REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202510181617
Rafael Adriano Rodrigues Macedo1
Maria Eduarda Botelho Bento2
Neire Abreu Mota Porfiro3
Resumo
O presente estudo tem como objetivo analisar a contribuição da musicoterapia como instrumento no manejo da ansiedade, com base em evidências científicas da literatura. A ansiedade destaca-se hoje como um dos transtornos mentais mais prevalentes, afetando indivíduos em diferentes faixas etárias e contextos. Nesse cenário, a musicoterapia emerge como uma abordagem terapêutica complementar promissora, capaz de oferecer um canal de expressão emocional que transcende a linguagem verbal. A pesquisa é guiada pela questão norteadora: Qual o potencial da musicoterapia como ferramenta terapêutica para o manejo da ansiedade, e quais os desafios para sua aplicação na prática clínica? O estudo, de caráter bibliográfico, busca sintetizar o conhecimento atual sobre os efeitos da musicoterapia para a ansiedade, identificando suas principais aplicações e descrevendo os benefícios terapêuticos obtidos.
Palavras-chave: Musicoterapia; Ansiedade; Saúde mental; Ferramenta.
Abstract
The present study aims to analyze the contribution of music therapy as an instrument in the management of anxiety, based on scientific evidence in the literature. Anxiety stands out today as one of the most prevalent mental disorders, affecting individuals in different age groups and contexts. In this scenario, music therapy emerges as a promising complementary therapeutic approach, capable of offering a channel of emotional expression that transcends verbal language. The research is guided by the guiding question: What is the potential of music therapy as a therapeutic tool for the management of anxiety, and what are the challenges for its application in clinical practice? The study, of a bibliographic nature, seeks to synthesize the current knowledge about the effects of music therapy for anxiety, identifying its main applications and describing the therapeutic benefits obtained.
Keywords: Music therapy; Anxiety; Mental health; Tool.
1. INTRODUÇÃO
A ansiedade, um fenômeno multifacetado e universal, representa hoje um dos maiores desafios para a saúde mental global. Manifestando-se em diversas faixas etárias e contextos, essa condição é frequentemente exacerbada pelas intensas transformações e demandas da vida contemporânea. Essa realidade tem se tornado uma preocupação crescente no cenário da saúde pública, com estudos como o da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS, 2022) alertando para a alta prevalência de transtornos mentais em diferentes grupos populacionais, incluindo, por exemplo, adolescentes e jovens, o que reforça a urgência na busca por abordagens terapêuticas que promovam a regulação emocional e o bem-estar psicológico de forma abrangente.
Diante desse cenário, a musicoterapia tem se consolidado como uma abordagem promissora e humanística no campo da saúde mental. Diferentemente de uma atividade recreativa, a música é utilizada de forma intencional e sistemática, guiada por um musicoterapeuta qualificado. A base científica dessa intervenção reside em sua capacidade de atuar sobre áreas cerebrais relacionadas à emoção e ao prazer, conforme demonstram estudos recentes. Conforme a pesquisa de Carmo e Colacite (2023), a música estimula a plasticidade cerebral e promove a liberação de neurotransmissores como a dopamina e a serotonina, o que explica sua eficácia na redução de estresse e na modulação do humor. Similarmente, Alves Junior et al. (2022), em sua revisão sistemática, evidenciam que a musicoterapia eleva a autopercepção e a autorrealização, enquanto reduz significativamente a ansiedade.
Além do impacto neuroquímico, a música oferece um canal de expressão que transcende a linguagem verbal, o que é de grande valia para indivíduos que, muitas vezes, têm dificuldade em verbalizar seus sentimentos e experiências complexas. A aplicação de técnicas ativas (como a improvisação) ou receptivas (como a escuta musical) oferece um meio seguro para a manifestação de sentimentos complexos, facilitando o processo de auto-descoberta e o equilíbrio emocional. Essa abordagem se alinha, portanto, com a necessidade de intervenções que auxiliem as pessoas a navegar pelos desafios da vida de forma criativa e não-invasiva, conforme já discutido por Cunha et al. (2024).
