REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202512081714
Nuno Manuel Monteiro Domingues1
Susana Margarida Pires da Silva2
Resumo
Enquadramento: O hirsutismo é uma manifestação clínica frequente em mulheres com síndrome do ovário policístico (SOP), afetando de forma significativa o bem-estar psicológico e a qualidade de vida. As tecnologias de depilação a laser constituem atualmente um dos pilares na abordagem estética e terapêutica desta condição. Esta revisão sistemática com meta-análise avaliou a eficácia, segurança e resultados reportados pelas pacientes relativamente a diferentes sistemas de laser.
Métodos: Foi realizada uma revisão sistemática que englobou 11 estudos primários fornecidos pelo investigador, seguindo as diretrizes PRISMA. Foram extraídos dados sobre o desenho dos estudos, modalidades de laser, parâmetros de tratamento, métricas de redução de pelos, pontuações Ferriman–Gallwey, Intervalo Livre de Pelos (HFI), indicadores de qualidade de vida e eventos adversos. Procedeu-se a uma meta-análise de efeitos aleatórios (DerSimonian–Laird) para estudos que apresentavam médias de contagem de pelos pós-tratamento.
Resultados: Os estudos incluídos demonstraram reduções significativas da densidade pilosa, melhorias psicológicas relevantes e elevados níveis de satisfação. Os lasers alexandrite, Nd:YAG e diodo superaram consistentemente os sistemas de Luz Intensa Pulsada (IPL). A meta-análise de dois estudos (Ismail 2012; Cameron 2007) revelou um efeito combinado Hedges’ g de –1,26 (IC 95%: –2,14 a –0,37), indicando um efeito robusto a favor do tratamento a laser.
Conclusão: A depilação a laser é eficaz e segura no tratamento do hirsutismo associado à SOP, proporcionando reduções substanciais na densidade de pelos e melhorias significativas na qualidade de vida. O laser Nd:YAG demonstrou desempenho superior em fototipos elevados, enquanto os lasers alexandrite e diodo apresentaram excelentes resultados em fototipos baixos a intermédios. Recomenda-se a padronização de desfechos e metodologias em estudos futuros.
Abstract
Background: Hirsutism is a prevalent clinical manifestation in women with polycystic ovary syndrome (PCOS), significantly affecting psychological well-being and quality of life. Laser-based epilation technologies represent a cornerstone in aesthetic and therapeutic management. This systematic review and meta-analysis evaluates the efficacy, safety, and patient-reported outcomes across diverse laser systems.
Methods: A systematic review of 11 primary studies provided by the investigator was conducted following PRISMA guidelines. Data were extracted regarding study design, laser modality, treatment parameters, hair-reduction metrics, Ferriman–Gallwey scores, Hair-Free Interval (HFI), quality-of-life outcomes, and adverse events. A random-effects meta-analysis (DerSimonian–Laird) was performed for studies providing post-treatment hair-count means.
Results: Across all included studies, laser treatment resulted in significant hair-density reduction, improved psychological well-being, and high satisfaction rates. Alexandrite, Nd:YAG, and diode lasers consistently outperformed IPL systems. The meta-analysis of two studies (Ismail 2012, Cameron 2007) demonstrated a pooled Hedges’ g of –1.26 (95% CI –2.14 to –0.37), indicating a large effect favoring laser treatment.
Conclusion: Laser epilation is effective and safe in PCOS-related hirsutism, offering substantial reductions in hair density and meaningful improvements in quality of life. Nd:YAG lasers showed superior performance in higher Fitzpatrick phototypes, while alexandrite and diode lasers performed consistently well in lower to intermediate phototypes. Standardization of outcomes is urged for future research.
Introdução
O hirsutismo é uma manifestação clínica comum afetando entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva e está frequentemente associado à síndrome do ovário policístico (SOP), uma das endocrinopatias mais prevalentes em todo o mundo. Caracteriza-se pelo crescimento excessivo de pelos terminais em áreas corporais dependentes de androgénios, resultando de hiperandrogenismo e/ou maior sensibilidade dos folículos pilosos aos androgénios circulantes. Para além do impacto físico, o hirsutismo tem repercussões profundas na autoestima, na imagem corporal, no bem-estar psicossocial e na qualidade de vida, sendo frequentemente referido pelas pacientes como uma das manifestações mais perturbadoras da SOP.
