INFLUÊNCIA DA ESTÉTICA DENTÁRIA NA PERCEPÇÃO PSICOSSOCIAL DE PACIENTES ADULTOS: REVISÃO DA LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511171151


Juliane Alves Barros Schakofski
Juliana Emanuelly Mezzomo
Orientador: Alexandre Kraemer


RESUMO

A estética dentária desempenha papel determinante na forma como o indivíduo percebe sua própria imagem e é percebido socialmente. Alterações no sorriso podem comprometer a autoconfiança e gerar impactos emocionais e sociais significativos. Esta revisão narrativa da literatura teve como objetivo analisar a influência da estética dentária na percepção psicossocial de pacientes adultos. Foram consultados estudos nacionais e internacionais que abordam a relação entre aparência dental, autoestima, qualidade de vida e comportamento social. As evidências demonstram que a melhora estética, além de restaurar a função, contribui para o bem-estar emocional e para a integração social. O conceito de qualidade de vida relacionada à saúde bucal (OHRQoL) mostrou-se um importante parâmetro para mensurar o impacto psicossocial das intervenções estéticas. Conclui-se que a odontologia estética deve ser compreendida sob uma perspectiva biopsicossocial, em que o cirurgião-dentista atua não apenas na reabilitação funcional, mas também na promoção do equilíbrio emocional e da saúde integral do paciente.

Palavras-chave: Estética dentária. Autoestima. Percepção psicossocial. Qualidade de vida. Odontologia estética.

ABSTRACT

Dental esthetics plays a decisive role in how individuals perceive their own image and are perceived socially. Changes in the smile can undermine self-confidence and lead to meaningful emotional and social impacts. This narrative literature review aimed to analyze the influence of dental esthetics on the psychosocial perception of adult patients. National and international studies addressing the relationship among dental appearance, self-esteem, quality of life, and social behavior were consulted. The evidence indicates that esthetic improvement, in addition to restoring function, contributes to emotional well-being and social integration. The concept of oral health–related quality of life (OHRQoL) proved to be an important parameter for measuring the psychosocial impact of esthetic interventions. It is concluded that esthetic dentistry should be understood from a biopsychosocial perspective, in which the dentist acts not only in functional rehabilitation but also in promoting emotional balance and the patient’s overall health.

Keywords: Dental esthetics. Self-esteem. Psychosocial perception. Quality of life. Esthetic dentistry.

1 INTRODUÇÃO

A autoestima é um componente central do bem-estar psicológico e influencia atitudes, emoções e relações interpessoais ao longo da vida. No campo da saúde bucal, a autoimagem do sorriso ocupa lugar privilegiado: alterações estéticas (desalinhamentos, diastemas, fraturas, descoloração ou perdas dentárias) podem repercutir na confiança, na interação social e na percepção global de valor pessoal. Evidências recentes com indivíduos em busca de tratamento ortodôntico mostram que o impacto psicossocial da estética dentária (avaliado pelo PIDAQ – (Bahar et al., 2024)) se associa à autoestima – Rosenberg (Bahar et al., 2024; Melo et al., 2021), sugerindo que como o paciente enxerga o próprio sorriso se projeta para sua avaliação global de si. Em paralelo, sínteses de literatura destacam que condições clínicas como edentulismo, fluorose e discrepâncias dentofaciais tendem a reduzir a autoconfiança e a satisfação com a aparência, reforçando a relevância clínica da estética na vida cotidiana.

Em contextos de correção ortodôntico-cirúrgica, revisões com meta-análise descrevem melhoras consistentes em múltiplos domínios psicológicos (ansiedade, depressão, autoestima), enquanto estudos pré-pós enfatizam satisfação e reinserção social após a cirurgia ortognática. Por outro lado, em reabilitação protética total, a satisfação pode permanecer baixa apesar do êxito técnico, apontando para o papel de expectativas, adaptação e conforto funcional. No plano teórico, abordagens da Terapia Cognitivo- Comportamental ajudam a compreender por que mudanças estéticas podem sustentar ganhos subjetivos quando acompanhadas de psicoeducação, reestruturação cognitiva e estratégias de autocompaixão. Ainda que parte da literatura sobre autoestima venha de faixas etárias mais jovens, ela contribui para contextualizar a mensuração e a trajetória desenvolvimental do constructo.