A interdisciplinaridade inerente à musicoterapia, que se articula com saberes da psicologia, neurociência e outras áreas da saúde, potencializa sua capacidade de intervenção. O diálogo com a psicologia, por exemplo, permite que a música seja empregada não apenas como um agente de relaxamento, mas como um facilitador de processos psicoterapêuticos mais profundos, mediando a exploração de questões emocionais e cognitivas (Silva Júnior et al., 2022; Cunha et al., 2024). Essa sinergia ressalta a complexidade e a riqueza da abordagem musicoterapêutica, que vai além do mero entretenimento, atuando como um catalisador para a saúde mental e o desenvolvimento pessoal. O reconhecimento dessa integração, como aponta Sampaio (2023) ao discutir a dinâmica de “ser-com-o-outro-na-música”, é fundamental para compreender o potencial terapêutico da experiência musical compartilhada e individual.
Diante da crescente busca por abordagens complementares e integrativas em saúde, e considerando o panorama desafiador da saúde mental contemporânea, torna-se premente aprofundar o conhecimento sobre a musicoterapia. A síntese das evidências científicas disponíveis é fundamental para consolidar sua prática, expandir sua aplicação e informar profissionais e formuladores de políticas sobre seus benefícios.
Considerando a necessidade de sintetizar o conhecimento existente sobre o tema e aprofundar o entendimento sobre a musicoterapia como uma ferramenta terapêutica para a ansiedade, este artigo pautou-se na seguinte questão norteadora: Qual o potencial da musicoterapia como ferramenta terapêutica para o manejo da ansiedade, e quais os desafios para sua aplicação na prática clínica?
Dessa forma, o objetivo geral deste estudo é analisar os efeitos da musicoterapia no tratamento da ansiedade, com base em evidências científicas da literatura. Por sua vez, os objetivos específicos foram delineados em: a) descrever as principais aplicações e técnicas musicoterapêuticas utilizadas; e b) apresentar os benefícios terapêuticos e desfechos positivos obtidos para esta condição.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 MUSICOTERAPIA: DEFINIÇÃO, CONCEITOS E FUNDAMENTOS
A musicoterapia é um campo interdisciplinar que se utiliza da música e de seus elementos: ritmo, melodia e harmonia, para promover a saúde e o bem-estar de indivíduos e grupos. Longe de ser uma atividade recreativa, trata-se de um processo sistemático de intervenção terapêutica, conduzido por um musicoterapeuta qualificado. Sua definição e aplicação se fundamentam na premissa de que a música possui uma capacidade intrínseca de afetar os seres humanos em múltiplos níveis: físico, emocional, cognitivo e social (Alves Junior, R. et al., 2022).
Os elementos da música são utilizados de forma intencional e sistemática na prática clínica. O ritmo é um dos pilares, sendo capaz de influenciar diretamente os estados fisiológicos do indivíduo. A aplicação de ritmos lentos e regulares pode, por exemplo, reduzir o estresse e aliviar o cansaço físico, induzindo o relaxamento profundo (Nunes-Silva et al., 2012). Essa resposta se deve à capacidade do ritmo musical de se sincronizar com os batimentos cardíacos e a respiração, auxiliando na regulação do sistema nervoso autônomo e, consequentemente, na diminuição dos sintomas físicos da ansiedade, como a taquicardia e a tensão muscular.
Já a melodia e a harmonia são cruciais para a expressão e o processamento de emoções. Elas atuam no cérebro para evocar sentimentos e memórias, o que as torna um canal de expressão para indivíduos que, frequentemente, têm dificuldades em verbalizar suas experiências e sentimentos complexos. Em um contexto terapêutico, a forma como uma melodia se desenvolve ou a alternância entre a tensão e o relaxamento de uma progressão harmônica podem refletir e auxiliar na elaboração de conflitos internos, proporcionando um espaço seguro para a catarse emocional e o autoconhecimento.
A criação musical, seja pela composição ou improvisação, permite a externalização de emoções difíceis de nomear e facilita o processo de auto-descoberta e ressignificação de vivências (Malta et al., 2024).
2.2 APLICAÇÕES E TÉCNICAS DA MUSICOTERAPIA
As aplicações e técnicas musicoterapêuticas são variadas e adaptadas às necessidades do paciente, abrangendo uma vasta gama de métodos. Eles podem ser divididos em receptivos e ativos. Os métodos receptivos envolvem a escuta de músicas selecionadas para induzir relaxamento, evocar memórias ou gerar respostas emocionais. O uso da música para a indução de relaxamento, por exemplo, é um dos mais documentados e eficazes no manejo do estresse e da ansiedade (Nunes-Silva et al., 2012).
