INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO EM JOVENS ADULTOSUSUÁRIOS DE ESTERÓIDES ANABOLIZANTES: UMA REVISÃOINTEGRATIVAACUTE MYOCARDIAL INFARCTION IN YOUNG ADULT USERS OFANABOLIC STEROIDS: AN INTEGRATIVE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202509121443
Leticia Natalie Castriani1
Eduarda Zeilane Fernandes Oliveira1
Maria Gabriela de Oliveira Nery1
Camila Monique de Souza de Oliveira Aramaio2
RESUMO
Objetivo: Analisar, por meio de uma revisão integrativa, a relação entre o uso de esteroides anabolizantes e a ocorrência de infarto agudo do miocárdio em jovens adultos, identificando os impactos desse uso na saúde e ressaltando a importância de estratégias de educação em saúde para a prevenção e conscientização dessa população. Metodologia: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, com recorte temporal de dez anos, conduzida nas bases SciELO, PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Foram utilizados descritores combinados com operadores booleanos, aplicando a estratégia PICO para direcionar a busca. Seguindo o protocolo PRISMA, os estudos foram selecionados com base em critérios de inclusão e exclusão previamente definidos, garantindo rigor metodológico e padronização na análise dos dados. Resultados: A análise dos estudos evidenciou que o uso indiscriminado de esteroides anabolizantes é um dos principais fatores associados ao infarto agudo do miocárdio em jovens adultos, especialmente entre homens de 18 a 35 anos, motivados pela busca por padrões corporais idealizados. Observou-se, ainda, uso expressivo entre mulheres, sobretudo fisiculturistas e frequentadoras de academias. Considerações finais: O abuso de esteroides anabolizantes configura um fator de risco relevante e ainda subestimado para eventos cardiovasculares graves. O aumento do uso ilícito em doses supra terapêuticas reforça a necessidade de estratégias educativas, políticas públicas mais rigorosas e fiscalização efetiva da comercialização dessas substâncias. Observa-se que, mesmo conscientes dos riscos, muitas pessoas persistem em utilizá-las movidas pelo desejo de alcançar o padrão corporal idealizado pela sociedade.
Palavras-chave: Esteroides Anabolizantes, Infarto Agudo do Miocárdio, Jovens Adultos.
ABSTRACT
Objective: To analyze, through an integrative review, the relationship between the use of anabolic steroids and the occurrence of acute myocardial infarction in young adults, identifying the health impacts of such use and highlighting the importance of health education strategies for prevention and awareness in this population. Methodology: This is an integrative literature review with a ten-year time frame, conducted in the SciELO, PubMed, and Virtual Health Library (VHL) databases. Descriptors combined with Boolean operators were used, applying the PICO strategy to guide the search. Following the PRISMA protocol, studies were selected based on predefined inclusion and exclusion criteria, ensuring methodological rigor and standardization in data analysis. Results: The analysis of the studies revealed that the indiscriminate use of anabolic steroids is one of the main factors associated with acute myocardial infarction in young adults, especially among men aged 18 to 35, motivated by the pursuit of idealized body standards. Significant use was also observed among women, particularly bodybuilders and gym-goers. Final considerations: The abuse of anabolic steroids constitutes a relevant and still underestimated risk factor for severe cardiovascular events. The increasing use of illicit substances in supratherapeutic doses reinforces the need for educational strategies, stricter public policies, and effective monitoring of the commercialization of these substances. It was also observed that, even when aware of the risks, many individuals persist in using them, driven by the desire to achieve the body idealized by society.
Keywords: Anabolic Steroids, Acute Myocardial Infarction, Young Adults.
1 INTRODUÇÃO
O Infarto Agudo do Miocárdio corresponde a uma condição isquêmica aguda, caracterizada pela morte de células cardíacas em decorrência do desequilíbrio entre a oferta e a demanda de oxigênio e nutrientes ao miocárdio. Tal evento está frequentemente associado à obstrução das artérias coronárias, podendo gerar graves sequelas ou até mesmo levar ao óbito. Historicamente, está associado a fatores de risco como idade, obesidade, tabagismo, aterosclerose, diabetes e sedentarismo (LU, Yuan, et al., 2022).
