INCONTINÊNCIA URINÁRIA ASSOCIADA À DEFICIÊNCIA ESTROGÊNICA EM CADELA APÓS OVARIOSSALPINGOHISTERECTOMIA: RELATO DE CASO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511201952


Pâmella Monteiro Bernardes dos Santos1


Resumo

A incontinência urinária pós-ovariosalpingohisterectomia (OSH) é uma complicação relativamente comum em fêmeas caninas, frequentemente associada à deficiência estrogênica e à consequente incompetência do esfíncter uretral. O presente estudo descreve o caso de uma cadela, fêmea, sem raça definida, 2 anos e 9 meses, com quadro de incontinência urinária persistente por seis meses após OSH realizada em 2024. Foram realizados exames laboratoriais, ultrassonografia abdominal, urina tipo I, urocultura e dosagem de estradiol, que confirmaram hipoestrogenismo e afastaram causas infecciosas e anatômicas. O tratamento com estriol (Incurin®) resultou em resolução clínica do quadro após ajuste de dose. Este relato reforça a importância do diagnóstico diferencial e da compreensão dos mecanismos fisiopatológicos relacionados à incontinência urinária por deficiência estrogênica em cadelas gonadectomizadas.

Palavras-chave: Cadelas; Castração; Hipoestrogenismo; Incompetência do esfíncter uretral; Estriol; Medicina veterinária.

1. INTRODUÇÃO

A ovariossalpingohisterectomia (OSH) é um procedimento amplamente adotado na medicina veterinária de pequenos animais, sendo considerada a principal estratégia para controle populacional e prevenção de doenças do sistema reprodutor em cadelas (Wheat et al., 2023). Além de seus benefícios já consolidados — como a redução da incidência de tumores mamários, a eliminação do risco de piometra e o controle de distúrbios ovarianos — a OSH também é recomendada por promover estabilidade comportamental e bem-estar ao longo da vida do animal (Kendall et al., 2024). No entanto, embora amplamente segura, a gonadectomia não está isenta de efeitos colaterais tardios, entre eles alterações metabólicas, ganho ponderal, mudanças comportamentais e, com particular relevância clínica, a incontinência urinária pós-esterilização.

A incontinência urinária decorrente da incompetência do esfíncter uretral, também denominada urethral sphincter mechanism incompetence (USMI), é reconhecida como a principal causa de perda involuntária de urina em cadelas castradas (Morresey, 2019). Estudos epidemiológicos recentes apontam que a incontinência pode acometer entre 5% e 20% das fêmeas submetidas à OSH, dependendo do porte do animal, da idade da castração e de predisposições anatômicas e genéticas (De Bleser et al., 2011). Em cadelas de grande porte, sobretudo em raças como boxer, dobermann, rottweiler e golden retriever, essa prevalência pode ultrapassar 30% (Byron et al., 2017), demonstrando a relevância dessa complicação na rotina clínica.

O mecanismo fisiopatológico mais aceito para a USMI pós-OSH envolve a redução dos níveis circulantes de estrogênio decorrente da remoção dos ovários. O estrógeno possui papel fundamental na manutenção da função uretral adequada, atuando na modulação da sensibilidade dos receptores alfa-adrenérgicos, no tônus do músculo liso uretral, na integridade epitelial e na composição do colágeno periuretral (Pegram et al., 2019). Assim, sua deficiência resulta na diminuição da pressão uretral de fechamento e, consequentemente, na dificuldade de manutenção da continência urinária, especialmente durante o repouso ou sono profundo (Kendall et al., 2024).

A incontinência urinária associada ao hipoestrogenismo apresenta-se comumente como perda intermitente ou contínua de urina, sem dor, hematúria ou sinais sistêmicos, sendo um quadro de natureza funcional. No entanto, o diagnóstico exige investigação minuciosa, uma vez que inúmeras condições podem produzir sinais semelhantes, como infecções urinárias, doenças neurológicas, urolitíase, ureteres ectópicos, neoplasias e cistites idiopáticas (Chew et al., 2010). Assim, a exclusão de causas infecciosas por meio de urina tipo I e urocultura é obrigatória, bem como a avaliação ultrassonográfica do trato urinário, especialmente em animais jovens ou com sintomas persistentes.

