MICROBIOTA HOSPITALAR E SUA INFLUÊNCIA NAS INFECÇÕES RELACIONADAS À ASSISTÊNCIA À SAÚDE

HOSPITAL MICROBIOTA AND ITS INFLUENCE ON HEALTHCARE-ASSOCIATED INFECTIONS

MICROBIOTA HOSPITALARIA Y SU INFLUENCIA EN LAS INFECCIONES ASOCIADAS A LA ASISTENCIA SANITÁRIA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202503141427


Emanuelle Soares Fontenele¹; Joel Gonzaga de Souza²; Gabrielle Soares Fontenele³; Sofia Brito Motta⁴; Esther Areia Silva⁵; Higor de Andrade Mello⁶; Vicente de Brito Foggia⁷; Pedro Lívio Menezes Dalpasquale⁸.


RESUMO

As infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS) são um desafio significativo para o controle de infecções hospitalares. A presença e a diversidade de microrganismos em superfícies hospitalares representam um risco para a disseminação de patógenos e contribuem para o aumento da resistência antimicrobiana. Este artigo busca analisar a diversidade microbiana em superfícies hospitalares e sua influência na incidência de IRAS. A metodologia utilizada é uma revisão narrativa de literatura, baseada em artigos publicados nos últimos dez anos. Os resultados apontam que a higienização inadequada, o contato físico constante e a presença de biofilmes em equipamentos e superfícies favorecem a persistência de microrganismos patogênicos, como Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA) e Acinetobacter spp. Conclui-se que estratégias eficazes de desinfecção e monitoramento microbiológico são essenciais para a redução das IRAS.

Palavras-chave: Microbiota hospitalar, infecções nosocomiais, resistência antimicrobiana, superfícies hospitalares, desinfecção.

ABSTRACT

Healthcare-associated infections (HAIs) are a significant challenge for hospital infection control. The presence and diversity of microorganisms on hospital surfaces pose a risk for the spread of pathogens and injuries that increase antimicrobial resistance. This article aims to analyze the microbial diversity on hospital surfaces and its influence on the incidence of HAIs. The methodology used is a narrative literature review, based on articles published in the last ten years. The results indicate that moderate hygiene, constant physical contact and the presence of biofilms on equipment and surfaces favor the persistence of pathogenic microorganisms, such as methicillin-resistant Staphylococcus aureus (MRSA) and Acinetobacter spp. It is concluded that infection strategies and microbiological monitoring are essential for the reduction of HAIs.

Keywords: Hospital microbiota, nosocomial infections, antimicrobial resistance, hospital surfaces, disinfection.

Resumen

Las infecciones asociadas a la atención sanitaria (IAAS) representan un desafío importante para controlar las infecciones adquiridas en hospitales. La presencia y diversidad de microorganismos en las superficies de los hospitales plantean un riesgo de propagación de patógenos y daños al aumento de la resistencia a los antimicrobianos. Este artículo busca analizar la diversidad microbiana en superficies hospitalarias y su influencia en la incidencia de IRAS. La metodología utilizada es una revisión narrativa de la literatura, basada en artículos publicados en los últimos diez años. Los resultados indican que la higiene moderada, el contacto físico constante y la presencia de biopelículas en equipos y superficies favorecen la persistencia de microorganismos patógenos, como Staphylococcus aureus resistente a meticilina (SARM) y Acinetobacter spp. Se concluye que las estrategias de infección y el monitoreo microbiológico son fundamentales para reducir las IRAS.

Palabras clave: Microbiota hospitalaria, infecciones nosocomiales, resistencia a los antimicrobianos, superficies hospitalarias, desinfección.

1 INTRODUÇÃO

As infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS) representam um grave problema de saúde pública global, impactando significativamente a morbidade, mortalidade e os custos hospitalares. Ambientes hospitalares são locais de alta circulação de pacientes e profissionais da saúde, favorecendo a disseminação de microrganismos, muitos dos quais são resistentes a múltiplas classes de antibióticos. A presença e a persistência desses patógenos em superfícies e equipamentos médicos têm sido associadas a surtos de infecções nosocomiais, tornando essencial a implementação de medidas eficazes de prevenção e controle.

