IMPACTO PSICOLÓGICO DA MASTECTOMIA COM RECONSTRUÇÃO: ENFRENTANDO O CÂNCER E A PERDA DA MAMA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202503210942


Fabiana Maria da Silva Rocha1 / João Vitor Scuira Portugal2 / Taciéli Gomes de Lacerda3 / Ayllane Chaves Lucena4 / Luana Ramos Vicente5 / Fernanda Rodrigues Lopes6 / Jeferson Severiano da Silva7 / Joyse Alcantara Lima8 / Maria Isamel Costa Gomes9 / Sarah Gabrielle Andrade Martins10 / Stephany Olinda Sander Magon Lopes Cançado11 / Vanessa Rodrigues de Souza12 / Wenna Dias da Luz13 / Glecia Andrea Silva Monteiro Ramos14 / Aline Moraes de Abreu15


Resumo: A mastectomia é uma cirurgia comum no tratamento do câncer de mama, realizada com o objetivo de remover o tumor ou, em casos de risco elevado, a mama saudável. Embora a cirurgia possa ser essencial para salvar vidas, a perda de uma mama pode gerar significativos impactos emocionais, sociais e psicológicos na vida de muitas mulheres. A reconstrução mamária, muitas vezes feita com próteses, surge como uma opção para restaurar a estética e, em muitos casos, o bem-estar psicológico da paciente. Contudo, a combinação desses procedimentos envolve muito mais do que aspectos físicos; trata-se também de lidar com a recuperação emocional de uma jornada de superação do câncer e a ressignificação da própria identidade feminina.

Introdução

A mastectomia, cirurgia amplamente utilizada no tratamento do câncer de mama, é uma experiência transformadora para as mulheres, tanto fisicamente quanto psicologicamente. Embora essa intervenção seja muitas vezes necessária para salvar vidas, a remoção de uma ou ambas as mamas pode gerar uma série de desafios emocionais e psicológicos, afetando diretamente a autoestima e a percepção corporal. A reconstrução mamária, especialmente por meio de próteses, surge como uma alternativa para restaurar não apenas a aparência física, mas também a confiança e a identidade feminina que podem ser impactadas pela perda da mama (Nissen, et al. 2023).

O objetivo deste artigo é explorar o impacto psicológico da mastectomia com reconstrução mamária, focando nos aspectos emocionais que acompanham essa decisão e como a reconstrução com prótese pode contribuir para a recuperação da autoestima e qualidade de vida das mulheres. Além disso, será discutido como esse processo de reconstrução pode ser visto não apenas como uma restauração estética, mas também como uma ferramenta importante no enfrentamento do câncer e na ressignificação da imagem corporal. O artigo busca, ainda, evidenciar a importância do acompanhamento psicológico durante esse processo e as decisões que envolvem tanto a escolha pela reconstrução quanto a adaptação à nova realidade corporal.

Metodologia

A metodologia adotada para este artigo foi a realização de uma revisão de literatura sobre o impacto psicológico da mastectomia com reconstrução mamária, com foco na utilização de próteses. A pesquisa foi conduzida com base em artigos acadêmicos, livros especializados, estudos clínicos e revisões sistemáticas publicados em periódicos médicos e psicológicos nas últimas duas décadas. A busca por essas fontes foi feita em bases de dados como PubMed, Scopus, Google Scholar e PsycINFO, utilizando palavras-chave como “mastectomia”, “reconstrução mamária”, “impacto psicológico”, “prótese mamária” e “autoestima”. A seleção dos materiais foi realizada com critérios de inclusão que priorizavam estudos revisados por pares, que discutem tanto os aspectos emocionais quanto os médicos da mastectomia e sua reconstrução, além de incluir pesquisas de diferentes contextos culturais e regionais.

Os estudos foram analisados de forma qualitativa, com foco na compreensão dos efeitos psicológicos do processo de reconstrução mamária, abordando temas como autoestima, identidade feminina, recuperação emocional pós-cirurgia e qualidade de vida das pacientes. Também foram incluídos artigos que discutem as diferentes opções de reconstrução mamária, incluindo o uso de próteses, e as implicações dessas escolhas para as mulheres, considerando os fatores psicossociais envolvidos.

Foi dada ênfase especial aos estudos que abordaram o acompanhamento psicológico durante o processo de reconstrução, pois essa área se mostrou relevante para a compreensão dos benefícios emocionais dessa intervenção cirúrgica. Além disso, foram incluídos artigos que discutem o impacto da reconstrução no relacionamento com o corpo e com os outros, bem como a reintegração social das mulheres após a cirurgia.