Diante desse cenário, este trabalho adota uma perspectiva biopsicossocial para examinar a relação entre estética dentária e desfechos psicossociais (autoestima, autoconfiança, interação social), com ênfase em instrumentos validados (p.ex., PIDAQ e Rosenberg) e em implicações práticas para a clínica. O objetivo é sintetizar criticamente o que os estudos indicam sobre benefícios e limites das intervenções estéticas e orientar uma prática centrada no paciente, que integre comunicação de expectativas, mensuração padronizada de resultados e apoio psicossocial quando necessário.

1.1 Objetivo Geral

Sintetizar criticamente, com base no escopo final de estudos em acesso integral, a relação entre estética dentária/dentofacial e desfechos psicossociais (p.ex., autoestima, autoconfiança, interação social) em contextos de ortodontia, cirurgia ortognática e reabilitação protética, com ênfase (sem se restringir a) em adultos.

1.2 Objetivos Específicos

1) Caracterizar as populações, desenhos (transversal, pré–pós, meta-análise, integrativa/bibliométrica) e instrumentos efetivamente utilizados no escopo (PIDAQ, RSES/RSES-M, IOTN-AC/DHC, questionários de satisfação), explicitando a presença/ausência de OHRQoL (OHIP-14).

2) Comparar a evidência de associação (p.ex., betas de regressão em Bahar et al. (2024) versus mudança ao longo do tempo (pré–pós em Nicodemo, Pereira e Ferreira (2007); efeitos agregados em Basso et al. (2022)), destacando a direção e a consistência dos efeitos psicossociais.

2) Analisar moderadores/condicionantes clínico-contextuais (p.ex., deformidades Classe III, adaptação e conforto em prótese total, expectativas e suporte psicossocial) que expliquem heterogeneidade de satisfação e autoestima.

3) Derivar implicações para a prática e para a pesquisa: (a) mensuração padronizada (PIDAQ, RSES; OHIP-14 quando pertinente), (b) comunicação e alinhamento de expectativas, (c) apoio psicossocial quando indicado, e (d) recomendações metodológicas (protocolo registrado, seguimentos mais longos, definição de MCID).

2 MATERIAL E MÉTODO

2.1 Métodos:

Esta revisão narrativa foi conduzida seguindo diretrizes para sínteses qualitativas da evidência. A pergunta norteadora foi: “Qual a influência da estética dentária na percepção psicossocial de pacientes adultos, especificamente em autoestima, autoconfiança e interação social?”

2.2 Estratégia de busca:

As buscas foram realizadas em PubMed/MEDLINE, SciELO e BVS no período de janeiro/2005 a outubro/2025, utilizando os idiomas português, inglês e espanhol.

Os descritores DeCS/MeSH utilizados foram: “Esthetics, Dental” AND “Self Concept”, “Esthetics, Dental” AND “Self-Esteem”, “Oral Health” AND “Quality of Life”, “Orthodontics” AND “Self Concept”, “Orthognathic Surgery” AND “Self-Esteem”, combinados através dos operadores booleanos AND/OR.

2.3 Critérios de seleção

– Inclusão: Estudos empíricos (transversais, longitudinais, experimentais) e revisões sistemáticas que investigassem a relação entre estética dentária/dentofacial e des- fechos psicossociais (autoestima, autoconfiança, qualidade de vida relacionada à saúde bucal) em preferencialmente em adultos (≥18 anos) ou amostras mistas; utilização de instrumentos validados (PIDAQ, OHIP-14, RSES, IOTN-AC/DHC).

– Exclusão: Relatos de caso, estudos sem grupo controle adequado, populações exclusivamente pediátricas, estudos sem acesso ao texto completo.

2.4 Processo de seleção

A seleção final resultou em oito estudos que atenderam aos critérios estabelecidos e estavam disponíveis em texto completo. Esta amostra intencional foi definida para fins didáticos do TCC, reconhecendo-se as limitações inerentes a esta abordagem.

2.5 Extração de dados

Para cada estudo incluído, foram extraídos: características da população, desenho do estudo, instrumentos utilizados, principais achados e limitações.

2.6 Apoio de IA generativa (ChatGPT) — transparência e salvaguardas.

Neste trabalho utilizou-se ChatGPT como ferramenta de apoio redacional e organizacional (sugestão de estrutura de tópicos, rascunho de seções, normalização de linguagem acadêmica e geração de quadros/figuras conceituais), não como fonte primária de evidências. Todo o conteúdo científico (dados, resultados e conclusões de artigos) foi extraído de fontes originais (artigos e capítulos) e verificado manualmente pelas autoras/orientador antes de compor a revisão.