Estudos demonstram que superfícies contaminadas, como camas hospitalares, mesas de cabeceira, equipamentos médicos e até mesmo os aventais dos profissionais de saúde, podem servir como reservatórios de microrganismos patogênicos, incluindo Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), Acinetobacter spp. e Clostridium difficile. A falta de adesão a protocolos rigorosos de higienização e a presença de biofilmes microbiológicos contribuem para a persistência desses agentes infecciosos, tornando a desinfecção hospitalar um desafio constante. Além disso, a crescente resistência antimicrobiana agrava ainda mais o cenário, exigindo novas abordagens para mitigação de riscos.

Diante desse contexto, a presente pesquisa busca compreender a diversidade microbiana em superfícies hospitalares e sua relação com a incidência de IRAS. O estudo visa fornecer subsídios para otimizar práticas de desinfecção, orientar estratégias de prevenção e auxiliar no desenvolvimento de políticas de controle de infecções, garantindo maior segurança para pacientes e profissionais de saúde.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

A microbiota hospitalar tem sido objeto de estudo devido ao seu impacto direto na disseminação de infecções nosocomiais. Segundo Dancer (2019), superfícies hospitalares podem atuar como reservatórios de microrganismos patogênicos, influenciando diretamente a taxa de infecções hospitalares. Estudos indicam que microrganismos como Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), Acinetobacter spp. e Clostridium difficile persistem em ambientes hospitalares devido a falhas nos protocolos de higienização (Weber et al., 2010).

A resistência antimicrobiana é outro fator relevante na manutenção e disseminação da microbiota hospitalar. Conforme apontado por Munita e Arias (2016), o uso indiscriminado de antimicrobianos tem levado à seleção de cepas altamente resistentes, dificultando o tratamento de infecções nosocomiais. Esse fenômeno reforça a necessidade de medidas preventivas e controle rigoroso do uso de antibacterianos em hospitais (Blum, 2017).

A eficiência das técnicas de desinfecção também é amplamente discutida na literatura. Estudos demonstram que métodos tradicionais, como a limpeza manual com hipoclorito de sódio, podem ser insuficientes para eliminar microrganismos multirresistentes, sendo necessária a incorporação de novas tecnologias, como radiação ultravioleta e agentes desinfetantes de amplo espectro (Hayward et al., 2022). Ademais, Brusaferro et al. (2018) ressaltam que a adesão dos profissionais de saúde às boas práticas de higienização é essencial para reduzir a carga microbiana em ambientes hospitalares.

Outro aspecto crítico na discussão sobre a microbiota hospitalar é o impacto das condições ambientais na permanência dos microrganismos. Segundo Lax e Gilbert (2015), fatores como umidade, temperatura e fluxo de ar desempenham papel crucial na dispersão de patógenos dentro dos hospitais. Assim, melhorias na infraestrutura hospitalar, como sistemas de ventilação adequados e superfícies antimicrobianas, podem contribuir para a redução das IRAS.

Diante das evidências apresentadas, percebe-se que há consenso na literatura sobre a influência da microbiota hospitalar na ocorrência de infecções nosocomiais. No entanto, há lacunas relacionadas à efetividade de novos métodos de desinfecção e à implementação de estratégias de monitoramento contínuo. Estudos futuros devem explorar abordagens inovadoras para o controle da microbiota hospitalar, visando minimizar os riscos de infecções e aprimorar a segurança dos pacientes.

3 METODOLOGIA

Este estudo caracteriza-se como uma revisão narrativa da literatura, com o objetivo de compilar e analisar criticamente as publicações científicas sobre microbiota hospitalar e infecções nosocomiais. A seleção da amostra baseou-se em artigos indexados em bases de dados como PubMed, SciELO e Google Scholar, publicados nos últimos dez anos. Os critérios de inclusão envolveram estudos que abordassem a microbiota hospitalar e sua relação com IRAS, enquanto foram excluídos artigos de opinião e aqueles sem acesso ao texto completo.