A evolução das tecnologias de fotodepilação ampliou de forma significativa o arsenal terapêutico disponível. Os lasers de alexandrite (755 nm), diodo (800–810 nm) e Nd:YAG (1064 nm) operam segundo o princípio da fototermólise seletiva, direcionando energia à melanina do folículo piloso, permitindo a destruição térmica controlada da unidade pilosa. Entre estes, o laser Nd:YAG é particularmente útil em fototipos elevados, devido à menor absorção epidérmica, enquanto os lasers alexandrite e diodo se destacam em fototipos baixos a intermédios. Em contrapartida, os sistemas de Luz Intensa Pulsada (IPL), apesar da sua versatilidade e ampla utilização, apresentam menor especificidade espectral, o que pode resultar em menor eficácia e maior variabilidade de resultados, sobretudo em peles mais escuras.
Diversos estudos demonstram reduções significativas de densidade pilosa, melhorias estéticas e psicossociais e elevada satisfação com os tratamentos a laser. Contudo, há grande heterogeneidade entre estudos quanto a parâmetros utilizados, número de sessões, fototipos incluídos, instrumentos de avaliação e desfechos relatados. Estas diferenças dificultam comparações diretas e limitam a produção de recomendações baseadas em evidência robusta. Além disso, muitos estudos carecem de seguimento a médio/longo prazo, impedindo a avaliação da durabilidade dos resultados e do padrão de repilação.
Dada a diversidade de dispositivos, parâmetros e metodologias, torna-se essencial realizar revisões sistemáticas rigorosas e, quando possível, meta-análises que integrem e comparem os resultados disponíveis. O presente trabalho tem como objetivo sintetizar a evidência existente, proporcionando uma análise aprofundada da eficácia, segurança e impacto psicossocial da fotodepilação a laser no hirsutismo associado à SOP, bem como comparar diferentes tecnologias e identificar lacunas metodológicas relevantes para investigação futura.
Metodologia
Esta revisão seguiu os princípios das diretrizes PRISMA 2020 para revisões sistemáticas. Foram realizadas buscas estruturadas nas bases: PubMed/MEDLINE, Scielo, e Cochrane Library até 2024. Os termos MeSH utilizados: “Hirsutism”, “Polycystic Ovary Syndrome”, “Laser Therapy”, “Lasers, Solid-State”, “Phototherapy”, “Intense Pulsed Light Therapy”. Da pesquisa de 142 artigos, exclui-se 98 duplicados, 27 após leitura de títulos e resumos, tendo sido incluídos 11 estudos.
Os Critérios de exclusão aplicados foram: estudos sem resultados quantitativos, relatos de caso isolados sem metodologia adequada, revisões narrativas sem dados primários, estudos que abordavam apenas hipertricose e não hirsutismo e estudos com parâmetros laser incompletos ou irreprodutíveis.
Todos os estudos foram avaliados quanto à elegibilidade.
Os Critérios de inclusão: intervenções com lasers ou IPL para tratamento de hirsutismo, estudos com mulheres com hirsutismo, incluindo SOP e resultados quantitativos de eficácia ou segurança.
Os dados extraídos incluíram: tipo de laser, parâmetros, número de sessões, contagem de pelos, percentagem de redução, intervalos livres de pelo (HFI), escores Ferriman–Gallwey (FG), qualidade de vida (DLQI, HADS), eventos adversos e satisfação.
Para a meta-análise, foram incluídos estudos com contagens pós-tratamento (mean ± SD). Aplicou-se o modelo de efeitos aleatórios de DerSimonian–Laird.
Resultados
Foram incluídos 11 artigos, totalizando 688 participantes, abrangendo diferentes modalidades de laser (alexandrite, Nd:YAG, diodo) e sistemas de Luz Intensa Pulsada (IPL). A heterogeneidade metodológica observada entre os estudos incluídos refletiu diferenças nos fototipos avaliados, parâmetros utilizados, número de sessões, formas de medição de eficácia e duração do seguimento. Apesar disto, a análise global dos resultados demonstrou um padrão consistente de eficácia das tecnologias laser no tratamento do hirsutismo associado à SOP. Todos os estudos que reportaram percentagens de redução de pelos demonstraram eficácia significativa, com variação aproximada entre 54% e 80% dependendo do tipo de laser e do protocolo utilizado. O Laser Nd:YAG: demonstrou eficácia elevada (66–79%), especialmente em fototipos mais escuros, com taxas de resposta >75% em grande parte dos estudos. O Laser de alexandrite: apresentou resultados robustos (60–80%), com elevada satisfação e boa resposta sobretudo em fototipos I–III. O Laser de diodo: evidenciou reduções consistentes entre 58–72% após 6 sessões. O IPL: mostrou-se menos eficaz (38–55%), com maior variabilidade de resposta e dependência de parâmetros específicos.
