NEUROPSICOLOGIA E INTERVENÇÃO COGNITIVA NO ENVELHECIMENTO: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA NARRATIVA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202507312353


Eva Cristina de Carvalho Souza MENDES1


Resumo:

Este artigo teve como objetivo realizar uma revisão bibliográfica narrativa acerca da temática neuropsicologia e reabilitação cognitiva em publicações na base de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Google Academic incluindo artigos publicados entre os anos de 2017 a 2024. A busca foi realizada com os seguintes termos: “neuropsicologia”, “intervenção cognitiva”, “reabilitação cognitiva”, “treino cognitivo”, “estimulação cognitiva”, “envelhecimento”, “idoso”. Foram encontrados muitos artigos científicos, entretanto neste estudo foram selecionados e incluídos os artigos que atenderam a temática da estimulação cognitiva e envelhecimento. Foi possível detectar a partir dos artigos presentes neste estudo que os efeitos da intervenção cognitiva comprovam a importância de atividades cognitivas para a vida do ser humano.

Palavras-chave: envelhecimento, intervenção cognitiva, neuropsicologia

Abstract:

This article aimed to carry out a literature review on thematic neuropsychology and cognitive rehabilitation in publications in the Scientific Electronic Library Online (SciELO) and Google Academic database, including articles published between the years 2017 to 2024. The search was carried out with the following terms: “neuropsychology”, “cognitive intervention”, “cognitive rehabilitation”, “cognitive training”, “cognitive stimulation”, “aging”, “elderly”. Many scientific articles were found, however, in this study, articles that addressed the theme of cognitive stimulation and aging were selected and included. It was possible to detect from the articles presented in this study that they indicated that the effects of the cognitive intervention prove the importance of cognitive activities for the life of the human being.

Key words: aging, cognitive intervention, neuropsychology

INTRODUÇÃO

A Neuropsicologia na atualidade tem em seu campo de estudo a relação entre o cérebro e o comportamento. Conforme, Miotto, Campanho, Trevisan e Serrao (2018), a neuropsicologia é compreendida como disciplina interdisciplinar, visto que é uma ciência comum a variadas áreas do conhecimento como psicologia, pedagogia, psicopedagogia, terapia ocupacional, medicina, entre outras, de tal sorte que seu conhecimento é aplicável a áreas que requeiram a compreensão do comportamento e funcionamento cognitivo do indivíduo. Assim, o conhecimento sobre o funcionamento cerebral tem facilitado a compreensão dos comprometimentos e disfunções cognitivas possivelmente decorrentes do envelhecimento a partir de dados levantado em avaliações, sejam de rastreio ou diagnósticas diferenciais. 

Ao tratar o envelhecimento, é possível observar a complexidade dos aspectos afetados às questões relativas aos aspectos sociais, de saúde, entrelaçados considerando-se a reflexão sobre o aumento da expectativa de vida, manutenção do bem-estar físico, mental e social do indivíduo com qualidade na longevidade.

O processo de envelhecer pode ser compreendido como um processo natural, de diminuição progressiva da reserva funcional dos indivíduos. Diante dessa diminuição podemos observar o que se chama de senescência, o envelhecimento em condições normais que está ligado à capacidade de adaptação da pessoa ao meio ambiente e não provoca situações em que a funcionalidade e a cognição estejam fora das atividades ativas do ser humano. Entretanto, quando há condições de sobrecarga de doenças, estresse emocional, acidentes poderá haver uma condição patológica que requeira assistência, que chamamos de momento da senilidade. Cabe salientar que algumas alterações decorrentes do processo de senescência podem ter seus efeitos reduzidos devido aos indivíduos assimilarem um estilo de vida mais ativo. Daí a importância de práticas saudáveis como estratégia de prevenção de doenças e promoção de saúde objetivando um processo de envelhecimento mais saudável e ativo e consequentemente, melhorando a qualidade de vida da população idosa. Como asseveram Cardoso, Dietrich e Souza (2021) certo é que 

