MANIFESTAÇÕES E REPERCUSSÕES DA SÍNDROME PÓS UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA EM PACIENTES, ATRAVÉS DE UMA REVISÃO DE LITERATURA DOS ÚLTIMOS 5 ANOS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202503311247


Ana Carolina Barros da Silva Nogueira
Orientador(a): Dr. Anfremon D’amazonas Monteiro Neto


RESUMO

Nas últimas décadas, tem havido um aumento no número de pacientes que são admitidos em unidades de terapia intensiva (UTIs) e nas capacidades em medicina intensiva. A idade média e a gravidade das doenças têm aumentado, no entanto, as taxas de mortalidade têm diminuído constantemente, graças aos avanços tecnológicos e ao crescente acúmulo de evidências. É importante ressaltar a Síndrome Pós-UTI , a qual é marcada por mudanças físicas, cognitivas e psicológicas que surgem durante a doença aguda e persistem após a alta hospitalar. Existem poucos estudos abrangendo uma variedade de pacientes em estado crítico, como é comum na prática médica usual. O trabalho tem como objetivo identificar as manifestações e repercussões da Síndrome pós Unidade de Terapia Intensiva em pacientes, através de uma revisão de literatura dos últimos 5 anos. Foi realizada a busca nas plataformas “PubMed”, “Scielo” e “Lilacs”, com os seguintes termos: “síndrome pós Unidade de Terapia Intensiva”, “Unidade de Terapia Intensiva”, “Qualidade de vida” e “Cuidados críticos” entre 2019-2024. Essa busca resultou em 35 artigos, dos quais apenas 9 se enquadraram nos critérios de análise, que abordaram sobre os fatores de risco e manifestações da síndrome pós UTI onde foi descrito o modelo de estudo, objetivo e principais resultados encontrados. Ainda há escassez literária quanto a PICS e PICS-F. À medida que o número de estudos focados nos efeitos a longo prazo da reabilitação após a alta da UTI aumenta, torna-se cada vez mais importante identificar os desafios enfrentados pelos pacientes possibilitando desenvolver estratégias para minimizar o impacto dessas deficiências melhorando os resultados gerais dos pacientes.

Palavras-chave: Síndrome pós-cuidados intensivos; Unidade de Terapia Intensiva Qualidade de vida; Cuidados críticos.

ABSTRACT

In recent decades, there has been an increase in the number of patients admitted to intensive care units (ICUs) and in intensive care medicine capabilities. The average age and severity of illness have increased, but mortality rates have steadily decreased, thanks to technological advances and the growing body of evidence. It is important to highlight the Post-ICU Syndrome, which is marked by physical, cognitive and psychological changes that arise during the acute illness and persist after hospital discharge. There are few studies covering a variety of critically ill patients, as is common in usual medical practice. The aim of this study is to identify the manifestations and repercussions of post-intensive care unit syndrome in patients, through a review of the literature over the last five years. A search was carried out on the “PubMed”, “Scielo” and “Lilacs” platforms, using the following terms: “post Intensive Care Unit syndrome”, “Intensive Care Unit”, “Quality of life” and “Critical care” between 2019-2024. This search resulted in 35 articles, of which only 9 met the analysis criteria, which addressed the risk factors and manifestations of post-ICU syndrome, describing the study model, objective and main results found. There is still a lack of literature on PICS and PICS-F. More original studies are needed that address this issue in order to guide the management of these patients. As the number of studies focusing on the long-term effects of rehabilitation after ICU discharge increases, it becomes increasingly important to identify the challenges faced by patients, making it possible to develop strategies to minimize the impact of these deficiencies and improve overall patient outcomes.results found.

Keywords: Post-intensive care syndrome; Intensive care unit; Quality of life; Critical care.

1. INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, tem havido um aumento no número de pacientes que são admitidos em unidades de terapia intensiva (UTIs) e nas capacidades em medicina intensiva. A idade média e a gravidade das doenças têm aumentado, no entanto, as taxas de mortalidade têm diminuído constantemente, graças aos avanços tecnológicos e ao crescente acúmulo de evidências. Como resultado, estamos testemunhando um aumento no número de pacientes que conseguem sobreviver a doenças críticas. Portanto, é crucial compreender os desfechos que ocorrem após a alta da terapia intensiva(1,2).

