NEFRITE INTERSTICIAL AGUDA ASSOCIADA À INGESTÃO DE CHÁ “UXI AMARELO” E “UNHA DE GATO”: UM RELATO DE CASO

ACUTE INTERSTITIAL NEPHRITIS ASSOCIATED WITH INGESTION OF “YELLOW UXI” AND “CAT’S CLAW” TEA: A CASE REPORT

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202504020826


Bruno Tenório Gomes1
Natália Correa Vieira de Melo2


Resumo

Plantas com propriedades medicinais são utilizadas há milhares de anos por diversas populações e são empregadas como tratamento de algumas doenças, trazendo benefícios à saúde quando utilizadas de maneira adequada. Porém, tem-se observado que certos tipos de plantas medicinais possuem potencial de nefrotoxicidade, incluindo desenvolvimento de nefrite intersticial aguda. Tem-se por objetivo relatar um caso de nefrite intersticial aguda associada à ingestão de chá “uxi amarelo” (Endopleura uchi) e “unha de gato” (Uncaria tomentosa). As informações descritas neste relato de caso foram coletadas por meio da revisão de prontuário da paciente, onde foram obtidas, dentre outras informações relevantes quanto à evolução da doença, informações sobre o exame físico, resultados de exames complementares e tratamento a que a paciente foi submetida durante o seu acompanhamento. Relata-se o caso de uma paciente de 36 anos, sexo feminino, que procurou unidade hospitalar com quadro de náuseas e vômitos diários, associado a inapetência e perda ponderal de 10 kg, sendo internada devido a alteração da função renal – creatinina de 6,9 mg/dL e taxa de filtração glomerular estimada de 7 mL/min/1,73m² calculada pela fórmula CKD-EPI. Refere que antes da internação notou a urina espumosa. Negou alteração na coloração da urina ou no volume urinário, artralgias ou rash cutâneo. A paciente referiu que fez uso diário por 4 meses do chá ‘uxi amarelo’ que contém o extrato Endopleura uchi e do chá ‘unha de gato’ que contém o extrato Uncaria tomentosa, em tentativa de tratamento em virtude da dificuldade de engravidar. Conclusão: A nefrite intersticial aguda pode ser uma complicação associada ao uso de plantas medicinais, incluindo a unha de gato (Uncaria tomentosa) e o Uxi Amarelo (Endopleura uchi). Embora esses extratos vegetais sejam frequentemente utilizados por suas propriedades anti-inflamatórias e imunomoduladoras, os profissionais da saúde devem monitorar possíveis efeitos adversos, incluindo nefrite intersticial aguda. 

Palavras-chave: Plantas medicinais. Uncaria tomentosa. Endopleura uchi. Nefrite intersticial.

Abstract

Plants with medicinal properties have been used for thousands of years by various populations and are employed to treat certain diseases, bringing health benefits when used appropriately. However, it has been observed that certain types of medicinal plants have the potential for nephrotoxicity, including the development of acute interstitial nephritis. The objective is to report a case of acute interstitial nephritis associated with the ingestion of “uxi amarelo” tea (Endopleura uchi) and “unha de gato” (Uncaria tomentosa). The information described in this case report was collected through a review of the patient’s medical records, where, among other relevant information regarding the progression of the disease, details about the physical examination, results of complementary tests, and the treatment the patient underwent during her care were obtained. The case of a 36-year-old female patient is reported sought a hospital unit with a condition of daily nausea and vomiting, associated with loss of appetite and a 10 kg weight loss, being hospitalized due to altered renal function – creatinine of 6.9 mg/dL and estimated glomerular filtration rate of 7 mL/min/1.73m² calculated using the CKD-EPI formula. She reports that before the hospitalization, she noticed foamy urine. Denied changes in urine color or urine volume, arthralgias, or skin rash. The patient reported that she used ‘uxi amarelo’ tea, which contains the extract Endopleura uchi, and ‘unha de gato’ tea, which contains the extract Uncaria tomentosa, daily for 4 months in an attempt to treat her difficulty in getting pregnant. In acute interstitial nephritis induced by plants, the renal tubular epithelial cells are the main targets, which can evolve into a chronic condition. Conclusion: Acute interstitial nephritis can be a complication associated with the use of medicinal plants, including cat’s claw (Uncaria tomentosa) and Uxi Amarelo (Endopleura uchi). Although these plant extracts are frequently used for their anti-inflammatory and immunomodulatory properties, healthcare professionals should monitor for possible adverse effects, including acute interstitial nephritis.

