INFLUENCE OF COVID-19 ON THE EPIDEMIOLOGICAL PROFILE OF TUBERCULOSIS IN THE PEDIATRIC AGE GROUP IN THE STATE OF PARÁ
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202502161952
Débora Priscyla Gigante Leite²
Adriano Brito Leite³
Adriana Maria Brito de Sousa1
Resumo
Objetivo: Delinear o perfil epidemiológico dos pacientes diagnosticados com tuberculose na faixa etária pediátrica de 0 a 19 anos no Estado do Pará no período de 2018 a 2021 e a influência da Covid-19 nessa variável. Métodos: Estudo descritivo transversal, retrospectivo e quantitativo realizado a partir da análise dos registros dos anos de 2018 a 2021 na faixa etária pediátrica no Estado do Pará e ênfase nas variáveis de sexo, faixa etária e forma clínica (pulmonar e/ou extrapulmonar) disponíveis no Banco de Dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde do Brasil (DATASUS). Resultados: A Covid-19 e as medidas sanitárias, econômicas e sociais decorrentes dela é notadamente percebida nos dados epidemiológicos da tuberculose, com queda expressiva em todas as variáveis analisadas e com aumento no ano subsequente, expressando a similaridade das doenças bem como o direcionamento dos serviços de saúde para a pandemia. Conclusão: A pandemia evidenciou a necessidade de fortalecer os sistemas de saúde para lidar simultaneamente com emergências sanitárias e doenças endêmicas.
Palavras-chave: Covid-19. Tuberculose. Pediatria.
1 INTRODUÇÃO
A COVID-19, causada pelo vírus SARS-CoV-2, foi identificada pela primeira vez em dezembro de 2019, na cidade de Wuhan, na China. A doença se expandiu globalmente, sendo declarada uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em março de 2020. A COVID-19 provocou uma crise de saúde sem precedentes, afetando milhões de vidas e sobrecarregando os sistemas de saúde em todo o mundo. Além do impacto direto sobre a saúde, a pandemia trouxe desafios em várias áreas, incluindo a economia, a educação e a gestão de outras condições médicas. Em meio à mobilização global para conter o vírus, a COVID-19 evidenciou a vulnerabilidade dos sistemas de saúde e gerou consequências indiretas em diversas enfermidades, como a tuberculose, alterando significativamente os dados epidemiológicos e os padrões de doenças (AMARAL et al, 2022; WHO, 2023; XAVIER et al, 2022).
A tuberculose, causada pelo Mycobacterium tuberculosis, ainda hoje representa um risco para a saúde pública mundial com aproximadamente um quarto da população infectada pela bactéria da tuberculose. E de acordo com a OMS em relatório global de 2023, a nível mundial, em 2022, a TB causou cerca de 1,30 milhões de mortes e dos casos diagnosticados, 12% eram crianças (de 0 a 14 anos). No Brasil, em 2021, as crianças menores de 15 anos representaram 3% dos casos diagnosticados. E durante o período pandêmico, a atenção mundial voltou-se para a COVID-19 e expôs lacunas nos sistemas de saúde e no enfrentamento a TB e ressaltou a necessidade de abordagens integradas para a gestão de doenças infecciosas, especialmente em cenários de crise sanitária (BRASIL, 2019; WHO, 2023).
Na faixa etária pediátrica, a detecção da tuberculose deve ser encarada como um alerta em saúde pública e se torna um marcador de controle incompleto da doença, podendo-se considerar como um sinalizador da qualidade do sistema de saúde, ao indicar que os casos bacilíferos em adultos não estão sendo detectados precocemente ou mesmo que a busca ativa dos contactantes não está sendo praticada, em especial nas crianças. Com a pandemia, essa detecção foi prejudicada em decorrência de muitos sistemas de saúde estarem sobrecarregados, direcionando recursos humanos, financeiros e tecnológicos para o combate à COVID-19, em especial, a interrupção de campanhas de rastreamento ativo, como buscas em populações vulneráveis, que foram suspensas em muitos locais e que inviabilizou a descoberta de novos casos (AMARAL et al, 2022; CARVALHO et al, 2018; MATHIASEN et al, 2020; SANTOS et al, 2020; XAVIER et al, 2022).
A manifestação clínica da TB na pediatria é variável e os sintomas, em geral, inespecíficos como febre, perda de apetite, sudorese noturna, perda de peso, dor torácica e tosse, este sendo o principal sintoma da apresentação pulmonar da doença, forma mais comum de tuberculose em todas as faixas etárias, uma vez que a micobactéria apresenta grande afinidade pelo oxigênio e necessita deste para se desenvolver. Em decorrência dessa inespecificidade dos sintomas, a interação entre as duas doenças (TB e Covid) apresentou desafios clínicos e epidemiológicos únicos, pela possibilidade de agravar os estágios clínicos devido às características compartilhadas, como a transmissão respiratória e os danos pulmonares, bem como dificultou o diagnóstico diferencial, levando a atrasos na identificação da TB e ao aumento de casos não tratados (AMARAL et al, 2022; CARVALHO et al, 2018; GONDIM et al, 2019; XAVIER et al, 2022).
