THE INCIDENCE AND IMPACT OF SYPHILIS IN THE ADOLESCENTE POPULATION OF RIO DE JANEIRO AFTER COVID-19: A LITERATURE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202503131259
Enrico Casini Alvarenga¹; Victor Loyola Pantaleão¹; Arielle Quintanilha¹; Juliana Santos de Almeida¹; Maria de Fátima Gonçalves Enes²; Letícia Moreira de Souza²; Joice Aparecida Rezende Vilela².
INTRODUÇÃO: Sífilis é uma doença causada pela bactéria Treponema pallidum, transmitida sexualmente e pode ser prevenida e tratada. No Brasil há alta incidência, especialmente na faixa etária entre 10 e 19 anos, devido a fatores como início precoce da vida sexual e falta de orientação sexual adequada. Neste contexto, dados epidemiológicos apontam que desde a pandemia da COVID em 2020 a incidência desta doença parece aumentar aceleradamente. METODOLOGIA: O estudo foi realizado no formato de revisão de literatura incluindo artigos de bases de dados científicas dentre elas LILACS, PUBMED e MEDLINE. Foram selecionados os artigos buscando estudos publicados entre 2018 e 2023 e dados epidemiológicos de sífilis no estado do Rio de Janeiro. RESULTADOS: O estudo revelou um aumento preocupante da sífilis congênita entre adolescentes no Rio de Janeiro, especialmente em áreas como São Gonçalo e Macaé. A incidência da doença aumentou significativamente, com taxas elevadas entre jovens com baixa escolaridade e gestantes sem acesso ao pré-natal. Em 2018, 27,1% dos casos de sífilis congênita no Brasil ocorreram em mães adolescentes, destacando a vulnerabilidade dos jovens e a conexão com contextos sociais desfavorecidos. Os dados indicam que a sífilis está crescendo de forma preocupante entre adolescentes, especialmente após a pandemia. CONCLUSÃO: Os estudos mostraram que a sífilis congênita também apresentou um aumento significativo, especialmente entre mães adolescentes, evidenciando a necessidade de políticas públicas voltadas para a educação sexual, a prevenção e o diagnóstico precoce da doença. Entretanto ficou evidente a necessidade de elaboração de novos estudos, visto que há pouca literatura sobre este tema, dificultando ações eficazes para controle da doença. Neste contexto, é de grande importância a territorialização, o conhecimento da população atendida, campanhas de conscientização e orientação de medidas preventivas, com ênfase no uso de preservativos e educação em saúde, visando reduzir a disseminação da sífilis entre jovens e melhorar o cenário epidemiológico no RJ.
Palavras-chave: Epidemiologia. ISTs. Adolescentes. Treponema pallidum
ABSTRACT
INTRODUCTION: Syphilis is a sexually transmissible disease caused by the bacteria Treponema pallidum that can be treated and prevented. In Brazil there is still a high incidence of this diseasein individuals of the age range of 10 to 19 years old because of factors like the early start of sexual life and the lack of effective and comprehensive sexual education. In this context, epidemiological data have shown that since the COVID pandemic in 2020 the incidence of syphilis is accelerating. METHODOLOGY: The present study was conducted in the Literature Review format, including articles from databases like LILACS, PUBMED and MEDLINE. The obtained articles were filtered, including only studies performed between 2018 and 2023 concerning the state of Rio de Janeiro. RESULTS: The analysis reveals an increase in congenital syphilis among teenagers in Rio de Janeiro, especially in areas like São Gonçalo and Macaé. Between 2007 and 2018, the incidence increased dramatically, with elevated rates among young individuals with low educational levels and pregnant women without adequate prenatal care. In 2018, 27,1% of cases of congenital syphilis in Brazil occurred in teenage mothers, highlighting the vulnerability of young individuals and the connection of this disease among socially disadvantaged contexts. The data points out that syphilis is growing at a worrying rate among teenagers. CONCLUSION: The studies analyzed in this review show that congenital syphilis is increasing significantly among pregnant mothers, highlighting the necessity of new public policy concerning preventive measures and early diagnosis. There is still a statistical gap in the incidence data of syphilis among teenagers in Rio de Janeiro, especially after the pandemic, and that is still is a big gap in the statistics concerning this age group, which makes effective preventive actions difficult. This study suggests awareness campaigns and the implementation of preventive measures, such as the use of condoms and health education, to reduce the spread of syphilis among young people and improve the epidemiological scenario in the RJ state.
