INOVAÇÕES PEDAGÓGICAS NA AVALIAÇÃO FORMATIVA E FEEDBACK NA RESIDÊNCIA MÉDICA: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA

PEDAGOGICAL INNOVATIONS IN ASSESSMENT AND FEEDBACK IN MEDICAL RESIDENCY: AN EXPERIENCE REPORT

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202602040913


Izabella Gomes de Souza1
Talitha Giselle Clemente Gonçalves2


Resumo

A residência médica demanda um processo de ensino-aprendizagem baseado em competências, sustentado por supervisão clínica, observação direta e avaliação formativa com feedback contínuo, elementos essenciais para a construção progressiva da autonomia profissional. Nesse contexto, o Mini-Clinical Evaluation Exercise (Mini-CEX) destaca-se como instrumento estruturado para qualificar a devolutiva pedagógica e documentar o desenvolvimento longitudinal do residente. Este relato de experiência descreve a vivência de dois anos na Unidade de Saúde da Família (USF) Dr. Roberto Luiz de Oliveira, em Anápolis (GO), com implementação e uso contínuo do Mini-CEX, registrando sucessivamente aspectos avaliados, feedbacks pactuados e planos de melhoria. Observou-se que a prática sistemática de feedback oportuno e específico contribuiu para avanços progressivos na comunicação clínica, maior autonomia na tomada de decisão, incremento da segurança profissional e maior engajamento no aprendizado, ao favorecer a autoavaliação e aplicação imediata de metas de desenvolvimento. À luz da literatura, tecnologias digitais e ferramentas móveis podem potencializar essa estratégia ao facilitar registros em tempo real e feedback “just-in-time”, além de aumentar a rastreabilidade e a padronização do processo avaliativo. Contudo, persistem desafios relacionados à sobrecarga assistencial, ao tempo limitado e à necessidade de capacitação pedagógica dos preceptores, fatores que influenciam a sustentabilidade e a qualidade do feedback. Conclui-se que o uso longitudinal do Mini-CEX constitui estratégia formativa potente e transformadora na residência em MFC, especialmente quando articulada a tempo institucional protegido, cultura de feedback e desenvolvimento docente contínuo, podendo ser ampliada com suporte de tecnologias digitais para acompanhamento do progresso e fortalecimento do ensino longitudinal.

Palavras-chave: Residência Médica, Feedback, Preceptoria.

1 INTRODUÇÃO

A formação médica especializada, realizada por meio dos programas de residência, exige um processo de ensino-aprendizagem fundamentado na prática clínica supervisionada, na abordagem por competências e na construção progressiva da autonomia profissional (BRASIL, 2018). Nesse cenário, a avaliação formativa se consolida como estratégia educacional centrada no desenvolvimento contínuo do aprendiz, por meio do fornecimento de feedback sistemático, criterioso e construtivo, orientado à melhoria progressiva do desempenho (HATTY et al., 2017). Diferentemente da avaliação somativa, voltada à mensuração de resultados finais, a avaliação formativa está inserida no cotidiano do ensino clínico, favorecendo a autorreflexão, a identificação de lacunas e a correção de rotas ao longo do processo de formação (BERBEL, 2011). Assim, o feedback formativo, quando oportuno, claro e específico, contribui para a aprendizagem significativa, auxilia na identificação de fragilidades e fortalezas e reforça a centralidade do desenvolvimento profissional no processo avaliativo, além de fortalecer o vínculo pedagógico entre preceptores e residentes (NOREEN et al., 2020; SANTOS et al., 2023).

A efetividade da avaliação formativa, entretanto, depende de condições pedagógicas e organizacionais que viabilizem sua aplicação sistemática. O preceptor ocupa posição estratégica na formação do residente, atuando não apenas como supervisor, mas também como modelo profissional, facilitador da aprendizagem, avaliador e orientador do desenvolvimento clínico, o que demanda competências de comunicação, observação direta e devolutiva pedagógica (DA CRUZ et al., 2021; ROSA et al., 2022). Apesar disso, estudos apontam que muitos preceptores desempenham suas funções sem formação pedagógica específica e recorrem a instrumentos informais ou excessivamente subjetivos para avaliar residentes, o que pode limitar a documentação do progresso e comprometer a confiabilidade do processo formativo (BERBEL, 2011; HATTY et al., 2017). Soma-se a isso a sobrecarga assistencial, a escassez de tempo e a ausência de padronização dos instrumentos avaliativos, fatores que dificultam a consolidação de práticas consistentes de avaliação formativa no ambiente da preceptoria clínica (NOREEN et al., 2020; HARRIS et al., 2021; ROSA et al., 2022).