A coleta de dados foi realizada por meio de revisão sistemática dos artigos selecionados, considerando-se descritores como “microbiota hospitalar”, “infecções nosocomiais”, “superfícies hospitalares” e “resistência antimicrobiana”. A análise dos dados foi qualitativa, categorizando os microrganismos mais frequentemente encontrados e os fatores que influenciam sua persistência no ambiente hospitalar.

As considerações éticas foram atendidas ao utilizar apenas fontes secundárias disponíveis publicamente, respeitando a integridade acadêmica e os direitos autorais. As limitações do estudo incluem a dependência de dados secundários e a possibilidade de viés na seleção dos artigos revisados.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

Os resultados obtidos na revisão da literatura indicam que a microbiota hospitalar é composta por uma ampla diversidade de microrganismos, incluindo patógenos oportunistas como Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), Acinetobacter spp. e Clostridium difficile. A presença desses microrganismos em superfícies hospitalares está associada à falha nos protocolos de higienização e ao uso inadequado de antimicrobianos.

A discussão desses achados sugere que estratégias de prevenção e controle de infecções devem ser aprimoradas para mitigar os riscos associados à permanência de patógenos nos ambientes hospitalares. Estudos comparativos destacam que hospitais com protocolos de higienização mais rigorosos apresentam menor incidência de infecções nosocomiais. Além disso, a implementação de monitoramento microbiológico regular e o treinamento contínuo de profissionais de saúde são fundamentais para reduzir a disseminação de patógenos.

As principais limitações deste estudo incluem a falta de dados quantitativos e a dependência de informações secundárias. Estudos futuros devem incluir análises laboratoriais que avaliem a efetividade de diferentes métodos de desinfecção e a evolução da resistência antimicrobiana em ambientes hospitalares.

5 CONCLUSÃO

Este estudo evidenciou que a diversidade microbiana em superfícies hospitalares tem um papel fundamental na disseminação das infecções nosocomiais, destacando a necessidade de aprimoramento nos protocolos de controle e prevenção. A análise da literatura revelou que a higienização inadequada e a resistência antimicrobiana são fatores críticos para a persistência de microrganismos patogênicos nos hospitais.

Dessa forma, este estudo contribui para o avanço do conhecimento sobre a microbiota hospitalar e suas implicações para a saúde pública, reforçando a importância de medidas preventivas eficazes. Estudos futuros devem explorar novas estratégias de desinfecção, monitoramento microbiológico contínuo e a implementação de programas de educação para profissionais de saúde, visando aprimorar a segurança hospitalar e reduzir os impactos das IRAS.

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¹Graduanda em Medicina, Universidade Estadual de Roraima, Boa Vista, Roraima, Brasil. E-mail: emanuelle.fontenele@alunos.uerr.edu.br;
²Docente em Medicina, Universidade Estadual de Roraima, Boa Vista, Roraima, Brasil. E-mail: joel.souza@uerr.edu.br;
³Graduanda em Medicina, Universidade Estadual de Roraima, Boa Vista, Roraima, Brasil. E-mail: gabrielle.fontenelee@gmail.com;
⁴Graduanda em Medicina, Universidade Estadual de Roraima, Boa Vista, Roraima, Brasil. E-mail: sofiamottab@hotmail.com;
⁵Graduanda em Medicina, Universidade Estadual de Roraima, Boa Vista, Roraima, Brasil. E-mail: esther.silva@uerr.edu.br;
⁶Graduando em Medicina, Universidade Estadual de Roraima, Boa Vista, Roraima, Brasil. E-mail: higor.mello@uerr.edu.br;
⁷Graduando em Medicina, Universidade Estadual de Roraima, Boa Vista, Roraima, Brasil. E-mail: vicentefoggia@icloud.com;
⁸Graduando em Medicina, Universidade Estadual de Roraima, Boa Vista, Roraima, Brasil. E-mail: liviodalpasquale@gmail.com.