KeyWords: Epidemiology. STIs. Teenagers. Treponema pallidum
INTRODUÇÃO
A Sífilis é uma doença contagiosa cujo agente etiológico, Treponema pallidum, tem transmissão sanguínea, sexual e vertical, com potencial de infectar o organismo humano de forma crônica (REIS et. Al, 2018). As teorias mais aceitas apontam que tenha sido originada na Colômbia ou no continente Africano (AVELLEIRA & BOTTINO, 2006).
Nos Estados Unidos, durante o século XX, um estudo de coorte envolvendo homens negros com diagnóstico positivo para Sífilis foi realizado para observar os efeitos da doença ao longo do tempo (VIEIRA, 2005). Os participantes não sabiam que estavam infectados e não foram tratados mesmo após a descoberta da Penicilina G benzatina, fármaco capaz de curar o indivíduo. A realização dessa pesquisa, considerada antiética, evidencia que o T. pallidum desperta bastante interesse no âmbito científico.
Apesar de na atualidade os métodos de prevenção, diagnóstico e tratamento serem conhecidos, muitos indivíduos continuam sendo infectados pelo T. pallidum. No Brasil casos de Sífilis aumentaram gradativamente de 2012 a 2022 (FIGURA 1).
Figura 1: Taxa de detecção de Sífilis adquirida (por 100.000 habitantes), taxa de detecção de Sífilis em gestantes e taxa de incidência de Sífilis congênita (por 1.000 nascidos vivos), segundo ano de diagnóstico. Brasil, 2012 a 2022

Entre as unidades federativas brasileiras, a Sífilis congênita, infecção do concepto via transplacentária da mãe positiva, acontece com maior incidência no estado do Rio de Janeiro (FIGURA 2).
Figura 2: Taxa de detecção de Sífilis em gestantes e taxa de incidência de sífilis congênita por 1.000 nascidos vivos, segundo Unidade da Federação. Brasil, 2022

O gráfico extraído do boletim epidemiológico de sífilis do município do Rio de Janeiro revela um aumento gradual da incidência de todas as modalidades de sífilis desde 2012, com aumento mais pronunciado de Sífilis adquirida e de gestantes. Em 2023 há uma queda apenas porque os dados estão incompletos, visto que o boletim epidemiológico foi publicado em setembro, antes de terminar o ano (FIGURA 3). A pandemia do COVID 19 também pareceu influenciar pouco em reduzir o crescimento da incidência da doença, apesar de na época da pandemia, o Coronavírus ter sido prioridade nos sistemas de saúde e as questões de distanciamento social terem influenciado a pouca procura de pacientes pelo atendimento em saúde por outros motivos que não o SARS-CoV-2.
Figura 3: Taxa de detecção/incidência de sífilis adquirida, gestacional e congênita por ano, Município do Rio de Janeiro, 2012-2023.

A Sífilis é de notificação compulsória desde 1986, onde se utiliza uma ficha que facilita a investigação do caso. É necessário haver capacitação dos profissionais de saúde que trabalham com a vigilância epidemiológica e dos que trabalham com a assistência, para que as informações coletadas pelos sistemas de informação oficiais relatem com mais qualidade o cenário do serviço de saúde, contribuindo para a realização de um plano com melhor eficácia. (SARACENI et al., 2005).