Diante dessas barreiras, as tecnologias digitais têm se apresentado como aliadas promissoras para apoiar a prática avaliativa na residência médica. Aplicativos móveis e plataformas digitais permitem o registro de observações clínicas em tempo real, a inserção de comentários qualitativos, o envio de feedback diretamente aos residentes e a manutenção de um histórico avaliativo, favorecendo rastreabilidade, personalização e padronização do processo (CHAN et al., 2020; NOREEN et al., 2020; HARRIS et al., 2021). Além disso, tais ferramentas podem viabilizar o uso de escalas e instrumentos estruturados de avaliação por observação direta, como Mini-CEX e DOPS, bem como a construção de portfólios eletrônicos e o acompanhamento longitudinal do desempenho (CHAN et al., 2020; DA CRUZ et al., 2021). No Brasil, ainda que a adoção esteja em expansão, experiências com portfólios eletrônicos, Google Forms e soluções institucionais indicam potencial para qualificar a avaliação e fortalecer a cultura avaliativa entre preceptores e residentes (DA CRUZ et al., 2021; ROSA et al., 2022).

Apesar do avanço tecnológico, persiste a necessidade de maior sistematização teórica e prática acerca do uso de aplicativos especificamente voltados à avaliação formativa em programas de residência médica, considerando variações de adesão, efetividade e percepção de utilidade pelas equipes (NOREEN et al., 2020; SANTOS et al., 2023). Nesse sentido, torna-se relevante reunir e analisar as evidências disponíveis na literatura científica, identificando recursos existentes, benefícios, limitações e contribuições dessas inovações para o processo de ensino-aprendizagem no cenário da preceptoria clínica.

Este trabalho tem como objetivo analisar e discutir uma experiência de 02 anos na avaliação formativa e feedback no programa de residência médica com uso de Mini-cex (Exercício de Mini-Avaliação Clínica), identificando seus benefícios, limitações e suas contribuições para o processo de ensino-aprendizagem.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 A avaliação formativa na residência médica

A avaliação formativa é uma estratégia educacional centrada no desenvolvimento contínuo do aprendiz, por meio do fornecimento de feedback sistemático, criterioso e construtivo, com foco na melhoria progressiva do desempenho (HATTY et al., 2017). Ao contrário da avaliação somativa, que mede resultados finais, a avaliação formativa está inserida no cotidiano do ensino clínico, promovendo a autorreflexão, a identificação de lacunas e a correção de rotas (BERBEL, 2011).

No contexto da residência médica, esse tipo de avaliação ganha ainda mais relevância, uma vez que a formação se dá em ambientes de prática real, exigindo supervisão contínua, avaliação de competências clínicas e construção de autonomia progressiva (BRASIL, 2018). O feedback estruturado — claro, oportuno e específico — é o principal instrumento da avaliação formativa e contribui para fortalecer o vínculo pedagógico entre preceptores e residentes (SANTOS et al., 2023).

Entretanto, apesar do reconhecimento de sua importância, ainda são comuns as dificuldades na implementação sistemática do feedback formativo nos programas de residência. Barreiras como a falta de tempo dos preceptores, ausência de padronização dos instrumentos avaliativos e resistência cultural à avaliação construtiva têm sido descritas na literatura (NOREEN et al., 2020; HARRIS et al., 2021).

2.2 A preceptoria e os desafios da avaliação no ensino clínico

O preceptor ocupa uma posição estratégica na formação médica especializada. Mais do que supervisionar, ele atua como modelo profissional, facilitador da aprendizagem, avaliador e orientador do desenvolvimento clínico do residente (DA CRUZ et al., 2021). Para que a avaliação formativa ocorra de forma efetiva, o preceptor precisa dominar estratégias de comunicação, observação direta e devolutiva pedagógica, além de contar com recursos que otimizem o processo avaliativo (ROSA et al., 2022).

No entanto, estudos têm apontado que muitos preceptores ainda atuam sem formação pedagógica específica, e utilizam instrumentos informais ou subjetivos para avaliar seus residentes (BERBEL, 2011). A ausência de protocolos avaliativos bem definidos dificulta a documentação do progresso dos residentes e compromete a confiabilidade do processo formativo (HATTY et al., 2017).