Em diversos países, observa-se o uso indiscriminado de Esteroides Anabolizantes (EA) por praticantes de musculação, principalmente homens de meia-idade, com o objetivo de aumentar a massa muscular. A preocupação com o uso dos EA decorre do fato de que essas substâncias podem causar diversos efeitos colaterais e estão associadas a várias condições de saúde secundárias, configurando-se, como um sério problema de saúde pública. Nos últimos anos, o uso tem aumentado entre adultos jovens que praticam musculação com fins estéticos, frequentemente sem acompanhamento médico adequado (FREITAS, Nayara, et al., 2019).
O consumo de esteroides anabolizantes é mais frequente entre fisiculturistas, embora também apresente alta prevalência em praticantes recreativos de musculação. Em geral, os usuários recorrem a doses muito acima das fisiológicas, o que resulta em exposição prolongada e maior risco de complicações sistêmicas. Estudos de caso indicam uma relação direta entre o uso de EA e diversas doenças cardiovasculares, incluindo hipertrofia miocárdica, insuficiência cardíaca, infarto do miocárdio e morte súbita (FYKSEN, Tea, et al., 2022).
Atualmente, verifica-se um aumento significativo no uso entre os jovens adultos, com idades entre 18 e 35 anos, motivado principalmente pela busca por padrões corporais idealizados e pelo desejo de ganho rápido de massa muscular e melhora do desempenho físico. O uso entre homens se relaciona a efeitos de masculinização, mas é notório também entre mulheres, sobretudo fisiculturistas e frequentadoras de academias, que buscam desenvolver musculatura que dificilmente seria alcançada apenas com treino e dieta, sem intervenção hormonal (OLIVEIRA Jr, Celso, et al., 2024).
Estudos indicam que essas substâncias contribuem para a instabilidade das placas ateroscleróticas e intensificam a formação de lesões coronarianas, aumentando o risco cardiovascular em comparação com não usuários. Nesse cenário, nota-se que as doenças cardiovasculares afetam funções vitais, como o fornecimento de oxigênio e nutrição dos tecidos. O aumento da pressão arterial, mudanças no perfil lipídico que incluem a elevação do colesterol total e do LDL colesterol, bem como a redução do HDL colesterol e disfunções ventriculares, tanto sistólicas quanto diastólicas, estão entre os efeitos mais comuns (GOMES, Antoine, et al., 2023).
Com base no que foi apresentado, o objetivo do estudo em questão foi analisar, por meio de uma revisão integrativa, a relação entre o uso de esteroides anabolizantes e a ocorrência de infarto agudo do miocárdio em jovens adultos, identificando os impactos desse uso na saúde e ressaltando a importância de estratégias de educação em saúde para a prevenção e conscientização dessa população.
2 METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, com recorte temporal dos últimos dez anos, voltada para a análise do uso indiscriminado de esteroides anabolizantes em jovens adultos. O objetivo foi investigar os malefícios associados à busca pelo aprimoramento da performance física e à obtenção de um corpo considerado ideal para fins estéticos.
A revisão foi conduzida nas bases de dados SciELO, PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), utilizando descritores combinados com operadores booleanos e aplicando a estratégia PICO para orientar a busca. Para a seleção dos descritores “Infarto Agudo”, “Jovens Adultos” e “Anabolizantes”, utilizou-se o operador booleano OR, permitindo a inclusão de artigos que contivessem qualquer um dos termos indicados. Essa estratégia assegura uma busca ampla e eficiente, alinhada aos objetivos da revisão. A pergunta norteadora que guiou a revisão foi: “Qual é a relação entre o uso de esteroides anabolizantes e a ocorrência de Infarto Agudo do Miocárdio em jovens adultos, considerando os impactos na saúde e a relevância de estratégias de educação em saúde?”
