MARSUPIALIZATION OF CYSTIC PERIAPICAL LESION
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202508281423
Celine Vieira Spinola Vicente¹
Rafaela Foleto Firmino Lopes¹
Vinicius Maximo Gomes²
Resumo
As lesões císticas dos maxilares representam alterações patológicas frequentes na prática odontológica, sendo os cistos periapicais os mais prevalentes. Essas lesões geralmente se apresentam assintomáticas, mas podem ocasionar aumento de volume, deslocamento dentário e comprometimento de estruturas nobres, como o seio maxilar e o nervo alveolar inferior. O diagnóstico deve integrar avaliação clínica, radiográfica e histopatológica, sendo este último indispensável para diferenciar entre cistos radiculares, dentígeros e residuais, o que influencia diretamente a escolha terapêutica.
Dentre as opções de tratamento, a marsupialização destaca-se como uma técnica conservadora indicada para cistos de grandes dimensões. O procedimento consiste na abertura de uma janela cirúrgica que possibilita a drenagem do conteúdo e a comunicação da cavidade com o meio bucal, reduzindo a pressão intracística e favorecendo a neoformação óssea. Além de diminuir o risco de danos a dentes adjacentes e estruturas anatômicas importantes, a técnica apresenta menor morbidade em comparação à enucleação imediata. Estudos recentes reforçam a eficácia da marsupialização, destacando sua aplicabilidade clínica, baixa taxa de recidiva e contribuição para a preservação de dentes e tecidos ósseos.
Palavras-chaves: Cisto periapical; Marsupialização; Tratamento conservador; Odontologia.
Abstract
Periapical cysts are the most common cystic lesions of the jaws, frequently associated with pulpal necrosis and characterized by epithelial-lined cavities filled with fluid or semi-fluid content. Although often asymptomatic, these lesions may reach considerable dimensions, leading to swelling, tooth displacement, root resorption, and involvement of critical anatomical structures, such as the maxillary sinus and the inferior alveolar nerve. Accurate diagnosis requires the integration of clinical, radiographic, and histopathological evaluation, with the latter being essential to differentiate radicular, dentigerous, and residual cysts, directly guiding therapeutic planning.
Keywords: Periapical cyst; Marsupialization; Conservative treatment; Dentistry.
Introdução
Os cistos periapicais são definidos, do ponto de vista histopatológico, como cavidades anormais revestidas internamente por tecido epitelial. Externamente, são envoltos por tecido fibroso e contêm em seu interior uma substância fluida ou semilíquida. O material presente dentro do cisto é variado, sendo comum a presença de cristais de colesterol. (Negreiros et al., 2025).
Ele, também chamado de cisto radicular, se forma a partir dos restos epiteliais de Malassez presentes no ligamento periodontal que envolve o dente. (Negreiros et al.,2025). Está relacionado ao epitélio localizado na região do ápice de dentes com necrose pulpar, podendo ser estimulado pela presença de inflamação (Comim et al., 2017). Uma das hipóteses para a origem dos cistos periapicais envolve o desenvolvimento de processos inflamatórios nos quais estão presentes linfócitos, plasmócitos, macrófagos e outras células responsáveis pela regulação do sistema imunológico. Quando essas células são ativadas, passam a liberar diversos grânulos citoplasmáticos e mediadores inflamatórios derivados de lipídios. (Negreiros et al.,2025).
Segundo Pereira (2013) e Costa Neto (2016), o cisto periapical é a lesão mais comum encontrada nos ossos maxilares, representando entre 52% e 68% dos cistos odontogênicos identificados. Ele ocorre com maior frequência na parte anterior da maxila, seguido pela região posterior da maxila e, em seguida, nas áreas da mandíbula. Afeta principalmente adultos entre 20 e 40 anos, sendo mais frequente em indivíduos de pele clara do que em pessoas de pele escura. (Negreiros et al., 2025) . Em suas fases iniciais, o cisto radicular pode permanecer assintomático e, portanto, passar despercebido clinicamente. Sua identificação costuma ocorrer por meio de exames radiográficos de rotina, especialmente radiografias periapicais de elementos dentários com necrose pulpar. A manifestação clínica geralmente se dá apenas em casos de exacerbação inflamatória aguda ou quando há aumento considerável do volume da lesão (Negreiros et al., 2025)
O tratamento dos cistos radiculares com dimensões superiores a 3 cm geralmente envolve o uso da técnica de marsupialização. Essa abordagem consiste na abertura de uma janela cirúrgica na parede do cisto, permitindo o esvaziamento do seu conteúdo e a manutenção de uma comunicação entre a lesão e a cavidade oral, o seio maxilar ou a cavidade nasal. Tal procedimento reduz a pressão interna do cisto, favorecendo sua diminuição e estimulando a formação de novo tecido ósseo. A marsupialização é recomendada principalmente quando há risco de comprometimento de estruturas anatômicas importantes, como vasos sanguíneos e nervos, ou dos dentes adjacentes, bem como em casos em que há possibilidade de enfraquecimento das estruturas ósseas (IGREJA et al., 2005).