Nesse contexto, em vista da relevância da temática, o presente trabalho buscou delinear o perfil epidemiológico das crianças e adolescentes diagnosticados com tuberculose no Estado do Pará no período de 2018 a 2021, correlacionando os dados com o período pandêmico da Covid-19 visando contribuir para a discussão de intervenções e assim, evitar as possíveis complicações da doença para a população pediátrica e subnotificações.
2 METODOLOGIA
Estudo descritivo transversal de caráter retrospectivo e quantitativo.
Análises para investigar o possível efeito da pandemia da Covid-19 na epidemiologia da tuberculose foram realizadas baseando-se no Banco de Dados do Departamento de Tuberculose do sistema de informações Epidemiológicas e de Morbidade do Banco de Dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde do Brasil (DATASUS) mantido pelos arquivos da Secretaria de Vigilância em Saúde.
Para análise dos dados como critérios de inclusão foram considerados os registros dos anos de 2018 a 2021 na faixa etária de 0 a 19 anos, com foco no Estado do Pará e ênfase nas variáveis de sexo, faixa etária e forma clínica (pulmonar e/ou extrapulmonar). Excluídos da análise dados de anos anteriores e de faixa etária fora da proposta de análise.
Os dados foram obtidos com auxílio do software TABNET/DATASUS disponível no sítio eletrônico do Ministério da Saúde e submetidos a uma análise estatística descritiva com elaboração de tabelas através do software Microsoft Word 2021.
Em virtude da utilização de banco de dados de domínio público, não foi necessária apreciação pelo Comitê de Ética em Pesquisa.
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
No período analisado, de 2018 a 2021, foram identificados no Estado do Pará 1.974 novos casos de crianças infectadas pela bactéria da tuberculose. Sabidamente, há correlação da incidência de novos casos de tuberculose com indicadores relacionados à renda, escolaridade, densidade de pessoas por dormitório e domicílio, cenário observado com maior ênfase em grande parte dos países subdesenvolvidos e em muitas regiões do Brasil com extensão de áreas carentes que não dispõem de serviços essenciais adequados, distribuídas de forma desordenada (LIMA et al, 2017; SANTOS et al, 2020).
E nos anos avaliados percebe-se uma queda de casos notificados a partir do ano de 2020 de aproximadamente 20,6% e aumento de 11% em 2021, período este marcado pela pandemia da Covid-19, e tal redução pode justificar-se em virtude das interrupções dos serviços disponibilizados e subnotificações observadas nessa fase, o que corrobora com os dados nacionais de acordo com números disponibilizados pelo Ministério da Saúde, bem como dados globais de acordo com a OMS, em que houve uma queda acentuada na notificação de casos de TB, atribuída não à redução real na incidência, mas à subnotificação causada pela diminuição no acesso a serviços diagnósticos em decorrência das medidas sanitárias impostas no período e redirecionamento dos sistemas de saúde e recursos financeiros para atendimentos destinados à Covid. (BRASIL, 2022; HINO et al, 2021; WHO, 2022). (Gráfico 1).
Gráfico 1. Casos confirmados de tuberculose por ano de diagnóstico no período de 2018-2021 no Estado do Pará.
Fonte: Leite DPG, et al., 2025. Fundamentado em dados do Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação.
Observou-se, nos anos analisados, predomínio do sexo masculino em 56,6%, similar aos estudos analisados no Rio de Janeiro com 55% e em Sergipe com 52,6% (MATOS et al, 2012; SANTOS et al, 2020). Essa característica do sexo masculino reflete questões culturais e sociais, em que desde a adolescência, homens procuram em menor frequência os serviços de saúde, enquanto que o sexo feminino apresenta um maior engajamento nas ações de prevenção e autocuidado (XAVIER et al, 2021).
Durante a pandemia com a redução/suspensão de muitos serviços de saúde, esse acesso aos programas de rastreamento, medidas sanitárias e o medo do contágio desempenharam papel importante na queda no número de diagnósticos. E mesmo diante desse novo cenário, manteve-se o padrão observado em anos anteriores com maior número de casos novos de TB no sexo masculino (AMARAL et al, 2022). (Gráfico 2).
Gráfico 2. Casos confirmados de tuberculose de acordo com gênero por ano de diagnóstico no período de 2018-2021 no Estado do Pará.
Fonte: Leite DPG, et al., 2025. Fundamentado em dados do Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação.