Keywords: Medicinal plants. Uncaria tomentosa. Endopleura uchi. Interstitial nephritis.

1 INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, tem-se observado um aumento no uso de plantas com propriedades medicinais para diversos objetivos de saúde, como tratamento ou prevenção de doenças. Muitas pessoas acreditam que medicamentos à base de plantas são completamente seguros, naturais e livres de quaisquer efeitos colaterais. No entanto, a eficácia e a segurança de muitas dessas plantas ou suas combinações ainda não foram adequadamente avaliadas. O uso de certos produtos “naturais” pode resultar em uma ampla gama de efeitos adversos, que variam de reações alérgicas leves ou desconfortos gastrointestinais a complicações graves, podendo até ser fatal em alguns casos (Basaran et al., 2022).

Isso pode ocorrer devido aos efeitos tóxicos de substâncias presentes nas plantas utilizadas ou pela contaminação dos produtos, seja por impurezas nas matérias-primas, no processo de fabricação ou por interações com outros medicamentos em uso, ou ainda pelo consumo simultâneo de múltiplas plantas com propriedades medicinais (Hudson et al., 2018). Dentre uma das consequências da utilização de plantas medicinais, tem-se a nefrite intersticial aguda (NIA). 

A NIA pode ser desencadeada por doenças autoimunes, infecções, induzida por drogas ou pode ser de causa idiopática. Dentre essas causas, a NIA induzida por drogas é a mais prevalente, relacionada principalmente ao uso de antibióticos, anti-inflamatórios e inibidores de bomba de próton. 

Na apresentação inicial, os sintomas são leves ou o paciente é assintomático. A tríade clássica composta por febre, erupções cutâneas e artralgias é raramente presente. Uma parte considerável dos casos de NIA apresenta uma sintomatologia leve, mas a presença de sinais extrarrenais específicos, como febre, erupções cutâneas, artralgias e eosinofilia periférica, pode ajudar a direcionar o diagnóstico clínico (Haas et al., 2000). 

A identificação e interrupção do medicamento suspeito são fundamentais no tratamento, uma vez que a intervenção tardia pode levar ao desenvolvimento de fibrose intersticial irreversível (Muriithi et. al. 2014). Após a retirada do medicamento, estudos recentes apoiam a administração precoce de esteroides para acelerar a recuperação da função renal e reduzir o risco de progressão para doença renal crônica (Barreto et al., 2020).

Para prevenir riscos sérios associados ao uso incorreto de produtos fitoterápicos, é essencial informar e conscientizar tanto o público quanto os profissionais de saúde. A notificação de casos de toxicidade grave decorrente do uso inadequado de fitoterápicos pode contribuir para aumentar a conscientização sobre essa questão. A partir do exposto, tem-se por objetivo relatar um caso de nefrite intersticial aguda associada à ingestão de chá “uxi amarelo” (Endopleura uchi) e “unha de gato” (Uncaria tomentosa) em uma mulher de 36 anos, em tentativa de tratamento em virtude da dificuldade de engravidar.

2 MATERIAIS E MÉTODOS

As informações descritas neste relato de caso foram coletadas por meio da revisão de prontuário do paciente, onde foram obtidas, dentre outras informações relevantes quanto à evolução da doença contidas nos laudos, informações sobre o exame físico, resultados de exames complementares e tratamento a que a paciente foi submetida durante o seu tratamento. 

Os dados encontrados foram comparados com estudos científicos pertinentes ao assunto, sendo obtidos por meio de acesso ao Pubmed, Scielo, Lilacs, sites da Organização Mundial de Saúde (OMS) e livros publicados na área médica.