É nesse cenário que a introdução de tecnologias digitais, incluindo aplicativos móveis, surge como alternativa promissora para estruturar e facilitar a prática avaliativa. Ferramentas digitais podem apoiar o registro do desempenho, facilitar o uso de escalas padronizadas (como Mini-CEX e DOPS), e permitir o armazenamento e acompanhamento longitudinal das avaliações (CHAN et al., 2020).

2.3 Aplicativos digitais como ferramentas de feedback e avaliação clínica

Com o avanço da tecnologia na educação médica, os aplicativos digitais têm se consolidado como instrumentos de apoio à avaliação formativa, oferecendo praticidade, rastreabilidade e padronização do feedback (HARRIS et al., 2021). Esses aplicativos permitem que preceptores registrem avaliações em tempo real, insiram comentários qualitativos e encaminhem feedbacks diretamente aos residentes, muitas vezes de forma personalizada e com registro histórico (NOREEN et al., 2020). 

Plataformas como o Mini-CEX Mobile, ePortfólio Clínico, MyEval, entre outras, têm sido utilizadas em diferentes países como ferramentas para promover feedback estruturado e documentação do desempenho clínico ao longo do tempo (CHAN et al., 2020; HARRIS et al., 2021). No Brasil, embora o uso ainda esteja em expansão, experiências com portfólios eletrônicos, Google Forms e aplicativos institucionais têm mostrado potencial para fortalecer a avaliação na residência (DA CRUZ et al., 2021).

As vantagens mais citadas incluem a agilidade no preenchimento, o acesso remoto, a padronização de critérios, e o fortalecimento da cultura avaliativa entre preceptores e residentes (ROSA et al., 2022). Contudo, também são identificados desafios como resistência de uso, questões técnicas e a necessidade de capacitação docente para o uso adequado dessas ferramentas (SANTOS et al., 2023). 

Portanto, a incorporação de aplicativos digitais no cotidiano dos programas de residência médica pode representar não apenas uma inovação tecnológica, mas também uma transformação na forma como a avaliação formativa é conduzida, com potencial para tornar o processo mais transparente, contínuo e centrado na aprendizagem.

3 METODOLOGIA 

Trata-se de um relato de experiência desenvolvido no cenário da Atenção Primária à Saúde, na Unidade de Saúde da Família (USF) Dr. Roberto Luiz de Oliveira, localizada no bairro Parque dos Pirineus, no município de Anápolis (GO). A experiência foi vivenciada e registrada ao longo de dois anos pela residente de Medicina de Família e Comunidade responsável pela elaboração deste relato.

A intervenção correspondeu à implementação e ao uso longitudinal do instrumento Mini-Clinical Evaluation Exercise (Mini-CEX) como estratégia de avaliação formativa baseada em observação direta, aplicada de modo contínuo ao longo do período descrito, com foco na qualificação do feedback e no acompanhamento do desenvolvimento clínico. Para fins de sistematização do relato, foram realizados registros sequenciais das aplicações do Mini-CEX e de seus desdobramentos (aspectos avaliados, feedbacks pactuados e planos de melhoria), de modo a documentar a experiência ao longo do tempo e subsidiar a descrição reflexiva do processo. Foram excluídos estudos que estavam fora do recorte temporal definido; não estavam disponíveis na íntegra; não estavam publicados nos idiomas selecionados; abordavam exclusivamente aspectos teóricos sem aplicação prática; ou correspondiam a aplicações apenas na graduação em medicina. 

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

Ao longo de dois anos de vivência na Unidade de Saúde da Família (USF) Dr. Roberto Luiz de Oliveira, no bairro Parque dos Pirineus, em Anápolis (GO), a implementação do Mini-CEX como ferramenta de avaliação formativa e feedback estruturado configurou-se como uma experiência marcadamente positiva e proveitosa. A utilização longitudinal do instrumento favoreceu a construção de uma cultura de observação direta e devolutivas frequentes, contribuindo para o processo de aprendizagem contínuo, situado na prática clínica cotidiana e alinhado às necessidades reais do território. Nos momentos de feedback ocorreram de forma sistemática e progressiva, geralmente logo após atendimentos selecionados para observação, o que possibilitou devolutivas em tempo oportuno e com maior precisão. Em cada aplicação, o feedback foi conduzido de modo objetivo, centrado nos comportamentos observáveis e acompanhado de pactuação de metas factíveis para o desenvolvimento das habilidades. Esse formato permitiu que os apontamentos se tornassem acionáveis, reduzindo ambiguidades e transformando cada encontro em oportunidade concreta de aprimoramento. Com o tempo, a prática de feedback deixou de ser um evento pontual para tornar-se parte do ritmo de trabalho, fortalecendo o vínculo pedagógico e a confiança no processo avaliativo.