Objetivo
Este trabalho tem como objetivo analisar a utilização da técnica de marsupialização no manejo de lesões periapicais císticas, com ênfase em sua aplicabilidade clínica, resultados terapêuticos e impacto no prognóstico dos pacientes. Busca-se compreender os fundamentos biológicos que justificam a escolha desse método conservador, discutindo seus mecanismos de ação sobre a redução da pressão intracística e consequente regressão da cavidade patológica. Além disso, objetiva-se identificar em que situações clínicas a marsupialização se mostra mais indicada, levando em consideração fatores como extensão da lesão, envolvimento de estruturas anatômicas adjacentes e condições sistêmicas do paciente. Por fim, esta revisão visa reunir evidências científicas que permitam avaliar a relevância dessa técnica no contexto da odontologia contemporânea, destacando sua contribuição para a preservação de dentes e estruturas ósseas, bem como para a redução da morbidade associada aos procedimentos cirúrgicos mais invasivos.
Metodologia
Este estudo caracteriza-se como revisão de literatura qualitativa. A busca de artigos foi realizada nas bases Google Acadêmico, PubMed, Scopus, SciELO e Google Scholar, com os descritores “marsupialização”, “cisto periapical”, “tratamento conservador” e “odontologia”. Foram incluídos artigos clínicos, relatos de caso e revisões publicadas entre 2010 e 2025. A análise foi crítica e comparativa, destacando resultados terapêuticos, complicações e prognóstico de pacientes submetidos à marsupialização.
Revisão De Literatura
Lesões císticas
As lesões císticas (LC) constituem as alterações patológicas mais recorrentes na prática de cirurgia oral e maxilo-facial, apresentando-se com maior frequência nos maxilares — tanto superior quanto inferior — em comparação com outros ossos do esqueleto humano . A área de maior prevalência é a dos molares inferiores impactados ou não irrompidos, seguida pela dos caninos superiores, e, com menor ocorrência, pela dos molares superiores. Essas lesões, classificadas como as doenças intraósseas mais comuns dos maxilares, costumam manifestar-se por aumento de volume, embora frequentemente sejam assintomáticas. Além disso, podem afetar estruturas anatômicas nobres, como o seio maxilar e o nervo alveolar inferior, além de causar deslocamento dentário e reabsorção de raízes (do Nascimento et al., 2024).
Diagnóstico
O diagnóstico combina exame clínico, radiográfico e histopatológico. Clinicamente, a lesão pode causar dor, aumento de volume ou fístula. Radiograficamente, observa-se imagem radiolúcida, geralmente unilocular, associada a dentes com necrose pulpar. Tomografia computadorizada é indicada em lesões extensas ou próximas a estruturas nobres. A biópsia histopatológica é essencial para diferenciar cistos radiculares, dentígeros e residuais, influenciando diretamente a conduta terapêutica (Mendonça et al., 2015; Nascimento et al., 2024).
Tratamentos
O tratamento de cistos radiculares de grandes dimensões (maiores que 3 cm) frequentemente envolve a utilização da técnica de marsupialização. Esta consiste na confecção de uma janela cirúrgica na parede do cisto, com o objetivo de promover o esvaziamento do conteúdo e manter a continuidade entre a lesão e a cavidade oral, o seio maxilar ou a cavidade nasal (Marzola, 2008; Faria et al., 2013).
O procedimento reduz a pressão intracística, favorecendo a regressão da lesão e estimulando a neoformação óssea (Marzola, 2008). A marsupialização é indicada especialmente em situações que apresentam risco de comprometimento de estruturas nobres, como nervos e vasos, bem como de dentes adjacentes, ou ainda quando há possibilidade de fragilização das estruturas ósseas (Igreja et al., 2005; Faria et al., 2013).
Embora existam diversas técnicas cirúrgicas para a remoção definitiva de cistos dos ossos maxilares, em casos de lesões de grande porte, esses procedimentos tendem a ser mais invasivos, requerem uma abordagem mais agressiva e estão associados a um maior risco de complicações precoces e tardias. Nesse cenário, a marsupialização, quando empregada como primeira etapa do tratamento, apresenta resultados promissores, oferecendo uma alternativa mais conservadora e segura (Sorrentino et al., 2021).