3 RELATO DE CASO 

Paciente do sexo feminino, 36 anos, de etnia caucasiana, professora, procedente do Recanto das Emas-DF, encaminhada de unidade de pronto atendimento (UPA) ao serviço de nefrologia do Hospital Regional de Taguatinga em julho de 2017. Aproximadamente um mês antes da internação, a paciente apresentou um quadro de náuseas e vômitos diários, acompanhado de inapetência e perda ponderal de 10 kg. Duas semanas antes da admissão, relatou teve tosse produtiva, coriza hialina e febre, o que a levou a buscar atendimento médico, resultando em internação devido a uma alteração aguda da função renal. A paciente notou, antes da internação, a presença de urina espumosa, mas negou alterações na coloração ou no volume urinário, bem como a ocorrência de artralgias ou erupções cutâneas.

A paciente informou que, nos últimos quatro meses, fazia uso diário de chá de “uxi amarelo”, que contém o extrato de Endopleura uchi, e de chá de “unha de gato”, que contém o extrato de Uncaria tomentosa, na tentativa de tratar a dificuldade para engravidar. Ela negou o uso de outros medicamentos ou suplementos durante esse período.

Na admissão, a paciente apresentava pressão arterial de 150/100 mmHg e frequência cardíaca de 92 batimentos por minuto. O exame físico revelou hipocromia (1+/4+), ausculta cardiopulmonar sem alterações e ausência de edemas. Os exames laboratoriais indicaram anemia (hemoglobina = 9,7 mg/dL), leucocitose (13.000 células/mm³) com predominância de neutrófilos, plaquetas normais, creatinina de 6,9 mg/dL e ureia de 109 mg/dL. O exame de urina apresentou pH de 6,0, densidade de 1.020, leucócitos em grande quantidade, ausência de proteínas e hemoglobina em 5/campo. A urocultura resultou negativa.

Após a alta da UPA, a paciente foi encaminhada ao ambulatório de nefrologia, onde foram solicitados exames adicionais que revelaram: proteinúria de 24 horas de 1.280,6mg; exame de urina com presença de proteínas ++, hemoglobina + e leucócitos 13/campo; níveis de C3 de 124 mg/dL e C4 de 61,1 mg/dL; fator antinuclear não reagente; triglicerídeos de 188 mg/dL; LDL de 104 mg/dL; HDL de 31 mg/dL; colesterol total de 165 mg/dL; albumina de 4,26 mg/dL; urocultura negativa e eletroforese de proteínas normal. A ultrassonografia do aparelho urinário revelou sinais incipientes de nefropatia crônica no rim direito e hiperecogenicidade leve no rim esquerdo, não sendo possível descartar nefropatia aguda, além da presença de um cálculo no terço médio do rim direito.

Uma biópsia renal foi realizada 29 dias após a internação, evidenciando uma amostra com nove glomérulos normais, infiltrado inflamatório moderado difuso composto por células mononucleares, polimorfonucleares, eosinófilos e alguns neutrófilos, associado a tubulite discreta a acentuada, com fibrose intersticial afetando cerca de 30% da área cortical e arterioesclerose moderada (Figuras 1 e 2).

Com base na história clínica e nos achados da biópsia, foi iniciada pulsoterapia com metilprednisolona (1g por dia durante três dias) no 32º dia de internação, seguido de prednisona 60 mg por dia (aproximadamente 1,0  mg/kg). A paciente retornou, 74 dias após o 1º exame, com resultado de novos exames laboratoriais que mostravam redução das escórias nitrogenadas (creatinina = 1,85 mg/dL; ureia = 112 mg/dL) e controle da anemia (Hb = 11,2 mg/dL). Segue tabela com evolução de exame:

Tabela  1  –  evolução de exame do relato de caso

Figura 1  –  Infiltrado inflamatório intersticial moderado difusamente, incluindo cilindros hialinos e granulosos, além de tubulite (PS, 40x).

Figura 2  –  Glomérulo com celularidade, matriz mesangial e membrana basal normais (TM, 40x)

A paciente prosseguiu com seguimento mensal no ambulatório até o desmame total e suspensão da corticoterapia, cerca de 6 meses após o início do tratamento. Em sua última consulta, em novembro de 2024, a paciente estava assintomática, com creatinina de 1,14 mg/dL e proteinúria de 24 horas de 140 mg.