traçar as fronteiras da velhice apresenta dificuldades, mesmo quando se considera a velhice como fenômeno biológico. […] As diferentes percepções sobre velhice podem ser ilustradas pelas visões refletidas na literatura. Apesar da enorme variedade das experiencias ao longo do tempo em diferentes sociedades, podemos separar pelo menos duas visões opostas da idade avançada. Uma amarga e pessimista, realçada por Simone Beauvoir, em A Velhice. Outra jovial e moderna, que tenta criar a ilusão de que os velhos poderiam se reinventar a cada dia. (Cardoso, Dietrich e Souza, pp. 2526, 2021).

Diante disso, diversos pesquisadores como Provezan (2012), Sohlberg e Mateer (2010), Miotto, Campanholo, Trevisan e Serrao (2018) estão envidando esforços para compreender melhor os mecanismos de funcionamento do cérebro no decorrer do desenvolvimento humano, procedendo avaliações neuropsicológicas com a finalidade de estabelecer tratamentos e buscar estratégias capazes de prevenir, retardar ou amenizar as consequências das neuropatologias. Diante das pesquisas é possível afirmar que a hipótese da reserva cognitiva tem sido apontada como uma estratégia de prevenção de déficits cognitivos do indivíduo. Para tanto, é de grande importância que a pessoa goze de saúde cognitiva, de acordo com Beckert et al. (p. 157), “a capacidade cognitiva é um dos determinantes da qualidade de vida na velhice, pois perdas nas funções cognitivas podem resultar em prejuízo no funcionamento físico, social e emocional de idosos”. De sorte que a ampliação da proteção contra alterações das funções cognitivas como memória, atenção, linguagem, função executiva, dentre outras permitem a almejada qualidade de vida. Prevenir com intervenções não medicamentosas como estimulação cognitiva, treino cognitivo e reabilitação cognitiva, podem possibilitar e otimizar a promoção da autonomia e funcionalidade diária da pessoa idosa (Malloy-Diniz et al.2010).

É possível perceber em nosso país, o Brasil, alterações significativas no perfil populacional ao longo dos anos, no qual o número de idosos tem aumentado ano a ano para um perfil de idosos com doenças degenerativas (Mendes e Novelli, 2015). Também no cenário brasileiro, até o ano de 2017, a população idosa superou 30,2 milhos de habitantes (Agência IBGE notícias, 2018). Com esse crescimento de população idosa, as dificuldades cognitivas tem sido frequentes. Posto isto, é possível detectar a necessidade da intervenção cognitiva para que as habilidades cognitivas possam contribuir para a qualidade de vida e desempenho funcional do indivíduo.

Diante do exposto, faz-se necessário entender os termos reabilitação cognitiva, estimulação cognitiva e treino cognitivo. Em que pese os termos, por vezes sejam tratados como semelhantes. Na reabilitação cognitiva atribui-se o resultado esperado realizado por meio do desenvolvimento de estímulos intencionais para restaurar a cognição de acordo com os déficits cognitivos. No que tange à estimulação cognitiva, a intervenção é multivariada buscando a melhora do funcionamento cognitivo global por meio de atividades diferenciadas. Em relação ao treino cognitivo vê-se resultado em sua utilização para melhorar uma função cognitiva em particular de acordo com a demanda do indivíduo. É fundamental na intervenção cognitiva compreender e observar a neuroplasticidade, que é a capacidade do sistema nervoso de modificação de sua estrutura ou função conforme a pessoa é exposta a padrões de experiência (Haase e Lacerda, 2004), visto suas características adaptativas neuronais como processo subjacente às atividades realizadas na intervenção.

Ademais, independente da intervenção a ser realizada, seja reabilitação, treino ou estimulação cognitiva, elas tem características semelhantes como não farmacológicas, utilizarem como base a neuroplasticidade, bem como a reserva cognitiva que é um recurso cognitivo que recruta redes neurais, permitindo sua flexibilização de acordo com as demandas exigidas (Steffener et al., 2012 citado por Mendonça, 2020).