Do ponto de vista terapêutico, o estriol é considerado o fármaco de primeira linha para o tratamento da USMI associada à deficiência estrogênica, apresentando taxas de sucesso que variam entre 60% e 85% dos casos, com perfil de segurança elevado quando utilizado sob supervisão (Kendall et al., 2024). Outra opção amplamente utilizada é a fenilpropanolamina (PPA), um agonista alfa-adrenérgico que aumenta significativamente o tônus uretral. Em animais refratários, a literatura recomenda a terapia combinada (estriol + PPA), que potencializa a resposta clínica (Pegram et al., 2019). Intervenções cirúrgicas, como colposuspensão, uretrapexia ou implante de substâncias de bulking uretral, são reservadas para situações de falha terapêutica grave.

Diante da importância crescente da OSH como prática rotineira na clínica médica de pequenos animais e da necessidade de compreender suas possíveis repercussões tardias, torna-se fundamental relatar casos clínicos que contribuam para o aprimoramento diagnóstico e terapêutico. Relatos bem documentados auxiliam na compreensão da fisiopatologia da USMI, na identificação de fatores de risco e na elaboração de protocolos clínicos eficazes.

Neste contexto, o presente trabalho tem como objetivo relatar um caso de incontinência urinária secundária à deficiência estrogênica em uma cadela submetida à OSH, correlacionando achados clínicos, laboratoriais e terapêuticos aos dados mais recentes da literatura científica. Este relato visa fortalecer o conhecimento dos médicos veterinários sobre a condição, destacando a importância de diagnósticos diferenciais adequados e de acompanhamento longitudinal após a gonadectomia.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

2.1 INCONTINÊNCIA URINÁRIA EM CADELAS: ASPECTOS GERAIS

A incontinência urinária em cadelas é um distúrbio caracterizado pela incapacidade de manter a urina contida na bexiga durante a fase de armazenamento, resultando em perdas involuntárias que podem ocorrer tanto em repouso quanto durante o sono. Embora possa estar relacionada a uma variedade de condições clínicas, fisiológicas e anatômicas, a forma mais frequentemente observada na rotina veterinária é aquela associada à ovariossalpingohisterectomia, especialmente em fêmeas adultas e de porte médio a grande. A literatura aponta que a OSH, ainda que seja um procedimento amplamente recomendado para controle populacional e prevenção de doenças reprodutivas, pode desencadear alterações importantes no equilíbrio hormonal responsável pela manutenção adequada da pressão uretral de fechamento (Wheat et al., 2023).

Trata-se de um problema de grande impacto clínico, não apenas pela frequência com que ocorre, mas também pela influência que exerce sobre a qualidade de vida dos animais e de seus tutores. A perda de urina pode causar dermatites, odor forte, constrangimento social e abandono de animais, além de frustração por parte dos cuidadores. De Bleser et al. (2011) destacam que a incontinência urinária pós-gonadectomia representa uma das principais causas de retorno à clínica veterinária após a cirurgia, reforçando a necessidade de que profissionais estejam capacitados para compreender e manejar adequadamente o distúrbio.

A condição também apresenta ampla variabilidade clínica. Algumas fêmeas podem apresentar apenas pequenos escapes esporádicos, enquanto outras desenvolvem perda urinária contínua, que pode ser confundida com quadros infecciosos. Por isso, a compreensão aprofundada da fisiologia urinária, dos mecanismos hormonais associados e das particularidades do diagnóstico diferencial é fundamental para a elaboração de condutas terapêuticas assertivas e eficazes.

2.2 INFLUÊNCIA HORMONAL E PAPEL DO ESTROGÊNIO

O equilíbrio hormonal exerce papel essencial na regulação dos mecanismos de continência urinária em cadelas. Entre os hormônios envolvidos, o estrogênio é o principal responsável por modular a força do esfíncter uretral, garantir a integridade estrutural do epitélio uretral e manter a adequada vascularização dos tecidos periuretrais. Estudos demonstram que o estrógeno aumenta a densidade de receptores alfa-adrenérgicos ao longo da uretra, o que intensifica a contração do músculo liso uretral e, consequentemente, a pressão uretral máxima (Kendall et al., 2024).

A ovariossalpingohisterectomia provoca queda abrupta na concentração desse hormônio, modificando drasticamente o equilíbrio fisiológico do trato urinário inferior. Pegram et al. (2019) demonstram que a deficiência estrogênica reduz a espessura epitelial uretral, diminui a vascularização da mucosa e altera a composição do colágeno periuretral, tornando o esfíncter menos eficiente em manter a urina contida.