Tratamento Endodôntico Seguido de Marsupialização
NAIR et al. (14) afirmaram que entre as lesões císticas, apenas o cisto baía, que passou a ser denominado cisto em bolsa, poderia curar após o tratamento endodôntico convencional, já que o cisto verdadeiro, que tem a sua própria dinâmica independente do canal, é autossuficiente, não sendo influenciado por um tratamento de canal. Ou seja, em cistos verdadeiros, geralmente é necessária a realização de complementação cirúrgica. Para lesões de pequenas dimensões, recomenda-se inicialmente o tratamento endodôntico do dente envolvido, com o objetivo de remover o estímulo inflamatório, interrompendo a proliferação epitelial e promovendo o reparo tecidual. A marsupialização, por sua vez, atua na redução da pressão intracística, causando mínimos danos às estruturas anatômicas, facilitando uma enucleação subsequente e favorecendo o processo de regeneração óssea (Silva et al.2018).
Resultados
A análise dos artigos selecionados demonstrou que a marsupialização apresenta resultados satisfatórios no manejo de lesões periapicais císticas de grande porte. Em todos os estudos revisados, observou-se significativa redução da pressão intracística, com consequente diminuição do volume da lesão e estímulo à neoformação óssea. Além disso, a técnica mostrou-se eficiente na preservação de dentes adjacentes e de estruturas anatômicas nobres, reduzindo o risco de complicações cirúrgicas associadas a procedimentos mais invasivos, como a enucleação imediata.
Relatos de caso evidenciaram que, após a marsupialização, houve melhora clínica significativa, com regressão dos sintomas inflamatórios, cicatrização progressiva da cavidade cística e baixa taxa de recidiva. Estudos comparativos também apontaram que a morbidade pós-operatória é menor em pacientes submetidos à marsupialização quando comparada à enucleação direta, sendo relatada menor incidência de dor, edema e risco de fratura óssea.
Outro achado relevante foi que a marsupialização pode ser utilizada de forma isolada, como tratamento definitivo em determinadas situações, ou como procedimento inicial, preparando o leito cirúrgico para uma enucleação em segundo tempo, com maior segurança e previsibilidade. A técnica também demonstrou favorecer, em alguns casos, o irrompimento espontâneo de dentes retidos associados à lesão.
Em síntese, os resultados da literatura revisada confirmam a marsupialização como uma alternativa terapêutica conservadora, eficaz e segura, principalmente em lesões de grandes dimensões, apresentando vantagens em termos de preservação funcional, redução de morbidade e favorecimento da regeneração óssea.
Discussão
O tratamento do cisto periapical inflamatório tem sido amplamente discutido na literatura. Alguns autores defendem que a realização do tratamento endodôntico no dente acometido é suficiente para a resolução da lesão, enquanto outros sustentam a necessidade de abordagem cirúrgica. Em relação aos cistos dentígeros e residuais, há consenso quanto à indicação de intervenção cirúrgica como método resolutivo.
Dentre as modalidades terapêuticas propostas, destaca-se a descompressão seguida de enucleação. Contudo, a utilização de dispositivos para manter a comunicação cirúrgica aberta pode ocasionar desconforto ao paciente e atuar como reservatório de placa bacteriana. Por sua vez, a enucleação de lesões de grande extensão pode comprometer dentes adjacentes, estruturas anatômicas nobres e até provocar danos a nervos e vasos sanguíneos.
A marsupialização representa uma alternativa conservadora, caracterizada pela confecção de uma abertura cirúrgica suturada à mucosa bucal, podendo ser posteriormente complementada por enucleação em um segundo tempo cirúrgico. Esta técnica é considerada vantajosa por apresentar caráter minimamente invasivo, reduzir o risco de complicações, preservar dentes não irrompidos e possibilitar, em alguns casos, o seu irrompimento. Entre as lesões mais comuns destacam-se as fraturas de esmalte e dentina, luxações e, em casos mais graves, a avulsão dentária, que corresponde à expulsão completa do dente do alvéolo (ANDERSSON et al., 2012). A avulsão, apesar de menos frequente, requer cuidados imediatos e específicos para viabilizar o reimplante e garantir um prognóstico favorável (FLORES et al., 2007).
Conclusão
A marsupialização é eficaz e conservadora para lesões periapicais císticas de grande porte, promovendo redução de pressão intracística, preservação de dentes adjacentes e regeneração óssea. Estudos mostram baixa taxa de recidiva e menor morbidade comparada à enucleação imediata. A técnica deve ser indicada de forma criteriosa, considerando tamanho, localização e proximidade com estruturas nobres. Quando bem aplicada, a marsupialização representa uma alternativa valiosa e segura na odontologia conservadora.
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¹Discentes do Centro Universitário da Fundação Educacional de Barretos |UNIFEB
²Docente do Centro Universitário da Fundação Educacional de Barretos | UNIFEB