Um grande agravante no tratamento da Sífilis é a quantidade reduzida de fabricantes do medicamento no Brasil, com poucos fornecedores, por vezes, precisando realizar a compra fora do país, fazendo com que o abastecimento fique deficitário e até em falta completa em alguns locais (ARAÚJO, et. al, 2020). Além disso, para tratar a infecção pelo T. pallidum, é de grande importância o tratamento também do parceiro, contudo, estudos demonstram que o princípio da integralidade das práticas cotidianas dos profissionais de saúde envolve uma atitude crítica à fragmentação do cuidado. É de grande importância investigar a maneira das ações prestadas através dos serviços e dos profissionais de atenção primária à saúde (REIS et al., 2018). A pesquisa envolvendo jovens é relevante, porque a faixa etária de 10 a 19 anos possui um alto índice de Sífilis, o que pode ser atribuído a uma abordagem incipiente do assunto no âmbito escolar, à precocidade das primeiras relações sexuais e atitudes equivocadas de proteção às IST’s (infecções sexualmente transmissíveis). O papel das famílias no comportamento sexual dos filhos é de extrema importância através da orientação e transmissão de atitudes e comportamentos.
O crescimento histórico da incidência de Sífilis evidencia falhas nas políticas públicas de saúde e na prestação de assistência pelo sistema de saúde. Nota-se que a atenção primária precisa atuar de forma mais incisiva, visto que apesar de ser uma doença infectocontagiosa, ela é prevenível e curativa, caso seja feito o tratamento. Há também o entrave do não tratamento do parceiro, a estigmatização da doença ou abandono do tratamento antes do término.
Assim, o nível primário deve atuar de maneira sistemática com base nos princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde: uma resposta rápida à Sífilis nas redes de atenção à saúde; fortalecimento das redes de atenção à saúde; ampliação dos comitês de investigação para prevenção da transmissão vertical da Sífilis; e qualificação de informações estratégicas. O uso correto e regular da camisinha feminina e/ou masculina é a medida mais importante de prevenção da Sífilis, por se tratar de uma IST’s.
A abordagem da sífilis em adolescentes permitiu discutir essa temática de forma ampla e agregar novos conhecimentos ao meio científico, promovendo reflexões essenciais sobre os desafios enfrentados por essa faixa etária. Esse avanço no entendimento contribui diretamente para que gestores e profissionais da saúde desenvolvam estratégias mais eficazes de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento, beneficiando tanto a saúde individual quanto coletiva. Além disso, os dados e insights gerados podem subsidiar políticas públicas e ações direcionadas, reforçando a importância de intervenções educativas e acessíveis para a redução da incidência da doença.
Diante do exposto, justifica-se a escolha dessa temática diante da situação crítica do cenário atual no estado do Rio de Janeiro, assim, constata-se a necessidade de políticas públicas que visem à educação permanente em saúde para informação do público adolescente bem como da população em geral sobre as formas de contágio, sintomas, diagnóstico e tratamento da Sífilis. O objetivo geral foi delinear o perfil epidemiológico da sífilis na faixa etária entre 10 e 19 anos na população do estado do Rio de Janeiro, por meio da análise de artigos científicos. Além disso, os objetivos específicos foram: discutir os dados da sífilis entre os adolescentes fluminenses, evidenciar grupos sociais mais vulneráveis à infecção pelo T. pallidum e verificar a prevalência de Sífilis nos adolescentes do Rio de Janeiro;
MATERIAIS E MÉTODOS
Esta pesquisa foi realizada no formato de revisão integrativa da literatura. Foram reunidos artigos científicos produzidos de 2018-2023 nas seguintes bases de dados: Literatura Latino-Americana em Ciências da Saúde (LILACS), Medical Literature Analysis and Retrievel System Online (MEDLINE) e Scientific Electronic Library Online (SciELO).
Num primeiro momento, a palavra-chave utilizada foi “epidemiologia” em combinação com os descritores “Treponema pallidum”, “infecções por Treponema” e “sífilis” (Descritores obtidos da classificação de Descritores em Ciências da Saúde – DeCS), porém uma vez realizado todo o processo de filtro, poucos artigos se mostraram relevantes. Foi reiniciada a busca utilizando a palavra-chave “incidência” em combinação com os mesmos descritores antes mencionados, com resultados mais favoráveis.
Uma vez obtidos os artigos no formato de arquivo RIS, estes foram processados e filtrados no software gerenciador de referências Zotero (https://www.zotero.org). Através deste programa foram removidas as duplicatas e filtrados os artigos, através de seu título, em sua relevância para responder à pergunta norteadora. Nesta etapa, todos os artigos que não continham dados epidemiológicos da sífilis no Rio de Janeiro foram excluídos, assim como todos os artigos em espanhol, preservando somente aqueles escritos em língua inglesa e portuguesa (tabela 1). A descrição dos tipos de estudos e resultados analisados na íntegra podem ser visualizados na tabela 2.