3 REVISÃO DA LITERATURA

Figura 1 – Modelo Conceitual Integrado

Fonte: As Autoras

3.1 Autoestima, autoimagem e percepção psicossocial

A autoestima é um constructo central da saúde mental e do bem-estar, com efeitos sobre atitudes, emoções e relações interpessoais ao longo do ciclo de vida. Em perspectiva psicológica, revisões narrativas em Terapias Cognitivo-Comportamentais descrevem a autoestima como avaliação global do self, modulada por experiências de apego, contexto social e imagem corporal — e apontam estratégias clínicas (p.ex., reestruturação cognitiva e autocompaixão) que podem promovê-la em diferentes fases do desenvolvimento (David; Cerutti, 2024).

Ainda que o presente trabalho foque adultos, resultados com adolescentes ajudam a compreender o constructo e sua mensuração: estudo com a Escala de Autoestima de Rosenberg (RSES) não encontrou diferenças estatisticamente significativas entre grupos escolares, reforçando a utilidade da RSES como medida comparativa, mas também os limites de generalização automática entre contextos (Melo et al., 2021).

3.2 Estética dentária e desfechos psicossociais

Entre indivíduos malaios buscando tratamento ortodôntico, a relação entre estética dentária percebida e autoestima foi investigada por meio do PIDAQ, da RSES e de indica- dores de necessidade ortodôntica (IOTN). Em análise multivariada, domínios do impacto psicossocial da estética (p.ex., Social Impact, Aesthetic Concern e Dental Self-Confidence) predisseram níveis de autoestima, explicando parcela significativa de sua variância — evidência de que a percepção estética bucal se associa a componentes do bem-estar subjetivo (Bahar et al., 2024).

De modo convergente, uma revisão bibliométrica identificou que múltiplas condições estéticas (edentulismo, fluorose, diastemas, assimetrias) estão ligadas a autoconfiança, relacionamentos e qualidade de vida (OHRQoL), sustentando o papel da odontologia esté- tica na recuperação da autoestima (Oliveira et al., 2020).

Uma revisão integrativa (11 estudos) reforçou a centralidade do sorriso para a autoimagem e para a autoestima, destacando que a harmonia estética tende a favorecer interações sociais mais positivas (Rocha; Teixeira; Breda, 2021).

3.3 Evidências em reabilitação e cirurgia ortognática

No edentulismo total, investigação com 170 usuários de próteses mostrou alta proporção de insatisfação com os aparelhos e ausência de efeito da idade sobre satisfação, indicando que fatores além da faixa etária (p.ex., adaptação, retenção, fala, conforto) influenciam a autoimagem e o bem-estar percebido do usuário (Fais et al., 2007).

Na cirurgia ortognática, duas linhas de evidência se complementam:

1) Um estudo pré–pós com Classe III descreveu melhora percebida em estética, situações sociais e aspectos funcionais 6 meses após a cirurgia, com relatos de maior satisfação e retorno à vida sem discriminação — sublinhando o componente psicossocial das correções estéticas/funcionais (Nicodemo; Pereira; Ferreira, 2007).

2) Uma revisão sistemática e meta-análise encontrou melhoras significativas (p<0,05) em múltiplos domínios psicológicos (depressão, ansiedade, autoestima, sensibilidade interpessoal, entre outros) após o tratamento ortodôntico-cirúrgico, e recomendou manejo cuidadoso das expectativas (Basso et al., 2022).

3.4 Síntese

Tomadas em conjunto, as evidências do corpus analisado indicam que a estética dentária se relaciona de forma consistente a autoestima, autoimagem, interações sociais e OHRQoL, seja em candidatos à ortodontia (associações PIDAQ-RSES), seja em contextos de reabilitação (próteses totais) e de correção ortognática (melhora em domínios psicológicos) (Basso et al., 2022; Nicodemo; Pereira; Ferreira, 2007; Fais et al., 2007; Bahar et al., 2024).