Por outro lado, os métodos ativos incluem a improvisação vocal ou instrumental, a composição de canções e o movimento ao som da música. Essas técnicas permitem ao indivíduo explorar sua identidade, expressar emoções reprimidas e desenvolver novas habilidades (Malta et al., 2024).
A escolha da técnica depende do objetivo terapêutico e da condição do paciente, o que torna a musicoterapia uma prática altamente flexível, individualizada e centrada no cliente. A prática com grupos também se mostra eficaz, como as oficinas de música que promovem o desenvolvimento expressivo e a interação social (Malta et al., 2024).
2.3 MUSICOTERAPIA E PSICOLOGIA: A INTERDISCIPLINARIDADE
A musicoterapia, embora seja uma disciplina autônoma com bases teóricas e práticas próprias, mantém um diálogo intrínseco e uma relação interdisciplinar com a psicologia. Essa interface se manifesta na utilização de conceitos e técnicas psicológicas para potencializar os resultados da musicoterapia, especialmente no manejo de condições de saúde mental.
A música, nesse contexto, não é apenas um recurso, mas um mediador de processos terapêuticos, atuando em conjunto com abordagens psicoterapêuticas para facilitar a expressão e o processamento de questões emocionais.
Conforme a literatura, a colaboração entre musicoterapia e psicologia é uma “junção saudável para diversos tratamentos psíquicos”, sendo particularmente eficaz em condições de estresse e ansiedade (Silva Junior et al., 2022). A musicoterapia pode ser utilizada, por exemplo, em conjunto com a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) para potencializar os resultados no manejo da ansiedade (Cunha et al., 2024).
Essa interdisciplinaridade permite que a música atue não apenas em um nível neuroquímico de relaxamento, mas também em um nível simbólico e de elaboração, que é o cerne do trabalho psicológico. O conceito de “ser-com-o-outro-na-música” exemplifica essa dinâmica, demonstrando como a experiência musical compartilhada pode mediar e desenvolver processos comunicacionais, um ponto crucial tanto para a musicoterapia quanto para a psicologia (Sampaio, 2023).
2.4 BENEFÍCIOS TERAPÊUTICOS E DESFECHOS POSITIVOS
Os benefícios terapêuticos da musicoterapia no manejo da ansiedade são amplamente documentados. Em um nível fisiológico, a prática musicoterapêutica tem sido associada à redução dos níveis de cortisol, à diminuição da frequência cardíaca e à melhora da qualidade do sono, que são indicadores de relaxamento frequentemente observados em estudos (Carmo & Colacite, 2023).
No plano psicológico, a musicoterapia contribui para a melhora da autoestima, o aumento da autopercepção e a facilitação da expressão de sentimentos, o que auxilia na resolução de conflitos internos e na promoção de um senso de bem-estar geral (Alves Junior et al., 2022).
O ambiente seguro e não-julgador proporcionado pela sessão de musicoterapia favorece a catarse emocional e a reestruturação cognitiva, elementos cruciais para o tratamento da ansiedade. A eficácia da musicoterapia é reforçada por sua capacidade de impactar a qualidade de vida de pessoas com demandas de saúde mental, promovendo desfechos positivos de maneira integrada (Callou Filho et al., 2024).
A eficácia da musicoterapia em diversas condições e faixas etárias amplifica a sua relevância. Sua natureza não-invasiva e a universalidade da linguagem musical a tornam uma opção terapêutica acessível e muitas vezes bem recebida, especialmente por aqueles que podem resistir a abordagens mais tradicionais ou que possuem barreiras de comunicação.
A integração dessa modalidade terapêutica em sistemas de saúde, como o Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, representa um avanço significativo na oferta de cuidados mais abrangentes e humanizados em saúde mental, reforçando a importância da colaboração interprofissional e da valorização de práticas integrativas para a promoção do bem-estar.
3. METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como uma revisão de literatura de natureza bibliográfica, um método amplamente reconhecido na academia por sua capacidade de sintetizar e analisar o conhecimento já produzido sobre um tema específico. Tal abordagem permite não apenas a identificação de lacunas de pesquisa e a consolidação de informações relevantes, mas também o estabelecimento de um panorama atualizado sobre a musicoterapia no manejo da ansiedade.