No Quadro abaixo, apresenta-se a estratégia e os descritores utilizados na pesquisa, aplicados à pergunta norteadora do estudo.
Quadro 01 – Estratégia PICO e descritores utilizados na pesquisa.

O método de busca resultou em 1.980 artigos, abrangendo estudos científicos nacionais e internacionais. Para a execução desta revisão, foi aplicado o método PRISMA, um checklist composto por 24 itens, organizado em um fluxograma com quatro etapas, destinado à seleção criteriosa dos estudos a serem incluídos. Esse delineamento metodológico permitiu uma análise sistemática e fundamentada da literatura disponível, assegurando a qualidade, a confiabilidade e a consistência das evidências apresentadas.
3 RESULTADOS
Para a realização deste estudo, foi conduzida uma busca sistemática nas bases de dados, seguindo o protocolo PRISMA. Foram identificados 1.980 artigos, distribuídos da seguinte forma: SciELO (266), PubMed (28) e BVS (1.686), conforme ilustrado no fluxograma (Figura 1).
Os critérios de inclusão adotados foram: artigos publicados entre 2015 e 2025, nos idiomas português e inglês, incluindo estudos de natureza qualitativa, estudos de caso e boletins epidemiológicos. Os critérios de exclusão compreendem: indisponibilidade do texto completo, duplicidade de publicações, documentos de projeto, teses, monografias e artigos com mais de dez anos de publicação.
A seleção dos artigos ocorreu em etapas. Inicialmente, realizou-se a leitura dos títulos, o que resultou em um total de 27 estudos relacionados à temática. Em uma segunda triagem, que incluiu a análise de títulos e resumos, a amostra final foi composta por 14 artigos pertinentes ao objetivo do estudo.
Figura 1 – Fluxograma de seleção dos artigos

Os anos com maior número de publicações relacionadas à temática em questão foram 2015 a 2018, totalizando 246 artigos. Em relação às bases de dados consultadas, a SciELO registrou 39 publicações em 2015, o PubMed contabilizou 05 em 2018, a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) destacou-se com 202 publicações sobre o tema no mesmo ano. Ao longo do período de dez anos analisado, a BVS apresentou o maior quantitativo de publicações, consolidando-se como a principal fonte de estudos relacionados ao tema.
Quadro 2 – Caracterização dos dados dos trabalhos que constituíram a revisão.
| N | Autores | Ano | Principais achados |
| 1 | BORJESSON, Annica, et al. | 2021 | A pesquisa, de caráter fenomenológico, utilizou a abordagem Reflective Lifeworld Research e contou com entrevistas realizadas com 12 mulheres, entre 21 e 56 anos, acerca do uso de esteroides anabolizantes androgênicos. Os resultados apontaram que o principal objetivo do uso é o aumento da massa muscular, aliado à ausência de conhecimento sobre os efeitos adversos dessas substâncias. Conclui-se que o uso de esteroides anabolizantes por mulheres é influenciado por fatores emocionais, sociais e culturais. |
| 2 | FREITAS, Nayara, et al. | 2019 | Trata-se de uma pesquisa exploratória, descritiva e de caráter transversal, cujo público-alvo foi composto por praticantes de musculação matriculados em uma academia específica do estado de Rondônia, com faixa etária entre 18 e 45 anos. O estudo utilizou um questionário que abordou o uso de esteroides anabolizantes (EA) e parâmetros sociodemográficos, como gênero, idade e escolaridade. Os resultados evidenciaram que grande parte dos participantes não realizava acompanhamento médico durante o uso dessas substâncias. Constatou-se, ainda, que todos os esteroides anabolizantes utilizados estavam associados ao aumento da pressão arterial sistêmica, evidenciando a necessidade de implementação de ações preventivas quanto ao uso abusivo desses agentes. |