Ao mesmo tempo, nuances metodológicas (desenhos transversais, medidas autorrelatadas, heterogeneidade amostral) e fatores contextuais (adaptação a próteses, motivação e expectativas em ortodontia/cirurgia) recomendam interpretação cautelosa e abordagem biopsicossocial, com avaliação sistemática de resultados psicossociais (p.ex., PIDAQ, RSES e, quando aplicável, instrumentos de OHRQoL) integrada ao planejamento estético-funcional (Bahar et al., 2024; Oliveira et al., 2020; Rocha; Teixeira; Breda, 2021).

4 RESULTADOS

Tabela 1 – Lista de autores citados

Autor(es)/AnoAmostraInstrumentosPrincipais achadosTipo de Estudo
Bahar et al. (2024)“Pacientes malaios
(12–50 anos) buscando tratamento ortodôntico; n=136 analisados
PIDAQ (versão
malaia/inglesa), RSES-M (Rosenberg), IOTN-AC; IOTN-DHC (clínico)
Domínios do PIDAQ predizem autoestima: SI (β 0,386), AC (β 0,228) e DSC reverso (β 0,195); modelo explica ∼23% da
variância; prevalência de
impacto psicossocial 99,3% e 22,1% com baixa autoestima
Empírico (transversal; survey com regressão múltipla)
Nicodemo, Pereira e Ferreira (2007)29 pacientes Classe III (17–46 anos) avaliados no pré e 6 meses pós-cirurgia ortognáticaEntrevistas/questionários (categorias: estética, função,
situações sociais, autoestima,
profissional)
Motivações principais: função
(34,5%), estética (30,9%), sociais (29,1%); pós-operatório com alta satisfação (dicção,
estética, reintegração social)
Empírico (pré-pós,
descritivo)
Fais et al. (2007)170 usuários de próteses totais bimaxilares (média
65,3 anos)
Questionário de satisfação (aparência, retenção, mastigação, paladar, fonação, conforto)22 satisfeitos / 148 insatisfeitos; idade não influenciousatisfação (p=0,331)Empírico
(transversal,
comparativo)
Basso et al. (2022)Pacientes submetidos a tratamento ortodôntico-cirúrgico
(revisão de estudos)
RSES (Rosenberg), GHQ-28, MMPI, SCL-90-R (conforme estudos incluídos)Melhora em depressão, ansiedade, autoestima, sensibilidade interpessoal, ideias
paranoides e psicoticismo (p<0,05)
Revisão sistemática + meta-análise
Rocha, Teixeira e Breda (2021)Revisão integrativa de 11 artigos (SCIELO, PUBMED, LILACS)Sorriso harmônico associado a melhor autoestima; destaque para influência psicossocial do sorrisoRevisão integrativa
(qualitativa)
Oliveira et al. (2020)Estudo bibliométrico
(seleção final de 20/212 referências; BVS, 2007+)
Estética odontológica associada à autoestima; fatores:
edentulismo, amelogênese imperfeita, fluorose, fraturas anteriores, diastema, sorriso
gengival, discrepâncias
maxilomandibulares
Revisão bibliométrica
David e Cerutti (2024)Revisão narrativa
(Psicologia/TCC) sobre desenvolvimento e
promoção da autoestima
Estratégias cognitivo-comportamentais
(reestruturação cognitiva,
autocompaixão, treino parental
etc.) favorecem melhora de autoestima ao longo da vida
Conceitual/Revisão
Melo et al. (2021)36 adolescentes de duas escolas públicas (Nazaré
da Mata-PE)
Escala de Autoestima de Rosenberg (adaptação)Sem diferenças significativas entre grupos (escola integral vs parcial) na autoestima globalEmpírico (transversal, comparativo)

4.1 Síntese dos achados por categoria de evidência

4.1.1 Estudos transversais (n=3)

O estudo de Bahar et al. (2024) com 136 pacientes ortodônticos demonstrou associação significativa entre domínios do PIDAQ e autoestima (RSES), com o modelo explicando ∼23% da variância. Melo et al. (2021) em adolescentes não encontrou diferenças significativas entre grupos escolares. Fais et al. (2007) em 170 usuários de próteses totais mostrou alta taxa de insatisfação (87,1%) independente da idade.

4.1.2 Estudos longitudinais (n=1)

Nicodemo, Pereira e Ferreira (2007) acompanharam 29 pacientes com cirurgia ortognática, documentando melhora em múltiplos domínios após 6 meses, com alta satisfação pós-operatória.