A escolha por este delineamento justifica-se pela necessidade de compilar e discutir as evidências científicas mais recentes, fornecendo um arcabouço teórico sólido para a compreensão da eficácia e aplicabilidade da musicoterapia. O delineamento do estudo seguiu as seguintes etapas sistemáticas e sequenciais, visando garantir o rigor científico e a transparência do processo: a) definição da pergunta de pesquisa; b) busca e seleção dos artigos nas bases de dados; c) análise e síntese dos dados encontrados; e d) apresentação dos resultados e considerações finais.
Para a busca de artigos, foram utilizadas bases de dados eletrônicas de reconhecida relevância acadêmica, especificamente o Portal de Periódicos CAPES e o Google Acadêmico. A seleção dessas plataformas se deu pela sua abrangência e pela qualidade dos periódicos indexados, assegurando acesso a publicações revisadas por pares e de alto impacto científico em diversas áreas do conhecimento, incluindo a saúde e a psicologia.
As buscas foram meticulosamente realizadas utilizando uma combinação estratégica de descritores em português, como “musicoterapia”, “ansiedade”, “saúde mental” e “revisão de literatura”. Para otimizar a recuperação de artigos e garantir a obtenção de resultados mais precisos e pertinentes, foram empregados operadores booleanos como AND e OR, permitindo uma combinação flexível e eficiente dos termos de busca, minimizando ruídos e maximizando a relevância dos documentos encontrados.
Os critérios de inclusão e exclusão foram rigorosamente aplicados para garantir a pertinência e a qualidade dos estudos selecionados. Foram incluídos artigos publicados a partir de 2022, a fim de focar nas pesquisas mais recentes e atualizadas sobre o tema.
Adicionalmente, apenas estudos redigidos no idioma português foram considerados, visando facilitar a análise aprofundada do conteúdo. Os artigos deviam abordar a musicoterapia especificamente no manejo da ansiedade ou em contextos mais amplos de saúde mental, e a disponibilidade na íntegra era um requisito essencial para a completa análise dos dados.
Em contrapartida, foram excluídos os trabalhos que não se enquadravam nos descritores definidos, que não apresentavam uma metodologia clara sobre a aplicação da musicoterapia, ou que estavam em um período de tempo anterior ao estipulado.
A análise dos artigos selecionados foi realizada de forma descritiva e qualitativa. Essa abordagem permitiu não apenas a identificação e a síntese dos principais achados de cada estudo, mas também uma compreensão aprofundada das nuances e particularidades das técnicas musicoterapêuticas utilizadas, dos benefícios reportados e dos desfechos positivos obtidos no contexto da ansiedade. Cada artigo foi lido criticamente, e as informações relevantes foram extraídas e categorizadas de acordo com os objetivos específicos deste trabalho.
O processo de seleção e análise, que envolveu a leitura inicial de títulos e resumos seguida da leitura completa dos artigos que atendiam aos critérios, pode ser visualizado na Tabela 1, que resume as características essenciais dos sete principais trabalhos que serviram de base para este estudo.
É importante ressaltar que, embora o recorte temporal de 2022 tenha sido um critério primário, o artigo de Nunes-Silva et al. (2012) foi excepcionalmente incluído devido à sua relevância seminal para a compreensão da música como indutora de relaxamento, um pilar fundamental da ação da musicoterapia no manejo da ansiedade, e por ser amplamente citado na literatura recente.
Tabela 1. Descrição dos artigos selecionados para a revisão de literatura

Fonte: Elaborado pelo autor (2025).
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A análise dos artigos selecionados permitiu a identificação de evidências robustas sobre a eficácia da musicoterapia no manejo da ansiedade, bem como sua vasta aplicabilidade em diversos contextos de saúde mental.
Os estudos revisados reforçam o potencial da música como uma intervenção complementar valiosa, que atua em múltiplos níveis para promover o bem-estar e a regulação emocional. A seguir, os resultados são apresentados e discutidos, agrupados por temas centrais identificados na literatura. Fundamentos Neurobiológicos e Fisiológicos da Intervenção Musical.