Byron et al. (2017) reforçam que a deficiência estrogênica é o principal fator fisiopatológico relacionado à incontinência urinária pós-OSH, destacando que a resposta clínica ao tratamento com estriol é um indicativo claro de que o estrógeno é crucial para manter a função uretral adequada. Essa relação direta entre hormônios e continência explica por que a terapia de reposição hormonal é uma das abordagens mais eficazes na medicina veterinária contemporânea.

2.3 FATORES DE RISCO E EPIDEMIOLOGIA PÓS-OSH

A prevalência da incontinência urinária pós-castração varia amplamente na literatura, devido a diferenças metodológicas e populacionais. Ainda assim, estimativas apontam que entre cinco e vinte por cento das cadelas castradas podem desenvolver incontinência ao longo da vida (De Bleser et al., 2011). Em raças de grande porte, essa prevalência pode chegar a trinta por cento, o que destaca o papel da conformação anatômica como fator determinante (Holt; Thrusfield, 2021).

Diversos fatores de risco têm sido descritos para o desenvolvimento da incontinência urinária associada à OSH. O peso corporal é um dos mais relevantes, uma vez que cadelas com mais de quinze quilos apresentam maior predisposição. O aumento da pressão intra-abdominal sobre a bexiga pode favorecer alterações no posicionamento uretral e reduzir a resistência do esfíncter (Wheat et al., 2023). A idade da castração também desempenha papel significativo. Castrar fêmeas muito jovens, especialmente antes da maturidade completa das estruturas uretrais, pode prejudicar o desenvolvimento dos músculos e ligamentos responsáveis pela sustentação da uretra.

A predisposição racial também é amplamente documentada. Raças como boxer, dobermann, rottweiler, weimaraner e golden retriever apresentam maior risco de desenvolver o distúrbio, possivelmente devido a características anatômicas específicas ou heranças genéticas que afetam a força do esfíncter uretral (Byron et al., 2017). Essa predisposição explica por que alguns tutores relatam sintomas poucos meses após a OSH, enquanto outros observam a manifestação do quadro apenas após anos.

Outros fatores contribuintes incluem conformação corporal, alterações neurológicas subclínicas, obesidade, alterações de colágeno e doenças concomitantes que afetam a função vesical ou uretral. Essa complexidade reforça a importância de compreender que a incontinência urinária pós-OSH é uma condição multifatorial que exige abordagem diagnóstica abrangente.

2.4 FISIOPATOLOGIA DA INCOMPETÊNCIA DO ESFÍNCTER URETRAL

A incompetência do esfíncter uretral é o principal mecanismo fisiopatológico associado à incontinência urinária em cadelas castradas. Essa condição ocorre quando a pressão uretral de fechamento é insuficiente para manter a continência durante a fase de armazenamento da urina. A queda no nível de estrogênio provoca uma cascata de alterações estruturais e funcionais que comprometem a capacidade da uretra de resistir à pressão exercida pela bexiga cheia (Pegram et al., 2019).

A perda de estrogênio diminui a espessura da mucosa uretral, reduz a vascularização do tecido periuretral e compromete a densidade de fibras musculares lisas. Esses fatores, em conjunto, levam à redução da pressão uretral máxima, tornando o esfíncter mais fraco e menos responsivo aos estímulos simpáticos que normalmente mantêm sua contração basal (Kendall et al., 2024). Além disso, a remodelação do colágeno oriunda da deficiência hormonal contribui para menor elasticidade uretral, agravando o quadro.

A fisiopatologia também envolve aspectos neurológicos. A comunicação entre bexiga, uretra e sistema nervoso simpático, parassimpático e somático é fundamental para a manutenção da continência. Alterações microestruturais nas vias nervosas podem reduzir a capacidade de resposta do esfíncter, especialmente em cadelas de idade avançada ou com alterações hereditárias (Chew et al., 2010).

Assim, o conjunto de fatores hormonais, anatômicos e neurológicos produz quadro clínico característico que se manifesta predominantemente durante o repouso, justificando o fato de muitos tutores relatarem que encontram a cama molhada pela manhã ou após períodos de inatividade.

2.5 DIAGNÓSTICO E TERAPIAS DISPONÍVEIS

O diagnóstico da incontinência urinária pós-OSH requer abordagem sistemática e objetiva, uma vez que diversas patologias podem produzir sinais semelhantes. A anamnese detalhada é essencial para identificar o início dos sintomas, padrão de perda urinária, relação com a castração e possíveis fatores agravantes. Exames complementares são indispensáveis, incluindo urina tipo I, urocultura, hemograma completo e ultrassonografia abdominal, que permitem excluir infecções, cálculos urinários, malformações anatômicas ou anormalidades vesicais (Chew et al., 2010). Em casos selecionados, a dosagem de estradiol pode auxiliar na confirmação de hipoestrogenismo, embora não seja um critério diagnóstico isolado.