Tabela 1: Resultados das buscas nas bases de dados utilizando os descritores

RESULTADOS
O fluxo da busca e sua filtragem das bases de dados foram resumidos no fluxograma prisma adaptado (figura 3).
Figura 3: Fluxograma prisma Adaptado.

Tabela 2: Descrição dos resultados dos estudos analisados na íntegra. Elaborado pelos autores.
Artigos Selecionados para leitura e análise na Íntegra
Autor/Ano de Publicação | Objetivo | Desenho do Estudo | Resultados | Conclusões |
Morais et al., 2022 | Explorar a tendência da sífilis congênita no município de São Gonçalo no período de 2007 a 2018. | Estudo ecológico | A incidência de sífilis congênita aumentou significativamente de 2007 (6,3/1.000 nascidos vivos). a 2018 (41,6/1.000 nascidos vivos). Maiores taxas de incidência de sífilis congênita em 2018: ▪ Adolescentes (90,6/1.000 nascidos vivos) ▪ Baixa escolaridade (122,8/1.000 nascidos vivos) ▪ Sem pré-natal (677,4/1.000 nascidos vivos) | Alta incidência e tendência de aumento de casos de sífilis congênita no município de São Gonçalo, sobretudo nos grupos mais vulneráveis. |
Neto et al., 2020 | Analisar a prevalência e taxa de incidência de sífilis em gestantes no período de 2010 a 2018 no município de Macaé. | Estudo transversal | ▪ 38% dos casos de sífilis gestacional no recorte de tempo analisado afetaram as mães adolescentes. ▪ As taxas de sífilis adquirida, gestacional e congênita por mil nascidos vivos aumentou de 2010 (respectivamente: 0,48 / 1,94 / 1,38) a 2018 (respectivamente: 174,86 / 45,26 / 17,24). | Aumento da prevalência de sífilis no município de Macaé. |
Araújo et al., 2019 | Avaliar o impacto do desabastecimento da Penicilina Benzatina no aumento da incidência de sífilis congênita no município do Rio de Janeiro | Estudo ecológico | ▪ É uma preocupação global o aumento da incidência de sífilis congênita (SC) e a falta de penicilina benzatina (PB) no município do RJ no período de 2013 a 2018,que causou grande impacto negativo por falta de tratamento. ▪ Alta correlação entre ocorrência de sífilis congênita e o desabastecimento de penicilina benzatina nos bairros do município do RJ. em cada trimestre ▪ Incidência média de SC POR MIL nascidos vivos sem PB 23,39 | Evidenciou que o desabastecimento de PB causou impacto nos casos de SC no município do RJ na época em que as empresas farmacêuticas tiveram alteração de ordem regulatória sanitária impossibilitando a atividade da indústria no Brasil. |
Swayzea et al., 2020 | Erradicar sífilis na transmissao materna para bebê, visto que a sífilis materna aumentou cinco vezes no Brasil na última década. | Estudo seccional | ▪ De 2010 a 2018, no RJ houve intenso aumento de casos de gestantes com sífilis. Embora haja uma associação entre ausência de cuidados pré-natais e tratamento inadequado para sífilis, 83,2% das mulheres não receberam penicilina 27,2% menor de 20 anos com sífilis 30,6% tinham apenas o ensino fundamental 1 89% são urbanizados. | Embora a causa da epidemia de sífilis materna no Brasil seja multifatorial, determinada socialmente, é importante moldar iniciativas de saúde pública globalmente. |
Souza et al., 2018 | Detalhar o perfil clínico-epidemiológico dos indivíduos afetados pela sífilis e as repercussões quando relacionadas à transmissão vertical. | Estudo Caso Controle | A incidência de sífilis congênita aumentou consideravelmente de 4 casos (2013) para 35 casos (2016), totalizando 102 casos de sífilis congênita durante esse intervalo de tempo. ▪ Faixa etária materna de 15-19 anos foram 32/102, o que configura 31,37% dos casos de sífilis congênita no período analisado. ▪ Não foi evidenciado a porcentagem de mães entre 15-19 anos que fizeram acompanhamento de pré-natal em caso de sífilis congênita. ▪ Não foi evidenciado a porcentagem de tratamento considerado adequado em mães entre 15-19 anos em caso de sífilis congênita. | Uma tendência de aumento de casos de sífilis congênita no município de Macaé, sobretudo entre mães adolescentes na faixa etária entre 15 e19 anos. |