4.1 FUNDAMENTOS NEUROBIOLÓGICOS E FISIOLÓGICOS DA INTERVENÇÃO MUSICAL
Os achados da literatura corroboram que a música não se limita a um efeito meramente subjetivo, mas possui uma base neurobiológica concreta para sua ação terapêutica. A pesquisa de Carmo e Colacite (2023), por exemplo, destaca que a música é capaz de atuar sobre áreas cerebrais específicas, promovendo sua plasticidade e estimulando a liberação de neurotransmissores como dopamina, serotonina e endorfinas. Esse efeito neuroquímico é diretamente responsável pela redução dos níveis de estresse e ansiedade, além de modular o humor e gerar sensações de prazer e relaxamento. A ativação do sistema de recompensa cerebral pela música explica parte de sua eficácia, criando associações positivas e facilitando a regulação emocional.
Complementando essa perspectiva, Nunes-Silva et al. (2012) investigaram a música como indutora de relaxamento, reforçando que determinados tipos de música podem “reduzir ou prevenir o estresse, aliviar o cansaço físico e induzir emoções”. Esses autores detalham como a escolha de elementos como andamento lento, harmonia consonante e ausência de letra (ou letras com conteúdo calmante) pode otimizar a resposta de relaxamento. Essa capacidade fisiológica da música de regular o sistema nervoso autônomo é um dos pilares da musicoterapia no manejo de sintomas físicos e emocionais da ansiedade, como taquicardia, tensão muscular e respiração acelerada.
A compreensão desses mecanismos neurobiológicos e fisiológicos é fundamental para o musicoterapeuta, pois permite a seleção de intervenções mais informadas e personalizadas. Ao reconhecer como a música influencia o corpo e a mente, é possível desenvolver estratégias mais eficazes para o controle da ansiedade, que vão além do mero “gostar” da música, engajando o paciente em um processo terapêutico com bases científicas sólidas.
Tal embasamento eleva a musicoterapia de uma prática empírica para uma intervenção clinicamente validada, crucial para seu reconhecimento e integração em contextos de saúde mental (Alves Junior et al., 2022).
4.2 BENEFÍCIOS PSICOLÓGICOS E DE EXPRESSÃO EMOCIONAL
Para além dos efeitos fisiológicos, a musicoterapia oferece um canal único de expressão para o paciente, que se torna um espaço seguro para a externalização de conflitos internos. A música, sendo uma linguagem não-verbal, permite que sentimentos complexos e experiências difíceis de verbalizar sejam manifestados e elaborados.
A escuta ativa de músicas, a improvisação livre ou a composição de canções fornecem meios poderosos para que o indivíduo projete suas emoções e narrativas, muitas vezes inacessíveis pela via da fala (Silva Júnior et al., 2022). Cunha et al. (2024) pontuam que o “entrelaçamento da musicoterapia com a psicoterapia pode ser uma junção saudável”, pois a música potencializa o processo terapêutico ao oferecer um novo meio de comunicação.
Essa linguagem não-verbal é especialmente relevante para pessoas que enfrentam desafios na comunicação verbal, em diversas fases da vida ou em condições específicas de saúde mental. A literatura, por exemplo, destaca sua importância para crianças e adolescentes, onde Malta et al. (2024) indicam que a música se apresenta como uma “linguagem de abertura ao humano”, capaz de desenvolver processos comunicativos e sociais.
O mesmo princípio se aplica a adultos com dificuldades de expressão ou em situações de trauma, onde a verbalização é dolorosa ou impossível. Esse potencial de “ser-com-o-outro-na-música”, discutido por Sampaio (2023), evidencia como a experiência musical, seja individual ou compartilhada, pode mediar e fortalecer relações interpessoais e intrapessoais, contribuindo diretamente para o aumento da autopercepção, da autoestima e da autorrealização, como apontado por Alves Júnior et al. (2022).
Através da musicoterapia, o processo de ressignificação de vivências torna-se mais acessível. Ao manipular elementos musicais – mudando um ritmo tenso para um relaxado, ou uma melodia triste para uma mais esperançosa – o paciente pode experimentar, em um nível simbólico e concreto, a possibilidade de alterar seus próprios estados internos e sua relação com suas emoções. Isso favorece a catarse emocional, a elaboração de lutos ou traumas, e o desenvolvimento de estratégias de coping mais adaptativas, essenciais para o manejo da ansiedade e a promoção do equilíbrio emocional duradouro.