| 3 | FYKSEN, Tea, et al. | 2022 | Trata-se de um estudo original, de caráter comparativo, que analisou o fenótipo cardiovascular de praticantes de musculação usuários de esteroides androgênicos anabolizantes em comparação com atletas que não faziam uso dessas substâncias. Os principais achados evidenciaram alterações laboratoriais, sobretudo no perfil lipídico. Conclui-se que o uso de esteroides anabolizantes está associado a um fenótipo cardiovascular adverso, ressaltando a importância da conscientização, por parte dos profissionais de saúde, acerca dos riscos envolvidos no consumo dessas substâncias. |
| 4 | GRANDPERRI N A, et al. | 2021 | Trata-se de um estudo observacional, de delineamento transversal, realizado com jovens fisiculturistas, divididos entre usuários e não usuários de esteroides anabolizantes. Para a avaliação, foi utilizado o ecocardiograma, com foco na análise da função ventricular esquerda, da presença de dissincronia ventricular e do encurtamento pós-sistólico. Os resultados demonstraram que os usuários de esteroides anabolizantes apresentaram maior dissincronia ventricular esquerda e maior encurtamento pós-sistólico em comparação aos não usuários. |
| 5 | GOMES, Antoine, et al. | 2023 | A pesquisa trata-se de um relato de caso. As principais características analisadas foram a predominância do sexo masculino e a associação do uso de EA à prática física com finalidade estética entre jovens adultos. O paciente do estudo apresentou infarto agudo do miocárdio, e o eletrocardiograma revelou angina, além de evidenciar múltiplas lesões coronarianas. O estudo concluiu que o abuso prolongado de EA pode ser considerado um fator de risco modificável para síndromes coronarianas agudas em pacientes jovens. |
| 6 | LU, Yuan, et al. | 2022 | A pesquisa baseia-se em um estudo caso-controle realizado com jovens adultos que sofreram IAM. Foram analisados fatores de risco, incluindo comorbidades, tabagismo, histórico familiar e renda familiar. Os autores concluíram que sete fatores de risco modificáveis explicam cerca de 85% dos primeiros IAMs em jovens adultos, ressaltando a importância de estratégias de prevenção adaptadas ao sexo. |
| 7 | MACIEL, Gyl, et al. | 2022 | Trata-se de um estudo descritivo, transversal e de natureza quantitativa, realizado em 14 academias localizadas em Recife, Pernambuco. A coleta de dados foi realizada por meio de questionários aplicados a usuários de esteroides anabolizantes (EA), contemplando itens sociodemográficos, tempo de prática de atividade física, consumo de suplementos dietéticos, adesão a dietas, dosagem e tempo de utilização dos EA, entre outros aspectos. Os resultados evidenciaram predomínio de usuários do sexo masculino, com maior frequência na faixa etária de 26 a 35 anos. Conclui-se que o elevado índice de esportistas que fazem uso de EA constitui um problema relevante a ser enfrentado, considerando os impactos negativos à saúde decorrentes do consumo inadequado e sem prescrição médica. |
| 8 | MELHEM Jr, Abrão, et al. | 2020 | Trata-se de um relato de caso associado à revisão da literatura que abordou o uso indevido de esteroides anabolizantes (EA) em conjunto com prática intensa de musculação voltada à hipertrofia muscular, influenciada pela cultura da imagem corporal. O estudo destacou complicações relacionadas a esse uso, incluindo alterações hepáticas, psiquiátricas, urinárias, genitais, além de repercussões cardiovasculares, como infarto agudo do miocárdio (IAM) e morte súbita. O relato do caso descreveu um fazendeiro de 26 anos, fisiculturista amador, que apresentou extenso IAM na parede anterior, Killip Classe I, durante o uso de EA. Conclui-se que se faz necessário reforçar o alerta sobre os riscos do uso indiscriminado de esteroides anabolizantes para fins de hipertrofia muscular, ressaltando que tais substâncias não devem ser prescritas sem indicação clínica precisa. |
| 9 | MIOSSI, Amabilly, et al. | 2025 | Trata-se de uma pesquisa de caráter descritivo e observacional, cujo objetivo foi avaliar o perfil epidemiológico da mortalidade por infarto agudo do miocárdio (IAM) em adultos jovens no Brasil. Os resultados evidenciaram que esse cenário reflete desigualdades socioeconômicas, bem como desafios relacionados ao acesso aos serviços de saúde preventiva e de emergência. |