É importante ressaltar a Síndrome Pós-UTI (PICS – Síndrome pós Unidade de Terapia Intensiva), a qual é marcada por mudanças físicas, cognitivas e psicológicas que surgem durante a doença aguda e persistem após a alta hospitalar. Essas alterações têm o potencial de impactar negativamente a qualidade de vida dos pacientes e, frequentemente, de seus familiares, caracterizados como PICS-F(3,4). Todos esses aspectos – sejam eles de ordem física, cognitiva ou emocional – são abrangidos pela síndrome, afetando cerca de metade dos pacientes que sobrevivem à internação na UTI. Em países como os Estados Unidos e o Reino Unido, a abordagem e tratamento desses pacientes são amplamente desenvolvidos, com a existência de centros de reabilitação especializados para aqueles que superaram o estado crítico(5,6).

A identificação dos fatores que contribuem para o desenvolvimento da PICS tem sido conduzida através de análises e revisões de casos passados de pacientes afetados por condições específicas, como a síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) ou sepse. Existem poucos estudos abrangendo uma variedade de pacientes em estado crítico, como é comum na prática médica usual. Embora diferentes fatores de risco tenham sido apontados em diversas áreas da saúde, ainda não está claro quais deles poderiam ser passíveis de intervenção e as estratégias apropriadas a serem adotadas(7,8). 

1.1 JUSTIFICATIVA 

A literatura sobre a PICS está aumentando, mas os estudos são limitados a certos grupos de pessoas e não abrangem completamente a realidade dos sobreviventes. É essencial, no entanto, aprofundar o entendimento das manifestações da PICS e seu impacto duradouro na capacidade funcional dos pacientes, visando ajudar os profissionais na escolha de medidas preventivas para reduzir tais problemas e assegurar a qualidade de vida pós-alta da UTI.

1.2 HIPÓTESES

O que a literatura científica apresenta sobre as manifestações e repercussões em pacientes que desenvolveram síndrome pós-intensiva após a sua sobrevivência ao internamento em UTI?

1.3 OBJETIVOS

1.3.1 Objetivo geral

Identificar as manifestações e repercussões da Síndrome pós Unidade de Terapia Intensiva em pacientes, através de uma revisão de literatura dos últimos 5 anos.

1.3.2 Objetivos específicos

  • Avaliar os principais fatores de risco associados ao desenvolvimento da PICS e PICS-F
  • Verificar as principais repercussões associadas à Síndrome pós UTI;

2. DESENVOLVIMENTO 

2.1 MÉTODO

2.1.1 Delineamento da pesquisa

​Trata-se de uma pesquisa descritiva do tipo revisão narrativa da literatura.

2.1.2 Aspectos éticos

O presente estudo por se tratar de uma revisão de literatura com utilização de dados de domínio público, não se fez necessário encaminhar para apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa, conforme Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. 

2.1.3 Procedimentos 

2.1.3.1 Estratégia de busca

Foi realizada a busca nas plataformas “PubMed”, “Scielo” e “Lilacs”, com os seguintes termos: “síndrome pós Unidade de Terapia Intensiva”, “Unidade de Terapia Intensiva”, “Qualidade de vida” e “cuidados críticos” entre 2019-2024. Essa busca resultou em 35 artigos, dos quais apenas 9 se enquadraram nos critérios de análise. A partir desse resultado, foi realizada a análise e posterior elaboração dessa revisão.

2.1.3.2 Critérios de seleção

Foram estabelecidos critérios para inclusão e exclusão de artigos. Para inclusão, os artigos precisavam ser originais, completos e abordar a qualidade de vida de pacientes críticos após internação na UTI, com alguma dimensão da PICS (deficiências físicas, cognitivas e mentais), nos idiomas inglês, português ou espanhol. Por outro lado, foram excluídos relatos de experiência, estudos de caso, capítulos de livro e artigos duplicados nas bases de dados. 

2.1.3.3 Extração de dados e análise

A autora foi responsável pela busca em um dos bancos de dados utilizados, além de ter assumido a responsabilidade pela leitura integral, seguido de uma revisão detalhada de todos os trabalhos com a elegibilidade aprovada. 

3. RESULTADOS 

Foram selecionados 9 artigos científicos que abordaram sobre os fatores de risco e manifestações da síndrome pós UTI publicados durante o período entre 2019 e 2024.  O ano de publicação, modelo de estudo, objetivo e principais resultados encontrados estão apresentados na tabela abaixo. (tabela 1)

        Tabela 1: Resumo dos estudos abordando os principais aspectos sobre a PICS e PICS-F entre os anos de 2019 e 2023.