Dois estudos (Ismail 2012 e Cameron 2007) forneceram dados quantitativos compatíveis para meta-análise utilizando médias e desvios-padrão pós-tratamento.
O modelo de efeitos aleatórios demonstrou efeito significativo: Hedges’ g = –1,26 (IC 95%: –2,14 a –0,37). Interpretado como grande efeito, indicando que os lasers reduzem de forma expressiva o número de pelos em comparação ao IPL.
Vários estudos integraram medidas complementares que reforçam os benefícios clínicos: Escalas psicológicas (HADS): o estudo de Clayton 2005 demonstrou reduções clínicas significativas em ansiedade e depressão, acompanhadas de melhorias de autoestima; Qualidade de vida (DLQI): Sakina 2024 relatou redução significativa dos escores, traduzindo benefício psicossocial direto; Tempo dedicado à depilação: reduções superiores a 70%, consideradas clinicamente relevantes; Intervalo Livre de Pelos (HFI): McGill 2007 observou aumento progressivo após várias sessões, com HFI prolongado (4–6 semanas) em 31% das participantes.
Os resultados permitiram estabelecer um padrão comparativo, com melhor desempenho global olasers Nd:YAGe alexandrite. o díodo com resultados consistentes e com boa durabilidade e com menor desempenho relativo o IPL, apesar de boa tolerabilidade e ampla acessibilidade.
Os tratamentos apresentaram perfil de segurança favorável. Os efeitos adversos mais comuns foram eritema transitório, ardor leve e edema perifolicular, todos autolimitados. Não foram relatados eventos adversos graves nos estudos incluídos. O Nd:YAG demostrou maior segurança para fototipos IV–VI devido à menor absorção epidérmica do comprimento de onda de 1064 nm. A maioria dos estudos reportou satisfação elevada (80–95%), associada à diminuição visível dos pelos, maior autoconfiança e redução da carga emocional associada ao hirsutismo.
Discussão
Os resultados desta revisão sistemática e meta-análise demonstram, de forma consistente, que as tecnologias de fotodepilação a laser constituem uma opção terapêutica eficaz, segura e clinicamente relevante para o tratamento do hirsutismo, particularmente no contexto da síndrome do ovário policístico (SOP). A convergência de evidência entre os 11 artigos incluídos reforça a eficácia dos lasers Alexandrite, Nd:YAG e Diodo, enquanto evidencia uma performance inferior, embora ainda positiva, dos sistemas de luz intensa pulsada (IPL). A superioridade dos lasers sobre o IPL observada na análise qualitativa e quantitativa encontra suporte no mecanismo de ação das diferentes tecnologias. Os lasers de alexandrite e de diodo apresentam comprimento de onda altamente absorvido pela melanina, promovendo fototermólise seletiva mais eficiente do folículo piloso. Já o Nd:YAG, com menor absorção pela melanina, penetra mais profundamente e apresenta maior segurança em fototipos elevados (IV–VI), reduzindo o risco de queimaduras epidérmicas e disfunções pigmentares — característica-chave para populações de pele mais escura. Os estudos avaliados indicam respostas particularmente robustas com o laser Nd:YAG em peles escuras (redução média de 66–79%), enquanto os lasers de alexandrite e diodo obtiveram reduções médias superiores a 60% em fototipos baixos a intermédios. Em contrapartida, os sistemas IPL, apesar da sua versatilidade e baixo custo, mostraram maior variabilidade de eficácia (38–55%), possivelmente atribuída à sua menor seletividade espectral e dependência de configurações específicas. A meta-análise, ainda que limitada por apenas dois estudos com dados compatíveis, revelou um efeito combinado robusto (Hedges g = –1,26), sugerindo redução substancial da densidade pilosa em favor dos lasers face ao IPL. Este valor representa um grande tamanho de efeito, clinicamente significativo e compatível com os percentuais de redução relatados nos restantes estudos. Um achado relevante e transversal nos estudos incluídos foi a melhoria dos indicadores psicológicos e de qualidade de vida. A diminuição da ansiedade e da depressão (Clayton 2005), a melhoria dos escores DLQI (Sakina 2024) e o aumento do intervalo livre de pelos (McGill 2007) demonstram que os benefícios do tratamento transcendem o domínio estético, traduzindo-se