| 10 | OLIVEIRA Jr, Celso, et al. | 2024 | Trata-se de uma pesquisa descritiva, exploratória, de cunho quantitativo, com delineamento transversal e levantamento de dados, realizada em todas as academias do interior da Bahia. O estudo contou com a participação de 100 jovens adultos de ambos os sexos, com idade entre 18 e 35 anos. Foi aplicado um questionário que evidenciou que os indivíduos com mais de um ano de prática de musculação apresentaram risco duas vezes maior de uso de esteroides anabolizantes (EA). Conclui-se que o uso de EA é mais comum entre praticantes mais experientes, impulsionados por questões estéticas, quando comparados aos iniciantes na musculação. |
| 11 | PEREIRA, Michel, et al. | 2020 | Trata-se de uma investigação de caráter quantitativo, transversal, observacional e descritivo, cujo objetivo foi analisar a percepção de frequentadores de academia que fazem uso de esteroides anabolizantes, investigando os motivos para o uso dessas substâncias, seus efeitos colaterais e a necessidade de políticas públicas voltadas à sua restrição. Participaram do estudo 46 indivíduos praticantes de musculação em Campinas-SP e na região da Baixa Mogiana. Os resultados demonstraram que a principal motivação para o uso foi a busca por estética, frequentemente sem acompanhamento ou prescrição médica, com produtos de origem desconhecida. Conclui-se que, apesar da ocorrência frequente de efeitos colaterais, estes não motivaram a interrupção do uso, evidenciando risco significativo à saúde dos usuários e caracterizando a situação como um problema de saúde pública. |
| 12 | SAMREEN, Fnu, et al. | 2021 | O estudo refere-se a um relato de caso que destaca o uso indevido de esteroides anabolizantes como fator de risco para problemas cardíacos, incluindo o infarto agudo do miocárdio. Essas substâncias são frequentemente utilizadas por adolescentes, fisiculturistas e atletas. Embora o IAM fosse historicamente considerado uma doença associada ao envelhecimento, atualmente observa-se sua ocorrência relacionada ao abuso de drogas, entre elas os anabolizantes. |
| 13 | SANTOS, Rui, et al. | 2015 | A pesquisa, apresentada como relato de caso, evidencia que jovens adultos sem fatores de risco cardiovascular vêm desenvolvendo infarto agudo do miocárdio associado ao uso de esteroides anabolizantes. Essas substâncias favorecem a hipercoagulabilidade, promovem alterações cardíacas e induzem isquemia, concluindo-se que é essencial investigar seu uso em pacientes com esse diagnóstico. |
| 14 | TORRES, Raimundo, et al. | 2019 | Trata-se de um estudo de caráter interventivo, que evidencia o crescimento do uso de esteroides anabolizantes nos últimos anos, não apenas entre atletas, mas também entre jovens em busca de melhor aparência física. Conclui-se que a interação desses jovens com tecnologias de informação contribuiu para ampliar o conhecimento sobre os riscos associados ao uso dessas substâncias, tornando-os mais reflexivos quanto ao consumo de esteroides anabolizantes. |
4 DISCUSSÕES
De acordo com Fyksen, et al. (2022), há diferenças expressivas no perfil cardiovascular entre usuários e não usuários de esteroides anabolizantes. Os primeiros apresentam, entre outras alterações, elevação da hemoglobina e do hematócrito, condição que pode ser caracterizada como policitemia secundária. Além disso, esses indivíduos apresentam capacidade de exercício reduzida e evidências de doença arterial coronariana (DAC). Grandperrin, et al. (2021) também observaram maior massa muscular ventricular esquerda nos usuários de EA, decorrente de hipertrofia concêntrica exacerbada, frequentemente associada a fibrose miocárdica, predominantemente localizada no septo interventricular.