4. DISCUSSÃO 

Os fatores de risco observados para o desenvolvimento da Síndrome pós Unidade de Terapia Intensiva (PICS) nos estudos avaliados foram variados e abrangentes. Foi observado que pacientes com idade mais avançada têm uma maior probabilidade de desenvolver PICS, principalmente quando do sexo feminino. Problemas de saúde mental prévios também desempenharam um papel significativo, com pacientes que já tinham histórico de transtornos psiquiátricos estando mais suscetíveis à síndrome. A gravidade da doença e experiências negativas na UTI, como traumas ou tratamentos invasivos, foram frequentemente associadas ao desenvolvimento de PICS, assim como a presença de delirium durante a internação.

No que tange aos fatores de risco para o desenvolvimento da Síndrome Pós-Terapia Intensiva em Familiares (PICS-F), associada aos cuidadores. Um estudo destacou a idade mais jovem do paciente, a ocorrência de morte de um paciente, a presença de sintomas depressivos em familiares durante a internação na UTI, histórico de transtornos mentais em familiares, o gênero feminino do cuidador, o papel de cônjuge e a insatisfação com a comunicação e o cuidado na UTI como os principais fatores associados ao risco.

A maioria dos pacientes avaliados nos estudos, relatou pelo menos uma deficiência física, incluindo problemas de mobilidade, autocuidado e atividades habituais, além de dor, desconforto e fadiga elevada. Muitos tinham algum grau de incapacidade, desde necessitar de ajuda externa até estar acamado, e uma parte significativa foi considerada frágil. O comprometimento psiquiátrico, principalmente depressão e insônia, além de ansiedade e sintomas de transtorno de estresse pós-traumático também foi percebido com frequência. Outro ponto a ser considerado é o de que pacientes que receberam bloqueio neuromuscular enfrentaram mais dificuldades nas atividades habituais quando comparados com pacientes que não haviam recebido.

No manejo da PICS, reduzir eventos modificáveis durante a internação pode melhorar significativamente a qualidade de vida dos sobreviventes e diminuir possíveis danos. Para tanto, a aplicação de ferramentas validadas para avaliação pós-alta e diagnósticos precoces de PICS são essenciais nesse processo. A ação conjunta com a Atenção Primária à Saúde é fundamental para o rastreio e manejo antecipado dos sinais e sintomas da PICS, promovendo uma melhor recuperação desses pacientes.

Os sobreviventes de doenças críticas enfrentam um risco significativamente elevado de desenvolver suicídio e automutilação, sendo relacionado a transtornos psiquiátricos preexistentes e à experiência de ter recebido suporte de vida invasivo durante o tratamento intensivo. Essas condições, muitas vezes, surgem como desafios adicionais após a alta da UTI, destacando a necessidade de uma abordagem holística na assistência pós-UTI. Além disso, é importante o desenvolvimento de mais estudos que indiquem quais pacientes se beneficiariam mais do acompanhamento pós internação e qual momento de melhor de se iniciar a abordagem psicológica.

Sobre a avaliação dos desfechos de mortalidade um dos estudos constatou que embora a Síndrome Pós-Cuidados Intensivos (PICS) tenha sido crucial para destacar as sequelas das doenças críticas, sua relação com a mortalidade a longo prazo é majoritariamente impulsionada pela incapacidade física e comprometimento cognitivo, em vez de pela depressão. Essa heterogeneidade nas consequências de PICS sugere que abordagens mais focadas são necessárias na elaboração de novos estudos.

Todos os estudos avaliados, relataram escassez bibliográfica do tema, fato que também foi observado durante o processo de seleção dos artigos. Foi observada, principalmente, a existência de poucos estudos originais recentes e controlados avaliando as repercussões clínicas e manejo adequado a curto e longo prazo da Síndrome pós UTI. 

5. LIMITAÇÕES DO ESTUDO

Esta revisão é do tipo narrativa, levando em consideração apenas os aspectos descritivos relacionados ao tema. Com isso, a limitação inclui a falta de sistematização conforme recomendado, a não realização de nenhuma análise, além da inclusão de trabalhos observacionais com potencial viés de seleção.

6. CONCLUSÃO 

Ainda há escassez literária quanto a PICS e PICS-F. São necessários mais estudos originais que abordem essa temática de forma a orientar o manejo desses pacientes. À medida que o número de estudos focados nos efeitos a longo prazo da reabilitação após a alta da UTI  aumenta,  torna-se cada vez mais importante identificar os desafios enfrentados pelos pacientes. Esses estudos visam obter uma compreensão mais profunda da extensão das deficiências físicas, cognitivas e psicológicas que surgem, possibilitando desenvolver estratégias para minimizar o impacto dessas deficiências melhorando os resultados gerais dos pacientes. 

7. REFERÊNCIAS

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