Cambou et al., 2021 | HIV materno e sífilis não são sindêmicos no Brasil: análise de pontos críticos das duas epidemias. | Estudo ecológico | ▪ As taxas de sífilis materna variaram de 12,0 a 41,4 por 1.000 nascidos vivos em 2018. ▪ Faixa etária materna <20 anos foram 61.082/225.451, o que configura 27,1% dos casos de sífilis congênita no período analisado. ▪ Enquanto a incidência de sífilis >30 por 1.000 nascidos vivos em 2018 em quatro estados, a exemplo do Rio de Janeiro sendo caracterizado como um ponto crítico significativo (90% de confiança, escore z 1,65–1,95, p <0,10) | ▪ Aumento da prevalência de sífilis materna. ▪ Faz-se necessário o incremento de políticas públicas de saúde com foco no cuidado pré-natal de mães <20 anos, objetivando o decréscimo de casos de sífilis congênita. |
Seabra et al., 2022 | Examinar o cenário epidemiológico da sífilis congênita no Brasil, entre 2007 e 2018, por meio de ferramentas de análise espacial. | Estudo ecológico | ▪ Na cidade do Rio de Janeiro, entre 2013 e 2017, a falta de penicilina levou a um aumento de 2,3% no risco para SC. ▪ No Rio de Janeiro, 43% das mulheres que receberam diagnóstico de sífilis gestacional evoluíram para SC. ▪ No Rio de Janeiro, 59% delas receberam tratamento inadequado para a sífilis. ▪ Não foi evidenciado o perfil etário das mulheres acometidas pela sífilis. | ▪Faz-se necessário o incremento na qualidade do serviço de pré- natal, com foco em mulheres grávidas acometidas pela sífilis, para diminuir os casos de sífilis congênita no Rio de Janeiro. |
DISCUSSÃO
A partir dos materiais analisados, faz-se necessário realçar as relações entre o assunto abordado no artigo com outros achados de pesquisas encontrados, visto a relevância epidemiológica da Sífilis na população infanto-juvenil e a urgência de equalização dessa epidemia, que cresce de maneira silenciosa.
A incidência de sífilis congênita aumentou significativamente de 2007 (6,3/1.000 nascidos vivos) a 2018 (41,6/1.000 nascidos vivos) na cidade de São Gonçalo (Morais et al., 2022). Ademais, as maiores taxas de incidência de sífilis congênita em 2018 se deram entre os adolescentes (90,6/1.000 nascidos vivos), indivíduos com baixo grau de escolaridade (122,8/1.000 nascidos vivos) e gestantes que não fizeram acompanhamento pré-natal (677,4/1.000 nascidos vivos). Assim, pode-se atestar uma alta incidência e potencial tendência de aumento de casos de sífilis congênita no município de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, sobretudo durante a fase da adolescência, principalmente, entre os grupos mais vulneráveis sócio-economicamente.
Acrescido a isso, o perfil clínico-epidemiológico da Sífilis congênita cresceu de forma considerável entre 2013 e 2016 no município de Macaé, região metropolitana do Rio de Janeiro (Souza et al., 2018), totalizando 35 casos da forma da sífilis congênita entre o total de 102 casos de sífilis. Além disso, a faixa etária materna de 15-19 anos foram 32/102, o que configura 31,37% dos casos de sífilis congênita no período analisado. O que evidência, além do aumento da gravidez na adolescência, a incidência de um perfil etário jovem nos últimos anos no que diz respeito à Sífilis.