Para Oliveira Júnior et al. (2024), os esteroides anabolizantes (EA) possuem importantes aplicações terapêuticas, sendo indicados no tratamento de condições como sarcopenia, hipogonadismo, câncer de mama e osteoporose. No entanto, quando utilizados exclusivamente para fins estéticos e sem supervisão médica, podem causar efeitos adversos graves, inclusive risco de óbito. De acordo com Samreen et al. (2021), os eventos cardiovasculares mais frequentemente associados ao uso inadequado de EA incluem hipertrofia cardíaca, hipertensão arterial e aterosclerose. Além disso, o uso indevido desses compostos pode provocar alterações trombóticas e prejuízos no metabolismo lipídico, como elevação do LDL e redução do HDL, fatores que aumentam significativamente o risco de infarto agudo do miocárdio (IAM).
Pereira MCA et al. (2020) destacam que, além dos efeitos cardiovasculares, o uso de esteroides anabolizantes pode desencadear alterações em diversos sistemas do organismo, incluindo os sistemas dermatológico, musculoesquelético, endócrino e psicológico. Muitos usuários desconhecem esses efeitos; entretanto, mesmo aqueles cientes dos riscos frequentemente optam pelo uso, por considerarem essa a forma mais rápida de atingir objetivos estéticos e de desempenho. O estudo de Borjesson A, et al. (2021) destaca que os principais efeitos colaterais observados nos homens incluem disfunção erétil, acne, ginecomastia e distúrbios psíquicos, como depressão, insônia e alterações de humor, já nas mulheres, destacam-se os efeitos masculinizantes, entre eles a mudança da voz, o aumento do clitóris, o crescimento excessivo de pelos corporais e o risco de infertilidade.
Miossi AN et al. (2025) analisaram óbitos por infarto agudo do miocárdio (IAM) em jovens adultos entre 2019 e 2024, registrando 13.408 internações e 54 óbitos, com pico em 2022, quando ocorreram 8 mortes e 2.398 internações. Esse fenômeno foi influenciado por fatores sociodemográficos, geográficos e estruturais, sendo o sexo masculino o mais afetado. Oliveira Júnior et al. (2024) destacam que o grupo etário de jovens adultos que mais faz uso de esteroides anabolizantes situa-se entre 18 e 30 anos, predominando homens brancos, solteiros ou divorciados, com ensino médio completo e frequentadores de academias, cujo objetivo principal é a melhora da estética corporal.
Borjesson A, et al. (2021) A sociedade exerce forte influência na adoção de atitudes drásticas em busca do corpo ideal, sobretudo pela imposição de padrões de beleza que valorizam estruturas físicas mais definidas e consideradas perfeitas. Esse cenário leva muitas pessoas a sentirem-se insatisfeitas com a própria aparência. Segundo Maciel GES et al. (2022), a insatisfação corporal está fortemente associada a transtornos alimentares e ao uso de esteroides anabolizantes. Observa-se que o sexo masculino apresenta três vezes mais probabilidade de consumir essas substâncias em comparação ao sexo feminino, devido à valorização social da massa muscular como padrão ideal para os homens. Já as mulheres tendem a se preocupar mais com a magreza extrema, refletindo o corpo idealizado socialmente para elas.
Maciel GES et al. (2022) destacam que o consumo de esteroides anabolizantes tem aumentado significativamente, impulsionado pela expansão de mercados ilícitos e pela circulação de produtos falsificados. A comercialização desses fármacos pela internet, sem supervisão médica, assim como sua venda em academias, representa um grave problema de saúde pública. No Brasil, a comercialização de esteroides anabolizantes é legalmente restrita e só pode ocorrer mediante apresentação de receita médica, conforme determina a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Santos RP et al. (2015) destacam que os esteroides anabolizantes (EA) apresentam alto potencial trombótico, estando associados ao aumento da agregação plaquetária, resultante da elevação da produção de tromboxano A2 e da redução da síntese de prostaciclina. Torres RAM et al. (2019) afirmam que, embora o uso de anabolizantes tenha sido anteriormente restrito a atletas, atualmente ele se expandiu entre jovens que buscam uma aparência física considerada ideal, muitas vezes influenciados pela mídia e pela insatisfação com o próprio corpo. Em vez de adotarem hábitos saudáveis, como alimentação adequada e prática regular de atividades físicas, muitos optam pelo uso dessas substâncias sem conhecimento dos possíveis efeitos colaterais.