O tratamento clínico é a principal estratégia terapêutica e envolve, principalmente, o uso de estriol e fenilpropanolamina. O estriol é considerado o fármaco de primeira escolha devido à sua eficácia e segurança, sendo capaz de restaurar parcialmente a função uretral ao melhorar o tônus esfincteriano induzido pela reposição hormonal (Kendall et al., 2024). A fenilpropanolamina, por sua vez, estimula os receptores alfa-adrenérgicos e aumenta a contração do esfíncter uretral, sendo frequentemente utilizada em associação ao estriol em casos refratários ou com resposta parcial. Pegram et al. (2019). destacam que a terapia combinada apresenta eficácia superior por atuar simultaneamente nos mecanismos hormonais e adrenérgicos da continência urinária.

Nos casos que não respondem ao tratamento clínico, outras alternativas podem ser consideradas, como fisioterapia de assoalho pélvico, implantes de bulking uretral e procedimentos cirúrgicos de sustentação uretral, incluindo colposuspensão e uretrapexia. Contudo, essas abordagens são reservadas para quadros persistentes, devido à maior complexidade e maior risco associado (Holt; Thrusfield, 2021).

Assim, o entendimento das características fisiológicas, anatômicas e hormonais envolvidas no processo de continência urinária em cadelas castradas é fundamental para o diagnóstico e seleção terapêutica adequados. O manejo eficaz da incontinência urinária pós-OSH requer abordagem multidisciplinar, acompanhamento periódico e participação ativa do tutor no processo terapêutico.

3. METODOLOGIA 

Este trabalho consiste em um relato de caso, metodologia amplamente empregada na medicina veterinária para descrever, de forma aprofundada, a apresentação clínica, os procedimentos diagnósticos, a conduta terapêutica e a evolução de um paciente específico. Segundo Morresey (2019), o relato de caso é um método descritivo essencial para documentar condições clínicas incomuns, manifestações atípicas de doenças comuns ou respostas terapêuticas relevantes, contribuindo para o avanço da ciência por meio da observação direta de situações reais. Em medicina veterinária, esse tipo de estudo é particularmente valioso, pois permite identificar padrões clínicos, reforçar condutas diagnósticas e discutir abordagens terapêuticas que possam ser aplicadas na prática diária (Silva et al., 2022).

As informações utilizadas neste relato foram obtidas a partir do registro clínico completo da paciente atendida, incluindo histórico reprodutivo, evolução dos sinais clínicos, exames laboratoriais e de imagem, e resposta ao tratamento instituído. A coleta de dados seguiu o padrão recomendado para estudos retrospectivos, conforme descrito por Andrade et al. (2017), que enfatiza a importância da organização cronológica, da fidelidade aos dados originais e da utilização de documentação clínica verificada para assegurar a validade científica do relato.

O hemograma completo foi analisado com o objetivo de identificar possíveis processos infecciosos ou inflamatórios que pudessem interferir no diagnóstico diferencial. A realização da urina tipo I e da urocultura seguiu os protocolos de avaliação da função urinária descritos por Chew et al. (2010), que indicam esses testes como essenciais para excluir infecções bacterianas que frequentemente se confundem com quadros de incontinência. A ultrassonografia abdominal foi realizada para investigar alterações anatômicas que pudessem justificar os sinais clínicos, conforme orientações de Mattoon et al. (2020), que recomendam o exame ultrassonográfico como ferramenta fundamental na avaliação do sistema urinário inferior.

A dosagem sérica de estradiol foi utilizada como exame complementar para avaliar a possibilidade de hipoestrogenismo, uma vez que a literatura demonstra associação entre deficiência estrogênica e incompetência do esfíncter uretral em cadelas castradas. Pegram et al. (2019). destacam que, embora a dosagem hormonal não seja critério único de diagnóstico, ela auxilia na compreensão do estado endócrino do animal e complementa o processo de exclusão de outras etiologias.