Apesar disso, HIV materno e sífilis não são sindêmicos no Brasil, (Cambou et al., 2021) sendo que as taxas de sífilis materna progrediram de 12,0 para 41,4 por 1.000 nascidos vivos entre 2010 e 2018. Dentro dessa população analisada, a faixa etária materna <20 anos foram 61.082/225.451, o que configura 27,1% dos casos de sífilis congênita no período analisado. Novamente, observa-se o aumento significativo dos casos de sífilis congênita entre a juventude, o que reforça a importância da elucidação completa das causas que impeçam a redução desse porcentual.
Deste modo, a sífilis materna aumentou cinco vezes no Brasil na última década (Swayzea et al., 2020), por isso, é fundamental reduzir os números de gestantes acometidas por essa patologia infectocontagiosa. Entre 2010 e 2018, no município do Rio de Janeiro, dentre as mulheres infectadas, 27,2% tinham menos de 20 anos de idade, 30,6% tinham baixo grau de escolaridade – apenas o ensino fundamental I. Isso comprova o acréscimo de jovens gestantes, principalmente as que vivem em contextos sociais vulneráveis, com determinação social, apresentando grande expansão desta IST entre indivíduos mais jovens.
Percebe-se uma limitação no que diz respeito a dados estatísticos etários mais atualizados, em especial após a pandemia da COVID-19, haja vista que poucos estudos analisados evidenciaram de forma completa qual porcentagem da população total acometida pela sífilis possui entre 10 e 19 anos no município do Rio de Janeiro. Assim, observa-se uma lacuna sobre a real situação entre essa IST e a população mais jovem, o que dificulta a tomada de resoluções para mitigar a incidência e alertar toda a sociedade sobre a epidemia infectocontagiosa em curso.
Por fim, a complexidade em acompanhar numericamente o aumento da prevalência dessa doença infectocontagiosa entre a juventude, dificulta a definição de decisões que possam surtir efeito de curto à longo prazo, visto que o número de pesquisas que demonstram os números compatíveis a urgência desse tema é, muitas vezes, incipiente. Desse modo, urge a adoção de pesquisas que especifiquem os grupos etários acometidos pelo Treponema pallidum, o que facilitará a deliberação da solução do aumento da incidência da Sífilis congênita entre a população juvenil.
CONCLUSÃO:
Em virtude do que foi analisado nessa revisão, o cenário atual no município do Rio de Janeiro (RJ), para essa IST bacteriana, causada pelo Treponema pallidum, é bem alarmante, com intensa ocorrência, mesmo diante de uma doença com possível prevenção, com tratamento disponível gratuitamente, passível da obtenção da cura, na qual, como consequência, poderia encerrar o ciclo de nova infecção e reinfecção. Poucos estudos relatam casos diagnosticados dentro da população de adolescentes, contudo, os que relatam, mostram que há grande prevalência, e dessa maneira, de grande interesse para saúde pública, a fim de que se possa encontrar onde está ocorrendo a falha do sistema de saúde, permitindo a existências de lacunas que levam a incidência tão alta. Portanto, é de extrema importância a necessidade de novas pesquisas, com intuito de apresentar a realidade epidemiológica, conscientizar as esferas municipais, e até mesmo, estaduais e nacionais, visto que diversos estudos também relatam uma alta incidência em outros estados, para que medidas sejam tomadas, desde a conscientização através de estratégias de educação do momento de pré-exposição até mesmo ao tratamento dos positivos. Em suma, esta revisão reforça a necessidade de notificação dos casos positivos, visando chamar atenção da importância da promoção de ações que alcancem as populações, em especial na faixa etária entre 10-19 anos, sendo possível assim, tratar, obter a cura e não ser fonte de infecção para outros, encerrando assim, o ciclo.
Apesar de ser um tema que gera muitos debates no meio social, a abordagem da sexualidade no ambiente escolar é fundamental para reforçar a educação a respeito de IST’s entre jovens, frisando a elaboração de estratégias efetivas de promoção de saúde a esse público.
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¹Discente do Curso de Graduação em Medicina, Universidade Iguaçu (UNIG) – Nova Iguaçu, RJ;
²Docente do Curso de Graduação em Medicina, Universidade Iguaçu (UNIG) – Nova Iguaçu, RJ.