4 DISCUSSÃO

Apresentamos um caso raro de nefrite intersticial aguda, associada a uma injúria renal aguda (IRA) grave, resultante da ingestão prolongada dos chás “uxi amarelo” (Endopleura uchi) e “unha de gato” (Uncaria tomentosa). A paciente respondeu de forma satisfatória à corticoterapia, com resolução da IRA e preservação da função renal ao longo de mais de seis anos de acompanhamento.

A nefrite intersticial aguda (NIA) é uma causa significativa de injúria renal aguda (IRA), frequentemente subdiagnosticada, pois seu diagnóstico depende de uma forte suspeita clínica e da identificação de achados histopatológicos por meio da biópsia renal. O atraso no diagnóstico e no início do tratamento pode resultar na continuidade do dano inflamatório, o que pode levar ao desenvolvimento de doença renal crônica em cerca de 40% dos pacientes (Moledina et al., 2021).

A primeira abordagem no tratamento da nefrite intersticial aguda (NIA) é interromper a exposição a qualquer medicamento ou toxina que possa estar causando a lesão renal. A identificação do agente etiológico da NIA representa um desafio na prática clínica, devido à ampla gama de medicamentos que podem estar envolvidos. Após a suspensão do fármaco responsável, diversos estudos indicam que o uso de corticosteroides pode acelerar a recuperação da função renal e diminuir o risco de progressão para doença renal crônica, além de reduzir a necessidade de terapia renal substitutiva (Prendecki et al., 2017; Moledina et al., 2021). No caso relatado, a interrupção imediata dos chás, juntamente com a corticoterapia, provavelmente contribuiu para a evolução favorável do quadro clínico

Os sintomas iniciais são brandos e inespecíficos, podendo incluir queixas como náuseas, vômitos e inapetência, como observado no caso relatado. A tríade clássica de febre, erupção cutânea e eosinofilia ocorre em menos de 10% dos casos. No exame de urina, é comum encontrar piúria, hematúria e proteinúria, sendo a última uma ocorrência rara, com níveis geralmente inferiores a 2 g/dia. A paciente do caso apresentou leucocitúria, hematúria discreta e proteinúria subnefrótica. A literatura destaca que a hematúria está presente em mais de dois terços dos pacientes, e frequentemente está associada a maior necessidade de terapia renal substitutiva e desfechos piores da função renal. (Esteras; et. al., 2020; Raghavan; et. al., 2014).

A nefrite intersticial aguda (NIA) é uma reação de hipersensibilidade tardia do tipo IV, mediada por células T. Os medicamentos podem causar reações de hipersensibilidade ao se ligarem covalentemente a proteínas túbulo-intersticiais ou a proteínas na circulação periférica, formando antígenos imunogênicos chamados haptenos. Essas substâncias são endocitadas pelas células apresentadoras de antígeno, como macrófagos e células dendríticas, no interstício renal, que, por sua vez, ativam as células T e iniciam uma resposta inflamatória, liberando citocinas, recrutando macrófagos e estimulando a proliferação de fibroblastos. (Sanchez et al., 2023). 

O padrão ouro para diagnóstico de NIA é a biópsia renal. Os achados histopatológicos do caso relatado são compatíveis com dados da literatura que descreve casos de biópsia na NIA, como infiltrado inflamatório intersticial difuso, composto por linfócitos, monócitos, polimorfonucleares e eosinófilos, além de tubulite e alterações como perda de escova e achatamento do epitélio tubular. A imunofluorescência (IF) geralmente não mostra depósitos imunológicos. Em casos raros, associados ao uso de penicilinas e cefalosporinas, são observados depósitos lineares de IgG e C3 nas bases tubulares. (Sanchez et al., 2023)

A paciente deste relato de caso apresentou nefrite intersticial aguda em relacionada ao uso de plantas com propriedades medicinais sem prescrição médica (chá “uxi amarelo” – Endopleura uchi e “unha de gato” – Uncaria tomentosa). 

O uso de plantas com propriedades medicinais é uma prática que remonta a milhares de anos. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 80% da população de países em desenvolvimento depende de medicamentos à base de plantas como principal forma de tratamento (Xu et al., 2020).