4.1.3 Revisões sistemáticas (n=2)

Basso et al. (2022) encontraram melhoras significativas (p<0,05) em depressão, ansiedade, autoestima e sensibilidade interpessoal após tratamento ortodôntico-cirúrgico. Rocha, Teixeira e Breda (2021) sintetizaram 11 estudos confirmando a centralidade do sorriso para autoestima.

4.1.4 Estudos bibliométricos (n=1)

Oliveira et al. (2020) O mapearam condições estéticas associadas à redução da autoestima.

4.1.5 Revisões conceituais (n=1)

David e Cerutti (2024) forneceram base teórica sobre estratégias cognitivo-comportamentais para promoção da autoestima.

5 DISCUSSÃO

5.1  Panorama dos achados

No conjunto analisado, há evidência consistente de associação entre estética/condição dentofacial e desfechos psicossociais (autoestima, confiança, constrangimento/impacto social), especialmente quando há correção ortodôntico-cirúrgica ou intervenções estéticas. O estudo transversal de Bahar et al. (2024) mostrou que domínios do PIDAQ (Impacto Social, Preocupação Estética e Autoconfiança Dental) predizem variação na autoestima (modelo explicando ∼23%), em amostra clínica de pacientes buscando trata- mento ortodôntico, reforçando o vínculo direto entre percepção estética e autoavaliação global do self.

Nas deformidades dentofaciais tratadas com ortodontia+círurgia, há melhora consistente em múltiplos domínios psicológicos: a metanálise de Basso et al. (2022) Basso et al. (2022) encontrou ganhos pós-operatórios em depressão, ansiedade, autoestima, sensibilidade interpessoal, ideias paranoides e psicoticismo (p < 0,05).

Em linha, o pré-pós de Nicodemo, Pereira e Ferreira (2007) documentou alta satisfação após a cirurgia ortognática (dicção, estética e reintegração social), com motivações prévias centradas em função (34,5%), estética (30,9%) e situações sociais (29,1%).

Revisões de escopo mais amplas convergem no mesmo sentido: Rocha, Teixeira e Breda (2021) destaca a relevância de um “sorriso harmônico” para a autoestima e a vida social, agregando evidências qualitativas de 11 estudos; Oliveira et al. (2020), em estudo bibliométrico, mapeiam condições clínicas (edentulismo, fluorose, fraturas anteriores, diastemas, sorriso gengival, discrepâncias maxilomandibulares) como fatores que rebaixam a autoestima e que tendem a melhorar após correções estéticas.

5.2 Complementaridades e nuances

Os achados clínicos se complementam com referências sobre autoestima e desenvolvimento psicossocial. A revisão de David e Cerutti (2024) (Psicologia/TCC) discute que a autoestima varia ao longo da vida e pode ser promovida por estratégias cognitivo-comportamentais (p. ex., reestruturação cognitiva, autocompaixão, suporte social), oferecendo um lastro teórico para interpretar por que pacientes se beneficiam emocionalmente quando a aparência dental melhora.

Também emergem moduladores contextuais. Embora não diretamente odontológico, Melo et al. (2021) — usando a escala de Rosenberg em adolescentes — mostra ausência de diferença significativa entre grupos escolares em autoestima global, lembrando que variáveis não odontológicas (contexto educacional, desenvolvimento, suporte social) podem amortecer ou potencializar o ganho psicossocial atribuído exclusivamente à estética. Essa leitura incentiva prudência causal ao interpretar estudos transversais.

Em populações edêntulas, Fais et al. (2007) observaram alta taxa de insatisfação com próteses totais (148/170), sem efeito da idade na satisfação (p = 0,331). O dado qualifica a narrativa otimista: obter resultado técnico (prótese “correta”) não garante satisfação psicossocial — comunicação de expectativas, adaptação e conforto funcional seguem críticos.

5.3 Convergências fortes

Associação estética autoestima/impacto psicossocial: sustentada por estudo transversal com modelagem (Bahar et al., 2024), por revisão integrativa (Rocha; Teixeira; Breda, 2021) e por mapeamento bibliométrico com inventário de condições clínicas que afetam a autoestima (Oliveira et al., 2020).

Benefício pós-correção ortodôntico-cirúrgica: efeito replicado em metanálise (Basso et al., 2022) e em desenho pré-pós (Nicodemo; Pereira; Ferreira, 2007), abrangendo autoestima, humor e reinserção social.