METODOLOGIA

Com objetivo de realizar uma revisão de literatura acerca da temática neuropsicologia e reabilitação cognitiva em publicações na base de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Google Academic incluindo artigos publicados entre os anos de 2017 a 2024. A busca foi realizada com os seguintes termos: “neuropsicologia”, “intervenção cognitiva”, “reabilitação cognitiva”, “treino cognitivo”, “estimulação cognitiva”, “envelhecimento”, “idoso”. Foram encontrados muitos artigos científicos. Em seguida, foram excluídos os artigos fora da temática e realizada a leitura de resumos de 30 artigos selecionados de acordo com os objetivos. Por fim, foram selecionados dez artigos para leitura do texto completo e incluídos os artigos que atenderam a temática da estimulação cognitiva e envelhecimento.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Na tabela 1, com título “Artigos analisados”, foram apresentados os dados gerais (autores, título do trabalho, objetivo e temática) dos artigos utilizados para análise neste estudo.

TABELA 1: ARTIGOS ANALISADOS

Fonte: elaborado pela autora

No artigo identificado 1, os resultados evidenciaram a eficácia da reabilitação cognitiva, como também as diferentes formas de realizar essa reabilitação em pacientes com Alzheimer dentro de cada tratamento proposto pelos grupos e afirmou que a Reabilitação cognitiva é uma terapia centrada na pessoa, orientada a metas, de resolução de problemas destinada a gerenciar ou reduzir a incapacidade funcional realizando jogos de memória e massagens com a finalidade de fornecer uma vida independente. Como Silva (2011) também confirmou a importância da manutenção cognitiva para a independência do idoso e melhora no desempenho ao realizar atividades contendo as habilidades cognitivas. 

No estudo 2, foi apresentado que a Estimulação Cognitiva aplicada ao processo de envelhecimento é um método interativo e dinâmico cujo objetivo é auxiliar na melhora do desempenho cognitivo dos indivíduos que tiveram tal acompanhamento, a fim de alavancar o desempenho nas atividades diárias, assim como o desenvolvimento habilidades, como: atenção, concentração, equilíbrio, memória, percepção espacial, visual, auditiva, olfativa, tátil, gustativa, coordenação ampla e fina, organização espaço-temporal, raciocínio, sequência lógica, entre outros, concluindo que é  imprescindível a organização de estudos e metodologias que ajudem esse público a ter qualidade de vida.

Quanto ao exposto no estudo 3, foi possível detectar como estratégias de treino cognitivo e a psicoeducação como fundamentais para o resultado de treinos de memória, em que pese com resultados moderados. 

Nos estudos 5 a 10 foram apresentados resultados exitosos de relatos de experiência nos quais o uso das intervenções cognitivas auxilia como parte no processo de recuperação, a plasticidade cerebral (capacidade do cérebro de receber novas conexões), auxilia no tratamento, possibilitando preservar o funcionamento das habilidades existente e que as sessões de estimulação cognitiva são recursos efetivos na prevenção do declínio cognitivo e retardamento em processos patológicos nos diversos tipos de demências.

CONCLUSÃO

Foi possível detectar a partir dos artigos presentes neste estudo que os efeitos da intervenção cognitiva comprovam a importância de atividades cognitivas para a vida do ser humano e que, embora constem limitações no presente estudo, ele pode contribuir nas discussões sobre o direcionamento das intervenções cognitivas, sejam elas para habilitação, estimulação ou reabilitação cognitiva sugerindo inclusive novos estudos com investigação de resultados e fatores associados a essas intervenções em adultos e idosos brasileiros.

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1Pedagoga, Psicopedagoga, Especialista em Neuropsicologia Clínica aplicada a reabilitação cognitiva –FHO/Uniararas, Dra. em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Neurociência, Educação e Saúde – Unisantos/SP Email: evacsmendes@gmail.com; eva.mendes@unisantos.br

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