A análise dos dados coletados visou construir uma visão integrada sobre como a mastectomia com reconstrução mamária impacta a saúde mental das mulheres, destacando tanto os desafios quanto os benefícios dessa abordagem terapêutica. O objetivo foi oferecer uma compreensão abrangente dos aspectos psicológicos envolvidos na reconstrução mamária, com foco nas implicações emocionais da perda da mama e a importância de estratégias de suporte psicossocial durante e após o processo cirúrgico.

Resultados e discussão

O Impacto Psicológico da Mastectomia

A perda da mama, uma das características mais marcantes da identidade feminina, pode afetar profundamente a autoestima e a percepção corporal de muitas mulheres. A mastectomia, especialmente quando realizada em mulheres jovens ou com uma forte ligação à imagem de feminilidade, pode levar a sentimentos de incompletude e, em alguns casos, de despersonalização. A psicologia de quem passa por essa experiência envolve uma complexa interligação entre aceitação do corpo, medo de rejeição e o estigma associado à doença (Salgado, et al. 2021).

Estudos têm mostrado que, após a mastectomia, muitas mulheres enfrentam dificuldades emocionais, como ansiedade, depressão, e transtornos de estresse pós-traumático (TEPT). Esses sentimentos podem ser exacerbados pela ideia de que a doença alterou sua identidade, colocando-as em uma posição de vulnerabilidade tanto no plano físico quanto no psicológico (De Lemos Neto, et al. 2024).

É comum que, ao perderem uma mama, as mulheres passem a se questionar sobre sua sexualidade e feminilidade. A cirurgia pode ser vista como um ataque ao que é socialmente considerado “feminino”, o que pode afetar o relacionamento com o parceiro e até mesmo a disposição para estabelecer novas relações. A presença de cicatrizes visíveis ou a falta de uma mama pode gerar um distanciamento emocional e físico da própria mulher (Oliveira, et al. 2023).

Reconstrução Mamária com Próteses: Um Processo de Cura Psicológica

Neste contexto, a reconstrução mamária se torna mais do que uma simples restauração estética. Para muitas mulheres, a reconstrução com prótese é uma etapa essencial para o processo de cura emocional. Embora a cirurgia de reconstrução mamária não traga de volta a mama original, ela pode ajudar a restaurar o equilíbrio psicológico, resgatando parte da identidade feminina que foi sentida como perdida após a mastectomia (Quintanilha, et al. 2022).

A reconstrução pode proporcionar uma sensação de “voltar ao normal”, permitindo que a mulher se sinta mais confortável com sua aparência. Para muitas pacientes, a reconstrução com prótese oferece uma forma de recuperar a confiança no espelho, reintegrando sua imagem corporal com a feminilidade que acreditam ter sido afetada pela mastectomia. Além disso, a sensação de completar o processo de tratamento do câncer com uma reconstrução satisfatória pode melhorar a percepção de controle sobre o próprio corpo ( Barroso, et al. 2024).

É importante observar que, mesmo que a reconstrução mamária com prótese seja uma opção válida para muitas, nem todas as mulheres optam por ela. Algumas podem preferir viver sem reconstrução, ou optar por outros tipos de cirurgia, como a reconstrução com tecidos autólogos (retalhos). Isso depende muito do que a paciente considera ser a melhor escolha para o seu bem-estar físico e emocional, sendo fundamental que ela tenha um espaço para discutir suas preferências com sua equipe médica e psicológica  ( Barroso, et al. 2024).

Aspectos Psicossociais da Mastectomia com Reconstrução

Além do impacto pessoal, a mastectomia com reconstrução também pode afetar a forma como a mulher é percebida pela sociedade e, em particular, pela sua rede de apoio, que inclui amigos, familiares e parceiros. A reconstrução mamária pode ser vista como uma forma de reafirmar a identidade da mulher, e, para muitas, isso pode ajudar na reintegração social após a cirurgia. O desejo de parecer “normal” e de não ser vista como doente pode ser um motivador importante (Mazine, et al. 2022).

Entretanto, algumas mulheres enfrentam dificuldades em lidar com as expectativas externas sobre sua aparência pós-cirurgia. O olhar social sobre a reconstrução e a “perda” do corpo original pode gerar uma pressão adicional. Por isso, o acompanhamento psicológico durante todo o processo é fundamental, para que o paciente compreenda que a reconstrução, seja com prótese ou outro tipo de técnica, é uma escolha pessoal, e não uma imposição social (Souza, et al. 2024).