4.3 CONTEXTOS DE APLICAÇÃO E INTERDISCIPLINARIDADE NA PRÁTICA CLÍNICA
A revisão da literatura também revela a vasta aplicabilidade da musicoterapia em diferentes contextos clínicos. O artigo de Cunha et al. (2024) e Callou Filho et al. (2024), por exemplo, citam a utilização em ambientes tão variados quanto salas de cirurgia (para redução da ansiedade pré e pós-operatória), diversos centros de atenção psicossocial (como os CAPS, onde auxilia na reinserção social e na expressão de pacientes com transtornos graves) e contextos de terapia cognitivo-comportamental (TCC, potencializando a reestruturação de pensamentos). Essa flexibilidade demonstra que a musicoterapia não é restrita a um único ambiente ou população, mas pode ser integrada a diferentes modelos de cuidado em saúde, adaptando-se às necessidades específicas de cada contexto e usuário.
A interdisciplinaridade, um tema central explorado neste estudo, é fortemente reforçada pela literatura como um pilar para a eficácia da musicoterapia. Silva Júnior et al. (2022) sugerem que o “entrelaçamento da musicoterapia com a psicoterapia pode ser uma junção saudável para diversos tratamentos psíquicos”, destacando a complementaridade entre as abordagens.
Essa colaboração permite que a música não apenas induza estados de relaxamento, mas também sirva como um catalisador para a exploração de conteúdos emocionais e cognitivos que são o foco da psicoterapia. Ao integrar a música, o processo terapêutico ganha uma dimensão adicional, facilitando a comunicação e a elaboração de experiências de forma mais profunda e muitas vezes menos resistida.
Essa sinergia potencializa os resultados no manejo de condições ansiogênicas e de estresse de forma ampla, o que torna a musicoterapia uma ferramenta complementar valiosa em sistemas de saúde como o Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. A valorização de práticas integrativas e complementares, como a musicoterapia, reflete uma visão mais holística da saúde, reconhecendo que o bem-estar mental e físico está intrinsecamente ligado e que abordagens diversas podem promover a recuperação e a qualidade de vida (Cunha et al., 2024).
Contudo, apesar do potencial e da crescente evidência, a aplicação da musicoterapia na prática clínica ainda enfrenta desafios significativos, respondendo à segunda parte da questão norteadora deste estudo. A falta de reconhecimento profissional e a escassez de vagas para musicoterapeutas em equipes multidisciplinares limitam o acesso a essa intervenção. Além disso, a necessidade de formação especializada e a carência de pesquisas que avaliem o custo-benefício em longo prazo em diferentes populações representam obstáculos para a sua ampla integração. É fundamental que haja um investimento contínuo em educação, regulamentação e pesquisa para superar essas barreiras e consolidar a musicoterapia como uma prática de saúde mental plenamente estabelecida (Silva Júnior et al., 2022).
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo bibliográfico demonstrou, de maneira inequívoca, que a musicoterapia se configura como uma ferramenta terapêutica de grande relevância e com sólida base científica para o manejo da ansiedade. Ao longo desta revisão, foi possível constatar que os efeitos da música sobre a saúde mental transcendem a esfera subjetiva, atuando em múltiplos níveis – neurobiológico, fisiológico e psicológico – para promover a regulação emocional e o bem-estar.
Os objetivos específicos propostos foram alcançados, ao descrever as principais aplicações e técnicas musicoterapêuticas e ao apresentar os benefícios terapêuticos e desfechos positivos obtidos para a condição da ansiedade. A capacidade da música de influenciar sistemas cerebrais e fisiológicos, conforme evidenciado por Carmo e Colacite (2023) e Alves Júnior et al. (2022), reforça sua eficácia como uma intervenção que promove o relaxamento e modula estados afetivos de forma concreta e mensurável.
A pesquisa também revelou a vasta aplicabilidade da musicoterapia em diversos contextos clínicos, desde a redução do estresse pré-operatório em ambientes hospitalares, a promoção da expressão em centros de atenção psicossocial, até a potencialização da reestruturação cognitiva em conjunto com a psicoterapia (Cunha et al., 2024; Callou Filho et al., 2024).
O seu potencial em oferecer um canal de expressão não-verbal é de especial valor para indivíduos que enfrentam desafios na comunicação, em diferentes fases da vida. Conforme discutido por Malta et al. (2024) e Sampaio (2023), a música se estabelece como uma linguagem de abertura ao humano, capaz de mediar processos de comunicação e elaboração emocional, promovendo o autoconhecimento e a ressignificação de vivências. A interdisciplinaridade com a psicologia, um ponto central da nossa discussão, reforça a potência dessa abordagem, indicando que a integração de diferentes terapias é o caminho para um cuidado mais holístico e eficaz, principalmente em um cenário de crescente demanda por saúde mental.
