 33-41, 2011.
ALEXOPOULOS, George S.; RAUE, Patrick; AREÁN, Patricia. Problem-solving therapy versus supportive therapy in geriatric major depression with executive dysfunction. The American journal of geriatric psychiatry, v. 11, n. 1, p. 46-52, 2003.
ALEXOPOULOS, G. et al. Comparing the streamlined psychotherapy “Engage” with problem-solving therapy in late-life major depression. A randomized clinical trial. Molecular psychiatry, v. 26, n. 9, p. 5180-5189, 2021.
AREÁN, P. et al. Problem-solving therapy and supportive therapy in older adults with major depression and executive dysfunction. American journal of psychiatry, v. 167, n. 11, p. 1391-1398, 2010.
CAI, H. et al. Global prevalence of depression in older adults: a systematic review and metaanalysis of epidemiological surveys. Asian journal of psychiatry, v. 80, p. 103417, 2023.
CAROLLO, M. et al. Clinical impact of medication review and deprescribing in older inpatients: a systematic review and meta‐analysis. Journal of the American Geriatrics Society, v. 72, n. 10, p. 3219-3238, 2024.
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DELARA, M. et al. Prevalence and factors associated with polypharmacy: a systematic review and meta-analysis. BMC geriatrics, v. 22, n. 1, p. 601, 2022.
FROST, R.; BAUERNFREUND, Y.; WALTERS, K. Non-pharmacological interventions for depression/anxiety in older adults with physical comorbidities affecting functioning: systematic review and meta-analysis. International psychogeriatrics, v. 31, n. 8, p. 11211136, 2019.
HAO, X. et al. Subthreshold depression: a systematic review and network meta-analysis of non-pharmacological interventions. Neuropsychiatric disease and treatment, p. 21492169, 2023.
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KIRKHAM, J.; CHOI, N.; SEITZ, D. Meta‐analysis of problem solving therapy for the treatment of major depressive disorder in older adults. International journal of geriatric psychiatry, v. 31, n. 5, p. 526-535, 2016.
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ZHOU, D. CHEN, Z.; TIA Fn. Deprescribing interventions for older patients: a systematic review and meta-analysis. Journal of the American Medical Directors Association, v. 24, n. 11, p. 1718-1725, 2023.
1Médico Residente em Medicina de Família E Comunidade
Autor – Universidade Evangélica De Goiás
2Médica De Família E Comunidade
Orientadora – Universidade Evangélica De Goiás
3Residente Em Medicina De Família E Comunidade
Coautora Universidade Evangélica De Goiás
4Residente Em Medicina De Família E Comunidade
Coautor – Universidade Evangélica De Goiás
5Residente Em Medicina De Família E Comunidade
Coautora – Universidade Evangélica De Goiás
6Residente Em Oftalmologia
Coautora – Associação Animus Curae
7Acadêmico De Medicina
Coautor – Universidade Evangélica De Goiás