5.4 Limitações metodológicas por tipo de estudo

Estudos transversais vs. longitudinais: Embora Bahar et al. (2024) tenham identificado associações importantes entre percepção estética e autoestima em corte transversal, este desenho limita inferências causais. Os estudos longitudinais Nicodemo, Pereira e Ferreira (2007) e as revisões sistemáticas Basso et al. (2022) fortalecem a evidência de benefício temporal, mas são limitados por seguimentos curtos (6 meses) e heterogeneidade metodológica.

Heterogeneidade de instrumentos: A diversidade de instrumentos utilizados (PI- DAQ, RSES, OHIP-14, questionários não validados) dificulta comparações diretas entre estudos e meta-análises futuras.

Viés de seleção: A predominância de amostras clínicas pode superestimar benefícios, uma vez que pacientes que buscam tratamento podem ter maior motivação e expectativas positivas em relação aos resultados.

Satisfação protética: mesmo com restauração de função/estética “objetiva”, a satisfação subjetiva pode permanecer baixa (Fais et al., 2007), chamando atenção para ajuste fino da prótese, adaptação e manejo de expectativas.

Generalização etária: Melo et al. (2021) (adolescentes) aconselha cautela na extrapolação para adultos; ainda assim, reforça que autoestima tem determinantes extra-odontológicos que podem moderar ganhos atribuídos à estética.

5.5 Implicações clínicas

1) Mensurar sistematicamente resultados com instrumentos validados (p. ex., PIDAQ, Rosenberg, OHIP-14 quando aplicável) na linha de Bahar et al. (2024) e das revisões de escopo, para capturar mudança clinicamente relevante e reduzir julgamentos impressionísticos (Bahar et al., 2024; Oliveira et al., 2020; Rocha; Teixeira; Breda, 2021).

2) Alinhar expectativas em cirurgias ortognáticas, dada a evidência de melhora média (Basso et al., 2022; Nicodemo; Pereira; Ferreira, 2007) e a chance de insatisfação quando o conforto/adaptação protética são desafiadores (Fais et al., 2007).

3) Integração psicossocial: considerar apoio/psicoeducação e, quando pertinente, estratégias TCC (David; Cerutti, 2024) para sustentar os ganhos estéticos com habilidades de coping e autocompaixão, maximizando bem-estar e manutenção dos resultados.

5.6 Síntese final

Os oito estudos analisados formam um corpo coerente: melhorias estéticas (especialmente em correções de deformidades) tendem a se acompanhar de ganhos psicossociais, com variação modulada por contexto, adaptação e expectativas. Quando a prática clínica incorpora avaliação padronizada, comunicação estruturada e apoio psicossocial, os efeitos positivos sobre autoestima e integração social tornam-se mais previsíveis e sustentáveis.

Figura 2 – Mapa Conceitual — Estética Dentária e Desfechos Psicossociais

Fonte: As Autoras

5.7 Síntese crítica

Os estudos citados no manuscrito, em sua maioria, apontam benefícios psicossociais pós-intervenção; os poucos que enfatizam pressões socioculturais não contradizem o efeito médio, mas qualificam sua interpretação e sublinham a necessidade de abordagem biopsicossocial na prática clínica. Essa leitura sustenta recomendações de avaliação com instrumentos e comunicação clínica estruturada.

5.8  Limitações do estudo

Este trabalho consiste em uma revisão narrativa, o que implica maior suscetibilidade a vieses de seleção e interpretação quando comparado a revisões sistemáticas e metanálises. Não houve protocolo previamente registrado nem dupla checagem independente das etapas de busca e elegibilidade, o que pode ter omitido estudos relevantes.

A estratégia de busca foi conduzida em um conjunto limitado de bases e idiomas, sem exaustividade formal (p. ex., ausência de varredura sistemática de literatura cinzenta), aumentando o risco de viés de publicação (predomínio de resultados positivos).

Além disso, os estudos incluídos apresentam heterogeneidade de desenhos (trans- versais, amostras clínicas, instrumentos variados como OHIP-14 e PIDAQ) e variabilidade de desfechos, o que dificulta comparações diretas e a quantificação do efeito das intervenções estéticas sobre autoestima e OHRQoL.