No entanto, é crucial reconhecer que, apesar do corpo de evidências crescente, a literatura ainda apresenta lacunas que merecem atenção em futuras pesquisas. Uma das principais lacunas identificadas é a carência de estudos mais aprofundados e metodologicamente rigorosos que investiguem a aplicação e a eficácia da musicoterapia em grupos etários específicos, além de uma maior diversidade de contextos culturais e socioeconômicos.
Embora o potencial para populações como adolescentes seja notável, como apontado por Malta et al. (2024) e Sampaio (2023), a literatura ainda carece de pesquisas que compreendam as particularidades dessa faixa etária e identifiquem as técnicas mais eficazes para o manejo da ansiedade especificamente nesse grupo, evitando a generalização de achados de outras populações.
Além disso, pesquisas que comparem a musicoterapia com outras abordagens terapêuticas ou que avaliem o seu custo-benefício em longo prazo seriam de grande valia para consolidar ainda mais o seu reconhecimento e a sua inclusão em protocolos de atendimento, como no Sistema Único de Saúde (SUS), onde a comprovação de eficácia e economicidade é essencial para a implementação de novas terapias.
Em resposta à questão norteadora deste estudo, o potencial da musicoterapia como ferramenta terapêutica no manejo da ansiedade é indiscutível, pautado em seus efeitos neurobiológicos, fisiológicos e psicológicos. Contudo, os desafios para sua aplicação na prática clínica são predominantemente relacionados à falta de reconhecimento institucional, à escassez de profissionais musicoterapeutas qualificados nos serviços de saúde e à necessidade de maior investimento em pesquisa para solidificar as diretrizes de sua prática. Superar esses desafios requer um esforço conjunto de acadêmicos, profissionais da saúde e formuladores de políticas públicas.
Em suma, a musicoterapia oferece uma resposta promissora aos desafios da saúde mental, e sua contínua expansão e reconhecimento em ambientes clínicos e acadêmicos representam um avanço significativo no cuidado humano. Este estudo, ao sintetizar as evidências e apontar caminhos para o futuro, espera contribuir para a disseminação do conhecimento sobre essa abordagem e incentivar o aprofundamento das pesquisas na área, em prol de uma prática clínica cada vez mais qualificada, acessível e integrada às necessidades da população
REFERÊNCIAS
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1 Graduando em Psicologia pela Faculdade Católica de Rondônia. E-mail.: rafael.macedo@sou.fcr.edu.br
2 Graduanda em Psicologia pela Faculdade Católica de Rondônia. E-mail: maria.bento@sou.fcr.edu.br
3Doutoranda no Programa de Doutorado Profissional em Educação Escolar pela Universidade Federal de Rondônia – UNIR. Pesquisadora da Linha 2 – Currículo, Políticas e Diferenças Culturais na Educação Básica. Mestra em Educação pela Universidade Federal de Rondônia. Pós-graduada em Metodologia do Ensino Superior (UNINTES-2004). Pós-graduada em Neuropsicopedagogia pelo Instituto Rhema (2024). Pós-graduada em Coordenação Pedagógica pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR- 2012). Graduada em Pedagogia com Habilitação em Administração Escolar (UNIPEC-2003). Membro dos Grupo de Pesquisa: Práxis (UNIR); Educação Intercultural e Povos Tradicionais (UNIR). Articuladora dos Anos Iniciais da Base Nacional Comum Curricular no Estado de Rondônia. Professora Voluntária da Universidade Federal de Rondônia de 2019 a 2020. Atuou como Assessora Técnica pedagógica na Escola Superior de Contas do Tribunal de Contas do Estado de Rondônia (2021 a 2022). Tem experiência como Coordenadora de Ensino na Faculdade Católica de Rondônia (2022). Atualmente atua na Faculdade Católica de Rondônia como docente, Coordenadora de TCC, e colaboradora do Núcleo de apoio Discente e Docente, bem como Professora NII na Secretaria Municipal de Educação e bolsista do Instituto Federal de Rondônia. Articuladora do Pacto Nacional da Educação de Jovens e Adultos. CV: http://lattes.cnpq.br/2174979432762207 Orcid: https://orcid.org/0000-0001-6949-9792 E-mail: nporfiro28@gmail.com