Segundo Freitas NCD et al. (2019) e Melhem Júnior AJ et al. (2020), embora os esteroides anabolizantes (EA) possuam indicações terapêuticas legítimas, seu uso indiscriminado e sem supervisão médica pode provocar efeitos adversos graves e irreversíveis, destacando-se o infarto agudo do miocárdio, com risco de desfecho fatal. Dessa forma, é essencial que os profissionais de saúde estejam atentos aos efeitos colaterais e às estratégias de prevenção, visando reduzir o consumo inadequado dessas substâncias. Apesar da existência de estudos sobre os malefícios dos anabolizantes, o uso inadequado ainda persiste, reforçando a necessidade de divulgação dessas informações para conscientização da sociedade.
5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise conduzida nesta revisão integrativa indica que o uso abusivo de esteroides anabolizantes (EA) constitui um fator de risco relevante para o infarto agudo do miocárdio (IAM), especialmente entre jovens adultos, sendo ainda pouco reconhecido. Embora esses compostos hormonais possuam aplicações médicas legítimas, seu uso ilegal e em doses superiores às terapêuticas tem aumentado de forma preocupante, provocando efeitos adversos significativos no sistema cardiovascular. Para reduzir o impacto do uso inadequado de esteroides e promover estratégias de prevenção, torna-se essencial realizar intervenções educativas, implementar políticas públicas mais rigorosas e monitorar efetivamente a comercialização desses produtos.
Além disso, torna-se evidente a urgência em expandir os estudos científicos focados em entender os mecanismos fisiopatológicos que ligam o uso de esteroides anabolizantes ao surgimento do IAM em jovens adultos. O fortalecimento de pesquisas clínicas e epidemiológicas pode oferecer suporte para a prática profissional na área da saúde, auxiliando na realização de diagnósticos mais precoces e na implementação de estratégias terapêuticas mais eficazes. Nesse cenário, é essencial o papel dos enfermeiros e outros profissionais de saúde, tanto na promoção da conscientização quanto na detecção precoce de sinais e sintomas relacionados às complicações cardiovasculares resultantes do uso abusivo desses medicamentos.
REFERÊNCIAS
1 BORJESSON, Annica, et al. Experiências de mulheres usando esteroides androgênicos anabolizantes. Front. Sports Act. Living, v. 11, n.3, nov. 2021. DOI: 10.3389/fspor.2021.656413. Acesso em: 08 Setembro de 2025
2 FREITAS, Nayara, et al. O uso de esteroides androgênicos anabolizantes por praticantes de musculação. South American Journal of Basic Education, Technical and Technological, v.6, n.2, 2019. Disponível em: https://periodicos.ufac.br/index.php/SAJEBTT/article/view/2985. Acesso em: 03 Setembro de 2025.
3 FYKSEN, Tea, et al. Fenótipo cardiovascular de usuários abusivos de esteroides anabolizantes androgênicos de longa duração em comparação com atletas treinados em força. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, v.32, n.8, 2022. DOI: 10.1111/sms.14172. Acesso em: 12 de Agosto de 2025.
4 GALVÃO, Taís, et al. Principais itens para relatar Revisões sistemáticas e Meta-análises: A recomendação PRISMA. Epidemiologia e serviços de saúde, v.24, n.2, 2015. DOI: http://dx.doi.org/10.5123/S1679-49742015000200017. Acesso em: 08 de Agosto de 2025.
5 GRANDPERRIN, Antoine, et al. Left ventricular dyssynchrony and postsystolic shortening in young bodybuilders using anabolic-androgenic steroid. Heart and Circulatory Physiology, v.321, n.3, 2021. DOI: 10.1152/ajpheart.00136.2021. Acesso em: 03 de Setembro de 2025.