O tratamento instituído seguiu as recomendações presentes na literatura especializada para casos de incontinência urinária secundária à OSH. O protocoloterapêutico com estriol foi escolhido com base nas diretrizes apresentadas por (Kendall et. (2024), que descreve o estriol como a terapia hormonal de eleição devido à sua eficácia, segurança e boa tolerabilidade clínica. A resposta ao tratamento foi monitorada ao longo do tempo, alinhada às orientações de Pegram et al. (2019), que ressaltavam a importância do acompanhamento periódico para ajustes terapêuticos e avaliação da evolução clínica.

A análise dos dados foi conduzida de maneira qualitativa e integrativa, comparando-se os achados clínicos da paciente com as evidências científicas contemporâneas sobre incontinência urinária pós-ovariosalpingohisterectomia. Esse método é recomendado por Yin (2016) para estudos de caso clínico, por permitir a discussão crítica dos achados e a contextualização do caso dentro do conhecimento científico disponível.

Por tratar-se de um estudo retrospectivo baseado em atendimento clínico previamente realizado, não houve intervenção experimental adicional. Todas as condutas foram realizadas exclusivamente para fins terapêuticos e diagnósticos da paciente, em conformidade com as boas práticas da medicina veterinária e com as diretrizes éticas descritas pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV, 2018). O relato foi elaborado assegurando a confidencialidade da identidade da tutora e da paciente, atendendo aos princípios éticos aplicáveis à documentação clínica.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES 

A paciente, cadela fêmea, sem raça definida, dois anos e nove meses de idade e pesando treze quilos, apresentou quadro de incontinência urinária persistente por aproximadamente seis meses, cujo início ocorreu após a ovariossalpingohisterectomia realizada em dezembro de 2024. Durante a anamnese, a tutora relatou perdas urinárias involuntárias principalmente em momentos de repouso, sem sinais de dor, desconforto, hematúria ou micção frequente. Esse padrão clínico corresponde ao que a literatura descreve como perda urinária típica da incompetência do esfíncter uretral secundária à deficiência estrogênica (Kendall et al., 2024).

No exame físico, a cadela apresentou bom estado geral, mucosas normocoradas, grau de hidratação preservado e ausência de sinais compatíveis com dor abdominal ou cistite. A ausência de alterações clínicas sistêmicas reforça a natureza funcional do quadro, sendo compatível com as descrições de Pegram et al. (2019), que afirmam que cadelas com incompetência uretral associada ao hipoestrogenismo raramente apresentam febre, dor lombar ou inflamação perceptível ao exame físico.

Os principais achados laboratoriais estão sintetizados na Tabela 1. Observou-se leve hemoconcentração, com hematócrito discretamente elevado, sugerindo possível desidratação fisiológica ou variação individual. Houve leucocitose com neutrofilia segmentar, porém sem desvio regenerativo, o que indica resposta inflamatória inespecífica e não necessariamente infecciosa, já que não houve achados urinários compatíveis com processos bacterianos. Esses resultados são condizentes com padrões normais de animais com incontinência urinária funcional, nos quais exames hematológicos tendem a permanecer dentro de limites fisiológicos, conforme descrito por Chew et al. (2010)

Tabela 1 – Resultados dos exames hematológicos

ParâmetroResultadoReferênciaInterpretação
Hematócrito55%37–53%Leve hemoconcentração
Leucócitos totais21.000/µL6.000–17.000/µLLeucocitose leve
Neutrófilos segmentados85%60–75%Neutrofilia leve
Plaquetas200.000/µL200.000–500.000/µLLimite inferior normal

A análise de urina tipo I demonstrou densidade urinária de 1.025, pH levemente alcalino e ausência de piúria, hematúria ou presença de bactérias. Foram observadas apenas células pavimentosas e raras gotículas de gordura, achados sem relevância patológica. A urocultura apresentou crescimento bacteriano ausente, afastando de forma conclusiva a hipótese de infecção urinária. Esses dados são importantes, pois a infecção é um diagnóstico diferencial comum em cadelas com perda involuntária de urina, sendo fundamental descartá-la antes de se considerar incompetência esfincteriana (Holt; Thrusfield, 2021). A Tabela 2 resume os achados urinários.

Tabela 2 – Resultados da urina tipo I e urocultura

ExameResultadoInterpretação
Densidade urinária1.025Normal
pH8.0Levemente alcalino
LeucócitosAusentesSem inflamação
HemáciasRarasSem hematúria significativa
BactériasAusentesSem infecção
UroculturaNegativaDescarta infecção bacteriana

A dosagem sérica de estradiol revelou valores inferiores a 50 pg/mL, compatíveis com hipoestrogenismo. Embora não seja exame de rotina para diagnóstico de incompetência do esfíncter uretral, sua utilização auxilia na confirmação da causa hormonal do quadro. A literatura reforça que cadelas castradas apresentam níveis basais de estrógeno reduzidos e que essa redução está intimamente ligada à perda da função uretral normal (Byron et al., 2017).