No âmbito da comunicação, foi observado evolução consistente na prática. A recorrência de feedbacks favoreceu o refinamento na condução das consultas, com maior clareza na exploração da queixa e na organização da anamnese, além de melhoria na validação de demandas, no uso de linguagem acessível e na negociação de planos terapêuticos. Foi notado ganhos na capacidade de manejar expectativas, estabelecer acordos e encerrar consultas com síntese compreensível, o que repercutiu positivamente na relação com os usuários e na efetividade do cuidado. Quanto à autonomia, a repetição de ciclos de observação, feedback e plano de ação contribuiu para uma tomada de decisão mais segura e para o maior protagonismo na condução dos atendimentos. Foi possível identificar com mais facilidade nos pontos de atenção, antecipar dificuldades e buscar estratégias de resolução com menor dependência imediata do preceptor, mantendo, contudo, a capacidade de reconhecer limites e solicitar apoio quando necessário. Esse equilíbrio entre independência e responsabilidade foi se consolidando à medida que as metas acordadas eram revisitadas e progressivamente alcançadas ao longo do tempo.

Em relação à segurança profissional, o uso do Mini-CEX ampliou a sensação de previsibilidade e suporte pedagógico. A clareza dos critérios avaliados, associada à observação direta, ajudou a reduzir inseguranças comuns do início da prática, especialmente em situações clínicas mais complexas ou em cenários de maior pressão assistencial. O feedback estruturado funcionou como um marco para reconhecer avanços reais, orientar correções e reforçar condutas adequadas, promovendo maior consistência no raciocínio clínico, no manejo terapêutico e na organização do cuidado longitudinal. Por fim, foi observado incremento importante no meu engajamento no aprendizado. A regularidade dos feedbacks estimulou a postura ativa de autoavaliação e planejamento, com maior disposição para estudar tópicos relacionados aos casos atendidos, revisar condutas e aplicar mudanças já na semana seguinte.

5 CONCLUSÃO

Conclui-se, portanto, que a experiência com o uso longitudinal do Mini-CEX ao longo destes dois anos exerceu um impacto profundo e transformador no desenvolvimento profissional. A ferramenta não foi apenas um método avaliativo, mas um catalisador de competências clínicas e relacionais que moldaram a identidade médica como especialista em medicina de família e comunidade. Esta vivência reitera o potencial das inovações pedagógicas em transformar o ambiente assistencial em um espaço de aprendizado dinâmico, onde o feedback estruturado atua como o principal elo entre a prática cotidiana e a excelência técnica. A estruturação das devolutivas permitiu que superasse a subjetividade das avaliações tradicionais, garantindo crescimento sustentado em evidências diante do próprio desempenho.

Entretanto, há limitação deste relato por estar circunscrito à percepção individual e a cenário específico de prática, o que pode não refletir a totalidade das realidades da Atenção Primária à Saúde no Brasil. Ademais, a dependência da disponibilidade e da expertise do preceptor para a aplicação da ferramenta ainda se configura como um desafio logístico no dia a dia da unidade. Como possibilidade futura, vislumbro que a integração do Mini-CEX a aplicativos de dispositivos móveis possa potencializar ainda mais esse processo. O uso de tecnologias digitais para a síntese instantânea das avaliações e o acompanhamento longitudinal de indicadores de desempenho permitiria uma visualização clara da curva de aprendizado, facilitando a gestão do conhecimento e tornando o ensino em serviço ainda mais ágil, conectado e eficiente frente às demandas do território.

REFERÊNCIAS

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1Residente de Medicina de Família e Comunidade do Universidade Evangélica de Goiás e-mail: izabellagsmed@gmail.com
2Docente do Curso de Pós-graduação em Medicina de Família e Comunidade do Universidade Evangélica de Goiás. e-mail: talithagiselle@gmail.com

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