Nota-se nos casos notificados de TB um aumento gradual conforme a idade, enquanto que menores de 1 ano representaram 5% de casos, na faixa etária de 15-19 anos já representaram 67,3% de casos registrados no período de 4 anos analisados, o que pode ser justificado pela exposição maior com o passar dos anos, e consequentemente, maior vulnerabilidade à infecção, fato notado também nos estudos de GONDIM et al (2019) com 68,47% de casos em jovens (15-19 anos). Outros estudos também relatam que as razões para esse aumento não são completamente esclarecidas, mas que pode haver possíveis interferências hormonais, metabólicas, imunológicas, bem como mudanças no padrão social e maior exposição ambiental ao cigarro e poluentes (THOMAS, 2019; SANTOS et al, 2020; SNOW et al, 2020). No período da pandemia essa tendência se manteve com predominância de notificações entre 15-19 anos, mas com redução de detecção em relação às demais faixas etárias, que pode ser justificado pelas características da própria idade, visto que as crianças costumam ser abacilíferas pelo caráter paucibacilar da TB nessa faixa etária o que torna o diagnóstico ainda mais difícil. (Gráfico 3).
Gráfico 3. Casos confirmados de tuberculose de acordo com a faixa etária por ano de diagnóstico no período de 2018-2021 no Estado do Pará.
Fonte: Leite DPG, et al., 2025. Fundamentado em dados do Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação.
No tocante às formas clínicas, no período avaliado, observa-se que a pulmonar é mais prevalente em todas as faixas etárias com 84,9%, seguido da extrapulmonar com 12,2% e forma mista com 2,8%. Os dados são corroborados pelos estudos de SANTOS et al (2020), no qual houve predominância da forma pulmonar com 79,7% dos casos, seguidos da extrapulmonar com 19,2%. Isso demonstra que esse perfil clínico identificado reflete a fragilidade relacionada com estratégias que interrompam a cadeia de transmissão da doença, considerando que a forma clínica pulmonar se caracteriza como uma das responsáveis pela continuidade da infecção por adultos bacilíferos na infância (paucibacilares), com isso, a tuberculose nas crianças é considerada um evento sentinela, expressando a frequência da doença nos adultos na comunidade e demonstra que esses casos não estão sendo detectados precocemente, bem como levanta um alerta para a ausência de busca ativa de crianças contactantes de adultos infectados pelo Mycobacterium tuberculosis e a falta de tratamento da infecção latente por tuberculose.
Na pandemia esse parâmetro ficou ainda mais evidente devido mudança nas prioridades de saúde pública que resultaram em uma redução nos atendimentos preventivos bem como devido o isolamento social, medida de proteção que viabilizou a redução do contágio da Covid, no entanto, permitiu o contato prolongado intradomiciliar, o que fez com que muitas crianças expostas a ambientes com alta carga de tuberculose e consequente infecção ficassem sem diagnóstico ou tratamento adequado por mais tempo, situação percebida através dos dados apresentados na Gráfico 4, com queda no número de casos diagnosticados no ano pandêmico e aumento da forma pulmonar no ano seguinte (ZOMBINI et al, 2013; GONDIM et al, 2019; HINO et al, 2021; SANTOS et al, 2020; XAVIER et al, 2021; PINHEIRO et al, 2022). (Gráfico 4).
Gráfico 4. Casos confirmados de tuberculose de acordo com a forma clínica por ano de diagnóstico no período de 2018-2021 no Estado do Pará.
Fonte: Leite DPG, et al., 2025. Fundamentado em dados do Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação.
4 CONCLUSÃO
Diante do exposto, nota-se a interferência da COVID-19 e das medidas sanitárias tomadas no período pandêmico nos números de casos pediátricos de tuberculose diagnosticados, com redução em todas as variáveis analisadas. Com isso, a pandemia evidenciou a necessidade de fortalecer os sistemas de saúde para lidar simultaneamente com emergências sanitárias e doenças endêmicas. Assim, o impacto da COVID-19 na epidemiologia da tuberculose vai além de números; ele destaca a vulnerabilidade dos sistemas de saúde e a importância de estratégias integradas para a gestão de doenças infecciosas.
É essencial compreender os impactos multifacetados da pandemia da COVID-19 na tuberculose para projetar estratégias que promovam a resiliência dos sistemas de saúde e garantam a continuidade do atendimento às populações vulneráveis como o reforço aos programas de diagnóstico e tratamento da tuberculose, investimento em tecnologias que permitam a vigilância remota e o monitoramento de casos, bem como ampliar campanhas de conscientização para garantir que a TB continue sendo uma prioridade em saúde pública. Essa análise é crucial para mitigar as consequências epidemiológicas da pandemia e fortalecer os programas de controle da TB no futuro.
REFERÊNCIAS
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1 Preceptora do programa de Residencia Médica em Pediatria da Universidade Federal do Pará. Mestre em Doenças Tropicais (UFPA). e-mail: adrianasousa35@hotmail.com
2 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Integrada Brasil Amazônia
3 Residente do programa de Residencia Médica em Pediatria da Universidade Federal do Pará