A ultrassonografia abdominal não apresentou alterações anatômicas. Os rins estavam com contornos regulares, parênquima preservado e pelve renal normal. A bexiga apresentava paredes finas e uniformes, sem sinais de cálculos, espessamentos ou massas intraluminais. A uretra proximal não demonstrou anormalidades. Esses achados são compatíveis com incompetência uretral funcional, já que alterações anatômicas estruturais são raras e, quando presentes, costumam causar retenção urinária ou infecções recorrentes, o que não ocorreu neste caso (Mattoon et al., 2020).

Do ponto de vista terapêutico, a paciente foi inicialmente tratada com estriol (Incurin 1 mg) na dose de um comprimido duas vezes ao dia durante sete dias. A ausência de resposta inicial levou ao ajuste da dose para um comprimido e meio, também por sete dias. Houve resolução completa da incontinência após esse ajuste, conforme relatado pela tutora. Essa resposta é extremamente compatível com estudos de Kendall et al. (2024), que afirma que o estriol apresenta resultados eficazes em sessenta a oitenta e cinco por cento dos casos de incompetência uretral associada à deficiência estrogênica. Pegram et al., 2019), também destacam que ajustes graduais de dose são comuns, pois cada paciente responde de maneira individual ao tratamento.

Os resultados obtidos corroboram de maneira clara a hipótese diagnóstica de incompetência esfincteriana secundária ao hipoestrogenismo pós-ovariosalpingohisterectomia. A ausência de infecção, a normalidade ultrassonográfica e a resposta terapêutica ao estriol são características típicas dos casos descritos pela literatura contemporânea (Wheat et al., 2023; Holt; Thrusfield, 2021). Essa convergência entre os achados clínicos, laboratoriais e terapêuticos reforça a importância de uma abordagem diagnóstica estruturada, baseada em exclusão progressiva de causas alternativas e uso criterioso de exames complementares.

Por fim, é importante destacar que embora a cadela tenha apresentado resposta satisfatória ao tratamento durante o período de acompanhamento, sua tutora interrompeu o retorno clínico, impossibilitando avaliação de longo prazo. A literatura enfatiza que muitos pacientes requerem monitoramento contínuo e ajustes periódicos da dose hormonal para garantir a manutenção da continência urinária ao longo dos anos (Byron et al., 2017). A interrupção do acompanhamento veterinário é um fator que pode comprometer a eficácia terapêutica e a capacidade de identificar potenciais efeitos adversos.

Assim, os resultados observados neste caso estão em total conformidade com os padrões descritos em estudos contemporâneos sobre incontinência urinária pós-OSH, reforçando a associação direta entre a queda abrupta do estrogênio e a incompetência do esfíncter uretral em cadelas jovens.

Ao analisar o caso descrito, observa-se que a paciente apresentou todas as características classicamente associadas à incompetência do esfíncter uretral decorrente da deficiência estrogênica pós-ovariosalpingohisterectomia. A evolução lenta e progressiva da incontinência, iniciando semanas após o procedimento cirúrgico, é compatível com os achados de Holt e Thrusfield (2021), que descrevem que a maioria das cadelas desenvolve sinais clínicos dentro dos primeiros seis a doze meses após a retirada dos ovários. Isso ocorre porque a queda abrupta do estrogênio altera gradativamente a estrutura uretral, ocasionando perda da sua integridade funcional.

A ausência de infecção urinária foi um achado essencial, pois infecções do trato urinário são um dos principais diagnósticos diferenciais em cadelas jovens, especialmente após manipulações cirúrgicas ou mudanças hormonais (Chew et al., 2010). O fato de a urocultura ter sido negativa e a urina tipo I não ter apresentado alterações inflamatórias reforça que o quadro clínico não estava relacionado a agentes bacterianos, descartando uma causa comum de perda urinária e direcionando a investigação para uma etiologia funcional. Estudos recentes indicam que cerca de cinquenta por cento dos casos suspeitos de infecção urinária em fêmeas castradas não apresenta crescimento bacteriano, reforçando a importância de exames laboratoriais confirmatórios para evitar diagnósticos equivocados (Mattoon et al., 2020).