Paralelamente, tem crescido o número de estudos que demonstram a nefrotoxicidade associada ao uso dessas plantas. Um estudo transversal realizado em Taiwan revelou que o uso de plantas medicinais estava independentemente relacionado ao desenvolvimento de doença renal crônica (DRC) em pacientes que não faziam uso de analgésicos. Contudo, ainda há uma escassez de dados na literatura que estimem com precisão a incidência de DRC decorrente do uso de plantas medicinais (Jha, 2010).

Há muitas questões ainda desconhecidas sobre as preparações herbais, incluindo sua segurança, efeitos adversos e interações com outras ervas ou medicamentos usados simultaneamente. A maior parte das informações sobre esses efeitos tóxicos provém de relatos de casos, o que torna difícil estabelecer uma relação causal precisa. A verdadeira incidência de efeitos adversos relacionados a ‘remédios naturais’ ainda não é conhecida. A nefropatia causada pelo ácido aristolóquico (AA) é a forma mais conhecida de doença renal crônica induzida por plantas (Jha, 2010).

A espécie Endopleura uchi, da família Humiriaceae, nativa da Amazônia, é conhecida comumente como uxi-amarelo ou uxi-liso. O chá de suas cascas é tradicionalmente empregado no tratamento de distúrbios ginecológicos, como miomas, cistos ovarianos e disfunções menstruais. No entanto ressalta-se que embora o uxi amarelo tenha sido amplamente utilizado na medicina popular, a pesquisa científica sobre seus efeitos ainda é limitada, e seu uso deve ser feito com precaução, sempre sob orientação profissional. Suas propriedades bioativas estão associadas a compostos como flavonoides, alcaloides e taninos. (Politi et al., 2010). 

Já a Uncaria tomentosa (unha de gato), ocorre em zonas tropicais do Brasil, Peru, Venezuela, Colômbia, Bolívia, Guianas e Paraguai. Seu extrato apresenta propriedades imunoestimulantes e antioxidantes e é empregado no tratamento de asma, câncer, gastrite, artrites, bursites, herpes genital e herpes zoster, alergias, candidíases sistemáticas, lúpus, fadiga crônica, intoxicação ambiental e coadjuvante em depressão. (Erowele; Kalejaye, 2019). 

Mesmo com os benefícios citados, usar indevidamente e sem prescrição médica produtos naturais podem levar a efeitos adversos graves, pois muitos são altamente tóxicos. Uma pesquisa bibliográfica revelou apenas um caso de NIA associada a Uncaria tomentosa comprovada por biópsia (Portalatin et. al., 2022). No entanto, esse é o primeiro caso até o momento de NIA relacionado ao uso de Uncaria tomentosa com  Endopleura uchi.

Portanto, é fundamental monitorar o potencial toxicológico da unha de gato com uxi-amarelo para prevenir e controlar os seus possíveis efeitos adversos. Há necessidade de ampliação das medidas de segurança e fiscalização que sustentam o uso de medicamentos à base de plantas. Assim, a expansão de sua utilização pode ser maior, garantindo que as abordagens terapêuticas sejam eficazes, com menos efeitos adversos, e promovendo a segurança dos pacientes.

5 CONCLUSÃO

A nefrite intersticial aguda pode ser uma complicação associada ao uso de fitoterápicos, incluindo a unha de gato (Uncaria tomentosa) e o Uxi Amarelo (Endopleura uchi). 

Embora esses extratos vegetais sejam frequentemente utilizados por suas propriedades anti-inflamatórias e imunomoduladoras, a sua ingestão pode resultar em reações adversas, como fica evidente no caso relatado. A exposição a compostos bioativos presentes nessas plantas pode desencadear toxicidade renal em indivíduos suscetíveis, resultando em nefrite intersticial. 

Portanto, se faz essencial que os profissionais de saúde monitorem cuidadosamente o uso desses fitoterápicos, questionando os paciente sobre o uso de medicamentos à base de plantas especialmente em pacientes com histórico de doenças renais ou que estejam em uso de polifarmácia, para prevenir complicações e garantir a segurança do tratamento. A pesquisa adicional é necessária para elucidar os mecanismos envolvidos e estabelecer diretrizes de uso seguro.

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1Médico Residente no Hospital Regional de Taguatinga/DF. e-mail: brunotenorio14@gmail.com
2Professora Orientadora no Hospital Regional de Taguatinga. e-mail: ncmelo@gmail.com