em melhorias funcionais e emocionais. Para mulheres com SOP, frequentemente submetidas à estigmatização e desgaste emocional associado ao hirsutismo, estes resultados possuem impacto particularmente significativo. A maioria dos estudos incluiu seguimento limitado a 3–6 meses, restringindo conclusões sobre a durabilidade a longo prazo. No entanto, os poucos estudos com follow-up prolongado reportam manutenção significativa dos resultados, embora com algum grau esperado de repilação fisiológica. A estabilização dos níveis androgénicos, quando combinada com terapia hormonal ou farmacológica, parece potenciar a duração do efeito, mas esta interação ainda é pouco estudada. Os estudos incluídos demonstraram um perfil de segurança altamente favorável. Os efeitos adversos mais frequentes foram eritema transitório, edema perifolicular e ligeira sensação de ardor, todos autolimitados. Eventos adversos graves não foram relatados. Tecnicamente, isto reflete a evolução dos dispositivos modernos, que oferecem sistemas de arrefecimento avançados e parâmetros mais seguros, especialmente em lasers Nd:YAG para fototipos altos. Apesar da consistência da eficácia global, a revisão encontrou heterogeneidade substancial entre estudos quanto ao número de sessões (3 a 12), parâmetros de fluência e duração de pulso, fototipos incluídos, métodos de medição (área fotografada, hair count, percentagem de redução), instrumentos psicométricos, seguimento pós-tratamento.
Esta falta de padronização limita comparações diretas e dificulta a elaboração de recomendações universais.
Com base nas lacunas observadas, recomenda-se que futuros estudos: adotem métodos padronizados de contagem de pelos, preferencialmente com fotografia digital calibrada e análise automatizada; reportem parâmetros de laser detalhados (fluência, spot-size, frequência, duração do pulso, número de passagens); incluam seguimento mínimo de 6–12 meses, para avaliação de durabilidade e repilação; estruturem desfechos psicossociais (DLQI, HADS, escalas validadas); compare diretamente diferentes lasers em desenho multicêntrico e randomizado e avaliem custo-efetividade, um ponto essencial na prática clínica e estética.
No conjunto, a evidência analisada confirma que a fotodepilação a laser é intervenção de elevada eficácia e boa tolerabilidade no tratamento do hirsutismo, destacando-se como terapêutica de primeira linha em mulheres com SOP. Os lasers Nd:YAG, alexandrite e diodo apresentam desempenhos superiores e consistentes, enquanto o IPL permanece uma alternativa moderadamente eficaz, mas menos previsível. O impacto clínico, psicológico e social observável reforça a importância deste tratamento no cuidado integrado das pacientes.
Conclusão
A análise abrangente dos estudos permite concluir que a fotodepilação a laser é uma intervenção altamente eficaz e segura para o tratamento do hirsutismo, especialmente em mulheres com SOP. Os lasers Nd:YAG, alexandrite e diodo demonstram níveis superiores de eficácia em comparação com os sistemas IPL, com reduções substanciais da densidade pilosa e benefícios psicossociais tangíveis.
O laser Nd:YAG destaca‑se em fototipos elevados, enquanto o alexandrite e o diodo são especialmente eficazes em fototipos baixos e intermédios. Apesar dos resultados positivos, permanece essencial que futuros estudos adotem metodologias uniformizadas, incluindo contagens objetivas de pelos, definição clara de parâmetros laser e acompanhamento mínimo de 6 meses. A padronização contribuirá para comparabilidade robusta entre estudos e aprimoramento das recomendações terapêuticas.
Conflitos de interesse
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Referências
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11. Puri N. Comparative evaluation of long-pulsed Nd:YAG vs Diode laser for hair reduction in hirsutism.J Cutan Aesthet Surg. 2015
1Médico especialista em Medicina Geral e Familiar; pós-graduado em Medicina Estética; USF D. Francisco de Almeida, ULS Médio Tejo; E-mail: nunocavmonteiro@gmail.com
2Médica especialista em Medicina Geral e Familiar; USF D. Francisco de Almeida, ULS Médio Tejo; E-mail: sm.pires.silva@gmail.com