Outro ponto relevante observado neste caso é a normalidade dos achados ultrassonográficos. Muitas vezes, alterações anatômicas, como ureteres ectópicos, neoplasias ou cálculos, podem desencadear perda urinária involuntária, especialmente em cadelas jovens. Contudo, esses quadros tendem a causar outros sinais clínicos, como hematúria, dor, retenção urinária ou infecções recorrentes, o que não foi identificado (Andrade et al., 2017). A ultrassonografia normal permitiu reforçar a hipótese de que se tratava de incontinência esfincteriana pura, sem alterações estruturais subjacentes que pudessem justificar o quadro.

A dosagem reduzida de estradiol encontrada na paciente também contribui para embasar o diagnóstico. Embora as concentrações hormonais possam variar conforme o método laboratorial, valores persistentemente baixos são compatíveis com a deficiência endócrina decorrente da OSH, conforme descrito por Kendall et al. (2024). A deficiência estrogênica causa diminuição da espessura do epitélio uretral, reduz a produção de colágeno de suporte e diminui a sensibilidade dos receptores alfa-adrenérgicos presentes na musculatura uretral. Esses efeitos, somados, resultam em queda significativa da pressão uretral basal, condição que se manifesta clinicamente como escape urinário em repouso.

A resposta clínica ao estriol observada na paciente corrobora a literatura. Estudos controlados demonstram que o estriol melhora de forma significativa a integridade epitelial da uretra e aumenta a responsividade do músculo liso à estimulação simpática, tornando o esfíncter uretral mais eficiente (Pegram et al., 2019). Em uma revisão conduzida por Byron et al. (2017), mais de setenta por cento das cadelas tratadas com estriol apresentaram resolução parcial ou completa da incontinência nas primeiras semanas de tratamento. No caso relatado, a melhora ocorreu após ajuste da dose, o que também segue recomendações clínicas, já que cada paciente pode demandar titulação individualizada de acordo com a resposta fisiológica.

É importante salientar que o uso de estriol possui vantagens sobre estrogênios sintéticos mais potentes, como o dietilestilbestrol, que pode causar efeitos adversos como supressão medular quando utilizado de forma inadequada. O estriol, por ter meia-vida mais curta e menor potência estrogênica, apresenta perfil de segurança superior, sendo considerado o hormônio de escolha para o tratamento da incontinência urinária em cadelas castradas (Kendall et al., 2024). A paciente em questão respondeu de forma satisfatória, sem efeitos adversos aparentes, evidenciando que o protocolo terapêutico foi adequado e eficaz.

Além disso, a relevância clínica deste caso reside na confirmação de que fêmeas jovens também podem desenvolver incontinência urinária pós-OSH, mesmo quando não possuem predisposições anatômicas ou raciais conhecidas. Embora a literatura enfatize maior frequência do quadro em raças de grande porte, estudos recentes demonstram que a incontinência pode acometer qualquer cadela castrada, sendo necessária a conscientização dos tutores sobre essa possível consequência do procedimento cirúrgico (Holt; Thrusfield, 2021).

Outro ponto significativo refere-se à interrupção do acompanhamento clínico por parte da tutora. A literatura descreve que muitas cadelas necessitam de tratamento contínuo, especialmente quando o quadro está relacionado à deficiência hormonal, uma vez que os efeitos terapêuticos do estriol tendem a cessar rapidamente após a suspensão do uso (Pegram et al., 2019). A ausência de seguimento impossibilita a avaliação de longo prazo e a identificação de possíveis recidivas, o que reforça a necessidade de educação dos tutores sobre a importância do acompanhamento periódico.

Comparando este caso com os estudos epidemiológicos disponíveis, observa-se que ele se encaixa de forma clara na faixa de prevalência descrita por De Bleser et al. (2011), que indicam que até vinte por cento das fêmeas castradas desenvolvem incontinência urinária. A evolução clínica progressiva, o caráter funcional, os exames laboratoriais normais e a resposta terapêutica ao estriol reforçam que o caso segue o padrão clássico observado em incompetência do esfíncter uretral associada à OSH.