A natureza eminentemente observacional da maior parte das evidências limita a inferência causal, e fatores contextuais (idade, gênero, cultura, exposição a redes sociais, condição socioeconômica) nem sempre foram controlados, podendo moderar os resultados. Por fim, a ênfase em estudos com amostras clínicas reduz a generalização para a população em geral. Esses aspectos não invalidam as conclusões, mas recomendam que sejam interpretadas com cautela e situadas no marco biopsicossocial proposto.

À luz dessas limitações, sugerimos que pesquisas futuras adotem protocolo registrado, múltiplas bases e dupla triagem, priorizem desenhos longitudinais, padronizem instrumentos e pontos de corte clinicamente significativos, e explorem moderadores socioculturais para refinar a aplicabilidade clínica dos achados.

5.9 Limitações específicas adicionais

Ausência de protocolo registrado: Não foi utilizado protocolo a priori (PROSPERO), aumentando risco de viés de seleção.

Falta de avaliação de qualidade: Não foi realizada avaliação formal do risco de viés dos estudos incluídos (ex.: JBI Critical Appraisal Tools).

Heterogeneidade não explorada: Não foram analisados sistematicamente os fatores que explicam a variabilidade entre estudos (idade, sexo, tipo de intervenção).

Ausência de análise de sensibilidade: Não foram testados diferentes critérios de inclusão/exclusão para verificar robustez dos achados.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os achados desta revisão, restrita a oito estudos em acesso integral, indicam que a percepção e/ou correção da estética dentofacial se relaciona a ganhos psicossociais — sobretudo em autoestima/autoconfiança e interação social.

Em amostras clínicas buscando ortodontia, o impacto psicossocial da estética (PIDAQ) mostrou associação com níveis de autoestima (Rosenberg) em corte transversal. Em correções ortodôntico-cirúrgicas, há melhora consistente em múltiplos domínios psicológicos (meta-análise) e elevada satisfação no seguimento pré–pós.

Por outro lado, em reabilitação protética total, a insatisfação pode persistir, sinalizando que resultado técnico não basta sem adaptação, conforto e alinhamento de expectativas. Em síntese, a estética — quando bem indicada e comunicada — pode atuar como mediadora de bem-estar emocional e de integração social, mas seus efeitos dependem do contexto clínico e psicossocial.

Estas conclusões devem ser lidas à luz de limitações: revisão narrativa com corpus delimitado (oito textos), heterogeneidade de desenhos e amostras, predominância de autorrelatos (PIDAQ, Rosenberg) e pouco uso direto de OHRQoL/ OHIP-14. Parte da evidência é transversal (sem inferência causal) e os seguimentos dos estudos pré–pós são curtos, com generalização restrita a contextos clínicos específicos.

6.1 Implicações clínicas

Recomenda-se: (i) comunicação empática e gestão de expectativas; (ii) mensuração padronizada com PIDAQ e Rosenberg (e OHIP-14 apenas quando pertinente ao desfecho de qualidade de vida); (iii) triagem psicossocial básica (humor, imagem corporal, suporte, expectativas) para reduzir over-treatment e favorecer satisfação sustentada.

6.2 Protocolo clínico sugerido:

1) Avaliação inicial: Aplicar PIDAQ para mensurar impacto psicossocial da estética dentária e RSES para autoestima global antes do tratamento.

2) Comunicação estruturada: Utilizar modelo de expectativas realistas baseado em evidências, discutindo benefícios prováveis e limitações.

3) Seguimento padronizado: Reaplicar instrumentos aos 3, 6 e 12 meses pós- tratamento para documentar mudanças clinicamente relevantes.

4) Critérios de encaminhamento: Pacientes com escores baixos de autoestima (RSES<25) ou alto impacto psicossocial (PIDAQ >64) podem beneficiar-se de apoio psicológico adjuvante.

6.3 Agenda de pesquisa

Priorizar protocolo registrado, buscas sistemáticas com dupla triagem, desenhos longitudinais (e controles quando viável), padronização de instrumentos e MCID para autoestima/OHRQoL, além de explorar moderadores (idade, gênero, cultura, adaptação protética, suporte social) e desfechos centrados no paciente (satisfação, arrependi- mento, bem-estar).

6.4 Síntese final

A odontologia estética mostra relevância clínica quando inserida em um modelo biopsicossocial, com avaliação padronizada de desfechos e manejo responsável de expectativas — combinação que tende a produzir benefícios mais duráveis, mensuráveis e alinhados aos valores de cada paciente.

REFERÊNCIAS

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