Considerações Finais

A mastectomia com reconstrução mamária é um caminho de cura não apenas físico, mas também psicológico. A cirurgia, ao devolver parte da feminilidade e da identidade corporal, tem o potencial de melhorar significativamente a autoestima e qualidade de vida das mulheres. No entanto, o processo não se limita ao aspecto físico; a reconstrução envolve um complexo conjunto de decisões emocionais e psicológicas que precisam ser bem conduzidas para que a mulher possa se sentir plenamente cuidada e respeitada.

É essencial que a paciente tenha acesso a um acompanhamento multidisciplinar, com psicólogos, cirurgiões e outros profissionais de saúde, para apoiar tanto a recuperação física quanto emocional. O processo de cura é único para cada mulher, e a reconstrução mamária com prótese pode ser uma ferramenta poderosa na jornada de superação do câncer, proporcionando uma nova oportunidade para redefinir sua identidade e recomeçar.

A reconstrução mamária não é apenas sobre estética, mas sobre se sentir inteira novamente, não apenas no corpo, mas também na alma.

Referências

BARROSO, Pedro Chabot et al. Reconstrução mamária pós-mastectomia: uma revisão comparativa entre retalhos autólogos e implantes mamários. Brazilian Journal of Health Review, v. 7, n. 10, p. e75576-e75576, 2024.

DE LEMOS NETO, Gilberto Hemeterio et al. A AUTOIMAGEM DE MULHERES SUBMETIDAS A MASTECTOMIA RADICAL: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 6, n. 9, p. 1249-1264, 2024.

QUINTANILHA, Bárbara Rodrigues Alves et al. Qualidade de vida de mulheres com reconstrução mamária após mastectomia: uma revisão integrativa. Research, Society and Development, v. 11, n. 14, p. e306111436303-e306111436303, 2022.

MAZINE, Kelly Cristine, et al.. AVALIAÇÃO DO IMPACTO DA MASTECTOMIA NA QUALIDADE DE VIDA DE MULHERES–REVISÃO DE LITERATURA. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, v. 8, n. 10, p. 722-733, 2022.

NISSEN, Leonardo et al. Segurança oncológica da mastectomia conservadora do mamilo após quimioterapia neoadjuvante: revisão sistemática. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, v. 50, p. e20233515, 2023.

PEREIRA, Antônio Pedro Valle Mejdalani et al. Mastectomia e mamoplastia na vida das mulheres com câncer de mama. Cadernos da Medicina-UNIFESO, v. 2, n. 1, 2019.

OLIVEIRA, Júlia Almeida Rosal et al.. Impacto da reconstrução mamária na autoestima de mulheres após mastectomia por câncer de mama. Research, Society and Development, v. 12, n. 10, p. e130121043744-e130121043744, 2023.

SALGADO, Nathalia Di Mase et al. Impactos psicológicos da mastectomia decorrente do câncer de mama na vida da mulher. Revista Eletrônica Acervo Científico, v. 31, p. e8386-e8386, 2021.

SOUZA, Alex Moreira et al. RECONSTRUÇÃO DE MAMA E A QUALIDADE DE VIDA EM MULHERES MASTECTOMIZADAS. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 6, n. 11, p. 3028-3036, 2024.


1Enfermeira pela UNIP, e-mail: fabirocha.31@hotmail.com
2Graduando em medicina pela Estácio e-mail: jportugall123@gmail.com
3Graduanda em enfermagem pela Universidade Federal de Pelotas, e-mail: taci.gomeslacerda@gmail.com
4Graduanda em enfermagem pela Faculdade Maurício de Nassau, e-mail: ayllanecl@gmail.com
5Enfermeira pela UNIP, e-mail: luhramos4002@gmail.com
6Graduanda em medicina pela Universidade de Rio Verde, e-mail: felopesr@icloud.com
7Enfermeiro pela UNIBRA, e-mail: jefersonseveriano6@gmail.com
8Farmacêutica pela UNIESAMAZ, e-mail: joyce.farma@icloud.com
9Enfermeira pela Faculdade Santo Agostinho, e-mail: isamelgomes@gmail.com
10Graduanda em enfermagem pela UFPE, e-mail: sarah.gabrielle@ufpe.br
11Graduanda em medicina pela FAMEU, e-mail: stephanyolinda@hotmail.com
12Enfermeira pelo Centro Universitário Celso Lisboa, e-mail: caixadanessa@gmail.com
13Psicóloga pela Universidade da Amazônia, e-mail: wennadiaspsi@gmail.com
14Enfermeira pelo Instituto Florence de Ensino Superior, e-mail: andreamonteiro50@gmail.com
15Mestre em enfermagem pela UFCSPA, e-mail: alineurug@yahoo.com.br