6 GOMES, Daniel, et al. Síndrome Coronariana Aguda em um Jovem Masculino com Uso Prolongado de Esteroides Anabolizantes Androgênicos. Scimago Institutions Rankings, v.120, n. 2, 2023. DOI: https://doi.org/10.36660/abc.20220233. Acesso em: 08 de Setembro de 2025.
7 LU, Yuan, et al. Sex-specific risk factors associated with first acute myocardial infarction in young adults. JAMA network open, v.5, n.5, 2022. DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2022.9953. Acesso em: 06 de Agosto de 2025.
8 MACIEL, Gyl, et al. Aspectos relacionados com o uso de esteroides androgênicos anabolizantes e seus impactos em desportistas. Revista Brasileira de Educação física e esporte, v. 36, 2022. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.19814690.2022e36183189. Acesso em: 06 de Agosto de 2025.
9 MELHEM Jr, Abrão, et al. Infarto agudo do miocárdio em um jovem fisiculturista: Relato de caso. American Journal Of Case Reports, v. 21, 2020. DOI: 10.12659/AJCR.924796. Acesso em: 10 de Agosto de 2025.
10 MIOSSI, Amabilly, et al. Análise do perfil epidemiológico da mortalidade por infarto agudo do miocárdio em adultos jovens no Brasil entre 2019 e 2024. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v.07, n.5, 2025. DOI: https://doi.org/10.36557/2674-8169.2025v7n5p16-31. Acesso em: 03 de Setembro de 2025.
11 OLIVEIRA Jr, Celso, et al. Fatores sociodemográficos, perfil dos usuários e motivação para o uso de esteroides anabolizantes em praticantes de musculação no município de Dourados MS. Revista Brasileira de Prescrição e Fisiologia do Exercício, v.18, n.115, 2024. Disponível em: https://www.rbpfex.com.br/index.php/rbpfex/article/download/2867/1976. Acesso em: 12 de Agosto de 2025.
12 PEREIRA, Adriana, et al. Metodologia da Pesquisa Científica. Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, v.01, 2018. Disponível em: https://repositorio.ufsm.br/bitstream/handle/1/15824/Lic_Computacao_MetodologiaPesquisa-Cientifica.pdf?sequence=1. Acesso em: 18 de Agosto de 2025.
13 PEREIRA, Michel, et al. Análise do perfil de praticantes de musculação usuários de esteroides anabolizantes do município de Campinas SP e baixa mogiana. Brazilian Journal of Development, v.6, n.5, 2020. DOI: 10.34117/bjdv6n5-638. Acesso em: 03 de Agosto de 2025.
14 SAMREEN, Fnu, et al. Infarto do miocárdio induzido por esteroides anabolizantes em um jovem do sexo masculino. Publishing Beyond Open Access, v.13, n.2, 2021. DOI:10.7759/cureus.13054. Acesso em: 08 de Setembro de 2025.
15 SANTOS, Rui, et al. Drogas anabolizantes e infarto do miocárdio – A propósito de um caso clínico. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 105, n.6, 2015. DOI: 10.5935/abc.20150111. Acesso em: 18 de Agosto de 2025.
16 TORRES, Raimundo, et al. Diálogos educativos com jovens escolares sobre o uso de anabolizantes debatidos via web rádio. Revista Destaques Acadêmicos, v.10, n.3, 2019. DOI: http://dx.doi.org/10.22410/issn.2176-3070.v10i3a2018.1969. Disponível em: http://www.univates.br/revistas. Acesso em: 05 de Setembro de 2025.
1Discentes do Curso Superior de Enfermagem do Centro Universitário Aparício Carvalho FIMCA. e-mail: :
leticiacastriani.academica@gmail.com/ eduardazeilane15@gmail.com/ gabi.onery06@gmail.com
2Docente do Curso Superior de Enfermagem do Centro Universitário Aparício Carvalho FIMCA. e-mail:
camilamonique@yahoo.com.br