Por fim, o relato demonstra a importância da abordagem diagnóstica baseada na exclusão sistemática de causas infecciosas e anatômicas, da correta interpretação dos exames complementares e da compreensão das alterações endócrinas envolvidas. Casos como este contribuem significativamente para a medicina veterinária, pois reforçam a necessidade de condutas padronizadas, orientação aos tutores e monitoramento a longo prazo.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente trabalho teve como objetivo descrever e analisar de forma detalhada o caso de uma cadela que desenvolveu incontinência urinária após a ovariossalpingohisterectomia, correlacionando os achados clínicos, laboratoriais e terapêuticos com o conhecimento científico contemporâneo. Ao longo do estudo, buscou-se compreender de maneira aprofundada os mecanismos fisiopatológicos associados à deficiência estrogênica pós-cirúrgica e à incompetência do esfíncter uretral, estabelecendo uma discussão fundamentada para orientar o diagnóstico e o tratamento de casos semelhantes na rotina clínica veterinária.

Retomando o objetivo inicial de identificar a causa da incontinência urinária apresentada pela paciente e avaliar sua evolução diante do tratamento com estriol, os resultados obtidos demonstraram de forma clara que o quadro estava diretamente relacionado à deficiência estrogênica decorrente da remoção dos ovários. Todos os exames complementares realizados foram compatíveis com essa hipótese. A ausência de infecção urinária, as imagens ultrassonográficas normais e a dosagem de estradiol reduzida reforçaram que se tratava de uma condição funcional, sem envolvimento anatômico, infeccioso ou metabólico. Dessa forma, o objetivo principal do estudo foi alcançado, permitindo compreender a natureza da condição, seu desenvolvimento após a gonadectomia e os impactos do desequilíbrio hormonal sobre o trato urinário inferior.

A resposta positiva ao tratamento com estriol, especialmente após ajuste da dose, confirma as evidências descritas na literatura, que apontam esse hormônio como o principal recurso terapêutico para casos de incontinência urinária associada ao hipoestrogenismo. Estudos mostram que o estriol restabelece parcialmente a função uretral por meio da melhora da integridade epitelial e da resposta adrenérgica do esfíncter, proporcionando alívio significativo dos sinais clínicos, como observado nesta paciente. Esse achado reforça a importância da reposição hormonal como estratégia terapêutica eficaz e segura para cadelas castradas que desenvolvem incompetência do esfíncter uretral.

Além disso, o caso analisado evidencia a relevância da abordagem diagnóstica sistemática e baseada na exclusão de causas infecciosas e anatômicas. Esse processo é indispensável para evitar equívocos na interpretação dos sinais clínicos e para garantir que o tratamento seja direcionado corretamente. A utilização de diferentes exames complementares contribuiu para a construção de um diagnóstico preciso, o que reforça a importância da metodologia aplicada e sua conformidade com as recomendações atuais da medicina veterinária.

Do ponto de vista clínico e científico, o caso apresenta grande valor por demonstrar que a incontinência urinária pós-ovariossalpingohisterectomia pode ocorrer mesmo em cadelas jovens e sem predisposição racial evidente, contrariando a percepção comum de que o problema afeta majoritariamente animais mais velhos ou de grande porte. Esse achado contribui para ampliar a compreensão dos fatores envolvidos no desenvolvimento da condição e reforça a necessidade de orientação preventiva aos tutores quanto às possíveis consequências tardias da castração.

Apesar da relevância dos achados, o estudo apresenta como limitação a interrupção do acompanhamento clínico por parte da tutora, o que impossibilitou a avaliação de longo prazo e a observação de possíveis recidivas do quadro. A literatura científica aponta que muitas cadelas necessitam de tratamento contínuo, com ajustes periódicos e monitoramento para detecção precoce de efeitos adversos ou perda de eficácia terapêutica. A ausência desse acompanhamento impede conclusões definitivas sobre a evolução futura da paciente, mas não compromete a análise dos resultados obtidos no período avaliado.

Por fim, o presente relato contribui significativamente para a prática veterinária ao demonstrar, de forma integrada e fundamentada, a associação entre a queda do estrogênio e a incompetência uretral, além de reforçar a importância de uma abordagem diagnóstica criteriosa e da utilização de terapias baseadas em evidências. Os profissionais devem estar atentos a essa condição como possível complicação da ovariossalpingohisterectomia e orientar os tutores sobre a necessidade de acompanhamento contínuo e intervenções terapêuticas quando necessário. Este caso reafirma que, quando adequadamente diagnosticada e tratada, a incontinência urinária pós-castração pode ser controlada com sucesso, garantindo qualidade de vida ao paciente e tranquilidade ao tutor.

REFERÊNCIAS

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1Discente do Curso Superior de clínica médica veterinária do Instituto Anclivepa – SP pamellamonteiro2024@outlook.com